Por fim

Então, é isso: na autópsia, descobre-se um grande coração cheio de nada e um estômago corroído pela cafeína.  Percebeu tarde quão desumano e bárbaro seria amar uma única pessoa. E ainda mais tarde que era tudo ilusão. Amava o amor. Amava o desejo. Amava a história criada em torno disso. Planejou morte à toa. Viver sem amar já não é viver.

Bobagem! O coração batia bem melhor sem a esperança de ser ou ter tudo que desejava. Dos vultos de mulheres que passaram por seus sonhos, dispensou até o adeus. Nem recordava se eram felizes ou bem torneados. Nada queria guardar. Nem lembranças. Passaram os amores, ficou o coração.

Que restava senão buscar outro afeto? Enamorou-se por pontos finais. Pensou que seria o fim perfeito. Aceitou-os tal como eram e foi muito além. Partiu daquelas para uma muito melhor.

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A Cidade do Sol roubado

Em Natal, o sol já não nasce para todos. O astro-rei vem sendo privatizado pelos moradores dos arranha-céus de Petrópolis e Areia Preta. De sua posição privilegiada, bem ao lado do trepódromo, o Hospital Universitário Onofre Lopes ainda pode vê-lo. As pessoas que passaram a noite do lado de fora, na fila, também, mas já não têm forças para apreciar o espetáculo. Cansadas, com as almas anestesiadas, só pensam em pegar uma ficha de atendimento e sobreviver.

Os bebês da Maternidade Januário Cicco perderam o direito aos primeiros raios. Da sacada, agora fria, uma jovem mãe vê prédios. Mais adiante, o Conservatório de Música Frederico Chopin conserva ainda a placa com a grafia aportuguesada do polaco. Não se pode dizer o mesmo de suas paredes, que vão desabando. Na Praça Cívica, a centenária e andante estátua de Pedro Velho gelaria até os ossos – se os tivesse! – por boa parte da manhã.

No antigo Papa Jerimum, nas paredes que ainda insistem em ficar de pé, tristes figuras choram por uma réstia de sol que só chega no meio da manhã. As árvores da Rua Mossoró parecem querer correr até a Prudente e buscar lugar mais propício ao viver. Não seria ali na avenida. Nos canteiros, algumas flores só encontram o sol em seu pior horário. São tão descoloridas quanto as paredes e as chorosas meninas grafitadas. Sem sol, as casas… não, as coisas, todas elas, ficam tristes, vão morrendo.

Seis da manhã. Volto pelas calçadas sombrias. Sei que o sol saiu porque vi, porque fui acolá dos prédios, de além, quase outro mundo. Volto triste, pensando que um dia terei que adentrar o mar e gritar por ele – Vem, Sol. Acorda! –, que terá desistido de competir com esse desespero humano de estar sempre acima de tudo, sempre tomando o que é de todos.

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Ai, meu Deus! Chuparam o Hermeto!

Isto nem deveria estar neste blog. Nem sei se ele serve para isto, mas como também já não sei muito bem para que ele serve, vamos lá…

Cá estava eu, alegre e pimpão, ouvindo pela primeira vez Voice, o disco novo da japinha Hiromi Uehara. Baconoso, de bom gosto, estava curtindo, achando um tanto brasileiro – jazz, né? sacomé: bossa nova, improviso, jazz, choro, influências indo e vindo, world music, coisa e tal… Até que cheguei à faixa 5, Labyrinth, que, mais que brasileira, me pareceu muito familiar. E foi por volta de 1min 48s que não tive dúvida: já tinha ouvido aquilo. Pelo menos, aquele trecho. (Clique abaixo e preste bastante atenção no trecho que vai de 1min 48s a 2min 30s)

Ray Charles pode ser surdo, Stevie Wonder pode ser mouco, mas o moreno Sandro escuta mesmo muito bem e tem uma memória de elefante, principalmente para música (sim, as frustrações deixam marcas).  Já tinha ouvido aquilo com Hermeto Pascoal, em 2003, em uma apresentação em Brasília.  Sim, mas e daí? Hermeto é conhecido e reverenciado no mundo todo. A jovem japa poderia ter gravado uma música dele. Fui conferir.  Googla que googla e quase nada vem. O tal Voice nem aparece no site oficial dela, mas está à venda no da Telarc, que faz parte da Concord Music Group. Não ajudou muito, pois não há informações sobre a composição das faixas. Apelo para São Google de novo. Labyrinth é de Stanley Clarke e, se você curte jazz, já está em terreno conhecido. A música está no CD The Stanley Clarke Band, lançado ano passado e que ganhou o Grammy 2011 de Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo.  Nesta versão, da qual Hiromi também participa, o baixo é mais forte e o trecho em questão começa por volta de 1min 58s. Escute.

E para ninguém achar que estou maluco, aí vai a gravação que eu mesmo fiz no show do Hermeto em 2003. Infelizmente, no vídeo, a música não é apresentada (nome, se dele ou de outro) e eu já comecei a viajar achando que fosse de… bem, deixa pra lá. O que importa é que pelo menos sete anos antes desses acordes aparecerem no disco de Stanley Clarke, eu já tinha ouvido.  E, agora, só descanso depois que preencher essa lacuna da minha vasta ignorância.  Que música é essa, quem compôs e quando? Alguém me diz?

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ATUALIZADO EM 05.04, ÀS 17h50: João Antônio Buhrer escreveu nos comentários e informou qual é a música: Bebê, de Hermeto Pascoal. Confira no vídeo abaixo com Hermeto e Sivuca.

