Postado em 29 de setembro de 2007, sábado

:: Tropa de elite e a incomodada moral vigente

Quando li a primeira notícia de que Tropa de Elite estava na Internet e nos camelôs, eu já havia garantido uma cópia. Deixei para assistir depois e acabei entrando em um período de imersão, durante algumas semanas, nos (des)prazeres e afazeres da vida cotidiana. Então fiquei de fora dos primeiros três milhões de espectadores que assistiram ao filme de José Padilha antes mesmo da estréia.

Esta semana, resolvi deixar de lado os sábios conselhos budistas e acrescentar um pouco de violência a minha pacata vida, depositando alguns gramas de influência negativa em qualquer recôndito de minha primitiva mente.

A motivação veio, sobretudo, de toda a discussão em torno do filme nos últimos dias. Um filme que nem estreou e já é o mais visto desde a retomada do cinema brasileiro na década passada mostrando-se como preferido do público para ser indicado a representar o Brasil no Oscar. A mais que óbvia não-indicação. O Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar – BOPE tentando convidar-se, por força da Justiça, para a pré-estréia. A consagração popular e a desconstrução da obra pelos donos da moral. Opa! É esse o ponto que quero abordar.

Tropa de Elite é violento. Nele, você vai assistir muita brutalidade, torturas, mortes... do jeitinho que a vida é. Não a minha, que é vivida em casa, lendo e escrevendo. Não a sua, que está aí sentado na frente de um computador, navegando pela Internet, enquanto pensa se vai almoçar no shopping ou aproveitar a hora do almoço para levar seu carro ao mecânico. Mostra a vida que nos cerca e fingimos não ver. Mostra a guerra na qual vivemos e insistimos em ignorar. Mostra o que está acontecendo no quintal de nossa casa. A casa que tem na sua frente uma placa dizendo ao mundo inteiro que aqui mora um povo pacífico e hospitaleiro.

Tropa de Elite não é mais violento que qualquer filme americano de pancadaria. E por que incomoda tanto? Porque fala de nossa realidade. Ninguém está nem aí e até se diverte em falar que a filha do vizinho é uma puta ou que o filho é um viciado. Mas quando você é o pai (ou a mãe) da puta ou do viciado, a história é diferente. Você finge que não percebe, você não quer que ninguém saiba disso, você tenta trancá-lo dentro de casa. Tropa de Elite faz o contrário: escancara o podre que tentamos e nos acostumamos a esconder.

E começam os discursos para desmoralizar o filme: banaliza e glamouriza a tortura, é um filme desumano e autoritário, atiram primeiro, perguntam depois. E dá-lhe lição de moral para preservar nossos valores.

Pergunto: Quais valores? Qual moral?

O que o filme faz, todo o tempo, é inverter os valores tradicionais e os hábitos atualmente apreciados. A não ser os mais ingênuos, que nunca tenham se deparado com atos violentos, ou os mais burros, que não querem acreditar que isto acontece o tempo todo ao nosso redor, conseguem se chocar. O restante começa a desconfiar da moral vigente. Começa a sentir um desejo de defender as piores coisas. Começa a concordar que bandido bom é bandido morto e que se os caras não pensam duas vezes em sair por aí tirando vidas por que deveríamos dar um tratamento diferente a eles? Se ele vai continuar matando, por que não oferecemos logo aquela que parece a única solução para interromper sua carreira? E se existe um grupo que faz isso – que faz o que a gente gostaria de fazer mas tem vergonha e pudores de explicitar –, que nome se dá a esse grupo?

Heróis com perfeição moral é coisa de ficção. Como todos sabem (e o filme lembra), policial também tem família e tem medo de morrer. Vai dar mole para malandro? Vai aliviar? Policial não tem superpoderes. Não vai colocar as mãos na cintura e estufar o peito para as balas ricochetearem. Ou mata ou morre. No lugar deles, o que você iria preferir?

Inventamos princípios morais, queremos ilusão, vivemos disso. Até o dia em que alguém aponta uma arma para sua cabeça ou invade sua casa, estupra, violenta, mata seus familiares. Então aparece um grupo imoral, amoral, acima do bem e do mal e acaba com os vagabundos. Você pode até ir a público e fazer um discurso de que violência gera violência, que não deveria ser assim, que acharia melhor se eles tivessem sido presos e ficassem na cadeia para sempre, etc. Mas no seu íntimo, você vai agradecer a quem fez isso.

