Natal – Uma cidade à prova de tsunami

De cidade do “já teve”, Natal passou à cidade do “nem teve”. Na ânsia de se tornar uma potência mundial e chamar atenção de todo o planeta, valeu-se de um ”alerta de tsunami”. Alerta que deve ter sido passado por mensagem direta apenas aos seguidores do Corpo de Bombeiros no Twitter. Moro bem ao lado e garanto que não teve sirene, megafone ou qualquer movimentação fora do normal. Doze horas depois do tremor – nas profundas das profundas do Atlântico, lá onde Aquaman perdeu as boias –, a população finalmente ficou sabendo pela tevê. Se tivesse sido sério, muita gente não estaria viva para ver a notícia. A sorte é que Natal não corre esse risco.

Na Praia dos Artistas, a mais urbana e próxima ao centro, há uma criatura mítica que domina os mares e impede seu avanço sobre a cidade. Não sei de onde surgiu, mas gosto de imaginar que seja um titã enviado por um benevolente Poseidon, que se encantou com a Cidade do Sol ao passar férias nela. Na maré cheia, as águas chegam a seus pés… cauda… à parte inferior do seu corpo. Dali, em sinal de absoluto respeito, não passam.

Basta para mim. Sinto-me protegido por ela. Mas os céticos não contam com providências divinas e resolveram dar seu próprio jeito para impedir uma calamidade vinda do mar. Os ricos – principalmente os novos – construíram enormes prédios à beira-mar. No início, impliquei com aquilo. A cidade ficou mais feia, abafada, perdeu seus contornos naturais. Os prédios funcionam com aquelas exageradas próteses de silicone: em vez de embelezar, deformam e assustam.  Agora, vejo que foi um autossacrifício da classe abastada, preocupada em proteger a província, se preciso, com a própria vida. Que tsunami teria forças para passar daqueles paredões? Quando muito, os faria desabar, mas duvido que conseguisse transpor todo o entulho que se juntaria. Os bairros de Petrópolis e Mãe Luiza estão salvos. Quase toda a cidade está. Se puderem, peço que construam mais prédios, bem ali ao redor da Fortaleza dos Reis Magos. Não à beira, mas dentro do mar, que é para salvar a fortificação histórica e o bairro de Santos Reis.

Alguns lembrarão que não só o titã e os ricos protegem Natal. Na Praia do Meio, Iemanjá também está atenta a tudo que se passa. Não exatamente no mar, porque ela está de costas para ele, mas ao que levam para lá. Um devoto me disse que a divindade não está contente com o que vê, mas, se depender dela, também não rola tsunami. Seria tanto mato e tanto lixo a serem carregados para o oceano que ela nem gosta de pensar. Esse tipo de oferenda, Iemanjá está dispensando.

Nada devemos temer. Estamos protegidos. Amém.

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Se existe alguma esperança…

Eu já perdi um filho. Um filho que nem conheci. Ele morreu antes mesmo de nascer, junto com a mãe, que tinha apenas 19 anos.

Eu tenho três filhos e sou um incompetente como pai. Se faço algum lamento e se existe alguma ponta de uma maldita autocomiseração, é quando penso que gostaria de ter nascido milionário para ser dono de casa e viver para eles. Brincar, ensinar, não ter qualquer outra preocupação, ocupação, necessidade ou outro sonho pessoal. Trocaria qualquer coisa, qualquer vida, para, sendo homem, ser uma perfeita mãe de família dos anos 1950. E viveria com aquele sorriso de dona de casa de filme americano antigo.

Toda vez que tenho notícia da dor de uma criança, eu sinto a dor. Toda vez que tenho notícia da morte de uma criança, morro também. Não morro um pouco. Eu morro DE NOVO.

Hoje, a primeira coisa que vi ao conectar foi: Casal de Minas Gerais luta há um ano na Justiça por remédio para doença rara das filhas. Isso é coisa de país subdesenvolvido, de gente subdesenvolvida e, obviamente, governado por gente subdesenvolvida. Eu havia tirado o domingo para exercitar minha mediocridade de remediado, aproveitar o clima chuvoso e ver filmes com Ananda, minha filha de 11 anos. Preferi “não pensar nessas coisas”. No fim da tarde, conecto de novo e fico sabendo que um anjinho, Taíssa, sobrinha do meu querido Silvio Lach, nos deixou. Ela morreu com dengue hemorrágica. Uma epidemia que existe por ser transmitida pela picada de um mosquito é coisa de quinto mundo, de país sem qualquer preocupação com saúde. Não interessa se você ou alguém da sua família já teve dengue ou outra doença epidêmica. É um problema de todo mundo. Esperar ação de governante é atitude de gente idiota. Eleger e cobrar, independente de quem foi eleito, é a única atitude que provoca alguma mudança. Se não fazemos nada, se não nos movimentamos, se não cobramos, se torcemos contra e boicotamos (quando nosso candidato não foi eleito), nós SOMOS PESSOAS DE QUINTO MUNDO, por isso temos doenças de quinto mundo e merecemos o descaso de quem nos governa.

PERGUNTO: Você faz alguma coisa ou fica só reclamando da incompetência de quem nos representa?

PERGUNTO: Você vai ficar esperando isso acontecer COM O SEU FILHO para finalmente sentir a dor e tentar fazer alguma coisa?

Silvio resumiu de forma verdadeiramente brilhante ao tuitar: A dengue dá em águas paradas, prefeituras paradas, políticos parados, governos parados e, principalmente, pessoas paradas.

