Postado em 31 de maio de 2007, quinta

:: Papo reto sobre cinema

O texto que segue foi um “e-mail-convite” aos amigos de Brasília, mas como recebi algumas respostas interessantes, resolvi estendê-lo a todos.

Seguinte, povo da Corte...

No Brasil, temos pouco mais de 2.050 salas de cinema. No momento, 1.400 delas - mais de dois terços - estão ocupadas com Homem-Aranha 3 e Piratas do Caribe 3 . Assisti a ambos e recomendo como boa diversão (apesar da música pra lá de exagerada de Piratas. Desculpe-me, Hans Zimmer, mas alemão entende de ópera. Vá polir seu Oscar enquanto escuta Nino Rota, ok?).

Pois bem... O menos de um terço restante das salas em todo o Brasil tem que passar todos os outros filmes que estão em cartaz. Os brasileiros, claro, caíram fora de primeira. Os documentários então! Mas tem um que está lutando bravamente contra teias e espadas. Aqui em Brasília, Helena Meirelles - A Dama da Viola entra na terceira semana em cartaz no Cinemark Pier 21.

Esmagado em uma única sessão às 15h (sessão desconto por apenas R$ 2), enquanto 44 salas das pouco mais de 80 do DF exibem os dois filmes já citados, o filme ficará em cartaz até dia 7, quinta-feira da próxima semana. E pode continuar se tiver um bom público.

Agora, entenda duas ou três coisas sobre a exibição de filmes, uma das pontas da indústria cinematográfica.

1) O cinema brasileiro NÃO é ou faz parte de uma indústria como o cinema americano. Em geral, os produtores conseguem incentivos do governo, superfaturam os orçamentos, compram uma bela casa, um belo carro e filmam com o que sobra. Não têm interesse ou qualquer preocupação que o filme seja visto e tenha retorno de bilheteria. Ele não investiu nada naquilo e não tem que devolver dinheiro nenhum a ninguém. O tempo todo, nós ouvimos que tal filme americano custou 100 milhões de dólares e teve 200 milhões de bilheteria no primeiro final de semana de exibição. É um negócio. É assim que funciona: investe-se e pretende-se lucrar. Muito, de preferência. Você já ouviu isso sobre filmes brasileiros?

2) Quando um filme entra em cartaz e atrai público, imediatamente as distribuidoras responsáveis por ele passam a ser bem vistas. Isto é, na próxima vez que oferecerem um filme, o exibidor estará predisposto a aceitá-lo. Assim, Homem-Aranha 2 estreou com 500 cópias no Brasil. Homem-Aranha 3, com 700. No quinto ou sexto filme do aracnídeo, vão mandar mais cópias para cá do que o número de salas que temos.

3) Existe uma cota obrigatória de filmes nacionais que devem ser exibidos. Se isso não existisse, provavelmente os filmes brasileiros seriam exibidos em meia dúzia de salas de Rio, São Paulo e Brasília. A maioria deles são distribuídos pela Globo Filmes, que nãoO é produtora, mas tem interesse em ter receita de bilheteria, de vendas de DVD e de distribuir os filmes protagonizados por seus atores, chamando mais atenção para as produções de tevê da Globo e com isso gerando mais receita publicitária. Resumindo: não interessa se o filme brasileiro é bom; dificilmente ele será exibido. Quem assistiu ou pelo menos ouviu falar de A concepção, de José Eduardo Belmonte; Incuráveis, de Gustavo Acioli; Eu me lembro, de Edgard Navarro; O veneno da madrugada, de Ruy Guerra; os documentários À margem do concreto, de Evaldo Mocarzel; A Vida é um Sopro, de Fabiano Maciel; Dom Helder - O santo rebelde, de Érika Bauer; ou Helena Meirelles - A dama da viola, de Francisco de Paula? Isso para ficarmos só em alguns poucos e bons longas dos últimos dois anos. Seria covardia falar em curtas. Uma produção muito maior e, até por isso, no geral, muito melhor em qualidade.