É vital tornar-se senhor de suas próprias virtudes. Tornar-se escravos delas é o problema. É preciso dominar sua própria moral, o que houver de bom e de ruim nela, aprender a mostrar isso e também guardar à medida que se necessita dela e de acordo com seus fins. Isso é ser humano. No BOPE, só existem seres humanos. E eles adaptam-se às condições pra sobreviver e para garantir que outros sobrevivam.

Então você está defendendo que a polícia mate os bandidos? Antes eles do que eu! Se alguém tiver que morrer, que sejam eles. E se alguém puder fazer o favor de matá-los, muito obrigado!

Isso é o ideal? Não. Eu gosto do mundo assim? Não. Eu preferiria que todos vivessem como monges, falassem baixo, não discutissem por nada, não importunassem ninguém. Mas a imagem que fazemos do mundo ideal é completamente diferente do mundo real. E é neste último que nós vivemos. A moral não toca a essência do mundo como ele é.

Para mim, o que legitima a moralidade de um ato é a confirmação de seu êxito. Imoral é deixar vagabundo por aí tirando a vida de quem quer viver em paz. Se há quem os mate, não vejo nisso nada além de legítima defesa, de autopreservação.

A besta que existe em nós quer ser enganada; a moral é mentira necessária para não sermos por ela dilacerados, já dizia o velho Nietzsche. E mais: (...) quando alguém prefere a vingança à justiça, ele é moral segundo a medida de uma cultura passada, imoral segundo a atual. Imoral’ designa, portanto, que um indivíduo ainda não sente, ou não sente ainda com força bastante, os motivos mais elevados, mais espirituais trazidos pela nova cultura.

Se há bestas soltas, tirando vidas inocentes, como devemos tratá-las? Com rosas? Com orações? Talvez uma parte de nós deva fazer isso. Mas outra parte precisa ser ativa e tomar uma atitude para que o mal cesse logo. Se um leão rondar sua casa, o que você vai fazer: colocar um prato de leite na porta ou dar um tiro nele?

Há uma diferença enorme entre moral pessoal e moral coletiva. A minha diz que eu devo ser gentil, não aceitar provocações, não entrar em qualquer tipo de discussão, que devo amar a todos. Belo e ingênuo até o ponto em que alguém tentar ferir a mim ou aos que eu amo. E se amo a todos, se pretendo que não só minha casa, mas também minha rua, meu bairro, minha cidade, meu estado, meu país, o mundo todo viva em paz, não posso acreditar que meu ideal romântico seja capaz de estabelecer o equilíbrio e a paz que almejo. Nietzsche de novo:Talvez uma futura visão geral das necessidades da humanidade mostre que não é absolutamente desejável que todos os homens ajam do mesmo modo, mas sim que, no interesse de objetivos ecumênicos, deveriam ser propostas, para segmentos inteiros da humanidade, tarefas especiais e talvez más, ocasionalmente. É o que se propôs ao criar o BOPE. Isso não é legal, mas alguém tem que fazer. Façam!

E se essas ações violentas acontecessem sem que jamais soubéssemos? O resultado seria o mesmo e tão (ou mais!) eficaz e agradável quanto. E nossos valores morais – e as mentiras nas quais nos obrigamos a acreditar – estariam preservados. Nossos preconceitos morais estariam resguardados, protegidos.

Tropa de Elite, o filme, põe nossos ideais à prova. Traz para dentro de casa (literalmente, em cópias piratas... piratas? Você assistiu? Que moral você tem para falar sobre respeitar direitos?) um pequeno pedaço da realidade que pode nos causar nojo por sermos ainda tão brutos, mas talvez o que mais incomode é o sentimento que escondemos de que os ideais do BOPE não se estendam a todo o restante da tropa.

 
Postado em 26 de setembro de 2007, quarta

:: Come ti amo, maledetta vita moderna!

Há alguns dias, revi, depois de anos, o filme Dio, come ti amo, estrelado por Gigliola Cinquetti. Na mesma semana, vazavam na Internet as fotos de Vanessa Anne Hudgens, a atual queridinha dos aborrecentes americanos e seus colonizados.

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Pra começar, vamos às semelhanças entre as meninas em questão. Em 1964, aos 16 anos, Gigliola Cinquetti ganha o Festival de Sanremo com a música Non ho l’età (Não tenho a idade). Em 1966, ganha de novo com Dio, come ti amo. No mesmo ano, para aproveitar o sucesso das duas músicas e impulsionar a carreira de Gigliola, é feito o filme homônimo que rendeu grandes filas nos cinemas brasileiros.

