Postado em 24 de novembro de 2006, sexta

:: Comunicação, expressão e a falência das normas

Comunicação e Expressão. Era assim o nome da série de livros e da matéria escolar durante meu primeiro grau. Bem melhor que Língua Portuguesa ou Gramática, ainda que não tenha nada contra estas. Mas Comunicação e Expressão parece-me mais completo, correto e útil.

No ginásio, por pelo menos três anos, tive aulas com a Tia Elisa. A temida Tia Elisa, posso dizer. Não por mim, mas por boa parte de seus alunos no Colégio Pequeno C.E.U., no bairro carioca do Engenho de Dentro. Além do estudo de Gramática, tínhamos ditados e redação. E tínhamos cadernos de redação. Eu adorava! Sempre tirava ótimas notas e aquilo devia estar dizendo que eu não seria veterinário como pensava. A redação deveria ser do tamanho da página do caderninho. Queria tê-los guardado.

Alguns anos depois, tive a experiência da redação do vestibular. Lembro até hoje o tema: Violência urbana. Mandei lá minhas 30 linhas sem muita extravagância, respeitando as dicas engessadas dos peritos em vestiba. Naquele ano teve um 10 em redação na UFRN. E foi no curso de Jornalismo! E não foi meu. Foi do Silvino, uma cara muito gente boa que já era jornalista e estava buscando o diploma. E também teve outra redação inesquecível que (graças a Deus) também não foi minha. O vestibulando falou sobre a violência dos garis da cidade. Urbana, em Natal, é o nome da empresa que faz a coleta de lixo.

Já no curso, na disciplina Técnicas de Produção e Difusão em Jornalismo, tentaram me ensinar as talas do jornalismo: o lead e o sublead. Tem que escrever assim, Tem que ser sério, Tem que... Detesto temques. Se deixasse, todos teriam jogado no lixo o pouco de Comunicação e Expressão que aprendi.

Costumo dizer que educação não é nada mais que a repressão dos instintos selvagens. Mas a repressão de um instinto básico como a comunicação e a expressão é um verdadeiro crime. As pessoas acabam com medo de falar, de escrever, de dar uma opinião e acabam não tendo uma já que não sabem expressá-la.

O problema é tão sério que já vai além da discussão entre Lingüística e Gramática, entre o livre falar e a rigidez da norma culta. Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor consagrado, membro da Academia Brasileira de Letras, instituição que tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional, em artigo de hoje na Folha de S. Paulo - Xama e atensão – declara: Não sou pela correta grafia das palavras nem pela gramática correta; ambas são convenções.

Sou admirador do trabalho de Cony. Não concordo com muito do que ele disse nesse texto e até me surpreendo com declarações do tipo Até hoje, antes de escrever determinadas palavras (...), sou obrigado a pensar fundo, ou, sacrifício supremo, ir até a estante apanhar o ensebado dicionário do mestre. Nunca me disseram que dicionário era para ser decorado. Cony está naquela fase da vida e da carreira em que pode dizer os maiores absurdos (e não que o tenha feito agora). Apesar de não comungar das opiniões expressadas no artigo, tenho que admitir que a conclusão é perfeita:estou apenas registrando a falência das normas em relação ao uso do mundo e dos povos.

Se tiver crianças em casa – crianças com menos de três ou quatro anos –, perceba como esses pequenos analfabetos sabem se comunicar e se expressar perfeitamente. Não deixe que percam essa capacidade.

 
Postado em 21 de novembro de 2006, terça

:: Eu se amarrei no sugerimento do Dunga

“Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,... ”

“Do licor que Lieo prantado havia
Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
Os de Faeton queimados nada enjeitam. ”

“Mas em tempo que fomes e asperezas,
Doenças, frechas e trovões ardentes,... ”

“ Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,... ”

“Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
No profundo das águas, soberana,...”

Sou defensor do vernáculo. Quisera ter recebido educação suficiente para jamais duvidar da posição de uma letra ou mal colocar uma vírgula, para fazer construções sintáticas irrepreensíveis, ser douto em gramática normativa. Ser O Erudito. Esforço-me por continuar aprendendo e melhorando. Quanto mais faço isso, mais percebo que tal conhecimento não me dá direito a fazer pouco de pessoas menos instruídas ou que não utilizem a norma padrão. Da mesma forma, quanto mais estudo, mais sou consciente de minha ignorância.

