
Um mês inteiro indo a médicos para finalmente ter um diagnóstico: Endometrite clamidial em estágio avançado. É uma infecção tratável, mas que pode ser fatal. Eu poderia ter me assustado ao ouvir isso de um médico, até porque para ter essa doença, eu precisaria ter um útero. Mas o susto e a surpresa foram praticamente os mesmos quando o médico disse que tenho… algo que você vai saber mais adiante.
Vou pedir sua paciência para explicar como cheguei a este ponto e garanto que, em algum instante, você vai se identificar com o que vou dizer por já ter passado pela mesma experiência. Se não, garanto de novo, um dia irá passar e lembrará deste texto.
Eu não gosto de médicos. A frase precisa ser dita assim, começando com um enfático “Eu” e dando margem à generalização (estúpida como são todas). Minhas primeiras lembranças de idas ao médico vêm da infância. Eu fazia uma enjoativa viagem de ônibus do Méier ao bairro da Saúde, no Rio, para ir ao trabalho do meu pai, no Moinho Fluminense, para consultas com o Dr. Pedro. Não sei dizer se ele era clínico geral, médico do trabalho, pediatra ou tudo isso. Só sei que ele era um “médico clássico”, desses que fazem o paciente sentar, auscultam peito e costas, conferem boca, olhos e nariz, testam reflexos, dão batidinha com o dedo no abdômen, perguntam o que a pessoa está sentido, prescrevem uma receita e dizem que a gente se vê de novo dali a alguns dias. Dr. Pedro me assustava um pouco. Um homem de seus 60 anos, cabelos brancos, voz grave, olhar inquisidor lançado por cima dos óculos… Tudo isso parecia bem assustador para meus 5, 6 anos de idade. Além disso, da sala de espera ao consultório, tudo era absolutamente branco, inclusive o longo corredor vazio entre um e outro, que me dava a impressão de estar sendo levado a um local de torturas.
Eu não gosto de médicos. Aos 18 anos, já sem as fantasias infantis, me deparei com um extremamente arrogante, dono da verdade, do poder de vida e de morte, uma criatura aparentemente sem qualquer respeito por outro ser humano que não fosse ele mesmo, que tratava as pessoas como pedaços de carne que ele sabia consertar melhor que qualquer outro. Em dez dias, vi essa criatura mudando seu comportamento. Inicialmente, ele desprezava e gritava com enfermeiros e parentes de paciente, sempre estava certo e com absoluto controle de tudo. Nada estava além de seus conhecimentos. Quando minha esposa – aos 19 anos – tratada por uma equipe chefiada por ele, entrou em coma e todos os médicos sabiam que ela não sobreviveria por mais de 48 horas, a voz dele tomou outro tom, um volume bem mais baixo e o olhar deixava claro que ele não tinha a mínima ideia dos motivos daquele quadro. O deus falhou e não entendia o porquê. Pobre deus!
Eu não gosto de médicos. Para quem não conhece a anedota, aí vai: Sabe qual é a diferença entre médicos e jornalistas? O médico acha que é Deus, o jornalista tem certeza que é. Eles, os médicos, acham que podem vencer a morte. Nós, jornalistas, temos certeza que somos imortais, onipotentes e que podemos mudar o mundo. Portanto, arrogância por arrogância, a escola que frequentei me deixou bem mais gabaritado que qualquer médico.
Eu não gosto de remédios. Não gosto de qualquer tipo de droga – lícita ou não –, porque gosto de ter controle do meu corpo e da minha mente. Em relação aos remédios, tenho repulsa ainda maior por entender que tomá-los é uma questão de fé: preciso acreditar no médico que o receita, preciso acreditar em que o fabrica, preciso acreditar em quem vende… Para mim, é fé demais e isso não me cheira bem. Sou daqueles que quando sentem uma dor preferem deitar e esperar passar. Se tenho febre, tomo banho frio. Se chego a tomar uma aspirina é porque devo estar com a cabeça estourando há dias e se tomo qualquer outra coisa é provável que alguém tenha quase me obrigado a isso.
Até o início deste mês de maio, eu havia passado 15 anos sem ir a um médico. Se não tive algo neste período? Tive. Uma besteira ou outra que passava com cama, descanso ou, em “casos extremos”, com algum remédio já conhecido. Por apenas duas vezes, nos dois últimos anos, recorri à “minha pediatra”. Na primeira, no final de 2009, por uma bola de ping-pong cheia de pus ter crescido na minha testa. Na segunda, há alguns meses, quando depois de duas semanas de cama e muita dor, finalmente me rendi e liguei para ela. Nesta última, diga-se, os exames que muito sabiamente ela solicitou, eu nem fiz. Minha tendência é sempre minimizar, deixar para lá, esperar que o próprio corpo se cure. Aquela coisa típica de homem que não se cuida. Admito minha estupidez em pensar que não tenho tempo para me preocupar com isso.
