| Postado
em 27 de novembro de 2007, terça |
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Amigos em close

A
vida vai passando e a gente nunca
tem tempo para nada. Como sempre gosto de
lembrar, “não
ter tempo”
é não saber administrá-lo
ou simplesmente dar uma desculpa para algo
que não se está a fim de fazer
ou que não é prioridade no momento.
De
repente, nos damos conta de que um monte de
coisas boas passou e não aproveitamos.
As que priorizamos nem sempre se mostraram
maravilhosas como pensávamos e o tempo
de curtir isso ou aquilo já não
existe mais. Nessas desandanças, elegemos
ícones, ídolos, fontes de inspiração,
modelos de como gostaríamos de ser.
Quase sempre pessoas distantes, exemplos inatingíveis,
puras ilusões que criamos, enquanto
deixamos de olhar e conviver com pessoas
maravilhosas que estão bem ao nosso
lado.
Há
vinte anos ouço as histórias
de terceiros. Do cidadão que teve inundada
a porta de sua casa porque uma tubulação,
na rua, estourou; do artista que está
lançando um novo CD; do guarda municipal
que quer denunciar a tortura que sofre junto
com seus colegas de corporação;
do governador que está se candidatando
ao Senado; do morador de rua que não
lembra onde e quando morou numa casa; do empresário
que lança um grande negócio...
Nos
últimos dez anos, a busca por essas
histórias se tornou mais profunda.
Muitas vezes, casos e aventuras de pessoas
que já morreram e, claro, já
não podem mais contar como tudo aconteceu.
E conheço vidas muito mais interessantes
do que aquelas que passaram para a História.
Ou que nem passaram. Foram esquecidas.
Quanto
mais histórias descubro, mas percebo
que todos têm histórias maravilhosas
para contar. Vidas interessantíssimas
que não estão sendo grafadas,
nem filmadas ou, no mínimo, não
da forma devida. Lá na frente, alguém
vai ter o trabalho duro – que eu tenho!
– de desencavar tramas e enredos, juntar
fragmentos de memórias, separar fato
de versão... Seria tão mais
simples se alguém desse valor a essas
pessoas enquanto estão vivas! Com a
licença de Guilherme e Nelson, depois
que se chamarem saudade, não precisarão
de vaidade, irão querer preces e nada
mais. Se alguém quiser fazer algo,
que faça agora!
Pois
deixa comigo! É aí que eu entro.
Há
algum tempo, senti necessidade de organizar
minhas fotos. Só as digitais. Fotografo
com câmeras digitais desde 1996. Quando
pensei nisso, há uns três anos,
imaginei que tivesse “umas
cinco mil fotos”
para organizar. Desisti de contar quando me
aproximei das cinqüenta mil.
E percebi que, a cada dois anos, tenho feito
outro tanto desses. Isso, fora o arquivo em
filmes, slides e papel fotográfico
desde meados dos anos 80.
Percebi
também que, sem querer, estava registrando
parte da história de meus amigos. E,
há coisa de um mês, resolvi fazer
isso devidamente. Daqui a 50 ou 100 anos,
quando alguém resolver contar a história
de qualquer um deles, poderá contar
com um registro decente, confiável,
tão fiel quanto meu coração,
minha língua e meus dedos (que coisa
erótica!) consigam se entender e descrever.

Comecei
então a fotografar, oficialmente,
essas figuras carimbadas, raras e
cheias de histórias que merecem ser
contadas. Já fiz tantas fotos de cada
um deles durante tantos anos! Mas agora é
diferente. É olhando na minha cara,
bem de perto, mostrando que não é
normal e deixando isso bem claro para qualquer
um que bater os olhos nesses retratos.
Retratos.
Sem máscaras, sem preocupações,
cara limpa, do jeito que eu encontrar. Não
é assim que você me recebe? Não
é assim que se mostra para mim? Então
é assim que eu quero que todos os conheçam.