É bom explicar que o Festival de Sanremo – ou Festival da Canção Italiana –, que existe até hoje, era, nos anos 50 e 60, algo como o Grammy ou o Oscar é hoje. Quem ganhava, ficava conhecido no mundo inteiro e tinha trabalho garantido por algum tempo. Quando Domenico Modugno, autor de Dio, come ti amo e co-autor daquela que provavelmente é a mais famosa canção italiana, Nel blu dipinto di blu, ganhou San Remo em 1958, nem a televisão conseguia mostrar isso ao mundo. E mesmo assim, até hoje, pense em Itália e o que vem a sua cabeça? Volaaaaaaaaare, ôôôôô... É a força de Sanremo.

Corte para 2006. Aos 17 anos, Vanessa Hudgens invade o mundo (para usar uma expressão idiota do jornalismo de fofoca) como a protagonista de High School Musical.

Duas jovens cantoras usando a força do cinema para fazer fama internacional.

No filme italiano, Gigliola é uma tímida garota que descobre amar o noivo de uma amiga. Depois de idas e vindas entre Espanha e Itália, poucos instantes antes de terminar a história, a personagem dá um rápido e singelo beijo no amado. Digo a personagem porque até hoje duvido que tenha sido realmente Gigiola a dar o beijo que aparece em super close up e mostra quase que somente as bocas. Ela não tinha idade para amar, para sair sozinha com o namorado, para protagonizar um beijo no cinema. Era italiana, de família e era 1966!

No filme americano de 2006, o recato quase se repete. Se existe um povo que merece o prêmio máximo de falso moralismo, esse povo é o americano. Uma personagem pode se vestir e agir com uma puta, mas se a história diz que ela é uma virgem imaculada sem pecados, então todos têm que acreditar que é isso. Mas não é. Por isso mesmo, Vanessa pegou uma câmera digital, tirou umas fotos nuas com as amigas e mostrou (sem querer) para o planeta inteiro que, pelo menos no mundo real, sexualidade, desejo e uma pitada de sacanagem são coisas bem naturais. Até mesmo para a queridinha da hora.

Bonitinha, como toda jovem mediana de 18 anos, mas certamente já não inspira tanto desejo como quando estava com roupa. E agora que todo mundo já viu, nem deverá rolar uma Playboy, daqui a algum tempo, para mostrar que a menina virou mulher.

O romantismo se foi, o sonho acabou. A cuecada teen agradece o vacilo de Vanessa e os sessentões lembram como era doce sonhar com os dentinhos separados e os joelhos (sempre juntinhos) de Gigliola.

 
Postado em 16 de setembro de 2007, domingo

:: Carlos Estevão - O mais brasileiro dos desenhistas

Único, sem influências estrangeiras. É assim que muita gente se refere ao traço de Carlos Estevão.

Debochado, escrachado, politicamente incorreto (em um tempo que este termo castrador nem era usado), Carlos Estevão nunca fez o tipo intelectual posudo, moralista – falso ou não – que quisesse dar aulas ou fazer crítica de costumes com seus desenhos. Era machista, mulherengo, beberrão, de maus modos, mas também capaz de demonstrar, como poucos, amor e carinho aos filhos e amigos. O que ia para o papel, longe de ser crítica, quase sempre era o registro da própria realidade – ou fantasia – que vivia.

O casamento antes e depois, Ser mulher, Perguntas inocentes, As aparências enganam, As duas faces do homem, Acredite querendo e Palavras que consolam eram algumas das séries nas quais destilava sua descrença para com o ser humano. Se havia um tema preferencial e no qual se tornava ainda mais ferino, certamente era a vaidade. Principalmente a feminina. Os tipos grotescos, homens presunçosos sempre cheios de histórias mirabolantes para contar, mulheres horrorosas que se achavam lindas e ouviam as maiores grosserias dos homens. Esse era o mundo de Carlos Estevão.

