| Postado
em 31 de outubro de 2005, terça |
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Os filhos de Neo e Marilyn Manson
Nunca
fui de andar em tribos. Muito menos dessas estereotipadas
e repletas de estigmas. Durante muitos anos usei
cabelos compridos (que estão voltando a
crescer) e, até hoje, tatuagens, jeans
e camisetas pretas. Desde os anos 80, rejeitei
os rótulos de metaleiro, roqueiro e outros
afins. Lembro de uma festa no Campus da UFRN,
no início dos anos 90, na qual não
fui preso graças aos estereótipos.
Algumas bandas ditas de metal se apresentaram
e o público headbanger promoveu
um quebra-quebra. A polícia baixou e levou
dezenas para a delegacia. A ordem era uma só:
teve cabelo comprido, está vestido
de preto, leva! Nesse dia – lembro
como se fosse hoje – eu estava de camiseta
branca.
Adolescentes,
em geral, são assim. Têm esse espírito
de hiena: adoram andar em bando e não pensam
muito. O engraçado é que fazem tudo
igual com a intenção de parecerem
diferentes. Em Brasília,
existe uma tribo que chamo de Os filhos
de Neo e Marilyn Manson. São dezenas,
às vezes centenas, de adolescentes que
se reúnem em frente ao Pátio
Brasil – um shopping no
início da Asa Sul – que invariavelmente
estão fantasiados como Marilyn Manson ou
como algum personagem de Matrix. Não
importa o sol de rachar coco que esteja fazendo,
eles sempre estão de preto da cabeça
aos pés, mangas compridas e sobretudo.
Como bons americanos.
Se
você tem um adolescente que faz parte dos
filhos de Neo e Marilyn Manson, deve ficar difícil
encontrá-lo no meio daquele bando tão
igual. Sugiro fazer implante de GPS nessas criaturas.
Eles ficam todos ali atravancando a porta do shopping,
por horas e horas, sem dinheiro sequer para tomar
um refrigerante. Imagine a situação:
vestidos como americanos (como se aqui fizesse
frio), louvando ícones americanos, na porta
de um templo de consumo estilo americano fazendo
algo que os jovens americanos sabem fazer muito
bem – NADA.
O
tiozinho aqui, todos sabem, nunca saiu da adolescência.
Visto-me do mesmo jeito, adoro um som pesado e
toco o terror sempre que posso. E sem risco de
bronca do papai ou corte de mesada. Essa é
a melhor parte. Pode ser apenas que meu vestibular
tenha encontrado seu equilíbrio e meus
hormônios tenham se harmonizado, mas tenho
a leve impressão que os adolescentes vão
piorando a cada geração.
Após
horas exercitando um azedo fazer nada, Os filhos
de Neo e Marilyn Manson tomam um ônibus
ou ligam de seus celulares para os pais que devem
apanhá-los ali mesmo na frente do shopping,
sem disfarces. Tira-se a fantasia, a pílula
azul faz efeito e estão todos de volta
à Matrix da forma que o filósofo
gaúcho previu: todos iguais, mas
uns mais iguais que os outros.
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| Postado
em 29 de outubro de 2005, sábado |
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Eu queria ser o Joey Ramone

Eu
nasci antes do punk. Mas, verdade seja
dita, ele não chegou tão rápido
a mim naquela casa no subúrbio de Todos
os Santos, no Rio de Janeiro. Minha mãe
escutava Roberto Carlos e rádio
AM. Muitos anos depois, já adulto, me peguei
em pleno show do Rei cantando todas as suas músicas.
Lavagem cerebral é algo sério! Mas
o Rei é o Rei. Voltemos ao punk.
Minha
primeira lembrança punk está gravada
lá pelos idos de 1983, 1984 quando o Kiss
fazia um sucesso louco pelo mundo e, na escola
em que eu estudava, um grupo resolveu montar uma
“banda
cover”
em homenagem aos mascarados. Era algo totalmente
sem noção. Os instrumentos eram
feitos de cartolina e isopor e o som ficava por
conta de um três em um grotesco. Mais sem
noção, só eu fantasiado de
punk indo ao “show”.
