| Postado
em 27 de março de 2006, segunda |
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Vá ao teatro e...

No
Jardim de Infância ou talvez ali pelo
C.A. (Curso de Alfabetização que
já teve vários nomes e este ano
passou a ser denominado 1ª série),
eu já participava, sempre como um dos
personagens principais (que ego!), das encenações
promovidas pela escola. Fui José
(já era grandinho para ser o menino Jesus)
no auto de Natal, o noivo da
quadrilha junina, o coelho
principal na festa da Páscoa... Naquele
tempo, costumava freqüentar também
um teatro infantil que tinha lugar nos subterrâneos
da Igreja do Imaculado Coração
de Maria, no bairro carioca do Méier.
Tempos depois, veria O menino do
dedo verde, de Maurice
Druon, no Teatro Gláucio Gil,
em Copacabana. Provavelmente, a primeira peça
de teatro não-amador a qual assisti.
Mais
tarde, em Natal, em 1990, fiz um curso de interpretação
com Stênio Garcia. Foi
uma época em que estive bem envolvido
com o teatro. Fotografei vários espetáculos
e ensaiei uma crítica teatral em um lugar
até hoje carente disso. Foi quando conheci
os Clowns
de Shakespeare, em seu início,
no ano de 1993, e resolvi que meu envolvimento
com o teatro seria principalmente como espectador,
eventualmente como crítico e, sempre
que possível, como leitor.
Sim,
leitor. Teatro também se lê.
O público, em geral, imagina teatro como
uma ou mais pessoas em cima de um palco representando
uma história. Uma história que
foi escrita. Antes de se pensar os personagens,
de os atores imaginarem como serão construídos,
de como a peça será dirigida,
ela foi escrita. E é sobre isso que quero
falar. Sobre o teatro que se lê
e não o que se vê.
Dia
desses, assisti a uma peça, em Brasília,
intitulada As ridículas de
Molière. Levada por um
grupo que saía do curso de teatro da
Faculdade Dulcina de Moraes,
a peça era uma adaptação
livre – bem livre, eu diria! – da
As preciosas ridículas,
do autor francês. No início e ao
final da peça, uma historieta tentava
mostrar quem foi Molière. Louvável.
Afinal, estamos no Brasil.
Fui
movido pela curiosidade em saber que graça
um grupo de teatro faria com Molière,
já que me acostumei, por quase uma década
e meia, a ver o que os excelentes Clowns
fazem com Shakespeare. Dias depois, veria, também
em Brasília, um grupo chamado Que
Molière Nos Acate. Não
quero fazer qualquer crítica às
peças ou aos grupos e muito menos alguma
comparação com os Clowns, o que
seria de uma covardia enorme. Minha intenção
é tão somente a de tirar uma dúvida:
será que esse povo que está
começando agora no teatro e participa
de peças escritas por monstros sagrados
dessa arte costuma ler esses dramaturgos?
Tenho
certeza de que se conversar com meus amigos
Clowns sobre suas montagens do início
e de hoje, eles darão boas risadas em
relação às primeiras. Em
janeiro passado, César Ferrário
(na foto, deitado), um dos Clowns,
me lembrou de uma crítica que eu havia
escrito sobre a montagem de Sonho
de uma noite de verão,
na qual eu sugeria que eles trocassem alguns
bailarinos por postes, pois daria no mesmo.
Os
Clowns tomaram seu rumo. Eu os adoro.
Mas a idéia de “brincar”
com os textos de grandes autores pode ser algo
perigoso. Não sei, por exemplo, quantas
pessoas que assistiram e gargalharam com As
Ridículas de Molière apreciariam
As preciosas ridículas. Ou quantas
que estiveram presente a O Judas
em Sábado de Aleluia, levada
pelo grupo Que Molière Nos Acate,
perceberia a crítica de Martins
Pena, no longínquo 1846, à
corrupção das autoridades constituídas
em uma montagem mais ortodoxa.
Acho
que a ironia fina não pode ser
apreciada por qualquer um e a “salvação”
é brutalizar, é jogar a piada
na lama, para se conseguir algumas risadas.
Feito isso, adeus, texto original. Adeus, intenção
do autor. A “adaptação
livre”
torna-se algo grotesco em busca de uma falsa
apreciação.
Eu
só acredito em uma adaptação
se houver conhecimento prévio e profundo
da peça original, da totalidade da obra
e da vida do autor e da contextualização
de tudo isso: quando, como, onde, o porquê
de o texto ter sido escrito.
Fico
me perguntando o que é pior:
o espectador que nunca teve qualquer contato
com Sófocles, Shakespeare,
Molière, Racine,
Ibsen, Tchekhov,
Brecht, Beckett
– ou quem quer que minha memória
ou minha ignorância não alcance
– sair do teatro pensando que assistiu
à montagem de uma peça de algum
deles ou o grupo que levou o espetáculo
acreditar que fez isso.
Em
qualquer dos casos, fico com as palavras de
Jesus: Pai, perdoa-lhes,
porque não sabem o que fazem.
Espero
que hoje, Dia Mundial do Teatro,
se você resolver comemorar fazendo parte
do público, escolha uma boa peça
encenada por gente que lê e estuda teatro.
Caso contrário, fica valendo a velha
piada: Vá ao teatro e não
me chame!
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