É ponto pacífico: nós não valorizamos nossa cultura. E o problema está justamente em ser ponto pacífico. Nós nem discutimos isso. Engolimos e endeusamos tudo que vem de fora. Desde pequenos nós comemos lixo... Quando vamos começar a cuspir esse lixo em cima deles? Particularmente, não tenho nada contra o que vem de fora, mas digamos que eu seja mais a favor do que é produzido aqui. Porque o que é produzido aqui fala da minha história, da minha cultura, dos meus hábitos, do meu povo. Todos os bons papais e mamães burgueses sabem que seu filho não vai ser nada se não falar inglês. Até aí, beleza! Eu quero que os meus falem dez idiomas. Mais naum kero elis iskrevendu acin di geito nhm! A Bíblia aqui em casa é composta pelos livros de Machado de Assis, Lima Barreto, Álvares de Azevedo... E se você não teve educação tão esmerada sobre cultura brasileira, pergunto: Não é desejo de todo pai e mãe que seus filhos tenham tudo aquilo de bom que vocês não puderam ter?

Voltando ao cinema... Já que ler é difícil, vamos ver! Quando estiver passando um filme brasileiro, um documentário, um curta, faça uma forcinha e vá vê-lo. Abra mão de uma hora e meia de diversão descartável e procure aprender algo sobre nossa cultura.

Termino reforçando o convite aos que moram em Brasília: Helena Meirelles - A Dama da Viola, Cinemark Pier 21, Sessão desconto por R$ 2 (dois reais) às 15h, de 1º a 7 de junho. E o diretor, Francisco de Paula, ainda está lá para trocar uma idéia com você depois do filme.

Repassem e estendam aos amigos.

Bom final de semana a todos.

 
Postado em 24 de maio de 2007, quinta

:: Maio sem iBest

Está acabando maio e, pela primeira vez desde 2003, não vou a São Paulo pegar pelo menos uma bolinha do iBest. Não fui eu que falhei. Foram eles. Eu fiz a minha parte de, muito modestamente, manter um puta site no ar. Eles não me premiaram porque não quiseram.

O que aconteceu com o iBest? Onze anos crescendo, batalhando, se fortalecendo e puf?! Nem deram uma satisfação.

E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou... ah, as noites frias de maio em São Paulo. Já era tradição. Já era. Acabou. iBest não tem mais. É só uma (na verdade cinco) lembrança(s) na estante. E como orgulha.

Maio sem iBest, Sandro sem troféu, São Paulo sem Sandro... Como vou alimentar o meu ego? Vou partir para o Nobel. Cuida-te, Saramago!

 
Postado em 20 de maio de 2007, domingo

:: Autocensura

Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum;
e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.
Romanos 7:18-19

Ando calado. Pensativo. Fazendo planos para dominar o planeta. Escrevendo menos que de costume, mas com a cabeça borbulhando como nunca.

Calado, não ofendo ninguém. Creio.

Qualquer um que me conheça sabe que minha intolerância somada aos meus dedos e língua nervosos são uma mistura explosiva. Decididamente, isso não faz de mim a mais simpática das criaturas. Mas eu sou assim e só posso lamentar. Não por mim, claro. Por qume sem ofenda, pois esta nunca foi minha intenção.

A diplomacia nunca me atraiu. Sou regido por Marte, deus da guerra. Adoro ver o circo pegar fogo. E se tento apagá-lo é sempre com baldes e mais baldes de gasolina.

Só me podo o suficiente para não ser preso. Mera questão de amor à liberdade.

A autocensura, em mim, não funciona como na maioria das pessoas que a impõem para se tornarem políticas, diplomáticas, civilizadas. No meu caso, a autocensura funciona não permitindo que eu passe pelo mundo de forma isenta. Tenho minhas opiniões e faço questão de deixá-las bem claras. Assim, passo por arrogante, petulante, desaforado, insensato, desrespeitador. Duela a quien duela, como disse certa vez um jovem, arrogante, petulante, desaforado e insensato presidente. Mas ele era presidente. Eu sou um escritor. O que para um são defeitos, para outro podem ser virtudes.

Minha autocensura me impede, todo o tempo, de não ser eu mesmo. Característica admirável post mortem, mas um peso terrível para se carregar durante a vida.

Longe de mim pedir condescendência ou um simples olhar de comiseração. Por favor, sejam inclementes comigo. Prometo corresponder à altura e continuar amando a todos.

