Postado em 10 de maio de 2006, quarta

:: L’amour maudit

Sou um freqüentador de sebos. Livros mesmo, eu só compro edições antigas, raras, esgotadas. O livro que saiu outro dia, prefiro novinho, só meu. Nos sebos, procuro sempre revistas antigas. Principalmente nacionais mas, vez por outra, descubro algumas estrangeiras interessantes.

Conheço sebos em várias cidades do Brasil. Sei os que vendem preciosidades, os que pedem caro pelo que não vale tanto, os baratos, os descuidados, os arrumados, os totalmente amontoados, os que têm tudo, os que podem trazer surpresas.

Esta semana me deparei com uma estante nova em um sebo que freqüento em Brasília. Uma estante toda dedicada ao erotismo. Não canso de me surpreender com a ligação íntima entre o erotismo e a cultura francesa. Nós somos pornográficos (docemente pornográficos, vá lá, Drummond!). Gostamos de bundões, peitões, putaria rolando solta. Os franceses não. Sabem levar à loucura sem mostrar nada, sem dizer uma sacanagenzinha. Só insinuando.

E que palavras belas! Érotisme. Passion. Amour. Voyeur. Escrevem, fotografam, filmam e, provavelmente, trepam melhor que nós. Éros, pardonne moi pelo uso de verbo tão vulgar. Sou brasileiro.

Nas muitas revistas encontradas no sebo, um título me chamou atenção pela semelhança com a diagramação da nossa O Cruzeiro: a Paris-Hollywood. Folheando um exemplar, fiquei admirado com a ousadia para uma revista dos anos 1950. Além das divas – mulheres de verdade, como costumo chamar – dos cinemas americano e francês, a publicação trazia, em suas páginas centrais, ensaios naturistas. Comprei só umas 20 edições que encontrei inteiras. Além delas, outras como a Paris Plastique (o primeiro número) e Nus.

Ah, l’amour sacré par le nu! Primeiro esquecidas em algum depósito, depois a um canto do sebo, as revistas talvez estivessem a mercê de algum obscuro devoto de Onã, mas Eros foi mais rápido e me colocou no caminho.

Ainda estou me deliciando – no bom sentido – com as páginas da Paris-Hollywood. Paulette Goddard, Barbara Bates, Ava Gardner, Leonora Amar, Yvonne de Carlo, Alexis Smith, Jane Wyman, Adèle Jergens, Virginia Mayo, Vivian Blaine, Nita Talbot...

Eros foi realmente caprichoso. Colocou essas deusas em minhas mãos a menos de 3 reais cada edição. Navegando por sites especializados em publicações antigas na França, descobri que cada uma delas costuma ser comercializada por 30 euros (cerca de 80 reais). Se eu quisesse revendê-las, os pouco mais de 60 reais que usei se transformariam em 2.400 reais. É isso que um bom comerciante faria. Mas eu sou colecionador. Eu só sei juntar papéis – e nunca são cédulas de dinheiro -, organizar, digitalizar, catalogar, preservar e tratar tudo como se fosse uma amante: com todos os mimos, com toda ternura.

Ah, l’amour maudit par les revues! Enquanto os espertos enchem os bolsos, eu encho a casa de História.

 
Postado em 3 de maio de 2006, quarta

:: O Saddam é um cara legal!

Saddam Hussein mora em Juiz de Fora, Minas Gerais, é formado em Farmácia e Bioquímica, tem mulher, três filhos e a mania (da qual está se curando) de colecionar revistas e jornais. Tem mais: ele é um pacato cidadão mineiro, nascido em Carangola, que guarda até hoje seus cadernos dos tempos de colégio.

Na verdade, o Saddam de Minas é Rogério Rodrigues Gomes, que acaba de doar ao Memória Viva uma coleção completa de O Pasquim, Bundas e Pasquim 21, além de outras publicações dos anos 60 e 70.

A semelhança física com Saddam rendeu momentos engraçados até mesmo em New York, onde um senhor americano quis fazer uma foto com Rogério devidamente caracterizado, usando uma boina, no tempo em que o iraquiano ainda era aliado dos americanos. Nas ruas de Juiz de Fora, uma senhora mais contida perguntou:O senhor tem parentes no Iraque?

O exemplo de Rogério ao doar uma coleção de mais de 1.200 itens iniciada há quase 40 anos deve ser seguido. A catalogação já está sendo feita e em breve será iniciado o processo de digitalização. Em 2007, o material poderá ser consultado via Internet e, dependendo das negociações com os detentores dos direitos autorais, parte dele será disponibilizada na rede.

Quer fazer sua doação ao Memória Viva? Entre em contato comigo.

 
 
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