A última noite de Cabíria

Já não estranho quando me vejo em personagens femininos. Mas ainda me surpreendo quando um que conheço há tanto tempo aparece de forma diferente, sugerindo outras leituras, me apontando um espelho.

Foi assim com Cabíria há algumas noites. O que aquela criatura tão pequena, perdida, sonhadora, acostumada a disfarçar sua delicadeza e sua fragilidade com um jeito grosseiro, disparando impropérios a quem tente se aproximar poderia ter a ver comigo? Tudo.

Uma prostituta acostumada às rudezas da vida, encastelada em um pequeno cômodo, mostrando-se autossuficiente, mas sonhando com outra vida, juntando recursos que nunca são aplicados. Com tantas características em comum, como nunca havia me dado conta de tal semelhança?

Talvez porque precisasse deixar os detalhes de lado e perceber o todo, a trajetória. A cada abertura, para cada momento de disposição em acreditar, uma decepção. A razão ensinando que o caminho não era esse; o coração – burro, cheio de medos – insistindo em tentar mais uma vez. Cabíria sou eu e cada um de nós, ao tentarmos equilibrar razão e emoção, realidade e sonho.

Também foi preciso fechar um ciclo para enxergar Cabíria em mim. Chegar ao ponto em que ela chegou. Sem absolutamente nada, despojada do pouco que havia juntado (e que era seu mundo, sua âncora), ela finalmente se sente livre para tomar outro caminho. As noites de Cabíria – na rua e as da alma – terminam quando ela se vê como no momento do nascimento: sem nada. No rosto, não correm lágrimas. Há apenas uma, fixa, como uma tatuagem para representar e lembrar eternamente todas as dores. Há também um sorriso. Não aqueles fugazes das ilusões, mas um que vai se desenhando aos poucos, nascendo da rispidez do rosto sempre contraído. É um parto. Uma nova vida que aparece depois de muito tempo, de muitas dores, de fortes contrações.

Após o medo inicial, ela implora ao responsável pela última ilusão: “Mate-me! Mate-me! Não quero mais viver!” Não quer mais viver daquele jeito. É necessário morrer para nascer de novo. “Ammazzami! Ammazzami! Non voglio più vivere!

A noite e o frio da alma morrem. Quase arrisco dizer que Cabíria morreu na última (e boa noite) de inverno, e renasceu Maria no primeiro dia da primavera. É assim comigo. Renasço a cada setembro.

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Necrológio de agosto

Meus amores morrem em agosto. Mês de fortes ventos de contrariedade. Sopram, destroem, levam embora. E se algo restou de um agosto passado, o atual se encarrega de enterrar de novo, novamente e quantas vezes for preciso.

Já existe caso para pensar em comemorar aniversário de morte. Conferir a sepultura, jogar mais cal e terra, reforçar o cimento, rezar pela finada para que fique onde estiver, desde que bem longe. Alma penada, vade retro!

Misturam-se canções de outros agostos, poemas de desgostos…   Um grande amor não acaba assim. Acaba, sim!… O nosso amor a gente inventa… e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu… Não vou mais ficar aqui sem compreender… sei que tudo há de vir no seu devido tempo… Aceito as coisas como devem ser… matando o amor em mim… Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor…. Porque todo coração é burro e o meu é mais.

Na máscara mortuária, de pedra como são todas, não há emoção. Nem mesmo um sorriso para comemorar a efeméride do desamor. Só distância e uma tranquilidade assustadora, dessas de cemitério pós Dia de Finados, quando todos já amenizaram suas culpas com flores. Desamar se aprende desamando. Em face dos últimos, penúltimos e antepenúltimos acontecimentos desses agostos, só resta perguntar e implorar: Quem inventou o amor? Desinventa, por favor!


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Mais forte que ela

Amy por OrlandeliNaquele julho de 1990, chorei durante horas. Deitado na cama, som nas alturas, cantava e chorava. Eu tinha 18 anos e a morte de Cazuza representava a morte da geração dos meus ídolos e de parte dos meus sonhos. Representava também o medo de uma doença avassaladora, sobre a qual pouco se sabia. Seis anos depois, aos 24, a cena foi um pouco diferente. Eu já era pai, havia me separado e criava uma criança. Sem falar que, antes disso, havia perdido minha primeira esposa, grávida, aos 19 anos. Portanto, já não achava a mínima graça na morte. Meu foco já havia saído da minha vida – e de qualquer vazio que pudesse existir nela – para começar a se concentrar em sua continuidade, aquilo que ainda estaria aqui quando eu morresse: meus filhos, as ideias e o mundo que eu deixaria a eles. Em outubro de 1996, não chorei por Renato Russo. Eu me perguntei o que ele estava querendo dizer ao enterrar a geração dos meus ídolos. Por que eu idolatrava gente que se destruía?

Dia 23 de julho de 2011. Amy morreu. Não chorei. Minha parcela de dor reservada à morte ainda estava sendo usada pelos 92 inocentes assassinados, horas entes, por um maluco na Noruega e não achei justo redirecioná-la a alguém que vinha tentando se matar há mais de cinco anos. Amy podia esperar. Ou ter escolhido um dia melhor para morrer.