TODOS NÓS somos responsáveis pela mudança. Se tem alguém aí perto que você possa ajudar, ajude. FAÇA A SUA PARTE não é uma frase de propaganda; É UMA LEI DE SOBREVIVÊNCIA DA ESPÉCIE.

Em tempo: Meu bebê mais novo, Dom Pietro Fortunato Barbosa de Castro Alves sem Orleans e Bragança, completa seis anos nesta segunda. Pietro e Ananda são regentes do meu coração e os responsáveis mais diretos por eu não ser o mais radical dos niilistas. Não tenho grandes esperanças na humanidade e minha descrença só não é absoluta porque os dois existem. Se eu for um pouco menos incompetente, talvez consiga ajudá-los a serem pessoas melhores que eu. Se existe alguma esperança, ela mora nas crianças. Nas minhas, nas dos meus amigos, nas que não conheço.

Descanse em paz, Taissa. Perdão por não termos conseguido fazer deste mundo um lugar legal para se viver. Ainda estamos só tentando acordar.

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Mais notas na sala de espera

► Para “atendimento por ordem de chegada”, minha tática é a seguinte: chego uma hora antes e quase sempre sou o primeiro. Hoje, me atrasei e acabei chegando 20 minutos depois do início do atendimento. Não contava que todas as pessoas pensam do mesmo jeito, sendo que, como “gente (mentalmente) diferenciada”, só fazem isso em cima da hora. Resultado: eu seria o 30º paciente a ser atendido. Não, não estou falando do SUS. Estou falando de uma clínica particular. A atendente foi boazinha em avisar que a previsão de atendimento seria para dali a duas horas e meia. Tranquilo. Saí, fui pegar uma revista ali perto, dei uma bela caminhada de quase dois quilômetros até o laboratório, que estava fechado… Parece incrível, mas ainda há coisas que “fecham para almoço” em Natal. Torço para que um dia a cidade chegue ao final do século XX. Ok. Sem problemas. Caminhei de volta. Não estava sol. Não estava calor. Tranquilo, tranquilo…

► Como de costume, aboletei-me no canto mais escondido da sala de espera. Se eu era o 30º paciente de um dos dois médicos e continuava chegando gente, imagine que o local era razoavelmente grande. A espera seria longa e eu sabia que as dores lombares logo apareceriam. Tranquilo – sempre muito, mais e demasiadamente –, montei acampamento. Percebi que espalho coisas ao redor para evitar que sentem próximo a mim. Juro que, até hoje, fazia isso inconscientemente. Mochila de um lado, papéis de outro e está pronta minha pequena barricada anti-humanos.

► O quadro é o de sempre: dantesco, com pessoas se desmontando nas cadeiras, hipnotizadas pela TV, filhotes selvagens correndo e gritando, adultos selvagens gritando e correndo atrás deles. Só os cheiros diferenciam uma sala de espera de uma feira. A balbúrdia é a mesma. Não adianta se há sistema de senhas e um telão de LCD mostrando seu número, as atendentes gritam o nome de alguém a todo instante. Tenho vontade de dizer que se quisesse meu nome sendo bradado no meio de uma multidão, eu teria sido miss. “E com vocês, na passarela, Sandro Fortunato…

► Duas regras básicas definem meu comportamento: não perder tempo e não fazer qualquer coisa que me estresse. Espera é algo que estressa e faz perder tempo. Basta olhar para as pessoas que são obrigadas a fazer isso. Levantam, perguntam quanto tempo falta, reclamam, começam a fazer ligações no celular, reclamam com a pessoa para quem ligaram, desligam e começam tudo de novo com a voz em volume mais alto. Comigo, não. Isso é o bom da “esquizofrenia exercitada”. Você tem um mundo só seu e se fecha ali, onde só acontece o que você deseja. Tenho sempre um livro e minha caderneta de anotações, que podem me entreter por horas. Old school total. Para a atual peregrinação, imaginei que fosse ler um livro por semana somente em salas de espera.  Quando a coisa começou, achei que pudesse chegar a dois por semana. Acha que é exagero? E se eu disser que li um quase inteiro SÓ HOJE. E não terminei porque parava para fazer anotações (sobre ele e as que me auxiliariam neste texto) e porque escrevi uma crônica inteira. Foram TRÊS HORAS E MEIA DE ESPERA. Nunca fui bom com números. Corrijam-me se necessário. Três horas e meia são 210 minutos, que, divididos por 30 pacientes (eu já incluso para arredondar e facilitar a conta), dá 7 minutos de consulta para cada um, certo? Errado. Eu fiquei metade disso. Esperei três horas e meia para passar três minutos e meio na frente do médico. Vá lá que eu não estava morrendo, era só para saber se estava tudo bem e marcar um pequeno procedimento cirúrgico, mas a relação espera-tempo de consulta é assustadora. Por esse tempo, eu poderia querer um transplante!

► Tenho que deixar claro uma última coisa: os médicos não estão preparados para os meus conhecimentos. Não, não estão. O que são os seis anos de graduação de qualquer um deles na frente dos meus sete anos de House? E sete anos fresquinhos, que fiz como intensivão, nos últimos cinco meses! Conheço todas as lises, oses e psias existentes ou inventadas. Tudo pode ser câncer, sarcoidose ou doença autoimune. Biopsia de cérebro é mais básico que exame de sangue. Se o House que é o House, que ganha 750 mil dólares por caso e é assessorado por 4 (às vezes, por 6) médicos, demora 45 minutos pra descobrir qual é o problema, como alguém pode ir me despachando assim em três minutos e meio? Isso é só o tempo da abertura do episódio, só para eu dizer o que me levou até ali. Não assina Universal Channel? Não tem DVD? Não tem banda larga para baixar os episódios? Se liga, doc!

