Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais

Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de Carlos Estevão.

Para as mulheres solteiras e carentes com mais de 30, ele se apresentava como Doutor Zilá Camboim, às vezes engenheiro, outras militar, sempre elegantemente trajado, muito educado e solícito. Na verdade, tinha apenas o primário, era casado (mas vivia separado da esposa) e era velho conhecido da polícia, que o chamava de Doutor Macarrão. Passou quase 20 anos ludibriando mulheres para lhes roubar dinheiro e joias. Vivia disso. Este era o seu ofício.

No papel, o Dr. Macarra não era alguém de quem se pudesse ter raiva ou querer prender. Era um pobre coitado já tão castigado pela vida que, para os leitores (ou “vedores”, como dizia Carlos Estevão), só restava rir da sua desgraça e das tentativas de se passar por um homem de respeito.

A revista com seu nome durou apenas nove edições, de abril a dezembro de 1962, mas ele só aparece na capa da primeira. Além das histórias do personagem-título, há também as Novas Aventuras de Sharleck Halmes (apresentadas por Sir Charles Stevens), além de séries e charges com os temas de costume. Tudo roteirizado, desenhado e finalizado por Estevão.

Dr. Macarra foi um herói da Força Expedicionária Brasileira, esteve em Cuba e na selva africana, foi astro do cinema, membro da Academia Brasileira de Letras, artista de múltiplos talentos, um grande político e circulou por Paris. Tudo em sua imaginação e nas histórias que contava para alguma figura feminina. A realidade, sempre mostrada no quadro seguinte, era bem diferente.

Era um personagem mais humano e muito mais rico que o Amigo da Onça. E talvez este tenha sido também o causador de sua morte precoce. Você não conhece um Dr. Macarra? Você não já deu uma de Dr. Macarra? Abra agora o Twitter ou o Facebook e veja quanta gente inteligente, bem-sucedida, rica, frequentadora das melhores festas, amigas de celebridades, que tem tudo que o dinheiro pode comprar e que viaja pelo mundo todo. Você acredita mesmo que todas as pessoas que conhece vivem do jeito que demonstram? Você pode até conhecer um ou dois amigos da onça, mas Dr. Macarra, garanto, você conhece um monte.

* Texto originalmente publicado na edição 371, de outubro de 2011, do Jornal da ABI, como box da matéria Carlos Estevão 90 anos – Ele só queria ser criança)

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O mundo em preto e branco

Sou viciado em informação. Admito. Desde sempre. Livros, jornais, revistas, filmes, músicas. Há uns dez anos, senti necessidade de diminuir a carga e selecionar aquilo que me parecesse agradável e relevante, mas sem correr o risco de me tornar um radical que só gostasse disso ou daquilo. A informação deveria estar sempre acessível para que eu pudesse comparar tudo e escolher o que me fosse aprazível. O noticiário policial – e do mundo cão em geral – foi abolido; rádio e televisão diminuídos radicalmente; a conversa fiada ganhou status de evento raro; comédias e filmes de ação americanos viraram último recurso para desconectar o cérebro.

Isso feito, sobrou muito mais tempo para as coisas boas, para o que realmente me interessava. Porém, enquanto me esforçava para manter distante o lixo excedente, todo ele começou a convergir para a web. Depois vieram as redes sociais e de conteúdo. No início, era possível escolher o que parecia interessante e relevante, mas, com o tempo, parece que tudo e todos se tornaram excessivos, verborrágicos, e o que era para ser algo selecionado se tornou o escoadouro do pior que as pessoas podem produzir, juntar e que, infelizmente, insistem em compartilhar.

Com esse gosto quase generalizado pelo que há de pior, como reagem as artes visuais mais comerciais, como a tevê, o cinema e a produção de vídeos de uma forma geral? Produzem o lixo que as pessoas querem consumir, claro. Mas existe também uma tendência contrária, tão cansada do excesso e disposta a eliminá-lo, que chega a parecer saudosista.

Acredito que esse movimento não seja exatamente pensado, mas, sobretudo, a expressão desse cansaço em relação ao excesso. É também uma autoanálise. Reparei que minhas fotos – minha segunda forma de expressão e tão somente isto – têm cada vez menos elementos. Os excessos ou personagens principais são jogados para a borda enquanto a maior parte do espaço é ocupada por um só elemento ou cor. Ou, se existe uma composição mais complexa, meu olhar, inconscientemente, elimina as cores (como nas fotos abaixo, que não são em preto e branco nem foram deixadas assim por manipulação digital; para vê-las em tamanho maior, clique aqui).

Durante este ano, variadas obras chamaram minha atenção para essa fuga das cores. Comecei a perceber isso em abril, quando o Foo Fighters apresentou as músicas de seu novo álbum, Wasting Light, no programa de David Letterman. Não vi a apresentação quando exibida na tevê, mas quando o grupo subiu os vídeos das músicas para seu canal no YouTube, eles estavam em preto e branco. E a apresentação foi, no mínimo, muita sóbria: todos de terno, sem pulos, descabelamentos ou pirotecnias. Só a música. E, sendo para ver, música em preto e branco.

