Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990.
Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser considerado um grande evento: o lançamento de um comercial da Pepsi estrelado por Madonna. No dia seguinte, no mundo real e do qual eu fazia parte, o curso de jornalismo da UFRN inaugurava seu laboratório de rádio e TV, nos fundos da Biblioteca Zila Mamede. Depois de acanhados comes ali, parte da turma foi para os bebes no Chernobyl (Chernô, para os íntimos) ,o bar dos malucos, que ficava na Ponta do Morcego, na Praia dos Artistas.
Naquele março, pensava em dar continuidade ao jornal Graúna, mas fiquei só na vontade. Também fiz uma descoberta que deixei registrada na agenda, no dia 8: “Como guitarrista, sou um ótimo jornalista”. Agradeça por eu não ter à mão uma foto que me mostra com mullets, sem camisa, com um bermudão vermelho, segurando a guitarra e encostado a uma parede com posters de Stallone e Schwarzenegger. Eu achava que era o Lulu Santos, mas queria mesmo ser um dos dois fortões.
Para o fim de semana, fazia planos de ir à Flash, uma boate que era “o point”, em Natal, no fim dos anos 80. Não registrei se fui, mas assisti alguns filmes em casa: Weekend Warriors, uma comédia idiota; Twice in a lifetime, uma drama com Gene Hackman e Ann-Margret; e Salsa – O filme quente, grande clássico com o ex-Menudo Robby Rosa. Na terça seguinte, 14, tentei me redimir disso assistindo The Corsican Brothers, este, sim, um clássico, de 1941, com Douglas Fairbanks Jr. interpretando irmãos siameses que haviam sido separados e criados em lugares diferentes. Um, vira um cavalheiro; outro, um bandido.
A semana seguinte começaria com uma notícia triste. Na manhã do dia 20 de março, uma segunda-feira, morria a atriz Dina Sfat. Na terça, eu assistia pela milésima vez uma comédia romântica que ainda hoje acho muito bonitinha: Alguém muito especial (Some Kind of Wonderful), do mestre dos filmes adolescentes John Hughes. Ainda que a cada mês dos últimos vinte anos tenham lançado um filme sobre o esquisito que se apaixona pela garota mais popular do colégio e não percebe sua amiga apaixonada sofrendo bem a seu lado, nenhum chegou perto da mestria de Hughes. A abertura (logo abaixo) é uma de minhas preferidas dentre os filmes do gênero. Em três minutos, sem uma única palavra, Hughes apresenta os personagens, a sinopse da história e dá o ritmo do filme.
Em parágrafo único, tomando quase toda a página do dia 23 de março, dava um ultimato a mim mesmo: “Colocar a vida em ordem”. Nas duas páginas seguintes, fazia uma longa lista do que precisava fazer naqueles dias. A cada dois itens, um se repetia: “Fazer a resenha”. Trauma de nove entre dez universitários, para mim, isso não chegava a ser um problema, mas eu estava em atraso com uma para Sistemas de Comunicação no Brasil II, disciplina do saudoso Rogério Cadengue, um dos grandes e verdadeiros professores que tive, desses que ensinam muito em sala de aula e mais ainda em mesa de bar. O livro era Carnavais, Malandros e Heróis, que até hoje indico não só a alunos de Comunicação, mas a qualquer um interessado em compreender certos aspectos culturais brasileiros. Tinha que me apressar, pois no domingo havia uma estreia imperdível na TV: Domingão do Faustão. Mais da metade dos televisores do país estariam ligados no contra-ataque da Globo à supremacia dominical de Sílvio Santos. Nós, os ingênuos, acreditávamos que Fausto Silva iria nos salvar da leseira e da mesmice que imperava nas tardes de domingo. Claro! Aquele gordo sacana do Perdidos na Noite iria avacalhar com tudo. Não. Aquele gordo sacana iria se encher de dinheiro e fazer exatamente o que lhe mandassem: ser o idiota do outro canal. Deixa pra lá,…
… passemos a março de 1990, iniciado com mais um filme que eu deveria ter vergonha de contar que assisti: Retroceder nunca… render-se jamais!, que marcava o início da era Jean-Claude Van Damme. Na mesma linha, assistiria naquele primeiro fim de semana a O Grande Dragão Branco (filme seguinte de Van Damme), O Voo do Dragão e A Fúria do Dragão, estes com Bruce Lee (em O Voo… tinha ainda seu discípulo, Chuck Norris). Não entendi o motivo de ver tantos filmes assim nessa época até ler uma carta na qual eu explicava que Fabíola, minha namorada, gostava do gênero. Em seguida vieram Indiana Jones e a Última Cruzada e Willow – Na Terra da Magia. Os clássicos também tinham vez. Eu e Fabíola iniciamos um grupo para debates com exibição de filmes no laboratório de TV. Na estreia, com A General, de Buster Keaton (texto anterior), quase todos dormiram. O segundo, último antes de desistirmos dessa insanidade, foi A Felicidade não se compra, de Frank Capra, outro desses que guardo no coração e assisto uma vez por ano – sempre no Natal, claro! – para testar se ainda sou humano.
