Postado em 30 de novembro de 2005, quarta

:: Tô indo!

São 18h22, tenho que sair para o aeroporto em 38 minutos, estou podre e não arrumei as malas. Se tudo der certo, ainda hoje estarei em Big Field of Parahyba.

Os últimos dois dias e as notícias do Festival de Brasília podem ser encontrados na seção Takes, na página principal do site da revista SET. Um pouquinho das entrevistas com Matheus Nachtergaele e Milhem Cortaz, além do anúncio dos vencedores, estão lá também.

Fuuuuui.

 
Postado em 28 de novembro de 2005, segunda

:: A concepção

Esqueçam tudo que eu disse ontem. Ou antes. Ou em qualquer momento que não agora. Aproveite e esqueça também o cinema trash de Afonso Brazza, os curtas-cabeças ou os documentários vindos da UnB como sinônimos de cinema brasiliense. Assim como a cidade de Brasília nasceu de um estupro do cerrado; como a música de Brasília nasceu com um Aborto elétrico, o cinema de Brasília nasce com A concepção, de José Eduardo Belmonte. O resto é pré-História.

A cidade com dez páginas de História acaba de ganhar um capítulo importante. Logo no início do filme, o personagem Lino explica que só conhece Brasília quem viveu aqui.Cá entre nós, Brasília é uma merda, mas se você sabe como, pode mudar as coisas. E assim é apresentado ao público o concepcionismo. Como quase tudo na cidade, uma porra-louquice que vem, varre tudo e deixa lembranças. Ou não. De preferência, não.

Quem é você? A resposta só vale por hoje porque amanhã você será outro. E a sua essência? Isso é preocupação de gente louca. Que venha a morte doce, a morte do ego. Apague toda memória e viva a fraude por 24 horas.

Não se engane: você será enganado.

Tudo o que foi dito deve ser esquecido agora.

Vou falar dos curtas da quinta noite deste Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

O som da luz do trovão lhe fará pensar como é que Evangelista Ignácio de Oliveira, aquele matuto lá de Serra Talhada (PE) pode ser tão genial e você, que se achava tão genial, pode ser tão matuto. Você vai ter a impressão de que perdeu tempo estudando em vez de colocar seu cérebro para funcionar.

O caderno rosa de Lori Lamby é o que eu chamaria de uma putaria fina. Fina quando você descobre os porquês dos relatos despudorados da garotinha de 8 anos vivida por Iara Jamra. Até lá, ria se puder e repare em suas próprias concepções sobre luxúria e taras.

Eu falei em concepção?

Então agora esqueça tudo de novo.

 
Postado em 27 de novembro de 2005, domingo

:: Um menino, um homem comum e uma fera

Ainda faltam dois longas nesta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, mas algo me diz que o ganhador já foi exibido.

Anote este título: O veneno da madrugada. O filme é de Ruy Guerra. O que mais precisa ser dito? Ruy Guerra tem 74 anos; dirige há mais de 50; fez Os cafajestes, Os deuses e os mortos, A queda, A Ópera do Malandro; entende tudo de cinema e, mais importante que tudo isso junto, fez uma filha na Cláudia Ohana quando esta tinha apenas 19 aninhos e ele já era um senhor com mais de 50. Resumindo: o cara é foda!

O filme é uma adaptação do livro La mala hora, de Gabriel García Márquez. O elenco é de primeira e a fotografia de Walter Carvalho é tão maravilhosa que dá raiva. É filme para ser apreciado e visto mais de uma vez.

Os curtas em 35mm exibidos na quinta noite de festival também não deixaram por menos. O meio do mundo, do paraibano Marcus Vilar, mostra a iniciação na vida de um garoto... no meio do mundo. Os 11 minutos de filme mostram o diretor do premiado A canga em ótima forma. Mas fica uma vontade de se ver mais. Patrocinadores, dêem dinheiro a Marcus para que ele possa fazer longas. O caba é bom!

Rapsódia para um homem comum, de Camilo Cavalcante, de Pernambuco, é mais uma prova do cinema de ótima qualidade feito no Nordeste. Um funcionário público, nos anos 70, totalmente desiludido e cansado de sua rotina banal se vê tomado por um amor sublime que muda completamente sua vida. É bem dirigido, tem movimentos de câmera ousados, trabalha muito bem a música e tem uma cena que nunca mais vai sair da minha cabeça: um cara chorando enquanto, digamos, uma mulher lúbrica, dessas devotadas à libertinagem remunerada, lhe aplica um fellatio. Mas não é daí que surge o tal amor, sublime amor...