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Das falsas virtudes ou “eu quero sexo”

O mineirinho cantou a bola. Esse negócio de falar de intimidades é só para depois de morto. Deixou para publicar depois da vida o que de mais gostoso existe nela. Sua língua lambilonga, lambilenta, a percorrer licorina gruta cabeluda, atingindo o céu do céu entre gemidos; a doce surpresa da graça não pedida, quando a amante fica de joelhos, em posição devota, para que o pênis recolha a piedade osculante de sua boca; ou ainda a explícita decisão de não querer ser o último a comê-la; tudo isso, ele deixou para ser dito depois que estivesse a salvo do conservadorismo hipócrita, protegido por sete palmos de terra e paredes de mármore.

Adoramos corpos expostos, queremos possuí-los – no sentido de ter um e de ter os de outros ao dispor –, sonhamos com o(a) amante perfeito(a), nos enganamos acreditando que ninguém no mundo trepa melhor que nós, adoramos dar bandeira (real ou não) de que temos uma vida sexual maravilhosa, mas falar sobre sexo… NÃO! Falar, não pode.

Fato: se você se incomoda com a exposição de determinado tema comportamental é provável que isto não seja algo muito bem resolvido na sua vida. Ou seja, se ouvir falar sobre sexo incomoda é porque você não come direito nem está sendo bem comido(a).  Não perca tempo se emputecendo com isso. Só estou avisando. Não é culpa minha se você é assim. Vá trepar (mesmo mal), que a raivinha passa.

Erotismo não ganha resenha, não pode ser falado, tem que ser escondido e criticado. É coisa para gente bem resolvida, não para selvagens travestidos de civilizados. Às pessoas assim, adoro lembrar que estão aqui porque seus pais treparam. Sim, papai comeu mamãe, mamãe se abriu toda, suaram, gemeram, grunhiram e nove meses depois, também nu, nasceria um bebê fofinho que um dia se transformaria em um falso moralista, um hipócrita, uma pessoa com problemas sexuais e em aceitar a coisa mais antiga e gostosa do mundo. Se papai imaginasse que você seria assim, era bem capaz de ele ter gozado em outro lugar.

Em 1902, em Minas, um papai e uma mamãe fizeram tudo bem direitinho. Nasceu um menino que danaria a por em versos as perturbações de seu espírito, suas angústias e inadaptações ao mundo. Tudo escrito de uma forma genial, mas nada que entrasse para a história. Não que não merecesse, mas porque nasceu em um país de gente, em sua maioria, de educação falha, que não valoriza a própria cultura, que não lê, que mesmo antes dos editores eletrônicos já vivia a época do Ctrl+C/Ctrl+V, pensando com a cabeça do outros. E isso não é uma opinião minha. É um fato observado por ele mesmo: “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas.” Foi Drummond quem falou. E também foi ele com sua língua lambilonga, lambilenta que, muito sabiamente, fugiu de expor suas doces sacanagens enquanto vivo. Nei Leandro de Castro, que a maioria deve ter ouvido falar por aquele filminho (O homem que desafiou o diabo) que destruiu seu ótimo livro (As pelejas de Ojuara), é uma dos grandes nomes da literatura erótica brasileira.  Ou, em outras palavras, não é ninguém, mas só por conta deste “brasileira” ao final da referência. Escreve que é um demônio de bom, mas onde estão seus livros eróticos? Quem já ouviu falar deles? Quem já leu algum? Quem já leu uma resenha sobre algum deles? O Amor Natural, livro póstumo de Drummond, foi muito falado. “Porque era Drummond e porque já estava morto”, me disse, há anos, Nei Leandro que ouviu do poeta mineiro que seus versos eróticos só seriam publicados quando ele já não estivesse vivo.

Percebo, nos cinemas, os risos nervosos e os ajeitamentos nas poltronas durante uma cena de sexo. Vejo os olhares que fogem dos quadros de nus nos museus. No país da bunda de fora, dos implantes monstruosos para seios e bundas, onde é comum a própria xavasca querer ficar pelada e sem sua vestimenta natural, é proibido mostrar sexo na pintura, na literatura, na poesia, no cinema. As “vergonhas” precisam ser cobertas.

Em uma sociedade tão permissiva, vigilância por comportamento socialmente aceitável é, quase sempre, manifestação de fingidas virtudes. Já vergonha de hipocrisia, parece que ninguém tem.

Este texto nasceu da publicação do anterior, escrito há quase dez anos. Em pleno carnaval – época de muita sacanagem explícita –, resolvi postá-lo. Não tem absolutamente nada de chocante ou anormal. Pelo menos não para quem já fez bom sexo alguma vez na vida. E se você nunca teve uma paixão daquelas de deixar a pessoa, literalmente, de cama, de não pensar em outra coisa, de não se importar se os vizinhos vão ouvir os gritos, de deixar seus brinquedos em carne viva, só posso lamentar. Lamento profundamente por você não ter seguido as ordens da natureza, de não ter vivido sem constrangimentos o amor natural, aquele mesmo do qual Drummond fala em sua poesia.

E o que importa se era ficção ou não? Fala de algo extremamente comum – e delicioso! – que qualquer um deveria ter vivido. Não deveria ser ficção na vida de ninguém! Mas chegou a provocar revoltas ocultas e aconselhamentos a terceiros, a quem resolveu recomendá-lo ou comentá-lo. Se eu fosse do tipo egocêntrico, teria gostado da importância que me deram. Teria me sentido um Goya sendo obrigado a vestir sua maja. Mas, numa situação dessas, o Goya aqui chamaria sua maja para trepar em praça pública.  Afinal, como diria a música falando de sexo e censores, quem essas bestas pensam que são para decidir?

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Emocionalmente equilibrados e sexualmente felizes, sintam-se à vontade para comentar.

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Pós-love

Um breve conto de fricção


 

Assim que acabava de fuder com Cláudia, eu tinha que escutar Kátia Flávia, a Godiva do Irajá. E tinha que ser naquela versão ao vivo, acelerada, hard. Era uma pós-gozada de quatro minutos. Loiraça belzebu, loiraça lucifer, loiraça satanás. Fausto Fawcett pós-coito. Era um ménage para o qual ele chegava atrasado. Quatro minutos com aquela batida na cabeça.

