| Postado
em 29 de setembro de 2007, sábado |
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Tropa de elite e a incomodada moral vigente

Quando
li a primeira notícia de que Tropa
de Elite estava na Internet
e nos camelôs, eu já havia “garantido
uma cópia”.
Deixei para assistir depois e acabei entrando
em um período de imersão, durante
algumas semanas, nos (des)prazeres e afazeres
da vida cotidiana. Então fiquei de
fora dos primeiros três milhões
de espectadores que assistiram ao
filme de José Padilha
antes mesmo da estréia.
Esta
semana, resolvi deixar de lado os sábios
conselhos budistas e acrescentar um pouco
de violência a minha pacata vida, depositando
alguns gramas de influência negativa
em qualquer recôndito de minha primitiva
mente.
A
motivação veio, sobretudo, de
toda a discussão em torno do filme
nos últimos dias. Um filme que nem
estreou e já é o mais visto
desde a retomada do cinema brasileiro na década
passada mostrando-se como preferido do público
para ser indicado a representar o Brasil no
Oscar. A mais que óbvia não-indicação.
O Batalhão de Operações
Especiais da Polícia Militar –
BOPE tentando convidar-se, “por
força da Justiça”,
para a pré-estréia. A consagração
popular e a desconstrução da
obra pelos donos da moral. Opa! É esse
o ponto que quero abordar.
Tropa
de Elite é violento.
Nele, você vai assistir muita brutalidade,
torturas, mortes... do jeitinho que
a vida é. Não a minha,
que é vivida em casa, lendo e escrevendo.
Não a sua, que está aí
sentado na frente de um computador, navegando
pela Internet, enquanto pensa se vai almoçar
no shopping ou aproveitar a hora do almoço
para levar seu carro ao mecânico. Mostra
a vida que nos cerca e fingimos não
ver. Mostra a guerra na qual vivemos
e insistimos em ignorar. Mostra o que está
acontecendo no quintal de nossa casa. A casa
que tem na sua frente uma placa dizendo ao
mundo inteiro que aqui mora um povo pacífico
e hospitaleiro.
Tropa
de Elite não é mais violento
que qualquer filme americano de pancadaria.
E por que incomoda tanto? Porque fala de nossa
realidade. Ninguém está nem
aí e até se diverte em falar
que a filha do vizinho é uma puta ou
que o filho é um viciado. Mas quando
você é o pai (ou a mãe)
da puta ou do viciado, a história é
diferente. Você finge que não
percebe, você não quer que ninguém
saiba disso, você tenta trancá-lo
dentro de casa. Tropa de Elite faz
o contrário: escancara o podre que
tentamos e nos acostumamos a esconder.
E
começam os discursos para desmoralizar
o filme: “banaliza
e glamouriza a tortura”,
“é
um filme desumano e autoritário”,
“atiram
primeiro, perguntam depois”.
E dá-lhe lição
de moral para preservar nossos valores.
Pergunto:
Quais valores? Qual moral?
O
que o filme faz, todo o tempo, é inverter
os valores tradicionais e os hábitos
atualmente apreciados. A não ser os
mais ingênuos, que nunca tenham
se deparado com atos violentos, ou os
mais burros, que não querem
acreditar que isto acontece o tempo todo ao
nosso redor, conseguem se chocar. O
restante começa a desconfiar
da moral vigente. Começa a sentir um
desejo de defender as piores coisas. Começa
a concordar que bandido bom é bandido
morto e que se os caras não pensam
duas vezes em sair por aí tirando vidas
por que deveríamos dar um tratamento
diferente a eles? Se ele vai continuar matando,
por que não oferecemos logo aquela
que parece a única solução
para interromper sua carreira? E se existe
um grupo que faz isso – que faz o que
a gente gostaria de fazer mas tem vergonha
e pudores de explicitar –, que nome
se dá a esse grupo?
Heróis
com perfeição moral é
coisa de ficção. Como
todos sabem (e o filme lembra), policial também
tem família e tem medo de morrer. Vai
dar mole para malandro? Vai aliviar? Policial
não tem superpoderes. Não vai
colocar as mãos na cintura e estufar
o peito para as balas ricochetearem. Ou mata
ou morre. No lugar deles, o que você
iria preferir?
