
Vivemos em um tempo em que é preciso ver para crer. Morreu a imaginação e toda riqueza que ela trazia. O mais triste, porém, é que mesmo vendo continuamos não enxergando. Ou pior: somos enganados, levados a acreditar que aquilo que vemos é determinada coisa.
Vivemos em um mundo de exposição. “Você viu?” é a pergunta da hora. As revistas que mais vendem são as que mostram caras, roupas, corpos. Os programas de TV mais assistidos são os que escancaram a vida das pessoas, expõem suas intimidades, mostram suas transformações em busca de aceitação (guarde bem esta última informação).
Sou de uma geração de jornalistas que conceituosamente acreditava que quem queria escrever, ia para os impressos; quem queria aparecer, ia para a tevê. Escolhi os jornais. Fiz tevê por um breve período. Em uma coluna sobre informática que mantive por ano e meio em um jornal, demorei a aceitar o padrão que colocava uma foto do colunista ao lado de seu nome. O que interessava era o que eu noticiava, não como era a minha cara. Era jornalista, não modelo ou aspirante à celebridade. Veio a web e me senti ainda mais à vontade. Escrevendo, atingindo mais gente, tendo respostas, trocando informações e opiniões. Tudo sem precisar mostrar a cara. Então, surgiram as redes sociais. E em sociedade – real ou virtual – tudo se comenta, tudo se quer saber, a começar por “como fulano é?”.
Durante anos, usei como avatar um desenho feito por Marcelo Andrade no início da década de 90. Às vezes, quando não me reconhecia nele (quando estava de cabelos compridos, por exemplo), o substituía por outra imagem. No Twitter, que uso há três anos, ele também figurou por muito tempo. Na virada de 2009 para 2010, passei a raspar a cabeça e, mais uma vez, não me reconhecer no desenho. Comecei a usar uma foto atual, careca, de perfil. O cabelo cresceu e eu passei a usar uma foto de quando criança warholizada, isto é, com aquele efeito de cores utilizado no famoso quadro de Marilyn Monroe feito por Andy Warhol.
Escrevo, fotografo, viajo bastante, moro em vários lugares e muita gente vai chegando por variados motivos e sem saber como realmente sou. A curiosidade começou a crescer e muitos (principalmente muitas, né?) insistiam que eu usasse uma foto atual como avatar. No final de 2010, passei a usar o autorretrato que está logo abaixo.

Imediatamente os comentários apareceram. Em geral, diziam: “Huuuum, está começando a se mostrar, hein?!” Sim, a foto representava isso. Alguém saindo da escuridão e se revelando. Mais que isso, ela era um retrato fiel do meu momento, em que eu saía de um longo período de recolhimento, de pouca sociabilidade, pouca exposição.
Mas essa foto gerou um comentário interessante da filha adolescente de uma amiga minha: “Nem parece o Sandro.” Mas, sim, era eu e me revelando como raramente fazia. Era muito eu! Era eu como eu me conheço! ERA EU MESMO! E aí veio o estalo: as pessoas não nos veem como realmente somos, mas como imaginam que somos. Então, resolvi mostrar isso na prática, fazendo uma série de autorretratos, e aproveitando para discutir outros pontos. Se você me acompanha no Twitter ou no Facebook, já deve ter visto as quatro fotos. Se não, aí estão as duas primeiras.


Pare de rir ou saia do choque e volte a se concentrar no texto. No Twitter, onde todo tipo de gente me segue, eu simplesmente provocava perguntando “Tô gato?”. No Facebook, onde há uma concentração maior de jornalistas, escritores, fotógrafos e afins entre meus contatos, eu dava uma pista após as legendas: Fulano de Tal Style.
Os retratos são baseados em fotos famosas de escritores consagrados. Essas imagens estão reunidas no divertido Tumblr Tô gato? e mostram, principalmente, o ridículo da exposição de gente pouco afeita a mostrar o rosto. Afinal, escritores querem mostrar seus textos, suas ideias, nada mais. Pelo menos, deveria ser assim. Veja as fotos originais.

Inicialmente, pensei em fazer uma série com 5 ou 6 fotos, mostrá-las de uma única vez, aqui no blog, e sugerir que escolhessem qual deveria usar como avatar. Mas surgiu outra ideia: mostrar uma por vez para que as pessoas pudessem se concentrar mais, analisar somente uma e dizer o que achavam. A primeira foi a do “oclão”, baseada em Julio Cortázar. Em minutos, só pelo Twitter, teve mais de 100 visualizações. Juntando os comentários via Twitter e Facebook, foram cerca de 50. Logo percebi que havia escolhido a maneira certa de provocar. Centenas de pessoas passam por aqui a cada novo texto meu, mas o dia em que um post tiver um terço desses comentários e na mesma velocidade, darei uma festa! No dia seguinte, exibi a foto baseada em Hunter Thompson. Mais aberta, na praia, tomando uma cerveja, de bata branca, óculos Ray-Ban, chapéu de palha. Quase duzentas visualizações somente no Twitpic e uns 50 comentários abertos.
Pausa para rápida análise sobre um detalhe nas duas primeiras imagens. Na primeira foto, muita gente atentou para o fato de os óculos serem femininos. Na segunda, também comentaram sobre a mudança desse item. Pergunto aos que me conhecem pessoalmente há dez anos ou mais: quando, na última década ou década e meia, me viram usando óculos escuros? Tenho quatro graus de miopia e nunca usei lentes. Para usar óculos escuros, eles também precisam ter grau ou, como usei por muito tempo, lentes escuras ajustadas sobre as lentes normais. Entre os 18 e os 22 anos, mais ou menos, eu usava óculos escuros assim. Tinha uma fotofobia fortíssima. Percebi que o uso das lentes escuras me atrapalhavam para captar detalhes (fotografando ou tratando imagens) e preferi treinar meus olhos, acostumando-os à luz, a simplesmente protegê-los. Além disso, me incomoda não ver os olhos das pessoas e eu não gostaria que se incomodassem ao não ver os meus. Quando converso, gosto de olhar nos olhos. São dois e costumam falar bem mais que uma única boca. Portanto, não uso óculos escuros. Pergunto de novo e de forma mais enfática: alguém que me conheça pessoalmente achou, por um único instante, que aqueles dois óculos poderiam ser meus? Alguém achou que eu me poria a andar por aí, cego, por questão de estilo?! Prefiro acreditar que não. E, na segunda foto, quem já me viu de chapéu de palha? Ou de batinha? Na praia? E com tudo isso junto?