Um dos meus orgulhos é nunca ter feito uma operação, pelo menos não uma que necessitasse de anestesia geral e abrir o corpo. E eu gostaria muito de chegar ao fim da vida sem jamais ter precisado disso. Acho medieval e extremamente brutal ter que abrir o corpo para curá-lo. Considero absurda qualquer cirurgia movida por vaidade. Só entraria na faca se me convencessem de que seria a única maneira para curar algo muito grave. Só mesmo correndo risco de morte.
Um último traço para entender algo da minha personalidade e sobre minha afinidade com o ambiente médico-hospitalar. Lembro de, em 2005, ter tentado assistir um ou dois episódios de House. Era a primeira temporada. Não consegui. Nunca mais quis ver. Sempre ouvi muitos elogios à série e, sobretudo no ano passado, muita gente insistia para que eu fizesse nova tentativa, pois viam muitas semelhanças entre a minha personalidade e a do personagem principal (isolamento, descrença nos relacionamentos, constante análise comportamental quando obrigado a lidar com alguém e a total falta de surpresas quanto a isso, o sarcasmo…). Resolvi assistir. Tive grande dificuldade em atravessar as duas primeiras temporadas. A série é ótima, tem um excelente protagonista, ótimos atores, é bem dirigida, etc, mas um, somente um único e maldito motivo me desagradava profundamente e quase me fez desistir outra vez: a parte médica. Diagnósticos, convulsões, vômitos, desmaios, operações… Não tenho qualquer interesse por essas coisas. E quem me conhece um pouco mais, sabe da minha resistência em lidar – e perder tempo – com qualquer coisa que considere desagradável. Séries médicas, para mim, são bem desagradáveis. Assim como as policias. Não me interesso por tiros, barulho, violência. Também não me interesso por sangue, gente passando mal, doenças, operações, corpos abertos .
Chegamos ao meu diagnóstico, aquele que omiti no primeiro parágrafo. Depois deste histórico, de todo este relato, creio que ninguém duvida que prefiro ir ao inferno e enfrentar o cão do que ir a um hospital e lidar com um médico. Sabendo de tudo isso, você diria que sou… hipocondríaco? Pois foi esse o “diagnóstico” que recebi hoje.
Eu, Sandro Fortunato, me encontrando em uso e gozo de minhas faculdades mentais, livre de qualquer sugestão, induzimento ou caução, declaro para todos os fins que caso venha a desenvolver algum receio mórbido por minha saúde, associado a alguma doença imaginária, que gostaria também de ser tratado por um médico imaginário em um hospital imaginário tomando remédios imaginários.
Já contei aqui que na segunda crise renal que tive, há uns 15 anos, avancei pelos corredores do hospital, com aquela roupa que nem sei o nome, arrastando o soro e exigindo minha saída? E de lá, fui para o bar. Cerveja é o meu remédio.
Pois, então… uma ida de uns 5 minutos ao médico, um retorno para mostrar exames – todos ótimos, sou saudável, muito obrigado! – e escuto essa: “Você tem uma personalidade hipocondríaca.” Eu quis rir. Gargalhar nervosamente. Mas, diferente do médico, estou acostumado a lidar com gente e a ver o todo. Acredito saber os motivos de ele ter dito isso e é agora que você deve ficar mais atento. É a partir daqui que você vai começar a se identificar ou guardar a lembrança para se identificar no futuro, quando tiver uma experiência parecida.
Em alguns ofícios, é preciso saber ler pessoas. Eu, por exemplo, lido com memórias e depoimentos. Não posso acreditar apenas no que ouço. Às vezes, uma pessoa fala muito bem de alguém, mas, ao mesmo tempo, o corpo dá vários sinais de que aquilo não é verdade, de que ela NÃO está pensando aquilo. Preciso ficar atento a tudo que ela me diz e a esses sinais. Mais tarde, vou exigir uma contraprova e, invariavelmente, a verdade aparece. Se eu apenas acreditasse em uma coisa ou outra, meu “diagnóstico” seria falho. House, o médico da ficção, lembra o tempo inteiro: TODO MUNDO MENTE. Mesmo sem querer, mesmo sem saber ou perceber. Quem lida com seres humanos – médicos, psicólogos, jornalistas, escritores, biógrafos… – precisa saber ler todos os idiomas que uma pessoa fala. A superficialidade do jornalismo atual, assim como a superficialidade do diagnóstico médico atual (que é tema central deste texto), começa em não se saber fazer adequadamente tais leituras, em não dar atenção a todas as informações que chegam.
