| Postado
em 30 de outubro de 2006, segunda |
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Mais quatro anos

Agora
que passou, eu falo.
Mas
antes, esclareço. Em se tratando
de política, sou anarquista.
Votei duas vezes na vida: a primeira, em Mário
Covas, no primeiro turno das eleições
presidenciais de 1989; a
última em Lula, no
segundo turno, na mesma eleição.
Eu
tinha 17 anos, era a primeira eleição
direta depois que eu nasci, existia um clima
que só quem viveu sabe e eu ainda não
sabia que era iconoclasta e anarquista.
Eu
votei em duas pessoas. Votei no Mário
Covas, que eu achava que era macho e doido
o suficiente para dizer
“vou aí te dar uma porrada”
e ir na mesma hora. Votei no Lula, porque
jamais votaria em um maluco-falastrão
como Collor. Como a grande maioria
da população brasileira, votei
em pessoas e não em idéias.
Mas eu tinha 17 anos.
Fui
me transformando em alguém que acredita
em idéias e para quem estas são
muito mais importantes que pessoas.
Moro
há mais de cinco anos em Brasília
e, como depois de 1989 meu voto foi sempre
o mesmo, sequer me dei o trabalho de transferir
meu título eleitoral. É verdade
que perco o prazer de anular,
mas é bem mais cômodo. Mas, para
ser sincero, digo que se tivesse feito isso,
teria votado em Lula no primeiro e
no segundo turno em 2002.
E
teria repetido isso em 2006. Lula
e Lula.
(Neste
momento, os mais jovens, os emergentes, os
que se afinam com o diploma de médico
de Alckmin e os que se acham donos da Justiça,
da verdade e dos bons costumes levantam suas
vozes e dirigem mil impropérios contra
minha pessoa. Alguns param de ler e juram
jamais volta aqui. Outros continuam por curiosidade.
Eu espero a turba se acalmar.)
Eu
não me decepcionei com todos os escândalos
sobre corrupção do governo petista.
Não acredito em governos, não
acredito em Papai Noel e não acredito
em gnomos, se bem que o Lula seja muito parecido
com um.
Eu
gostaria que alguém me apontasse um
único governo no qual não tenha
havido corrupção. Da grossa.
E se você leu até aqui e acabou
de pensar
“ah, mas nesse teve mais”,
sugiro que pare a leitura agora e volte
para o seu gibi da Mônica.
Neste,
a corrupção foi mais divulgada,
tornada pública, o que é um
sinal de que realmente vivemos em uma Democracia.
Tirando aquele momento cubano, aquela pisada
de bola de querer expulsar o jornalista americano
por ter dito que o presidente tinha problemas
com bebida, a imprensa nunca foi tão
livre neste país. Mas tornou-se
tão ávida por escândalos,
tão dona da verdade, que parece incomodada
em ser “apenas”
o quarto poder. Parece querer estar acima
de todos. Derrubar todo mundo, ajudar os golpes
(como sempre ajudou!) e depois chorar.
Lula
ganhou porque governou para os pobres e
caso você – você que está
aí com seu computador, sua banda larga,
seu ar condicionado, que está pensando
em trocar de carro e que está planejando
em qual praia vai passar o verão -,
caso você não saiba, neste
país há muito mais pobres do
que ricos e remediados.
Lula
não ganhou no primeiro turno porque
subiu no salto e não compareceu aos
debates. Foi burro em ouvir
os assessores de pouca memória que
falaram que quem está ganhando não
se mete em debate, que FHC fez isso e se reelegeu.
Foi burro em não ouvir sua voz interior
dizendo que nenhum outro candidato tem seu
carisma, que nenhum outro fala com o povo
como ele fala, ainda que fale mentiras
ou prometa o que não poderá
cumprir . Em vez de tomar para si
o papel de vidraça, era para ter continuado
no papel de atirador de pedra, inclusive contra
seus próprios companheiros.
Mas
isso prova o óbvio: poder corrompe.
Lula não é mais pobre. Lula
não passa mais fome. Lula não
anda mais a pé porque não tem
dinheiro para o ônibus. Lula não
mora mais em locais de seca ou de enchente.