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Dor é a fraqueza saindo do corpo

Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran.

A primeira dor física da qual lembro me pegou ali pelos 10 anos de idade. “Cólicas de fígado”, diziam. Sim, eram físicas, eu me contorcia e corria para o banheiro, mas talvez as causas fossem emocionais, pois sempre aconteciam às vésperas de grandes eventos como as provas finais ou viagens de avião. Elas me ensinaram a não ligar para as coisas e não morrer de véspera. Ensinaram a não me preocupar, mas só me ocupar das coisas quando elas acontecem.

Dor mesmo, eu conheceria aos 20 anos. Lembro de deitar no chão da sala, suando, arfando, sem conseguir pensar direito. Lembro também da sensação começar a diminuir quando eu já estava deitado na cama da emergência de um hospital, tomando buscopan na veia.  O que aconteceu entre um momento e outro, a dor não me permitiu registrar. Quem já teve cálculo renal não precisou chegar a esta frase para saber o que foi aquilo. Pergunte a uma mulher que já teve parto normal e cálculo renal qual experiência ela prefere repetir. As que conheço, que passaram pelas duas, foram unânimes: preferem outro parto. A tal cólica renal é uma dor dos infernos! Literalmente, derruba a pessoa. Ela não “vai aparecendo” e lhe dá chances de procurar um médico, fazer exames, tomar remédio para que não piore. Ela funciona como um tiro: quando você percebe é porque já foi atingido. Três dias depois, pouco mais de uma hora após ter deixado o hospital, coloquei a danada da pedra para fora. Um trocinho parecido com um grão de areia. Como aquilo pode causar tanta dor?! Não sei, mas anos depois eu sabia como o drama começava e passei por tudo de novo. A diferença é que não quis ficar internado. Fiquei apenas uma noite no hospital. A noite seguinte, passei no bar. Eu e a cerveja já éramos grandes amigos e eu sabia que poderia contar com ela para botar aquela segunda pedra para fora. Deu certo, mas o fígado jamais me perdoará por aquele episódio.

Nas duas vezes seguintes, nem fui ao hospital. No primeiro sinal, uma lapada de buscopan, cama e paciência. Lembro da palestra de um médico amigo, na qual ele citou um trecho do Sermão da Montanha – “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” – e trazia para a realidade física, completando: “Quem chora, sabe onde dói, mostra onde é e tem possibilidade de ser curado.” Possibilidade. Quando a dor bate, eu queria que a ciência tivesse a firmeza e a certeza daqueles que têm fé – pobre de mim, criatura sem fé e sem conhecimento! – e dissesse logo o que fazer para acabar com ela. Não sou chegado a remédios, mas começo a entender quem se entope com eles para não tem dor.

Ando cheio de dor. E do pior tipo: a crônica. Deus não deve ter entendido minhas preces diárias pedindo “uma boa crônica”. Relevo. Ele deve ser super-ocupado e ninguém pode mesmo trabalhar direito nessas condições. Enfim… estabeleceu-se uma maldita dor crônica, poderosa e cheia de vontades, que me quer totalmente deitado ou andando. Não posso mais ficar sentado. E foi assim que passei mais tempo durante a última década, sempre pesquisando e escrevendo. Só não mais porque prefiro ler deitado.

Paro o texto por um instante e dou uma olhada no Twitter bem na hora em que Gloria Perez informa sobre uma matéria com ela, publicada hoje, na qual diz: “Escrevo sempre em pé, olhando o mar. Se escrevo sentada, vou ficando torta e acabo tendo dores de coluna. Em pé, não sinto dor.” O repórter se admira tanto que trata a informação como “revelação inusitada”. Inusitada para quem não escreve ou não faz isso há muito tempo. Sua hora há de chegar, meu caro! Ou aceite o conselho e procure evitá-la. Nietzsche já ensinava: “Senta o menos possível. Não acredite em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação – quando também os músculos estiverem participando da festa.” Quando em Ecce Homo ele fala de sua doença, diz que, ao final das contas, é isso que leva alguém a ser saudável, que a doença pode “até ser uma estimulação enérgica à vida, a viver mais”. É bem o que penso. Saudável, relaxo. Doente, fico alerta e parto para a guerra.

Há pessoas que falam em “respeitar a doença”, “não brincar com doença”, não dizem os nomes de algumas, como se isso pudesse atraí-las. Pois se alguma quiser acabar comigo, vai ter que aturar zombaria até o meu último suspiro. Quer me matar e ainda quer respeito?! Ma va! E olha que dor, principalmente uma que não passa, é algo que tira o bom humor de qualquer um. Essa atitude também tem seu preço: ninguém acredita que eu tenha algo grave. O pensamento geral é que se tivesse estaria numa cama, reclamando o tempo todo, indisposto a tudo. Nem os médicos acreditam em um enfermo que sorri e faz piadas. Nem os exames parecem acreditar também, já que até agora nenhum acusou grande coisa. Dor crônica é como uma virose: se você tem, console-se. Parece que não há muito que fazer.