Tipo inesquecível criado por ele foi o Dr. Macarra, que chegou a ter revista própria (nove edições) em 1962. As aventuras do personagem eram contadas a uma ouvinte, em um quadro, numa versão soberba e orgulhosa para ser mostrada, no quadro seguinte, da forma que realmente havia acontecido. Na história em que conta sua passagem por Cuba, sua interlocutora pergunta a Macarra se apreciaram devidamente sua cultura. Ele responde: Professores de renome ficaram abismados com minha cultura. No quadro seguinte, um cientista diz a outro: A cultura de micróbios que consegui do organismo desse miserável é assombrosa!.

Seu humor era o mais popular e mais ácido dentre os desenhistas que fizeram fama nas páginas de O Cruzeiro. Com a morte do também pernambucano Péricles Maranhão, na virada de 1961 para 1962, Estevão recebeu um convite-imposição da revista e acabou herdando o Amigo da Onça, que desenhou até sua morte em 1972.

Uma merecida e justa biografia de Carlos Estevão não pode fazer dele um Dr. Macarra. Deve desnudá-lo de qualquer mitificação e mostrar sua história de forma realista, desde os primeiros traços em Recife aos últimos em Belo Horizonte, onde morreu vitimado por seus excessos. Devem ser mostrados defeitos, virtudes, erros, contradições e demais qualidades, boas ou más, que fizeram dele um dos nossos mais populares e queridos desenhistas.

Carlos Estevão não merece o endeusamento muitas vezes criado em torno de seu nome. Não que lhe faltasse talento. Muito pelo contrário. Não merece tal endeusamento por respeito a ele mesmo. Não só foi – e continua sendo – o mais brasileiro dos desenhistas, mas também o mais humano deles.

No dia de hoje, ele completaria 86 anos. Para marcar a data, Memória Viva lança um site em sua homenagem. Clique aqui e divirta-se com o aniversariante.

(O blog também está aniversariando. São dois anos de Sempre algo a Dizer e
três desde o lançamento de seu antecessor, o Leseira Geral)
 
Postado em 8 de setembro de 2007, sábado

:: A cura das platéias

Permitam-me avalizar minha antiguidade... Sou de um tempo em que as pessoas enchiam uma sala de cinema com 300 ou 500 lugares e vibravam com o filme. Riam juntas, choravam juntas, aplaudiam ao final. Era uma época em que eu freqüentava o Art Méier, o Paratodos e o Imperator. Em que assisti filmes como Fúria de Titãs, Num lago dourado (com Henry Fonda e Katherine Hepburn) e E.T. – O Extraterrestre, este talvez o último dos filmes com uma platéia decente.

Os cinemões foram fechando, virando cinemas pornôs, igrejas neo-evangélicas ou alguma outra sacanagem. As crianças não brincavam mais nas ruas e as pessoas passaram a morar em casas cheias de grades. O shopping era a nova onda. Bob’s, Mc Donald’s, Salas Multiplex... Os ianques nos colonizavam apressadamente. A pipoca e as balinhas foram substituídas por caixas monstruosas com hambúrgueres, batatas fritas, milk shakes, refrigerantes e toda a má educação que acompanha o comer desses lixos: boca aberta, barulho de mastigação, arrotos, sujeira espalhada por toda parte.

Até aí ainda estava bom.

Triste foi testemunhar o acelerado processo de imbecilização da platéia. A destituição dos valores, a falta de qualquer maturidade emocional e base cultural para entender o que se passa na tela.

A primeira vez em que percebi isso foi em um cinema no bairro de Boa Viagem, em Recife, em 1991. Como fazia costumeiramente naqueles idos, eu havia saído de Natal e ido à capital pernambucana para dois ou três dias dentro dos cinemas. A grande estréia daquele final de semana era Exterminador do Futuro 2 e seus esperados efeitos especiais. Última sessão de sexta, cinema lotado. Nas cenas de morte, tiros e destruição, a turba gritava e aplaudia. Nas demonstrações dos poderes dos andróides, risadas e gritos de que mentira!. Valores trocados, má educação, incapacidade de imaginar. Já não distinguiam entre fantasia e mentira.

Pior estava por vir. Naquele tempo ainda não havia os malditos celulares.

Vieram os DVDs, as telas planas e cada vez maiores. O cinema foi para dentro de casa e ninguém precisa mais aturar esses selvagens.

E o teatro? Ainda não dá para levar para fazer o mesmo com ele. Na maioria das vezes, mesmo em uma produção pequena, com um ou dois atores, é difícil levar uma peça a outras cidades. Vai ser ótimo quando pudermos alugar a peça e levá-la para casa. Os atores representando em nossa sala. Sem imbecis rindo fora de hora, sem celulares tocando, sem descerebrados conversando durante a apresentação.