O
companheiro Lula hoje é um burguês
(quisera eu que todos ascendessem a tal “categoria”).
Ele poderia ter feito muito mais pelos mais
pobres. Mas fez o suficiente para ser reeleito.
Como
eu disse há quatro anos,
quando Lula foi eleito pela primeira vez:
dele, posso cobrar mudanças.
E
é pelo contrário de tudo isso
que eu não votaria no Alckmin. Eu até
vou com a cara dele. Eu até acredito
em sua austeridade em relação
a assuntos administrativos e que até
conduziria a máquina muito melhor que
Lula. Eu até acho que ele é
“o
herdeiro político”
do Covas, para quem eu dei meu primeiro voto.
Mas estou falando de pessoas. Não
de idéias. Para início
de conversa, ele é do PSDB e PSDB governa
para quem tem dinheiro. O partido costuma
resolver problemas administrativos, mas só
lembra que pobre existe na hora de pedir voto.
Tem um estilo predatório – escroto
mesmo! – com o qual eu não
me afino. Nem se eu fosse rico.
Ainda
bem que logo após o resultado das eleições,
alguns de seus caciques se apressaram em mudar
o tom sobre o
“terceiro turno”.
Direita é golpista por natureza.
E pobre brasileiro deve ser o único
no mundo que vota – ou votava!! –
em direita.
Tudo
posto, conclamo os dois (e)leitores
que chegaram ao final deste texto
a fazer o mesmo que, por e-mail, pedi em outubro
de 2002: comemore, baixe a lenha,
exalte-se, desespere-se. Mas dê sua
opinião. Vou guardá-la com todo
carinho e lembrar sempre que você também
é uma pessoa importante para o nosso
futuro.
Hoje,
despidos daquela paixão pelo fato de
um ex-operário chegar à presidência,
gostaria de perceber as mudanças de
pensamento e o amadurecimento – ou não!
– de cada um. E termino da mesma forma
que àquela época:
Oxalá,
os próximos quatro anos sejam tão
bons quanto vínhamos sonhando. Senão,
a gente muda de novo. Sem medo de ser feliz.
De
coração aberto,
Sandro
Fortunato
Brasília, 29 de outubro de 2006 –
O dia em que a esperança se renovou.
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| Postado
em 26 de outubro de 2006, quinta |
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Ela está no meio de nós
Está
nas bancas a número 1 da nova
Rolling Stone brasileira.
Agora oficialíssima, com cara destes
anos 2000 sem personalidade e com um de nossos
maiores produtos de exportação,
a modelo Gisele Bündchen,
na capa.
Eu
até li. Eu até gostei de uma
ou outra coisa. Eu até comprei para
guardar. Mas não vi nada além
da Bizz ou da Revista
da MTV. Nem esperava que houvesse.
Muito menos no primeiro número.
Gostei
mesmo foi do “tributo”
à primeira
RS brasileira. O artigo
contextualizou mais a época do que
falou da revista. Nenhuma novidade para quem
conhece a história da revista editada
por Luiz Carlos Maciel, mas
achei importante para a garotada Dory
de hoje saber que existe algo mais que os
últimos 5 segundos e quem sabe até
para perceber que os malucos de hoje não
dão nem pra sombra dos malucos de ontem.
De
contracultural, a RS atual – a gringa
e a brazuca – não tem nada. Os
“roqueiros”
de agora parecem mendigos de novela da Globo:
rasgados e limpinhos. E estão lá,
ad nauseam, nas páginas de
todas as revistas. Fica aquela eterna sensação
de aculturação americana, de
benção ao que vem dos Estados
Unidos... Em vez de ficar trazendo todo esse
lixo pra cá, porque esse povo não
se muda logo pra lá? Eu adoro
e respeito todas as culturas, mas eu amo mesmo
é a minha.
Também
gosto de parte desse lixo que vem de lá.
O que me incomoda é o endeusamento
que se costuma fazer em torno dele em detrimento
de muito do que temos de maravilhoso aqui
mesmo.