 
Postado em 26 de novembro de 2005, sábado

:: Depois daqueles filmes

Há algum tempo, fui a um show do Skank e saí impressionado. Não só pelo número de sucessos que eles conseguiram colecionar em relativo pouco tempo de carreira, mas principalmente pela atitude da banda. Eles fazem um ótimo show de rock limpo. Os caras são do bem! São mineiros.

Tive a mesma impressão ao assistir Depois daquele baile, de Roberto Bomtempo. O filme é do bem. Bem mineiro. E me tirou (um pouco) aquela velha impressão de que mineiro só é solidário no câncer.

A quarta noite do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi a mais heterogênea em relação aos temas dos filmes. Confesso que depois de ver a maior ovação do festival – até agora – após a exibição de Rap, o canto da Ceilândia, de Adirley Queiroz, achei que seria uma covardia exibir qualquer coisa. O público reagiu ao curta ainda com mais intensidade do que reagira na noite anterior ao filme À margem do concreto sobre as ocupações de prédio em São Paulo, um problema social dos mais sérios que temos, mas algo que parece bem distante para quem mora no Plano Piloto em Brasília. Já a Ceilândia é logo ali. Mesmo que os Maurícios, Plínios e Patrícias presentes nunca tenham ido a uma cidade satélite, o recado de X, Jamaika, Marquim e Japão sobre preconceito racial e discriminação social foi um direto na boca do estômago como todo bom rap. Sou negão careca da Ceilândia mermo e daí? Os caras aproveitaram os 15 minutos e mandaram muito bem. Deixaram claro que Ceilândia não é Brasília, que quem escreve sobre o movimento Hip Hop não se envolve com a podreira que rola no gueto, que tudo que aparece na imprensa sobre eles é deturpado e que só acreditam que terão espaço de verdade quando surgirem profissionais de mídia que tenham vivido aquela realidade. Punk! Punk não, desculpe, RAP! Ritmo e poesia ceilandense com muito orgulho!

Em seguida veio o filme de Ricardo Sturm, proprietário do Cine Belas Artes, de São Paulo, e Sílvia Rocha Campos, Quem você mais deseja. A interpretação de Chico Diaz segurou a onda e preparou o terreno para o longa da noite, Depois daquele baile. Roberto Bomtempo, ator que faz sua estréia na direção, subiu ao palco com Lima Duarte, Irene Ravache, Marcos Caruso, Ingrid Guimarães e outros membros da equipe responsável pelo filme. Lima Duarte faz rir durante todo o filme, mas se você se deixar envolver pela história, vai acabar chorando no final. Mas vai ser um choro gostoso, desses que a gente solta quando percebe que o amor é uma força poderosa e que a vida continua.

Depois daqueles filmes, resolvi voltar para casa e dormir, algo que quase não havia feito desde que o festival começou. Neste sábado, vou apenas à exibição da Mostra Competitiva 35mm, à noite. Até terça, quando serão divulgados os vencedores, continuarei mantendo as atualizações diárias sobre o Festival de Brasília. No Flog, você confere mais algumas fotos.

 
Postado em 25 de novembro de 2005, sexta

:: José Dumont, o homem que virou livro, e outras histórias

O terceiro dia do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi quente! Até São Pedro deu trégua e maneirou na chuva.

À tarde, estive na primeira sessão da Mostra Competitiva 16mm. Esta é uma das facetas mais interessantes desse tipo de festival. Não fosse por eles – os festivais -, provavelmente esses curtas ficariam relegados à turma da faculdade, aos parentes e amigos e a uma ou outra exibição esporádica. Outro diferencial é que esses filmes são pensados, quase sempre, de uma forma acadêmica. Isso não engessa a obra. Muito pelo contrário. Como não existe uma preocupação comercial, pode-se viajar à vontade.