A atual massa idiotizada que constitui parte majoritária e esmagadora das platéias é filha da tevê, não uma fábrica de fazer loucos, como dizia Stanislaw Ponte Preta, mas de criar e multiplicar gente estúpida com mais velocidade e eficácia que uma comunidade de coelhos alimentada com viagra consegue se reproduzir.

De idas relativamente recentes ao teatro, cito dois tristes exemplos desse tipo de trupe beócia. O primeiro na apresentação de Quando Nietzsche chorou (Teatro Imprensa, São Paulo, com Cássio Scapin e Nelson Baskerville, 2006). Os risos histéricos fora de hora, do tipo ei, você aí no palco, eu tô achando graça, faria algum desavisado acreditar que havia errado de endereço e, sem querer, acabado em algum show de piadas. Nas poucas vezes em que se apresenta, o humor grave, sarcástico, niilista, desacreditado do ser humano de Nietzsche não é para gargalhadas. É para risos de canto de boca, de cumplicidade íntima, de inteligência e entendimento raros. O tolo ri do que não entende. A hiena gargalha sem saber porquê o faz.

Outro exemplo, mais recente, foi com Pobres de Marré (Casa da Ribeira, Natal, com Titina Medeiros e Quitéria Kelly, 2007). As atrizes vivem duas moradoras de rua. Só quem nunca andou nas ruas, seja de onde for, não reconhece Maria e Dasdô, as personagens. Aquelas criaturas que vivem como vermes – sempre na sujeira, alimentando-se de sobras –, expondo toda decadência e crueldade da sociedade em que vivemos, mostrando os estados psicóticos que alguém pode chegar vivendo em tais condições, buscando algum resquício de humanidade, que dificilmente será encontrada em uma platéia que ri da desgraça mostrada. Um quadro gravíssimo – com interpretações maravilhosas (de Titina sou suspeito para falar, mas rasgos todas as sedas para Quitéria, irrepreensível em interpretação digna de todos os prêmios) – tratado como comédia. Só posso crer que o ar condicionado e os vidros escuros nas janelas dos carros impedem sobremaneira o contato com o mundo real. Aquilo não é para rir. É para chorar o tempo todo.

Sendo assim, acredito que uma solução para a idiotização das platéias seja algo como aquela imaginada por Anthony Burgess – e muito bem mostrada por Stanley Kubrick – para o personagem Alex em Laranja Mecânica. Ainda assim, sou pouco otimista quanto à eficácia do resultado. As câmaras de gás talvez fossem mais apropriadas.

 
Postado em 3 de setembro de 2007, segunda

:: Cópias e segredos

Há poucos dias, passando rapidamente os canais da TV, peguei um pequeno trecho de uma entrevista com um diretor mexicano (do qual me foge o nome no momento) em que ele respondia a pergunta (idiota, por sinal) sobre o que havia acontecido com o cinema no México. De forma óbvia e brilhante, ele disse que foi o mesmo que aconteceu com o cinema de todos os países: Hollywood fez uma guerra e venceu.

Quem me conhece, sabe o que penso sobre esse espírito belicista e exterminador dos americanos, principalmente no aspecto cultural. E também sabe o que penso do cinema americano. O óbvio: é uma indústria de entretenimento. O filme é um produto, não uma manifestação artística. A indústria cinematográfica americana está para a história do cinema como a Nestlé para a dos chocolates, que faz vários que o mundo inteiro come, mas não faz um que lembre o mais miserável dos chocolates feitos na Suíça.

Assim como me empanturro e gosto de chocolates da Nestlé, também vejo muitos filmes americanos. Eles trabalham com efeitos especiais como ninguém e são únicos em um gênero que me agrada particularmente: o das versões para personagens de quadrinhos (algo totalmente relacionado à cultura deles). Saindo disso, admito, tenho visto filmes bem interessantes nos últimos anos. Brilho eterno de uma mente sem lembranças, A dama na água, Pequena Miss Sunshine e Os Infiltrados (se bem que esse é Scorsese... não vale!) são alguns deles.

Mas se há um gênero em que eles conseguem exibir, ao mesmo tempo, sua capacidade em fazer bons filmes e sua impressionante ignorância sobre qualquer outra cultura é o de filmes biográficos (chamemos assim para facilitar, ainda que a expressão não seja precisa). Mais ainda quando se trata da vida de um compositor de música erudita. Eles reinventam tudo e são totalmente incapazes de tratar com esse tema com a devida delicadeza.

