| Postado
em 24 de novembro de 2006, sexta |
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Comunicação, expressão
e a falência das normas
Comunicação
e Expressão. Era assim o nome da série
de livros e da matéria escolar durante
meu primeiro grau. Bem melhor que Língua
Portuguesa ou Gramática,
ainda que não tenha nada contra estas.
Mas Comunicação e Expressão
parece-me mais completo, correto e útil.
No
ginásio, por pelo menos três
anos, tive aulas com a Tia Elisa.
A temida Tia Elisa, posso dizer. Não
por mim, mas por boa parte de seus alunos
no Colégio Pequeno C.E.U.,
no bairro carioca do Engenho de Dentro. Além
do estudo de Gramática, tínhamos
ditados e redação. E tínhamos
cadernos de redação.
Eu adorava! Sempre tirava ótimas notas
e aquilo devia estar dizendo que eu não
seria veterinário como pensava. A redação
deveria ser do tamanho da página do
caderninho. Queria tê-los guardado.
Alguns
anos depois, tive a experiência da redação
do vestibular. Lembro até hoje o tema:
Violência urbana. Mandei lá
minhas 30 linhas sem muita extravagância,
respeitando as dicas engessadas dos peritos
em vestiba. Naquele ano teve
um 10 em redação na UFRN.
E foi no curso de Jornalismo! E não
foi meu. Foi do Silvino, uma cara muito gente
boa que já era jornalista e estava
buscando o diploma. E também teve outra
redação inesquecível
que (graças a Deus) também não
foi minha. O vestibulando falou sobre a violência
dos garis da cidade. Urbana, em Natal,
é o nome da empresa que faz a coleta
de lixo.
Já
no curso, na disciplina Técnicas
de Produção e Difusão
em Jornalismo, tentaram me ensinar
as talas do jornalismo: o lead e
o sublead. “Tem
que escrever assim”,
“Tem
que ser sério”,
“Tem
que...”
Detesto temques.
Se deixasse, todos teriam jogado no lixo o
pouco de Comunicação e Expressão
que aprendi.
Costumo
dizer que educação não
é nada mais que a repressão
dos instintos selvagens.
Mas a repressão de um instinto básico
como a comunicação e a expressão
é um verdadeiro crime. As pessoas
acabam com medo de falar, de escrever, de
dar uma opinião e acabam não
tendo uma já que não sabem expressá-la.
O
problema é tão sério
que já vai além da discussão
entre Lingüística e Gramática,
entre o livre falar e a rigidez da norma culta.
Carlos Heitor Cony, jornalista
e escritor consagrado, membro da Academia
Brasileira de Letras, instituição
que “tem
por fim a cultura da língua e da literatura
nacional”,
em artigo
de hoje na Folha de S. Paulo
- Xama e atensão
– declara: “Não
sou pela correta grafia das palavras nem pela
gramática correta; ambas são
convenções”.
Sou
admirador do trabalho de Cony. Não
concordo com muito do que ele disse nesse
texto e até me surpreendo com declarações
do tipo “Até
hoje, antes de escrever determinadas palavras
(...), sou obrigado a pensar fundo, ou, sacrifício
supremo, ir até a estante apanhar o
ensebado dicionário do mestre”.
Nunca me disseram que dicionário era
para ser decorado. Cony está naquela
fase da vida e da carreira em que pode dizer
os maiores absurdos (e não que o tenha
feito agora). Apesar de não comungar
das opiniões expressadas no artigo,
tenho que admitir que a conclusão é
perfeita:
“estou apenas registrando
a falência das normas em relação
ao uso do mundo e dos povos”.
Se
tiver crianças em
casa – crianças com menos de
três ou quatro anos –, perceba
como esses pequenos analfabetos sabem se comunicar
e se expressar perfeitamente. Não
deixe que percam essa capacidade.
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| Postado
em 21 de novembro de 2006, terça |
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Eu se amarrei no sugerimento do
Dunga

“Dai-me
uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta
ruda,... ”
“Do
licor que Lieo prantado havia
Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
Os de Faeton queimados nada enjeitam. ”
“Mas
em tempo que fomes e asperezas,
Doenças, frechas e
trovões ardentes,... ”
“
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,...