Até por força da profissão, aprendi que se fazer entender é muito mais importante que escrever de forma perfeita. Não que, por isso, vá nivelar por baixo, mas de forma que a comunicação seja efetiva.

Duvido que algum brasileiro não tenha entendido quando Dunga, o técnico da seleção brasileira de futebol, comentando sobre a roupa que usava, disse que A Gabriela dá algum sugerimento.

Em momentos como esse, os donos da língua se manifestam. E quase sempre a bandeira é levantada pela parcela pobre da família ou, como costumo chamar, os emergentes da língua. São aqueles que, em sua maioria, também tiveram uma educação falha, mas conseguiram um diploma de curso superior que, provavelmente, deve fazer a poderosa mágica de torná-los imediatamente alfabetizados e, mais que isso, donos de invejável erudição. Como o pagodeiro ou o jogador de futebol vertiginosamente guindado às altas rodas não segura a onda e mostra as falhas de sua criação, o jornalista – potencial policial do idioma – adora apontar erros, mas costuma demonstrar sua ignorância em temas básicos como a diferença entre língua e gramática normativa ou ainda em relação a outros idiomas.

Quem me conhece ou me acompanha nestas mal traçadas sabe que não suporto futebol. Soube da gafe (?) de Dunga pelos jornais. Não sei muito a seu respeito, mas sei que é gaúcho, descendente de italianos e que jogou na Itália por muitos anos. Portanto já deve ter ouvido muitos outros suggerimenti. Então alguém, por favor, diga-me o porquê do achincalhe.

Se houver motivo justo, podemos pensar em colocá-lo no mesmo barco do analfabeto que escreveu os versos que encimam este texto. Frauta, prantado, frechas, pubrica, nace a pranta... É mesmo falto de inteligência e conhecimento de português esse tal de Camões.

 
Postado em 15 de novembro de 2006, quarta

:: E aí, piauí?

A revista piauí chegou às bancas no mesmo mês da nova Stone brasileira. Chegou sem fazer o estardalhaço da gringa mas vendeu tudo. Enquanto isso, Gisele Bündchen atravessou o mês boaindo nas bancas de todo o país. Verdade: não dá para comparar a tiragem das duas. Item certamente revisto para a segunda edição de cada uma. Uma deve aumentar; a outra, diminuir.

Sinal dos tempos? Um produto tipicamente brasileiro com nome de um dos Estados mais pobres do país dando de lavada na filha do Império? Sei não. Até porque não achei a piauí essas coisas.

Fui cheio de vontade às bancas. Quase tardiamente. Já tinha visto a piauí, mas deixei para comprar depois. Quando o João Moreira Salles foi ao Programa do Jô, dizendo que a primeira edição havia esgotado, e o gordo acabou falando do Memória Viva, senti-me na obrigação de fechar o ciclo. No dia seguinte fui comprar a revista do João. Só achei na décima banca. Comprei duas. Coisa de colecionador. Depois da leitura, comecei a achar que esse primeiro número jamais viria a ser um grande clássico.

Os novos nomes não mostraram grandes coisas e os velhos me levaram a crer que nem todo mundo que escreve melhora com a idade. Quem deu uma dentro foi mesmo a Danuza Leão. O que poderia ter sido a matéria Caras da piauí é, na minha opinião, o melhor texto da primeira edição. Deixe o preconceito de lado (ela conta a história do estilista Guilherme Guimarães) e confira.

A segunda chegou na base do em time que está ganhando.... Cópia da primeira. Incluindo os vacilos. Muita gente não vai comprar a terceira.

Criticar é fácil. Quero ver ir lá e fazer um revistão que agrade todo mundo. Para dizer a verdade, acho que o mercado editorial brasileiro reflete bem nosso tempo: tem um monte de coisas (principalmente lixo) pra tudo quanto é gosto. E tudo vende. O duro é todo mundo achar que está fazendo o melhor. A minha revista é a melhor, A minha revista é perfeita, Na minha revista só tem cara genial. Ainda não vi uma dessas.

piauí é criancinha. Pode ser que cresça e apareça. Se não, ainda que as propostas não sejam exatamente as mesmas, a Bravo e a Cult continuam nas bancas mostrando um trabalho menos pretensioso e mais competente. Não seremos eu e meus gostos a tentar dar nota ou valor. O tempo que o faça. Sou apenas um leitor que gosta disso, não gosta daquilo e que não vai com a maré nem tampouco contra ela.