Inventamos
princípios morais, queremos
ilusão, vivemos disso. Até
o dia em que alguém aponta uma arma
para sua cabeça ou invade sua casa,
estupra, violenta, mata seus familiares. Então
aparece um grupo imoral, amoral, acima
do bem e do mal e acaba com os vagabundos.
Você pode até ir a público
e fazer um discurso de que violência
gera violência, que não deveria
ser assim, que acharia melhor se eles tivessem
sido presos e ficassem na cadeia para sempre,
etc. Mas no seu íntimo, você
vai agradecer a quem fez isso.
É
vital tornar-se senhor de suas próprias
virtudes. Tornar-se escravos delas é
o problema. É preciso dominar sua própria
moral, o que houver de bom e de ruim nela,
aprender a mostrar isso e também guardar
à medida que se necessita dela e de
acordo com seus fins. Isso é ser humano.
No BOPE, só existem seres humanos.
E eles adaptam-se às condições
pra sobreviver e para garantir que outros
sobrevivam.
“Então
você está defendendo que a polícia
mate os bandidos?”
Antes eles do que eu! Se
alguém tiver que morrer, que sejam
eles. E se alguém puder fazer o favor
de matá-los, muito obrigado!
Isso
é o ideal? Não. Eu gosto do
mundo assim? Não. Eu preferiria que
todos vivessem como monges, falassem baixo,
não discutissem por nada, não
importunassem ninguém. Mas a imagem
que fazemos do mundo ideal é
completamente diferente do mundo real.
E é neste último que nós
vivemos. A moral não toca a essência
do mundo como ele é.
Para
mim, o que legitima a moralidade de
um ato é a confirmação
de seu êxito. Imoral é
deixar vagabundo por aí tirando a vida
de quem quer viver em paz. Se há quem
os mate, não vejo nisso nada além
de legítima defesa, de autopreservação.
“A
besta que existe em nós quer ser enganada;
a moral é mentira necessária
para não sermos por ela dilacerados”,
já dizia o velho Nietzsche. E mais:
“(...)
quando alguém prefere a vingança
à justiça, ele é moral
segundo a medida de uma cultura passada,
imoral segundo a atual. ‘Imoral’
designa, portanto, que um indivíduo
ainda não sente, ou não sente
ainda com força bastante, os motivos
mais elevados, mais espirituais trazidos pela
nova cultura”.
Se
há bestas soltas, tirando vidas inocentes,
como devemos tratá-las? Com rosas?
Com orações? Talvez uma parte
de nós deva fazer isso. Mas outra parte
precisa ser ativa e tomar uma atitude para
que o mal cesse logo. Se um leão rondar
sua casa, o que você vai fazer: colocar
um prato de leite na porta ou dar um tiro
nele?
Há
uma diferença enorme entre moral
pessoal e moral coletiva. A minha
diz que eu devo ser gentil, não aceitar
provocações, não entrar
em qualquer tipo de discussão, que
devo amar a todos. Belo e ingênuo até
o ponto em que alguém tentar ferir
a mim ou aos que eu amo. E se amo a todos,
se pretendo que não só minha
casa, mas também minha rua, meu bairro,
minha cidade, meu estado, meu país,
o mundo todo viva em paz, não posso
acreditar que meu ideal romântico seja
capaz de estabelecer o equilíbrio e
a paz que almejo. Nietzsche de novo:
“Talvez uma futura visão
geral das necessidades da humanidade mostre
que não é absolutamente desejável
que todos os homens ajam do mesmo modo, mas
sim que, no interesse de objetivos ecumênicos,
deveriam ser propostas, para segmentos inteiros
da humanidade, tarefas especiais e talvez
más, ocasionalmente”.
É o que se propôs ao criar o
BOPE. “Isso
não é legal, mas alguém
tem que fazer. Façam!”
