| Postado
em 30 de setembro de 2006, sábado |
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Quatros
textículos no Rio.
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Que Rio é esse?

Cheguei
ao Rio. Cadê a musiquinha do Tom Jobim?
Onde estão as cores? O azul do céu?
Tudo na novela é Photoshop? Aqui continua
tudo como da última vez: cinza, sujo,
decadente. O lugar onde moraram reis é
puro lixo. E que lugar barulhento, neurótico!
Como se pode viver aqui? Aqui não se
vive: se paga penitência. Todo dia sempre
a mesma. Os carros voando para chegar sabe-se
onde; as buzinas um acessório indispensável
como os vidros escuros. O Rio já é
cinza, para que o vidro fumê?
O
ônibus pára bem em frente à
Livraria da Travessa, na Rio Branco. É
um desses oásis do Rio. O sinal abre,
avança-se mais um pouco. Mil táxis
e suas buzinas. Deve haver uns três
táxis para cada habitante do Rio. E
todos circulam ao mesmo tempo. Correndo, buzinando.
Quase sempre vazios. Devem sempre estar indo
pegar alguém.
E
esses paredões de prédios; essas
falésias artificiais. Qualquer prédio
anão tem vinte andares. Olhar para
o céu exige esforço extremo.
E vão. É quase sempre cinza.
De
repente, um sobrado do Rio antigo. Aluga-se.
Quem quer? Bota abaixo. Deixa cair.
Dezoito
horas. Tudo parado. Já levei mais tempo
do Galeão até aqui do que de
Brasília ao Rio. E Copacabana - a outrora
princesinha - ainda está longe. Copacabana
não me engana. Decadência, chego
já.
Outro
oásis: o Teatro Glauce Rocha. Quase
ao lado, um bingo. Sinal dos tempos. Mais
à frente, o Museu Nacional de Belas
Artes em eterna reforma, a Biblioteca Nacional,
a Praça Marechal Floriano, o Chafariz
do Jardim do Monroe... É o Rio Antigo.
O Rio que eu não conheci.
22
de setembro
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Copacabana não me engana

Quiosques
parecidos com aqueles malquistos do Rio Antigo.
Mijo, pombos, cerveja quente em copinho plástico.
Um prédio inteiro de luto, na Atlântica,
próximo à República do
Peru.
Tenho
a impressão de ter visto as mesmas pessoas
sentadas nos mesmos bares há três
anos. Só parecem mais velhas, mais alienadas,
ainda mais decadentes. Todas fazendo a mesma
figuração.
Copacabana
é um lugar de esquecidos, de não-amados.
Parece que o resto é sempre varrido para
cá. Os velhos tratando seus cachorrinhos
como filhos. Trocando por outros cachorrinhos
após suas mortes. Os coitados duram no
máximo quinze anos. A solidão
é eterna. Sujando as ruas, arrastando
seus donos, levando-os a passear, a dar uma
voltinha no quarteirão.
Até
os jovens de Copacabana parecem mais tristes.
Parecem saber de seus destinos. Estarão
aqui nos próximos 70, 80 anos. As pedras
do calçadão testemunhando, dia-a-dia,
a decadência de cada um. Copacabana é
decrépita. Não há shows
ou cinema ao ar livre que melhorem ou rejuvenesçam
seus ares. E o Ibrahim vendo tudo, de frente
ao Copa, condenado a ver tudo sem nada poder
fazer. E o medo? E o frio? Até seu jornal
já levaram. Nada para ler nem para se
cobrir. Que bela homenagem, hein, Ibrahim? Ademã...
Nem
os vendedores de amendoim são mais amigáveis.
Deixam uma migalha na mesa e a recolhem ao balançar
de cabeça. A catadora me pede a latinha.
Esvazio e entrego. Acho que queria o líquido
também. Parece amigável. Diz que
logo ali “vai
ter dois filmes mais tarde; se eu tiver um tempo
vou lá”.
E por que não teria tempo? Porque precisa
continuar revirando os lixos. Não tem
tempo algum para viver. Todo o tempo busca sobreviver.