 
Postado em 10 de novembro de 2006, sexta

:: Os dois últimos dias do FIC 2006

Na quarta, penúltimo dia do FIC Brasília 2006, só tive ânimo para assistir um filme, o argentino O bom destino. O excessivo, dispensável e ingênuo uso de metalinguagem de estudante de jornalismo encantado por este recurso me cansou um pouco. Mas levei na base do não estou a fim de pensar hoje. Bonitinho.

No último dia, resolvi me presentear com um filme de Oscarito. Assisti O homem do Sputnik. Já havia assistido pelo menos duas vezes, mas queria ver na tela grande. Por mim, teria visto apenas duas mostras neste Festival: a do Oscarito e a de Luchino Visconti. Para não dizer que nem passei por nenhuma delas, terminei com O homem do Sputnik, que em 1959 levou 15 milhões de espectadores aos cinemas. Um quarto da população do Brasil à época. A Atlântida era a Atlântida. Nunca houve nada parecido por aqui.

Ao sair da sala, fui entrevistado para o documentário sobre Carlos Manga (diretor, dentre outros, do filme que acabara de ver), que começou a ser rodado aqui em Brasília neste último dia do FIC. Portanto, Manga por Manga pode ser minha primeira aparição na telona. Venho avisando: peçam autógrafos enquanto ainda sou uma criatura acessível. Depois que a estrela subir, vou ficar insuportável.

Ao final, contabilizei apenas 20 filmes este ano contra 28 no ano passado. Além das mostras citadas, queria ter visto A prisioneira, Só Deus sabe, Antônia (que já virou série a ser exibida na Globo), 100 Escovadas antes de dormir, O colecionador, Paprika, O homem da embaixada, À procura de Mozart e Viva Zapatero!

À noite aconteceu a premiação. Sem surpresas. O americano A Morte do Falcão foi duplamente escolhido como melhor filme da Mostra Competitiva: pelo público e pelo Júri oficial. Este também decidiu laurear o documentário israelense Cinco Dias com o Prêmio Especial do Júri. Muito merecido.

Nesta edição do FIC Brasília, foi instituído também o Prêmio Itamaraty para o Cinema Brasileiro. O longa-metragem O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, e o curta-metragem Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho, levaram, respectivamente, R$ 25 mil e R$ 10 mil, oferecidos pelo Ministério das Relações Exteriores.

A votação do público indicou o longa Wood & Stock - Sexo, Orégano, e Rock’n’Roll, de Otto Guerra, e o curta Tarantino’s Mind, de Bernardo Dutra e Manitou Felipe da Silva, que receberam o Prêmio do Júri Popular. Também foi entregue o Prêmio Itamaraty em Homenagem ao Conjunto da Obra, In Memorian, a Leon Hirschman. O ministro das Relações Exteriores, Embaixador Celso Amorim, fez as entregas.

Acabou. Agora é pensar nas estréias de sexta nas salas comerciais, num Mostra de Cinema Polonês que acontece no Cine Brasília e no Ciclo Freud 150 Anos – O Cinema no Divã, que está acontecendo no Centro Cultural Banco do Brasil. Só para relaxar...

 
Postado em 8 de novembro de 2006, quarta

:: Irã e Itália

Definitivamente, diminuí bastante meu ritmo neste FIC. Ano passado, vi três ou quatro filmes por dia. Mas isso é bem cansativo. Nesta terça, foram apenas dois: Impedimento e O Tigre e a Neve.

Impedimento carrega o karma de ser um filme iraniano. Basta tal menção pra muitos torcerem o nariz enquanto os intelectuais, pseudo-intelectuais, intelectualóides e toda a fauna afim começar a se excitar. Fui na boa. Em todos os sentidos. Foi o único filme do Festival que me arrancou lágrimas. Incluindo algumas de tanto rir.

O filme começou dando um susto na platéia. A legenda em português lhe dava o título de Fora do Jogo. Só que havia outro filme com o mesmo título sendo exibido no Festival. Offside, o título em inglês, pode ser traduzido tanto por impedimento como por lado de fora”. Tudo bem. Um era iraniano e o outro alemão. Ambos falavam sobre futebol, mas não teria como confundir.