Guardei a impressão e, de lá para cá, revendo alguns filmes, isso foi se intensificando. Há algum tempo, revi os filmes de Bob Fosse e escrevi sobre eles. Quando falei de Lenny (1974), enfatizei a coragem de Fosse (dançarino, coreógrafo e diretor de musicais) abandonar seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial. Um filme em preto e branco, com muitos planos fechados e que exigia boa interpretação dos atores (Dustin Hoffman no papel-título). De forma não tão intensa, também senti o mesmo ao rever Manhattan (1979), de Woody Allen. Em As Tentações do Doutor Antônio (1962), Fellini está usando cores pela primeira vez entre duas de suas maiores obras em preto e branco: La Dolce Vita (1960) e 8 ½ (1963). Depois de dois trabalhos vencedores do Oscar de Filme Estrangeiro e um vencedor em Cannes, criticando a decadência da sociedade italiana e preocupado com o avanço da voraz cultura americana (principalmente pelo cinema), Fellini ironiza os filmes que têm grandes peitos como seu principal atrativo e, ao apresentar o personagem principal (Antonio Mazzuolo, interpretado por Peppino De Filippo), recorre a um filme em preto e branco feito por um cinegrafista amador, ironizando também a tendência de acharem que só amadores fizessem filmes sem cores.

Fazendo um contraponto, assumo quase vergonhosamente ter dormido, digo, assistido Lanterna Verde e Capitão América. Fui marvelmaníaco quando moleque, minha primeira coleção de revistas foi de quadrinhos da Marvel e, já grande, chorei vendo Homem-Aranha em uma sala de cinema em Brasília (podem jogar as pedras). Furtivamente, sozinho e trancado no quarto, me permito ver esses filmes. Respondam-me: tirando toda a barulheira e os efeitos especiais, o que sobra? Eu mesmo respondo: um roteiro para história em quadrinhos. Por isso foi feito como tal. Fica lindo bem desenhado no papel, mas quando filmado tem muito de fogos de artifício e quase nada de cinema. Até quem gosta só disso parece já estar cansando.

Daí que as coisas se invertem e os críticos americanos resolvem prestar atenção a quem neste final de ano? A The Artist, um filme em preto e branco e mudo, que tem seis indicações ao Globo de Ouro. Se Foo Fighters (na minha humilde opinião, a melhor banda do mundo em atividade e responsável pelo melhor álbum do ano) está mais focada do que nunca no essencial, o dono do melhor álbum brasileiro do ano (também na minha meu humilde julgamento) segue o mesmo caminho e, para além da ótima música que vem fazendo, acaba de lançar um clipe no mesmo estilo (Freguês da Meia-Noite, logo abaixo).

Finalizando (já há texto em excesso!), deixo quatro dicas para quem quiser experimentar um pouco desse mundo em preto e branco: o site do fotógrafo espanhol Chema Madoz (a foto que abre o texto é dele); o filme The Kiss (1929), com Greta Garbo, considerado o último filme mudo de Hollywood; o canal Santi Bailor no YouTube, somente com clássicos italianos (incluindo alguns de Fellini, tudo na íntegra e em arquivos únicos); e o canal Movies do YouTube, que tem, dentre outras preciosidades, O Gabinete do Doutor Caligari (1920), filme expressionista alemão; O Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein; A General (1926) e vários outros com Buster Keaton.

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Cabaret

Rever os filmes dirigidos por Bob Fosse pode ser apenas a manifestação de uma mania, mas escrever a respeito deles já está me cheirando a um pedido de desculpas. É verdade: ainda não engoli Sweet Charity (1969) e a maldita destruição que provocou na história de Cabíria, a prostituta sonhadora de Fellini. Mas vamos com calma. Era a primeira vez que o ator e dançarino estava dirigindo um filme. Mais: estava transpondo algo que conhecia muito bem – o palco e a dança – para uma linguagem que, para ele, era nova – a direção de cinema. E ele se sai muito bem quando fica só na dança. Eu te perdoo, Fosse. Apesar de todo a idiotização da história, que talvez tenha sido uma grande sacanagem de Fellini, já que ele participou do roteiro. Vocês caíram. As risadas ouvidas no Cemitério de Rimini são de Fellini, que ainda hoje gargalha dessa história.

Cabaret (1972), segunda direção de Fosse, não é um filme qualquer. Devo tê-lo visto também em meados dos anos 80, naquela ansiedade juvenil de ver tudo que tivesse levado muitos Oscars. Não afirmo, mas talvez tenha sido o filme que ganhou mais Oscars sem levar o de melhor filme. E não deixou de ganhar para qualquer um. Foi para O Poderoso Chefão. Saiu vencedor em oito das dez categorias em que concorreu. Dentre elas, Melhor Atriz (Liza Minnelli), Melhor Ator Coadjuvante (Joel Grey), Melhor Direção de Arte, Melhor Música, Melhor Edição e Melhor Editor. Tudo muito merecido!

Fosse entendeu que cinema não é teatro, nem teatro filmado. Também entendeu que um musical no cinema não pode ser um filme que é interrompido para dar lugar a números musicais e depois deixa o espectador sem saber onde estava. Em Cabaret, a história é perfeitamente integrada aos momentos musicais. Verdade que o fato de boa parte dela se passar em um lugar onde aconteçam tais apresentações facilita, mas isso não funcionou no filme anterior. No palco, tudo funciona perfeitamente e – vou me permitir um justo lugar-comum – é aí que “a magia do cinema acontece”. Os números são filmados de vários ângulos, com movimentos de câmeras em praticamente todos e com uma edição de se ficar pensando se aquilo não estava sendo editado ao vivo e em uma só tomada. Era início dos anos 70. Nada de recursos digitais nem quaisquer outras muletas exaustivamente usadas pelo cinema americano nas décadas seguintes. Quem roteirizou, coreografou, dirigiu, filmou e editou aquilo, sabia muito bem o que estava fazendo. E o principal responsável por tudo isso foi Bob Fosse.

