Postado em 31 de outubro de 2005, terça

:: Os filhos de Neo e Marilyn Manson

Nunca fui de andar em tribos. Muito menos dessas estereotipadas e repletas de estigmas. Durante muitos anos usei cabelos compridos (que estão voltando a crescer) e, até hoje, tatuagens, jeans e camisetas pretas. Desde os anos 80, rejeitei os rótulos de metaleiro, roqueiro e outros afins. Lembro de uma festa no Campus da UFRN, no início dos anos 90, na qual não fui preso graças aos estereótipos. Algumas bandas ditas de metal se apresentaram e o público headbanger promoveu um quebra-quebra. A polícia baixou e levou dezenas para a delegacia. A ordem era uma só: teve cabelo comprido, está vestido de preto, leva! Nesse dia – lembro como se fosse hoje – eu estava de camiseta branca.

Adolescentes, em geral, são assim. Têm esse espírito de hiena: adoram andar em bando e não pensam muito. O engraçado é que fazem tudo igual com a intenção de parecerem diferentes. Em Brasília, existe uma tribo que chamo de Os filhos de Neo e Marilyn Manson. São dezenas, às vezes centenas, de adolescentes que se reúnem em frente ao Pátio Brasil – um shopping no início da Asa Sul – que invariavelmente estão fantasiados como Marilyn Manson ou como algum personagem de Matrix. Não importa o sol de rachar coco que esteja fazendo, eles sempre estão de preto da cabeça aos pés, mangas compridas e sobretudo. Como bons americanos.

Se você tem um adolescente que faz parte dos filhos de Neo e Marilyn Manson, deve ficar difícil encontrá-lo no meio daquele bando tão igual. Sugiro fazer implante de GPS nessas criaturas. Eles ficam todos ali atravancando a porta do shopping, por horas e horas, sem dinheiro sequer para tomar um refrigerante. Imagine a situação: vestidos como americanos (como se aqui fizesse frio), louvando ícones americanos, na porta de um templo de consumo estilo americano fazendo algo que os jovens americanos sabem fazer muito bem – NADA.

O tiozinho aqui, todos sabem, nunca saiu da adolescência. Visto-me do mesmo jeito, adoro um som pesado e toco o terror sempre que posso. E sem risco de bronca do papai ou corte de mesada. Essa é a melhor parte. Pode ser apenas que meu vestibular tenha encontrado seu equilíbrio e meus hormônios tenham se harmonizado, mas tenho a leve impressão que os adolescentes vão piorando a cada geração.

Após horas exercitando um azedo fazer nada, Os filhos de Neo e Marilyn Manson tomam um ônibus ou ligam de seus celulares para os pais que devem apanhá-los ali mesmo na frente do shopping, sem disfarces. Tira-se a fantasia, a pílula azul faz efeito e estão todos de volta à Matrix da forma que o filósofo gaúcho previu: todos iguais, mas uns mais iguais que os outros.

 
Postado em 29 de outubro de 2005, sábado

:: Eu queria ser o Joey Ramone

Eu nasci antes do punk. Mas, verdade seja dita, ele não chegou tão rápido a mim naquela casa no subúrbio de Todos os Santos, no Rio de Janeiro. Minha mãe escutava Roberto Carlos e rádio AM. Muitos anos depois, já adulto, me peguei em pleno show do Rei cantando todas as suas músicas. Lavagem cerebral é algo sério! Mas o Rei é o Rei. Voltemos ao punk.

Minha primeira lembrança punk está gravada lá pelos idos de 1983, 1984 quando o Kiss fazia um sucesso louco pelo mundo e, na escola em que eu estudava, um grupo resolveu montar uma banda cover em homenagem aos mascarados. Era algo totalmente sem noção. Os instrumentos eram feitos de cartolina e isopor e o som ficava por conta de um três em um grotesco. Mais sem noção, só eu fantasiado de punk indo ao show.

Já naquele tempo, era difícil encontrar Gumex nas farmácias. Aquilo iria garantir que meu cabelo ficasse armado e apontando para cima. Gumex tinha o poder! Calças rasgadas, umas correntes em torno da cintura, pintura na cara à base de pomada Minâncora e lá estava, provavelmente, o primeiro punk que o bairro de Pilares veria em sua história.