Meus apontamentos mostram que eu lia muitos livros sobre cinema. Também frequentava outros grupos (menos sonolentos) de estudo. Quem me conhece dessa época, até hoje me cobra que escreva para cinema. Não digo que isso não venha a acontecer, mas não chega a ser uma pretensão. Nas duas décadas seguintes, tornei-me principalmente um amante, um apreciador de filmes que muito raramente vê algo que não o (me) agrade. Os cinemas de shopping com seus animais barulhentos me afastaram quase completamente das salas de exibição, a pipoca americana passou a último lugar na minha lista de possibilidades a serem assistidas e Fellini se tornou minha divindade absoluta. Antes de assistir a um filme, pergunto a ele se posso. Se não mordo a língua nem fico com o corpo paralisado, é sinal de que ele deixou. Recentemente, quando perguntei sobre Nine, senti meu coração sendo esmagado. Até hoje, não tive coragem de ver a tal “homenagem”.
Ainda naquele março de 1990, no dia 15, vimos a posse de Collor. Para minha geração, o primeiro presidente eleito por voto direto. No dia seguinte, uma sexta, o país parava para assistir as explicações sobre confisco da poupança e outras medidas impostas pelo Plano Brasil Novo, que ficaria conhecido como Plano Collor. O Cruzeiro voltava e, com ele, o desespero de muita gente. O depois, todos conhecemos.
“Morreu Lampeão. E foi épico”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal A República, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “Acabar de datilografar o texto de Lampião”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com ácaros. Focinho enfiado em jornais antigos, copiava os artigos à mão para depois datilografar em casa. Nem em meus sonhos mais Clarkeanos (do Arthur C., não do Kent), me imaginaria, quase década e meia a frente, clicando centenas de páginas, em uma tarde, com uma câmera digital do tamanho da palma de minha mão.
Os apontamentos daquele fevereiro denunciam planos nunca terminados como a eterna retomada às aulas de inglês e a incapacidade, hoje parcialmente vencida, de cumprir o que prometia a mim mesmo: Segunda, 13 – “Tentar” fazer o que deixei de fazer ontem; Terça, 14 – Tentar fazer o que não tentei fazer ontem que é justamente o que eu não fiz anteontem e, mais adiante, no fim da página, Saldo do dia: não fiz nada. O humor e a mania de ironizar os próprios defeitos também já se faziam presentes.
Em quase todos os dias, havia uma “reunião”. Sempre em um bar. Era a velha escola do jornalismo e da política estudantil. Marcávamos a reunião, bebíamos todas, decidíamos nada e marcávamos outra reunião para fazermos tudo isso outra vez. As anotações sobre o vai-e-vem de cartas era outra constante. Chegavam também postais da Paraíba e do Maranhão, enviados pelos novos colegas que havia feito no Enecom. E eu sabia quem eram aquelas pessoas? Várias não foram identificadas. Ah, um Orkut! Ah, um Facebook! Um Google que fosse, para dar uma clareada nas ideias. Não havia nada disso. Só a educação em responder e esperar que alguém mandasse uma foto para ser lembrado. Falando em fotos, só vi as feitas com minha máquina – uma Olympus Trip 35 – duas semanas depois de chegar do encontro. Tinha que esperar acabar o filme – 24 ou 36 poses que rendiam! – e ter dinheiro para revelação e cópias. E nada de cópias para os outros. Eram caras!