Com essa intimidade desconcertante.
Pretendo
que essas fotos venham a ser publicadas, no
mínimo, em tamanho natural, para que
se possa fazer um cara a cara entre os que
serão apresentados. Estão aí
algumas das primeiras: Wilson Natal,
respeitável e sério historiador,
perito em São Paulo, tão sério
e respeitável que já correu
nu pelos jardins do Museu do Ipiranga; Paulo
de Carvalho, cafajeste de plantão,
último dos verdadeiros putos desse
país (da mais fina estirpe putífera!)
e que tem histórias suficiente para
fazer as setecentas páginas da biografia
de Chatô parecerem uma revistinha; e
Woldney Ribeiro, um cabra
safado que monta umas coisas de mentira que
você jura que é de verdade e,
por isso mesmo, anda fazendo cinema.
Tem
um monte de gente na minha lista.
Gente que já foi fotografada para ilustrar
esse trabalho e nem sabe; gente com quem estive
recentemente e ainda não fotografei;
gente como Zé Luiz,
que está lendo isso e já tremendo
na cadeira porque sabe que não pode
ficar de fora; gente que nem vou citar mas
também sabe que está na lista.
A
vida continua e eu continuo falando de vidas.
A propósito, Tchelo
(hoje mais conhecido como “o
pai da Zoé”),
vai botando a cerveja pra gelar que eu chego
já para fotografá-lo.
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| Postado
em 25 de novembro de 2007, domingo |
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O pequeno pássaro de Abaetetuba

Estava
me preparando para escrever sobre
La Môme, o filme sobre
Piaf, após assisti-lo
pela segunda vez (de muitas que virão)
quando me deparo com a manchete da Folha
de São Paulo de domingo: População
via menina de 15 anos sofrer abuso sexual
na cadeia.
A
matéria fala sobre L., 15
anos, presa em Abaetetuba, Pará, e
jogada numa cadeia, por cerca de três
semanas, com mais de 30 homens. Nem precisaria
ler todo o texto para saber dos desdobramentos.
Vida
desgraçada a de L.. No sentido ativo
e definitivo. A menina teve sua vida desgraçada.
Passou mais de vinte dias servindo de pasto
aos selvagens com quem dividia o cárcere.
E
o que a menina paraense tem a ver com Piaf?
Esta outra também levou uma vida desgraçada.
Vivia nas ruas, foi abandonada pela mãe,
entregue a uma avó alcoólatra
e depois a outra dona de bordel, cresceu sendo
jogada de um lado a outro e abusada... uma
vida de descaminhos, excessos e profundas
tristezas, tudo sublimado, ainda que momentaneamente,
pelo canto.
Liberdade
parcialmente restituída, L. está
“como
um passarinho que fugiu da gaiola”.
Terá
algum momento de paz daqui por diante? O tempo
de uma canção. Poucos minutos
durante os quais espantará seus males;
os males do mundo – os mais miseráveis!
–, que foi forçada a conhecer.
Será que a pequena L. sabe cantar?
Desejo
que não lamente nada. Nada de nada.
Nem a dor, as aflições. O que
está acabado, fique esquecido. Comece
do zero. Que sua vida, hoje, comece com você.
Com uma força que só
esses pequenos pássaros conhecem,
buscando tal poder no fundo da alma e fazendo-o
explodir pela garganta. Como choro, como canto,
como denúncia.
Voe,
L.. Voe para bem longe.
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| Postado
em 22 de novembro de 2007, quinta |
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As sereias na casa de Deus
Uma
coisa puxa outra. Desde que comecei as pesquisas
para a biografia de Carlos
Estevão, algumas
de suas obsessões me chamaram atenção.
Uma delas de forma mais contundente: as
sereias.