Liza Minnelli, um piteuzinho de 25 anos e pouco mais de 1,60m, deve ter pegado sua estatueta e dito: “Papai, mamãe, mundo, quem faz uma Sally Bowles assim, não precisa provar mais nada a ninguém. Dá licença que eu vou ser louca na vida.” E foi.

(clique na imagem abaixo e confira Mein Herr, segundo musical do filme
e primeiro dos quatro protagonizados por Liza;
o vídeo abrirá em outra janela, direto no YouTube)

Fico imaginando o poder da carga genética da pequena Liza, filha de Vincent Minnelli, diretor de musicais, e Judy Garland, que dispensa qualquer apresentação. E a escola que ela teve, crescendo nesse meio. Resultado: 25 anos e tome-lhe Oscar, Bafta e Golden Globe.

Mas nem só de pedido de desculpas a Bob Fosse e rasgação de seda para Liza Minnelli é este texto. Nem mera viagem no tempo a falar de um filme “antigo”. Cabaret está entre nós, brasileiros, hoje. Cláudia Raia, à beira dos 45 anos e com seu 1.80m de gostosura aviltante a qualquer fêmea humana, está cantando e dançando ao vivo no palco. E parece estar fazendo tudo muito bem. Até cantar. E cantar dançando, que é ainda mais difícil. Claro que não é uma Liza Minnelli. Mas e daí? A Liza toda não dá as coxas da Cláudia. Cada uma com seus dons divinos e Deus contra todos nós, pobres mortais babões.

(clique no vídeo abaixo e veja Cláudia Raia também apresentando Mein Herr)

Nem pretendo fazer comparações. Casaria com as duas e seria feliz para sempre (o que certamente não seria muito tempo). Também seria covardia comparar os aspectos técnicos, mas, mesmo assim, atentem para o fato de que o vídeo com Cláudia foi gravado por várias câmeras e editado ao vivo (isto é, as mudanças de câmera foram feitas durante uma única execução do número). Reveja a cena de Liza e repare os diferentes posicionamentos de câmera, seus vários movimentos e o resultado final. Agora imagine que a coreografia foi repetida várias vezes para diferentes posicionamentos de câmera e que, ao final, tudo – as tomadas, a música, os outros sons (os saltos, as cadeiras, as mãos, os estalos) – foi encaixado para dar a impressão de uma única tomada editada ao vivo. Bob Fosse era ou não O CARA para coreografar e mostrar no cinema um número musical com tanta perfeição?

Não preciso perdoá-lo por Sweet Charity, Fosse. Sou eu que peço perdão. Tem que ser muito competente para se adaptar tão bem e evoluir tanto em tão pouco tempo.

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Lenny

Dentre minhas manias (ou incapacidades), está a de me deixar levar sem freios pela busca de conhecimento e me aprofundar em um tema mesmo que ele não esteja ou não pareça estar entre meus principais interesses. Funciona mais ou menos como quando começamos a navegar na Internet buscando algo que queríamos e, de repente, percebemos que passamos por dezenas de páginas e nem sabemos como chegamos àquele lugar. Isso acontece comigo de uma forma mais demorada, desde sempre, com livros e filmes. Leio um livro de determinado autor, gosto, quero ler todos dele. “Azar” o meu se ele escreveu dezenas. Vejo um filme e ele me leva a outro, e outros, e à vontade de ver tudo de um diretor ou de um ator. E nada disso garante que, ao final, eu vá me tornar um admirador daquele tema, pessoa ou forma de expressão. É algo meio doentio, eu sei.

Recentemente aconteceu isso com relação a Bob Fosse. Tive que guardar minha má vontade e meu conceito prévio de que o cinema americano destrói tudo de bom de qualquer outro cinema quando resolve fazer sua versão (e é isso mesmo!) para assistir Sweet Charity (1969), baseado em As Noites de Cabíria (1957), de Fellini. Passada a náusea, civilizadamente admiti que, em se tratando de coreografar e levar musicais para o cinema, Bob Fosse era realmente muito bom. Daí bateu a vontade de rever Cabaret (1972) e All That Jazz (1979) – ambos consagrados com dezenas de prêmios, incluindo 12 Oscars – e tudo mais que ele tivesse dirigido. Descobri que foram apenas cinco filmes e que, na verdade, eu só não havia assistido Sweet Charity. Os outros dois – Lenny (1974) e Star 80 (1983) -, também havia visto nos anos 80, mas quase não guardei lembranças. De Lenny, tudo que lembrava era de que tinha sido feito por Dustin Hoffman e que eu havia assistido por isso. Revi e tive um, digamos, déjà vu às avessas.

Tenho percebido que, nos últimos anos, os brasileiros têm se encantado por grandes novidades que nada têm de novas, originais, revolucionárias ou geniais. Daí o endeusamento às “invenções” de Steve Jobs (grande aprimorador e comercializador, nunca um Thomas Edison) e o abestalhamento pelo stand up comedy. Que fique claro: não estou questionando o valor das coisas, mas nossa ignorância e disposição em comprar como novo algo que existe há décadas. Quando a onda do stand up surgiu por aqui, pensei: “Mas José Vasconcelos não fazia isso nos anos 1950?! Por que essa garotada está dando um nome em inglês e dizendo que isso é onda da matriz americana?” José Vasconcelos já fazia isso quando o “grande ídolo” Seinfeld estava nascendo. Ah! É que essa garotada cresceu vendo televisão e sendo educada por séries americanas. Aprendeu que se é bom é porque veio dos Estados Unidos. Talvez por isso, quando Zé Vasconcelos morreu, os jovens jornalistas tenham repetido tanto a bobagem de que “ele ficou famoso na Escolinha do Professor Raimundo”. Em resumo: as coisas parecem novas porque a garotada desconhece completamente a história, mesmo que recente, do próprio país onde vive, só tem memória para o que viu na tevê e só acha bonito se tiver vindo da gringa. Mais culturalmente rendidos, impossível.