No dia 20 de fevereiro de 1989 começava mais um semestre e, para não ferir os costumes, os professores não apareceram para dar aulas. Sabe como é… “os alunos não vão, então não vou também…”, emenda com carnaval, feriados, enforca daqui, enforca dali, hoje não dá, até que, no final, as notas se ajeitavam e (quase) todos ficavam felizes seguindo aquela velha regra: os professores fingiam dar aulas e os alunos fingiam aprender. Sempre demos muita importância às tradições nacionais e tínhamos muito orgulho disso.
Naqueles idos, eu ouvia bastante o bolachão Black Celebration, do Depeche Mode. Semestre letivo já iniciado, tentava conseguir uma Pentax K1000 junto ao laboratório do curso. Não lembro se cheguei a fotografar, mas estava presente ao debate com Mário Covas, no dia 27 de fevereiro, no auditório da Reitoria da UFRN. No final daquele ano, o país voltaria a votar em seus representantes políticos. Eu, como a maioria dos meus colegas de faculdade, nem era nascido quando isso havia acontecido pela última vez. Imagine a emoção de, sendo universitário, ter a oportunidade e a liberdade de debater com os candidatos! Um deles seria nosso presidente no ano seguinte.
Mas a posse só aconteceria em março de 1990. É um pouco antes que aportamos, agora, naquele ano. Na terça, 13 de fevereiro de 1990, recebia, pelos Correios, alguns clássicos em VHS, mas só começaria a vê-los no dia seguinte. Naquele dia, a única preocupação era ir ao show dos Paralamas do Sucesso.
A General (1927), até hoje considerado um dos melhores filmes da História do Cinema, foi o primeiro VHS que tirei da caixa no dia seguinte. A obra-prima de Buster Keaton chegava aos videocassetes brasileiros 63 anos depois de exibida nos cinemas. O filme teve várias versões que ganharam ou perderam alguns minutos e pelo menos três sonorizações diferentes. A versão que recebi e guardo até hoje tem uma trilha sonora bem superior a esta que você pode assistir no YouTube. Talvez tenha sido com A General que percebi existir algo além da Sessão da Tarde e do cinema pipoca. Até então, eu consumia filmes. Era filme, mandava para dentro. Mas o milagre não se deu do dia para a noite. Naquela mesma semana assisti Popeye (sei que serei perdoado por este) e Máquina Mortífera II (e muito justamente condenado por este). Uma curiosidade: na sexta-feira, 16, a Globo exibiu Dias melhores virão, de Cacá Diegues, antes de estrear no cinema. Uma maluquice que nunca consegui entender.
No carnaval, que naquele ano caiu no final de fevereiro (24 a 27), passei em Muriú, praia de veraneio do município de Ceará-Mirim (RN). E março… março fica para o próximo capítulo.
Envie a eles seu coração
Assim saberão que alguém se importa com eles
E suas vidas serão mais fortes e livres
(Dionne Warwick em We are the World)
Tenho três filhos. Aimée, a primeira, está completando 17 anos hoje. É difícil explicar a ela – e acredito que será muito mais para os dois mais novos, atualmente com 10 e (quase) 5 anos – que já existiu um mundo sem Internet, que precisávamos esperar para ter determinada informação, no qual artistas eram ativistas políticos e humanitários e faziam músicas que varriam o planeta, fazendo com que as pessoas parassem e pensassem que havia algo muito maior e mais importante que suas próprias vidas, que deveriam agir para transformar esse mundo em um lugar mais justo e melhor para se viver.
Em 1982, eu tinha 10 anos – idade atual de Ananda, minha filha do meio –, e escutei uma música, em inglês, que me tocou de alguma forma. Eu não entendia nada do que ela dizia além da palavra que lhe dava título e era repetida algumas vezes: Africa. Qualquer manifestação artística honesta e bem realizada desconhece barreiras de linguagem. Essa canção foi feita por excelentes músicos populares que sabiam como transpor essas barreiras. A impressão que ela me deixou, até hoje, é que começava de uma forma melancólica mas esperançosa e, em determinado momento, pouco antes do refrão, fazia uma convocação para, na sequência, ganhar outras vozes reafirmando uma necessidade urgente.