Depois que ganhei esse presente, comecei a reparar que muitos vivem com dor, isto é, convivem com ela. Durante anos! Durante uma vida inteira! As pessoas “se acostumam”. Mudam o humor, mudam o comportamento, mudam alguns hábitos, tomam remédios e vão levando. Isso não é nada bom. Prefiro ir para a guerra sob a frase de recrutamento da marinha americana: DOR É A FRAQUEZA SAINDO DO CORPO. E  se está aqui, eu ponho para fora.

E se você tem dor crônica – ou qualquer doença crônica –, venha cá, me dê a mão, vamos sair dessa. Porque a vida é para ser vivida plenamente. SAÚDE!

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Notas na sala de espera

► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários.

► Tevês. Sempre há pelo menos uma vomitando gritos, violências, desgraças. “O senhor está tomando alguma medicação?”, pergunta a atendente. O homem responde: “9112…” Tão absorto na pancadaria do futebol que responde informando o número do celular. Convenhamos que, para muitos, o aparelho funciona mesmo como um tipo de droga, viciando e ajudando a fugir da realidade.  Assim como a tevê.

► Às vezes é impossível ler durante a espera por conta do barulho do televisor. Fico impressionando com as pessoas vidradas no monitor, desligadas do mundo. Quem pode gostar de assistir a um telejornal mundo cão – e, hoje, não existe um que não seja – e já acabar com a possibilidade de um dia feliz logo pela manhã? Gente depressiva, gente sem filtro, gente não gente. Direito ao silêncio. Nem em ambientes médicos existe mais. Até o quadro da enfermeira pedindo silêncio sumiu.

► Pernas balançando. O que é esse nervosismo quase endêmico? Algum tipo de energia acumulada? Eu, que vejo humanos como animais menos peludos, que usam roupas e que insistem em se fazer de bípedes, tenho uma explicação simples: na falta de uma cauda, se balança a perna.

► Estranho os hábitos alheios e é provável que as pessoas estranhem os meus. Ou não. Discreto, silencioso. Sempre lendo ou escrevendo. Mas penso em carregar meus tampões auriculares. Aqueles pedaços de silicone colorido enfiados nos ouvidos causariam alguma perturbação.

► Devo ter uma “aparência genérica” ou um rosto de quem sabe tudo. Onde quer que eu esteja, as pessoas me pedem informações. Um senhor se aproxima e me pergunta onde fica o mictório. Talvez tenha imaginado que eu trabalhasse lá por conta da gentileza de ter aberto e segurado a porta para que ele entrasse. Ou talvez porque eu fosse a única pessoa sentada em uma das cadeiras abaixo da escada e que estava concentrada escrevendo. Aquilo não é lugar para paciente aguardar e como estava fazendo algo diferente de ver tevê ou brincar com o celular, aquilo só poderia ser por obrigação.

► Aguardei por 22 minutos até ser chamado para um pré-exame, um eletrocardiograma. Uma ruivinha de cabelos longos me atendeu. Não lembro quando foi a última vez que uma garota tão bonita me pediu para tirar a camisa assim que ficamos a sós no mesmo cômodo. Obedeci imediatamente, antes que ela mudasse de ideia. Conferiu meu peso, altura e me mandou deitar. Eu estava gostando daquilo. E se você pensa que parou por aí é porque ainda não contei que ela começou a subir minhas calças! Achei que a coisa fosse esquentar bastante quando ela pegou nos meus tornozelos, mas… espere! Ela subiu minhas calças. Ela queria meus tornozelos livres para pinçá-los e conferir meus batimentos. Duvido que aquele exame tenha dado normal. Nota mental: sugerir ao cardiologista que contrate auxiliares feias. As muito bonitas que me perdoem, mas resultado confiável é fundamental.

► Saio frustrado e volto à cela sob as escadas. Tinha um encontro com uma lenda: o médico com hora marcada. Há quem diga que ele já existiu de verdade. Para mim, o último bastião da pontualidade no Brasil era o horário das sessões de cinema. Depois que elas passaram a atrasar, não acredito em mais nada. A consulta era às 10h. Uma hora, três minutos e cinquenta páginas depois, sou chamado. Ausculta daqui, ausculta de lá… tudo normal. “Tinha dado pressão alta?!” Tinha, mas a médica era bonita. Ele concordou que tal fator deve ser levado em conta. Fui dispensado com aquele desinteresse médico típico dos que atendem alguém que está só resfriado. Eu, admiradíssimo por ele ter achado um coração. E ainda batendo. Deve ter como função marcar meus compassos de espera…

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O fim do Sempre Algo a Dizer (como nós o conhecemos)

Essa história de Sandro blogar começou no dia 16 de setembro de 2004 com o Leseira Geral. Exatamente um ano depois, o blog passou a se chamar Sempre Algo a Dizer. O “perfil editorial” nunca foi dos mais claros: diário, revista, anotações de viagens, artigos, crônicas, registros fotográficos, humor, pancadaria… ou seja, uma zona, um reflexo da minha vida no mundo real.

Em setembro próximo, o blog completará sete anos. Ótima desculpa para encerrar um ciclo. Pois vamos começar de agora para chegarmos lá com fogos, festa e brigadeiro. As mudanças vão começar pelo meu comportamento na Internet e como você – sagaz leitor, criteriosa e linda leitora – responderá a isso. Vamos às mudanças iniciais.