Já
naquele tempo, era difícil encontrar Gumex
nas farmácias. Aquilo iria garantir que
meu cabelo ficasse armado e apontando para cima.
Gumex tinha o poder! Calças rasgadas, umas
correntes em torno da cintura, pintura na cara
à base de pomada Minâncora
e lá estava, provavelmente, o primeiro
punk que o bairro de Pilares
veria em sua história.
Em
1987, já em Natal (RN),
a experiência foi mais... mais punk! Fazia
o segundo grau no Salesiano. Sentia-me totalmente
deslocado. Estava deixando o cabelo crescer e
os padres não viam isso com bons olhos.
Um dia resolvi cortar. “Raspa
dos lados e sobe a crista”.
O pessoal da barbearia do Seu Guedes
fala disso até hoje. O punk já era
um rapazinho de 12 anos, mas moicano em Natal
ninguém tinha visto ainda! O que eu passei
por causa desse corte merece bem mais que um parágrafo.
Fica para outra vez. Por ora, basta saber que
quase fui expulso do colégio.
Precisei baixar a crista. Literalmente. O cabelo
era penteado para os lados para cobrir as laterais
raspadas. Eu parecia um membro da Família
Addams.
Deve
ter sido mais ou menos nessa época que
o punk entrou com fé na minha vida. Roberto
foi destronado. Agora Joey Ramone
era o Rei! Depois a podreira foi crescendo: Sex
Pistols, The Clash,
Dead Kennedys, Dead Boys...
Mas aqueles três acordes e as letras grudentas
dos Ramones sempre tiveram um
lugar especial em minha vida. Os Ramones me ensinaram
muita coisa. Sem os Ramones, por exemplo, eu não
teria aprendido a contar até quatro em
inglês! One, two, three, four.
Chegamos
a 2005 e durante todo o ano, em todo o mundo,
aconteceram eventos comemorativos aos 30
anos do punk. Aqui em Brasília,
participei da mostra 30 Anos de Punk,
que rolou no CCBB. Foi light, mas valeu por uns
vídeos que eu ainda não havia visto.
Agora
em outubro, a ressuscitada Bizz
coloca os Ramones na capa. Praticamente ao mesmo
tempo, a americana Mojo, com
data de novembro, chega com uma capa quase igual.
A OutraCoisa também lembra
a data e até a Cult se
rendeu ao punk. Vale dar uma olhada nessas diferentes
abordagens. E enquanto você faz isso, fico
aqui com o Joey me inspirando para mais uns textos
sobre os jovens e suas manias.
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| Postado
em 24 de outubro de 2005, segunda |
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Tragédia em noite de ópera

Wagner
perdeu sobre o palco, e fora dele também.
Nos camarotes, alguns de seus admiradores mostraram
um comportamento irresponsável, para dizer
o mínimo. Logo no início de A
Cavalgada das Valquírias, uma bomba
foi jogada por um torcedor Wagneriano na direção
dos admiradores de Mozart. Depois
foram mais seis. Mozartianos, apesar do domínio
em palco, mandaram duas bombas na torcida rival.
Nas duas torcidas, crianças, mulheres e
idosos e os demais espectadores que saíram
de casa para se divertir assistiam, chocados,
à violência.
Das
sete bombas jogadas por torcedores Wagnerianos,
duas foram lançadas no intervalo entre
as duas primeiras árias. A essa altura,
o gás de pimenta jogado pela polícia
chegava a quem nada tinha a ver com a confusão.
As
duas torcidas estavam a 30 metros de distância
uma da outra, protegidas por um cordão
de isolamento policial. No meio delas, ainda havia
uma grade. O que também impressionou foi
que alguns Wagnerianos gritavam frases provocativas
e de mau gosto, como “eus,
eus, eus, dominamos o Amadeus”
ou “ã,
ã, ã, Jovem-Wagner é talibã”.