Revi Lenny. Trata-se da história de Lenny Bruce, que começou carreira fazendo apresentações do tipo stand up no final dos anos 1940, quando provavelmente nem os pais dessa garotada que se acha genial, engraçada e revolucionária haviam nascido.

Se você não viu e/ou pretende assistir Lenny, saiba que vou fazer um ou outro comentário que pode revelar algo da trama (o tal do spoiler, para você, que foi criado em portuglês). É um drama, filmado em preto e branco (muito sensível e corajoso da parte de Fosse, que abandona seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial), com uma narrativa intercalada em três tempos que se completam e apresentam diferentes olhares sobre a história (nem endeusando nem criticando o personagem, mas mostrando toda a sua humanidade) e com Dustin Hoffman, ainda na casa dos 30, já muito maduro e talentoso (o baixinho da propaganda do Fiat Cinquecento, crianças).

Mas é sobre o tal déjà vu ao contrário que quero falar. Judeu, com barba, fazendo stand up, acusado de ser grosseiro (e sendo mesmo!), tornando-se vítima de suas próprias grosserias… Já viram isso antes, digo, depois (recentemente e aqui perto) de Lenny Bruce?

Antes de continuar, devo dizer que achei uma bobagem enorme toda aquela discussão em torno da “piada de mau gosto” do Rafael Bastos. Mesmo porque não vi qualquer piada. Só um cara grosseiro com uma evidente necessidade de autoafirmação finalmente chegar ao ponto de estampar publicamente sua imbecilidade, limitação, falta de talento e de bom senso para muita gente que ainda não tinha percebido isso. Acho a celeuma idiota porque não sou obrigado a assistir, rir junto, concordar com o “humor” adolescente. Ninguém me tira o poder de escolha. Não gosto, não vejo, não me aborreço. Simples assim.

Mas entendo que, de alguma forma, a discussão possa gerar algo salutar. Rever Lenny agora e ver tantas semelhanças (há diferenças gigantescas também: era outra época, outra sociedade, outros motivos) me fez pensar que a discussão seja mesmo necessária. O que me deixou triste foi perceber que se ela ainda é necessária é porque somos extremamente imaturos para lidar com certos temas, certas atitudes. Discussão sobre liberdade de expressão, censura, sobre o que seja ou não politicamente correto… Se chegamos a um ponto em que agressão gratuita e qualquer bobagem vomitada possam ser confundidos com humor e liberdade de expressão, acho melhor voltarmos para as cavernas porque é lá o nosso lugar. Vamos meter a clava na cabeça dos outros e nas de todos que não rirem disso. Apareceu na tevê é “gênio”, “fantástico”, “sensacional”. Se já disseram o que temos que acreditar e achar, por que fazer o esforço de pensar?

Tenho esperança de que as semelhanças continuem a se repetir e, mesmo com um retardo de mais de meio século, em algum instante percebamos que quase ninguém mais aplaude qualquer idiotice só porque é moda. E que, assim como Lenny, em um lampejo de lucidez, o bobo da vez (qualquer um) admita: “Não sou comediante” e se retire. Mais digno para quem o fizer. Mais fácil para nós, que não teremos que fazer a triste escolha entre o que é menos pior: viver em uma sociedade hipócrita ou em uma sem valores e sem qualquer senso crítico.

A nossa sociedade – a brasileira média –, como vemos hoje, me parece mais com uma de babuínos: um chefe grita, todos os outros gritam também e se mostram prontos a estraçalhar qualquer um que não faça parte do bando. Particularmente, prefiro viver em uma em que, com todas as suas diferenças e gostos variados, as pessoas se respeitem, ajam de forma civilizada e pensem por si mesmas.

Lenny me fez pensar que aquela sociedade hipócrita e moralista dos anos 1950 nos Estados Unidos era bem mais evoluída que a nossa nos dias atuais. Se é para importar algo deles, por que em vez do lixo, não importamos o que eles aprenderam antes de nós? Aprender com a observação dos erros alheios, no mínimo, evita que venhamos a repeti-los.

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Conversa rápida…

Estou traindo o blog com outros escritos. Pronto, confessei. Mas não estou traindo os cinco ou seis leitores que ainda vêm aqui. Ninguém está lendo o que ando escrevendo. É tudo coisa para 2012. Não sei para quando é o parto, mas a barriga está enorme e quase já sinto as contrações. Parece que serão trigêmeos. Talvez, quadrigêmeos. Enquanto isso, vamos jogar conversa fora…

Carlos Estevão no Jornal da ABI

Para diminuir o peso em minha consciência, aí está algo que andei escrevendo. São seis páginas sobre Carlos Estevão na edição de novembro do Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Considerem como um aperitivo para a biografia que, prometo (com riscos) terminar em 2012. É só clicar aqui ou na imagem acima e ter acesso às páginas.

