Celhoca

Outra vez, a morte veio no carnaval. Outra vez, na sexta-feira. Deu um abraço na Célia – provavelmente com misericórdia e carinho – e fez um convite: “Vamos brincar em outro lugar?” Ela aceitou.

Há muito não brincava. Há muito não se divertia. Estivemos junto de julho a setembro do ano passado. Talvez não tenhamos passado tanto tempo juntos desde que ela saiu de casa, em 1978, após a morte da minha avó Mafalda. Eram loucas uma pela outra. Célia era sobrinha de minha avó, mas foi criada como filha. Sua mãe morreu quando ela ainda era pequena. Nunca perguntei quando isso aconteceu exatamente, portanto não sei dizer se a sobrinha se tornou filha antes do nascimento do meu pai – único filho biológico da minha avó –, depois ou mais ou menos na mesma época. Os primos-irmãos tinham seis anos de diferença. Moravam juntos com outros quatro primos, filhos da irmã mais velha. Eram assim as famílias italianas. Todos juntos, fazendo barulho, amando e odiando intensamente, berrando e chorando por tudo.

Meu pai, o mais novo dos seis primos, casou e teve um filho (este que vos). A famiglia continuou ali, se abrasileirando, mas ainda unida, em uma casa em Todos os Santos: meu pai, minha mãe, minha avó, meu avô e Célia, que além de sobrinha-filha, prima-irmã e dublê de cunhada, passava também a acumular a função de minha madrinha. Graças à onda das perucas e enormes óculos escuros dos anos 70, Célia parecia o Chico Xavier de vestido em meu batizado. Já adulto, eu costumava mostrar a foto e dizer: “Chico Xavier era católico, travesti e é minha madrinha.”

Órfã pela segunda vez após a morte da minha avó, Célia seguiu o sonho dos suburbanos solteiros daquela época: morar na Zona Sul. Fez uma escala na Tijuca e, em meados dos anos 80, se estabeleceu em Copacabana, de onde nunca mais saiu. “Aqui tem tudo”, dizia sempre. Era o mantra, repetido por três décadas, que a impedia de ver qualquer outra possibilidade de vida além de Copa. O tudo era quase nada. O mercado, a padaria, a farmácia e o banco a, no máximo, um quarteirão de distância. E havia também os amigos. Muitos foram desaparecendo nessa estrada. Alguns mudaram, outros morreram, outros eram apenas colegas e passaram. Só não Laizi e Miriam. Estas estiveram sempre ali, por perto, prontas para qualquer coisa, até o fim. São de uma espécie em extinção.

Em agosto de 2012, o garoto da foto que ilustra este texto perguntou a Célia o que lhe dava alegria, o que lhe dava motivação. Ouviu como resposta um “acho que nada”, uma pausa e uma conclusão: “só os cachorros”. Era difícil fazê-la deixar o pequeno apartamento. Caminhávamos pelo calçadão depois de sua décima desculpa diária para não sair. Com uma piada ou outra, o riso, que também teimava em se esconder, aparecia. O olhar ia para algum lugar, provavelmente no passado, onde era mais fácil ser feliz. E o que era difícil para mim, era extremamente simples para um cachorro. Para qualquer um desses metidinhos de Copacabana. Bastava aparecer um para ela se derreter, sorrir, pegar no colo, abraçar, beijar, perguntar como estava. Do Posto 3 à Pedra do Leme, conhecia os nomes de todos os cachorros que encontrava, mas não dos seus humanos. Sabia dos históricos de todos eles: as doenças que tiveram, as brigas com outros cães, fugas, aventuras, cruzamentos… Às vezes, acho que não era o antigo glamour de Copacabana em suas lembranças, a facilidade de acesso, o bairro que tem tudo, a praia (que ela não encarava havia mais de uma década) ou qualquer outra coisa que não a deixava sair dali. Eram os cachorros. Quando seu último companheiro canino morreu, há alguns anos, contentava-se com os das amigas. Não queria outro morando com ela. Não iria aguentar outra perda.

Foi-se a Celinha, a Celhoca, a Célia da tia Mafalda. Se existe céu, o da Célia deve ser parecido com a Pracinha do Leme: com um monte de cachorros soltos, correndo, comendo besteiras, enquanto ela grita o nome de cada um deles, sorrindo, sorrindo, sorrindo…

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Hamlet

Algo está a acontecer no reino dos Clowns.  Logo no início de sua versão de Hamlet, todos são Hamlet. Se você, como eu, acompanha a história dos Clowns de Shakespeare desde seu início, há vinte anos, faz imediatamente a leitura de que ali está um grupo unido e no qual cada um está preparado para fazer qualquer papel. O principal não vai ficar com o melhor ou com o mais experiente ator. O ego – e talvez até o óbvio e o mais sensato – parece ser deixado de lado para que o grupo seja beneficiado. Nos Clowns de Shakespeare, todos são brancos e augustos, todos são principais e secundários, estrelas e escadas. Eles são mais fortes como grupo e parecem saber disso. Ou tudo isso pode ser apenas uma impressão muito pessoal. Eles podem estar cansados, podem ter suas intrigas e desentendimentos, suas estrelas e seus candidatos a estrelas, privilegiados e depreciados, mas no palco de seu Hamlet, o que aparece é um grupo forte, coeso, que se entende como tal e se aproveita disso, buscando equilibrar faltas e excessos.

Hamlet não é uma peça qualquer. Hamlet não é um personagem qualquer. Nem mesmo são uma peça qualquer e um personagem qualquer de Shakespeare. É uma história tão contada e recontada durante quatro séculos que deixou de ser peça/personagem e passou a ser algo que faz parte da vida de todos. Quem nunca ouviu ou repetiu versões de frases como “Ser ou não ser. Eis a questão.” e “Há mais mistérios no céu e na terra…”? E quem irá dizê-las pela enésima vez com a força necessária para que acreditemos que é mesmo Hamlet quem as está dizendo? O ator mais experiente da companhia? O que já esteve em um papel principal e tem grande empatia com o público? Ou um ator mais novo, menos experiente e menos conhecido? Paulo Autran fez cinco peças de Shakespeare (Hamlet não foi uma delas). Walmor Chagas foi Hamlet logo depois da morte de Cacilda Becker (o que deve ter pesado consideravelmente em sua interpretação). Hoje, os tempos são outros. O Capitão Nascimento pode ser Hamlet. Thiago Jesus-crucificado-de-cuecas-sorrindo-e-acenando-para-os-fãs Lacerda pode ser Hamlet. Sendo assim, os Clowns poderiam escolher qualquer um de seus atores sem medo de que não fosse, no mínimo e até então, o melhor Hamlet deste século nos palcos brasileiros. Para viver o atormentado príncipe, é preciso ser jovem. Quanto a isso, não vejo impedimentos para César Ferrário ou Marco França fazê-lo. Por outro lado, Hamlet me parece exigir, por vezes, uma fragilidade que seria difícil engolir em uma figura com o porte físico de um ou outro. Não sei como se deu a escolha, mas quem ficou com o papel foi Joel Monteiro.