Insensível!” Se você pensou isso após ler as últimas frases, este texto é principalmente para você, tão sensível à morte de uma celebridade autodestrutiva e, provavelmente, tão indiferente a todas as mortes e mazelas que acontecem a todo instante.

Amy escolheu morrer. Demorou a conseguir isso, mas conseguiu. Parabéns. Antes de continuarmos, fique bem claro: sou fã de primeiríssima hora dela. Da voz dela. Desde quando ela era uma garotinha linda e cheia de curvas, antes mesmo de aparecer já esquisitona na capa de seu segundo disco. Sim, Amy “trouxe de volta a alma à música” e blá-blá-blá. Fez isso seis anos atrás e morreu logo em seguida. O que se viu nos últimos cinco anos foi um cadáver insepulto tentando lembrar as letras de suas próprias músicas e se manter em pé em um palco. Se você curtia essa aberração, se gostava do show de horrores que era a vida dela, entendo perfeitamente o motivo de ter chorado sua morte. Eu chorei quando a linda, talentosa e promissora menina Amy morreu cinco anos atrás, aos 22 anos.

Amy deixou uma obra maravilhosa? Não. Ela começou a desenhar uma e desceu colina abaixo. Ela deixou um disco muito legal. Ela explodiu e pronto. Acabou. Uma obra maravilhosa, vai ser deixada por Nana Caymmi. E duvido que o mundo vá se descabelar quando ela morrer. Amy era uma grande artista? Não. Ela poderia ter sido. Um grande artista se cuida, cuida de sua saúde, de seu corpo (que é ferramenta de trabalho), quer sempre estar bem para seu público, para melhorar sua arte, para produzir sempre mais e melhor.  E qual o motivo de tanta comoção pela morte de Amy? É porque as pessoas gostariam de ser iguais a ela. Desejam ter talento, sucesso, dinheiro, reconhecimento e até a impossível juventude eterna. No entanto, não vejo uma só pessoa pagando o preço disso tudo. Vejo pessoas com vidas comuns e atitudes comuns, contentes com suas pequenas conquistas – um emprego (preferencialmente que dê pouco trabalho e pague bem), alguns cartões de crédito, roupas, um carro, uma aposentadoria –, sentadas na frente da TV ou do computador, vigiando e vivendo a vida de outras pessoas. Elegem um ídolo e esperam seu martírio, seu sacrifício. Ele morre e todos continuam suas vidas comuns. Elegem outro e repete-se o processo. Por ora, seus pecados estão perdoados. Amy morreu por vocês. E há quem se sinta no céu graças ao sacrifício dela.

O ídolo Amy tinha pés e alma de barro. Frágeis, não demoraram a quebrar. Morta, milhares de pessoas em todo o mundo declararam amor por ela. Enquanto viva, não houve um só que realmente a amasse a ponto de ficar ao seu lado, tratá-la como ser humano, dar carinho, atenção e tirá-la do buraco em que se meteu.

Conheci várias pessoas que morreram por overdose ou outra consequência do uso exagerado de drogas. Nenhuma que tenha feito ou deixado algo genial. Cada uma delas era, como qualquer viciado, alguém frágil demais para enfrentar o mundo “de cara”, de peito aberto. Preferia se mudar para um universo paralelo no qual podia acreditar ser um gênio, um super-homem, alguém especial. O único legado que deixaram foi o da hipocrisia. Quem fica – e age do mesmo jeito – diz que o outro “morreu do coração”, “de uma doença misteriosa”, “não se sabe de quê”. Onde fica a “atitude rock’n'roll nessa hora? Ponha na lápide: Orgulhosamente morto por overdose. Consegui! Yeaaaah! Mas se a vida foi uma mentira, por que não perpetuá-la na morte?

O discurso de rebeldia, de contracultura, de viver a mil, parece muito bonito, muito sedutor. Principalmente quando não é você quem precisa morrer para dar autenticidade a ele. Assim, é mole ser doidão!

Amy era igual a Janis? A Hendrix? A Morrison? Em quê? Na estupidez da juventude? No vazio existencial? No desequilíbrio emocional? E nós? Ainda somos tão iguais aos de 30, 40 anos atrás e não aprendemos nada? Muito doidão dos anos 60 percebeu a idiotice de se matar e, a cada uma dessas mortes, já avisava a todos que pegassem leve. Vivam, façam o que quiserem, sejam livres, mas não se matem. E estão aí, aos 70, 80 anos. Pergunte a qualquer um deles se preferiria ter morrido aos vinte.

Dez anos a mil? Mil anos a dez? Parece mais sábio viver cem anos a cem. Sem acelerar muito, sem criar limo, dando tempo e trato às nossas potencialidades. Quem ama a vida é correspondido. É amado por ela. Um ano, uma década ou meio século a mais é sempre bem-vindo.

Meus heróis não morreram de overdose. Meus heróis vivem tanto quanto possível e da melhor maneira, sem confundir intensidade com autodestruição.