Em 1987, já em Natal (RN), a experiência foi mais... mais punk! Fazia o segundo grau no Salesiano. Sentia-me totalmente deslocado. Estava deixando o cabelo crescer e os padres não viam isso com bons olhos. Um dia resolvi cortar. Raspa dos lados e sobe a crista. O pessoal da barbearia do Seu Guedes fala disso até hoje. O punk já era um rapazinho de 12 anos, mas moicano em Natal ninguém tinha visto ainda! O que eu passei por causa desse corte merece bem mais que um parágrafo. Fica para outra vez. Por ora, basta saber que quase fui expulso do colégio. Precisei baixar a crista. Literalmente. O cabelo era penteado para os lados para cobrir as laterais raspadas. Eu parecia um membro da Família Addams.

Deve ter sido mais ou menos nessa época que o punk entrou com fé na minha vida. Roberto foi destronado. Agora Joey Ramone era o Rei! Depois a podreira foi crescendo: Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys, Dead Boys... Mas aqueles três acordes e as letras grudentas dos Ramones sempre tiveram um lugar especial em minha vida. Os Ramones me ensinaram muita coisa. Sem os Ramones, por exemplo, eu não teria aprendido a contar até quatro em inglês! One, two, three, four.

Chegamos a 2005 e durante todo o ano, em todo o mundo, aconteceram eventos comemorativos aos 30 anos do punk. Aqui em Brasília, participei da mostra 30 Anos de Punk, que rolou no CCBB. Foi light, mas valeu por uns vídeos que eu ainda não havia visto.

Agora em outubro, a ressuscitada Bizz coloca os Ramones na capa. Praticamente ao mesmo tempo, a americana Mojo, com data de novembro, chega com uma capa quase igual. A OutraCoisa também lembra a data e até a Cult se rendeu ao punk. Vale dar uma olhada nessas diferentes abordagens. E enquanto você faz isso, fico aqui com o Joey me inspirando para mais uns textos sobre os jovens e suas manias.

 
Postado em 24 de outubro de 2005, segunda

:: Tragédia em noite de ópera

Wagner perdeu sobre o palco, e fora dele também. Nos camarotes, alguns de seus admiradores mostraram um comportamento irresponsável, para dizer o mínimo. Logo no início de A Cavalgada das Valquírias, uma bomba foi jogada por um torcedor Wagneriano na direção dos admiradores de Mozart. Depois foram mais seis. Mozartianos, apesar do domínio em palco, mandaram duas bombas na torcida rival. Nas duas torcidas, crianças, mulheres e idosos e os demais espectadores que saíram de casa para se divertir assistiam, chocados, à violência.

Das sete bombas jogadas por torcedores Wagnerianos, duas foram lançadas no intervalo entre as duas primeiras árias. A essa altura, o gás de pimenta jogado pela polícia chegava a quem nada tinha a ver com a confusão.

As duas torcidas estavam a 30 metros de distância uma da outra, protegidas por um cordão de isolamento policial. No meio delas, ainda havia uma grade. O que também impressionou foi que alguns Wagnerianos gritavam frases provocativas e de mau gosto, como eus, eus, eus, dominamos o Amadeus ou ã, ã, ã, Jovem-Wagner é talibã. Além das bombas, houve confronto entre as facções que jogavam objetos como sapatos italianos, cartolas e o que encontravam à mão.

A Polícia Militar não conseguiu impedir a entrada das pequenas bombas no teatro. Admiradores de Mozart pegaram bengalas, para usar como arma. A polícia interveio, e um de seus cachorros acabou mordendo um dos soldados. Como o teatro não estava lotado, as duas facções poderiam estar mais afastadas uma da outra do que os 30 metros determinados pela Polícia Militar.

O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil atenderam 15 feridos durante a ópera. Dois casos foram considerados graves e encaminhados ao hospital Souza Aguiar: um torcedor apresentou queimaduras e lesão de tímpano e o outro sofreu ferimentos nos braços.

Antes do início da ópera, houve registros de tumultos envolvendo os admiradores de Wagner e Mozart na cidade. Na Avenida Brasil, sentido Centro, a polícia recebeu informações de Limusines e Mercedes depredadas, arrastão e brigas entre as facções.

Também antes da ópera, cerca de 700 admiradores de Wagner partiram da estátua do Carlos Gomes, na parte externa do Theatro Municipal, até o Cine Odeon.