”
“Nas
ilhas de Maldiva nace a pranta
No profundo das águas, soberana,...”
Sou
defensor do vernáculo. Quisera ter
recebido educação suficiente
para jamais duvidar da posição
de uma letra ou mal colocar uma vírgula,
para fazer construções sintáticas
irrepreensíveis, ser douto em gramática
normativa. Ser O Erudito.
Esforço-me por continuar aprendendo
e melhorando. Quanto mais faço isso,
mais percebo que tal conhecimento
não me dá direito a fazer pouco
de pessoas menos instruídas ou que
não utilizem a “norma
padrão”.
Da mesma forma, quanto mais estudo, mais sou
consciente de minha ignorância.
Até
por força da profissão, aprendi
que se fazer entender é muito
mais importante que escrever de forma perfeita.
Não que, por isso, vá nivelar
por baixo, mas de forma que a comunicação
seja efetiva.
Duvido
que algum brasileiro não tenha entendido
quando Dunga, o técnico
da seleção brasileira de futebol,
comentando sobre a roupa que usava, disse
que “A
Gabriela dá algum sugerimento”.
Em
momentos como esse, os donos da língua
se manifestam. E quase sempre a bandeira é
levantada pela parcela pobre da família
ou, como costumo chamar, “os
emergentes da língua”.
São aqueles que, em sua maioria, também
tiveram uma educação falha,
mas conseguiram um diploma de curso superior
que, provavelmente, deve fazer a poderosa
mágica de torná-los imediatamente
alfabetizados e, mais que isso, donos de invejável
erudição. Como o pagodeiro
ou o jogador de futebol vertiginosamente guindado
às altas rodas não segura a
onda e mostra as falhas de sua criação,
o jornalista – potencial policial
do idioma – adora apontar “erros”,
mas costuma demonstrar sua ignorância
em temas básicos como a diferença
entre língua e gramática
normativa ou ainda em relação
a outros idiomas.
Quem
me conhece ou me acompanha nestas mal traçadas
sabe que não suporto futebol. Soube
da “gafe”
(?) de Dunga pelos jornais. Não sei
muito a seu respeito, mas sei que é
gaúcho, descendente de italianos e
que jogou na Itália por muitos anos.
Portanto já deve ter ouvido muitos
outros suggerimenti.
Então alguém, por favor, diga-me
o porquê do achincalhe.
Se
houver motivo justo, podemos pensar em colocá-lo
no mesmo barco do analfabeto que escreveu
os versos que encimam este texto. Frauta,
prantado, frechas, pubrica, nace a pranta...
É mesmo falto de inteligência
e conhecimento de português esse tal
de Camões.
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| Postado
em 15 de novembro de 2006, quarta |
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E aí, piauí?
A
revista piauí
chegou às bancas no mesmo mês
da nova Stone brasileira. Chegou sem fazer
o estardalhaço da gringa mas vendeu
tudo. Enquanto isso, Gisele Bündchen
atravessou o mês boaindo nas bancas
de todo o país. Verdade: não
dá para comparar a tiragem das duas.
Item certamente revisto para a segunda edição
de cada uma. Uma deve aumentar; a outra, diminuir.
Sinal
dos tempos? Um produto tipicamente brasileiro
com nome de um dos Estados mais pobres do
país dando de lavada na filha do Império?
Sei não. Até porque não
achei a piauí essas coisas.
Fui
cheio de vontade às bancas. Quase tardiamente.
Já tinha visto a piauí,
mas deixei para comprar depois. Quando o João
Moreira Salles foi ao Programa
do Jô, dizendo que a primeira
edição havia esgotado, e o gordo
acabou falando do Memória
Viva, senti-me na obrigação
de “fechar
o ciclo”.
No dia seguinte fui comprar a revista do João.
Só achei na décima banca. Comprei
duas. Coisa de colecionador. Depois da leitura,
comecei a achar que esse primeiro número
jamais viria a ser “um
grande clássico”.