Por mim, Amy, você não precisaria ter ido. Poderia ter ficado muito mais tempo cantando, encantando ou simplesmente vivendo e sendo feliz.

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Ilustração mui gentilmente cedida por Orlandeli

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Carta ao meu pequeno Hemingway

Meu pequeno Hemingway,

É com as bênçãos do menino de Itabira que inicio esta carta de presente e principalmente de futuro, pois você viverá uma riqueza de anos e, talvez, ela guarde alguns bons conselhos a serem usados no tempo certo.

Você foi o terceiro, mas também foi o primeiro. Ganhou um pai mais velho e mais experiente. Lembre de agradecer às suas irmãs por terem sido boas cobaias. Você pegou um paí – como chama a todo instante – mais paciente, compreensivo e sem exigências além de boa educação e bom caráter. Já não tenho aqueles pensamentos bobos de “meu filho vai ser assim”, “meu filho vai ser isso”. Poderia ser uma carga enorme para você, único homem e última esperança. Mas não será. Prometo e firmo compromisso público. Tendo bom coração e sendo honesto, tudo que você fizer será bem feito. E terá meu apoio.

Com seu nome, você pode ser o que quiser: rei, papa, escritor e até poeta (basta usar o Castro Alves do final). Se escolher este último, por favor, exerça-o com rigor e não como os que vemos hoje por aí, a rimar, feijão com macarrão, sem métrica ou dor, fingindo talento. Inspire-se nos grandes, ouça seu coração e siga em frente.

Esta semana, você, sempre cheio de energia e disposto a pular sobre todas as coisas, dispensou um raro dia de sol deste julho ao ser convidado a ir ao parque.  “Vamos, mas vou levar um livro, uma revista e um caderno de anotações”, respondeu, sem tirar os olhos da mesa repleta de papéis. Com o pai e a mãe que o destino lhe arranjou, isso não chega a ser uma surpresa. Sua sorte é que você vai poder ler e escrever à vontade sem que ninguém ao seu redor ache estranho. Acredite: eu era visto como “uma criança estranha” por conta disso. Você não imagina o que é ouvir algo como: “Quer ser escritor? Que bonitinho! E profissionalmente?” Este é um mundo estranho, cheio de pessoas estranhas. E este no qual você desembarcou é ainda mais que aquele que conheci em meus primeiros anos. Se a coisa continuar involuindo desse jeito, você vai viver entre símios que eventualmente usam roupas. Não se preocupe. Construiremos uma fortaleza com nossos livros. Lutaremos até o fim pelo direito de ser um humano que pensa.

Vá anotando tudo em seus caderninhos. Todas as ideias. Elas fogem fácil. São ainda mais volúveis que as pessoas que escrevem. Se não cuidamos delas, logo se entregam a outro. O segredo para lidar com elas é o mesmo para lidar com pessoas: seja dedicado, atencioso, demonstre seu carinho, vez por outra faça vista grossa às imperfeições delas, não espere nada em troca e não desista se lhe trouxerem algumas decepções. Se você acredita nelas, fique firme. Em algum momento, o relacionamento renderá belos frutos.

Sabe o que você estava anotando neste momento da foto? Que eu estava chato porque não queria largar sua mão enquanto andávamos na rua. O sentido desse registro mudará com o tempo. A chatice de hoje será vista como cuidado, proteção, e você fará o mesmo com seu filho. E vai achar graça, às escondidas, quando ele disser que você está chato.

Anote também as respostas às perguntas que me faz. Hoje, funciona assim: você pergunta, eu respondo, você se admira. “Como é que você sabe?!”. Eu: “Pai serve para isso.” Você: “Para saber tudo?” Sorrio, dou uma piscada de olho e o deixo acreditar que sim. Desta forma, você vai ficando certo de que sou um porto seguro e de que existe algum lugar onde é possível encontrar todas as respostas. Um dia, vai descobrir que eu sabia muito pouco e que o tal lugar é dentro de você mesmo.

E sobre acreditar, saiba que tudo existe. “Mas isso existe?”, você pergunta. Tudo que quisermos que exista, existe. As pessoas vão tentar fazer com que você acredite no contrário. Não caia nessa. Os sem imaginação só conseguem acreditar que não se deve acreditar.  E por isso o mundo anda do jeito que está. Mas, acredite, tudo pode ser melhor. Muito melhor. Quem escreve cria mundos. Como você quer que seja o seu?

Preciso terminar. Seu eu presente está passando um carrinho em minhas costas e me chamando para brincar. Você ainda é uma criança e sabe exercer muito bem os benefícios da infância.  Quanto ao futuro – sobre o qual você pergunta a toda hora –, não se preocupe. Deixe isso comigo. Viva sempre o presente. Ocupe-se dele e qualquer futuro que você imaginar, realmente existirá.

Beijo. Eu te amo. Boa noite. Bons sonhos.