Certamente demorou algum tempo, alguns anos talvez, para que eu soubesse que era realmente isso. A voz se elevava ao dizer “Hurry, boy, it’s waiting there for you” (em uma tradução livre: Rápido, garoto, tudo está lhe esperando por lá). No refrão, dizia em coro: There’s nothing that a hundred men or more could ever do (…) /Gonna take some time to do the things we never had (Não há nada que uma centena de homens ou mais não possa fazer (…) /Vai levar algum tempo para fazer as coisas que nunca fizemos).
Devo ter recebido essa informação por volta de 1985, quando já bombardeados com as muitas imagens da fome na África – a maioria pela TV, durantes os telejornais –, vimos um grupo de artistas (naquele tempo havia artistas de verdade, não meras “celebridades”) se unir, criar e cantar uma música que virou um verdadeiro mantra, que por si só parecia ter a força de executar mudanças gigantescas: We are the World. Para mim, um adolescente de 13 anos, ela parecia ganhar mais força quando entrava alguma das vozes dos astros do pop rock que eu costumava ouvir. Aquelas vozes mais conhecidas falavam diretamente a mim: Tina Turner dizendo que somos todos parte da fantástica família de Deus; Michael Jackson, de uma forma muito doce, dizendo que somos o mundo, somos as crianças; mais adiante, caso alguém não tivesse entendido, a voz rouca e poderosa de Bruce Springsteen repetindo isso de outra forma; e o esclarecimento era dado pela voz de Cindy Lauper, dizendo que deveríamos perceber que a mudança só poderia vir quando nós nos juntássemos e resistíssemos como se fossemos um só.
Acredito que a experiência de We are the World só possa ser plenamente entendida por quem viveu aquela época. Não podíamos baixar o clipe para um computador ou vê-lo no YouTube a qualquer instante. Não havia nem videocassetes. Tínhamos que esperar a música ser executada em uma rádio ou o vídeo ser exibido na TV. Quando isso acontecia, todos corriam, aumentavam o som e, mesmo sem saber direito o que estavam falando, cantavam junto, fazendo parte daquele coro: We are the world, we are the children / We are the ones who make a brighter day. Era um momento de oração. Depois, comprando o LP e com isso contribuindo para combater a fome na África, podíamos “rezar” mais vezes.
Hoje, 25 anos depois, Quincy Jones e Lionel Richie, dois dos idealizadores daquele momento, reúnem um novo time para fazer We are the World – 25 for Haiti, que será lançado nesta sexta, 12 de fevereiro, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Um quarto de século depois, o mundo está muito diferente, totalmente conectado. A informação chega imediatamente a qualquer lugar do planeta e pode ser acessada e repassada a qualquer momento, quantas vezes for preciso. Muita coisa mudou, mas não a nossa incapacidade de resolver os problemas dos nossos irmãos mais necessitados.
Duvido que alguém discorde da afirmação de que hoje as pessoas são muito mais insensíveis do que 25 anos atrás. O problema da fome na África continua e a ele se aliou o da AIDS que, até agora, já matou o equivalente a uma vez e meia a população da cidade de São Paulo. E há outro tanto desses vivendo com o vírus. Não fomos capazes de deter isso e ainda fazemos previsões para um futuro pior. Em 15 anos, mais de 200 milhões – mais do que toda a população atual do Brasil – estarão infectados com o HIV na África.
A situação do Haiti não é diferente. Noventa por cento dos 5 milhões de haitianos são subalimentados. Há seis médicos para cada 100 mil habitantes. A expectativa de vida não chega a 50 anos. Noventa por cento da população é analfabeta e 73% das crianças com menos de 14 anos nunca foram à escola. O desemprego e o subemprego são da ordem dos 70%. E o que você acabou de ler não é uma informação divulgada recentemente, por conta do terremoto que matou mais de 230 mil pessoas. Você leu um parágrafo de uma matéria de agosto de 1973 da revista Realidade. Quase quatro décadas depois, a realidade é bem pior.
Há duas coisas que não consigo entender: como não conseguimos aprender com nossos erros e como bilhões de pessoas não conseguem impedir que alguns poucas deixem milhões de outras nessa situação por décadas e até séculos. Grande parte dos 5 milhões dos quais falava a matéria de Realidade em 1973 já morreu. Surgiram pelo menos duas outras gerações, hoje cerca de 8 milhões de pessoas, que já nasceram condenadas a esse mesmo tipo de existência.