Na Revista de História de novembro tem mais Carlos Estevão. Ainda não vi (maldita distribuição setorizada!), mas o texto está no site da revista.

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 Balada Triste de Trompeta

Estou em uma fase espanhola. Não, não é bem isso que você pensou. Verdade que gosto de uns pechos tamanho G ou GG, preferencialmente naturais de fábrica, mas estou falando de cinema. Nos últimos meses, além de ver/rever oito filmes de Almodóvar; de corrigir uma gravíssima falha de dez anos, vendo Lúcia y el Sexo (2001); de ficar paralisado/apaixonado com a atuação de Laia Marull em Te doy mis ojos (2003); neste sábado foi a vez de ficar bestificado com Balada Triste de Trompeta (aqui, Balada do Amor e do Ódio, 2010).

É tão bom em tudo, que sugiro até aos que foram criados com o pensamento engessado do cinema americano. É tão bom, que eu nem vou dizer que é preciso prestar atenção na analogia com a história política da Espanha, que também serve como pano de fundo à história de amor e ódio dos palhaços Triste e Tonto. Pode ver só como entretenimento, mas lembre-se de respirar. É moderno, violento e, muitas vezes, grotesco. Ao final, dá vontade de comentar: “Viu como se faz, Tarantino?” Fiz questão de NÃO colocar um trailer aqui. Acho até que o pôster ao lado já fala muito. Não procure saber mais nada. Apenas assista. Tão virgem quanto possível.

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 Sweet Charity

E por falar em palhaços, vou acabar vendo o filme do boçal do Selton Melloso. Este ano, já me rendi a Nine (após um ano e meio de relutância) e Sweet Charity (após 42 anos, portanto mais que minha vida toda, de resistência). Rápida explicação. Nine é uma (vá lá!) homenagem a Fellini. Sweet Charity é a versão americana de Noites de Cabíria. Ou a aversão, como prefiro. Daí vem um mané, que tem como maior talento imitar a si mesmo, faz um filme sobre palhaços e diz que é homenagem a quem? A quem? Ao deus Fellini. Pois é. Eu, devoto escaldado, me armo logo para uma guerra santa.

Um dia, bem zen (zen raiva, zen bile pulando boc’afora), escreverei detalhadamente minhas impressões a respeito de Nine e Sweet Charity. Deste último, digo que quase tudo que vale a pena ver é essa parte no vídeo acima. Pode ver sem medo. É só dança e não compromete em nada a história. Tem ainda uma parte com Sammy Davis Jr. e outra, quase ao final, com Shirley Maclaine que também são legais. Admito: os americanos são muito bons com musicais e são ótimos em dançar. E Bob Fosse era o cara para pegar isso e levar para o cinema. Estão vendo como, às vezes, sei ser bonzinho com a debilidade mental americana?

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Séries, séries, séries…

Vou ser ainda mais bonzinho: os americanos são bons em fazer séries. Não contentes em aniquilar a cultura de metade do planeta pelo cinema, resolveram atacar dentro das casas de todo mundo, que é para não sobrar uma criatura que não repita suas gírias, suas siglas, seus gestos, suas manias. É, brother, você é americano e não sabe. Mas você acha isso awesome, né? WTF, Sandro! Relax, man. Ria um pouco. Ou muito… LOL. Ok. Hi Five. Nóis é BFF.

Tá, eu me rendo às séries. Continuo vendo Nikita (porque curto japa, principalmente se for japa gostosa… e ela nem é japa!), Supernatural (podem sacanear) e House (que começo a não botar muita fé que vá mesmo passar da atual temporada). Também estou vendo Person of Interest, apesar de não conseguir acreditar que Ben Linus possa ser um cara legal, que Jesus virou matador e que os dois estão de treta para salvar a vida de um monte de gente que eles nem conhecem. Para desligar o cérebro totalmente, tenho visto Suburgatory e 2 Broke Girls. A identificação com Tessa (Jane Levy) e Max (Kat Dennings, que acho linda) é enorme: uma total falta de comiseração com os retardamentos alheios e de fé que isso possa mudar. Minha cara, não?

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Giulietta e Federico – 68 anos de um amor de cinema

Amor perfeito é aquele que não se realiza. Um amor como o de Romeo e Giulietta, que fica no mundo das ideias, das ilusões, sem ser colocado à prova pela dura realidade, pelo tempo, pelos defeitos crescentes de um e de outro. Este é um pensamento que consola os desiludidos do amor.

Giulietta – não a Capuleto, mas a Masina – pois isso à prova. Na flor da idade, aos 22 anos, em 30 de outubro de 1943, desposou seu Romeo: o jovem Federico, de Rimini. Seria um amor para a vida toda, um amor de cinema.

O Romeo desta Giulietta engordou, dava ordens, queria ver as coisas do jeito que sonhava e era cercado por mulheres lindas, desejadas por homens do mundo todo: Sylvia, Fanny, Gradisca… Mulheres de carnes fartas, sensuais, muito diferentes da pequena Giulietta de pouco mais de metro e meio e cara de alcachofra.

Em 1950, no primeiro mezzo de Federico, ela aparecia como a preterida Melina, apaixonada por um homem que se deixava levar por mulheres e luzes. Melina tinha Amor no nome e a certeza de que ela era o porto seguro, de que ele sempre retornaria. Em 1954, Giuletta era Gelsomina, sempre encantada com qualquer possibilidade, com alguma atenção, algum carinho. A estrada era árdua, mas, àquela altura, o mundo inteiro conheceu e reconheceu que aquela parceria era de cama, mesa e tela. Se alguém ainda duvidava, três anos depois, Cabíria espantou qualquer desconfiança.