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Telhados de Paris

Pour Ananda, ma petite Potisienne

Nei,

Parece que não há vento. Pode ver. As árvores, ao canto, estão cansadas de qualquer ballet. Ananda, com sua faixa branca nos cabelos, inventa fotos para mim, para eu escrever algo assim, sem necessidade de rima, mas de um fim. Sem pressa, sem correrias pela Champs-Élysées ou pelo Louvre, sem empurra-empurra-de-turistas-vamos-logo-que-tem-mais-gente-pra-ver. Só uma janela em cruz e uma paisagem tão comum, do jeito que você disse. Mas essas casas velhas falam alguma coisa. E no verão não se acha a tal luz que acaricia a dureza cor de giz. Cada janela, um país. Vê alguém nelas? neles? a defender seu território? Um silêncio que grita até em foto.

O tempo se vai e logo acabam as férias. Há tempos, ela desistiu de atualizar o caderno de viagens, dos planos de contar tudo, de falar de todos os cantos, de aprovar ou desaprovar os passeios com os cantos des yeux ou de la bouche. O resto do texto serve para dizer a ela que aproveite essa doce loucura que nos leva a lugares tão distantes, mas sem jamais separar nossos corações. Que ponha seus olhos a registrar tudo, enquanto os meus estão aqui, doidos, doidos, tão doidos para revê-la. Bisou.

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O homem a olhar o mar de Copacabana

A água ficava mais distante. Bem mais. A calçada era estreita; os desenhos das ondas, menores. Largava-se no banco, sem medos, a olhar meninas em maiôs. Todas de generosas curvas, para combinar com a geografia do bairro. A bossa, novíssima, trilha de seus balanços. Os prédios já existiam aos montes, mais baixos, pouco maiores que o Copa e seu charme francês. Ah, o Copa! Quem diria que este lugar onde estou, do outro lado da Atlântica, faria parte da calçada dele? Saía-se do hotel e, em meia dúzia de passos, já se estava entre um Cadilac e um Buick, com o pé na única pista de mão dupla. Olhava-se para um lado e outro, mas sem preocupação. Tudo era um desfile. Não havia pressa. Mais alguns passos e aqui estamos. Um banco, a areia, o mar ao longe, sem qualquer acordo ou obrigação, só se exibindo em sua magnitude e sua frieza. Às vezes, ele se cansa dos nativos e dos gringos. Some com a areia. Vem lamber os prédios. Faz que vai engolir tudo. Parece coisa de quem está enlouquecido, perdido de amor. Depois se acalma e nos devolve a Princesinha para que as nossas voltem a aparecer também. Encantados e cheios de respeito, reconhecemos que existem praias lindas, mas nenhuma com tamanho encanto. E só a ti, mesmo não merecedores de tua beleza, iremos amar.

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Veja a foto inteira

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Quase pretos ou quase brancos

Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia na oitava página e parei na análise de duas fotos da primeira edição da Life, de novembro de 1936, que mostravam a mistura de raças no Brasil.

Vejam as fotos, as legendas (traduzidas) e parte do meu texto.

Civilização é o nome que os brasileiros dão a esta escultura de um homem e uma mulher negróides, para uma nova raça brasileira que está emergindo dos portugueses misturados com negros e índios. (…) A despeito da estátua, os cidadãos do Rio, auto-intitulados cariocas, são predominantemente brancos. Mas muitos aristocratas brancos do Rio têm parentes pretos e, no negróide Norte do Brasil, uma gota de sangue branco faz um homem “branco”.

O homem com o chapéu preto (centro) é considerado praticamente branco no Brasil. Sua companhia na dança do subúrbio da Penha, no Rio, é muito mais clara, definitivamente com características europeias. Ela é uma mulher branca, acolhida e alegremente desposada por um homem “praticamente branco”. O jovem com casaco cinza e calça branca tem uma boa mistura de sangue indígena e português. Todos estes são mais claros que o homem branco do Norte do Brasil. Todos os negros brasileiros votam e vivem em termos de igualdade legal com os homens brancos puros.

Hoje, pela manhã, me deparo com a seguinte notícia no site da Veja:

Professor é acusado de mandar aluno africano clarear a cor

A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) solicitou a abertura de um processo administrativo disciplinar para apurar as denúncias de racismo contra um professor da instituição. Alunos do curso de Engenharia Química apontaram atos de discriminação do professor José Cloves Verde Saraiva contra o aluno africano Nuhu Ayuba, inscrito na disciplina Cálculo Vetorial. Saraiva já pediu desculpas e disse que a situação foi um mal-entendido.

Uma cópia da denúncia foi entregue ao Ministério Público Federal. “Informamos que o professor Cloves Saraiva vem sistematicamente agredindo nosso colega de turma Nuhu Ayuba, humilhando-o na frente de todos”, afirmaram os alunos na petição pública. Segundo os estudantes, o professor teria dito que Ayuba “deveria voltar à África e clarear a sua cor”.

Brasil, 1936, visto pelos americanos. Brasil, 2011, visto por nós mesmos.