Além das bombas, houve confronto entre
as facções que jogavam objetos como
sapatos italianos, cartolas e o que encontravam
à mão.
A
Polícia Militar não conseguiu impedir
a entrada das pequenas bombas no teatro. Admiradores
de Mozart pegaram bengalas, para usar como arma.
A polícia interveio, e um de seus cachorros
acabou mordendo um dos soldados. Como o teatro
não estava lotado, as duas facções
poderiam estar mais afastadas uma da outra do
que os 30 metros determinados pela Polícia
Militar.
O
Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil atenderam
15 feridos durante a ópera. Dois casos
foram considerados graves e encaminhados ao hospital
Souza Aguiar: um torcedor apresentou queimaduras
e lesão de tímpano e o outro sofreu
ferimentos nos braços.
Antes
do início da ópera, houve registros
de tumultos envolvendo os admiradores de Wagner
e Mozart na cidade. Na Avenida Brasil, sentido
Centro, a polícia recebeu informações
de Limusines e Mercedes
depredadas, arrastão e brigas entre as
facções.
Também
antes da ópera, cerca de 700 admiradores
de Wagner partiram da estátua do Carlos
Gomes, na parte externa do Theatro Municipal,
até o Cine Odeon.
Na
esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Evaristo
da Veiga, houve princípio de confusão
porque o grupo Wagneriano teria encontrado admiradores
de Mozart, mas a situação foi controlada
pelos policiais militares. Apesar do clima tenso
antes da ópera, não houve confronto
durante o percurso.
Um
pouco mais distante, na saída do jogo entre
Vasco e Flamengo, no
Maracanã, torcedores dos times ficaram
sabendo dos conflitos no Theatro Municipal. Todos
os entrevistados foram unânimes em dizer
que a violência nas óperas precisa
acabar. “Esses
selvagens deveriam ser impedidos de ir ao teatro”,
disse um torcedor do Flamengo. Um amigo seu, vascaíno,
completou: “Pessoas
assim não deveriam viver em sociedade”.
Texto
sobre matéria de Paula Santos Dias e Pedro
Motta Gueiros
no jornal O Globo de 23 de outubro de
2005.
Foto: Cena de O Anjo Exterminador, de
Luis Buñuel.
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| Postado
em 21 de outubro de 2005, sexta |
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Esses meus amigos espaçosos

Minha
geração viveu várias transições.
A mais revolucionária, certamente, foi
a causada pelo surgimento dos computadores pessoais
e da Internet. A informatização
e o acesso à informação quebraram
paradigmas. Talvez o mais polêmico dele
seja em relação ao espaço
que os livros ocupam. Hoje é possível
ter em um disco de poucos gramas, menor que um
dedo mínimo, o conteúdo de mais
de mil livros. Já mil livros, na forma
tradicional, ocupam um espaço considerável.
Dentre
os dramas que vivo, um deles diz respeito ao espaço
ocupado pelos livros e seus parentes: as revistas,
os jornais e demais papéis. Tenho a impressão
de que moramos na casa deles.
Até aí, tudo bem. O problema é
quando precisamos nos mudar. Um problema, aliás,
bem pesado. Sem falar em todo o trabalho que dá
arrumar tudo aquilo em caixas e depois rearrumar
em estantes.
Atualmente
parte de minha biblioteca mora conosco em Brasília.
Outra parte continua morando em Natal. Como eu
e minha esposa temos espírito cigano, começamos
a nos preocupar em decidir por um lugar no qual
esse material more em definitivo. Para mim, será
uma dor terrível saber que “aquele
livro” poderá não estar logo
ali na sala, mas ou me acostumo com isso ou moramos
em um caminhão baú.
Esta
semana estive falando com Clotilde Tavares
– médica, atriz, professora, escritora
e mais um monte de coisas –, campinense
que há anos trocou sua terra por Natal
e agora, alforriada de seus anos como professora
universitária, volta a morar, pelo menos
alguns dias por mês, na Paraíba,
desta vez na capital João Pessoa.