Fausto era o meu cigarro. Quando a música parava, já caia de novo de boca na Claudinha. “Pode vir.” Ela não negava. Não tinha não nem talvez. Sempre pronta pra fuder. Suicide blonde. Era uma loira boa pra caralho. Uma mulher para mil picas. Vinha para cima com tudo. Quando se acabava, gritando para eu gozar junto, era certeza do pau travar no on. Ficava duro como uma pedra. Ela ria. E pulava mais. O pau ardia, esfolava, sangrava e ela não dava trégua. O brinquedo dela lá… impávido standard. Achava que ia morrer grudado naquela louca. Sentia o pau inchando como o de um cachorro. Ia ficar plugado na cadela. Nesses não intervalos priápicos, não tinha Kátia Flávia. Só conseguia ranger os dentes e rezar pra ela gozar de novo e parar. Pau gasta? Ela tava acabando com o meu! Inchado. Inchado. O cachorro da Claudinha.

Quando finalmente parava, ficava ali, aberta em cima de mim. E nada da porra do pau baixar. Quando me deixava ir ao banheiro, ficava rindo. Jogava a calcinha na minha direção como se fosse jogo de argola. Água fria. O bicho inchado. Quando voltava, Claudinha dormia. Ou fingia. Eu já querendo meter a língua naquela buceta kamikase. Era só sentir meu focinho em sua pele que já ia se abrindo. “Chupa, vai!” Obediente, mandava ver. Perdia as contas dos gozos em minha boca. Quando tentava fugir, eu a segurava pelas ancas numa espécie de mata-leoa. Era a vez de ela se sentir inchada. Só assim, ela parava um pouco. Dava até pena. E gosto de vê-la se contorcendo. Depois de uma sequência de super-chupadas, ela falava: “Dá, leitinho, dá.” Não ia aguentar o pau ali. Eu, mais uma vez, obedecia. Mama, Claudinha, toma tudo. Ela sugando com força, sem perder uma gota. Eu me esticava e dava play: Aaaah, suicide blonde, suicide blonde… Kátia Flávia… Get out!

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Ei, defunto, passa o bronze!

No dia 30 de março de 2009, no texto Turismo-histórico cultural e três velhos bigodudos, eu terminava dizendo o seguinte sobre uma das homenagens ao advogado e escritor Manoel Dantas: Já a efígie em seu túmulo, no Cemitério do Alecrim (em Natal), resiste bravamente há 65 anos. Atualizando: RESISTIA.

O medalhão que ficava no túmulo de Manoel Dantas era obra de Hostílio Dantas, pintor e célebre escultor do Rio Grande do Norte, praticamente o único nome a entrar, até agora, para a história da arte estatuária no estado.  Foi Edgard Ramalho Dantas (é ele quem aparece na foto que abre o texto), neto de Manoel, quem deu o alerta por e-mail: “Túmulos dos alemães da Condor e de Manoel Dantas depredados no Cemitério do Alecrim”. Duas horas depois, eu e Canindé Soares, acompanhados por Edgard, estávamos conferindo os estragos.

Não foi apenas isso. Outras três efígies de bronze também foram roubadas: a de Elias Lamas e as duas do túmulo de Francisquinha e Ernesto Fonseca. Aliás, deste só sobraram três letras. Até a portinhola do jazigo foi levada. Estas eram as quatro únicas efígies em bronze de todo o Cemitério do Alecrim, um dos mais antigos cemitérios públicos do país. Se há registro fotográfico das peças é por conta de meu interesse por arte tumular e por um trabalho de catalogação da estatuária da Cidade do Natal que comecei a fazer com Canindé em 2009 (é daquele ano as fotos que mostram os medalhões). Na época, a Semsur – Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, órgão responsável (?!) pela administração do Cemitério do Alecrim se disse interessada pelo trabalho, mas estava apenas tentando trazer “os inimigos” para perto, já que rodamos toda a cidade e denunciamos o abandono das praças, monumentos e cemitérios.

Natal é uma cidade conhecida pelo desprezo com que trata sua História e sua cultura. Se possível, João Pessoa e Recife se mudariam para bem longe para não ter uma vizinha igual a essa. É uma vergonha! Natal é comumente ridicularizada como “a cidade do já foi”, “a cidade do já teve”. Uma capital quatrocentona que não tem um museu. Ninguém venha dizer que tem! Tem “umas coisas” que chamam de museu e só chama assim quem nunca esteve em um. Quase tudo que se faz em Natal e é relacionado à sua História gira em torno do nome de Câmara Cascudo, que, diga-se, é extremamente respeitado no resto do Brasil e no mundo, mas também desprezado na cidade onde nasceu. A minha geração e as mais novas acham bonito falar mal dele e fazer ar de enfado quando ouvem seu nome. Aquele comportamento típico de quem quer disfarçar a própria ignorância diminuindo quem realmente fez alguma coisa. A propósito, falei que o túmulo de Cascudo, totalmente reformado pela família (como tudo relacionado a ele, pois estado e município não fazem qualquer coisa), em maio do ano passado, também foi depredado? Foi. Levaram a placa em inox com os nomes de todos que foram sepultados lá.