Confesso minha desconfiança inicial. Eu o vi (e gostei muito) em Sua Incelença, Ricardo III. E só. Não dava para avaliar e tentar fazer uma projeção. Mas eu sou apenas um espectador dos Clowns há vinte anos. Os Clowns são os Clowns há vinte anos! E devem saber muito bem o que estão fazendo. A peça já havia estreado oficialmente há alguns dias em Natal e feito uma passagem por Recife. Assisti no primeiro dia da temporada e, por isso, acharia cruel e estúpido ser excessivamente crítico. É preciso algum tempo para saber o que funciona ou não, para fazer correções e azeitar toda a engrenagem. Minha impressão foi de que acertaram na escolha de Joel. Ele transitou bem entre a loucura e a lucidez, e o posicionamento e luz adequados ajudaram bastante na maior parte do tempo. Em alguns poucos momentos, me pareceu cansado, sem a ênfase necessária na voz e sem o auxílio necessário do restante, como no final. A última frase de Hamlet (“O resto é silêncio.”), se bem pontuada e com a luz cortada no mesmo instante não deixaria dúvida, aos que não conhecem a peça, de que ela termina ali. Nem aos que conhecem e pudessem estar esperando um arremate feito por Horácio. Creio que esse tempo perfeito será atingido.

Houve um ligeiro hiato entre o encerramento da peça e o começo das palmas. Tempo suficiente para que eu pensasse: “Será que o público sabe que acabou?” Mas qual é o público dos Clowns hoje? Parece ser diferente do que víamos há alguns anos. Ou não. Apenas se depararam com a mudança do grupo e ainda não aprenderam a reagir às novidades. Ri-se menos em Hamlet. Era de se esperar. É uma tragédia. Os “velhos Clowns”, que poderiam ser mais facilmente reconhecidos pelo público que vai ao teatro em busca de risos, aparecem oportunamente no momento em que a peça mostra o teatro dentro do teatro, quando surge o grupo de atores que será usado por Hamlet para fazer aflorar a culpa de Claudius. O riso também aparece por conta de César Ferrário, como Polônio. César é o principal responsável por saciar a plateia que busca rir, mas é também quem empresta a dramaticidade necessária a outro personagem – Laertes – a ponto de fazer surgir a esperança de outros que, como eu, sonham em vê-lo atuando de forma mais grave. Talvez nem tenha sido essa a real ou a principal intenção, mas foi o que vi. Seja na literatura, no teatro ou no cinema, uma coisa é o que se pretende mostrar, infinitas outras são as leituras que fazemos. Em rápida conversa com ele, após a apresentação, lembrei um papo que tive com Cássio Scapin, em 2006, sobre a reação da plateia em Quando Nietzsche Chorou, em que ele fazia Nietzsche. Sempre achei que o humor do filósofo fosse de causar incômodo aos que se sentissem acusados ou discretas expressões de escárnio aos que compartilhassem de sua opinião, nunca gargalhadas como as que escutei do público da peça.  Julguei que isso fosse causado pela “crença” do público médio de que teatro é para fazer rir. Ainda hoje, creio não estar errado. De lá para cá, os idiotas se multiplicaram nos palcos com grosserias que chamam de humor, e o público de hienas deu cria como se fosse um bando de coelhos. Nos dias atuais, grupos de teatro com atores de verdade, principalmente os mais voltados à comédia, precisam buscar um difícil equilíbrio entre o humor, a arte e o bom gosto. E não caírem na tentação de agradar à necessidade de humor grosseiro de um público idiotizado, criado com comédias americanas e televisão. Com Hamlet, os Clowns me parecem suficientemente maduros e livres desse risco.

Camille Carvalho (Rosencratz), Paula Queiroz (Guildenstern) e Dudu Galvão (Horácio) cumprem bem suas funções. A veterana Renata Kaiser, no ingrato papel de Gertrudes, também. Marco França, como o fantasma do pai de Hamlet, me fez acreditar que Ricardo III estava de volta. Como o coveiro, me fez lembrar Corniso, de Muito Barulho por Quase Nada. Ainda que lhe caiam bem os papéis de monarca arrogante ou criatura ordinária, talvez esteja na hora de colocá-lo em outros tipos. Quem sabe em um papel feminino, delicado, de gestos contidos, sem voz retumbante. Seria interessante.

Propositalmente – e como de costume – deixei para falar sobre Titina Medeiros por último. Com uma diferença: desta vez, falo mesmo. Nunca consegui me afastar o suficiente para entender que aquela garota destrambelhada, de 15 ou 16 anos, que acabava de chegar a Natal, e que conheci como secretária de uma revista onde eu trabalhava, havia se tornado atriz. Sempre temi ser paternalista e “achar bonitinho” tudo que ela fizesse. Foi necessário atravessar uma perigosa ponte (chamada “novela de televisão”) onde, de um lado estava a rainha Elizabeth (de Ricardo III) e, do outro, Ofélia (de Hamlet) para eu entender no que ela havia se transformado. O primeiro instante em que ela aparece, quando tira a máscara de Hamlet, pensei: “Socorro morreu!” Mesmo calada, não havia qualquer resquício de sua personagem na novela Cheias de Charme. Acho até que se alguém for assistir a Hamlet procurando por aquela “atriz da novela”, corre o risco de nem reconhecê-la. Ninguém sai de uma rainha Elizabet, passa por uma Socorro e se transforma em Ofélia impunemente ou de uma hora para outra. “A revelação de 2012 na tevê” era revelação só na tevê e para quem não a conhecia. Lá se vão mais de quinze anos no palco, aquele lugar onde se formam os atores de verdade. Além de todo seu talento, Titina tem experiência, tem estrada. Ofélia não é só mais um papel ou um de seus melhores papéis. Ofélia mostra o quanto amadureceu. Rosto, corpo, voz, tudo está diferente e melhor do que em qualquer época. Amadureceu como atriz a ponto de recusar emendar outro sucesso popular na televisão.  Preferiu o caminho mais difícil, mais longo, mais duro, porém, o único capaz de trazer reconhecimento verdadeiro, duradouro.  Parece ter ouvido os conselhos de Laertes: “Cuidado, Ofélia, cuidado, minha querida irmã! Mantenha-se na retaguarda dos anseios, fora da mira e dos perigos do desejo.

Repito minha máxima: Se é Clowns, vá! Aos vinte anos, o grupo mostra o motivo de ser considerado um dos melhores do país. Cresceram, amadureceram e se tornaram deliciosamente trágicos, mas sem perder o humor. Já alcançaram o trono, mas não se acomodaram. Brincam em torno dele e convidam a todos. Uma salva geral!

