Postado em 17 de março de 2007, sábado

:: Não existe católico homossexual

Não existe padre viado. Pedófilo, nem pensar. Freira lésbica, Deus as livre. Ou pelo menos há católicos que acreditam nisso. Deve estar aí a explicação para a debandada de milhões do maior país católico do mundo para outras religiões, seitas e aceitas-quaisquer-coisas.

Na terça passada, 13 de março, uma agência de notícias católicas avisava que na quinta seguinte deveria ser votada na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), do Senado, aLei da Homofobia, destacando que esta implicaria em perseguição religiosa.

Nem vou entrar no mérito da Lei, suas falhas e/ou exageros. O que me chamou a atenção foi a movimentação de grupos católicos que dispararam e-mails acentuando passagens do projeto e a afirmação de uma advogada que disse que o homossexualismo deixará de ser um vício para ser um mérito.

Também não me meto com os valores – lícitos ou deturpados – de qualquer religião. O que me choca, afora o preconceito, é a crença de que não há homossexuais na Igreja. Crença, não. Fantasia. A notícia e o e-mail citam um artigo da Lei que diz: A punição para o reitor de um seminário que não admitir o ingresso de um aluno homossexual está prevista para 3 a 5 anos de reclusão. E o que fazer com os reitores que aliciam seminaristas e os transformam em homossexuais ou com os que seduzem e abusam de crianças? Ou já colocaram todos na fogueira e não noticiaram? Não seria isso muito mais (e verdadeiramente) preocupante?

Outro ponto relevante é o fato de que, a cada dia, criamos mais e mais leis segregacionistas. Leis que vão contra o Artigo 3º Dos Princípios Fundamentais da Constituição Brasileira que diz que se deve promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação e o Artigo 5º Dos Direitos e Garantias Fundamentais que diz que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...).

Não acredito que tentar se defender usando preconceitos como arma seja algo justo. E, em claro português, essas preocupações com as diferenças entre preferências sexuais sempre me cheiraram a coisa de gente sexualmente mal resolvida. Seria mais interessante, se fosse possível, fazer uma Lei que nos protegesse dos vícios do mau-caratismo, da roubalheira, do peculato (que existe e quase não funciona) e da cara-de-pau.

A Lei já foi votada na Câmara, onde há homossexuais assumidos, e agora está no Senado, onde... bem, a pressão surtiu algum efeito. Na quinta, em vez de votar a Lei, a CDH decidiu criar um grupo de trabalho para estudá-la de forma mais aprofundada. O grupo promoverá audiências públicas para ouvir especialistas no assunto.

Homossexuais militantes e católicos radicais prometem fazer barulho. Vão meter o pau, um no outro. Opa! Só quis dizer que vai ter briga.

A Inquisição continua. E a tolerância já não faz mais parte dos ensinamentos católicos.

 
Postado em 12 de março de 2007, segunda

:: Por que a América é odiada?

A pergunta, em letras garrafais ocupando seis páginas, dava título a um ensaio fotográfico de Cláudia Andujar seguido de três entrevistas feitas por Oriana Fallaci tentando respondê-la. Não foi em nenhuma publicação nem em qualquer edição da semana passada quando Bushinho esteve entre nós. O ensaio e as entrevistas são da edição de janeiro de 1968 da revista Realidade.

Kennedy já havia sido morto. Lyndon Johnson era o presidente. Nixon e o Watergate ainda estavam por vir. A guerra com o Vietnã já ia em três anos e meio e não estava nem na metade.

E a pergunta já estava lá: Por que a América é odiada?

Até então, quatro presidentes americanos já haviam sido assassinados e dois haviam sofrido atentados. Conhecendo a História e sabendo que nenhum deles personificou o Mal de forma tão abominável quanto Bushinho, entende-se o porquê da paranóia e de tamanho exagero em relação a sua segurança. Bushinho não quer morrer, apesar da certeza de que não irá para o inferno. O diabo não quer concorrência.