E
se essas ações violentas acontecessem
sem que jamais soubéssemos? O resultado
seria o mesmo e tão (ou mais!) eficaz
e agradável quanto. E nossos valores
morais – e as mentiras nas quais nos
obrigamos a acreditar – estariam preservados.
Nossos preconceitos morais estariam resguardados,
protegidos.
Tropa
de Elite, o filme, põe nossos
ideais à prova. Traz para dentro de
casa (literalmente, em cópias piratas...
piratas? Você assistiu? Que moral você
tem para falar sobre respeitar direitos?)
um pequeno pedaço da realidade que
pode nos causar nojo por sermos ainda tão
brutos, mas talvez o que mais incomode é
o sentimento que escondemos de que os ideais
do BOPE não se estendam a todo o restante
da tropa.
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| Postado
em 26 de setembro de 2007, quarta |
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Come ti amo, maledetta vita moderna!
Há
alguns dias, revi, depois de anos, o filme
Dio, come ti amo,
estrelado por Gigliola Cinquetti.
Na mesma semana, vazavam
na Internet as fotos de Vanessa
Anne Hudgens, a atual queridinha
dos aborrecentes americanos e seus colonizados.
E
o que uma coisa tem a ver com a outra?
Pra
começar, vamos às semelhanças
entre as meninas em questão. Em 1964,
aos 16 anos, Gigliola Cinquetti ganha o Festival
de Sanremo com a música Non
ho l’età
(Não tenho a idade). Em 1966,
ganha de novo com Dio, come ti amo.
No mesmo ano, para aproveitar o sucesso das
duas músicas e impulsionar a carreira
de Gigliola, é feito o filme homônimo
que rendeu grandes filas nos cinemas brasileiros.
É
bom explicar que o Festival de Sanremo –
ou Festival da Canção Italiana
–, que existe até hoje, era,
nos anos 50 e 60, algo como o Grammy ou o
Oscar é hoje. Quem ganhava, ficava
conhecido no mundo inteiro e tinha trabalho
garantido por algum tempo. Quando Domenico
Modugno, autor de Dio, come ti
amo e co-autor daquela que provavelmente
é a mais famosa canção
italiana, Nel
blu dipinto di blu,
ganhou San Remo em 1958, nem a televisão
conseguia mostrar isso ao mundo. E mesmo assim,
até hoje, pense em Itália e
o que vem a sua cabeça? Volaaaaaaaaare,
ôôôôô...
É a força de Sanremo.
Corte
para 2006. Aos 17 anos, Vanessa Hudgens “invade
o mundo”
(para usar uma expressão idiota do
“jornalismo
de fofoca”)
como a protagonista de High School Musical.
Duas
jovens cantoras usando a força do cinema
para fazer fama internacional.
No
filme italiano, Gigliola é uma tímida
garota que descobre amar o noivo de uma amiga.
Depois de idas e vindas entre Espanha e Itália,
poucos instantes antes de terminar a história,
a personagem dá um rápido
e singelo beijo no amado. Digo a
personagem porque até hoje duvido que
tenha sido realmente Gigiola a dar o
beijo que aparece em super
close up e mostra quase que somente as
bocas. Ela não tinha idade para amar,
para sair sozinha com o namorado, para protagonizar
um beijo no cinema. Era italiana, de família
e era 1966!
No
filme americano de 2006, o recato quase se
repete. Se existe um povo que merece o prêmio
máximo de falso moralismo, esse povo
é o americano. Uma personagem pode
se vestir e agir com uma puta, mas se a história
diz que ela é uma virgem imaculada
sem pecados, então todos têm
que acreditar que é isso. Mas não
é. Por isso mesmo, Vanessa pegou uma
câmera digital, tirou umas
fotos nuas com as amigas e mostrou
(sem querer) para o planeta inteiro que, pelo
menos no mundo real, sexualidade, desejo e
uma pitada de sacanagem são coisas
bem naturais. Até mesmo para a queridinha
da hora.
Bonitinha,
como toda jovem mediana de 18 anos, mas certamente
já não inspira tanto desejo
como quando estava com roupa. E agora que
todo mundo já viu, nem deverá
rolar uma Playboy, daqui a algum
tempo, para mostrar que “a
menina virou mulher”.