(Marcha circense. Não há pano. Acendem-se as luzes. O público se mistura aos atores)

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Xingu por quem esteve lá

Em 2011, o Parque Indígena do Xingu completou 50 anos. Quando ouvi falar da produção do filme, lembrei imediatamente de Antonio Estevão, cinegrafista da produtora de Jean Manzon e irmão de Carlos Estevão, que em nossas conversas sobre suas aventuras sempre mudava o tom e dava mais ênfase ao falar das vezes em que esteve no Xingu e de seu contato com os índios e com os irmãos Villas Boas. Antonio rodou o mundo várias vezes, mas dizia que o Xingu era o lugar mais especial em que havia estado. Bem, vou deixar que ele mesmo conte e mostre isso publicando aqui trechos de seus relatos e fotos de seu acervo que ele gentilmente me confiou.

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Por Antonio Estevão

HÁBITOS E COSTUMES DO XINGU

Orlando Villas BoasRelatos de três incursões jornalísticas nos anos de 1970, 1972 e 1974, quando tive a honra de conhecer e conviver no Parque Nacional do Xingu com os irmãos Orlando (na foto ao lado) e Cláudio Villas Boas, durante a festa anual do Kuarup.

Meu intuito não é descrever a origem do nosso índio, sua história, cultura e hábitos, pois tudo isso já foi dito e feito por estudiosos. Quero apenas narrar episódios insólitos, de cunho humorístico e curioso observados por mim, cuja ótica é fixada na alegria contagiante dos índios, hábitos e costume do dia a dia.

A Orlando Villas Boas, minha gratidão pelo incomensurável conhecimento que me transmitiu da cultura indígena, nas tardes cálidas do Xingu, em companhia dos amigos Dr. Noel Nutels e do jornalista e escritor Antonio Callado. Orlando, com seu habitual entusiasmo e paixão pelos índios e seus direitos, narrava sua odisseia com as expedições de pacificação e tentativas de contato, suas táticas usadas com sucesso ou malogro, e o risco sempre presente.

BALAS E RAPADURAS

Todas as vezes que vamos realizar reportagens ou documentários no Xingu, para facilitar nosso trabalho com os índios, levamos presentes como redes, linhas, anzóis, facas, tesouras, machados, miçangas coloridas para colares, sabão, sabonete, panelas de alumínio, sacos com quilos de balas, açúcar e rapadura, que eram distribuídos com orientação dos funcionários do Parque. Todas essas coisas, além do nosso equipamento, ficavam junto às nossas redes, onde dormíamos, em um grande galpão sem portas.

Os grupos indígenas do Xingu vivem em ocas de uma só peça de sapé, de forma oval, coberta de palha. Nelas vivem as famílias, homens, mulheres e crianças em regime comunitário. Daí não ser considerado delito o hábito de pegarem objetos de outras pessoas e se apossarem desses com naturalidade. Atitude tolerada no convívio com os brancos.

Primeira noite no acampamento. Estava dormindo quando um leve roçar na rede me despertou. Num sobressalto, peguei minha lanterna e, para minha surpresa, vi um enorme índio de pé, pintado de vermelho e preto, estático, olhando para mim. Eu assustado, sentado na rede, tendo na minha frente uma imensa piroca à altura da minha cara. Tomei coragem e perguntei o que ele queria. “Eu sou o Fofinho e quero bala e rapadura.” E gesticulava apontado para a boca. Instintivamente, lhe entreguei um saco de balas. Ele desapareceu silenciosamente na escuridão. Assim foi minha primeira noite no Xingu. Um susto inesquecível.

IMAGEM QUE O TEMPO NÃO APAGA

Margem do rio Tatuari. Dez índios com pintura de guerra, armados com arcos e flechas, em uma canoa grande, descendo pela correnteza, em meio a borboletas de várias cores que, aos milhares, sobrevoam a margem do rio. Na canoa, os remadores marcando a cadência dos movimentos com urros, que iam se distanciando e se perdendo na curva do rio. As borboletas azuis e amarelas, indiferentes, voando em festa, colorindo a paisagem. Novamente o silêncio.

A PESCA

No rio Tatuari, mais acima, onde ele se alarga, entre lianas que pendem das árvores, vejo uma canoa que desliza suavemente, tendo na popa um índio, que sentado com o seu remo, a conduz em absoluto silêncio. Na proa, outro índio de pé, com seu arco retesado, postura de predador imóvel. Somente seus olhos se movem à procura da presa na água cristalina do rio. Os dois não se falam, mas instintivamente se comunicam com o mesmo objetivo de sobrevivência. O silêncio só é quebrado pelos pássaros. O arco retesado dispara a flecha. Ela atinge a presa, que se debate ao ser içada.

PESCA COM BOMBA

Já haviam terminado as festividades do Kuarup, a festa anual dos mortos. Os convidados haviam se retirado do parque, assim como as tribos convidadas. Eu e Allan (assistente de filmagem), pela convivência e pelos dias de trabalho, tínhamos nossa comunicação facilitada com os índios. Afastados, durante o banho no rio Tatuari, vimos aproximação de um grupo de índios sorridentes. À frente deles, um da tribo Yawalapiti segurando meia banana de dinamite, um pavio e uma caixa de fósforos, me pediu para fazer uma bomba para pescar. Pensei ser natural esse procedimento. Pedi ao Allan que pegasse papel prateado e barbante, que era o que tínhamos. Caprichei na bomba! Meti o pavio com a espoleta na banana e comecei a enrolar com bastante papel prateado e barbante. A bomba ficou linda. Do tamanho de uma bola de futebol. Só precisava de uma pedra para que ela afundasse. Um índio me passou uma pedra. Amarrei na bomba e estava tudo pronto. Os índios subiram em três canoas e se posicionaram para pegar os peixes mortos depois da explosão. Eram uns vinte índios. Eu, do alto da minha ignorância, gritei: “Lá vai!” Acendi o pavio e joguei a bomba na correnteza. Por azar, a pedra se soltou e a bomba flutuou calmamente, com o pavio aceso, em direção às canoas cheias de índios, que, apavorados, gritavam como loucos. Alguns se atiraram no rio, tentando fugir da explosão.

A bomba não tinha pressa. Flutuava com ironia, serena e devagar, alongando nossa agonia. Por fim, encostou em uma das canoas e BUM! Índios gritando e pulando para todos os lados. Um buraco imenso fez a canoa afundar. Os índios sumiram num passe de mágica. O rio Tatuari, silenciosamente, seguia o seu curso. Naquele dia, não vi mais nenhum índio. Não contei nada a Orlando.

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“Xingu”, o filme

Não há ninguém com boa vontade maior que a minha para assistir a um filme brasileiro. Nem precisa ser bom. Basta que seja honesto. As comédias caça-níqueis, deixo para os incautos ou para quando passar na tevê e o controle remoto estiver longe. Os que parecem bons e honestos, faço questão de ver no cinema (quase sempre um sacrifício para mim, pois ainda permitem a entrada de babuínos) e na primeira semana (para ajudar a garantir que tenha mais uma de exibição).