Não que algum brasileiro fosse fazer algo contra ele. Brasileiros só se matam entre si. Somos ótimos nisso. Só no Rio, nos últimos 40 dias, foram 336 mortes violentas registradas, segundo informa o Rio Body Count. E Bushinho nem passou por lá. Nem em Colniza, no Mato Grosso, a cidade que atualmente detém o título de mais violenta do país. Medalha de ouro do Pan-Pan-Pan. Estava na pacata São Paulo que, como todos sabem, é brilhantemente controlada pelo PCC, que não tem nada contra o presidente americano. Além disso, todos nós sabemos que Bush é o Alfred E. Newman (não muito) disfarçado.

Mas por que a América é tão odiada?

Duas frases destacadas por Realidade na matéria de janeiro de 1968 davam um caminho para a explicação. Uma delas, do escritor Norman Mailer, dizia: “porque ela é totalitária e espalha essa doença”. Outra, do também escritor Ray Bradbury, completava: “porque ela só acredita na democracia em sua própria casa”.

O ódio se renova e se fortalece sem que seja necessário o conhecimento de sua história de arrogância e prepotência. Há muitos motivos para se odiar a América. Mas desde Norman Mailer, passando por Matt Stone e Trey Parker (criadores de South Park), Michael Moore (Tiros em Columbine, Fahrenheit 9/11) e John Ney Rieber (roteirista de HQs), sempre há alguma resistência do próprio organismo a esse câncer mundial.

A pergunta agora é: aqueles tiros recebidos pelo Capitão América seriam apenas para tirar de circulação um personagem que já não dava lucro a uma editora e parecia demasiado datado? A resposta parece óbvia. Alguém, por favor, mate a América.

 
Postado em 10 de março de 2007, sábado

:: Motoqueiro Fantasma

Motoqueiro Fantasma conseguiu fazer com que eu saísse de casa. As adaptações de quadrinhos da Marvel têm essa capacidade. As da DC nem tanto. Não me animei para ver o Superman novo na telona. Minha relação com o Superman dos filmes é a mesma que tenho em relação ao Papa. Assim como Papa só existe um, o João Paulo II, Superman só o Christopher Reeve.

Quando pequeno, colecionava os gibis das duas editoras. Juntei centenas antes dos 11 anos. E, estupidamente, dei fim a todos. Dos meus heróis preferidos, só dois ainda não ganharam – e provavelmente nunca ganharão – filmes: Mestre do Kung Fu e Punho de Ferro. Os outros já foram para a telona: Homem-Aranha (triplo yes!), Hulk, Demolidor (pobre diabo!), Elektra (tadinha!), Justiceiro (aquela caveira na camisa dele só pode ser de burro porque as duas adaptações...), Quarteto Fantástico e até o recém-falecido Capitão América (péssimos também). Finalmente chegou a vez do Motoqueiro Fantasma.

Não creio que esses filmes – por mais bem feito que sejam – atraiam muito os não-aficionados pelos quadrinhos da Marvel. E depois de Homem-Aranha, acho difícil que agradem até mesmo aos marvelmaníacos.

Gostei do Motoqueiro Fantasma. Não gostei muito foi de Johnny Blaze. Melhor, não gostei de Nicolas Cage como Johnny Blaze. Gosto dele, mas tenho a mesma sensação que tenho com as adaptações pós-Aranha. Depois de Despedida em Las Vegas, ficou difícil engolir qualquer coisa do Nicolas Cage. Por melhor que seja.

É difícil passar, em duas horas, a história e profundidade da personalidade de uma criatura fantástica, com capacidades sobre-humanas. Quem já conhece isso previamente e, durante anos, acompanhou as aventuras de um personagem desses leva vantagem. Sobre o Motoqueiro, é bom lembrar que ele tem esse nome por aqui. Ghost Rider, seu nome original, resume bem a história do personagem que, no início (em todos os sentidos), era exatamente isso, um Cavaleiro Fantasma. E um dos melhores momentos do filme (na minha opinião) é justamente quando dois deles fazem uma cavalgada conjunta”.