Giulietta dos espíritos trouxe cor ao mundo dos sonhos de Federico. A partir dali, ele viveria histórias extraordinárias em um mundo de sátiros. Passaria pelas tentações de Roma, cidade das mulheres, faria de tudo e lembraria cada detalhe. A vida seguiria até que Giulietta deixasse de ser apenas (!) a inspiração escondida. Ressurgiria como Amelia, dançando e sendo conduzida por Pippo-Marcello, alter ego de seu Federico-Romeo.

Em 1993, o casal começou a planejar outra viagem. Giulietta tinha dificuldade para respirar. O coração de Federico não queria mais bater. Sua mente se ausentou, mas seu corpo permaneceu aqui até o casamento completar 50 anos. No dia seguinte, Federico partiu. Giulietta ficou por mais um tempo, mas já não havia muito que fazer aqui. Em menos de cinco meses, tomaria a barca – aquela bem na entrada do Cemitério de Rimini – e se juntaria mais uma vez a seu amor. Hoje, 30 de outubro de 2011, estão completando 68 anos de casados.

Como diria Fellini (ah! era este o sobrenome de Federico): “Não há fim. Não há começo. Existe apenas a infinita paixão da vida.E la nave va…

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A última noite de Cabíria

Já não estranho quando me vejo em personagens femininos. Mas ainda me surpreendo quando um que conheço há tanto tempo aparece de forma diferente, sugerindo outras leituras, me apontando um espelho.

Foi assim com Cabíria há algumas noites. O que aquela criatura tão pequena, perdida, sonhadora, acostumada a disfarçar sua delicadeza e sua fragilidade com um jeito grosseiro, disparando impropérios a quem tente se aproximar poderia ter a ver comigo? Tudo.

Uma prostituta acostumada às rudezas da vida, encastelada em um pequeno cômodo, mostrando-se autossuficiente, mas sonhando com outra vida, juntando recursos que nunca são aplicados. Com tantas características em comum, como nunca havia me dado conta de tal semelhança?

Talvez porque precisasse deixar os detalhes de lado e perceber o todo, a trajetória. A cada abertura, para cada momento de disposição em acreditar, uma decepção. A razão ensinando que o caminho não era esse; o coração – burro, cheio de medos – insistindo em tentar mais uma vez. Cabíria sou eu e cada um de nós, ao tentarmos equilibrar razão e emoção, realidade e sonho.

Também foi preciso fechar um ciclo para enxergar Cabíria em mim. Chegar ao ponto em que ela chegou. Sem absolutamente nada, despojada do pouco que havia juntado (e que era seu mundo, sua âncora), ela finalmente se sente livre para tomar outro caminho. As noites de Cabíria – na rua e as da alma – terminam quando ela se vê como no momento do nascimento: sem nada. No rosto, não correm lágrimas. Há apenas uma, fixa, como uma tatuagem para representar e lembrar eternamente todas as dores. Há também um sorriso. Não aqueles fugazes das ilusões, mas um que vai se desenhando aos poucos, nascendo da rispidez do rosto sempre contraído. É um parto. Uma nova vida que aparece depois de muito tempo, de muitas dores, de fortes contrações.

Após o medo inicial, ela implora ao responsável pela última ilusão: “Mate-me! Mate-me! Não quero mais viver!” Não quer mais viver daquele jeito. É necessário morrer para nascer de novo. “Ammazzami! Ammazzami! Non voglio più vivere!

A noite e o frio da alma morrem. Quase arrisco dizer que Cabíria morreu na última (e boa noite) de inverno, e renasceu Maria no primeiro dia da primavera. É assim comigo. Renasço a cada setembro.

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Necrológio de agosto

Meus amores morrem em agosto. Mês de fortes ventos de contrariedade. Sopram, destroem, levam embora. E se algo restou de um agosto passado, o atual se encarrega de enterrar de novo, novamente e quantas vezes for preciso.

Já existe caso para pensar em comemorar aniversário de morte. Conferir a sepultura, jogar mais cal e terra, reforçar o cimento, rezar pela finada para que fique onde estiver, desde que bem longe. Alma penada, vade retro!

Misturam-se canções de outros agostos, poemas de desgostos…   Um grande amor não acaba assim. Acaba, sim!… O nosso amor a gente inventa… e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu… Não vou mais ficar aqui sem compreender… sei que tudo há de vir no seu devido tempo… Aceito as coisas como devem ser… matando o amor em mim… Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor…. Porque todo coração é burro e o meu é mais.

Na máscara mortuária, de pedra como são todas, não há emoção. Nem mesmo um sorriso para comemorar a efeméride do desamor. Só distância e uma tranquilidade assustadora, dessas de cemitério pós Dia de Finados, quando todos já amenizaram suas culpas com flores. Desamar se aprende desamando. Em face dos últimos, penúltimos e antepenúltimos acontecimentos desses agostos, só resta perguntar e implorar: Quem inventou o amor? Desinventa, por favor!