Naqueles dias de 1985 em que o mundo estava cantando We are the World, Baby Doc, então presidente dito vitalício do Haiti, comemorava 14 anos de sua chegada ao cargo, transmitido por seu Papai Doutor (Papa Doc), que passou seus 28 últimos anos de boa vida vampirizando o país.
No ano seguinte, 1986, Baby Doc e família fugiram para a França. Somente quatro anos depois, o Haiti teria o que é considerado como sua primeira eleição livre. O eleito foi o padre Jean-Bertrand Aristide, que também sofreu golpes e ficou em um vai-e-vem no cargo até 2004, quando foi retirado do país por tropas americanas. Aristide acabou se refugiando na África do Sul, outro país com um povo extremamente sofrido – a parte negra, para não fugir à regra.
Não pretendo me estender nem falar agora sobre esse completo absurdo chamado Apartheid, que durou mais de meio século. Quero apenas terminar lembrando o maior símbolo de resistência contra esse regime de separação, Nelson Mandela, que passou quase três décadas preso pelo “crime” de defender a igualdade de direitos para todos os homens, independente de cor. Hoje, 11 de fevereiro de 2010, faz 20 anos que Mandela foi libertado.
Naqueles conturbados anos 80, quando parecíamos mais dispostos a lutar por um mundo melhor, ele ainda estava preso. Além de Africa (1982) e We are the World (1985), quem viveu aqueles tempos também deve lembrar outra canção que marcou a década: Mandela Day (1988), do Simple Minds. Era o mundo pedindo a libertação de um homem, de um símbolo de resistência e de humanidade. Nós realmente acreditávamos que éramos O mundo e não só a parte mais egoísta dele. Desejo que as gerações que viram sua história continuem inspiradas por seus ideais. E que, como é dito em um dos versos da música feita para ele, as crianças continuem conhecendo a história desse homem. Talvez ainda haja tempo de revermos esse roteiro que parece levar sempre ao mesmo fim. Talvez ainda sejamos fortes e suficientemente humanos para mudarmos nossa História.
Fevereiro de 1989 começou entre cartas, postais, reuniões do Centro Acadêmico e filmes. Neste último quesito, minha múltipla personalidade continuava se manifestando. Via desde o pop Robocop (1987) aos ótimos Alta ansiedade (1977), homenagem de Mel Brooks a Hitchcock, e O Sol da Meia-Noite (1985), com matadores Mikhail Baryshnikov e Gregory Hines dançando e encantando. Dentre minhas frustrações, está a de não ter me tornado um dançarino. Hoje, babo na frente da TV com programas como So you think you can dance. Não se engane: não era uma frescura latente. Eu não queria ser o Baryshnikov; queria ser o John Travolta, ser um imã para mulheres como Jamie Lee Curtis e ficar mais bonito depois dos 40 (ainda tenho fé neste ponto).
Se alguém lembrou de Perfeição (1985), com Travolta no papel de jornalista transitando em uma academia cheia de loiras de collants e caras com mullets e faixas na cabeça, acertou em cheio. Foi um dos filmes que assisti naquele fevereiro. No entanto, o mais marcante daqueles dias foi Repo Man (1984), um longa de ação-comédia-ficção científica estrelado por Emilio Estevez, que no Brasil ganhou o título de Repo Man – A Onda Punk. Assisti na noite de sábado, 11 de fevereiro. Sim, já existia SuperCine naquela época.
Em fevereiro do ano seguinte, 1990, distribuidoras de filmes em VHS costumavam me mandar alguns de seus lançamentos. O nível começou a subir. Comecei a ficar mais seletivo. Já em relação aos livros, estava em uma fase bem “não pense muito, apenas leia”. Depois de Cartas da Mãe, de Henfil, eu devorava, em uma noite, O Reverso da Medalha, de Sidney Sheldon. um apontamento na agenda daquele ano me traz uma surpresa. Na sexta, 9, li O Estudante, de Adelaide Carraro. Não lembrava disso. Pensava que jamais havia lido qualquer livro seu antes de 2006 (li pelo menos trinta deles do final de 2006 a abril de 2007).