Eis os erros de leitura – ou as leituras superficiais – desta história… Na primeira consulta, que fui por ter sido encaminhado pela Clínica Geral, foi constatado que eu não tinha qualquer alteração naquela área. Por mim, nem teria procurado tal especialista. Mas fiz questão de dizer a ele que não ia a médicos há uma década e meia e que, por conta das dores lombares, havia decidido fazer um check-up (guarde esta palavra: check-up). Fui dispensado e convidado a voltar com exames de sangue para ver se eles mostravam algo. Nada. Niente. Rien de rien. Surpresa alguma para mim. Vegetariano há quase 20 anos, evito comida industrializada, nunca fumei, não uso drogas, só bebo cerveja e cada vez menos… Por que alguma coisa estaria alterada? Mas é o exame mais básico que um médico vai pedir. É uma fonte de informação importante. Tudo visto, escuto a tal sentença: “Já tinha percebido: você tem uma personalidade hipocondríaca.”
Até acredito que alguém que “não tem nada e está procurando” – o que definitivamente não é o meu caso – possa ter “uma personalidade hipocondríaca”. Mas acho que algo mais no meu comportamento e algo que eu disse, fizeram o médico achar isso. Primeiro: perguntei o que deveria dizer à Clínica geral, já que ela havia pedido que eu fosse a ele. Nada. Que estou ótimo. Ok. Segundo: comentei que me impressionava a inexistência de histórico médico no Brasil e da falta de comunicação (minha área) e, portanto, de troca de conhecimento, entre médicos de uma mesma pessoa. Terceiro – e aí vem a confissão do meu pecado mortal: toda vez que chego para uma consulta, levo tudo anotado para não esquecer nada, não omitir, não mentir sem querer e, agindo assim, facilitar o trabalho do médico, dando a ele todas as informações que eu tiver. Da mesma forma, tudo que o médico diz, eu anoto: pressão, comentários sobre um sintoma, sugestão, nome da alteração, nome de exames, de remédio, etc. Um exemplo: esta semana, tive dois sinais removidos. Perguntei ao médico que tipos de sinais eram. Anotei. Se daqui a 20 anos eu tiver algo parecido ou se um filho meu apresentar algo assim, onde quer que esteja, seja quem for que o médico, vou saber dizer a ele: “Já tive isso.”
Minha caderneta de anotações parece ter incomodado terrivelmente. E imagino mesmo que possa ter parecido algo doentio, coisa de hipocondríaco. Também tenho certeza que os outros médicos QUE ME PERGUNTARAM “O que você faz?”, mesmo sendo algo diferente do mundo deles, não se assustaram com esse comportamento. Afinal, tudo que faço na vida é escrever. Anoto ideias, anoto informações, levo isso de um lugar para outro, consulto o que foi anotado, escrevo, escrevo, escrevo… Sintoma de algo estranho, de alguma alteração, seria se eu NÃO fizesse isso.
Insisto no comentário sobre a necessidade da existência de um histórico – coisa básica, comum em qualquer país desenvolvido – e ouço a sentença definitiva sobre a nossa triste cultura: “No Brasil, nós temos uma medicina mais curativa.” Ou seja, aqui, o lance é adoecer para curar. Afinal, este é o ganha-pão dos médicos, não? NÃO. Eu teria muito mais prazer – e talvez me tornasse hipocondríaco, marcando muitas e muitas consultas – se os médicos usassem seus conhecimentos para jamais deixar que eu adoecesse, se a medicina fosse PREVENTIVA, como em qualquer país desenvolvido e civilizado. Isto é melhor e mais barato para quase todo mundo. Eu disse “barato”? Pois é… em uma cultura em que se vende a cura, barato não é uma coisa bem vista por quem comercializa o produto.
Dois pontos interessantes: 1) quando estava para começar esse check-up (lembra da palavra? típica de medicina preventiva; você confere se está tudo bem para não adoecer), comentei com uma amiga que isso poderia ser muito útil para mim, para que eu aprendesse a confiar mais nas pessoas. Como, pelo meu histórico, médicos seriam as últimas pessoas em quem eu confiaria, isso seria uma prova e tanto! 2) sempre tive tendência, em quase todas as áreas, a procurar profissionais mais experientes, com mais tempo de ofício. Pois tenho me surpreendido com os médicos mais jovens, que OUVEM, dão respostas, explicam e evitam prescrever remédios. Só para lembrar: o hipocondríaco aqui detesta remédios.
Essa tentativa de relacionamento não poderia mesmo dar certo. Sou saudável e os médicos não se interessam por mim. E eu não me interesso por uma medicina que não se interessa por mim, que não me quer saudável.
Da sala de espera (aqui e aqui), passei para dentro dos consultórios. Na sequência, virão outros textos com minhas observações sobre a prática médica (passei por nove especialistas este mês). Sobre o que não gostei de ver e experimentar, vou falar sem dar nomes. Sobre o que gostei, farei questão de nomear os responsáveis. Até lá, comentem sobre suas experiências.
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