Mas o que é que eu estava fazendo em um filme sobre futebol (algo que detesto)?! E ainda saio falando bem?!! Pois é... gostei mesmo! O filme mostra a luta de garotas para entrarem em um estádio de futebol no jogo que poderá classificar o Irã para a Copa da Alemanha. Como mulheres não pode entrar nos estádios, elas se disfarçam, mas acabam sendo detidas e mantidas do lado de fora. São histórias e tentativas diferentes que geram lances engraçadíssimos. Mas o que realmente me tocou foi a vontade de ir contra os padrões estabelecidos e o quanto um povo tão distante e teoricamente tão diferente pode ser tão parecido com o brasileiro. Futebol é mesmo uma praga!

O segundo filme deste dia foi uma nova tentativa de redimir o Jimmy. O Tigre e a Neve, de Roberto Benigni, ma minha opinião, o pouco que presta do atual cinema italiano. E olhe lá. Os filmes dele são como o dos Trapalhões. Ele é sempre o personagem principal que é apaixonado pela mocinha (invariavelmente sua esposa Nicoletta Brashi) e passa por situações trágicas transformando-as em comédia para sempre chegar à mesma lição: o amor vence tudo. Mas eu gosto. Até o perdôo por ter tirado o Oscar de Central do Brasil.

O Tigre e a Neve segue o mesmo padrão de O Monstro e A vida é bela. Begnini escreve, dirige e é a estrela do filme. E tudo funciona. Você sai do cinema leve. Recomendado apenas para quem ama e é feliz.

 
Postado em 7 de novembro de 2006, terça

:: Cinco dias, 37 utilidades, um céu

Na reta final do FIC 2006, começaram a chegar os diretores e atores de alguns filmes exibidos nas mostras competitivas. Visitas bem menos interessantes que as da edição passada, a não ser pela presença de Karim Aïnouz, diretor de O Céu de Suely (melhor filme brasileiro que vi este ano) e Madame Satã.

O primeiro filme da segunda foi Cinco Dias. Tenho certa predileção pelo gênero. Quando aborda temas ou culturas sobre os quais conheço pouco ou nada, fico ainda mais interessado. O filme mostra a execução do Plano de Desocupação da Faixa de Gaza e a retirada de oito mil judeus dos acampamentos de Gush-Katif, que começou no dia 15 de agosto de 2005 e durou cinco dias. As equipes de filmagem puderam acompanhar tanto o exército israelense como os moradores da Faixa de Gaza, de perto, durante todo o processo. Algo totalmente diferente de qualquer cobertura jornalística que se tenha visto por aqui. E uma tremenda aula. Explica-se a situação, as causas e objetivos dos dois lados, e mostra como o risco de um grande barril de pólvora prestes a explodir foi sendo minimizado até que a situação pudesse ser solucionada sem violência. Altamente recomendado. Yoav Shamir, o diretor, é também o responsável por Checkpoint, que vi no FIC 2005 e não gostei. Achei confuso. Se Checkpoint foi o documentário mais chato que já vi, Cinco Dias é um dos melhores que assisiti. Shamir aprendeu rápido.

Nessa linha de documentários sobre outras culturas, assisti em seguida a 37 utilidades para uma ovelha morta. O filme mostra os Pamir Kirghiz, uma tribo com duas mil pessoas originárias da região de Pamir, na Ásia Central. Nos últimos 27 anos eles viveram em exílio, na Turquia Oriental. Durante o processo de filmagem, mostra-se como a antipatia dos Pamir Kirghiz ao comunismo os levou a migrar da União Soviética, da China Maoísta e do Afeganistão para o presente exílio. O passado é montado através de entrevistas e reconstituições, enquanto se mostra também como os Pamir Kirghiz vivem hoje na Turquia moderna. Interessante.

Para fechar a segunda, vi O Céu de Suely. Adoro cinema brasileiro, mas confesso que essa nova safra de Sessões da Tarde produzidas pela Globo Filmes vem me dando nos nervos. Temo que as novas gerações sejam novamente ensinadas a repudiar o cinema brasileiro graças a isso. Ou não, já que são os filmes nacionais que mais têm atraído público. Ainda bem que vez por outra aparece um Karim Aïnouz para salvar a pátria.