Um
menino faz malabarismos com bolas de tênis.
É bom no que faz. Desperta atenção,
descola um troco, vai seguindo.
Começa
a escurecer e não vejo as luzes serem
acesas. Não vejo luz sobre Copa.
23
de setembro
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Amores de cinema

Na
segunda fui ao Roxy, um dos últimos cinemas
de rua do Rio. O restante, como se sabe, foi
ocupado pelos corretores de lotes do Senhor.
O Roxy foi modernizado mas continua com jeito
de cinemão. As escadas, as cadeiras como
em um anfiteatro, a tela grande. Assisti um
filme brasileiro, claro. O maior amor do mundo.
É o primeiro caso que lembro de um trailer
inferior a um filme. Não éramos
mais que uma dúzia de abnegados espectadores
que reuniu forças suficientes para sair
numa tarde chuvosa e assistir um filme nacional
em um cinema de rua. Grupinho de loucos saudosistas.
Disseram-me
que a onda agora é assaltar no cinema.
O cara senta ao seu lado, aponta a arma, sai
do cinema com você e faz saques no caixa
eletrônico mais próximo. E ninguém
percebe nada. Isso acontece nos cinemas de shopping,
o último refúgio de segurança
da classe média. Com mais esta modalidade,
você pode escolher entre ser assaltado
na rua, no ônibus, no cinema ou em algum
“culto”.
É um Rio cheio de emoções.
Na
quarta, o sol apareceu. Tive até vontade
de ficar um pouco mais, fazer programa de turista.
Aí descobri porque praticamente todos
os meus amigos, parentes e conhecidos que nasceram
e sempre moraram no Rio nunca foram ao Pão
de Açúcar. O passeio de bondinho
custa 35 reais. Adicione-se outra modalidade
de assalto às já citadas.
Pensei
em ir ao Corcovado, andar pelo Cosme Velho,
mas era muita coisa para uma tarde só.
Fui para a Cinelândia, minha velha conhecida.
Fui testemunhar a insensibilidade do show business
tupiniquim para com nossos monumentos. O FestRio
plantou uma estrutura monstruosa na Praça
Marechal Floriano que quase impede de se ver
o próprio Odeon. A Biblioteca Nacional
e o Theatro Municipal estão cada vez
mais parecidos com lojas de shopping. São
tantos os banners enfeando e escondendo suas
fachadas que mal se pode admirá-los.
É a modernidade e a “funcionalidade”
em detrimento da Arte e da Cultura.
Após
fotografar outros dois ícones do cinema
de rua que resistiram ao tempo - o Odeon e o
Palácio - , um chopp no Amarelinho para
brindar ao Rio que resiste.
27
de setembro
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No avião

Vai-se
de Brasília ao Rio em uma hora. De São
Paulo ao Rio em 45 minutos. Do aeroporto do
Galeão à Copacabana, pode-se levar
duas horas.
Um
lugar abençoado pela Natureza mas que
o homem não aproveita. Horas e horas
perdidas, diariamente, dentro de um carro ou
ônibus. Se ao menos as pessoas respeitassem
as leis de trânsito e fossem cordiais!
Não há qualquer resquício
de civilidade no trânsito do Rio. Jogam-se
uns contra os outros como se estivessem, a todo
tempo, fugindo de uma grande catástrofe
que consome a cidade. E todos cheios de razão
em seus erros. E nenhuma novidade em minhas
observações. Creio que nadar entre
baleias seja uma atividade muito mais segura
que dirigir no Rio. Nunca poderei comprovar
a hipótese pois não pretendo correr
tamanho risco: o de dirigir no Rio.
Faça
as contas. Quem perde três horas por dia
no trânsito, ao final de cada mês
perdeu quase quatro dias inteiros dentro do
carro. A cada ano, mais de um mês e meio.
Some-se a isso as horas de trabalho e sono e
veja quanto sobra para viver. Não é
à toa que seja tão comum passar
anos casado e descobrir que o outro é
um estranho. É mesmo. Talvez não
por culpa sua ou dele(a), mas deste não-viver.