Os
novos nomes não mostraram grandes coisas
e os velhos me levaram a crer que nem todo
mundo que escreve melhora com a idade. Quem
deu uma dentro foi mesmo a Danuza
Leão. O que poderia ter sido
a “matéria
Caras”
da piauí é, na minha
opinião, o melhor texto da primeira
edição. Deixe o preconceito
de lado (ela conta a história do estilista
Guilherme Guimarães)
e confira.
A
segunda chegou na base do “em
time que está ganhando...”.
Cópia da primeira. Incluindo os vacilos.
Muita gente não vai comprar a terceira.
Criticar
é fácil. Quero ver ir lá
e fazer um revistão que agrade todo
mundo. Para dizer a verdade, acho
que o mercado editorial brasileiro reflete
bem nosso tempo: tem um monte de
coisas (principalmente lixo) pra tudo quanto
é gosto. E tudo vende. O duro é
todo mundo achar que está fazendo o
melhor. “A
minha revista é a melhor”,
“A
minha revista é perfeita”,
“Na
minha revista só tem cara genial”.
Ainda não vi uma dessas.
piauí
é criancinha. Pode ser que cresça
e apareça. Se não, ainda que
as propostas não sejam exatamente as
mesmas, a Bravo
e a Cult continuam
nas bancas mostrando um trabalho menos pretensioso
e mais competente. Não seremos eu e
meus gostos a tentar dar nota ou valor. O
tempo que o faça. Sou apenas um leitor
que gosta disso, não gosta daquilo
e que não vai com a maré nem
tampouco contra ela.
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| Postado
em 10 de novembro de 2006, sexta |
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Os dois últimos dias do FIC 2006

Na
quarta, penúltimo dia do FIC
Brasília 2006, só tive
ânimo para assistir um filme, o argentino
O bom destino.
O excessivo, dispensável e ingênuo
uso de metalinguagem de estudante de jornalismo
encantado por este recurso me cansou um pouco.
Mas levei na base do “não
estou a fim de pensar hoje”.
Bonitinho.
No
último dia, resolvi me presentear com
um filme de Oscarito. Assisti
O homem do Sputnik.
Já havia assistido pelo menos duas
vezes, mas queria ver na tela grande. Por
mim, teria visto apenas duas mostras neste
Festival: a do Oscarito e a de Luchino
Visconti. Para não dizer que
nem passei por nenhuma delas, terminei com
O homem do Sputnik, que em 1959 levou
15 milhões de espectadores aos cinemas.
Um quarto da população do Brasil
à época. A Atlântida
era a Atlântida. Nunca houve
nada parecido por aqui.
Ao
sair da sala, fui entrevistado para o documentário
sobre Carlos Manga (diretor,
dentre outros, do filme que acabara de ver),
que começou a ser rodado aqui em Brasília
neste último dia do FIC. Portanto,
Manga por Manga
pode ser minha primeira aparição
na telona. Venho avisando: peçam autógrafos
enquanto ainda sou uma criatura acessível.
Depois que a estrela subir, vou ficar insuportável.
Ao
final, contabilizei apenas 20 filmes
este ano contra 28 no ano passado.
Além das mostras citadas, queria ter
visto A prisioneira,
Só Deus sabe,
Antônia (que
já virou série a ser exibida
na Globo), 100 Escovadas antes
de dormir, O colecionador,
Paprika, O
homem da embaixada, À
procura de Mozart e Viva
Zapatero!
À
noite aconteceu a premiação.
Sem surpresas. O americano A Morte
do Falcão foi duplamente
escolhido como melhor filme da Mostra Competitiva:
pelo público e pelo Júri oficial.
Este também
decidiu laurear o documentário israelense
Cinco Dias com
o Prêmio Especial do Júri. Muito
merecido.
Nesta
edição do FIC Brasília,
foi instituído também o Prêmio
Itamaraty para o Cinema Brasileiro. O longa-metragem
O Céu de Suely,
de Karim Aïnouz, e o curta-metragem Alguma
Coisa Assim, de Esmir Filho,
levaram, respectivamente, R$ 25 mil e R$ 10
mil, oferecidos pelo Ministério das
Relações Exteriores.