Hermila/Suely é uma jovem de 21 anos, nascida em Iguatu, sertão cearense. Dois anos atrás, partiu para São Paulo com o namorado. Agora volta com um filho pequeno e espera o retorno do namorado. Nem precisa dizer... Como ele não volta, ela tenta se virar sozinha e... vá logo assistir, vá!

Para saber mais:
O Céu de Suely

 
Postado em 6 de novembro de 2006, segunda

:: Ang Lee, Tsotsi, Wood & Stock

Domingo pede filme para relaxar. Fui marcar presença na Mostra Trilogia Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Hulk, Brokeback Mountain), que apresentou os três primeiros filmes do diretor: Arte de Viver, Banquete de casamento e Comer, Beber e Viver. Assisti este último.

Em seguida, vi um dos filmes mais concorridos deste FIC: Tsotsi. Temos Pixote. Temos Cidade de Deus. Se Tsotsi fosse brasileiro, haveria menos lágrimas e sobrariam tiros no final que, certamente, seria mais realista e cruel. Tsotsi, uma produção da África do Sul e Reino Unido, dirigido por Gavin Hood, vem colecionando prêmios pelos festivais de todo o mundo. O filme mostra uma nesga de humanidade que dificilmente existiria no mundo real em situações como as que apresenta. Mas vale a pena. Assista. Vai entrar em circuito comercial.

E nada melhor que terminar o fim de semana (acho tão estranho o fim de semana terminar no primeiro dia da semana) com Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll, outro filme que vem juntando prêmios mundo afora. Obrigatório para quem está na casa dos 30 e colecionou a revista Chiclete com Banana e outros trabalhos de Angeli. Lisérgico, um pouco lento (os personagens viveram os anos 70!) mas divertido. Impagáveis as vozes de Rê Bordosa, Lady Jane (ambas feitas por Rita Lee) e do Profeta Raulzito (por Tom Zé).

Para saber mais:
Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock`n`roll

 
Postado em 5 de novembro de 2006, domingo

:: Sábado de Aleluia no FIC

Aleluia! Os filmes chocos do dia anterior foram devidamente lavados. Se vi o pior do FIC na sexta, comecei o sábado com o melhor deles – ou pelo menos o que mais me agradou.

O espanhol A vida secreta das palavras, de Isabel Coixet, me atraiu a partir do título. O lirismo me fez viajar. O filme não tem absolutamente nada a ver com o que eu poderia imaginar. Apesar de muito interessante (a direção é extremamente segura e os personagens muito bem construídos), até mais da metade do filme eu fiquei me perguntando onde o título se encaixava. Mea culpa. Sou um bruto. Havia deixado a sensibilidade em casa no sábado. Mas, lá pelas tantas, ela chegou e eu fui me envolvendo com a história de Hanna.

Acredite: é melhor não falar muito sobre o filme. A Vida Secreta das Palavras foi o grande vencedor da 20ª edição do Goya, em janeiro deste ano. O Goya é o mais importante prêmio de cinema da Espanha. Além de levar como melhor filme, Isabel Coixet também saiu como melhor diretora e autora do melhor roteiro original.

Eu poderia ter voltado para casa e “curtido o sentimento”, mas entrei em outra sessão logo em seguida para ver Wal Mart – O alto custo do baixo preço. Vai lá... não é do Michael Moore, mas tudo que mostra podreira americana vale a pena. Veja e saia do cinema com vontade de jogar ovos na loja mais próxima.

Para fechar o sabadão em alto nível, assisti Cartola, dos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Um filme para derrubar preconceitos. A começar pelo que poderia dizer: “o que pernambucanos entendem de samba, Rio de Janeiro e Cartola?” Provavelmente nada quando começaram a pensar no projeto há oito anos. Depois fizeram um filme que carioca nenhum conseguiu fazer. Documentário de classe. Esqueça Vinicius e caia no samba com Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Dona Zica, Zé Kéti, Xangô da Mangueira (“Naquele tempo, se cantava samba ontem e se cantava toda vida”), Moreira da Silva, Elza Soares e mais um monte de bamba oitavo dan. É hora de tirar o chapéu para Cartola. Gênio mesmo! Confira e saia sambando por aí. Não gosta de samba? Preste atenção... o mundo é um moinho...