Era certo que veria Xingu. Por vários motivos. A temática me interessa, é baseado em fatos reias (não resisto a isso), não se passa em uma favela (não aguento mais), não tem ninguém inventando um “sotaque nordestino” e, melhor que tudo, não tem Selton Mello no elenco. Tem Felipe Camargo, que nunca foi lá essas coisas como ator, mas que me obrigo a respeitar por ter pegado Vera Fischer quando ela ainda estava na casa dos 30. E tem Caio Blat. O que dizer de um cara que pega Mariana Ximenes antes dos 18 anos, faz par romântico com Maria Flor e casa com Maria Ribeiro? Que é uma criatura insuportável. Além disso, tem aquela cara eterna de 20 anos e uma barba que eu não vou ter nem se deixar crescer pela próxima década inteira. Por mim, ele teria feito com mais realismo aquela cena inicial do suicídio em Batismo de Sangue. E tem João Miguel. Este, sim, um ator de responsa e que até perdoo por qualquer maldade que tenha feito com Hermila Guedes, moradora eterna do meu Top 10 de “Feinhas que são Lindas”.

Todo meu profundo despeito à parte, devo dizer que todos estão ótimos em Xingu. Inclusive Felipe Camargo, que considero bem limitado, cumpre seu papel. A passagem de tempo me pareceu um pouco acelerada e confusa. Depois de alguns “tantos anos depois”, já não se sabe muito bem em que ano a história está. Algumas vezes, como no dia da criação do Parque (14 de abril de 1961), a data é informada (neste caso, por uma notícia no rádio). Em outras, me guiei pelos personagens e acontecimentos políticos, mas é dispensável dizer que o brasileiro médio não costuma ter conhecimento histórico suficiente para isso. Se o recurso da legenda (com o qual antipatizo em filmes que não sejam documentários) foi tão usado, teria sido melhor informar o ano e não somente o tempo que se passou desde sabe-se lá quando. Do início da Expedição Roncador-Xingu até o decreto de criação do Parque, passam-se quase vinte anos. É verdade que esse ritmo acelerado não deixa o filme ficar monótono. Os planos abertos são um descanso para os olhos e os índios são o que há de melhor. Pode haver filme mais brasileiro do que aquele feito com índios? É o verdadeiro e maior encanto de Xingu. Do lugar e do filme. É gente de verdade. Com identidade.

Estes breves comentários têm pretensão somente de sugerir que os leitores assistam ao filme (preferencialmente na tela grande), de marcar a data (hoje, o decreto de criação do Parque completa 51 anos) e fazer uma introdução ao tema para mostrar um pouco do Xingu pela visão de quem esteve lá. Isto fica para a próxima postagem, que será feita neste domingo (15 de abril).

Quem for chegado a trailers (eu não sou; acho que quase sempre revelam mais do que deveriam), clique no vídeo abaixo.

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Quarenta

No terceiro dia, o blog não ressuscitou. Reapareceu na manhã do 40º aniversário de seu autor, mas ficou calado, acabrunhado, sorumbático, embezerrado e macambúzio. Fortemente adjetivado em silêncio. Mais três dias e, agora sim, ressuscita. Numa sexta, 13, lá sem muita paixão.

Há quarenta anos (e três dias) convivo comigo mesmo. Acordo, levanto, escovo os dentes, como, bebo, vou ao banheiro, me banho, me vejo nu, satisfaço as necessidades fisiológicas, conheço todas as minhas intimidades, leio, escrevo e durmo. Nunca passei um dia longe de mim. Sou extremamente tolerante comigo mesmo, nunca pensei em me separar, me amo cada vez mais e sei que essa união é para sempre. Nem a morte há de me separar de mim. Eu e eu voltaremos juntos ao pó e muito me aflige dizer isso, pois a rinite alérgica é outra que nunca me abandona.

Este para sempre não acaba. Pelo menos, não até chegar ao fim. Manhãs, tardes e noites, todas sempre juntinhos, sem enjoar. Não tenho TPM e imagino que isso facilite um pouco. Aguentei muita coisa calado, escrevi furtivamente sobre algumas angústias, mas nunca fui dormir brigado comigo. Na hora de deitar, tudo está em paz e é nessa hora em que sou mais cachorro, tentando ajeitar a coluna para encontrar a melhor posição para dormir. Tenho outra qualidade canina: sou fiel. A mim mesmo. E isso é coisa difícil de explicar a qualquer um que não o seja.

Minha vida em poucas palavras: nasci, mamei, cresci, escrevo, continuo mamando. Não sei fazer muita coisa além destas duas. Acredito que, assim como a rinite, tais atividades me acompanharão até o fim dos meus dias. Continuo em crescimento. Só a barriga. Mas quem respeita, sem desconfiança, um homem de quarenta que não tenha uma? Respeitem minhas tatuagens, meus cabelos brancos e meu tanquinho de chope!

Mesmo incrédulo, obedeci às ordens divinas. Cresci e multipliquei. Vi que isso era bom e fiquei ensaiando repetidas vezes. Ainda o faço, religiosamente, apesar de já ter cumprido minha parte para a preservação da espécie. Se, até aqui, não fui um ser humano mais interessante, é somente porque parei de ler ali no primeiro capítulo do Gênesis. Se há algo melhor que isso a fazer, não me interessa saber. Não quero comer do fruto do conhecimento.

Ainda me faltam os livros. Também tenho ensaiado intensamente para eles. Diferente dos espermatozoides, os neurônios vão ganhando qualidade com o tempo. Acreditem: terá sido melhor assim. Nunca gostei da ideia de publicar precocemente e morrer jovem para garantir a genialidade. Ou não perceberam que os jovens gênios que envelhecem acabam se mostrando gente da mais comum e mediana? Fui enrijecendo a carapaça e me preparando para caminhar uma longa distância. Nesse caminho, já vi muita lebre parando esbaforida, enfartando, exagerando na dose.

Acordei no 14.608º dia sem saber chamar esse numeral pelo nome e convicto de viver uma riqueza de anos. Falando menos, escrevendo mais. Apaixonando-me menos, amando mais. Mourejando na sagrada missão e mais atento ao aceno vindo da outra margem. Sem medo da travessia.

Também me falta plantar a tal árvore. Veja bem, Mãe Natureza, não matei qualquer animal nos últimos 19 anos. Tenho algum crédito. Se não plantei, foi por receio de criar raízes. Mas devo fazer isto antes do texto dos cinquenta.

Chi ben comincia è a metà dell’opera. Andiamo!

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Retrato Censurado do Grão-Mestre Varonil

•► Leia primeiro o post anterior: Retrato do Grão-Mestre Varonil

“Não fumo, não cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho.”

“A coisa que mais odeio é a hipocrisia. É a mentira da mentira.”
Tim Maia

Acredite: Não é Oscar Wilde. É o Tim Maia.Alto, loiro, branco, olhos azuis, porte atlético, requintado, sem vícios e com uma educação de causar inveja à realeza britânica. Assim era Sir Sebastião Rodrigues Maia, o Belo Brummel da Tijuca, esse aí da foto. Qualquer relação com aquele menino preto, gordo e pobre, preso várias vezes nos Estados Unidos e no Brasil, que bebia, fumava maconha, cheirava cocaína, arranjava confusão com meio mundo e que, adulto, atenderia pelo nome de Tim Maia é criação de alguma mente desequilibrada.