A
votação do público indicou
o longa Wood & Stock - Sexo,
Orégano, e Rock’n’Roll,
de Otto Guerra, e o curta Tarantino’s
Mind, de Bernardo Dutra e Manitou
Felipe da Silva, que receberam o Prêmio
do Júri Popular. Também foi
entregue o Prêmio Itamaraty em Homenagem
ao Conjunto da Obra, In Memorian,
a Leon Hirschman. O ministro
das Relações Exteriores, Embaixador
Celso Amorim, fez as entregas.
Acabou.
Agora é pensar nas estréias
de sexta nas salas comerciais, num Mostra
de Cinema Polonês que acontece
no Cine Brasília e no Ciclo
Freud 150 Anos – O Cinema no Divã,
que está acontecendo no Centro Cultural
Banco do Brasil. Só para relaxar...
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| Postado
em 8 de novembro de 2006, quarta |
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Irã e Itália
Definitivamente,
diminuí bastante meu ritmo neste
FIC. Ano passado, vi três ou quatro
filmes por dia. Mas isso é bem cansativo.
Nesta terça, foram apenas dois: Impedimento
e O Tigre e a Neve.
Impedimento
carrega o karma de ser um “filme
iraniano”.
Basta tal menção pra muitos
torcerem o nariz enquanto os intelectuais,
pseudo-intelectuais, intelectualóides
e toda a fauna afim começar a se
excitar. Fui na boa. Em todos os sentidos.
Foi o único filme do Festival que
me arrancou lágrimas. Incluindo algumas
de tanto rir.
O
filme começou dando um susto na platéia.
A legenda em português lhe dava o
título de Fora do Jogo.
Só que havia outro filme com o mesmo
título sendo exibido no Festival.
Offside, o título em inglês,
pode ser traduzido tanto por “impedimento”
como por “lado
de fora””.
Tudo bem. Um era iraniano e o outro alemão.
Ambos falavam sobre futebol, mas não
teria como confundir.
Mas
o que é que eu estava fazendo em
um filme sobre futebol (algo que detesto)?!
E ainda saio falando bem?!! Pois é...
gostei mesmo! O filme mostra a luta de garotas
para entrarem em um estádio de futebol
no jogo que poderá classificar o
Irã para a Copa da Alemanha. Como
mulheres não pode entrar nos estádios,
elas se disfarçam, mas acabam sendo
detidas e mantidas do lado de fora. São
histórias e tentativas diferentes
que geram lances engraçadíssimos.
Mas o que realmente me tocou foi a vontade
de ir contra os padrões estabelecidos
e o quanto um povo tão distante e
teoricamente tão diferente pode ser
tão parecido com o brasileiro. Futebol
é mesmo uma praga!
O
segundo filme deste dia foi uma nova tentativa
de “redimir
o Jimmy”.
O Tigre e a Neve, de Roberto
Benigni, ma minha opinião,
o pouco que presta do atual cinema italiano.
E olhe lá. Os filmes dele são
como o dos Trapalhões. Ele é
sempre o personagem principal que é
apaixonado pela mocinha (invariavelmente
sua esposa Nicoletta Brashi)
e passa por situações trágicas
transformando-as em comédia para
sempre chegar à mesma lição:
o amor vence tudo. Mas
eu gosto. Até o perdôo por
ter tirado o Oscar de Central
do Brasil.
O
Tigre e a Neve segue o mesmo padrão
de O Monstro e
A vida é bela.
Begnini escreve, dirige e é a estrela
do filme. E tudo funciona. Você sai
do cinema leve. Recomendado apenas para
quem ama e é feliz.
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| Postado
em 7 de novembro de 2006, terça |
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Cinco dias, 37 utilidades, um céu

Na
reta final do FIC 2006, começaram a
chegar os diretores e atores de alguns filmes
exibidos nas mostras competitivas. Visitas
bem menos interessantes que as da edição
passada, a não ser pela presença
de Karim Aïnouz, diretor
de O Céu de Suely
(melhor filme brasileiro que vi este ano)
e Madame Satã.