Para saber mais:
A Vida Secreta das Palavras
Wal Mart – O alto custo do baixo preço

 
Postado em 4 de novembro de 2006, sábado

:: Duas escolhas estranhas: Jimmy da Colina e O guardião

No segundo dia de mostras, mudei completamente a programação que havia estabelecido. Escolhi Jimmy da Colina, para ver algo recente do cinema italiano, e O Guardião, porque filme argentino é (quase) sempre uma boa pedida.

Jimmy é um jovem que entra para o mundo do crime e, por isso, é levado a cumprir pena na Disneylândia. A partir daí, seu sonho é fugir para o México e fazer parte dos Rebeldes. Se exibirem o filme na Febem, a molecada vai querer ir à Itália mostrar que Dadinho é o caralho e que aqui só tem Zé Pequeno, porra! O filme é um belo incentivo para se pensar em seguir carreira de delinqüente na Itália. Seria o filme mais fraco que veria neste FIC. Nicola Adamo, que interpreta o personagem-título, passou incólume pelo Festival. Ninguém percebeu sua presença.

Pensei que o argentino O Guardião fosse redimir o Jimmy...(Entendeu? Redimir o Jimmy...). Nem dá pra dizer que valeu a tentativa. O que gosto nesses festivais, é a possibilidade de assistir filmes de e com pessoas que nunca vi e sem nem ler a sinopse. Vou limpo para o filme. De alma aberta. Sem concepções prévias. Foi assim com O Guardião. Vi, consegui não dormir e fiz dois comentários ao final: muito acadêmico e se fosse um curta de 20 minutos teria dado o recado sem ser maçante. Bingo. O diretor, Rodrigo Moreno, é formado em e é professor de cinema. Já fez vários curtas, mas este é seu primeiro longa. Acredito que os próximos serão melhores. Vou dar um voto de confiança a ele.

Acabou o segundo dia. Graças a Deus.

 
Postado em 3 de novembro de 2006, sexta

:: Bahia, EUA e Argentina

No primeiro dia de mostras deste FIC, resolvi corrigir um erro. Assistir Eu me lembro, de Edgar Navarro, grande vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2005 e único dos competidores que eu não havia assistido. O primeiro longa do veterano baiano é merecedor de elogios. Divertido, conta a história de Guiga, desde sua infância nos anos 50 à maturidade nos 70. Não satisfeito com o seis candangos que levou em 2005 (Melhor Filme, Direção, Atriz - Arly Arnaud, Ator coadjuvante - Fernando Neves, Atriz coadjuvante - Walderez Freitas, Roteiro e ainda o Prêmio da Crítica) no Festival de Brasília, o filme concorre este ano também no Festival Internacional de Cinema na primeira edição do Prêmio Itamaraty.

Falha corrigida, comecei a saga de assistir aos filmes da Mostra Competitiva. São dez. O escolhido do dia foi A morte do falcão, de Julian Goldberger, com um dos mais atuantes atores americanos da atualidade, Paul Giamatti. O público brasileiro o conhece bem de filmes como Duets, Sideways e A dama na água. E vai vê-lo também, a partir deste mês, em O Ilusionista. Giamatti tem feito cerca de seis filmes por ano. Para 2007, já terminou um, está filmando dois, tem outros dois em pós e um em pré-produção.

Se Woody Allen entrou para a história do cinema como modelo de neurótico, Paul Giamatti é o exemplo perfeito de psicótico maníaco-depressivo. Em breve, alguém fará uma tese ligando seus personagens Miles Raymond, de Sideways, com este George Gattling, de A morte do Falcão, passando por vários outros e concluindo que todos são um só que passa por diferentes fases de depressão, manias e inadequação à realidade. O cara é bom nisso.

Com nome de filme barato sobre terrorista e praticamente sem trilha sonora, A morte do falcão parece uma tentativa de fazer com que um filme americano seja mais que mero entretenimento. Consegue durante quase duas horas e escorrega nos minutos finais, terminando de forma óbvia, num sentimentalismo de Sessão da Tarde, como se o diretor tivesse esgotado todos os recursos de sua inteligência. Mas isso não chega a estragar o filme. Até porque Giamatti está nele.

O terceiro e último filme do dia foi A Aura. Se o fato de ser argentino não bastasse para querer vê-lo, some-se a isso os fatos de ter sido dirigido por Fabián Bielinsky (Nove Rainhas) e estrelado por Ricardo Darín (O filho da noiva).