Fotografo cemitérios por todo o Brasil. Já fiz vários posts, aqui, a respeito disso. Cemitérios gigantescos como o do Araçá, em São Paulo, com seus 222 mil m2, no qual caberiam dezenas de cemitérios do Alecrim. Cemitérios com centenas de monumentos gigantescos, em bronze ou mármore, como os da Consolação e São Paulo. Todos seguem o mesmo esquema das necrópoles públicas brasileiras: o terreno pertence à administração pública, que zela pela limpeza e segurança do local, mas os túmulos são de responsabilidade dos donos. Sabe o que acontece com túmulos de personalidades famosas e/ou que tenham grandes obras de arte nos cemitérios de São Paulo? A administração pública tomba e se torna responsável direta por sua limpeza e manutenção. Os donos só têm direito a enterrar seus mortos. Não podem mexer neles, modificá-los. Se um túmulo está abandonado, o dono é notificado. Em Natal, os donos não são avisados nem quando os túmulos são depredados e roubados.

Para entender a situação de total abandono do Cemitério do Alecrim, basta olhar para suas ruas. As principais, próximas às entradas, receberam uma maquiagem há alguns anos. As restantes são como a mostrada na foto acima. Antes de ser enterrado e roubado, o morto ainda experimenta a sensação de andar naqueles carros performáticos de rapper americano, sacudindo para todos os lados. Não me admiraria se um pedisse para descer do caixão e ir andando até sua sepultura. Seria muito mais digno. Parece que a administração da cidade sempre entendeu “lugar de descanso” como “lugar de descaso”. Assim, passam secretários e prefeitos enquanto o cemitério continua virando pó. Dá para levar a sério uma cidade que não respeita nem os seus mortos? Se eu morrer aqui, façam uma fogueira no quintal e cremem meu corpo,  façam qualquer coisa, mas, por favor, não me levem para o Cemitério do Alecrim. Já me basta ter sido assaltado em Natal, mais de uma vez, ainda vivo.

* * * * * *

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Que Appe é esse?

Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “Por que você não escreve a biografia do Appe?”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “É mesmo!”. Estava cansado da superficialidade do jornalismo, fazia o Memória Viva há nove anos, já estava mesmo na hora de publicar um livro… Por que não?

Deve ter sido um demônio que falou pela boca de João: “Vamos mostrar a esse cara que escrever uma biografia não é fácil como ele pensa.” Mas pode ter sido um anjo: “Appe merece ter seu trabalho mostrado às novas gerações. Corra para falar com ele!” Corri, mas não cheguei a tempo. Appe morreria pouco mais de dois meses depois daquele insight.

Se por um anjo ou por um demônio, não sei, mas graças a um texto contando esta história, a montanha veio a Maomé. A família de Appe me encontrou e se colocou à disposição para o que eu precisasse para desenvolver a pesquisa. Em abril de 2007, lá estava eu, pela primeira vez de já não sei quantas, em seu arquivo pessoal, sendo adotado por Neusa (sua viúva) e cevado por Doris (sua enteada).

Depois das duas primeiras rodadas de entrevistas com familiares e colegas de trabalho, vi que não seria difícil escrever sobre sua vida. Ele viveu bastante – 86 anos –, mas teve uma vida pessoal tranquila, caseira. À exceção do período de glória em O Cruzeiro, claro.  Jovem, bem empregado, frequentando altas rodas, manteve uma bonbonnière para deleite próprio e de seus amigos. Entendeu, não? Bonbonnière, aquele lugar cheio de docinhos gostosos para se comer…

Appe deixou uma dica de como queria ver sua vida contada: através de seus desenhos. O Appe que a maioria conhece é o caricaturista e chargista político da revista O Cruzeiro, mas ele é bem mais que isso. Muito mais mesmo! Deixei de contar o número de obras, fotos e documentos que digitalizei quando passou de dois mil. E nem mexi ainda em minha coleção de O Cruzeiro e quase nada também na de João Buhrer, o que certamente irá gerar mais de mil desenhos.

Quando me deparei com o Appe menos conhecido, vi que o trabalho não seria fácil. Usei a lógica que usamos para montar quebra-cabeças: comecei pelas bordas. Deixei a era de O Cruzeiro, o centro, por último. Da época anterior, me deparei com trabalhos em A Manhã e A Vanguarda. Na maioria, recortes sem data. Biógrafos, historiadores e acadêmicos já sabem do que estou falando. Não basta ter o desenho. É preciso entender todo o contexto em que foi criado e publicado. É ainda mais complicado quando se trata de charge política. Quem são aquelas pessoas na charge? Fácil quando se trata de alguma figura muito conhecida. Mas e aquelas que o tempo apagou, que foram eclipsadas por outras maiores? Quem eram? Por qual motivo apareciam naquela piada? E qual era a piada?! O que foi escrito no jornal daquele dia sobre os personagens da charge? Agora, imagine se deparar com, digamos, cem recortes, sem datas, sem ordem, sem contextualização e quase sem pistas de por onde começar a ordená-los e entendê-los. Um exemplo simples. Jornal A Manhã, 1954. Onde há uma coleção dessas? Terei acesso a ela? Pode ser manuseada? Está microfilmada? Quantas edições terei que folhear? Duzentas? Duzentas e cinquenta? E a leitura, para entender a época e o contexto, quanto tempo levará? Estou falando de um recorte bem limitado no tempo e, se comparado a todo o resto, nem tão importante, mas necessário que seja feito.

Esta é fácil! Adhemar de Barros, derrotado na disputa para o governo
de São Paulo, em 1954. No ano seguinte, tentaria a presidência.

No caso de um artista gráfico, há também outro ponto importante em todo esse acompanhamento. É preciso conhecer, entender, mostrar e explicar a evolução e mudança de traço, as influências de cada época, quando e como se chegou a um estilo próprio, qual temática era mais abordada em determinado período… É algo sem fim! Começa-se em um desenho e, de repente, está estudando a vida e a obra de outra pessoa que você nem sabia que existia! E não vai tirar nem dez linhas de tudo isso. Vai “só” compreender melhor o trabalho de quem você está biografando. Não é à toa que digo: biografar é fazer uma graduação sobre a pessoa. E há vidas que precisam de graduação, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, só para você chegar ao final de 15 anos de pesquisa e descobrir que sabe mais que qualquer criatura sobre a Terra, mas que, ainda assim, não sabe muita coisa.