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Mais forte que ela

Amy por OrlandeliNaquele julho de 1990, chorei durante horas. Deitado na cama, som nas alturas, cantava e chorava. Eu tinha 18 anos e a morte de Cazuza representava a morte da geração dos meus ídolos e de parte dos meus sonhos. Representava também o medo de uma doença avassaladora, sobre a qual pouco se sabia. Seis anos depois, aos 24, a cena foi um pouco diferente. Eu já era pai, havia me separado e criava uma criança. Sem falar que, antes disso, havia perdido minha primeira esposa, grávida, aos 19 anos. Portanto, já não achava a mínima graça na morte. Meu foco já havia saído da minha vida – e de qualquer vazio que pudesse existir nela – para começar a se concentrar em sua continuidade, aquilo que ainda estaria aqui quando eu morresse: meus filhos, as ideias e o mundo que eu deixaria a eles. Em outubro de 1996, não chorei por Renato Russo. Eu me perguntei o que ele estava querendo dizer ao enterrar a geração dos meus ídolos. Por que eu idolatrava gente que se destruía?

Dia 23 de julho de 2011. Amy morreu. Não chorei. Minha parcela de dor reservada à morte ainda estava sendo usada pelos 92 inocentes assassinados, horas entes, por um maluco na Noruega e não achei justo redirecioná-la a alguém que vinha tentando se matar há mais de cinco anos. Amy podia esperar. Ou ter escolhido um dia melhor para morrer.

Insensível!” Se você pensou isso após ler as últimas frases, este texto é principalmente para você, tão sensível à morte de uma celebridade autodestrutiva e, provavelmente, tão indiferente a todas as mortes e mazelas que acontecem a todo instante.

Amy escolheu morrer. Demorou a conseguir isso, mas conseguiu. Parabéns. Antes de continuarmos, fique bem claro: sou fã de primeiríssima hora dela. Da voz dela. Desde quando ela era uma garotinha linda e cheia de curvas, antes mesmo de aparecer já esquisitona na capa de seu segundo disco. Sim, Amy “trouxe de volta a alma à música” e blá-blá-blá. Fez isso seis anos atrás e morreu logo em seguida. O que se viu nos últimos cinco anos foi um cadáver insepulto tentando lembrar as letras de suas próprias músicas e se manter em pé em um palco. Se você curtia essa aberração, se gostava do show de horrores que era a vida dela, entendo perfeitamente o motivo de ter chorado sua morte. Eu chorei quando a linda, talentosa e promissora menina Amy morreu cinco anos atrás, aos 22 anos.

Amy deixou uma obra maravilhosa? Não. Ela começou a desenhar uma e desceu colina abaixo. Ela deixou um disco muito legal. Ela explodiu e pronto. Acabou. Uma obra maravilhosa, vai ser deixada por Nana Caymmi. E duvido que o mundo vá se descabelar quando ela morrer. Amy era uma grande artista? Não. Ela poderia ter sido. Um grande artista se cuida, cuida de sua saúde, de seu corpo (que é ferramenta de trabalho), quer sempre estar bem para seu público, para melhorar sua arte, para produzir sempre mais e melhor.  E qual o motivo de tanta comoção pela morte de Amy? É porque as pessoas gostariam de ser iguais a ela. Desejam ter talento, sucesso, dinheiro, reconhecimento e até a impossível juventude eterna. No entanto, não vejo uma só pessoa pagando o preço disso tudo. Vejo pessoas com vidas comuns e atitudes comuns, contentes com suas pequenas conquistas – um emprego (preferencialmente que dê pouco trabalho e pague bem), alguns cartões de crédito, roupas, um carro, uma aposentadoria –, sentadas na frente da TV ou do computador, vigiando e vivendo a vida de outras pessoas. Elegem um ídolo e esperam seu martírio, seu sacrifício. Ele morre e todos continuam suas vidas comuns. Elegem outro e repete-se o processo. Por ora, seus pecados estão perdoados. Amy morreu por vocês. E há quem se sinta no céu graças ao sacrifício dela.

O ídolo Amy tinha pés e alma de barro. Frágeis, não demoraram a quebrar. Morta, milhares de pessoas em todo o mundo declararam amor por ela. Enquanto viva, não houve um só que realmente a amasse a ponto de ficar ao seu lado, tratá-la como ser humano, dar carinho, atenção e tirá-la do buraco em que se meteu.

Conheci várias pessoas que morreram por overdose ou outra consequência do uso exagerado de drogas. Nenhuma que tenha feito ou deixado algo genial. Cada uma delas era, como qualquer viciado, alguém frágil demais para enfrentar o mundo “de cara”, de peito aberto. Preferia se mudar para um universo paralelo no qual podia acreditar ser um gênio, um super-homem, alguém especial. O único legado que deixaram foi o da hipocrisia. Quem fica – e age do mesmo jeito – diz que o outro “morreu do coração”, “de uma doença misteriosa”, “não se sabe de quê”. Onde fica a “atitude rock’n’roll nessa hora? Ponha na lápide: Orgulhosamente morto por overdose. Consegui! Yeaaaah! Mas se a vida foi uma mentira, por que não perpetuá-la na morte?

O discurso de rebeldia, de contracultura, de viver a mil, parece muito bonito, muito sedutor. Principalmente quando não é você quem precisa morrer para dar autenticidade a ele. Assim, é mole ser doidão!

Amy era igual a Janis? A Hendrix? A Morrison? Em quê? Na estupidez da juventude? No vazio existencial? No desequilíbrio emocional? E nós? Ainda somos tão iguais aos de 30, 40 anos atrás e não aprendemos nada? Muito doidão dos anos 60 percebeu a idiotice de se matar e, a cada uma dessas mortes, já avisava a todos que pegassem leve. Vivam, façam o que quiserem, sejam livres, mas não se matem. E estão aí, aos 70, 80 anos. Pergunte a qualquer um deles se preferiria ter morrido aos vinte.