Na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Evaristo da Veiga, houve princípio de confusão porque o grupo Wagneriano teria encontrado admiradores de Mozart, mas a situação foi controlada pelos policiais militares. Apesar do clima tenso antes da ópera, não houve confronto durante o percurso.

Um pouco mais distante, na saída do jogo entre Vasco e Flamengo, no Maracanã, torcedores dos times ficaram sabendo dos conflitos no Theatro Municipal. Todos os entrevistados foram unânimes em dizer que a violência nas óperas precisa acabar. Esses selvagens deveriam ser impedidos de ir ao teatro, disse um torcedor do Flamengo. Um amigo seu, vascaíno, completou: Pessoas assim não deveriam viver em sociedade.

Texto sobre matéria de Paula Santos Dias e Pedro Motta Gueiros
no jornal O Globo de 23 de outubro de 2005.
Foto: Cena de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel.

 
Postado em 21 de outubro de 2005, sexta

:: Esses meus amigos espaçosos

Minha geração viveu várias transições. A mais revolucionária, certamente, foi a causada pelo surgimento dos computadores pessoais e da Internet. A informatização e o acesso à informação quebraram paradigmas. Talvez o mais polêmico dele seja em relação ao espaço que os livros ocupam. Hoje é possível ter em um disco de poucos gramas, menor que um dedo mínimo, o conteúdo de mais de mil livros. Já mil livros, na forma tradicional, ocupam um espaço considerável.

Dentre os dramas que vivo, um deles diz respeito ao espaço ocupado pelos livros e seus parentes: as revistas, os jornais e demais papéis. Tenho a impressão de que moramos na casa deles. Até aí, tudo bem. O problema é quando precisamos nos mudar. Um problema, aliás, bem pesado. Sem falar em todo o trabalho que dá arrumar tudo aquilo em caixas e depois rearrumar em estantes.

Atualmente parte de minha biblioteca mora conosco em Brasília. Outra parte continua morando em Natal. Como eu e minha esposa temos espírito cigano, começamos a nos preocupar em decidir por um lugar no qual esse material more em definitivo. Para mim, será uma dor terrível saber que “aquele livro” poderá não estar logo ali na sala, mas ou me acostumo com isso ou moramos em um caminhão baú.

Esta semana estive falando com Clotilde Tavares – médica, atriz, professora, escritora e mais um monte de coisas –, campinense que há anos trocou sua terra por Natal e agora, alforriada de seus anos como professora universitária, volta a morar, pelo menos alguns dias por mês, na Paraíba, desta vez na capital João Pessoa. Como todo amante das letras, Clotilde tem uma boa biblioteca, que fica em sua casa em Natal. Em João Pessoa, mora em um flat e está felicíssima com seu novo espaço de 7 por 3 metros e o mínimo de coisas possíveis em seus dias pessoenses.

No dia seguinte, uma jovem vizinha, de 12 anos, ficou impressionada com a quantidade de livros que temos em casa. Minha filha Aimée, com a mesma idade, vive aterrorizada por um pai que pretende fazê-la ler tudo aquilo e muito mais. Ananda, aos cinco anos, nem bem começou a ler e já vai ganhar um tijolaço de 750 páginas dentre os presentes de Natal. Já Pietro está fadado a aprender a ler antes mesmo de aprender a falar.

São fases diferentes. A que vivemos atualmente é a da busca por mais espaço físico.

Não sei o quanto ainda crescerá essa biblioteca com a qual moramos e se um dia, desde já declaradamente contra minha vontade, conseguirei me separar dela. Seja como for, os livros, seus parentes e agregados são todos muito bem-vindos e podem ocupar o espaço que desejarem em nossas vidas.

 
Postado em 19 de outubro de 2005, quarta

:: Monsieur Guillotin, Mr. Moses e O Bom Carioca

Em um final de tarde, na Ponta do Leme, de onde se pode avistar não só toda a extensão desta praia mas também boa parte da de Copacabana, até o Forte, tomavam algumas cervejas Monsieur Guillotin, Mr. Moses e alguns aborígines. Por virem de países mais antigos e mais civilizados, Monsieur Guillotin e Mr. Moses foram instados a opinar sobre a violência e os meios de combatê-la.

Monsieur Guillotin começou a defender uma medida dura: a pena de morte e sua democratização. Não importaria a origem social do culpado, todos teriam a mesma morte rápida e piedosa. Chegou a lembrar que ainda ontem faziam isso em seu país. Há menos de 25 anos ainda tínhamos essa forma eficiente de lidar com criminosos.