Quem é esse Appe que pretendo mostrar? Quem SÃO esses Appes além do chargista e do caricaturista? Pretendo que as respostas cheguem a todos ainda este ano. Por ora, melhor deixar que ele mesmo mostre.

Appe quadrinista

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Appe ilustrador


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Appe cartunista


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Appe do Blow-Appe


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Appe erótico


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Appe pintor


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Mais: Memória Viva de Appe

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Tô gato?

Vivemos em um tempo em que é preciso ver para crer. Morreu a imaginação e toda riqueza que ela trazia. O mais triste, porém, é que mesmo vendo continuamos não enxergando. Ou pior: somos enganados, levados a acreditar que aquilo que vemos é determinada coisa.

Vivemos em um mundo de exposição. “Você viu?” é a pergunta da hora. As revistas que mais vendem são as que mostram caras, roupas, corpos. Os programas de TV mais assistidos são os que escancaram a vida das pessoas, expõem suas intimidades, mostram suas transformações em busca de aceitação (guarde bem esta última informação).

Sou de uma geração de jornalistas que conceituosamente acreditava que quem queria escrever, ia para os impressos; quem queria aparecer, ia para a tevê. Escolhi os jornais. Fiz tevê por um breve período.  Em uma coluna sobre informática que mantive por ano e meio em um jornal, demorei a aceitar o padrão que colocava uma foto do colunista ao lado de seu nome. O que interessava era o que eu noticiava, não como era a minha cara. Era jornalista, não modelo ou aspirante à celebridade. Veio a web e me senti ainda mais à vontade. Escrevendo, atingindo mais gente, tendo respostas, trocando informações e opiniões. Tudo sem precisar mostrar a cara. Então, surgiram as redes sociais. E em sociedade – real ou virtual – tudo se comenta, tudo se quer saber, a começar por “como fulano é?”.

Durante anos, usei como avatar um desenho feito por Marcelo Andrade no início da década de 90. Às vezes, quando não me reconhecia nele (quando estava de cabelos compridos, por exemplo), o substituía por outra imagem. No Twitter, que uso há três anos, ele também figurou por muito tempo. Na virada de 2009 para 2010, passei a raspar a cabeça e, mais uma vez, não me reconhecer no desenho. Comecei a usar uma foto atual, careca, de perfil. O cabelo cresceu e eu passei a usar uma foto de quando criança warholizada, isto é, com aquele efeito de cores utilizado no famoso quadro de Marilyn Monroe feito por Andy Warhol.

Escrevo, fotografo, viajo bastante, moro em vários lugares e muita gente vai chegando por variados motivos e sem saber como realmente sou. A curiosidade começou a crescer e muitos (principalmente muitas, né?) insistiam que eu usasse uma foto atual como avatar. No final de 2010, passei a usar o autorretrato que está logo abaixo.

Imediatamente os comentários apareceram. Em geral, diziam: “Huuuum, está começando a se mostrar, hein?!” Sim, a foto representava isso. Alguém saindo da escuridão e se revelando. Mais que isso, ela era um retrato fiel do meu momento, em que eu saía de um longo período de recolhimento, de pouca sociabilidade, pouca exposição.

Mas essa foto gerou um comentário interessante da filha adolescente de uma amiga minha: “Nem parece o Sandro.” Mas, sim, era eu e me revelando como raramente fazia. Era muito eu! Era eu como eu me conheço! ERA EU MESMO! E aí veio o estalo: as pessoas não nos veem como realmente somos, mas como imaginam que somos. Então, resolvi mostrar isso na prática, fazendo uma série de autorretratos, e aproveitando para discutir outros pontos. Se você me acompanha no Twitter ou no Facebook, já deve ter visto as quatro fotos. Se não, aí estão as duas primeiras.

Pare de rir ou saia do choque e volte a se concentrar no texto. No Twitter, onde todo tipo de gente me segue, eu simplesmente provocava perguntando “Tô gato?”. No Facebook, onde há uma concentração maior de jornalistas, escritores, fotógrafos e afins entre meus contatos, eu dava uma pista após as legendas: Fulano de Tal Style.

Os retratos são baseados em fotos famosas de escritores consagrados. Essas imagens estão reunidas no divertido Tumblr Tô gato? e mostram, principalmente, o ridículo da exposição de gente pouco afeita a mostrar o rosto. Afinal, escritores querem mostrar seus textos, suas ideias, nada mais. Pelo menos, deveria ser assim. Veja as fotos originais.

Inicialmente, pensei em fazer uma série com 5 ou 6 fotos, mostrá-las de uma única vez, aqui no blog, e sugerir que escolhessem qual deveria usar como avatar. Mas surgiu outra ideia: mostrar uma por vez para que as pessoas pudessem se concentrar mais, analisar somente uma e dizer o que achavam. A primeira foi a do “oclão”, baseada em Julio Cortázar.  Em minutos, só pelo Twitter, teve mais de 100 visualizações. Juntando os comentários via Twitter e Facebook, foram cerca de 50. Logo percebi que havia escolhido a maneira certa de provocar. Centenas de pessoas passam por aqui a cada novo texto meu, mas o dia em que um post tiver um terço desses comentários e na mesma velocidade, darei uma festa!  No dia seguinte, exibi a foto baseada em Hunter Thompson. Mais aberta, na praia, tomando uma cerveja, de bata branca, óculos Ray-Ban, chapéu de palha. Quase duzentas visualizações somente no Twitpic e uns 50 comentários abertos.