Pensamentos e atos nesse sentido, se descobertos, podem resultar em ação indenizatória ou coisa que o valha. Não que sejam proibidos. Expurgos, prisões, torturas, detenções e que tais podem ser utilizados não como castigo, mas como ação preventiva para eliminar quem possa talvez cometer tal crime futuramente. Tudo já avisado e reavisado pelo Senhor Orwell – alto, loiro, branco, etc – desde 1949 com referência a 1984 (facebook 21.01.2012 foto errata cueca degradante retifica refs impessoas apaga reescreve).

O Big Brother é real e bem diferente do que passa na sua teletela – aquilo, sim, bem degradante. O Ministério da Verdade não brinca em serviço e já mandou reescrever tudo. No caso, só apagar mesmo. Como mandaram apagar as fotos da Scarlett Johansson – loira, branca, linda, etc – e todas as cópias não autorizadas de quase tudo que já foi pensado e registrado da metade do século passado para cá. Chupa essa manga, Bial! O amor é lindo.

Sem temer a Polícia do Pensamento, levanto aqui algumas questões. Por que a foto de um artista, provocador e anárquico, vestindo apenas uma camisa rasgada e cueca é “degradante” para sua imagem e outra de uma modelo anoréxica com visíveis transtornos psiquiátricos é exemplo a ser seguido e pode valer milhares de dólares? Por que a do negro gordo de cueca parece um insulto e a do Elvis gordo não? Por que uma só foto feita por uma profissional de jornalismo, recebida por ele em seu quarto de hotel – de cueca e camisa rasgada –, é chocante e milhares de fotos da inglesa Amy – branca, ex-linda, etc – esquelética, chapada, desdentada, cheia de hematomas, perseguida onde quer que fosse e visivelmente contrariada com os registros dessa imagem não chocam? E, aproveitando essa última comparação, por que o negro gordo era picareta por não cantar ou faltar aos shows marcados, mas a branquinha magrela era atração ao fazer o mesmo e por um preço muito maior?

Por que a foto do Tim Maia de cueca é degradante para sua imagem e a do Pelé nu não é para a dele? E se em vez do corpo atlético e do dote avantajado, Pelé tivesse uma barriga enorme e um pinto pequeno? Talvez fosse meio degradante…

Por que a Carla Bruni, esquelética, pernas tortas, seios pequenos, meio flácidos e brigados (um não chega perto nem olha para o outro) é bonita e o Tim Maia é feio? Quem disse que é para ser assim? Para mim, ela é só uma branquela com talento para atrair homem rico e ele era um cara com um poder extraordinário na garganta, capaz de hipnotizar qualquer um que ouvisse sua voz. Tão poderoso que continua fazendo isso quase uma década e meia depois de morto.

Por que uma foto dele pode ser um insulto à sua memória e reeditar discos que ele se recusou a reeditar durante a vida inteira não é? Aliás, quem é que decide o que é bom ou não para a imagem de alguém que já morreu? Como perguntou um usuário do Facebook: “quem é o procurador dele? O Chico Xavier?!” É… porque tem que ser alguém que tenha bom trânsito entre os dois mundos e, até onde se sabe, Chico só era bom nisso quando estava do lado de cá.

Vamos partir para outra vertente. Por que Xuxa faz um filme comercial em que aparece na cama com um menor, depois se esforça para esconder isso, e um filme íntimo e totalmente explícito da americana Kim Kardashian com o namorado aparece e ela, em vez de esconder, diz “é meu mesmo e quem quiser ver vai ter que pagar”, negocia a exibição e distribuição por milhares de dólares? Por que a Val Hellooo Marchiori toma tanto champanhe em sua taça de ouro? É para esquecer que se chama Valdirene Aparecida e cresceu nos cafundós? Por que aqui as pessoas se esforçam tanto para esconder e até – como se fosse possível – apagar o passado? Como diria Cazuza (que era alto, loiro, atlético, hetero e sem vícios): “São caboclos querendo ser ingleses”.

Outra pergunta. Por que Nelson Motta pode escrever um calhamaço de 400 páginas e repetir inúmeras vezes que Tim Maia era gordo, preto, maconheiro, encrenqueiro, cheirava loucamente, mas o próprio Tim Maia não pode ser ele mesmo em uma foto?

Respondendo a todas as perguntas de uma vez: somos uma sociedade de hipócritas. Queremos seguir os modelos que nos fizeram acreditar que são os melhores. Queremos ter cabelo liso, pele clara, dentes brancos, alguém ao lado, um carro, dinheiro para gastar no shopping. E queremos apagar qualquer vestígio de nossos passados que não correspondam a esses padrões. Assim, aquele tido como o melhor escritor brasileiro aparece branco em uma propaganda do governo. Um grande cantor tem que estar sempre bem vestido (como se isso fizesse alguma diferença para a voz dele), “ter boa aparência”. Como podemos ter ídolos que não correspondam aos tais padrões almejados? Ídolo não sua, não tem necessidades fisiológicas, não sofre, está sempre feliz, teve uma educação maravilhosa, tem bom gosto para tudo (não importando o lixo que seja) e, acima de tudo, não tem passado. Só ser for lindo e inventado. O passado, assim como o amor, a gente inventa.

Somos selvagens querendo ser dândis.

Ídolos incontestes da música brasileira são Tom, Vinicius, Chico, Nara… Mesmo que não entendamos muito bem o que queriam dizer nas poucas vezes que ouvimos suas músicas. Mas são todos brancos, bem nascidos, educados, falam línguas civilizadas. Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Dona Ivone Lara são criaturas que atiçam nossa curiosidade, nos fazem sentir mais humanos, sem preconceitos. Mas quem quer ser preto, pobre e favelado? Um violãozinho no sofá do apartamento de frente para a praia cai melhor, não? Mais parecido com nossos anseios burgueses. Quem quer ser Tim? Quem quer ser Tom?

Continuo achando que Tim Maia não era um débil mental incapaz que foi pego desprevenido pela diabólica Luciana. Ele estava fazendo o que sempre fez: provocando. Sabendo bem no que ia dar. Lamento que a foto não tenha sido publicada quando ele estava vivo. E se não gostasse, que processasse. Ele sacaneava todo mundo, mas quando era ele o sacaneado, não curtia muito. Quem não lembra do processo contra o Casseta & Planeta por conta da imitação que Bussunda fazia dele? “Alguém tem uma gilete aí? (…) Alguém tem um espelho aí? Vou pegar, hein!

É grave essa atuação do Ministério da Verdade. É assim que começam a nos calar, a cercear nossa liberdade. Então, não vale tudo? Vale. Só não vale dançar homem com homem, mulher com mulher, nem Tim Maia doidão de cueca. O resto vale.

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Retrato do Grão-Mestre Varonil

Tá lá a foto do Tim estendida no Facebook! De cuecas e camisa rasgada, pouco se lixando para a câmera de Luciana Whitaker. Aliás, ele estava achando sua mãozinha clicadora – e provavelmente ela inteira – gostosa e fez questão de deixar isso claro. Esse era o Tim.