O último parágrafo que escrevi ontem dizia o seguinte:

Independente da época e do contexto, preconceito racial (e por qualquer tipo de diferença) é uma estupidez indesculpável. No entanto, 75 anos depois, sendo brasileiro (portanto, vira-lata), vejo a legenda e a foto como o documento de uma época em que o Brasil buscava uma identidade racial, social, e não tinha o preconceito típico do americano. Esquecendo um pouco os comentários racistas, a foto é maravilhosa, não? Dispensa qualquer legenda ou interpretação. Retrata a verdadeira mistura que forma nosso povo e sua alegre convivência. Pelo menos nesse ponto, tínhamos tudo para sermos superiores, mais civilizados. Pena que, até nisso, o brasileiro tenha se americanizado.

Se a Ku Klux Klan aceitasse caboclos, esses brasileiros praticamente negros que se acham brancos poderiam ter seu clubinho.  Acho bem merecido quando esse tipo babaca de brasileiro é maltratado no exterior e se sente colocado no lugar onde todo racista deveria estar: abaixo de qualquer outro ser humano. Só lamento que, mesmo assim, não aprendam.  Seres desse tipo nunca aprendem. Nunca viram gente.

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DICA do mano BUCA DANTAS: Quase brancos, quase negros

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Minhas namoradas

Ele é namorador”, “Você namorou uma amiga minha” e “Conheci uma ex-namorada sua”. As frases me pareceram estranhas. Fiz as contas. Cinco, no máximo, poderiam dizer que foram minhas namoradas.  Uma deixou a vida e entrou para a História. Duas foram esposas, não tenho como negar. Uma passou a maior parte do tempo entre quatro paredes. Uma poderia ter sido a prova de que sei amar, mas não passou do estágio probatório, aliás, não chegou a configurar vínculo namoratício.

Amei apaixonadamente cada uma. Tivemos muito mais dias dos namorados do que tive, até agora, anos de vida. Todo dia é dia de amar e namorar. Desse dia inventado, que parece ser apenas para trocar presentes e fomentar a ilusão dos carentes, lembro de poucos. Também existiram, mas dois foram especiais. Dois dos meus amores nasceram no Dia dos Namorados.

Um nasceu, literalmente, no dia 12 de junho e estaria completando 40 anos hoje. Foi meu primeiro Amor. Outro nasceu em um 12 de junho, quando tivemos nosso primeiro beijo. Deste, surgiu a Bem-aventurada, que, para meu desespero, logo começará a ter seus próprios Dias dos Namorados.

Em número, foram poucas namoradas. E ninguém venha dizer que é mentira. Estou falando de namoro: beijos, abraços, vontade louca de rever, dias inteiros sem roupas, tudo mais sem importância. As duzentoutras não foram namoradas.

Quantos dias dos namorados ainda tenho pela frente? Incontáveis! Afinal, “a ficar sem bem-querer, a ter murcho o coração, preferível será ficar sem a vida”.

Feliz todo dia repleto de amor aos eternamente enamorados.

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Texto relacionado: Eu, que não sei desamar

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Enfim, um diagnóstico

Um mês inteiro indo a médicos para finalmente ter um diagnóstico: Endometrite clamidial em estágio avançado. É uma infecção tratável, mas que pode ser fatal. Eu poderia ter me assustado ao ouvir isso de um médico, até porque para ter essa doença, eu precisaria ter um útero. Mas o susto e a surpresa foram praticamente os mesmos quando o médico disse que tenho… algo que você vai saber mais adiante.

Vou pedir sua paciência para explicar como cheguei a este ponto e garanto que, em algum instante, você vai se identificar com o que vou dizer por já ter passado pela mesma experiência. Se não, garanto de novo, um dia irá passar e lembrará deste texto.

Eu não gosto de médicos. A frase precisa ser dita assim, começando com um enfático “Eu” e dando margem à generalização (estúpida como são todas). Minhas primeiras lembranças de idas ao médico vêm da infância. Eu fazia uma enjoativa viagem de ônibus do Méier ao bairro da Saúde, no Rio, para ir ao trabalho do meu pai, no Moinho Fluminense, para consultas com o Dr. Pedro. Não sei dizer se ele era clínico geral, médico do trabalho, pediatra ou tudo isso. Só sei que ele era um “médico clássico”, desses que fazem o paciente sentar, auscultam peito e costas, conferem boca, olhos e nariz, testam reflexos, dão batidinha com o dedo no abdômen, perguntam o que a pessoa está sentido, prescrevem uma receita e dizem que a gente se vê de novo dali a alguns dias. Dr. Pedro me assustava um pouco. Um homem de seus 60 anos, cabelos brancos, voz grave, olhar inquisidor lançado por cima dos óculos… Tudo isso parecia bem assustador para meus 5, 6 anos de idade. Além disso, da sala de espera ao consultório, tudo era absolutamente branco, inclusive o longo corredor vazio entre um e outro, que me dava a impressão de estar sendo levado a um local de torturas.