Como todo amante das letras, Clotilde tem uma
boa biblioteca, que fica em sua casa em Natal.
Em João Pessoa, mora em um flat e
está felicíssima com seu novo espaço
de 7 por 3 metros e o mínimo de coisas
possíveis em seus dias pessoenses.
No
dia seguinte, uma jovem vizinha, de 12 anos, ficou
impressionada com a quantidade de livros que temos
em casa. Minha filha Aimée,
com a mesma idade, vive aterrorizada por um pai
que pretende fazê-la ler tudo aquilo e muito
mais. Ananda, aos cinco anos,
nem bem começou a ler e já vai ganhar
um tijolaço de 750 páginas dentre
os presentes de Natal. Já Pietro
está fadado a aprender a ler antes mesmo
de aprender a falar.
São
fases diferentes. A que vivemos atualmente é
a da busca por mais espaço físico.
Não
sei o quanto ainda crescerá essa biblioteca
com a qual moramos e se um dia, desde já
declaradamente contra minha vontade, conseguirei
me separar dela. Seja como for, os livros, seus
parentes e agregados são todos muito bem-vindos
e podem ocupar o espaço que desejarem em
nossas vidas.
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| Postado
em 19 de outubro de 2005, quarta |
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Monsieur Guillotin, Mr. Moses e O Bom Carioca

Em
um final de tarde, na Ponta do Leme, de onde se
pode avistar não só toda a extensão
desta praia mas também boa parte da de
Copacabana, até o Forte, tomavam algumas
cervejas Monsieur Guillotin, Mr. Moses e alguns
aborígines. Por virem de países
mais antigos e mais civilizados, Monsieur Guillotin
e Mr. Moses foram instados a opinar sobre a violência
e os meios de combatê-la.
Monsieur
Guillotin começou a defender uma medida
dura: a pena de morte e sua democratização.
Não importaria a origem social do culpado,
todos teriam a mesma morte rápida e piedosa.
Chegou a lembrar que ainda ontem faziam isso em
seu país. “Há
menos de 25 anos ainda tínhamos essa forma
eficiente de lidar com criminosos”.
Foi
aplaudido por todos os presentes.
Entusiasmando
com os aplausos, Mr. Moses disse que em seu país
isso ainda era prática corrente. Não
em todo o território, mas em boa parte
dele. A morte vinha de várias formas. “Infelizmente
não com uma boa bala como nos velhos tempos”,
arrematou.
Mais
aplausos dos nativos.
Então,
juntou-se ao grupo um senhor que há muito
deixara o Rio. Ele era conhecido como O Bom Carioca.
Monsieur Guillotin e Mr. Moses quiseram saber
o que ele achava do combate à violência
em sua terra. O Bom Carioca perguntou: “Que
violência?”
Todos ficaram pasmos. Estavam ali defendendo a
pena de morte e o armamento da população
para acabar com tanta violência e ele vinha
com tal pergunta?
Acalmado
o assombro inicial causado pela pergunta, O Bom
Carioca começou a explicar que no Rio de
sua infância e juventude, no Rio de sua
memória, não havia qualquer violência.
Não havia temor de andar pelas ruas nem
a incerteza da volta para casa. Não se
olhava com desconfiança quem entrasse nos
ônibus e as festas populares eram para toda
a família. Usavam-se jóias como
se usam roupas e o máximo que poderia acontecer
era topar com algum malandro capoeirista que pudesse
puxar um navalha.
Era
um Rio que não tinha medo.
E
não tendo medo, não precisava se
armar contra ele. Não precisava inventar
meios de matá-lo.
Com
o cair do sol, O Bom Carioca levantou um brinde
solitário à sua liberdade e à
doçura de seu viver. Um viver que, em sua
terra, já não vive.
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| Postado
em 14 de outubro de 2005, sexta |
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O processo

Fiquei
famoso sem que percebesse. Tornei-me endinheirado
sem que me avisassem. Vi-me polêmico sem
jamais querer sê-lo. Por tais absurdas suposições,
não poderia esperar menos que um processo.