O
primeiro filme da segunda foi Cinco
Dias. Tenho certa predileção
pelo gênero. Quando aborda temas ou
culturas sobre os quais conheço pouco
ou nada, fico ainda mais interessado. O filme
mostra a execução do Plano de
Desocupação da Faixa de Gaza
e a retirada de oito mil judeus dos acampamentos
de Gush-Katif, que começou no dia 15
de agosto de 2005 e durou cinco dias. As equipes
de filmagem puderam acompanhar tanto o exército
israelense como os moradores da Faixa de Gaza,
de perto, durante todo o processo. Algo totalmente
diferente de qualquer cobertura jornalística
que se tenha visto por aqui. E uma tremenda
aula. Explica-se a situação,
as causas e objetivos dos dois lados, e mostra
como o risco de um grande barril de pólvora
prestes a explodir foi sendo minimizado até
que a situação pudesse ser solucionada
sem violência. Altamente recomendado.
Yoav Shamir, o
diretor, é também o responsável
por Checkpoint,
que vi no FIC 2005 e não gostei. Achei
confuso. Se Checkpoint foi o documentário
mais chato que já vi, Cinco Dias
é um dos melhores que assisiti.
Shamir aprendeu rápido.
Nessa
linha de “documentários
sobre outras culturas”,
assisti em seguida a 37 utilidades
para uma ovelha morta. O filme
mostra os Pamir Kirghiz, uma tribo com duas
mil pessoas originárias da região
de Pamir, na Ásia Central. Nos últimos
27 anos eles viveram em exílio, na
Turquia Oriental. Durante o processo de filmagem,
mostra-se como a antipatia dos Pamir Kirghiz
ao comunismo os levou a migrar da União
Soviética, da China Maoísta
e do Afeganistão para o presente exílio.
O passado é montado através
de entrevistas e reconstituições,
enquanto se mostra também como os Pamir
Kirghiz vivem hoje na Turquia moderna. Interessante.
Para
fechar a segunda, vi O Céu
de Suely. Adoro cinema brasileiro,
mas confesso que essa nova safra de Sessões
da Tarde produzidas pela Globo Filmes vem
me dando nos nervos. Temo que as novas gerações
sejam novamente ensinadas a repudiar o cinema
brasileiro graças a isso. Ou não,
já que são os filmes nacionais
que mais têm “atraído”
público. Ainda bem que vez por outra
aparece um Karim Aïnouz para salvar a
pátria.
Hermila/Suely
é uma jovem de 21 anos, nascida em
Iguatu, sertão cearense. Dois anos
atrás, partiu para São Paulo
com o namorado. Agora volta com um filho pequeno
e espera o retorno do namorado. Nem precisa
dizer... Como ele não volta, ela tenta
se virar sozinha e... vá logo assistir,
vá!
Para
saber mais:
O
Céu de Suely
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| Postado
em 6 de novembro de 2006, segunda |
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Ang Lee, Tsotsi, Wood & Stock

Domingo
pede filme para relaxar. Fui marcar presença
na Mostra Trilogia Ang Lee
(O Tigre e o Dragão, Hulk,
Brokeback Mountain), que apresentou
os três primeiros filmes do diretor:
Arte de Viver,
Banquete de casamento
e Comer, Beber e Viver.
Assisti este último.
Em
seguida, vi um dos filmes mais concorridos
deste FIC: Tsotsi.
Temos Pixote. Temos
Cidade de Deus.
Se Tsotsi fosse brasileiro, haveria
menos lágrimas e sobrariam tiros no
final que, certamente, seria mais realista
e cruel. Tsotsi, uma produção
da África do Sul e Reino Unido, dirigido
por Gavin Hood, vem colecionando
prêmios pelos festivais de todo o mundo.
O filme mostra uma nesga de humanidade que
dificilmente existiria no mundo real em situações
como as que apresenta. Mas vale a pena. Assista.
Vai entrar em circuito comercial.
E
nada melhor que terminar o fim de semana (acho
tão estranho o fim de semana terminar
no primeiro dia da semana) com Wood
& Stock – Sexo, Orégano e
Rock’n’Roll, outro
filme que vem juntando prêmios mundo
afora. Obrigatório para quem está
na casa dos 30 e colecionou a revista Chiclete
com Banana e outros trabalhos
de Angeli. Lisérgico,
um pouco lento (os personagens viveram os
anos 70!) mas divertido. Impagáveis
as vozes de Rê Bordosa,
Lady Jane (ambas feitas por
Rita Lee) e do Profeta Raulzito
(por Tom Zé).