Eu não gosto de médicos. Aos 18 anos, já sem as fantasias infantis, me deparei com um extremamente arrogante, dono da verdade, do poder de vida e de morte, uma criatura aparentemente sem qualquer respeito por outro ser humano que não fosse ele mesmo, que tratava as pessoas como pedaços de carne que ele sabia consertar melhor que qualquer outro. Em dez dias, vi essa criatura mudando seu comportamento. Inicialmente, ele desprezava e gritava com enfermeiros e parentes de paciente, sempre estava certo e com absoluto controle de tudo. Nada estava além de seus conhecimentos. Quando minha esposa – aos 19 anos – tratada por uma equipe chefiada por ele, entrou em coma e todos os médicos sabiam que ela não sobreviveria por mais de 48 horas, a voz dele tomou outro tom, um volume bem mais baixo e o olhar deixava claro que ele não tinha a mínima ideia dos motivos daquele quadro. O deus falhou e não entendia o porquê. Pobre deus!

Eu não gosto de médicos. Para quem não conhece a anedota, aí vai: Sabe qual é a diferença entre médicos e jornalistas? O médico acha que é Deus, o jornalista tem certeza que é. Eles, os médicos, acham que podem vencer a morte. Nós, jornalistas, temos certeza que somos imortais, onipotentes e que podemos mudar o mundo. Portanto, arrogância por arrogância, a escola que frequentei me deixou bem mais gabaritado que qualquer médico.

Eu não gosto de remédios. Não gosto de qualquer tipo de droga – lícita ou não –, porque gosto de ter controle do meu corpo e da minha mente. Em relação aos remédios, tenho repulsa ainda maior por entender que tomá-los é uma questão de fé: preciso acreditar no médico que o receita, preciso acreditar em que o fabrica, preciso acreditar em quem vende… Para mim, é fé demais e isso não me cheira bem. Sou daqueles que quando sentem uma dor preferem deitar e esperar passar.  Se tenho febre, tomo banho frio. Se chego a tomar uma aspirina é porque devo estar com a cabeça estourando há dias e se tomo qualquer outra coisa é provável que alguém tenha quase me obrigado a isso.

Até o início deste mês de maio, eu havia passado 15 anos sem ir a um médico. Se não tive algo neste período? Tive. Uma besteira ou outra que passava com cama, descanso ou, em “casos extremos”, com algum remédio já conhecido. Por apenas duas vezes, nos dois últimos anos, recorri à “minha pediatra”. Na primeira, no final de 2009, por uma bola de ping-pong cheia de pus ter crescido na minha testa. Na segunda, há alguns meses, quando depois de duas semanas de cama e muita dor, finalmente me rendi e liguei para ela. Nesta última, diga-se, os exames que muito sabiamente ela solicitou, eu nem fiz. Minha tendência é sempre minimizar, deixar para lá, esperar que o próprio corpo se cure. Aquela coisa típica de homem que não se cuida. Admito minha estupidez em pensar que não tenho tempo para me preocupar com isso.

Um dos meus orgulhos é nunca ter feito uma operação, pelo menos não uma que necessitasse de anestesia geral e abrir o corpo. E eu gostaria muito de chegar ao fim da vida sem jamais ter precisado disso. Acho medieval e extremamente brutal ter que abrir o corpo para curá-lo. Considero absurda qualquer cirurgia movida por vaidade. Só entraria na faca se me convencessem de que seria a única maneira para curar algo muito grave. Só mesmo correndo risco de morte.

Um último traço para entender algo da minha personalidade e sobre minha afinidade com o ambiente médico-hospitalar. Lembro de, em 2005, ter tentado assistir um ou dois episódios de House. Era a primeira temporada. Não consegui. Nunca mais quis ver. Sempre ouvi muitos elogios à série e, sobretudo no ano passado, muita gente insistia para que eu fizesse nova tentativa, pois viam muitas semelhanças entre a minha personalidade e a do personagem principal (isolamento, descrença nos relacionamentos, constante análise comportamental quando obrigado a lidar com alguém e a total falta de surpresas quanto a isso, o sarcasmo…). Resolvi assistir. Tive grande dificuldade em atravessar as duas primeiras temporadas. A série é ótima, tem um excelente protagonista, ótimos atores, é bem dirigida, etc, mas um, somente um único e maldito motivo me desagradava profundamente e quase me fez desistir outra vez: a parte médica. Diagnósticos, convulsões, vômitos, desmaios, operações… Não tenho qualquer interesse por essas coisas. E quem me conhece um pouco mais, sabe da minha resistência em lidar – e perder tempo – com qualquer coisa que considere desagradável. Séries médicas, para mim, são bem desagradáveis. Assim como as policias. Não me interesso por tiros, barulho, violência. Também não me interesso por sangue, gente passando mal, doenças, operações, corpos abertos .

Chegamos ao meu diagnóstico, aquele que omiti no primeiro parágrafo. Depois deste histórico, de todo este relato, creio que ninguém duvida que prefiro ir ao inferno e enfrentar o cão do que ir a um hospital e lidar com um médico. Sabendo de tudo isso, você diria que sou… hipocondríaco? Pois foi esse o “diagnóstico” que recebi hoje.