Um ao menos. Mas eis que chegam vários
sem que sequer me façam conhecer seu coletivo.
Na falta de um mais adequado, digo que chegam
aos maços. E como um Joseph K. que nunca
descobre as verdadeiras razões de sua prisão,
seu julgamento, sua condenação,
fico a perguntar: por que as pessoas não
se entendem? Por que toda conciliação
contém mentiras e começam com ameaças?
Neste romance kafkiano – ou kafkaniano,
como queira, não entremos em litígio
– em que tem se tornado minha vida, já
começo a pensar se não seria mais
vantajoso virar barata ou simplesmente desaparecer.
Uma carta ao pai? Só se for ao do céu.
Melhor entregar o que tenho e o que não
tenho e tornar-me um artista da fome. Não
tomo a faca que de mão em mão passa
sobre meu corpo. A quem de Direito, que baixe
o Cascudo. Sem dó nem pena. Em vara de
família ou em brigas de cinema. Durante
esse longo, enfadonho e não editado capítulo,
junto todo o fôlego e espero o final com
a certeza de que a verdade jamais me tirarão.
Como diria Dom Chico Chicote: “Acreditem-me,
o amor é mais forte que a morte”.
E dos requerentes, vítimas, advogados,
juízes, peço apenas que, antes de
pedirem minha cabeça, ao menos leiam O
processo.
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| Postado
em 10 de outubro de 2005, segunda |
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Ah, essa falta de tempo!

Every
year is getting shorter, never seem to find the
time
Plans that either come to naught or half a page
of scribbled lines
Cada
ano que passa é mais curto, você
nunca encontra tempo
Planos que dão em nada ou meia página
de linhas rabiscadas
(Time
– Pink Floyd)
Mas o que é o tempo senão uma de
nossas maiores prisões?
“Sandro,
como é que você consegue fazer isso
tudo?” Minha resposta é sempre a
mesma: “Sei lá! Se eu parar
para pensar, acabo não fazendo”.
Sabe o motivo? Porque eu poderia acreditar que
não haveria tempo para fazer.
Perguntaram
a Santo Agostinho o que é
o tempo. Ele respondeu: “Se ninguém
me perguntar, eu sei. Mas, se quiser explicar
a alguém, aí já não
sei”.
Mas
sempre fica algo por fazer. E daí? Faço
depois. Depois de quando? De agora ou depois de
depois. Diferente das pessoas que correm, nunca
chegam a lugar algum e não têm tempo
para nada, eu estou exatamente onde quero
estar e tenho todo o tempo do mundo.
Tenho
mil coisas a fazer, mas não quero dar essa
impressão. Perderia tempo se o fizesse.
Há quem nada faça e propagandeie
total escassez de tempo. Não administro
minhas ações como gostaria.
Isso não me faz ganhar ou perder tempo.
Quando muito, pode me chatear por não ter
feito isso ou aquilo. E se isso acontece é
porque me permiti cair nas garras do tempo.
Hoje
e sempre tenho todo o tempo do Universo.
Tempo para ficar mais na cama, para demorar no
banho, para dizer “Eu te amo, Criança!”,
para cheirar e morder meus filhos, para escrever
ou ligar para os amigos, para ler todos os livros
de todas as estantes que existam...
Quem
pensa que tempo é aquilo que se marca no
relógio também deve achar que sexo
é meter, gozar e correr para o chuveiro.
Assim, rapidinho, que é pra não
perder tempo.
Desconfie
sempre ao ouvir “estou sem tempo”
ou “o tempo está correndo muito”.
E ao flagrar-se dizendo algo assim, pergunte-se:
“Se não tenho tempo para viver, por
que viver?” Afinal, tempo é
o que não falta a quem está morto.
Estou
em paz comigo e com a vida. Tenho todo
o tempo que existe e mais o que invento.
E
você?
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| Postado
em 5 de outubro de 2005, quarta |
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Antes que Marlene se vá

Escrevi alguns necrológios.