Para
saber mais:
Wood
& Stock - Sexo, Orégano e Rock`n`roll
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| Postado
em 5 de novembro de 2006, domingo |
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Sábado de Aleluia no FIC

Aleluia!
Os filmes chocos do dia anterior foram devidamente
lavados. Se vi o pior do FIC na sexta, comecei
o sábado com o melhor deles –
ou pelo menos o que mais me agradou.
O
espanhol A vida secreta das palavras,
de Isabel Coixet, me atraiu
a partir do título. O lirismo me fez
viajar. O filme não tem absolutamente
nada a ver com o que eu poderia imaginar.
Apesar de muito interessante (a direção
é extremamente segura e os personagens
muito bem construídos), até
mais da metade do filme eu fiquei me perguntando
onde o título se encaixava. Mea
culpa. Sou um bruto. Havia deixado a
sensibilidade em casa no sábado. Mas,
lá pelas tantas, ela chegou e eu fui
me envolvendo com a história de Hanna.
Acredite:
é melhor não falar muito sobre
o filme. A Vida Secreta das Palavras
foi o grande vencedor da 20ª edição
do Goya, em janeiro deste
ano. O Goya é o mais importante prêmio
de cinema da Espanha. Além de levar
como melhor filme, Isabel Coixet também
saiu como melhor diretora e autora do melhor
roteiro original.
Eu
poderia ter voltado para casa e “curtido
o sentimento”, mas entrei em outra sessão
logo em seguida para ver Wal Mart
– O alto custo do baixo preço.
Vai lá... não é do Michael
Moore, mas tudo que mostra podreira
americana vale a pena. Veja e saia do cinema
com vontade de jogar ovos na loja mais próxima.
Para
fechar o sabadão em alto nível,
assisti Cartola, dos pernambucanos
Lírio Ferreira e Hilton
Lacerda. Um filme para derrubar preconceitos.
A começar pelo que poderia dizer: “o
que pernambucanos entendem de samba, Rio de
Janeiro e Cartola?” Provavelmente nada
quando começaram a pensar no projeto
há oito anos. Depois fizeram um filme
que carioca nenhum conseguiu fazer. Documentário
de classe. Esqueça Vinicius
e caia no samba com Nelson Sargento,
Carlos Cachaça, Dona
Zica, Zé Kéti,
Xangô da Mangueira
(“Naquele tempo, se cantava samba ontem
e se cantava toda vida”), Moreira
da Silva, Elza Soares
e mais um monte de bamba oitavo dan. É
hora de tirar o chapéu para Cartola.
Gênio mesmo! Confira e saia sambando
por aí. Não gosta de samba?
Preste atenção... o mundo é
um moinho...
Para
saber mais:
A
Vida Secreta das Palavras
Wal
Mart – O alto custo do baixo preço
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| Postado
em 4 de novembro de 2006, sábado |
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Duas escolhas estranhas: Jimmy da Colina
e O guardião

No
segundo dia de mostras, mudei completamente
a programação que havia estabelecido.
Escolhi Jimmy da Colina,
para ver algo recente do cinema italiano,
e O Guardião,
porque filme argentino é
(quase) sempre uma boa pedida.
Jimmy
é um jovem que entra para o mundo do
crime e, por isso, é levado a cumprir
pena na Disneylândia. A partir daí,
seu sonho é fugir para o México
e fazer parte dos Rebeldes. Se exibirem o
filme na Febem, a molecada vai querer ir à
Itália mostrar que Dadinho é
o caralho e que aqui só tem Zé
Pequeno, porra! O filme é um belo incentivo
para se pensar em seguir carreira de delinqüente
na Itália. Seria o filme mais fraco
que veria neste FIC. Nicola Adamo,
que “interpreta”
o personagem-título, passou incólume
pelo Festival. Ninguém percebeu sua
presença.