Eu, Sandro Fortunato, me encontrando em uso e gozo de minhas faculdades mentais, livre de qualquer sugestão, induzimento ou caução, declaro para todos os fins que caso venha a desenvolver algum receio mórbido por minha saúde, associado a alguma doença imaginária, que gostaria também de ser tratado por um médico imaginário em um hospital imaginário tomando remédios imaginários.

Já contei aqui que na segunda crise renal que tive, há uns 15 anos, avancei pelos corredores do hospital, com aquela roupa que nem sei o nome, arrastando o soro e exigindo minha saída? E de lá, fui para o bar. Cerveja é o meu remédio.

Pois, então… uma ida de uns 5 minutos ao médico, um retorno para mostrar exames – todos ótimos, sou saudável, muito obrigado! – e escuto essa: “Você tem uma personalidade hipocondríaca.” Eu quis rir. Gargalhar nervosamente. Mas, diferente do médico, estou acostumado a lidar com gente e a ver o todo. Acredito saber os motivos de ele ter dito isso e é agora que você deve ficar mais atento. É a partir daqui que você vai começar a se identificar ou guardar a lembrança para se identificar no futuro, quando tiver uma experiência parecida.

Em alguns ofícios, é preciso saber ler pessoas. Eu, por exemplo, lido com memórias e depoimentos. Não posso acreditar apenas no que ouço. Às vezes, uma pessoa fala muito bem de alguém, mas, ao mesmo tempo, o corpo dá vários sinais de que aquilo não é verdade, de que ela NÃO está pensando aquilo. Preciso ficar atento a tudo que ela me diz e a esses sinais. Mais tarde, vou exigir uma contraprova e, invariavelmente, a verdade aparece. Se eu apenas acreditasse em uma coisa ou outra, meu “diagnóstico” seria falho. House, o médico da ficção, lembra o tempo inteiro: TODO MUNDO MENTE. Mesmo sem querer, mesmo sem saber ou perceber. Quem lida com seres humanos – médicos, psicólogos, jornalistas, escritores, biógrafos… – precisa saber ler todos os idiomas que uma pessoa fala. A superficialidade do jornalismo atual, assim como a superficialidade do diagnóstico médico atual (que é tema central deste texto), começa em não se saber fazer adequadamente tais leituras, em não dar atenção a todas as informações que chegam.

Eis os erros de leitura – ou as leituras superficiais – desta história… Na primeira consulta, que fui por ter sido encaminhado pela Clínica Geral, foi constatado que eu não tinha qualquer alteração naquela área. Por mim, nem teria procurado tal especialista. Mas fiz questão de dizer a ele que não ia a médicos há uma década e meia e que, por conta das dores lombares, havia decidido fazer um check-up (guarde esta palavra: check-up). Fui dispensado e convidado a voltar com exames de sangue para ver se eles mostravam algo. Nada. Niente. Rien de rien. Surpresa alguma para mim. Vegetariano há quase 20 anos, evito comida industrializada, nunca fumei, não uso drogas, só bebo cerveja e cada vez menos… Por que alguma coisa estaria alterada? Mas é o exame mais básico que um médico vai pedir. É uma fonte de informação importante. Tudo visto, escuto a tal sentença: “Já tinha percebido: você tem uma personalidade hipocondríaca.

Até acredito que alguém que “não tem nada e está procurando” – o que definitivamente não é  o meu caso – possa ter “uma personalidade hipocondríaca”. Mas acho que algo mais no meu comportamento e algo que eu disse, fizeram o médico achar isso. Primeiro: perguntei o que deveria dizer à Clínica geral, já que ela havia pedido que eu fosse a ele. Nada. Que estou ótimo. Ok. Segundo: comentei que me impressionava a inexistência de histórico médico no Brasil e da falta de comunicação (minha área) e, portanto, de troca de conhecimento, entre médicos de uma mesma pessoa. Terceiro – e aí vem a confissão do meu pecado mortal: toda vez que chego para uma consulta, levo tudo anotado para não esquecer nada, não omitir, não mentir sem querer e, agindo assim, facilitar o trabalho do médico, dando a ele todas as informações que eu tiver. Da mesma forma, tudo que o médico diz, eu anoto: pressão, comentários sobre um sintoma, sugestão, nome da alteração, nome de exames, de remédio, etc. Um exemplo: esta semana, tive dois sinais removidos. Perguntei ao médico que tipos de sinais eram. Anotei.  Se daqui a 20 anos eu tiver algo parecido ou se um filho meu apresentar algo assim, onde quer que esteja, seja quem for que o médico, vou saber dizer a ele: “Já tive isso.

Minha caderneta de anotações parece ter incomodado terrivelmente. E imagino mesmo que possa ter parecido algo doentio, coisa de hipocondríaco. Também tenho certeza que os outros médicos QUE ME PERGUNTARAMO que você faz?”, mesmo sendo algo diferente do mundo deles, não se assustaram com esse comportamento. Afinal, tudo que faço na vida é escrever. Anoto ideias, anoto informações, levo isso de um lugar para outro, consulto o que foi anotado, escrevo, escrevo, escrevo… Sintoma de algo estranho, de alguma alteração, seria se eu NÃO fizesse isso.