Abriram a mostra os filmes 21A, de Ananda Guimarães (SP); Berenice, de Bruno Duarte e Luciana Penna (RJ); Miragem, de Gustavo Arantes (MG) e Iara do Paraitinga, de Mariana dos Reis (SP). Se tivesse que escolher um, ficaria com Berenice. Filmado em preto e branco e fazendo uma adaptação livre de Edgar Alan Poe e Augusto dos Anjos, o filme é todo do ator Fernando Eiras. Miragem, como o próprio diretor advertiu antes da exibição, dá margens a muitas interpretações. Preferi apenas vê-lo. Como um leigo que assiste a um belo espetáculo de dança e se encanta com a plasticidade sem precisar entender nada. Iara do Paraitinga é simpático, usa uma linguagem direta e conta uma história de forma convencional: com início, meio e fim. 21A, mesmo com as participações de Ary França e Etty Fraser, não chega a decolar. Após a exibição dos quatro curtas, os jovens diretores responderam perguntas da platéia.

No final da tarde, no Hotel Nacional, as atenções foram todas para o lançamento da biografia de José Dumont, Do cordel às telas, escrita pelo jornalista Klecius Henrique e lançada pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de São Paulo. Para mim, foi uma oportunidade de bons encontros. Primeiro, com Luíza, proprietária do Café com Letras, um dos lugares mais agradáveis de Brasília. Ao fazer a indicação de meu nome para os autógrafos, colocouLobão, meu apelido. Eu recuei e preferi o nome oficial, mas aí foi a vez do autor me desmascarar. Klecius também fez jornalismo na UFRN. Até me chamar por Lobão, eu não havia me dado conta de que era ele. Grata surpresa. Competente em tudo que faz, o fato de ser o responsável pela biografia de José Dumont já é suficiente para garantir uma boa leitura.

Prestigiaram o lançamento os atores e diretores Roberto Bomtempo, Fábio Sabag e Joel Barcelos, além do diretor Evaldo Mocarzel e da mãe do homem, D. Lúcia Rocha, mãe de Glauber.

A Mostra Competitiva 35mm apresentou os curtas De Glauber para Jirges, que eu classificaria como uma poesia que dá gosto de ver e ouvir, e A lente e a janela, que dificilmente conseguirá concorrente para disputar o título de filme mais fraco desta edição do Festival de Brasília. O longa da noite, À margem do concreto, de Evaldo Mocarzel, mostra a luta dos Sem-Tetos em São Paulo. Qualquer coisa que se fale é pouco. Você precisa ver. O diretor levou lideranças do MSTC – Movimento dos Sem Tetos do Centro ao festival e os apresentou antes da exibição. Se cada pessoa que aplaudiu o filme um dia se movimentar para fazer algo em prol da igualdade social, estará feita a maior revolução já vista neste país. À margem do concreto não convida à reflexão. Dá mesmo uma joelhada no estômago – ou mais abaixo – e mostra, dentre outras coisas, o quanto a chamada classe média é acomodada em relação às situações de injustiça social no Brasil. Tapa na cara não para desmoralizar, mas sim para ver se o espectador se liga. Não havia lugar melhor para fazer sua estréia. Ou talvez houvesse: em exibição gratuita na Esplanada dos Ministérios. Mas para isso, sempre será a hora.

 
Postado em 24 de novembro de 2005, quinta

:: Incuráveis e À espera da morte

Começou – com certo atraso – a temporada de chuvas em Brasília. Isso deixa o trânsito lento, aumenta o risco de acidentes, mas não é suficiente para prender as pessoas em casa, afinal, estamos em pleno Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Mesmo debaixo de uma chuva chata e intermitente, os bichos-grilos, pseudo-intelectuais, posers, cinéfilos de ocasião e até alguns de verdade saem de suas casas para assistir os filmes das diversas mostras. E se for de graça, melhor ainda. Pode cair um dilúvio!

A mostra Revelando os Brasis tem entrada franca. Os curtas, em média com 15 minutos, compõem uma série que mostra vários Brasis diferentes e pouco conhecidos. A qualidade dos filmes varia bastante, mas ainda assim você sai com a certeza de que não verá aqueles locais e personagens no Globo Repórter.