Quem quiser ficar, fica. Talvez tenha bolo. » Toda virada de ano, eu costumava fazer uma limpeza na lista de e-mails que recebem as notificações de postagem no blog. Avisava durante um mês, sugeria recadastramento. Ao final, cortava quem não tivesse dado sinal de vida. Se não leem nem as breves mensagens que chegam à caixa de e-mails, imagine os tijolos que ponho aqui. E, sinceramente, não me importo com isso. Escrevo por auto-exorcismo, não por precisar da atenção de um sem-número de pessoas. No meu mundo, sinceridade é uma qualidade muito bem vista. Se você me disser “não mande mais os avisos”, obedecerei sem um pingo de mágoa. Mas se você continuar recebendo e um dia vier me perguntar “Por onde você anda?”, “O que você tem feito?” ou algo assim, estará passando um recibo de hipócrita desatento e, provavelmente, vai ouvir algo como “Estive em coma” ou “Passei os últimos anos sob poder das Farc”. Portanto, SE VOCÊ FOR UM LEITOR SINCERO, FIEL E DO TIPO TRADICIONAL, que, assim como eu, gosta de receber avisos de atualização em sua caixa de correio eletrônico, CLIQUE AQUI E CADASTRE SEU E-MAIL.  A atual lista será desativada em 31 de maio.

Sou viciado. Aplica na veia. » Se você é leitor viciado, como eu, deve assinar feeds. Eu assino e LEIO tudo que assino. Mesmo que eu nunca comente, mesmo que o tema deste ou daquele texto nem me interesse muito, eu leio. É vício e não quero ser tratado. Se você é assim, CLIQUE AQUI E ASSINE O FEED DO BLOG. Não usa feed, mas gostaria de saber o que é e como funciona? Clique aqui e eu ensino com a maior paciência do mundo.

Pia que eu te escuto » Tuíto loucamente, não sigo o planeta inteiro, não sigo só porque me seguem (aquilo não é Orkut) e, sim, se sigo é porque leio, principalmente se você gera conteúdo. No entanto, muita gente segue para fazer média, na esperança de também ser seguida ou apenas para ser lida. Prefiro que só me siga quem realmente lê e interage. Os posts do blog continuarão sendo anunciados em meu perfil pessoal, o @sandrofortunato, no qual exercito minha esquizofrenia, e também no @semprealgo, do qual só minha polaridade séria tem a senha. Você também pode ajudar a divulgar dando RT por lá ou por aqui, clicando no botão Tweet, do lado direito, ao final de cada texto.

Na cara! » Também continuarei avisando sobre as postagens no meu perfil no Facebook. Já fui mais antipático e só aceitava pessoas que realmente conhecia. No entanto, desde o ano passado, com o Bolsa Família e todos os incentivos promovidos pelo PAC, o povão está saindo do Orkut e levando a farofa para lá. Tem a galera wannabe cult que cita escritores que nunca leu (cita até o que eles nunca escreveram!), que curte tudo sem ler (até notícia de morte) e que adora fazer “KKKKKKKKKK” em postagens supostamente engraçadas. Mas há quem use decentemente. Se gostar, pode curtir e compartilhar. É para isso que serve o Facebook. Dá para fazer isso da maneira inversa, a partir daqui, com o botãzinho Curtir que aparece logo abaixo de cada texto.

De resto, é o seguinte: Mantenho o Orkut porque… não sei o porquê! Continuo na ativa, mas não é algo que atualize sempre. O Linkedln é muito business para o meu gosto. Dou as caras por lá na mesma constância com que faço aniversário. Atualizações do Flickr, do Twitpic e do Tumblr serão anunciadas das formas já descritas. O Memória Viva é um mundo em separado. Tem Twitter, perfil no Facebook e tudo mais que se possa imaginar.

É isso. As pedras estão rolando. Abreijos.

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De como Sandrinho virou Lobão

Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de Appe, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém neste momento.  Evitava até comprar biografias e, quando o fiz, consegui não ler. Mas aí chega Dona Luciana Ubarana com Lobão – 50 Anos a Mil e imediatamente pensei: “Fudeu!

Ah! Para quem não me conhece de longas datas, prazer, eu sou Lobão. Explico. O ano é 1987 e estou no pré-vestibular do Salesiano, em Natal. Carlos “Cristão”, professor de Química, tinha a mania de soltar um “Voooooooooo…” olhando para um lado da turma e apontando para outra para finalizar “…CÊ!”. Virava, descobria para quem estava apontando e dizia o nome da vítima. Numa dessas vezes, eu fui a vítima. Usava um corte de cabelo batido na base e um franjão que cobria os olhos. Fazia de tudo para que ninguém me notasse (usando um corte desses na Natal de 87? Tá!). Havia chegado à cidade no ano anterior e como todo estranho, sofria bullying (só disse isso porque está super na moda ter sofrido bullying). Pois bem. Carlos mandou um “vooooooCÊ”, virou para mim, olhou para meu cabelo e completou: “Você, Lobão.” Pronto. O apelido pegou de imediato. Virei Lobão.