Pausa para rápida análise sobre um detalhe nas duas primeiras imagens. Na primeira foto, muita gente atentou para o fato de os óculos serem femininos. Na segunda, também comentaram sobre a mudança desse item. Pergunto aos que me conhecem pessoalmente há dez anos ou mais: quando, na última década ou década e meia, me viram usando óculos escuros? Tenho quatro graus de miopia e nunca usei lentes. Para usar óculos escuros, eles também precisam ter grau ou, como usei por muito tempo, lentes escuras ajustadas sobre as lentes normais. Entre os 18 e os 22 anos, mais ou menos, eu usava óculos escuros assim. Tinha uma fotofobia fortíssima. Percebi que o uso das lentes escuras me atrapalhavam para captar detalhes (fotografando ou tratando imagens) e preferi treinar meus olhos, acostumando-os à luz, a simplesmente protegê-los. Além disso, me incomoda não ver os olhos das pessoas e eu não gostaria que se incomodassem ao não ver os meus. Quando converso, gosto de olhar nos olhos. São dois e costumam falar bem mais que uma única boca. Portanto, não uso óculos escuros. Pergunto de novo e de forma mais enfática: alguém que me conheça pessoalmente achou, por um único instante, que aqueles dois óculos poderiam ser meus? Alguém achou que eu me poria a andar por aí, cego, por questão de estilo?! Prefiro acreditar que não. E, na segunda foto, quem já me viu de chapéu de palha? Ou de batinha? Na praia? E com tudo isso junto?

Alguns começaram a desconfiar. Sim, era alguma brincadeira. Mas qual era a brincadeira? E a terceira foto (acima) veio para confundir mais. Em estilo Paul Auster, parecia séria. De terno, em um super close, expressão grave, os olhos (sem óculos!) encarando quem via a foto. Os comentários foram mais na base no “Gostei dessa!”. E foram muitos os “comentários internos” – por DM no Twitter, por e-mail, por MSN. A pergunta já não parecia tão jocosa e começou a ser respondida: “Sim. Tá gato.” Mas o que diabos o Sandro, que nunca se mostra, resolveu fazer uma série dessas?! A esta altura do texto, muita gente já deve ter entendido, pelo menos, um dos pontos: retratos assim não são 3×4; eles são feitos para imprimir uma ideia. Mesmo que não seja consciente – e ainda que você nunca tenha pensado nisso – a leitura é imediata, baseada nas informações que você tem, nas coisas que você aprendeu. Terno?  É uma pessoa para ser levada a sério. Olhos escondidos ou olhando para algum lugar que não podemos ver? A pessoa está vislumbrando algo particular, do mundo dela, mistério! Olhos que encaram? A pessoa está falando diretamente com você, bem perto, de forma íntima, não quer segredos. Mãos na cabeça ou apoiando o queixo? A pessoa valoriza o centro do pensamento, ela é inteligente. O que acho mais interessante da minha foto ao estilo Paul Auster é que além da leitura óbvia, comum, ela revela meus olhos (que eu gosto e acho bonitos), sempre escondidos pelos óculos. Pode não parecer, mas é realmente muito íntima porque só quem dorme comigo me vê assim: tão de perto, sem óculos, olhando tão diretamente.

Essa foto também gerou um comentário, de outra pessoa, idêntico ao da filha de minha amiga sobre a foto em que só aparecia metade do meu rosto: “Nem parece você.” E, mais uma vez, era a que me mostrava sem máscaras, sem acessórios escondendo partes do rosto e sugerindo leituras de estilo. Nem mesmo meus óculos de grau. Era tão somente meu rosto nu.

Achei que esse comentário fechava o ciclo e eu poderia revelar a experimentação. Mas pensei um pouco e resolvi partir para outro lado. Que tal fotos mais… gays? A primeira, com os óculos femininos, já havia provocado comentários de alguns gays. Devem ter pensado: “Huuum… esses óculos estão dando pinta. Ele também é!” Pensei em versões de fotos de Oscar Wilde e Dylan Thomas, mas, quem me conhece, sabe que quando eu resolvo aloprar, prefiro aloprar de vez. Parti logo para uma foto ao estilo Virginia Woolf, de vestido, flores na cabeça, na clássica pose com mão em “L” no rosto e olhar perdido. Recorde absoluto de visualizações e insultos! Pronto. Eu já podia parar com a brincadeira.

A escolha de fazer versões de fotos de escritores foi, por si só, uma crítica. Escritor não precisa mostrar a cara, precisa mostrar ideias. Nessas fotos antigas, quando não havia o pensamento tão comum dos dias atuais de que “imagem é tudo”, percebemos como esses grandes nomes chegavam a ser ridículos quando, por algum motivo, resolviam se mostrar. Hoje, um(a) escritor(a) bonitinho(a) tem grandes chances de arrebatar fãs de sua imagem e, com isso, vender mais livros, que nem precisam ser bons. E se não for bonito, vai se fazer parecer. As fotos de divulgação tentarão passar a imagem de que são inteligentes, sofisticados, sérios, simpáticos, sociáveis, próximos a você, etc. Mesmo que tudo isso seja mentira.

Conheço o peso da não exposição. Conheço o peso de não querer passar uma imagem aceitável, agradável, apreciada pela maioria. E pago o preço disso porque aprecio o conteúdo das coisas e não a aparência externa delas. As capas dos livros são cada vez mais lindas, mas um bom livro só precisa de capa para juntar e proteger seu miolo. Quem se dispuser a lê-lo e compreendê-lo, jamais se importará com os cuidados estéticos da edição.  Pode vir em edição luxuosa para colecionadores, de bolso, em papel jornal ou como e-book. Certamente que uma ou outra versão agradará mais ou menos a esta ou àquela pessoa. Mas o conteúdo será sempre o mesmo.

Nenhuma das fotos me retrata exatamente, por inteiro, de forma absoluta. Estou em todas as fotos e em nenhuma delas. Com já disse, as pessoas não costumam nos ver como somos, mas como pensam que somos.  Seremos sempre uma versão adequada à miopia de cada um.