Insisto no comentário sobre a necessidade da existência de um histórico – coisa básica, comum em qualquer país desenvolvido – e ouço a sentença definitiva sobre a nossa triste cultura: “No Brasil, nós temos uma medicina mais curativa.” Ou seja, aqui, o lance é adoecer para curar. Afinal, este é o ganha-pão dos médicos, não? NÃO. Eu teria muito mais prazer – e talvez me tornasse hipocondríaco, marcando muitas e muitas consultas – se os médicos usassem seus conhecimentos para jamais deixar que eu adoecesse, se a medicina fosse PREVENTIVA, como em qualquer país desenvolvido e civilizado. Isto é melhor e mais barato para quase todo mundo. Eu disse “barato”? Pois é… em uma cultura em que se vende a cura, barato não é uma coisa bem vista por quem comercializa o produto.

Dois pontos interessantes: 1) quando estava para começar esse check-up (lembra da palavra? típica de medicina preventiva; você confere se está tudo bem para não adoecer), comentei com uma amiga que isso poderia ser muito útil para mim, para que eu aprendesse a confiar mais nas pessoas. Como, pelo meu histórico, médicos seriam as últimas pessoas em quem eu confiaria, isso seria uma prova e tanto! 2) sempre tive tendência, em quase todas as áreas, a procurar profissionais mais experientes, com mais tempo de ofício. Pois tenho me surpreendido com os médicos mais jovens, que OUVEM, dão respostas, explicam e evitam prescrever remédios. Só para lembrar: o hipocondríaco aqui detesta remédios.

Essa tentativa de relacionamento não poderia mesmo dar certo. Sou saudável e os médicos não se interessam por mim.  E eu não me interesso por uma medicina que não se interessa por mim, que não me quer saudável.

Da sala de espera (aqui e aqui), passei para dentro dos consultórios. Na sequência, virão outros textos com minhas observações sobre a prática médica (passei por nove especialistas este mês). Sobre o que não gostei de ver e experimentar, vou falar sem dar nomes. Sobre o que gostei, farei questão de nomear os responsáveis. Até lá, comentem sobre suas experiências.

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As árvores da Jundiaí

As árvores da Rua Jundiaí ainda resistem. De certa forma, não existem, pois quase ninguém lhes dá atenção. Mas continuam lá. Somem casas antigas, dando lugar aos prédios – sempre esses malditos –, e muitas árvores vão com elas. As da Jundiaí continuam firmes e soberanas.

A agradável sombra verde da natureza vai se transformando na desagradável sombra do concreto. Até as clínicas médicas da Jundiaí vão recuando diante dessa força. É o bullying dos arranha-céus. Chegam aos bandos, fazendo barulho, se dizendo donos do pedaço, pondo abaixo qualquer disposição contrária. As árvores são os gordinhos dessa história. São as vítimas preferenciais.

Um vendedor de cavaco chinês passa batendo seu triângulo como um profeta a gritar que o fim está próximo. As árvores da Jundiaí testemunham o que ainda hoje parece transgressor para a reacionária Natal: dois homens andando de mãos dadas. De um lugar qualquer, três pessoas se jogam à calçada para ver o acontecimento: um jovem indisfarçavelmente efeminado, talvez admirado com tanto heroísmo; uma senhora em tudo mediana comentando que “Tá vendo?! Eu não disse? Pode sim. É o amor.”; e seu filho, 8 ou 9 anos, sem saber o porquê, já repetindo o sorriso nervoso e os olhos esbugalhados dos outros dois personagens. São tempos de homoafetividade sem medo, mas ainda de vergonhosos comportamentos troglossexuais.

Fiquemos com as árvores, que são mudas, discretas e respeitadoras. A que fica na esquina da Campos Sales sempre ignorou o poder do asfalto que a cerca. Ignora até o trânsito. Já estava ali antes de inventarem rua, calçada, meio-fio, essas civilizices. Parece estar morrendo, mas resolveu ignorar a morte também. Como não encontram solo, seus filhos nascem do seu próprio tronco, que aprendeu a recolher as sementes e fazê-las brotar. Quando outras maldades humanas condenarem seu corpo, outros já estarão se fortalecendo no mesmo lugar. A mãe pode ser cortada, mas a família não sai dali de jeito algum.

As árvores da Jundiaí talvez resistam a tudo e a todos. São enormes e unidas. Literalmente. As que estão em uma calçada se encontram com as que estão do outro lado da rua. Abraçadas em um pacto silencioso de sobrevivência, privam os humanos, seus inimigos, do sol necessário.  Porém, a intenção pode ser outra, pacífica. Podem estar formando um lugar mais agradável, no qual se pode fugir do sol inclemente e de onde quase não se podem ver os prédios tomando conta da cidade.

Eu, prefeito, devolveria o trecho que fica entre a Prudente de Morais e a Campos Sales às árvores da Jundiaí. Elas tomam conta da cidade melhor que qualquer pessoa.

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