Voltemos ao outro Lobão. Chegou a Semana Santa, peguei o livro e não desgrudei antes de ler duzentas páginas. Estava lendo os bastidores de uma história que vi e que, em alguns momentos, cruzou com a minha. O corte de cabelo e o apelido Lobão, em 87, não vieram do nada. No verão 86-87, aos 14 anos de idade, eu havia feito minha primeira entrevista. Adivinhe com quem. Pois é. Eu, Fabinho, Marcelo Jucá e Gustavo Lamartine – “uma turminha da pesada que adorava aprontar mil aventuras” – resolvemos aproveitar a passagem de Lobão por Natal e ir até o hotel onde ele estava, na Via Costeira, tentar falar com ele. Eu, tendo um insight do que faria muitas e muitas vezes no futuro, desmontei as caixas do meu stereo portátil, descolei um microfone, uma fita TDK e fui pronto para registrar aquela parada. Levei também a Olympus Trip do meu pai.

Chegamos na cara dura e nos apresentamos. O recepcionista pediu que esperássemos. Voltou dizendo que Lobão estava na piscina e que podíamos ir até lá. Meio sem graça, chegamos até a área externa e ficamos procurando. De repente, de uma espreguiçadeira, Lobão se vira e acena. Fomos até lá e começamos a conversar. Eu, já todo jornalista, gravando tudo. O que ele estava achando de Natal, como era o novo show, se o rock errou mesmo e aquelas coisas de moleque se achando gente. Gustavo, o tempo de boca aberta, queixo apoiado na mão, sem falar nada. Quando resolvemos despertá-lo do transe, disse apenas o seguinte: “E o Herbert?” Pronto. Lobão danou a baixar o pau no Herbert Vianna e o resto do papo foi só aquilo. Uma hora de blá-blá-blá, acabou a fita, sessão de autógrafos e eu, sempre preparado e com tudo pensado, saquei a Playboy de setembro de 1986, edição em que Daniele Daumerie (que foi esposa de Lobão) aparecia. Levemente constrangido, ele autografou na página dupla que abria o ensaio. Muito simpático, foi nos deixar na entrada do hotel (talvez para ter certeza de que aquela molecada iria mesmo embora e deixá-lo em paz). Lembrei da Olympus. Fiz uma foto dos meninos com ele e pedi que fizessem uma dele comigo. Eu, na época um boy com um metro e sessenta e pouco, ao lado daquele gigante de quase dois metros. Saí com uma cara de “peraí!”, segurando o trambolho do gravador e a revista.

Daquele show do Lobão, lembro bem dele abraçado a uma garrafa de uísque que foi esvaziada durante a apresentação. Era a turnê de O Rock Errou. Estava em meu primeiro verão em Natal. Os verões dos anos 80 na cidade eram repletos de shows de BRock: Titãs, Ultraje, Paralamas, Kid Abelha, Biquiní Cavadão… Eu tinha ido ao primeiro show da minha vida alguns meses antes, no Palácio dos Esportes: Cazuza.

Acho que foi antes desse encontro que comprei Ronaldo foi pra Guerra, segundo LP de Lobão, assinado por Lobão e os Ronaldos. Comprei em uma loja no Hiper Bom Preço. Acho difícil explicar a quem chegou ao mundo na era pós-LP o significado da compra de um disco e o ritual que era ouvi-lo. Escolher o bolachão, apreciar a capa, olhar o encarte se o disco não fosse lacrado (os discos importados geralmente eram), comprar, desfilar com ele até em casa, se trancar no quarto, tirar do plástico pela primeira vez, limpar com a almofadinha, colocá-lo no 3 em 1, levar a agulha ao vinil, deitar e acompanhar as letras pelo encarte (quando tinha).  Você ouvia e apreciava uma obra completa, um determinado momento do artista. Era uma viagem. E eu viajei muito ouvindo Corações Psicodélicos, Não tô entendendo, Tô à toa Tókio, Abalado (a primeira balada lobônica que ouvi), Os tipos que eu não fui, Bambina… E aí acontecia uma mágica dos tempos do LP: virar o disco. A primeira música do lado B era Me chama. Para quem viveu aquela época, não é preciso dizer mais nada. Me chama é a música que mostrava que os brutos roqueiros também amam.

O Rock Errou, comprei depois. Ouvi muito durante o ano de 1987, o mesmo em que virei Lobão. Também foi naquele ano que deixei não só o franjão, mas todo o resto do cabelo crescer. Os padres do Salesiano não me viam com bons olhos. Na verdade, os alunos também não. O pessoal estava acostumado com forró e vaquejada e não aturava muito a atitude rock’n’roll do carioca alienígena. Tô falando: eu sofria bullying. Mas cagava e andava para isso. Pressionado, resolvi cortar o cabelo. Costumava ir ao salão do seu Guedes, o mais tradicional da cidade e até hoje o preferido pelos políticos, alpinistas da área e wannabes reaças em geral. Cheguei com minha vasta cabeleira – também mal vista pelos clientes – e pedi ao Beto, filho do seu Guedes , para cortar: “Raspa dos lados”. Olha… Para mim, moicano era um troço velho, de punk dos anos 70, mas, para Natal de 1987, era um negócio pesado e impensável. Enquanto o ministro Aluízio Alves aparava suas carapas brancas na cadeira ao lado, Beto ajudava a nascer o primeiro pós-punk de Natal. Não era um moicaninho de boutique desses de hoje, raspadinho do lado e “deixado em cima”; nem essas frescuras pintadas. Era uma senhora e mui respeitável crista que, armada, tinha lá seu palmo de altura (mantive o comprimento grande do resto do cabelo).  Papai ,mamãe, eu não pedi para vocês me tirarem do Rio em plena explosão do rock nacional. Sinto muito. A cidade ia ter que me engolir. Do Guedes, peguei o ônibus direto para o Salesiano. A coisa mais bonita que ouvi no caminho foi “se fosse meu filho, eu dava uma surra pra se ajeitar”. Uma senhora… uma velha chata pra caralho foi fazendo um discurso no ônibus sobre como a juventude estava perdida, que o mundo ia acabar e que gente assim (como eu) deveria apanhar até se emendar.  Quando o ônibus parou na Ribeira, virei para a velha, dei o maior berro que podia e desci do ônibus. Bob Cuspe iria se orgulhar. O Salesiano parou quando entrei. Os padres quiseram me expulsar. Deviam achar que eu estava com o diabo no corpo. E se estava, não saiu até hoje. O Lobão, o Sandro Lobão, se assumiu ali.