Luciana postou a foto em seu perfil no Facebook na sexta, 27 de janeiro, acompanhada do seguinte texto:

Editando fotos hoje, encontrei essa foto nunca publicada. Tim Maia tinha hora marcada para receber a Folha de S. paulo. Cheguei lá, no apart hotel da Barra, ele estava de camiseta rasgada e… cueca! Com o rádio muito alto, não conseguia escutar as perguntas do repórter (acho que era o Marcelo Migliaccio) e pediu para eu desligar o som. Olhou minha mão em seu aparelho de som e disse: “Hum, que mãozinha gostosa…!” Fiquei braba e acabei fazendo a foto dele de cueca mesmo.

Na noite de sábado, quase mil pessoas já haviam compartilhado a postagem, inclusive eu, pelo perfil do Memória Viva. No domingo pela manhã, encontrei comentários que achavam a imagem “degradante” e diziam que “faltou ética” ao publicá-la. Segue reprodução do meu comentário, junto à postagem, após de ter lido isso:

A leitura que se faz das coisas – de um texto, de uma foto, de um quadro, um filme, uma música… – varia imensamente de pessoa para pessoa. A cultura de cada um (aquilo que a pessoa aprendeu, juntou e reuniu como seus valores) vai fazer com que ela enxergue algo de uma forma completamente diferente de outros. Sou fascinado pela obra de Goya, mas tem quem a ache grotesca, bizarra, assustadora. E tem quem não se sinta fascinado ou incomodado. Sou jornalista e fotógrafo há mais de 20 anos, tendo trabalhado a maior parte do tempo na área cultural. Sou fã do TIM MAIA. Na minha opinião (no meu gosto pessoal), jamais houve melhor cantor na história da música brasileira. Nessa foto, só consigo ver o retrato fiel do porra-louca que ele sempre foi e do qual que se orgulhava muito de ser. Grande cantor, grande artista, grande beberrão, mulherengo e safado. Em resumo: UM SER HUMANO. Cheio de potencialidades, de boas e más qualidades, de defeitos e contradições. Assustar-se ou achar degradante essa foto é não entender que ELE ERA ASSIM. Não se importava com aparências, com o que pensavam dele, com convenções sociais. UM Tim Maia que, ao receber jornalistas, estivesse de banho tomado, perfume, roupinha passada, falasse e se comportasse como um acadêmico querendo posar de membro da elite não seria O Tim Maia. Seria uma farsa! Essa foto me fez lembrar um comentário de Marcelo Nova, último grande companheiro de palco e de farra de Raul Seixas. Quando Raul morreu e começaram a derramar um mar de elogios, Marcelo se indignou e falou que logo estariam dizendo que ele era santo. Isto seria um insulto! Olho para essa foto e vejo um Tim Maia lindo, verdadeiro, sincero e escroto do jeito que ele era. Ele, que não era nenhum incapaz ou um retardado mental que não soubesse o que estava fazendo, riria muito de vê-la estampada na Folha de S. Paulo. Mas quem teria a coragem dele para fazer isso?

Em bom e claro português: a foto é do caralho! Nem dá para imaginar o impacto que teria se estampada na Folha de S. Paulo dos anos 90 (ela não diz quando foi feita, mas creio que tenha sido naquela época). Mas o impacto veio quase década e meia depois da morte de Tim e pelo Facebook. A meu ver, um impacto positivo. É a cara do Tim, sem talquinho ou água de colônia. Mais que histórica, a foto é honesta!

Lembrei algumas situações pelas quais passei e as exponho aqui para acrescentar dados à discussão e desenvolver o tema sobre “momentos e escolhas no fotojornalismo” e não sobre “ética” porque não vejo motivo para isso.

Quando fotografo para ilustrar matérias, quase invariavelmente o faço para as minhas. Isto é, estou lá para entrevistar/apurar E TAMBÉM para fotografar. No caso, a fotografia é produzida como complemento do meu trabalho principal, que é escrever. Acontece que, sendo assim, as fotos têm pouco de jornalismo, pois serão feitas separadamente, em outro momento, e provavelmente serão posadas, dispensando muito da naturalidade que poderia ser registrada quando o entrevistado estivesse mais preocupado em falar e demonstrando suas emoções. No entanto, em mais de vinte anos, tive algumas oportunidades de estar só fotografando ou de poder dar mais atenção a isso.

Uma das vezes foi em um carnaval, no início dos anos 90, que passei na praia de Pirangi, no Rio Grande do Norte. No mesmo hotel, estavam vários conhecidos atores de televisão e um casal, da mesma idade que eu, que começava a aparecer e chamava já chamava bastante atenção: Selton Mello e Danielle Winits. Era um tempo em que fotógrafo era fotógrafo e não qualquer pessoa com uma câmera, como hoje. E eu era o único que também estava hospedado no hotel e tinha acesso direto aos convidados globais durante todo o dia, incluindo passeios turísticos e outros momentos de lazer. Selton e Danielle eram namorados. Tínhamos todos 19 ou 20 anos. Danielle, linda, era uma jovem normal. Simpática, curiosa, conversava com todo mundo. Selton era mais reservado (ou antipático, se preferir), sempre de óculos escuros, nunca olhava diretamente para as pessoas e só falava baixo e enrolado com aquela voz que todo mundo sabe imitar. Já era cheio de pose. Mas não dá para ser muito posudo quando se se é gordinho, branquelo e está só de sunga. Menos ainda se você vive da sua imagem e namora uma garota de corpo perfeito. Imagine o contraste! Pensando agora, acho que ele estava bem incomodado com minha câmera. Mas qual era meu interesse em fotografar aquele cara quando a Danielle Winits, 19 aninhos, estava de biquíni bem na minha frente? Nenhum. Se fosse hoje, sairia no Ego: Selton deixa gordurinhas à mostra durante o carnaval. Mas eu não sou tão mau assim (talvez seja) e a foto que lembro bem e gostei de ter feito foi dos dois, abraçados, no meio das dunas de Genipabu. Uma foto linda, aberta, em um cenário paradisíaco, de um jovem casal que começava a carreira na tevê. “Uma foto para Caras”, pensei na hora. Não enviei, nem jamais publiquei. Mas um detalhe, que provavelmente passaria despercebido à maioria, ficou na minha cabeça. Danielle estava de costas para mim, entregue, curtindo o namorado, como qualquer adolescente. Selton, apesar do rosto colado ao dela, olhava em minha direção. Ele sabia que eu estava fotografando e estava, por assim dizer, participando daquela encenação. Qualquer um que trabalhe com a própria imagem sabe bem o que faz quando tem um fotógrafo por perto. Não há inocentes ou malfeitores numa situação dessas. Há um acordo silencioso e óbvio. Um está ali para aparecer; outro, para fazer aparecer.