Dez anos a mil? Mil anos a dez? Parece mais sábio viver cem anos a cem. Sem acelerar muito, sem criar limo, dando tempo e trato às nossas potencialidades. Quem ama a vida é correspondido. É amado por ela. Um ano, uma década ou meio século a mais é sempre bem-vindo.

Meus heróis não morreram de overdose. Meus heróis vivem tanto quanto possível e da melhor maneira, sem confundir intensidade com autodestruição.

Por mim, Amy, você não precisaria ter ido. Poderia ter ficado muito mais tempo cantando, encantando ou simplesmente vivendo e sendo feliz.

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Ilustração mui gentilmente cedida por Orlandeli

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Carta ao meu pequeno Hemingway

Meu pequeno Hemingway,

É com as bênçãos do menino de Itabira que inicio esta carta de presente e principalmente de futuro, pois você viverá uma riqueza de anos e, talvez, ela guarde alguns bons conselhos a serem usados no tempo certo.

Você foi o terceiro, mas também foi o primeiro. Ganhou um pai mais velho e mais experiente. Lembre de agradecer às suas irmãs por terem sido boas cobaias. Você pegou um paí – como chama a todo instante – mais paciente, compreensivo e sem exigências além de boa educação e bom caráter. Já não tenho aqueles pensamentos bobos de “meu filho vai ser assim”, “meu filho vai ser isso”. Poderia ser uma carga enorme para você, único homem e última esperança. Mas não será. Prometo e firmo compromisso público. Tendo bom coração e sendo honesto, tudo que você fizer será bem feito. E terá meu apoio.

Com seu nome, você pode ser o que quiser: rei, papa, escritor e até poeta (basta usar o Castro Alves do final). Se escolher este último, por favor, exerça-o com rigor e não como os que vemos hoje por aí, a rimar, feijão com macarrão, sem métrica ou dor, fingindo talento. Inspire-se nos grandes, ouça seu coração e siga em frente.

Esta semana, você, sempre cheio de energia e disposto a pular sobre todas as coisas, dispensou um raro dia de sol deste julho ao ser convidado a ir ao parque.  “Vamos, mas vou levar um livro, uma revista e um caderno de anotações”, respondeu, sem tirar os olhos da mesa repleta de papéis. Com o pai e a mãe que o destino lhe arranjou, isso não chega a ser uma surpresa. Sua sorte é que você vai poder ler e escrever à vontade sem que ninguém ao seu redor ache estranho. Acredite: eu era visto como “uma criança estranha” por conta disso. Você não imagina o que é ouvir algo como: “Quer ser escritor? Que bonitinho! E profissionalmente?” Este é um mundo estranho, cheio de pessoas estranhas. E este no qual você desembarcou é ainda mais que aquele que conheci em meus primeiros anos. Se a coisa continuar involuindo desse jeito, você vai viver entre símios que eventualmente usam roupas. Não se preocupe. Construiremos uma fortaleza com nossos livros. Lutaremos até o fim pelo direito de ser um humano que pensa.

Vá anotando tudo em seus caderninhos. Todas as ideias. Elas fogem fácil. São ainda mais volúveis que as pessoas que escrevem. Se não cuidamos delas, logo se entregam a outro. O segredo para lidar com elas é o mesmo para lidar com pessoas: seja dedicado, atencioso, demonstre seu carinho, vez por outra faça vista grossa às imperfeições delas, não espere nada em troca e não desista se lhe trouxerem algumas decepções. Se você acredita nelas, fique firme. Em algum momento, o relacionamento renderá belos frutos.

Sabe o que você estava anotando neste momento da foto? Que eu estava chato porque não queria largar sua mão enquanto andávamos na rua. O sentido desse registro mudará com o tempo. A chatice de hoje será vista como cuidado, proteção, e você fará o mesmo com seu filho. E vai achar graça, às escondidas, quando ele disser que você está chato.

Anote também as respostas às perguntas que me faz. Hoje, funciona assim: você pergunta, eu respondo, você se admira. “Como é que você sabe?!”. Eu: “Pai serve para isso.” Você: “Para saber tudo?” Sorrio, dou uma piscada de olho e o deixo acreditar que sim. Desta forma, você vai ficando certo de que sou um porto seguro e de que existe algum lugar onde é possível encontrar todas as respostas. Um dia, vai descobrir que eu sabia muito pouco e que o tal lugar é dentro de você mesmo.

E sobre acreditar, saiba que tudo existe. “Mas isso existe?”, você pergunta. Tudo que quisermos que exista, existe. As pessoas vão tentar fazer com que você acredite no contrário. Não caia nessa. Os sem imaginação só conseguem acreditar que não se deve acreditar.  E por isso o mundo anda do jeito que está. Mas, acredite, tudo pode ser melhor. Muito melhor. Quem escreve cria mundos. Como você quer que seja o seu?

Preciso terminar. Seu eu presente está passando um carrinho em minhas costas e me chamando para brincar. Você ainda é uma criança e sabe exercer muito bem os benefícios da infância.  Quanto ao futuro – sobre o qual você pergunta a toda hora –, não se preocupe. Deixe isso comigo. Viva sempre o presente. Ocupe-se dele e qualquer futuro que você imaginar, realmente existirá.

Beijo. Eu te amo. Boa noite. Bons sonhos.

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