Foi aplaudido por todos os presentes.

Entusiasmando com os aplausos, Mr. Moses disse que em seu país isso ainda era prática corrente. Não em todo o território, mas em boa parte dele. A morte vinha de várias formas. Infelizmente não com uma boa bala como nos velhos tempos, arrematou.

Mais aplausos dos nativos.

Então, juntou-se ao grupo um senhor que há muito deixara o Rio. Ele era conhecido como O Bom Carioca. Monsieur Guillotin e Mr. Moses quiseram saber o que ele achava do combate à violência em sua terra. O Bom Carioca perguntou: Que violência? Todos ficaram pasmos. Estavam ali defendendo a pena de morte e o armamento da população para acabar com tanta violência e ele vinha com tal pergunta?

Acalmado o assombro inicial causado pela pergunta, O Bom Carioca começou a explicar que no Rio de sua infância e juventude, no Rio de sua memória, não havia qualquer violência. Não havia temor de andar pelas ruas nem a incerteza da volta para casa. Não se olhava com desconfiança quem entrasse nos ônibus e as festas populares eram para toda a família. Usavam-se jóias como se usam roupas e o máximo que poderia acontecer era topar com algum malandro capoeirista que pudesse puxar um navalha.

Era um Rio que não tinha medo.

E não tendo medo, não precisava se armar contra ele. Não precisava inventar meios de matá-lo.

Com o cair do sol, O Bom Carioca levantou um brinde solitário à sua liberdade e à doçura de seu viver. Um viver que, em sua terra, já não vive.

 
Postado em 14 de outubro de 2005, sexta

:: O processo

Fiquei famoso sem que percebesse. Tornei-me endinheirado sem que me avisassem. Vi-me polêmico sem jamais querer sê-lo. Por tais absurdas suposições, não poderia esperar menos que um processo. Um ao menos. Mas eis que chegam vários sem que sequer me façam conhecer seu coletivo. Na falta de um mais adequado, digo que chegam aos maços. E como um Joseph K. que nunca descobre as verdadeiras razões de sua prisão, seu julgamento, sua condenação, fico a perguntar: por que as pessoas não se entendem? Por que toda conciliação contém mentiras e começam com ameaças? Neste romance kafkiano – ou kafkaniano, como queira, não entremos em litígio – em que tem se tornado minha vida, já começo a pensar se não seria mais vantajoso virar barata ou simplesmente desaparecer. Uma carta ao pai? Só se for ao do céu. Melhor entregar o que tenho e o que não tenho e tornar-me um artista da fome. Não tomo a faca que de mão em mão passa sobre meu corpo. A quem de Direito, que baixe o Cascudo. Sem dó nem pena. Em vara de família ou em brigas de cinema. Durante esse longo, enfadonho e não editado capítulo, junto todo o fôlego e espero o final com a certeza de que a verdade jamais me tirarão. Como diria Dom Chico Chicote: Acreditem-me, o amor é mais forte que a morte. E dos requerentes, vítimas, advogados, juízes, peço apenas que, antes de pedirem minha cabeça, ao menos leiam O processo.

 
Postado em 10 de outubro de 2005, segunda

:: Ah, essa falta de tempo!

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines

Cada ano que passa é mais curto, você nunca encontra tempo
Planos que dão em nada ou meia página de linhas rabiscadas
(Time – Pink Floyd)


Mas o que é o tempo senão uma de nossas maiores prisões?

“Sandro, como é que você consegue fazer isso tudo?” Minha resposta é sempre a mesma: “Sei lá! Se eu parar para pensar, acabo não fazendo”. Sabe o motivo? Porque eu poderia acreditar que não haveria tempo para fazer.

Perguntaram a Santo Agostinho o que é o tempo. Ele respondeu: “Se ninguém me perguntar, eu sei. Mas, se quiser explicar a alguém, aí já não sei”.

Mas sempre fica algo por fazer. E daí? Faço depois. Depois de quando? De agora ou depois de depois. Diferente das pessoas que correm, nunca chegam a lugar algum e não têm tempo para nada, eu estou exatamente onde quero estar e tenho todo o tempo do mundo.