1988, faculdade de jornalismo. Foi nesse ano que Lobão voltou a Natal com a turnê do LP Vida Bandida. Ele já havia sido preso, estava estouradaço e era o capitão dos malucos de verdade. Na noite de 31 de julho, eu estava bem na frente do palco montado no gramado no Estádio Juvenal Lamartine. Como lembro a data? É porque guardo até o hoje o panfleto (este reproduzido aí ao lado). Estava lá, todo aplicadinho de cerveja.  O show tinha o apoio da rádio 96 FM. A propósito, durante anos, infernizei Ênio Sinedino e Germano (respectivamente, diretor geral e de programação da 96) para liberarem aquele Cena de Cinema, primeiro LP do Lobão, que eles tinham por lá e não servia para nada, afinal as músicas eram gravadas em cartucho e, depois, passaram a usar CD. Nunca me deram. O Cena, como Lobão conta no livro, vendeu pouco e foi logo tirado de circulação por conta de uma encrenca sua com a gravadora. Diz que foram vendidos cerca de 6 mil discos. Eu só teria um já nos anos 2000. Comprei na Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Novinho. Detalhe: também deve ter sido de alguma rádio, pois tem um carinho de “Invendável – Amostra grátis”. Para mim, não foi. Na mesma leva, ainda vieram para minha coleção O Império dos Sentidos (segundo de Fausto Fawcett, com Silvia Pfeifer na capa) e as trilhas de Amarcord, de Fellini, e Areias Escaldantes, de Francisco de Paula.

Para quem não sabe, Areias é um filme louquíssimo, non sense, feito em 1985. Francisco de Paula (que conheci em 2006 no Festival Internacional de Cinema de Brasília e vez ou outra dá o ar da graça aqui no blog) juntou Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Diogo Vilela e parte da nata do rock brasileiro – Titãs e Lobão, que participam do filme, mais Lulu Santos, Ira, Ultraje a Rigor, Gang 90 & Absurdettes na trilha sonora – para contar uma história louca (coisa de quem cheirava muito) com terroristas e uma polícia de elite na Província de Kali. Vivia passando no CineBrasil, mas eu tenho uma cópia em DVD que me foi dada por Francisco.



Em 2001, fiz aquela que por um bom tempo chamei de minha última entrevista. Sim, com Lobão. Achei que seria A entrevista e queria encerrar meus dias de jornalista com ela. Falei com esposa de Lobão por telefone e ela disse que ele responderia as perguntas por e-mail. Não gostei da ideia, mas encarei. Foi um desastre. Lobão sempre viu jornalistas como Dom Quixote via moinhos. Era botar o olho e partir para o ataque. Por e-mail, à mercê de interpretações erradas que não poderiam ser devidamente esclarecidas, acabou não rendendo, mas publiquei assim mesmo. Dez anos depois, vejo Lobão muito mais manso, mais acessível e até admitindo que estava sempre armado e pronto a desancar qualquer um. Inclusive eu, que estava super-bundão, em um momento único, mais fã que jornalista, levantando a bola para ele cortar. Cortou e veio bem na minha cara. Tudo bem.

Há poucos dias, Lobão esteve duas vezes em Natal. Na primeira, veio autografar o livro. Tive vontade de ir para que autografasse seus/meus LPs, mas abortei a ideia quando imaginei a garotada Restart cuzona que estaria por lá idolatrando um cara que sempre foi iconoclasta. Na mesma semana, voltou para fazer um show no “teatro do shopping da cidade”. Não consigo imaginar um show de Lobão com gente vestidinha, com cheirinho de perfume e sentada.  Eu ia querer quebrar aquela porra toda, então, resolvi ficar em casa. Era véspera do meu aniversário e eu não ia querer estragar as boas lembranças dos últimos 25 anos: a entrevista no hotel; os shows no Juvenal Lamartine; outro também em Natal, nos anos 90, com quase ninguém; um em Brasília, quando lançou seu disco independente. O velho Lobo, para mim, era o Lobão novo. Este novo Lobão, cinquentão e educadinho, estou curtindo muito nas páginas do livro que serei obrigado a terminar. Ali, ele continua rock’n’roll e me fazendo lembrar coisas da natureza dos lobos, como ir contra tudo e contra todos agarrado à ideia de que está fazendo a coisa certa (por mais que o mundo mostre o contrário), sendo fiel a si mesmo e feliz a todo custo. Só não digo que fazemos parte da mesma matilha porque tanto aquele quanto este lobo é do tipo solitário.

E chega. Vou ali matar o livro e continuar girando o mundo, sempre com a certeza de que “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”.