Nas bancas, chegava a Playboy com uma capa muito esperada pelos adolescentes da época. Trazia uma baianinha, muito linda e com jeitinho de índia. Elimary Silva era seu nome, mas todos a chamavam de Mara Maravilha. Era um tempo em que as mulheres ainda eram de verdade. Mara fazia sucesso com a criançada, com os meninos adolescentes e com as meninas que se identificavam com a garotinha bonita, sensual, mas com ar puro que cantava Não faz mal (eu tô carente, mas eu tô legal). Ah, Britney, desculpe-me dizer, mas eu era muito mais a Mara (até porque, em 1990, você era só uma garotinha desconhecida de 9 anos). Hoje, a convertida Mara prefere nem lembrar aquele período. Foi bom enquanto durou/ E valeu/ O que passou já passou/ Não faz mal…
No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só então me dei conta de que não via muitas igrejas católicas em Natal. “Não via” é a expressão mais correta. Elas existem, mas as antigas, que meu olhar estava acostumado a ver, são mesmo poucas. Apenas quatro são anteriores ao século XX. Um detalhe que sempre estranhei: as três mais antigas são vizinhas e estão em um raio de aproximadamente 500 metros.
A seguir, apresento esses quatro templos. As explicações históricas, em itálico, são do capítulo Igrejas e Vigários, do livro História da Cidade do Natal, de Luís da Câmara Cascudo.
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação
A primeirona. Mais ou menos. Ali, na praça hoje chamada André de Albuquerque, foi fundada a Cidade do Natal do Ryo Grande, com uma missa em 25 de dezembro de 1599. O que existia era uma capelinha, de barro socado e coberta de palha, ramos secos entrançados (nesse tempo não havia coqueiros), teria apenas uma entrada, sem sino nem aparato. Em 1614 não possuía ainda portas. Em 1619 estava pronta. (…) Em 1672 pensaram em substituir a capelinha por uma igreja mais sólida e compatível com as necessidades maiores da colônia cristã. (…) Em 1694 a igrejinha estava terminada.
Até aí, estamos no século XVII. Mas a que vemos na foto não tem nada dessa época. Cascudo explica: Quase cem anos voam. Em 1786 há uma remodelação geral. Três anos antes a capela-mor ruíra. Fizeram então as capelas laterais (…). A igreja não tinha corredor nem arcadas interiores. Havia apenas um sino que dormia numa janela na frontaria, ao lado direito da matriz.
Não havia cemitério em Natal. Todos os fiéis eram sepultados dentro da Igreja, nos arredores também junto ao Cruzeiro.
Durante o século XIX a matriz tomou outro aspecto. Em abril de 1856, o presidente Passos criou o cemitério e adquiriu, por subscrição, um relógio para a planejada torre inexistente. Em 1862 começaram a levantar a torre (…) A torre é de 1862. Está a data ao cimo da respectiva porta.
(…) Essa série de remodelações retiraram da matriz todas as características. É uma igreja comum e banal, sem detalhes típicos e fisionomia (…). Resta a tradição, que é nobre e linda. Está no mesmo local de mais de quatro séculos.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
Fica, aproximadamente, a 300 metros à direita da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Não a conheço por dentro. Nunca a vi aberta. Tenho profunda simpatia por ela. Talvez por ser, verdadeiramente, a mais antiga da cidade. Em 2010, completará 296 anos. Os registros históricos e a placa ao lado de sua entrada dizem que foi inaugurada em 2 de julho de 1714.
Diz Cascudo: A igrejinha de Nossa Senhora do Rosário é o mais humilde dos templos dentro da cidade do Natal. Pequenina, pobre, com sua torrezinha quadrada, sua imposta no frontão, ao gosto melancólico dos velhos oratórios, passa sem registros nas crônicas de outrora. (…) É a igreja mais bem situada. Erguida num cômoro (outeiro), recebe o primeiro olhar do rio (…). É o tipo da igreja primitiva, o simples caixão, com a nave, sem transepto, e a torre, mais convencional que útil. (…)
Era, antes de tudo, a igreja dos pretos, dos pobres, dos escravos. (…) Também era o local sagrado dos casamentos, dos batizados, das festas dos que nada possuíam. (…) Ali, Nossa Senhora era exclusivamente dos deserdados, dos miseráveis, dos esquecidos.
Igreja de Santo Antônio dos Militares (Igreja do Galo)
Em minha opinião, a mais charmosa igreja de Natal. E, pelo que percebo, a preferida para os casamentos. Se a do Rosário foi construída para os pobres, a de Santo Antônio foi feita para os ricos. É datada de 15 de julho de 1763.