Que tempo há para o amor? Que tempo há
para os filhos? Também não é
à toa que o Nordeste (também em
outras regiões, principalmente em cidades
pequenas) o respeito à família
seja algo tão forte e comum. Lá
existe família. Aqui há pessoas
que dormem e, vez por outra, fazem alguma atividade
conjunta na mesma casa. Numa cidade como o Rio,
é mais fácil amar o carro que
a esposa. Afinal, passa-se mais tempo com o
primeiro.
Nada
contra o Rio, mas aqui não é o
meu lugar. Nasci e me criei aqui. Por sorte,
na Zona Norte, onde se podia brincar na rua,
jogar bola, andar de bicicleta, subir em árvore,
pular muro, atravessar a rua correndo sem olhar
para os lados... O Rio bom mora na minha memória.
Este de agora é, no máximo, um
lugar bom para se visitar. Rápido e com
muito cuidado.
Do
avião, vi águas sujas e paradas.
Onde o azul do mar? Pergunto-me quanto de mata
foi devastada para se construir esse caos. Um
emaranhado de ruas que parecem levar somente
a outras ruas até que encontre um morro,
uma lagoa ou o mar. E aí se possa ver
o que fizemos com o que de mais belo havia aqui.
Os
anunciados 45 minutos entre Rio e São
Paulo parecem ter demorado menos. Chega de
Rio. Vamos ver como está Sampa.
28
de setembro
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Postado
em 22 de setembro de 2006, sexta |
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Eu, caixeiro-viajante
Até
o dia 10 de outubro, sacie seus instintos voyeurísticos
aqui ao lado, no Amigos
do Lobo. Na volta, reabastecerei
este Sempre Algo com as desventuras
e cecipécias de um lobo perdido nas estepes
do Sul e do Sudeste. |
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| Postado
em 16 de setembro de 2006, sábado |
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Não basta ser livro

Se
você não faz, ao menos já
deve ter visto. O sujeito entra na livraria,
pega um livro com toda delicadeza, aproxima
do rosto, cheira a capa, vira um pouco, cheira
a lateral, abre, cheira de novo, passa os dedos
suavemente no papel, confere a costura, fecha,
admira a capa.
Talvez
o conteúdo daquele livro nem seja de
seu interesse. O fetiche está
na forma. Em toda ela. Não há
dúvida. Ali, mais que um leitor, existe
um bibliófilo.
O
bibliófilo guarda certas edições
em embalagens especiais, não as expõe
levianamente nas estantes, não as mistura.
Costuma guardar os livros deitados para evitar
seu “entronxamento”,
para evitar o “efeito
metrópole”
e a poeira que se depositaria nos “telhados”.
Os livros ficam deitados, respeitando tamanhos,
empilhados na altura de um palmo.
Examinar
a biblioteca de um bibliófilo pode trazer
muitas surpresas: livros que aparentemente nunca
foram abertos – foram, mas com todo cuidado!
–, várias edições
de um mesmo livro, a mesma até, mas diferente
por estar autografada. A propósito: só
autores dedicam livros escrevendo em
suas próprias páginas. Se você
vai presentear alguém com um livro, inclua
um cartão. Não macule as páginas.
Arte
e Literatura em um casamento perfeito da concepção
ao acabamento. Tudo artesanal. Papel especial,
folhas soltas, estojo... Acredite, A Polaquinha,
de Dalton Trevisan, fica ainda
mais gostosa quando vestida (para ser despida)
assim. Clarice dá mais
prazer. Quintana, quase se
ouve.
O
livro bem editado lhe diz mais porque todo ele
o está dizendo. Não somente as
palavras colocadas nele.
Aventure-se
a mais que ler. Tenha um caso com o
livro.
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| Postado
em 8 de setembro de 2006, sexta |
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Dias de Henfil
Casa
de ferreiro, você sabe. Faço o
maior esforço para organizar minha própria
história, clipar o que sai sobre meu
trabalho, registrar e guardar minhas colaborações
à imprensa. Definitivamente, não
pretendo dar trabalho aos meus biógrafos...
Pois
bem. Dia desses, tomei coragem e revisitei os
primórdios de minha vida jornalística.