O primeiro foi o de Jesiel
Figueiredo, ator e diretor
de teatro. Ele havia me chamado para escrever
sua biografia e – peças do destino
– fui o último jornalista a entrevistá-lo
poucos meses antes do acidente de carro que tirou
sua vida. Outro foi para um dos melhores professores
que tive na universidade: Rogério
Cadengue.
Os
melhores necrológios são escritos
por pessoas que conhecem o falecido. Capta-se
algo da essência, do convívio e faz-se
um elogio honesto, emocionado e, acima de tudo,
verdadeiro. Por outro lado, é terrível
escrever sobre um amigo que morreu. É bem
mais fácil fazê-lo para alguém
distante.
Como
memorialista, sou obrigado a
conviver com as lembranças deixadas pelos
que partem, mas nos últimos dias aqueles
que partiram mexeram com as minhas lembranças.
Primeiro
foi Don Adams, o agente 86. Maxwell
Smart que, junto a agente 99, remonta meus primeiros
risos na frente da tevê. Dois dias depois,
foi Golias, que também
me fez lembrar Mussum e Zacarias.
E, na última segunda, Emilinha
Borba. Opa! Mas o que Emilinha Borba
tem a ver com minhas lembranças? Pode ter
com as dos meus pais e do meu avô. Não
com as minhas.
Emilinha,
para mim, é um mito. Alguém de quem
ouvi falar muito e que considero A cantora popular
que o Brasil teve. Perguntem isso aos seus pais
e avós. Nunca houve nada parecido, nem
antes nem depois. O mais próximo foi sua
amiga feita rival na imaginação
dos ardorosos fãs de uma e de outra: Marlene.
Há
quase 15 anos, nossos destinos se cruzaram.
Ela, já uma senhora na casa dos sessenta
e eu ainda sem ter completado 20 anos. Foi um
encontro sexy. Marlene sempre foi famosa
pelas belas pernas. Cobertas por uma meia-calça
preta, ela se aproximou de mim sem pudores. Cantando.
Percebi que tremia um pouco. Pudera, estávamos
em público. Eram quase mil pessoas ao nosso
redor. Com uma perna apoiada na cadeira em que
eu estava sentado, ela perguntou, para que todos
ouvissem, se eu já… “Já”,
claro, eu não negaria. Ela insistiu na
pergunta. Eu reiterei: “Já”.
E Marlene completou a música: “Todo
homem um dia já broxou”.
Toda
a platéia riu e, da doce Marlene, ganhei
um beijo carinhoso. Era um momento da peça
Um céu de asfalto,
com textos de Bertold Brecht,
que ela encenou com Sérgio Britto.
Desejo
que Marlene seja mais longeva que Dercy
Gonçalves (desconfio que ela e
Sílvio Santos sejam imortais).
Mas só para garantir, quero dizer a ela
que, verdadeiramente, nunca nos deixará.
Assim como Emilinha Borba, Marlene faz parte de
uma estirpe que jamais será esquecida.
Se
você, ainda muito novo, nunca ouviu falar
em Ary Barroso, Vicente
Celestino, Orlando Silva,
Herivelto Martins ou Nelson
Gonçalves, procure conhecê-los.
Independente do seu gosto musical, você
perceberá que, em algum momento, música
popular não era sinônimo de música
de mau gosto. Vai se perguntar: quando, como e
por que isso se perdeu? Por que ficamos tão
idiotas?
Você
não vai ter a lembrança de um beijo
dado por Marlene, mas saberá que um dia
fomos mais amáveis, mais ingênuos
e tivemos um gosto “popular
mais refinado”.
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| Postado
em 3 de outubro de 2005, segunda |
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As armas e as leis

Lembro de uma antiga garrucha
Rossi, brasileira, de dois canos e dois gatilhos
que meu avô tinha guardada em uma gaveta.
Sempre que podia, eu ia mexer nela. Já
naquela época, munição para
aquela arma só poderia ser “conseguida”
em um museu.