Pensei
que o argentino O Guardião
fosse redimir o Jimmy...(Entendeu? Redimir
o Jimmy...). Nem dá pra dizer que “valeu
a tentativa”.
O que gosto nesses festivais, é a possibilidade
de assistir filmes de e com pessoas que nunca
vi e sem nem ler a sinopse. Vou limpo para
o filme. De alma aberta. Sem concepções
prévias. Foi assim com O Guardião.
Vi, consegui não dormir
e fiz dois comentários ao final: muito
acadêmico e se fosse um curta de 20
minutos teria dado o recado sem ser maçante.
Bingo. O diretor, Rodrigo Moreno, é
formado em e é professor de cinema.
Já fez vários curtas, mas este
é seu primeiro longa. Acredito que
os próximos serão melhores.
Vou dar um voto de confiança a ele.
Acabou
o segundo dia. Graças a Deus.
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| Postado
em 3 de novembro de 2006, sexta |
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Bahia, EUA e Argentina

No
primeiro dia de mostras deste FIC, resolvi
corrigir um erro. Assistir Eu
me lembro, de Edgar
Navarro, grande vencedor do Festival
de Brasília do Cinema Brasileiro
de 2005 e único dos competidores que
eu não havia assistido. O primeiro
longa do veterano baiano é merecedor
de elogios. Divertido, conta a história
de Guiga, desde sua infância nos anos
50 à maturidade nos 70. Não
satisfeito com o seis candangos que levou
em 2005 (Melhor Filme, Direção,
Atriz - Arly Arnaud, Ator coadjuvante - Fernando
Neves, Atriz coadjuvante - Walderez Freitas,
Roteiro e ainda o Prêmio da Crítica)
no Festival de Brasília, o filme concorre
este ano também no Festival Internacional
de Cinema na primeira edição
do Prêmio Itamaraty.
Falha
corrigida, comecei a saga de assistir aos
filmes da Mostra Competitiva. São dez.
O escolhido do dia foi A morte
do falcão, de Julian
Goldberger, com um dos mais atuantes
atores americanos da atualidade, Paul
Giamatti. O público brasileiro
o conhece bem de filmes como Duets,
Sideways e A
dama na água. E vai vê-lo
também, a partir deste mês, em
O Ilusionista.
Giamatti tem feito cerca de seis filmes por
ano. Para 2007, já terminou um, está
filmando dois, tem outros dois em pós
e um em pré-produção.
Se
Woody Allen entrou para a
história do cinema como modelo de neurótico,
Paul Giamatti é o exemplo perfeito
de psicótico maníaco-depressivo.
Em breve, alguém fará uma tese
ligando seus personagens Miles Raymond, de
Sideways, com este George Gattling,
de A morte do Falcão, passando
por vários outros e concluindo que
todos são um só que passa por
diferentes fases de depressão, manias
e inadequação à realidade.
O cara é bom nisso.
Com
nome de filme barato sobre terrorista e praticamente
sem trilha sonora, A morte do falcão
parece uma tentativa de fazer com que um filme
americano seja mais que mero entretenimento.
Consegue durante quase duas horas e escorrega
nos minutos finais, terminando de forma óbvia,
num sentimentalismo de Sessão da
Tarde, como se o diretor tivesse esgotado
todos os recursos de sua inteligência.
Mas isso não chega a estragar o filme.
Até porque Giamatti está nele.
O
terceiro e último filme do dia foi
A Aura. Se o fato
de ser argentino não bastasse para
querer vê-lo, some-se a isso os fatos
de ter sido dirigido por Fabián
Bielinsky (Nove Rainhas)
e estrelado por Ricardo Darín
(O filho da noiva).
O
último filme de Bielinsky, que morreu
no Brasil em junho deste ano, conta a história
de Esteban Espinosa, um taxidermista extremamente
tímido, mas que alimenta o sonho de
praticar o crime perfeito. Abandonado pela
mulher, ele aceita o convite de um amigo para
caçar na floresta. Acidentalmente,
se envolve em uma trama de vários bandidos
que pretendem assaltar um carro-forte. Ele
resolve levar o plano adiante, mas para isso
precisará superar um mal que lhe acomete:
a epilepsia.