Uma
coisa puxa outra. Há mais ou menos
um mês, digitalizando os desenhos de
Carlão em minha coleção
de revistas O
Cruzeiro, encontrei,
na edição de 5 de abril de 1952,
quando o jovem desenhista já começava
sua fama e estava nos Associados há
cinco anos, um artigo de Câmara
Cascudo (uma de minhas
obsessões) intitulado As
sereias na casa de Deus. Nele,
Cascudo falava nas sereias entalhadas nos
altares da Igreja de São Francisco,
em João Pessoa, Paraíba.
Dizia da facilidade em encontrar tais símbolos
em igrejas portuguesas mas que “não
conheço exemplos brasileiros além
dos paraibanos”.
Uma
coisa puxa outra. Imediatamente veio à
lembrança a Igreja de São
Pedro dos Clérigos, em Recife, Pernambuco
(terra de Carlos Estevão). Estive inúmeras
vezes no Recife. Algumas este ano. Mas só
uma na Igreja de São Pedro, há
uns quinze anos. E lembro bem das sereias
ao lado das colunas de entrada. Elas nunca
saíram de minha cabeça. Até
porque eu havia sido levado até ali
especialmente para vê-las.
Uma
coisa puxa outra (é a última
vez que escrevo isso, prometo!) e fiquei indócil
para ir a Recife e João Pessoa fotografar
devidamente as duas igrejas. Passei por Recife,
voltando do Rio, cheio de bagagem, e só
fiquei na cidade o tempo suficiente para pegar
um táxi do aeroporto à rodoviária.
Fui para Natal e, três dias depois,
para João Pessoa. Saindo de lá,
passei pela Igreja de São Francisco.
As sereias ainda estão lá, mas
não pude vê-las.
Diferente
de suas irmãs recifenses, as sereias
paraibanas ficam nas bases das colunas da
capela do Santíssimo Sacramento e no
altar-mor. E cheguei bem na hora da missa.
Juro que se fosse branco e loiro, teria mandado
um “Beautiful! Beautiful! What?!
‘Nou pódi’ Oh! Ipod? Right!”
e, me fazendo de doido, fotografaria os espécimes
em plena celebração eucarística.
Mas Deus me fez moreno e respeitador, então
deixei para uma próxima oportunidade.
No
referido texto, Cascudo pergunta “que
estão fazendo essas Sereias, símbolo
da sedução irresistível,
sugestão carnal endoidecendo jangadeiros
e pescadores, incluídas aos pés
do altar católico, criadas, desde meados
do século XVIII, para viver numa casa
de Nosso Senhor?”. E desvenda: “A
sabedoria da Igreja amansou essas feras e
levou-as, como Noé, para a barca da
piedade cristã. (...) Ninguém
intimou a Sereia a desenroscar a cauda e remergulhar
no Rio Paraíba, caminho de Cabedelo,
ganhando o Atlântico. (...) As Sereias
da Igreja de São Francisco na capital
paraibana dizem, com sua amável presença,
missão mais antiga e possivelmente
a mais litúrgica entre as representações
fúnebres dos gregos.
“Estavam
elas ligadas ao culto dos mortos e lembravam
as falas silenciosas e ciciadas das sombras.
Os túmulos gregos eram ornados com
estelas de Sereias. A Sereia sepulcral era
tão comum e típica como o cipreste
votivo”.
De
fato, atrás do cemitério da
Igreja de São Pedro, em Recife, há
um pequeno cemitério. E é muito
provável que na de São Francisco
também haja. Ambas são da mesma
época (a paraibana é de 1779,
a pernambucana começou a ser construída
em 1728 mas só foi sagrada em 1782).
Até meados da década de 30 do
século seguinte não tínhamos
cemitérios e as pessoas eram enterradas
nas igrejas.

As
sereias, não vi dessa vez. Mas também
estão lá, do lado de fora, outros
seres fantásticos guardando o templo.
Resquícios de costumes anteriores ao
próprio Cristianismo ou à sua
instalação em terras brasileiras.
Criaturas misteriosas com as quais pretendo
conversar mais demoradamente em minha próxima
ida a João Pessoa.
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