O
romantismo se foi, o sonho acabou. A cuecada
teen agradece o vacilo de Vanessa e os
sessentões lembram como era doce sonhar
com os dentinhos separados e os joelhos (sempre
juntinhos) de Gigliola.
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| Postado
em 16 de setembro de 2007, domingo |
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Carlos Estevão - O mais brasileiro
dos desenhistas

Único,
sem influências estrangeiras. É
assim que muita gente se refere ao traço
de Carlos Estevão.
Debochado,
escrachado, politicamente incorreto (em um
tempo que este termo castrador nem era usado),
Carlos Estevão nunca fez o tipo intelectual
posudo, moralista – falso ou não
– que quisesse dar aulas ou fazer crítica
de costumes com seus desenhos. Era machista,
mulherengo, beberrão, de maus modos,
mas também capaz de demonstrar, como
poucos, amor e carinho aos filhos e amigos.
O que ia para o papel, longe de ser crítica,
quase sempre era o registro da própria
realidade – ou fantasia – que
vivia.
O
casamento antes e depois, Ser
mulher, Perguntas
inocentes, As aparências
enganam, As duas
faces do homem, Acredite
querendo e Palavras
que consolam eram algumas das
séries nas quais destilava sua descrença
para com o ser humano. Se havia um tema preferencial
e no qual se tornava ainda mais ferino, certamente
era a vaidade. Principalmente a feminina.
Os tipos grotescos, homens presunçosos
sempre cheios de histórias mirabolantes
para contar, mulheres horrorosas que se achavam
lindas e ouviam as maiores grosserias dos
homens. Esse era o mundo de Carlos Estevão.
Tipo
inesquecível criado por ele foi o Dr.
Macarra, que chegou a ter revista
própria (nove edições)
em 1962. As aventuras do personagem eram contadas
a uma ouvinte, em um quadro, numa versão
soberba e orgulhosa para ser mostrada, no
quadro seguinte, da forma que realmente havia
acontecido. Na história em que conta
sua passagem por Cuba, sua interlocutora pergunta
a Macarra se apreciaram devidamente sua cultura.
Ele responde: “Professores
de renome ficaram abismados com minha cultura”.
No quadro seguinte, um cientista diz a outro:
“A
cultura de micróbios que consegui do
organismo desse miserável é
assombrosa!”.
Seu
humor era o mais popular e mais ácido
dentre os desenhistas que fizeram fama nas
páginas de O
Cruzeiro. Com a morte
do também pernambucano Péricles
Maranhão, na virada de 1961
para 1962, Estevão recebeu um “convite-imposição”
da revista e acabou herdando o Amigo
da Onça, que desenhou até
sua morte em 1972.
Uma
merecida e justa biografia de Carlos Estevão
não pode fazer dele um Dr. Macarra.
Deve desnudá-lo de qualquer mitificação
e mostrar sua história de forma realista,
desde os primeiros traços em Recife
aos últimos em Belo Horizonte, onde
morreu vitimado por seus excessos. Devem ser
mostrados defeitos, virtudes, erros, contradições
e demais qualidades, boas ou más, que
fizeram dele um dos nossos mais populares
e queridos desenhistas.
Carlos
Estevão não merece o endeusamento
muitas vezes criado em torno de seu nome.
Não que lhe faltasse talento. Muito
pelo contrário. Não merece tal
endeusamento por respeito a ele mesmo.
Não só foi – e continua
sendo – o mais brasileiro dos desenhistas,
mas também o mais humano deles.
No
dia de hoje, ele completaria 86 anos. Para
marcar a data, Memória Viva
lança um site em sua homenagem.
Clique
aqui e divirta-se com
o aniversariante.
(O
blog também está aniversariando.
São dois anos de Sempre algo a Dizer
e
três desde o lançamento de seu
antecessor, o Leseira Geral)
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| Postado
em 8 de setembro de 2007, sábado |
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A cura das platéias

Permitam-me
avalizar minha antiguidade... Sou
de um tempo em que as pessoas enchiam
uma sala de cinema com 300 ou 500 lugares
e vibravam com o filme. Riam juntas, choravam
juntas, aplaudiam ao final. Era uma época
em que eu freqüentava o Art Méier,
o Paratodos e o Imperator.