Outra situação aconteceu em 2004. Fui a Salto (SP), com um pequeno grupo, para entrevistar Anselmo Duarte em seu apartamento. Ele abriu a porta muito à vontade para receber aqueles estranhos e, quando viu a câmera, pediu para fazer a barba. Era uma barba de um ou dois dias. Nada assustador. Eu já havia feito pelo menos uma foto, mas ele demonstrou a vontade de se apresentar de outra forma e só as fotos pós-barba foram publicadas. Como eu poderia dizer não ao maior galã da história do cinema brasileiro? Como eu poderia dizer não ao único brasileiro ganhador da Palma de Ouro? Como eu poderia dizer não àquele senhor de 84 anos e ainda vaidoso? Meu instinto agiu com a velocidade de sempre e registrou o senhor que estava em sua casa, despreocupado com a estampa, roupa amassada, barba por fazer, como qualquer pessoa normal. Mas Anselmo Duarte era o bonitão, bem cuidado e cheio de expressões. Essa era a imagem que ele sempre mostrou. Existe outra, outro lado, comum (diria até desinteressante), que registrei, mas… o que ela diz? Nada de especial. “Você não vai me pedir para fazer uma foto segurando a Palma de Ouro, vai? Jornalista não tem imaginação. Já fiz dezenas de fotos iguais a essa.” Fazer, eu fiz. Até porque a Palma estava quebrada (um apresentador de tevê deu um tombo nela!) e eu nunca vi uma foto dele com o troféu naquelas condições! Depois do puxão de orelha, não publiquei a foto aparentemente tão comum e repetida, mas eu sabia que aquele detalhe fazia a diferença. O registro foi feito. Quando e como usar é uma escolha somente minha.

Reportagens feitas nas casas dos entrevistados costumam gerar momentos extremamente peculiares, como da vez em que eu aguardava uma famosa atleta sair do banho para fazer uma matéria. Ela não foi avisada da minha chegada e, de repente, aparece totalmente nua e dá de cara comigo. Ela grita e corre para o quarto. Eu, entre constrangido e agradecido aos céus, tento fingir que nada aconteceu. Não, dessa vez, não fotografei.

Imagem é algo poderoso. Duvido alguém citar algo que Itamar Franco tenha feito quando presidente, mas da foto dele, no carnaval de 1994, ao lado de Lilian Ramos sem calcinha, todo mundo lembra. Para mim, a foto de Tim Maia feita por Luciana Whitaker é daquelas icônicas, fiéis, que escancaram a personalidade e a alma da figura fotografada. Não tem nada de “assustador”, “degradante” ou “antiético” como vi em alguns comentários. Eu diria que existe, sim, hipocrisia, falta de senso crítico e de sensibilidade para entender o que ela realmente representa. Além de tudo isso, essa indignação parece algo de uma sociedade muito preocupada com a aparência e que desaprendeu a perceber a essência dos seres. Há uma identificação provocada pelo medo de se ver daquele jeito, como se a roupa fosse a pessoa ou representasse sua dignidade. “Eu não gostaria de ser mostrado assim!” Ninguém precisa ter esse medo. Ninguém é o Tim Maia, não tem seu talento, sua fama, nem sua incrível personalidade, que dispensava roupas novas e alinhadas. E Tim Maia não era um santo ou um deus para ser esculpido, idealizado e idolatrado como tal. Era humano – como tal, cheio de talentos e defeitos –, desses de dar orgulho à espécie. E sua humanidade nunca havia sido tão bem retratada.

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O segundo nascimento

Daqui a cem dias, começa minha vida. Meu Natal e ano novo particulares. A prova – ou não – do velho ditado. Apagou-se o fogo-fátuo daquela noite de dez anos atrás. Vai longe aquele aniversário com conhecidos refugiados em seus pequenos guetos em um café-livraria. Hoje, parece um retrato dos caminhos que se ofereciam. Qual tomei? Parece que nenhum deles.

Sinto que um fogo sagrado foi aceso e vem sendo alimentado nos últimos tempos, queimando tudo que não era Sandro, que não importava. Restou amar, pensar, escrever e uns temperos para dar gosto à vida. Nasço sem avós, sem pai e com três filhos. Os cabelos, que no primeiro nascimento eram pretinhos, tornaram-se tolerantes e aceitaram alguns brancos entre eles. Não haverá quem pergunte o que o menino vai ser quando crescer. Ele já sabe. Acha até que sabia da primeira vez, mas preferiu não revelar.

Talvez esses últimos meses de gestação sejam como os da primeira. Pode ser que fique meio apertado, que eu fique mais quieto, esperando a hora de ver a luz. O parto deverá ser como na ocasião anterior: natural, tendo que lutar desde sempre para poder ter um lugar no mundo. Mas não vai ter choro. Só a mesma cara bolachuda, séria, observando tudo para tentar aprender e fazer algo útil.

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Os filmes que me marcaram em 2011

Primeiro, pensei em uma série de listas. Aí deu aquele bode homérico no blog, que ficou fora do ar por duas semanas, e eu broxei para a ideia. Todos começaram a fazer listas. E todos começaram a achar um saco as listas dos outros, afinal, gosto é igual a você sabe o quê. No entanto, este ano tive ótimas conversas com três ou quatro pessoas e das quais nasceram excelentes dicas e debates sobre filmes, livros, música, etc. Por que não compartilhar isso como os leitores do blog? Portanto, aqui estou, me rendendo às listas de fim de ano.

Não gosto de fazer lista de livros. Leio uns 50 por ano e acho pouco. Um livro por semana é pouco, garanto. Mas para uma lista ficaria enorme. Para mim, ler é algo sagrado e extremamente íntimo. Só indico ou dou livros a alguém se conheço muito bem a pessoa e seus interesses. Além disso, acho pedante isso de fazer lista do que leu. Geralmente, as pessoas escolhem os títulos que a farão parecer mais culta, antenada ou descolada. Ninguém lista as bobagens que leu e – garanto novamente – quem lê muito, por mais seletivo que seja, lê bobagens também, nem que seja para descansar o cérebro.

Enfim, farei apenas duas listas: os filmes que mais me marcaram em 2011 e as músicas que mais ouvi este ano. Vamos à primeira.

Os filmes que mais me marcaram em 2011

Entre longas e curtas de todos os gêneros, devo ter assistido a mais de 250 filmes este ano. Se somar os episódios da meia dúzia de séries que acompanho ou vi/revi inteiras, o número dobra facilmente. A lista não é dos “melhores filmes de 2011” e nem dos que acho que são os melhores. São dos que mais me marcaram, me impressionaram, trouxeram algo de bom para minha vida, para minha formação, me influenciando de alguma forma. Não gosto de falar sobre um filme com quem não o assistiu. Sempre digo que se deve ver um filme o mais virgem possível, sem grandes informações a seu respeito, para que você possa tirar suas próprias conclusões. Portanto, comentarei quase nada. Listei nove filmes: 4 deste ano, 2 de 2010, 2 de um diretor do qual me tornei admirador (mais dois, pois há outro entre os de 2010) e um de 2003 (que só conheci este ano).