Alguns começaram a desconfiar. Sim, era alguma brincadeira. Mas qual era a brincadeira? E a terceira foto (acima) veio para confundir mais. Em estilo Paul Auster, parecia séria. De terno, em um super close, expressão grave, os olhos (sem óculos!) encarando quem via a foto. Os comentários foram mais na base no “Gostei dessa!”. E foram muitos os “comentários internos” – por DM no Twitter, por e-mail, por MSN. A pergunta já não parecia tão jocosa e começou a ser respondida: “Sim. Tá gato.” Mas o que diabos o Sandro, que nunca se mostra, resolveu fazer uma série dessas?! A esta altura do texto, muita gente já deve ter entendido, pelo menos, um dos pontos: retratos assim não são 3×4; eles são feitos para imprimir uma ideia. Mesmo que não seja consciente – e ainda que você nunca tenha pensado nisso – a leitura é imediata, baseada nas informações que você tem, nas coisas que você aprendeu. Terno? É uma pessoa para ser levada a sério. Olhos escondidos ou olhando para algum lugar que não podemos ver? A pessoa está vislumbrando algo particular, do mundo dela, mistério! Olhos que encaram? A pessoa está falando diretamente com você, bem perto, de forma íntima, não quer segredos. Mãos na cabeça ou apoiando o queixo? A pessoa valoriza o centro do pensamento, ela é inteligente. O que acho mais interessante da minha foto ao estilo Paul Auster é que além da leitura óbvia, comum, ela revela meus olhos (que eu gosto e acho bonitos), sempre escondidos pelos óculos. Pode não parecer, mas é realmente muito íntima porque só quem dorme comigo me vê assim: tão de perto, sem óculos, olhando tão diretamente.
Essa foto também gerou um comentário, de outra pessoa, idêntico ao da filha de minha amiga sobre a foto em que só aparecia metade do meu rosto: “Nem parece você.” E, mais uma vez, era a que me mostrava sem máscaras, sem acessórios escondendo partes do rosto e sugerindo leituras de estilo. Nem mesmo meus óculos de grau. Era tão somente meu rosto nu.
Achei que esse comentário fechava o ciclo e eu poderia revelar a experimentação. Mas pensei um pouco e resolvi partir para outro lado. Que tal fotos mais… gays? A primeira, com os óculos femininos, já havia provocado comentários de alguns gays. Devem ter pensado: “Huuum… esses óculos estão dando pinta. Ele também é!” Pensei em versões de fotos de Oscar Wilde e Dylan Thomas, mas, quem me conhece, sabe que quando eu resolvo aloprar, prefiro aloprar de vez. Parti logo para uma foto ao estilo Virginia Woolf, de vestido, flores na cabeça, na clássica pose com mão em “L” no rosto e olhar perdido. Recorde absoluto de visualizações e insultos! Pronto. Eu já podia parar com a brincadeira.

A escolha de fazer versões de fotos de escritores foi, por si só, uma crítica. Escritor não precisa mostrar a cara, precisa mostrar ideias. Nessas fotos antigas, quando não havia o pensamento tão comum dos dias atuais de que “imagem é tudo”, percebemos como esses grandes nomes chegavam a ser ridículos quando, por algum motivo, resolviam se mostrar. Hoje, um(a) escritor(a) bonitinho(a) tem grandes chances de arrebatar fãs de sua imagem e, com isso, vender mais livros, que nem precisam ser bons. E se não for bonito, vai se fazer parecer. As fotos de divulgação tentarão passar a imagem de que são inteligentes, sofisticados, sérios, simpáticos, sociáveis, próximos a você, etc. Mesmo que tudo isso seja mentira.
Conheço o peso da não exposição. Conheço o peso de não querer passar uma imagem aceitável, agradável, apreciada pela maioria. E pago o preço disso porque aprecio o conteúdo das coisas e não a aparência externa delas. As capas dos livros são cada vez mais lindas, mas um bom livro só precisa de capa para juntar e proteger seu miolo. Quem se dispuser a lê-lo e compreendê-lo, jamais se importará com os cuidados estéticos da edição. Pode vir em edição luxuosa para colecionadores, de bolso, em papel jornal ou como e-book. Certamente que uma ou outra versão agradará mais ou menos a esta ou àquela pessoa. Mas o conteúdo será sempre o mesmo.
Nenhuma das fotos me retrata exatamente, por inteiro, de forma absoluta. Estou em todas as fotos e em nenhuma delas. Com já disse, as pessoas não costumam nos ver como somos, mas como pensam que somos. Seremos sempre uma versão adequada à miopia de cada um.
Acredito que esta série de fotos também encerre, de uma vez por todas, uma leitura comum e equivocada sobre minha reserva em relação à exposição. Se alguém pensava que sou tímido, não resta qualquer dúvida de que pensava errado, não? E sobre me expor, me deixar conhecer, saber como sou, eu não poderia fazê-lo de forma mais despudorada e explícita do que faço quando escrevo. A pergunta é: você consegue enxergar isso?