Em que assisti filmes como Fúria
de Titãs, Num
lago dourado (com Henry Fonda
e Katherine Hepburn) e E.T. –
O Extraterrestre, este talvez
o último dos filmes com uma platéia
decente.
Os
cinemões foram fechando, virando cinemas
pornôs, igrejas neo-evangélicas
ou alguma outra sacanagem. As crianças
não brincavam mais nas ruas e as pessoas
passaram a morar em casas cheias de grades.
O shopping era a nova onda. Bob’s,
Mc Donald’s, Salas Multiplex...
Os ianques nos colonizavam apressadamente.
A pipoca e as balinhas foram substituídas
por caixas monstruosas com hambúrgueres,
batatas fritas, milk shakes, refrigerantes
e toda a má educação
que acompanha o comer desses lixos: boca aberta,
barulho de mastigação, arrotos,
sujeira espalhada por toda parte.
Até
aí ainda estava bom.
Triste
foi testemunhar o acelerado processo
de imbecilização da platéia.
A destituição dos valores, a
falta de qualquer maturidade emocional e base
cultural para entender o que se passa na tela.
A
primeira vez em que percebi isso foi em um
cinema no bairro de Boa Viagem, em Recife,
em 1991. Como fazia costumeiramente naqueles
idos, eu havia saído de Natal
e ido à capital pernambucana para dois
ou três dias dentro dos cinemas. A grande
estréia daquele final de semana era
Exterminador do Futuro 2
e seus esperados efeitos especiais. Última
sessão de sexta, cinema lotado. Nas
cenas de morte, tiros e destruição,
a turba gritava e aplaudia. Nas demonstrações
dos poderes dos andróides, risadas
e gritos de “que
mentira!”.
Valores trocados, má educação,
incapacidade de imaginar. Já
não distinguiam entre fantasia e mentira.
Pior
estava por vir. Naquele tempo ainda não
havia os malditos celulares.
Vieram
os DVDs, as telas planas e cada vez maiores.
O cinema foi para dentro de casa e
ninguém precisa mais aturar esses selvagens.
E
o teatro? Ainda não dá
para levar para fazer o mesmo com ele. Na
maioria das vezes, mesmo em uma produção
pequena, com um ou dois atores, é difícil
levar uma peça a outras cidades. Vai
ser ótimo quando pudermos alugar a
peça e levá-la para casa. Os
atores representando em nossa sala. Sem imbecis
rindo fora de hora, sem celulares tocando,
sem descerebrados conversando durante a apresentação.
A
atual massa idiotizada que constitui
parte majoritária e esmagadora das
platéias é filha da tevê,
não uma fábrica de fazer loucos,
como dizia Stanislaw Ponte Preta,
mas de criar e multiplicar gente estúpida
com mais velocidade e eficácia que
uma comunidade de coelhos alimentada com viagra
consegue se reproduzir.
De
idas relativamente recentes ao teatro, cito
dois tristes exemplos desse tipo de trupe
beócia. O primeiro na apresentação
de Quando Nietzsche chorou
(Teatro Imprensa, São Paulo, com Cássio
Scapin e Nelson Baskerville, 2006). Os risos
histéricos fora de hora, do tipo “ei,
você aí no palco, eu tô
achando graça”,
faria algum desavisado acreditar que havia
errado de endereço e, sem querer, acabado
em algum show de piadas. Nas poucas vezes
em que se apresenta, o humor grave, sarcástico,
niilista, desacreditado do ser humano de Nietzsche
não é para gargalhadas.
É para risos de canto de boca, de cumplicidade
íntima, de inteligência e entendimento
raros. O tolo ri do que não entende.
A hiena gargalha sem saber porquê o
faz.