À noite, as duas sessões da Mostra Competitiva 35 mm ficaram lotadas como esperado. Isso equivale a dizer que cerca de 2.500 pessoas passaram por lá. Os curtas Ãgtux, de Tânia Anaya, e À espera da morte, de André Luís da Cunha abriram a noite. À espera da morte foi produzido e estrelado pela Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo, de Brasília. Algum desavisado pode começar a assistir o filme e pensar que se trata de uma dramatização do acidente com o submarino russo Kursk, ocorrido há quatro anos e que matou seus 118 tripulantes. Nessa versão feita pelos Melhores... bem, não dá para falar nada. São apenas 16 minutos e eu vou deixar que você ria com a história. A companhia não tem o nome de Os Melhores do Mundo à toa.

Incuráveis, de Gustavo Acioli (carioca do Méier como eu), é um filme com Dira Paes. Precisa dizer mais? Então lá vai: a intérprete de Solineuza (A diarista) pode ter ficado conhecida do grande público há pouco tempo, mas faz cinema há 20 anos, sendo que 11 dos 21 filmes em que trabalhou foram feitos de 2000 para cá. Para ficarmos só em sua história com o Festival de Brasília, podemos lembrar que Dira ganhou os prêmios de melhor atriz, em 1996, por Corisco e Dadá; de atriz coadjuvante, em 1997, com Anahy de las Missiones; e ainda trabalhou em Amarelo Manga, filme duplamente vencedor – júri oficial e júri popular – na edição de 2002. Dira esteve presente à exibição. Sempre muito simpática, foi a pessoa mais assediada da noite e não se furtou a entender pedidos de fotos da imprensa e do público.

A ação do filme se passa quase toda em um quarto onde os personagens de Dira e do ator Fernando Eiras, que não se conhecem, passam uma única noite vivendo um jogo sem regras. É a estréia do diretor em longa. Não só ele, mas toda a equipe se sai muito bem. Tudo funciona: fotografia, direção artística, produção... Quem já viveu – ou vive! – a noite e seus dramas vai se identificar de cara! Vale a pena.

Ao término da segunda sessão, à 1h30 da manhã desta quinta, ainda havia muita gente na Praça de Alimentação montada ao lado do Cine Brasília. Para hoje, a maior expectativa fica por conta de À margem do concreto, documentário de Evaldo Morcazel sobre os Sem-Tetos e os movimentos de moradia na cidade de São Paulo.

 
Postado em 23 de novembro de 2005, quarta

:: Fodido não tem vez

Começou o 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ano passado, nessa mesma época, eu escrevia um post intitulado Fala tu, bicho poser, no qual criticava o público que costuma freqüentar o Festival de Brasília. Pois bem. Ontem à noite, lá estava eu, na abertura da edição 2005 do evento, enriquecendo a fauna.

A noite de abertura do Festival é só para convidados. E haja convidado! A Sala Villa-Lobos tem mais de 1.300 poltronas. Além delas, foram colocadas algumas centenas de cadeiras. Todas ocupadas. Tinha gente sentada nos degraus, nas laterais, em pé e tinha gente no foyer, aproveitando a boca livre antes mesmo de terminar a exibição do filme. E ainda tinha mais gente do lado de fora brincando de Noite do Oscar e esperando algum artista passar.

O Oscar, no entanto, era outro. A vida é um sopro, documentário sobre Oscar Niemeyer, foi exibido como hors-concours. No Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que está completando 40 anos, só concorrem filmes inéditos. Inéditos mesmo. Se passar como hors-concours em outro festival, já era. Se tiver concorrido, aí que já era mesmo. A vida... já passou até em tevê. Outro dia o peguei no final, creio que na TV Câmara.

Niemeyer é como suas obras: um monumento tombado pelo Patrimônio da Humanidade. Para além do Bem e do Mal, fala sobre arquitetura, arte e política com certeza absoluta de que não pode nem deve ser contrariado. Exibido na abertura do Festival de Brasília, o filme toma uma aspecto diferente. Soa um pouco como a cidade da qual me ufano. E dá-lhe aplausos, assovios, mais aplausos, hurras e até um grito de comunista. Não entendi se foi em tom depreciativo ou de elogio, o que não altera em nada a idiotice de quem gritou.

O filme desfila as obras de Niemeyer mundo afora e apresenta depoimentos do próprio arquiteto, pincelados aqui e ali por nomes conhecidos como Ferreira Gullar, Nelson Pereira dos Santos, Chico Buarque, Carlos Heitor Cony e José Saramago. Além disso, Niemeyer ensina como conjugar o verbo foder em quase todos os modos e tempos, o que provoca risadinhas nervosas dos mais pudicos e dos sacaninhas enrustidos. De forma ativa ou passiva, o povo parece gostar de foder. Do verbo.