A
história traz uma seqüência
de surpresas e voltas que Esteban precisa
dar cada vez que algo parece sair do plano
traçado. Na verdade, um plano que vai
sendo construído e desconstruído
conforme as circunstâncias.
Para
saber mais:
Eu
me lembro
A
Aura
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Memória Viva no Jô
Cá
estava eu, quase a uma da manhã desta
sexta, havia acabado de chegar do Festival
de Cinema Internacional de Brasília
e começava a escrever as notas para
a revista SET
quando o Jô atrapalhou tudo.
Durante
entrevista com o cineasta João Moreira
Salles, Jô Soares falou e mostou o site
Memória
Viva em seu programa.
Foi gente telefonando, pipocando no MSN, no
Orkut, mandando e-mail... teve tanta gente
tentando ver o site ao mesmo tempo que mal
se conseguia acessá-lo! Uma loucura.
O Jô tem O PODER!
Creio
que o vídeo da entrevista com Salles
e o Jô falando do Memória Viva
deverá estar, em breve, como passe
livre no Globo
Media Center. Enquanto isso, saiba
como foi “minha
ida ao Programa do Jô em 2004”.
Bem...
eu me atrapalhei todo e fiquei até
três da manhã respondendo o povo...
Mas vou continuar os textos sobre o Festival
de Cinema. Fiquem ligados.
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| Postado
em 2 de novembro de 2006, quinta |
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Voltemos
à programação normal
deste blog. Filosofia, Literatura, Teatro,
Artes em geral. E a bola da vez é Cinema.
Nesta
quarta, 1º de novembro, teve início
a oitava edição do Festival
Internacional de Cinema de Brasília.
A abertura, como de costume, aconteceu no
Academia Music Hall, um teatro com capacidade
para 2.500 pessoas. Lotado.
Este
ano, o clima foi “menos
Oscar”.
Em 2005, o filme de abertura foi Gaijin
– Ama-me como sou, de Tizuka
Yamazaki. Havia banners
gigantes e a presença dos atores principais.
Até dois dias atrás, eu pensava
que encontraria Pedro Almodóvar
e Penélope Cruz. Pura
ilusão. Volver,
mais novo filme do diretor espanhol, foi o
longa que abriu a atual edição
do FIC Brasília.
Vê-se
de tudo na noite de abertura. Do fake
ao casual, do excessivamente modernoso ao
“ei,
eu sou artista!”,
passando pelos “vim
direto do ministério para cá”
e “passei
o dia todo na UnB e nem tomei banho”.
Após o bla-blá-blá inicial
onde os diretores, atores e autoridades presentes
são anunciados (o governador eleito
de Brasília, o “Arruda
da quebra do sigilo do painel”,
levou uma sonora vaia), foi exibido o curta
Tarantino’s Mind,
dirigido por Manitou Felipe
e Bernardo Dutra. O filme
mostra uma conversa entre dois amigos, vividos
por Selton Mello e Seu
Jorge, a respeito de uma tese sobre
os filmes de Tarantino. É
divertido e ágil. Os iniciados em Tarantino
se acabam de rir. Quem nunca viu seus filmes,
provavelmente não entenderá
nada.
Volver,
de Almodóvar, foi exibido em Cannes
este ano (levou Melhor Roteiro e Melhor Atriz
para Penélope Cruz, Carmen
Maura, Lola Dueñas,
Blanca Portillo, Yohana
Cobo e Chus Lampreave),
no FestRio e na 30ª Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo. Logo chegará
às salas comerciais.
Não
dá para falar muito sobre o filme sem
estragar suas surpresas. É um Almodóvar
em ótima forma! Trágico e cômico,
simples e complexo, tensão que acaba
em riso frouxo. E Penélope
Cruz sendo o que é: uma espanhola.
Gosto de tudo que ela fez, mas o tipo latina
bonita e frágil geralmente utilizado
por Hollywood esconde muito de seu talento.
Feche os olhos na hora em que ela cantar.
Prefira imaginar a ver e dará nota
10 ao filme.
Para
saber mais:
FIC
Brasília 2006
Volver
– Site oficial
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