Tudo começou em 1988,
quando, já nas primeiras semanas do curso
de Comunicação Social, inventei
de fazer um jornal. Aos 15 anos, eu
já sabia que não daria certo trabalhar
para os outros.
Junto
a dois colegas de turma – Alexandre
Mulatinho e Juliano Freire
–, lancei o jornal Graúna.
O nome, sugestão minha, era uma homenagem
ao cartunista Henfil, que havia
morrido poucos meses antes, em janeiro. A empreitada
durou cinco números.
O primeiro saiu em maio.
Sempre
lembrei com muito carinho e orgulho daquela
iniciativa que, daqui a pouco, completará
20 anos. Pensei em “digitalizar
toda a coleção”
e disponibilizá-la em meu site pessoal.
Peguei os jornais, tirei do saquinho e comecei
a folhear. Quanta bobagem! Que vergonha! Eu
fiz mesmo aquilo? E eu me achava o próprio
Assis Chateaubriand! O Sr.
Empreendimento. Ainda bem que não chegamos
a 1989, nem ao sexto número.
Mas
vamos esquecer tudo isso. Lembrei do jornal
Graúna para falar dessas “coincidências”
que nos acompanham durante a vida. E dos meus
fantasmas queridos.
Naquele
tempo, eu já era fã do Henfil.
Hoje, ando mergulhado em sua obra. Com este
trabalho que venho fazendo com O
Pasquim, tenho tido a oportunidade
de acompanhar, cronologicamente, a obra de Henfil.
E isso tem me dado um enorme prazer.
Além
dos Fradinhos nas páginas
do Pasca, tenho procurado Henfil nas páginas
de seus livros. Até bem pouco tempo,
eu só havia lido dois deles, Diário
de um Cucaracha e Cartas
da Mãe, há uns 15
anos. Em julho deste ano, li Henfil
na China e fiquei com uma vontade
louca de conferir o que mudou e o que não
mudou desde que ele esteve por lá, em
1980. Aí a Veja
fez uma edição com quase 100 páginas
sobre a China e fez com que eu economizasse
um dinheirão.
Esta
semana, andando na Feira do Livro de
Brasília, encontrei Diário
de um Cucaracha, Cartas da mãe
e um exemplar novinho que parecia saído
da gráfica ainda agora de Henfil
na China. Tudo baratinho, em três
sebos, pelo preço de um livro. No dia
anterior, havia lido Diretas Já!
na Biblioteca da UnB.
Para
quem perdeu a exposição Henfil
do Brasil (eu perdi! estive no
CCBB aqui em Brasília quando estavam
montando e depois não fui mais), pode
tentar conseguir um exemplar do livro de mesmo
nome. Meu amigo, hospedeiro, comentador oficial,
assessor para assuntos históricos paulistanos,
Wilson Natal,
não deu a mesma bobeira. Foi à
exposição em São Paulo
e ainda garantiu um livro para mim.
Outra
dica são cinco títulos que podem
ser encontrados nas livrarias atualmente: A
volta da Graúna, Graúna
ataca outra vez, Hiroshima,
meu humor, A volta
de Fradim e A volta
de Ubaldo, o paranóico.
Outra imperdível é assistir ao
curta Cartas
da Mãe, de Fernando
Kinas e Marina Willer.
São 28 minutos com cartas em off
e depoimentos de Laerte, Angeli,
Luís Fernando Veríssimo,
Zuenir Ventura e Lula,
dentre outros.
E
lá no Blog
do Pasca tem mais histórias
de Henfil. Aprecie sem moderação.
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| Postado
em 4 de setembro de 2006, segunda |
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O Blog do Pasca
Para
inserir as novas gerações no contexto,
é lançado hoje o Blog
do Pasca. Durante três semanas
serão mostrados artigos, matérias,
entrevistas, curiosidades e notas sobre o periódico
mais irreverente da imprensa brasileira.
De
segunda à sexta, uma iniciação
à história de O Pasquim,
do lançamento do jornal ao lançamento
do site. Ainda está aqui? Então
dá um clicão. |
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