E é por ele que Oscar Niemeyer sentencia que arquitetura é para quem tem dinheiro, fodido não tem vez. A cara de Brasília. A cara do Brasil.

Comunista que enriqueceu, ateu que construiu igrejas, Niemeyer desce do pedestal ao qual foi alçado para dizer que sua obra, como tudo, um dia vai acabar. E decreta: Nasceu, morreu, fodeu-se. Simples assim. Como a terceira pessoa no pretérito perfeito.

 
Postado em 20 de novembro de 2005, domingo

:: I Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião

De 15 a 18 de novembro, praticamente morei na Finatec, um complexo moderno e bem estruturado na UnB – Universidade de Brasília, onde aconteceu o I Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião. Pensei em fazer um acompanhamento diário aqui no blog, como fiz durante o Festival Internacional do Cinema, em julho passado, mas não só não tive ânimo – ficava de 8h30 às 21h no evento – como achei que um relato mais apurado sobre discussões filosóficas pudesse não parecer tão interessantes aos leitores-voyeurs que o visitam. Daí, o presente resumo.

Já na abertura do evento, fiquei impressionado com a disposição das pessoas em comparecer à primeira conferência em uma noite chuvosa no final de um feriadão. Se a palestra inicial fosse uma mostra do que viria pela frente – e de certa forma realmente foi – o nível do Congresso seria muito bom. Por outro lado, já na primeira mesa do dia seguinte, às 8h30, não bastasse minha eterna indisposição em acordar pela manhã, tive a primeira frustração em relação ao evento. Dois dos três palestrantes que comporiam a mesa faltaram. Justamente os dois que, pelos filósofos abordados – Nietzsche e Schopenhauer –, mais me interessavam naquele dia.

O público era bem heterogêneo. Ia de curiosos a professores universitários com pós-doutorado. O nível dos palestrantes também era variado. Em algumas mesas, o público rezava para que os 20 minutos de um palestrante acabassem. Em outras, lamentava que ele tivesse apenas 45 minutos.

Para compensar as frustrações em relação aos meus temas e filósofos preferidos, as palestras que mais chamaram minha atenção foram sobre os estudos de pensadores não tão conhecidos. Pelo menos para mim e minha galopante ignorância. Kierkegaard, Hildegard von Bingen, Ibn Sîna, Ibn Gabirol, Suhrawardi e Cioran forma alguns desses.

A máxima Só sei que nada sei nunca fez tanto sentido para mim. Estou convencido de que, com o pouco que acumulei até o presente momento, posso dizer sem medo de errar: Terminei o segundo grau. Completei o ensino médio. Cheguei a um ponto mínimo para não ser considerado totalmente analfabeto. Penso que, se nos próximos dez anos, fizer um bom curso de graduação em Filosofia, mestrado e doutorado tendo como foco alguma coisa que eu já entenda minimamente hoje e ler uns mil livros, talvez possa me considerar um professor de Filosofia medíocre, o que já me deixaria bastante satisfeito. Acredito ainda que quem faça menos que isso não passe de um bom orador-enganador.

Felizes são os especialistas que dedicam toda a vida a um único livro de 80 páginas e se alienam do resto do mundo. Mais felizes que esses, só os idiotas. Claro que o Congresso não foi uma reunião de superdotados. Era evidente o pensamento cristalizado de alguns, completa e declaradamente fechados a opiniões diferentes das suas. A convicção é o túmulo do pensamento. Mas não estou plenamente convicto disso.

A conclusão é que o estudo da Filosofia, sobretudo em algumas áreas, é algo inconclusivo. Você dá voltas e mais voltas e deve se considerar com sorte e inteligência ao não se dar por satisfeito por apenas brincar com as palavras. Para mim, esse I Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião deixa pelo menos uma grande lição: a de quese você não está confuso hoje é porque não está pensando direito. Pense nisso.

 
Postado em 18 de novembro de 2005, sexta

:: O famoso quem mesmo?