Tenho mil coisas a fazer, mas não quero dar essa impressão. Perderia tempo se o fizesse. Há quem nada faça e propagandeie total escassez de tempo. Não administro minhas ações como gostaria. Isso não me faz ganhar ou perder tempo. Quando muito, pode me chatear por não ter feito isso ou aquilo. E se isso acontece é porque me permiti cair nas garras do tempo.

Hoje e sempre tenho todo o tempo do Universo. Tempo para ficar mais na cama, para demorar no banho, para dizer “Eu te amo, Criança!”, para cheirar e morder meus filhos, para escrever ou ligar para os amigos, para ler todos os livros de todas as estantes que existam...

Quem pensa que tempo é aquilo que se marca no relógio também deve achar que sexo é meter, gozar e correr para o chuveiro. Assim, rapidinho, que é pra não perder tempo.

Desconfie sempre ao ouvir “estou sem tempo” ou “o tempo está correndo muito”. E ao flagrar-se dizendo algo assim, pergunte-se: “Se não tenho tempo para viver, por que viver?” Afinal, tempo é o que não falta a quem está morto.

Estou em paz comigo e com a vida. Tenho todo o tempo que existe e mais o que invento.

E você?

 
Postado em 5 de outubro de 2005, quarta

:: Antes que Marlene se vá

Escrevi alguns necrológios. O primeiro foi o de Jesiel Figueiredo, ator e diretor de teatro. Ele havia me chamado para escrever sua biografia e – peças do destino – fui o último jornalista a entrevistá-lo poucos meses antes do acidente de carro que tirou sua vida. Outro foi para um dos melhores professores que tive na universidade: Rogério Cadengue.

Os melhores necrológios são escritos por pessoas que conhecem o falecido. Capta-se algo da essência, do convívio e faz-se um elogio honesto, emocionado e, acima de tudo, verdadeiro. Por outro lado, é terrível escrever sobre um amigo que morreu. É bem mais fácil fazê-lo para alguém distante.

Como memorialista, sou obrigado a conviver com as lembranças deixadas pelos que partem, mas nos últimos dias aqueles que partiram mexeram com as minhas lembranças.

Primeiro foi Don Adams, o agente 86. Maxwell Smart que, junto a agente 99, remonta meus primeiros risos na frente da tevê. Dois dias depois, foi Golias, que também me fez lembrar Mussum e Zacarias. E, na última segunda, Emilinha Borba. Opa! Mas o que Emilinha Borba tem a ver com minhas lembranças? Pode ter com as dos meus pais e do meu avô. Não com as minhas.

Emilinha, para mim, é um mito. Alguém de quem ouvi falar muito e que considero A cantora popular que o Brasil teve. Perguntem isso aos seus pais e avós. Nunca houve nada parecido, nem antes nem depois. O mais próximo foi sua amiga feita rival na imaginação dos ardorosos fãs de uma e de outra: Marlene.

Há quase 15 anos, nossos destinos se cruzaram. Ela, já uma senhora na casa dos sessenta e eu ainda sem ter completado 20 anos. Foi um encontro sexy. Marlene sempre foi famosa pelas belas pernas. Cobertas por uma meia-calça preta, ela se aproximou de mim sem pudores. Cantando. Percebi que tremia um pouco. Pudera, estávamos em público. Eram quase mil pessoas ao nosso redor. Com uma perna apoiada na cadeira em que eu estava sentado, ela perguntou, para que todos ouvissem, se eu já… , claro, eu não negaria. Ela insistiu na pergunta. Eu reiterei: . E Marlene completou a música: Todo homem um dia já broxou.

Toda a platéia riu e, da doce Marlene, ganhei um beijo carinhoso. Era um momento da peça Um céu de asfalto, com textos de Bertold Brecht, que ela encenou com Sérgio Britto.

Desejo que Marlene seja mais longeva que Dercy Gonçalves (desconfio que ela e Sílvio Santos sejam imortais). Mas só para garantir, quero dizer a ela que, verdadeiramente, nunca nos deixará. Assim como Emilinha Borba, Marlene faz parte de uma estirpe que jamais será esquecida.

Se você, ainda muito novo, nunca ouviu falar em Ary Barroso, Vicente Celestino, Orlando Silva, Herivelto Martins ou Nelson Gonçalves, procure conhecê-los. Independente do seu gosto musical, você perceberá que, em algum momento, música popular não era sinônimo de música de mau gosto. Vai se perguntar: quando, como e por que isso se perdeu? Por que ficamos tão idiotas?