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Mais Lobão (o outro) no Tumblr: http://sandrofortunato.tumblr.com

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Por fim

Então, é isso: na autópsia, descobre-se um grande coração cheio de nada e um estômago corroído pela cafeína.  Percebeu tarde quão desumano e bárbaro seria amar uma única pessoa. E ainda mais tarde que era tudo ilusão. Amava o amor. Amava o desejo. Amava a história criada em torno disso. Planejou morte à toa. Viver sem amar já não é viver.

Bobagem! O coração batia bem melhor sem a esperança de ser ou ter tudo que desejava. Dos vultos de mulheres que passaram por seus sonhos, dispensou até o adeus. Nem recordava se eram felizes ou bem torneados. Nada queria guardar. Nem lembranças. Passaram os amores, ficou o coração.

Que restava senão buscar outro afeto? Enamorou-se por pontos finais. Pensou que seria o fim perfeito. Aceitou-os tal como eram e foi muito além. Partiu daquelas para uma muito melhor.

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A Cidade do Sol roubado

Em Natal, o sol já não nasce para todos. O astro-rei vem sendo privatizado pelos moradores dos arranha-céus de Petrópolis e Areia Preta. De sua posição privilegiada, bem ao lado do trepódromo, o Hospital Universitário Onofre Lopes ainda pode vê-lo. As pessoas que passaram a noite do lado de fora, na fila, também, mas já não têm forças para apreciar o espetáculo. Cansadas, com as almas anestesiadas, só pensam em pegar uma ficha de atendimento e sobreviver.

Os bebês da Maternidade Januário Cicco perderam o direito aos primeiros raios. Da sacada, agora fria, uma jovem mãe vê prédios. Mais adiante, o Conservatório de Música Frederico Chopin conserva ainda a placa com a grafia aportuguesada do polaco. Não se pode dizer o mesmo de suas paredes, que vão desabando. Na Praça Cívica, a centenária e andante estátua de Pedro Velho gelaria até os ossos – se os tivesse! – por boa parte da manhã.

No antigo Papa Jerimum, nas paredes que ainda insistem em ficar de pé, tristes figuras choram por uma réstia de sol que só chega no meio da manhã. As árvores da Rua Mossoró parecem querer correr até a Prudente e buscar lugar mais propício ao viver. Não seria ali na avenida. Nos canteiros, algumas flores só encontram o sol em seu pior horário. São tão descoloridas quanto as paredes e as chorosas meninas grafitadas. Sem sol, as casas… não, as coisas, todas elas, ficam tristes, vão morrendo.

Seis da manhã. Volto pelas calçadas sombrias. Sei que o sol saiu porque vi, porque fui acolá dos prédios, de além, quase outro mundo. Volto triste, pensando que um dia terei que adentrar o mar e gritar por ele – Vem, Sol. Acorda! –, que terá desistido de competir com esse desespero humano de estar sempre acima de tudo, sempre tomando o que é de todos.

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Ai, meu Deus! Chuparam o Hermeto!

Isto nem deveria estar neste blog. Nem sei se ele serve para isto, mas como também já não sei muito bem para que ele serve, vamos lá…

Cá estava eu, alegre e pimpão, ouvindo pela primeira vez Voice, o disco novo da japinha Hiromi Uehara. Baconoso, de bom gosto, estava curtindo, achando um tanto brasileiro – jazz, né? sacomé: bossa nova, improviso, jazz, choro, influências indo e vindo, world music, coisa e tal… Até que cheguei à faixa 5, Labyrinth, que, mais que brasileira, me pareceu muito familiar. E foi por volta de 1min 48s que não tive dúvida: já tinha ouvido aquilo. Pelo menos, aquele trecho. (Clique abaixo e preste bastante atenção no trecho que vai de 1min 48s a 2min 30s)

Ray Charles pode ser surdo, Stevie Wonder pode ser mouco, mas o moreno Sandro escuta mesmo muito bem e tem uma memória de elefante, principalmente para música (sim, as frustrações deixam marcas).  Já tinha ouvido aquilo com Hermeto Pascoal, em 2003, em uma apresentação em Brasília.  Sim, mas e daí? Hermeto é conhecido e reverenciado no mundo todo. A jovem japa poderia ter gravado uma música dele. Fui conferir.  Googla que googla e quase nada vem. O tal Voice nem aparece no site oficial dela, mas está à venda no da Telarc, que faz parte da Concord Music Group. Não ajudou muito, pois não há informações sobre a composição das faixas. Apelo para São Google de novo. Labyrinth é de Stanley Clarke e, se você curte jazz, já está em terreno conhecido. A música está no CD The Stanley Clarke Band, lançado ano passado e que ganhou o Grammy 2011 de Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo.  Nesta versão, da qual Hiromi também participa, o baixo é mais forte e o trecho em questão começa por volta de 1min 58s. Escute.

E para ninguém achar que estou maluco, aí vai a gravação que eu mesmo fiz no show do Hermeto em 2003. Infelizmente, no vídeo, a música não é apresentada (nome, se dele ou de outro) e eu já comecei a viajar achando que fosse de… bem, deixa pra lá. O que importa é que pelo menos sete anos antes desses acordes aparecerem no disco de Stanley Clarke, eu já tinha ouvido.  E, agora, só descanso depois que preencher essa lacuna da minha vasta ignorância.  Que música é essa, quem compôs e quando? Alguém me diz?

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ATUALIZADO EM 05.04, ÀS 17h50: João Antônio Buhrer escreveu nos comentários e informou qual é a música: Bebê, de Hermeto Pascoal. Confira no vídeo abaixo com Hermeto e Sivuca.

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