Em dezembro de 2003, como de costume, fui passar o final de ano em Natal. Nessa época, sempre bato ponto em alguns lugares e reencontro amigos. Mas naquele ano eu não encontrei Câmara Cascudo ou, mais precisamente, sua estátua em tamanho natural que fica em frente ao Memorial que leva seu nome. Haviam, pela segunda vez, tentado roubar a estátua. Os seqüestradores conseguiram arrancá-la da mão que faz as vezes de pedestal, mas não conseguiram levá-la. O caso gerou um artigo meu e uma foto que valeu a primeira página do Diário de Natal.

Agora acontece o mesmo com Brigitte Bardot. Também pela segunda vez. A estátua da francesa foi tirada de seu eterno fascínio pelo mar de Búzios. O motivo foi o mesmo: roubar-lhe o bronze. Não aquele que se consegue com o sol. O bronze mesmo. Vil metal que pode render alguns trocados.

Alguns trocados e não mais que isso. Esculturas só têm valor enquanto depositárias fiéis da arte e da memória. Desfeitas não servem para nada.

Costumo fotografar esculturas e outros monumentos. Muitas vezes me deparo com o descaso e o esquecimento relegados a quem um dia foi homenageado. Quanto maior e mais antiga a cidade, mais risco de abandono e depredação corre a notável figura.

Não fomos educados a cultuar e cultivar nossa memória. Um busto esquecido no meio de uma praça é um pedaço da História esquecido pelos comuns. Mas o que dizer de bustos e estátuas abandonados em um local, teoricamente, de muito saber, como uma universidade? Depois de perambular pelo Rio e até morar como indigente em um depósito público, John Lennon – de corpo inteiro! – foi parar no campus da UnB. No centro destinado aos cursos de Direito, Ciências Políticas e Relações Internacionais, também na Universidade de Brasília, junto aos bustos de outros dois eminentes juristas está o de Francisco Cavalcante Pontes de Miranda, que qualquer segundanista de Direito conhece mas talvez não tenha se dado conta de que ele está bem ali. Na frente da Biblioteca Central há um em homenagem a Simon Bolívar fazendo sabe-se lá o quê, afinal o homem é símbolo de todos os países da América do Sul, exceto o Brasil.

No Rio, até a República foi esquecida. O Campo de Santana está entregue aos pavões e cotias (nada mal!), mas ninguém sabe o que aquele gigantesco monumento representa. Confesso que eu mesmo, da última vez em que estive por lá, nem me dei o trabalho de atravessar a Getúlio Vargas para dar uma espiadela.

Creio que, tirando as homenagens aos santos populares, os demais outrora alguém rápido se transformam em famosos quem mesmo?.

 
Postado em 15 de novembro de 2005, terça

:: Entendendo as notícias deste feriado

Acordo, arrasto-me até o computador e vejo na página principal do UOL as seguintes notícias:

:: Trote filmado foibrincadeira, diz sargento

Oito dos 12 terceiros-sargentos da 2ª Companhia de Fuzileiros de Curitiba que apareceram no vídeo mostrado no último domingo pelo Fantástico disseram que as imagens mostravam brincadeiras consentidas.

Eu acredito: é verdade!

Tudo brincadeirinha como as de lutadores de jiu-jitsu que quebram o pau em shows, como as de skinheads que espancam homossexuais, como o famoso trote dos calouros de Medicina da USP, como as briguinhas de torcidas, como o chega pra lá do Mike Tyson em um cinegrafista em São Paulo... Tudo brincadeira, claro! Só esqueceram de dizer que era brincadeira entre selvagens. A 2ª Companhia de Fuzileiros de Curitiba é praticamente o Quartel dos Joselitos.

Tudo sem noção. Não sabe brincar, então não brinca. Se não agüenta, por que veio? Não vejo nada demais nas brincadeiras dos sargentos. Desde que o Estado mantenha todos eles longe da sociedade civilizada e, de preferência, gerando lucros em vez de nos dar despesas.


:: Scorsese filma biografia definitiva de Bob Dylan

Bem que eu desconfiava que aquela múmia no palco já tivesse morrido há muito tempo...


:: Maioria das lojas de shopping e bazares abre hoje

Mas não é feriado?


:: Estátua de Brigitte Bardot é destruída

Essa merece um post só para ela! Escrevo hoje à noite, depois de voltar da abertura do I Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião, que acontece até a próxima sexta, na UnB.