Tive
outras três armas: uma Mauser 5
e duas metralhadoras. Todas de brinquedo. Fora
as dos meus Falcons. Contando com essas, tive
até um jipe com canhão antiaéreo!
Era um tempo em que não se pensava muito
na influência que armas de brinquedo poderiam
ter sobre as crianças. Arma era brinquedo
de menino e pronto.
Nunca
tive uma arma de fogo de verdade e creio que jamais
terei. Sou de opinião de que elas
nem deveriam ter sido inventadas.
Vivemos
agora o dilema de votar a favor ou contra o desarmamento.
Há apenas duas opções de
voto mas, pelo menos, três tipos
de posicionamento: a de quem tem arma
e precisa dela, a de quem não tem e é
radicalmente contra e a de que não tem
e nunca se importou com isso. A opinião
desses últimos é que vai dar o resultado
do referendo.
Ideais
à parte e tentando ser pragmático,
digo que detesto armas, não pretendo ter,
mas não pensaria duas vezes em usar uma
para defender minha esposa e filhos. Numa boa:
passaria chumbo, sem dó ou remorsos, no
primeiro infeliz que tentasse algo contra eles.
O
bom senso diz que o que é bom para
uma pessoa necessariamente não
é para outra. Sou um urbanóide que,
tão logo seja possível, pretende
correr para o campo. Acho que quem puxa uma arma
numa discussão no trânsito é
um criminoso como outro qualquer. Mas acho a coisa
mais natural do mundo andar com um revólver
ou uma carabina à mostra em uma área
rural.
Analisando
as duas campanhas na tevê, é fácil
perceber isso. Os argumentos de ambos
são coerentes e têm seus porquês.
Lei
nenhuma vai desarmar quem realmente quer ter uma
arma. Se proibição valesse
alguma coisa, ninguém fumaria
maconha, cheiraria coca ou usaria qualquer outra
droga taxada de ilícita.
A
campanha do desarmamento, que já recolheu
mais de quatrocentas mil armas, é um belo
exemplo de democracia. Por vontade
própria, aquele que não se sente
mais à vontade com uma arma dentro de casa,
se desfaz dela. Com o Estatuto do desarmamento,
há uma imposição:
ninguém pode ter armas. Não seria
nada demais, principalmente para os 96,5% de domicílios
que não têm uma arma em casa. Mas
a partir do momento que isso vira lei, que é
institucionalizado, que é obrigatório,
há uma série de conseqüências,
desdobramentos e novas interpretações.
Um
exemplo: Em áreas de praia, arrombamento
de casas vazias, fora do verão, é
algo comum. Assim como em cidades próximas,
os domicílios são atacadas quando
seus moradores se mudam para as casas de praia
durante o verão. Por que isso acontece
dessa maneira? Porque a possibilidade de alguém
ter uma arma dentro de casa intimida – e
muito! – a entrada de quem pensa em cometer
um arrombamento. Como diz o ditado: quem
pensa, não faz. E se o ladrão
tiver a certeza de que não há uma
arma naquela casa, ele se intimidaria?
Outro
exemplo: hoje, se você pega uma arma, sai
à rua e atira, digamos, em um vizinho,
você é um criminoso. Mas se alguém
invade sua casa e você mata essa pessoa
com um tiro, isso é legítima
defesa. Dificilmente você seria
condenado por homicídio. A partir do momento
em que o porte de armas é totalmente proibido,
se essa situação se repetir, você
é um criminoso. E se você não
matar, poderá ser processado por
quem invadiu sua casa: porte ilegal de
arma e tentativa de homicídio.
Lei
só atinge gente de bem. Por isso
mesmo os criminosos também são chamados
de foras-da-lei. Ou alguém
acha que o Estatuto do desarmamento vai atingi-los
também?
Portanto,
voto pelo desarmamento. Dos bandidos.
Em seguida, pelo da polícia. E só
depois o da população que, a essa
altura, não vai ter motivo algum para ter
uma arma.
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