Acredito que esta série de fotos também encerre, de uma vez por todas, uma leitura comum e equivocada sobre minha reserva em relação à exposição. Se alguém pensava que sou tímido, não resta qualquer dúvida de que pensava errado, não?  E sobre me expor, me deixar conhecer, saber como sou, eu não poderia fazê-lo de forma mais despudorada e explícita do que faço quando escrevo. A pergunta é: você consegue enxergar isso?

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Ignorar a doença não traz a cura

Já falei muitas vezes do Maruim aqui no blog. Já fotografei por lá pelo menos meia dúzia de vezes nos dois últimos anos. Se você nunca viu nada, resumo: é uma comunidade de aproximadamente 250 pessoas encravada nas Rocas, um bairro portuário de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Não gosto de ir ao Maruim. Não gosto de saber que existe gente que vive naquelas condições. Não gosto de saber que, entra ano, sai ano, nada muda por lá. Minto! Mudou sim, desde minha visita anterior, há mais de um ano. Uns 10 casebres foram colocados abaixo. Eram de famílias que saíram de lá, realocadas pela prefeitura, que prometeu que todas as outras sairiam também, no máximo, até o Natal de 2009. “Nunca mais vieram aqui”, diz um morador, repetindo a ladainha comum. “Não se preocupe!”, retruquei, “No próximo ano, eles aparecem. Pedindo votos. Seja quem for, lembre-se disso: mais uma vez, eles vão prometer e não vão fazer.”

Não é culpa da atual administração. É sua culpa, AGORA. É sua culpa permitir que aquela situação de miséria CONTINUE. A vergonha existe há 30 anos, há nove administrações. Oito políticos passaram pela cadeira de prefeito e não resolveram esse problema. Três deles já governaram o estado; dois chegaram ao Senado; um é ministro, atualmente. O preço de apenas um dos carros de qualquer um deles compraria comida para toda a população do Maruim por um ano. Cada vez que um deles entra em um avião para ir a Brasília ou voltar de lá tira – do meu bolso e do seu – mais dinheiro do que uma família de lá consegue para sobreviver por um mês. Se dois dos senadores (lembrando: ex-governadores e ex-prefeitos que não resolveram nada), donos de várias empresas, de emissoras de rádio e tevê, ricos como empresários, abrissem mão de seu 13º, 14º e 15º salários em um ano (só isso, só os dois), tirariam 6 famílias de lá e as colocariam em casas simples, porém dignas. O mesmo dinheiro seria suficiente para eliminar o esgoto que corre a céu aberto, nas portas e muitas vezes dentro dos casebres.

Mas nada vai mudar. Quem quer mudar alguma coisa, vai lá e faz. Quem quer mudar ou garantir SUA PRÓPRIA SITUAÇÃO, pede voto. É para isso que existe pobre sem educação: para garantir a situação do rico esperto. Se todo mundo tiver educação e informação, quem vai votar em corrupto, safado e mentiroso? Sim, o sistema é foda. E funciona bem direitinho.

A nós, remediados da classe média, restam três opções: 1) mirar na classe abastada e entrar no esquema para fazer parte dela; 2) alienar-se, fingir que não está vendo e que isso não é problema nosso; ou 3) tirar a bunda da cadeira e unir forças para resolver o problema. Eu faço isso quando vou lá, fotografo e meto a boca no mundo mostrando como essa gente vive. Você faz o quê? E não estou falando só do Maruim de Natal, mas de qualquer favela de qualquer cidade. Não conheço qualquer bairro rico, em qualquer cidade brasileira, que não fique a 10 ou 15 minutos de carro de um Maruim. O que você está fazendo para mudar isso? Votando naquele escroto que lhe prometeu um cargo comissionado? Eu também gostaria de acreditar nas “boas intenções” dele. Acreditar nos outros é sempre mais fácil. A gente transfere a responsabilidade. Se algo der errado, a culpa não é nossa. Mole!

Todo ano, meu amigo, o fotógrafo Canindé Soares, faz o Natal das crianças do Maruim no dia 8 de janeiro, Dia do Fotógrafo. É lindo ver as crianças rindo ao ganhar bolas, bonecas e doces. Ele sabe que isso não é nada, não está resolvendo problema algum. É só uma festa. Ele faz isso para atrair os olhares de outras pessoas para aquela comunidade. Quem embarca na festa achando que é bonitinho ver as crianças sorrindo ou vai lá pela segurança que o momento proporciona para um safári na favela está no time dos que escolheram a opção de se alienar. A propósito, o Maruim não é um lugar perigoso. A maioria das famílias vive da pesca. Tem algum tráfico e, em uma visita ou outra, a gente esbarra em um jornalista, um advogado, um grã-fininho ou outro babaca qualquer que está ali comprando fumo ou pó. Depois ele põe a beca e se faz de bom moço, de não financiador da miséria e da violência, mostrando toda sua “consciência social”.

No Twitter, quando posto as belas paisagens de Natal, os RTs chovem, incluindo os dos perfis das secretarias municipais. Nessas fotos recentes, do Maruim, isso não aconteceu. A foto que abre este texto foi feita a uns cem metros daquele lindo pôr-do-sol do Canto do Mangue, que vivo fotografando. Grande parte da população só conhece mesmo por foto. Afinal, quem vai se arriscar a ir até “aquele lugar perigoso”, não? Respondo: quem não tem medo da realidade.

Falando em realidade, gostaria de demonstrar como somos capazes de modificá-la ou de só perceber uma pequena parte dela. Observe as duas fotos abaixo e depois retome a leitura.