Há de se desconfiar de um povo que chama Giuseppe Verdi de Joe Green.

Neste fim de semana, finalmente resolvi assistir a O segredo de Beethoven. Antes de malhar, irei aos prós. É um filme dirigido por uma mulher nascida na Polônia, o que pode sugerir leveza, sensibilidade e até uma proximidade genética com a música erudita. O papel principal é vivido por Ed Harris, que gosta de fazer o público acreditar que aquele que está aparecendo na tela é mesmo o tal que viveu (vide Pollock). E temos ainda a bela Diane Kruger (a apagada Helena do péssimo Tróia) no papel de Anna Holtz. E aí começam os problemas. Quem diabos é Anna Holtz? Trata-se de uma personagem inventada, inserida como alguém importante na vida de Beethoven em seus últimos anos, diga-se, dos quais pouco ou quase nada se sabe.

A seqüência inicial, que mostra Anna sentindo/vivendo/experimentando a música, ouvindo-a sem que ela esteja sendo executada, é a melhor de todas e dá a falsa impressão de que o filme será tão bom ou superior a sua introdução. A seqüência da dupla regência também é aproveitável. Não fosse o fato de que sendo cinema o mais importante é a imagem e, naquele momento, o que há de melhor é a música. Feche os olhos, perca a cena. Depois volte a ela. Aposto que, de olhos fechados, terá visto uma cena bem melhor.

A diretora tenta recriar as diferenças entre os momentos suaves e os arroubos de uma sinfonia de Beethoven com movimentos de câmera que, às vezes, chegam a incomodar ou até fazem parecer que se pulou, sem aviso, de um filme romântico para um comercial de aparelho de som no qual a imagem procura demonstrar a potência do produto. Existe tentativa semelhante em relação ao roteiro do filme, que pretende não ter início ou fim, não seguir convenções de narrativa. Aí entra o elemento Hommer dos filmes americanos. Um personagem, no caso o próprio Beethoven, explica o que deveria ser captado e não ensinado ou racionalizado: tem de parar de pensar em termos de início e fim (...) você é obcecada pela forma, pela estrutura e descamba para a filosofia barata ao dizer que você tem que escutar a voz que fala dentro de você.

A própria Anna Holtz e sua função na trama trazem todas as características da vulgarização e da imbecilização de uma história que deve ser entendida por um espectador que não pensa: a paixão de um velho genioso por uma jovem delicada e que o admira; o querer impossível; a diferença entre os amores; a vitalidade e a energia que ela representa e ele já não possui... todos os elementos comuns e bem mastigados de uma novela para um público que não se deu conta da serventia do cérebro.

Além de tudo isso, ainda temos uma cópia mal feita de Amadeus (um filme infinitamente superior mas que também cria ou reforça situações que não passam de hipóteses) quando o mestre, na cama, morrendo, dita trechos de uma sinfonia a seu seguidor.

Na próxima vez em que você resolver fazer uma maratona de filmes em casa, esqueça as seqüências e veja O segredo de Beethoven, Amadeus e Ensaio de orquestra. Este último, de Fellini.

Assim como nas grandes religiões existe um único Deus e várias divindades menores, no cinema existe Fellini e os outros. Se você não entende italiano, ótimo! Veja Ensaio de orquestra sem legendas. Para essa maratona comparativa, em um primeiro momento, não interessa o que os personagens estão falando. Ouça apenas a música das palavras. Não procure entendê-las, decodificá-las. Sinta a sonoridade. Deixe-a juntar-se à sonoridade dos instrumentos. Perceba a sinfonia criada por Fellini, o casamento perfeito entre imagem e som. Não é um clip. É cinema. É arte. Não foi feito para distraí-lo por uma hora e meia. Foi feito para fascinar. Não é um hambúrguer que vai encher seu estômago por um tempo. É alimento para a alma. Sem procurar pensar e somar seus conhecimentos para fazer a leitura do filme, você irá entendê-lo. Arte é assim: sem barreiras, sem linguagem, sem tentativas frustradas. Ela simplesmente existe e irá tocá-lo de alguma forma.

Anna Holtz não conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Beethoven. Agnieszka Holland não conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Milos Forman. E ninguém conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Fellini. Così è la vita!

 
 
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