Você não vai ter a lembrança de um beijo dado por Marlene, mas saberá que um dia fomos mais amáveis, mais ingênuos e tivemos um gosto popular mais refinado.

 
Postado em 3 de outubro de 2005, segunda

:: As armas e as leis

Lembro de uma antiga garrucha Rossi, brasileira, de dois canos e dois gatilhos que meu avô tinha guardada em uma gaveta. Sempre que podia, eu ia mexer nela. Já naquela época, munição para aquela arma só poderia ser “conseguida” em um museu.

Tive outras três armas: uma Mauser 5 e duas metralhadoras. Todas de brinquedo. Fora as dos meus Falcons. Contando com essas, tive até um jipe com canhão antiaéreo! Era um tempo em que não se pensava muito na influência que armas de brinquedo poderiam ter sobre as crianças. Arma era brinquedo de menino e pronto.

Nunca tive uma arma de fogo de verdade e creio que jamais terei. Sou de opinião de que elas nem deveriam ter sido inventadas.

Vivemos agora o dilema de votar a favor ou contra o desarmamento. Há apenas duas opções de voto mas, pelo menos, três tipos de posicionamento: a de quem tem arma e precisa dela, a de quem não tem e é radicalmente contra e a de que não tem e nunca se importou com isso. A opinião desses últimos é que vai dar o resultado do referendo.

Ideais à parte e tentando ser pragmático, digo que detesto armas, não pretendo ter, mas não pensaria duas vezes em usar uma para defender minha esposa e filhos. Numa boa: passaria chumbo, sem dó ou remorsos, no primeiro infeliz que tentasse algo contra eles.

O bom senso diz que o que é bom para uma pessoa necessariamente não é para outra. Sou um urbanóide que, tão logo seja possível, pretende correr para o campo. Acho que quem puxa uma arma numa discussão no trânsito é um criminoso como outro qualquer. Mas acho a coisa mais natural do mundo andar com um revólver ou uma carabina à mostra em uma área rural.

Analisando as duas campanhas na tevê, é fácil perceber isso. Os argumentos de ambos são coerentes e têm seus porquês.

Lei nenhuma vai desarmar quem realmente quer ter uma arma. Se proibição valesse alguma coisa, ninguém fumaria maconha, cheiraria coca ou usaria qualquer outra droga taxada de ilícita.

A campanha do desarmamento, que já recolheu mais de quatrocentas mil armas, é um belo exemplo de democracia. Por vontade própria, aquele que não se sente mais à vontade com uma arma dentro de casa, se desfaz dela. Com o Estatuto do desarmamento, há uma imposição: ninguém pode ter armas. Não seria nada demais, principalmente para os 96,5% de domicílios que não têm uma arma em casa. Mas a partir do momento que isso vira lei, que é institucionalizado, que é obrigatório, há uma série de conseqüências, desdobramentos e novas interpretações.

Um exemplo: Em áreas de praia, arrombamento de casas vazias, fora do verão, é algo comum. Assim como em cidades próximas, os domicílios são atacadas quando seus moradores se mudam para as casas de praia durante o verão. Por que isso acontece dessa maneira? Porque a possibilidade de alguém ter uma arma dentro de casa intimida – e muito! – a entrada de quem pensa em cometer um arrombamento. Como diz o ditado: quem pensa, não faz. E se o ladrão tiver a certeza de que não há uma arma naquela casa, ele se intimidaria?

Outro exemplo: hoje, se você pega uma arma, sai à rua e atira, digamos, em um vizinho, você é um criminoso. Mas se alguém invade sua casa e você mata essa pessoa com um tiro, isso é legítima defesa. Dificilmente você seria condenado por homicídio. A partir do momento em que o porte de armas é totalmente proibido, se essa situação se repetir, você é um criminoso. E se você não matar, poderá ser processado por quem invadiu sua casa: porte ilegal de arma e tentativa de homicídio.

Lei só atinge gente de bem. Por isso mesmo os criminosos também são chamados de foras-da-lei. Ou alguém acha que o Estatuto do desarmamento vai atingi-los também?

Portanto, voto pelo desarmamento. Dos bandidos. Em seguida, pelo da polícia. E só depois o da população que, a essa altura, não vai ter motivo algum para ter uma arma.

 
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