Outro
exemplo, mais recente, foi com Pobres
de Marré (Casa da Ribeira,
Natal, com Titina Medeiros e Quitéria
Kelly, 2007). As atrizes vivem duas moradoras
de rua. Só quem nunca andou nas ruas,
seja de onde for, não reconhece Maria
e Dasdô, as personagens. Aquelas criaturas
que vivem como vermes –
sempre na sujeira, alimentando-se de sobras
–, expondo toda decadência e crueldade
da sociedade em que vivemos, mostrando os
estados psicóticos que alguém
pode chegar vivendo em tais condições,
buscando algum resquício de
humanidade, que dificilmente será
encontrada em uma platéia que ri da
desgraça mostrada. Um quadro gravíssimo
– com interpretações maravilhosas
(de Titina sou suspeito para
falar, mas rasgos todas as sedas para Quitéria,
irrepreensível em interpretação
digna de todos os prêmios) – tratado
como comédia. Só posso crer
que o ar condicionado e os vidros escuros
nas janelas dos carros impedem sobremaneira
o contato com o mundo real. Aquilo não
é para rir. É para chorar o
tempo todo.
Sendo
assim, acredito que uma solução
para a idiotização das platéias
seja algo como aquela imaginada por Anthony
Burgess – e muito bem mostrada
por Stanley Kubrick –
para o personagem Alex em Laranja
Mecânica. Ainda assim,
sou pouco otimista quanto à eficácia
do resultado. As câmaras de gás
talvez fossem mais apropriadas.
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| Postado
em 3 de setembro de 2007, segunda |
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Cópias e segredos

Há
poucos dias, passando rapidamente os canais
da TV, peguei um pequeno trecho de uma entrevista
com um diretor mexicano (do qual me foge o
nome no momento) em que ele respondia a pergunta
(idiota, por sinal) sobre o que havia acontecido
com o cinema no México. De forma óbvia
e brilhante, ele disse que foi o mesmo que
aconteceu com o cinema de todos os países:
“Hollywood
fez uma guerra e venceu”.
Quem
me conhece, sabe o que penso sobre esse espírito
belicista e exterminador dos americanos, principalmente
no aspecto cultural. E também sabe
o que penso do cinema americano.
O óbvio: é uma indústria
de entretenimento. O filme é
um produto, não uma manifestação
artística. A indústria
cinematográfica americana está
para a história do cinema como a Nestlé
para a dos chocolates, que faz vários
que o mundo inteiro come, mas não faz
um que lembre o mais miserável dos
chocolates feitos na Suíça.
Assim
como me empanturro e gosto de chocolates da
Nestlé, também vejo muitos filmes
americanos. Eles trabalham com efeitos especiais
como ninguém e são únicos
em um gênero que me agrada particularmente:
o das versões para personagens de quadrinhos
(algo totalmente relacionado à cultura
deles). Saindo disso, admito, tenho visto
filmes bem interessantes nos últimos
anos. Brilho eterno de uma mente
sem lembranças, A
dama na água, Pequena
Miss Sunshine e Os
Infiltrados (se bem que esse
é Scorsese... não
vale!) são alguns deles.
Mas
se há um gênero em que eles conseguem
exibir, ao mesmo tempo, sua capacidade em
fazer bons filmes e sua impressionante
ignorância sobre qualquer outra cultura
é o de “filmes
biográficos”
(chamemos assim para facilitar, ainda que
a expressão não seja precisa).
Mais ainda quando se trata da vida de um compositor
de música erudita. Eles reinventam
tudo e são totalmente incapazes de
tratar com esse tema com a devida delicadeza.
Há
de se desconfiar de um povo que chama Giuseppe
Verdi de Joe Green.
Neste
fim de semana, finalmente resolvi assistir
a O segredo de Beethoven.
Antes de malhar, irei aos prós. É
um filme dirigido por uma mulher nascida na
Polônia, o que pode sugerir leveza,
sensibilidade e até uma “proximidade
genética”
com a música erudita. O papel principal
é vivido por Ed Harris,
que gosta de fazer o público acreditar
que aquele que está aparecendo na tela
é mesmo o tal que viveu (vide Pollock).