Estes são Gleison, Lorenice e Késsia. Em janeiro de 2008, um deles me pediu: “Tira uma foto da gente?” Juntaram-se, fizeram pose, fiz o clique. Os olhares e os sorrisos são lindos. Késsia, a menorzinha, irmã de Gleison, tinha três anos naquela época. Ela tem um sorriso lindo, não? Crianças são crianças. Não tem jeito: podem viver na miséria, mas são lindas! Quando sorriem, iluminam tudo.

A segunda foto, foi feita exatamente dois anos depois, em 8 de janeiro de 2011. Gleison tem o mesmo rostinho. Lorenice, a maiorzinha, agora aos 7 anos, está ficando “com cara de mocinha”. Késsia está com os cabelos mais compridos e parece um pouco mais tímida. Todos devem ter reparado que eles parecem mais bem cuidados, mais arrumados. É normal nesses dias de festa. Todos fazemos isso. Eles também. Sabem que serão fotografados e, diferente de nós que entupimos nossos HDs com milhares de fotos, provavelmente serão as únicas que eles terão este ano. Mas a não ser que você seja médico, nutricionista ou um pai(mãe) muito atento(a), não deve ter reparado em um detalhe: eles quase não cresceram.

Tenho três filhos. Quase não reparo no crescimento deles. Como fotografo, consigo perceber como mudaram. Nessa faixa de idade, as mudanças são incríveis. Seis meses fazem uma diferença enorme. Dois anos transformam uma criança absurdamente. Quando são bem tratadas, bem cuidadas, bem alimentadas. Não conheço os filhos da prefeita, que foi minha colega de curso na universidade, mas tenho certeza que, assim como os meus, cresceram bastante e ganharam peso nos dois últimos anos. Ananda, que era um bebê pequeno e magrinho, prestes a fazer 11 anos, está quase da altura da avó (não que minha mãe seja alta; mas entenda: aos 11 ela vai atingir a altura adulta de duas gerações anteriores). Pietro, que era um bebê aos 3 anos, é um rapaz aos 5. Eu sou bem maior que meus pais. Todos nós temos e tivemos algo que, geração após geração, o povo do Maruim não tem: alimentação.

Este tipo de texto não costuma ter muitos comentários. Em relação a este e especificamente aos meus amigos de Natal, peço que, se puderem e quiserem, assumam aqui, nos comentários, o compromisso de ajudar essas crianças. Uma ida ao cinema com dois filhos, sem qualquer exagero de consumo (entradas, doces, lanche depois) gasta o equivalente a 4 cestas básicas. Uma por semana, durante um mês, para fazer uma família inteira comer bem melhor. Não quero que ninguém faça promessas ou dê um monte de coisas uma única vez. QUERO COMPROMISSO com aquilo que sabemos poder dar. Algum médico? Alguma nutricionista? Alguém que possa dar, todo mês, por um ano ou dois, uma ou duas cestas básicas a uma família? Parece assistencialismo? E é. Isso resolve? Vamos sustentá-los para sempre? Não. Isso vai ajudá-los a sobreviver, a se tornarem mais fortes e, mais adiante, caminharem com as próprias pernas. Pode ser que daqui a quinze anos, o Maruim continue existindo, mas algumas dessas crianças tenham se tornado adultos que possam tirar seus filhos de lá. Quem estiver comigo, PARA AGIR, fale agora.

E você, que mora em qualquer outra cidade, dê uma andada pela vizinhança. Tenho certeza que vai encontrar um Maruim por perto.

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Céu, Sol e Mar

“Este ano, faço uma retrospectiva fotográfica”, pensei. Logo vi que seria impossível. Só nos lugares em que costumo postar fotos – Twitpic, Flickr, Facebook e Orkut – foram mais de setecentas. E nem sempre as melhores. Que tal fazer uma nova seleção? Demoraria dias. Nem sei quantas fotos fiz este ano. Certamente, mais de 10 mil. Como tirar 20 ou 30 para representar 2010? Resolvi, então, eleger um tema: Céu, Sol e Mar.

Pode parecer muito comum uma foto do pôr-do-sol ou de uma praia. Pode até parecer fácil agradar alguém com essas imagens. Mas responda: quantas vezes você parou o que estava fazendo para ver o pôr-do-sol este ano? Quantas vezes em um lugar especial? Em quantos lugares diferentes e especiais? Quantas vezes levantou antes do sol para vê-lo nascer? Em quantas praias esteve em 2010?

Fiz tudo isso muitas vezes. Escolhi 30 fotos feitas em 9 municípios de 4 estados brasileiros. Como muitos sabem, passo a maior parte do tempo enfurnado em algum lugar: escrevendo, lendo, vendo filmes. Não sou chegado a praias e é raro dar um mergulho quando vou a alguma. Talvez por isso, valorize tanto esses momentos. Poderia não escrever sobre eles e não fotografá-los. Poderia somente apreciá-los, mas sempre penso em dividi-los com outras pessoas, com o maior número possível de pessoas. Então, aquele instante único, mágico e perfeito que a luz encontra para mostrar como o mundo é lindo, quase sempre vejo somente com um olho e através de uma máquina.  Para poder mostrar a vocês.

Aqui estão 30 desses momentos. A ideia não é só mostrar lugares bonitos ou fotos bem feitas. Minha sugestão é que você pense um pouco sobre este momento – a virada do ano – “em que as esperanças se renovam” e perceba que isso não precisa ser feito só uma vez por ano, mas, sim, duas ou mais vezes todos os dias. Setecentas… mil vezes por ano! Acordar e ver o sol nascendo deixa qualquer dia mais bonito. Relaxar com o pôr-do-sol já nos deixa pensando como o amanhã será maravilhoso.

E chega de conversa que 2010, este ano tão intenso, já se foi. Clique aí e viaje mais uma vez comigo (depois, basta fechar a janela e você voltará para cá). Em 2011, iremos a muitos outros lugares e todos os nossos dias serão lindos.


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