Outro ponto que passa despercebido por muita gente, principalmente pelos mais novos, é que o culpado de tudo, o coisa-ruim, o condenado, o maldito, o coxo, o tinhoso, enfim, Mephistopheles é interpretado por Peter Fonda, que será eternamente lembrado por seu personagem Wyatt, de Easy Rider, o filme-referência a respeito da vida sobre duas rodas. Melhor escolha, impossível.

Ghost Rider matou um pouco de minhas saudades do cabeça quente. Mas não vejo a hora de chegar maio para ver mais uma aventura do cabeça de teia.

Postado em 1º de março de 2007, quinta

:: A pessoa é para o que nasce

Ilustração: REDI - 1974No início, eu desenhava. Com muita facilidade. Reproduzia qualquer coisa. E essa foi, certamente, a primeira indicação de que eu não daria para uma profissão ortodoxa. Quando comecei a desenhar plantas baixas, a família decretou: Vai ser engenheiro ou arquiteto. Daí meu avô resolveu dar uma força na cor em um desenho que fiz e minha alma de desenhista sentiu-se profunda e irremediavelmente agredida.

Então minha tia começou a comprar os fascículos de Medicina & Saúde. Estava re-decretado: Vai ser médico. Eu adorava os desenhos, os cortes, as perspectivas. Passou rápida a ilusão médica.

Era um garoto bonito (verdade!) e meu avô trabalhava na tevê. Logo surgiu uma oportunidade de fazer comerciais. Em São Paulo. Cortaram na hora. Filho único, ainda uma criança, ir do Rio para São Paulo como? Com quem? Mais uma carreira abortada. Adeus, Oscar. Adeus, Cannes.

Sempre adorei animais. Cães, principalmente. Eu até latia. Latia mesmo, não era imitação. Subia a ladeira onde morava latindo, conversando com toda a cachorrada da rua. Outro decreto: Vai ser veterinário. A Abril colaborou editando os fascículos de Os Bichos. A Editora Cedibra ajudou lançando o álbum Os Animais, em 1983. Adorava figurinhas, mas esse foi o único álbum que completei. Eram 360 cromos auto-adesivos. Levava um bolo gigantesco de figurinhas repetidas para trocar depois da aula. Guardado até hoje. Depois foram os álbuns do chocolate Surpresa. Completos também. O menino estava mesmo fadado a ser veterinário.

Em 1985, a família se muda do Rio para Natal. Estava no meio do segundo grau. No ano seguinte, na hora de optar pelo curso universitário, a escolha seria certa: Veterinária. Seria. Se eu estivesse no Rio. Até hoje não há curso de Veterinária em Natal. Então escolhi algo bem parecido (mas só saberia disso algum tempo depois): Jornalismo. Vou conhecer a elite intelectual da cidade. Crianças! Sempre tão ingênuas.

Lá se vão quase vinte anos dessa escolha. Escrevi de tudo quanto é jeito. Tanto que nem lembro. Tanto que cansei. O lance era mesmo escrever. Estava lá no mapa astral: um monte de coisas em Gêmeos. Mas não era bem assim... sempre rodou em torno de livro.

Leitor, colecionador, bibliófilo... mas nada disso é profissão. Editor? Escritor? Opa! Já parece alguma coisa. E cadê o seu livro? Cadê?! Cadê? Pois é... ainda não tem. Mas eu sou escritor.Ah, tá! E profissionalmente?

É duro nascer com uma vocação. É uma sina. Mas como diria a sábia Maroca: a pessoa é para o que nasce. Não dá para escapar. Bem ou mal, é o que sou.

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Ilustração de Redi em O Pasquim, nº 280, de 19 a 25 de novembro de 1974
(eu tinha dois anos e meio)

 
 
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