Trago em mim a maldição dos espíritos livres, treinados em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira do abismo. Nem exorcismo tira isso de alguém. Tudo culpa daquele anjo torto...

 
Postado em 6 de maio de 2007, domingo

:: Cineclubismo

Em meus primeiros anos em Natal (RN) – 1986, 1987 –, eu sentia falta de cinema. Naquela época, a cidade tinha apenas dois locais de exibição: o Nordeste e o Rio Grande. Não raro, eu passava um final de semana em Recife, assistindo sessões como quem come pipoca: uma atrás da outra.

Em 1988, já na universidade, tive meu primeiro contato com um cineclube. Uma vez por semana, uma salinha no Centro de Convivência da UFRN tentava reunir os cinéfilos, bichos grilos, intelectuais, intelectualóides e demais espécimes freqüentadoras desses grupos. O vídeo-cassete era o sonho de consumo do momento para a classe média. As locadoras tinham quase somente cópias piratas e as oficiais só chegavam pelo menos um ano depois que o filme havia passado no cinema. Nos feriadões, costumava me trancar em casa com 10, 12 e até mais filmes.

Corte para 2001. Vou morar em Brasília, a cidade brasileira com o maior número de salas de exibição por habitante e onde acontece o mais antigo e um dos mais respeitados festivais de cinema do país. Não se passa um mês sem que pelo menos uma embaixada não promova uma mostra gratuita de cinema do seu país. O vídeo cassete vai sumindo e o DVD se popularizando.

A casa de cada um vai virando seu próprio cineclube. Os extras tomaram o lugar das conversas e troca de informações pós-sessão. A relação pessoa-filme passa a ser masturbatória. Com o fálico controle remoto na mão, vai e vem, aperta daqui, aperta dali até se satisfazer. Solitariamente.

Agora, numa outra temporada em Campina Grande (PB), volto ao tempo dos cineclubes. A primeira (e, neste caso, boa) impressão é de que a cidade parou no tempo. Ainda existe cineclube?! Existe. Ainda bem! Com todas as óbvias dificuldades para sobreviver fora de seu tempo e dos costumes de então. Para que sair de casa, em horários às vezes ingratos, para assistir um filme que você pode ver no conforto da sua casa, na hora em que você quiser? Respondo: para assisti-lo como deve ser assistido (com atenção, do início ao fim, sem pausas, sem idas ao banheiro, sem telefone tocando, sem “depois eu acabo de assistir”), além de ter o prazer de compartilhar as suas e conhecer outras impressões, tirando muito mais informações e proveito do filme.

Recentemente, conheci duas iniciativas: o Cineclube da ADUFCG (Associação dos Docentes da Universidade Federal de Campina Grande) e o Cinema de Arte. A sessão do primeiro acontece aos domingos, pela manhã, e o filme principal é precedido de um curta produzido por alunos da UFCG. O segundo teve sua inauguração na última sexta no Cine Aquarius, que ostenta em sua fachada o slogan somente filmes eróticos. Talvez seja uma maneira de se excitar com o chamado cinema de arte.

Além disso, tenho alugado DVDs aos quilos. Aqui, a locação custa apenas R$ 2 e pegando dois, leva-se três. Ou seja, cada filme sai por R$ 1,33 contra os costumeiros 8 reais das grandes locadoras das capitais. Está se sentindo roubado? Está sendo mesmo.

Nessa leva, revi O anjo exterminador, de Buñuel; Festim diabólico, de Hitchcock; A marca da maldade, de Orson Welles e Casablanca, nas sessões clássicas. Nas sessões como é que ainda não vi esse filme?, American Splendor e A dama na água, que só pelo fato de serem protagonizados por Paul Giamatti, já valem a pena. Claro, tenho visto muita bobagem também, dentre as quais não incluo um sessão dupla de Homem-Aranha e Homem-Aranha 2, na AXN, servindo de aquecimento para o terceiro filme que ainda não vi. E nem vou ver por esses dias. As únicas salas comerciais de Campina (ficam em um mesmo shopping) são péssimas e eu me recuso a assistir qualquer coisa nelas.

E chega. Vou começar outra sessão.

 
 
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