Das
12 chamadas da edição número
1 da RS, só uma não tem um nome
de americano nem utiliza algum termo em inglês:
Eleições – Brasília
é um circo. Duas tímidas
páginas para não dizer que não
se falou das flores secas que insistem em
viver no cerrado. A propósito, o melhor
dessa primeira edição é
mesmo o material traduzido. As matérias
gringas vão mais fundo que as brasileiras.
Até a Projacre, que poderia
ter sido um show de bola, ficou com aquele
jeitão de Caras falando de
globais.
Que
tudo isso seja um incentivo para melhorar.
Eu vou continuar comprando, lendo e talvez
até gostando. Vamos ver quantas edições
demorará até Paulo Coelho
aparecer na capa. Antes ele que o último
grande sucesso da última semana.
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| Postado
em 25 de outubro de 2006, quarta |
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Marcello, il dolce
Eu
precisava me limpar de um péssimo filme
visto no cinema na última segunda.
Desses que você fica estático
durante toda a exibição, de
boca aberta, se perguntando se saiu mesmo
de casa para ver e ainda pagar por aquilo.
Marcello
Mastroianni foi o responsável
por essa limpeza. E ainda conheci um cinema
maravilhoso.
Marcello,
una vita dolce,
exibido no Festival de Cannes deste ano, está
passando em pouquíssimas salas no Brasil.
Aqui em Brasília, onde há o
maior número de salas de cinema por
habitante no país, somente em duas.
Uma, em um extremo da cidade; outra, no outro
extremo, já fora do Plano Piloto.
Valeu
a pena. Conheci um cinema de shopping (que,
até então, invariavelmente eu
odiava) do bem. Apesar da distância,
pretendo tornar-me um habitué.
O filme ajudou (éramos apenas seis
espectadores), mas não vi nenhum combo-mac-boy-risada-de-hiena-no-último-volume
entrando ou saindo de qualquer outra sala.
Ficaria
felicíssimo se um filme desses atraísse
a mesma quantidade de público de uma
baboseira americana qualquer. Deixe-me refazer
a frase... Ficaria felicíssimo se existisse
um grande público para esse tipo de
filme.
Sou
suspeito, sei. Adoro cinema italiano. Adoro
Fellini e todo seu universo.
Mastroianni está dentro dele. Mas ver
e escutar Fellini, Visconti,
Sophia Loren, Claudia
Cardinale, Anouk Aimée
demonstrarem seu carinho por Marcello vai
muito além do simples interesse por
sua pessoa ou pela história ao seu
redor. Percebe-se algo maravilhoso e ao mesmo
tempo terrível: não
existem mais pessoas como Marcello Mastroianni.
A
impressão foi ainda mais forte por
ter visto, há poucos dias,
O diabo veste Prada. A vaidade
e a soberba de gente muitas vezes conhecida
apenas entre seus iguais comparada à
simplicidade de um homem
que encantou gerações de mulheres
em todo o mundo só pode levar a esta
conclusão: não existem
mais pessoas como Marcello Mastroianni.
Saí
do cinema com vontade de ter seus quase 150
filmes em casa para assistir um após
o outro, percebendo sua evolução
como ator, seu entrosamento perfeito com Felinni,
seu “cuide de mim” junto a Sophia
Loren... E depois rever Ginger
e Fred (o primeiro com ele que
lembro de ter assistido), Gabriela,
Cravo e Canela, Divorzio
all’italiana e os inigualáveis
La dolce vita e 8
½.
E
aprender a levar uma vida assim... doce.
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| Postado
em 12 de outubro de 2006, quinta |
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Mafalda no feriado




Acabo
de ganhar 10 pequenos livros de Mafalda,
a famosa personagem de Quino,
o argentino (filho de espanhóis) mais
bacana do mundo desde Carlos Gardel
(que nasceu na França).
Peguei
essas quatro tiras do primeiro volume, que
servem para dar uma idéia das personalidades
dos personagens e seus posicionamentos sociais
e políticos. Quem nunca leu Mafalda
que atire la primera piedra. Em si.
A
partir de amanhã, volto a escrever
loucamente. E o responsável por essa
Quinoterapia de feriado está no
post do Amigos do Lobo
desta mesma data.
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