 
Postado em 13 de novembro de 2005, domingo

:: Nem precisa espremer...

Ainda criança, lembro que, junto com a bisnaga quentinha, logo cedo, meu avô sempre trazia um exemplar de O Dia para casa. O diário já tinha mais de duas décadas – foi lançado em 1951 – e era o jornal mais popular do Rio. Até bem pouco tempo só era vendido em bancas. Não tinha assinatura. Foi naquela época em que ouvi pela primeira vez a expressão espreme que sai sangue. O Dia sempre dava – e ainda dá, só que de forma mais branda – mais importância às manchetes violentas.

Em São Paulo, 12 anos mais novo que o jornal carioca, já existia o Notícias Populares. Mais do que sanguinolento, o Notícias vivia entre a realidade e a ficção. A Loira do banheiro e a Gangue do palhaço foram duas das mais famosas lendas urbanas brasileiras que o NP ajudou a criar. Mas nada se compara ao nascimento do Bebê-Diabo do ABC, em 1975, que foi manchete por 27 dias consecutivos.

O Bebê-Diabo nasceu, desapareceu, foi expulso por um feiticeiro, pesava 5 quilos, infernizou um padre, foi visto por várias pessoas, gerou procissão para ser novamente expulso, enlouqueceu uma mulher, foi previsto por um santo, subiu em telhados, teve testemunho de médico, parou um táxi, tinha um fazendeiro como pai, viajou para vê-lo, apareceu quando deveria haver um eclipse, metia medo em um bispo, arrasou um ritual de umbanda, foi ameaçado por fanáticos, foi seqüestrado, ficou à beira da morte, fugiu para o Nordeste, foi caçado por Zé do Caixão e visto de novo no ABC. No episódio em que parou um táxi, ao ser perguntado sobre o destino da corrida, respondeu: Toca para o inferno!

Para que não haja confusão: eu nasci no Rio em 1972.

No final dos anos 80 surgiu, no Rio, O Povo. Nessa época eu estava na faculdade de Jornalismo e o jornal era muito comentado. Morava em Natal, mas acabei tendo um exemplar em mãos quando um conhecido meu foi assassinado e parou em suas páginas. Dividia uma página com outras duas vítimas de assassinato. Todos com direito a fotos enormes com closes de seus rostos. Lembro que naquela edição ainda havia uma seqüência de fotos de uma louca que tirou a roupa, sentou na calçada e começou a se masturbar em pleno centro do Rio. Na primeira página dois cadáveres de estupradores. Um deles com o próprio pênis enfiado na boca. Tudo muito bem documentado com fotos.

O Povo não teve uma vida longa. Com a virada do século, O Dia foi se modernizando e amenizando o tom sanguinário, mas sem nunca deixar de ser popularesco. No início de 2001, o Notícias Populares deixou de circular. Sinal dos tempos. Ou pelo menos era o que eu pensava até encontrar, nas bancas de Brasília, um tablóide local que segue o pior desse tipo de registro de informações (perdoe-me não conseguir chamar de jornalismo).

Com a pérola Assaltantes silas... caram!!!, o jornaleco conseguiu chamar minha atenção. Teve a ajuda dos closes de dois assaltantes assassinados. Os tais que silas. O jornaleiro, que está acostumado a me vender revistas culturais, de História e quadrinhos, estranhou quando peguei o jornal. Ele quase tentou me dissuadir da idéia de levá-lo, mas minha curiosidade, longe de ser mórbida, era mera e unicamente profissional.

Folheei as doze páginas. Só folheei. Presos e cadáveres. Isso é tudo que o jornal apresenta. Tentei ler o editorial que falava sobre o grande sucesso de vendagens das quatro primeiras edições, mas parei no primeiro parágrafo. Nem quis saber se ao menos os assaltantes mortos chamavam-se Silas para justificar a manchete. Só li mesmo a história intitulada A maré não estava pra peixe sobre uma mulher que roubou um bacalhau e escondeu na calcinha. Brilhantemente ilustrada com dois desenhos – um mostrando um peixe entre as pernas da mulher e outro mostrando um peixe doidão encontrando uma viatura de polícia – a matéria terminava assim:

“A ladra, que já foi presa por lesão corporal e tráfico de drogas, ficou oito meses em cana no presídio de Luziânia - GO, quando tentou entrar na cadeia com maconha acondicionada em seu órgão genital. Pelo jeito Fabíola não tem tanta vocação para esconder as coisas no meio das pernas, afinal, droga não deu, bacalhau pior ainda, pelo menos dois filhos ela conseguiu fazer.