O último filme de Bielinsky, que morreu no Brasil em junho deste ano, conta a história de Esteban Espinosa, um taxidermista extremamente tímido, mas que alimenta o sonho de praticar o crime perfeito. Abandonado pela mulher, ele aceita o convite de um amigo para caçar na floresta. Acidentalmente, se envolve em uma trama de vários bandidos que pretendem assaltar um carro-forte. Ele resolve levar o plano adiante, mas para isso precisará superar um mal que lhe acomete: a epilepsia.

A história traz uma seqüência de surpresas e voltas que Esteban precisa dar cada vez que algo parece sair do plano traçado. Na verdade, um plano que vai sendo construído e desconstruído conforme as circunstâncias.

Para saber mais:
Eu me lembro
A Aura

 


:: Memória Viva no Jô

Cá estava eu, quase a uma da manhã desta sexta, havia acabado de chegar do Festival de Cinema Internacional de Brasília e começava a escrever as notas para a revista SET quando o Jô atrapalhou tudo.

Durante entrevista com o cineasta João Moreira Salles, Jô Soares falou e mostou o site Memória Viva em seu programa. Foi gente telefonando, pipocando no MSN, no Orkut, mandando e-mail... teve tanta gente tentando ver o site ao mesmo tempo que mal se conseguia acessá-lo! Uma loucura. O Jô tem O PODER!

Creio que o vídeo da entrevista com Salles e o Jô falando do Memória Viva deverá estar, em breve, como passe livre no Globo Media Center. Enquanto isso, saiba como foi minha ida ao Programa do Jô em 2004.

Bem... eu me atrapalhei todo e fiquei até três da manhã respondendo o povo... Mas vou continuar os textos sobre o Festival de Cinema. Fiquem ligados.

 
Postado em 2 de novembro de 2006, quinta

Voltemos à programação normal deste blog. Filosofia, Literatura, Teatro, Artes em geral. E a bola da vez é Cinema.

Nesta quarta, 1º de novembro, teve início a oitava edição do Festival Internacional de Cinema de Brasília. A abertura, como de costume, aconteceu no Academia Music Hall, um teatro com capacidade para 2.500 pessoas. Lotado.

Este ano, o clima foi menos Oscar. Em 2005, o filme de abertura foi Gaijin – Ama-me como sou, de Tizuka Yamazaki. Havia banners gigantes e a presença dos atores principais. Até dois dias atrás, eu pensava que encontraria Pedro Almodóvar e Penélope Cruz. Pura ilusão. Volver, mais novo filme do diretor espanhol, foi o longa que abriu a atual edição do FIC Brasília.

Vê-se de tudo na noite de abertura. Do fake ao casual, do excessivamente modernoso ao ei, eu sou artista!, passando pelos vim direto do ministério para cá e passei o dia todo na UnB e nem tomei banho. Após o bla-blá-blá inicial onde os diretores, atores e autoridades presentes são anunciados (o governador eleito de Brasília, o Arruda da quebra do sigilo do painel, levou uma sonora vaia), foi exibido o curta Tarantino’s Mind, dirigido por Manitou Felipe e Bernardo Dutra. O filme mostra uma conversa entre dois amigos, vividos por Selton Mello e Seu Jorge, a respeito de uma tese sobre os filmes de Tarantino. É divertido e ágil. Os iniciados em Tarantino se acabam de rir. Quem nunca viu seus filmes, provavelmente não entenderá nada.

Volver, de Almodóvar, foi exibido em Cannes este ano (levou Melhor Roteiro e Melhor Atriz para Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo e Chus Lampreave), no FestRio e na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Logo chegará às salas comerciais.

Não dá para falar muito sobre o filme sem estragar suas surpresas. É um Almodóvar em ótima forma! Trágico e cômico, simples e complexo, tensão que acaba em riso frouxo. E Penélope Cruz sendo o que é: uma espanhola. Gosto de tudo que ela fez, mas o tipo latina bonita e frágil geralmente utilizado por Hollywood esconde muito de seu talento. Feche os olhos na hora em que ela cantar. Prefira imaginar a ver e dará nota 10 ao filme.

Para saber mais:
FIC Brasília 2006
Volver – Site oficial

 
 
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