Pelo menos três dos quatro deste ano, você encontrará em várias listas por aí. Preste atenção a isso. São produzidos milhares e milhares de filmes por ano, mas são poucos os que realmente valem a pena e não são mero entretenimento.

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar

Meu primeiro Almodóvar foi Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de 1988, visto no mesmo ano em uma “cópia não selada” na época em que e as locadoras de vídeo eram formadas quase só por elas. Vinte e três anos e doze filmes depois, todos vistos, já tive tempo e provas suficientes para dizer sem medo que ele é um dos melhores realizadores da atualidade, senão o melhor. Se vivo, Fellini daria tapinhas nas costas de Almodóvar e Woody Allen, e diria: “Continuem assim, meninos! Vocês nunca serão como eu, mas vocês são os melhores que o mundo têm hoje.A Pele que Habito, como bem observou meu amigo Buca Dantas, “é o melhor Almodóvar desde Tudo Sobre Minha Mãe (1999)”.

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Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

Descontados todos os lugares-comuns sobre Woody Allen, duas coisas têm realmente chamado minha atenção em seus trabalhos na última década: a constância na realização (desde 1977, um filme por ano, exceto em 1981, mas fez dois em 1987) e a sensibilidade que vem demonstrando com seu olhar estrangeiro (desde que cansou de seu umbiguismo nova-iorquino e passou a pensar/filmar fora dos Estados Unidos). Meia-Noite em Paris tem o insosso e sempre com a mesma cara Owen Wilson como alter-ego de Woody Allen (e me parece que ele está mesmo imitando Woody Allen nos trejeitos e na voz), mas nem isso consegue estragar o filme. E tem Marion Cotillard, que compensa a canastrice e a sem-gracisse de quantos for preciso. Fui covardemente atingido pela temática e pelo enredo. Se você assistiu, sabe o motivo. Se não, assista e descubra.

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Melancolia (Melancholia, 2011), de Lars von Trier

É um grande babaca, mas é um babaca necessário. É o gringo que usa a força do império para dizer: “Deixem de ser idiotas e previsíveis. A vida não é bonitinha assim. Parem de vender esperança.

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Um Conto Chinês (Um Cuento Chino, 2011), de Sebastián Borensztein

Não gosto das generalizações do tipo “cinema de tal país”, mas vamos combinar que se for cinema argentino já dá vontade de conferir. E se tiver Ricardo Darín no elenco, a possibilidade de o filme ser ótimo é grande.

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Abutres (Carancho, 2010), de Pablo Trapero

Argentino… Ricardo Darín… Realismo duro, sem esperança, sem perdão.

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Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta, 2010), de Álex de la Iglesia

Para mim, a grande descoberta do ano. O único filme que vi este ano e me deixou sem respirar durante toda a exibição. Por onde passava (pingou em uma ou outra sala em algumas capitais), eu ia incitando os conhecidos a verem. Foram e adoraram! Não interessa seu gosto, seu gênero preferido. É cinema de verdade! História bem contada, repleta de fantasia e exageros. Corri para ver os outros trabalhos de Iglesia. Ponha 800 Balas (2002) e Crimen Ferpecto (2004) na lista dos meus preferidos vistos em 2011.

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Leve Meus Olhos (Te Doy Mis Ojos, 2003), de Icíar Bollaín

“Cinema espanhol” também é um rótulo bem confiável. Almodóvar, Álex de la Iglesia, Icíar Bollaín… Vi Te Doy Mis Ojos na tevê. Foi amor à primeira vista por Laia Marull, a atriz principal, que nos faz respirar aliviados ao mostrar que ainda existe cinema com atores de verdade e que sabem atuar. Também não gosto de pensar assim, mas tenho que admitir que filmes escritos e dirigidos por mulheres costumam ter abordagens mais sensíveis (sobretudo se tratam do universo feminino) e são capazes de fazer o espectador esquecer a razão para se entregar plenamente aos sentimentos. Homem e bruto, senti todas as dores e medos de Pilar, a personagem interpretada por Laia Marull. Fiquei encantado com sua atuação como um todo, mas, principalmente, com o momento em que a personagem se permite acreditar e desabrochar. O bicho amedrontado esconde uma mulher linda. Não é uma atriz qualquer – nem dirigida de qualquer maneira – que consegue uma transformação daquelas. E sem usar nada além do olhar, do sorriso e do corpo nu. Nos momentos em que está acuada, a caracterização ajuda, mas as expressões e o gestual é que nos mostram toda a tensão da situação que está vivendo. Ninguém tem três prêmios Goya por acaso.

Termino o ano com três pendências na lista: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), Cópia Fiel (Copie conforme, 2010) e O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo, 2011), lamentando principalmente pelos dois últimos. Sinto que estarão em minha lista no final de 2012.

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Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais

Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de Carlos Estevão.

Para as mulheres solteiras e carentes com mais de 30, ele se apresentava como Doutor Zilá Camboim, às vezes engenheiro, outras militar, sempre elegantemente trajado, muito educado e solícito. Na verdade, tinha apenas o primário, era casado (mas vivia separado da esposa) e era velho conhecido da polícia, que o chamava de Doutor Macarrão. Passou quase 20 anos ludibriando mulheres para lhes roubar dinheiro e joias. Vivia disso. Este era o seu ofício.

No papel, o Dr. Macarra não era alguém de quem se pudesse ter raiva ou querer prender. Era um pobre coitado já tão castigado pela vida que, para os leitores (ou “vedores”, como dizia Carlos Estevão), só restava rir da sua desgraça e das tentativas de se passar por um homem de respeito.

A revista com seu nome durou apenas nove edições, de abril a dezembro de 1962, mas ele só aparece na capa da primeira. Além das histórias do personagem-título, há também as Novas Aventuras de Sharleck Halmes (apresentadas por Sir Charles Stevens), além de séries e charges com os temas de costume. Tudo roteirizado, desenhado e finalizado por Estevão.

Dr. Macarra foi um herói da Força Expedicionária Brasileira, esteve em Cuba e na selva africana, foi astro do cinema, membro da Academia Brasileira de Letras, artista de múltiplos talentos, um grande político e circulou por Paris. Tudo em sua imaginação e nas histórias que contava para alguma figura feminina. A realidade, sempre mostrada no quadro seguinte, era bem diferente.

Era um personagem mais humano e muito mais rico que o Amigo da Onça. E talvez este tenha sido também o causador de sua morte precoce. Você não conhece um Dr. Macarra? Você não já deu uma de Dr. Macarra? Abra agora o Twitter ou o Facebook e veja quanta gente inteligente, bem-sucedida, rica, frequentadora das melhores festas, amigas de celebridades, que tem tudo que o dinheiro pode comprar e que viaja pelo mundo todo. Você acredita mesmo que todas as pessoas que conhece vivem do jeito que demonstram? Você pode até conhecer um ou dois amigos da onça, mas Dr. Macarra, garanto, você conhece um monte.

* Texto originalmente publicado na edição 371, de outubro de 2011, do Jornal da ABI, como box da matéria Carlos Estevão 90 anos – Ele só queria ser criança)

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