“Quem sofre agora é o marido com o cheiro forte do peixe nobre grudado entre as pernas de sua companheira, ainda bem que ele vem sem cabeça da Noruega”.

Pergunto: além de mim, cheio de estranhos interesses e curiosidades, há quem compre um lixo desses?

Nunca pensei que pudesse dizer isso, mas... que saudades do Notícias Populares!

 
Postado em 9 de novembro de 2005, quarta

:: Cacos de histórias

Confio que o destino não me reserve algo como a falta de memória. Espero que, por vontade própria, possa separar o que desejo ou não lembrar. Como memorialista, em minhas entrevistas deparo-me basicamente com dois tipos de pessoas: as que adoram e as que detestam lembrar.

Claro que as primeiras são minhas preferidas. Acredito que aqueles que não têm histórias para contar simplesmente não viveram. É assim que, geralmente, agem os do segundo grupo. Para que lembrar disso? e Prefiro olhar para frente são duas frases que já ouvi bastante. E quase nunca evoquei alguma lembrança que parecesse má ou dolorosa para ouvir tais sentenças.

Também prefiro não me apegar ao que passou e olhar para frente. Mas não consigo imaginar o futuro sem olhar para o passado. É nele que encontro as lições que me ensinaram como devo ou não agir e as conseqüências que minhas ações – ou inações – podem trazer.

Tenho muitas histórias e boa parte delas me faz rir bastante. Quanto às dores, estas foram minhas grandes mestras. Por que, então, teria medo de lembrar?

Mas é no exercício conjunto de lembrar, isto é, quando você lembra de algo junto a uma ou mais pessoas que também participaram daquele evento, que surgem as maiores surpresas. Aquele show que você assistiu aos pulos na beira do palco foi o mesmo que alguém assistiu lá depois da multidão, chorando. A pessoa que você mal lembra ter visto passar no bar é a mesma que estava fazendo de tudo para que você a visse. Aquela noite de amor que você nunca esqueceu foi a mesma em que alguém perdeu a pessoa que amava.

E assim você percebe que não conhece a história toda. Você tem apenas uma perspectiva dela. Cacos de história. E quando você tem a oportunidade de juntar alguns desses cacos, se impressiona com o fato de a história ser bem diferente da que existia em suas lembranças. O que parecia algo fantástico passa a ser muito simples ou uma oportunidade perdida de ter vivido uma história realmente maravilhosa.

E nessas horas, há quem se apegue ao passado ou às possibilidades que ele apresentou e passaram despercebidas. Ah, se...

Eu preservo minhas memórias. Ao dividi-las, acabo somando. Vão aparecendo novas figuras para completar o álbum, parágrafos que pulei, cenas que perdi. São informações valiosas. Mas não vivo no passado. Até porque é no futuro onde residem minhas melhores lembranças.

 
Postado em 1° de novembro de 2005, terça

:: Todos os Santos

Todos os Santos aos quais rezei
Todos os Santos onde cresci
Todos os Santos que de mim
cuidaram, velaram
Todos os Santos

Todos os Santos que já nem sei
Todos os Santos que esqueci
Todos os Santos que me
protegeram, abençoaram
Todos os Santos

Todos os Santos de Lima
no final de seus dias
Todos os Santos de mim
nos primeiros anos
Todos os Santos

Todos os Santos da Major,
da Suburbana, da Henrique Scheid
Todos os Santos da José Bonifácio
dos caminhos gastos e sujos
que me levavam ao colégio

Todos os Santos a quem roguei
desesperado em minha pequenez
Todos os Santos pelos quais clamei
encharcado em minha embriaguez

Todos os Santos que desconheci ao crescer
que hoje vive em minhas lembranças
nesta cabeça de ícones nada santos
todos que nem ouvem meus prantos
e que já não me acenam esperanças
Todos os Santos que conhecerei ao morrer

Cometido em 6 de novembro de 2002,
em homenagem ao bairro carioca de Todos os Santos, onde fui criado

 
 
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