E temos ainda a bela Diane Kruger
(a apagada Helena do péssimo Tróia)
no papel de Anna Holtz. E aí começam
os problemas. Quem diabos é Anna Holtz?
Trata-se de uma personagem inventada, inserida
como alguém importante na vida de Beethoven
em seus últimos anos, diga-se, dos
quais pouco ou quase nada se sabe.
A
seqüência inicial, que mostra Anna
sentindo/vivendo/experimentando a música,
ouvindo-a sem que ela esteja sendo
executada, é a melhor de todas
e dá a falsa impressão de que
o filme será tão bom ou superior
a sua introdução. A seqüência
da dupla regência também é
aproveitável. Não fosse o fato
de que sendo cinema o mais importante é
a imagem e, naquele momento, o que há
de melhor é a música. Feche
os olhos, “perca”
a cena. Depois volte a ela. Aposto que, de
olhos fechados, terá visto uma cena
bem melhor.
A
diretora tenta recriar as diferenças
entre os momentos suaves e os arroubos de
uma sinfonia de Beethoven com movimentos de
câmera que, às vezes, chegam
a incomodar ou até fazem parecer que
se pulou, sem aviso, de um filme romântico
para um comercial de aparelho de som no qual
a imagem procura demonstrar a potência
do produto. Existe tentativa semelhante em
relação ao roteiro do filme,
que pretende não ter início
ou fim, não seguir convenções
de narrativa. Aí entra o “elemento
Hommer”
dos filmes americanos. Um personagem, no caso
o próprio Beethoven, explica o que
deveria ser captado e não ensinado
ou racionalizado: “tem
de parar de pensar em termos de início
e fim (...) você é obcecada pela
forma, pela estrutura”
e descamba para a filosofia barata ao dizer
que “você
tem que escutar a voz que fala dentro de você”.
A
própria Anna Holtz e sua função
na trama trazem todas as características
da vulgarização e da imbecilização
de uma história que deve ser entendida
por um espectador que não pensa:
a paixão de um velho genioso por uma
jovem delicada e que o admira; o querer impossível;
a diferença entre os amores; a vitalidade
e a energia que ela representa e ele já
não possui... todos os elementos
comuns e bem mastigados de uma novela para
um público que não se deu conta
da serventia do cérebro.
Além
de tudo isso, ainda temos uma cópia
mal feita de Amadeus
(um filme infinitamente superior mas que também
cria ou reforça situações
que não passam de hipóteses)
quando o mestre, na cama, morrendo, dita trechos
de uma sinfonia a seu seguidor.
Na
próxima vez em que você resolver
fazer uma maratona de filmes em casa, esqueça
as seqüências e veja O
segredo de Beethoven, Amadeus
e Ensaio de orquestra.
Este último, de Fellini.
Assim
como nas grandes religiões existe um
único Deus e várias divindades
menores, no cinema existe Fellini
e os outros. Se você não
entende italiano, ótimo! Veja Ensaio
de orquestra sem legendas.
Para essa maratona comparativa, em um primeiro
momento, não interessa o que os personagens
estão falando. Ouça apenas a
música das palavras. Não procure
entendê-las, decodificá-las.
Sinta a sonoridade. Deixe-a juntar-se à
sonoridade dos instrumentos. Perceba a sinfonia
criada por Fellini, o casamento perfeito entre
imagem e som. Não é um clip.
É cinema. É arte.
Não foi feito para distraí-lo
por uma hora e meia. Foi feito para
fascinar. Não é um
hambúrguer que vai encher seu estômago
por um tempo. É alimento para a alma.
Sem procurar pensar e somar seus conhecimentos
para fazer a leitura do filme, você
irá entendê-lo. Arte é
assim: sem barreiras, sem linguagem, sem tentativas
frustradas. Ela simplesmente existe e irá
tocá-lo de alguma forma.
Anna
Holtz não conseguiu copiar, corrigir
ou descobrir o segredo de Beethoven. Agnieszka
Holland não conseguiu copiar,
corrigir ou descobrir o segredo de Milos
Forman. E ninguém conseguiu
copiar, corrigir ou descobrir o segredo de
Fellini. Così è la vita!
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