Sobre a porta principal do templo há uma data: agosto de 1766. Deve significar o fim da construção. A torre nasceu depois. Uma inscrição no cimo da porta da torre informa que em janeiro de 1799 esta se concluía. (…)
É a mais linda da cidade. Sua torre, encimada de azulejos reluzentes, com o galo heráldico, como um timbre numa cimeira feudal, a majestade do frontão com os motivos em arabesco, num barroco sugestivo e que se convencionou chamar jesuítico, as tochas estilizadas na cimalha, os desenhos em relevo, correndo e volteando a frontaria, dão um aspecto de majestade simples, imponente, mas acolhedora e simpática.
Sua proximidade com a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação sempre me impressionou. De sua frente, é possível ver a lateral da Matriz a uns cem metros apenas. Não me lembro de duas igrejas tão próximas em qualquer outra cidade que conheço.
Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores
A matriz do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira é a última das igrejas vindas do século XVIII. (…) Na segunda metade do século XVIII era capela.
Cascudo diz que o mais antigo documento que havia encontrado sobre a essa igreja era “um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores”. Ele diz também que “apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais”.
De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano Frei André, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Tem, portanto, um aspecto comum a outros templos construídos nessa mesma época, como as igrejas de São Pedro, no bairro do Alecrim, e a da Sagrada Família, nas Rocas.
Sobre a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores, leia também este texto meu, escrito na década de 90 e publicado aqui no blog. A respeito das igrejas do início do século XX, pretendo falar em outra oportunidade.
Veja aqui mais fotos das antigas igrejas de Natal.
E também no álbum Natal Antiga do Flickr Memória Viva.
Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado de muita atenção e cuidados para se manter vivo.
Ter falado sobre Natal e das mágoas em nosso relacionamento parece ter excitado alguns demônios. Em poucas horas, manifestaram-se quase todos os citados. Isso fez com que com outro texto que não queria sair resolvesse dar as caras. Ele fala, principalmente, a respeito de dois temas: a limitada e estagnada visão das pessoas e o triste impulso de alimentar mágoas. Aliados, esses comportamentos conduzem a uma estrada sombria, na qual não se enxerga o todo, nem as pessoas transitando nela, que acabam parecendo monstros.
A visão limitada e estagnada – Minha vida sempre foi muito dinâmica, repleta de mudanças. Morei no Rio, em Natal, em Brasília, em Campina Grande, morei em umas vinte casas, trabalhei em dezenas de lugares, tive três casamentos, um sem número de mulheres nas entressafras, cabelo na cintura, cabelo moicano, mullets, cabelo algum, frequentei clubes, sociedades e grupos variados… Reconheço que a visão limitada que o ser humano costuma ter somada a uma vida assim não permita que alguém me conheça mesmo muito bem. Há ainda o agravante de que sou um cara extremamente reservado. Viu? Você achava que não pelo fato de eu escrever abertamente a respeito de minha vida? É a tal visão limitada, que não precisa ser obrigatoriamente um defeito, mas apenas algo que faz parte de nossa condição humana. Pois é. Sou muito fechado. Só convivendo muito perto de mim se percebe isso. E o engraçado é que só as raras pessoas a quem proporcionei alguma (ou muita) abertura é que podem dizer: “Ele é muito fechado!”
Sinto de forma mais evidente essa deficiência da visão quando estou em Natal. Passei quase uma década sem contato com muita gente da cidade. Há pessoas que me veem como o cara esquisito de 15 anos de idade que apareceu de cabelo moicano no Salesiano, em 1987, e quase foi expulso por isso. Outras querem ver o Lobão de cabelos compridos que pegava-uma-pegava-geral na faculdade. Adicione a isso os preconceitos e fantasias de cada um e o desastre está feito: cabeludo = drogado, pegava geral = canalha, carioca = malandro, etc. Como já contei aqui, rolava até uma história de que eu me picava (com heroína) e saía nu, pilotando uma moto nas madrugadas de Natal. Se alguém acreditou nisso e passou uma década ou mais sem ver a figura, o que esperaria dela agora? Vamos ficar na realidade e fazer uma pergunta bem simples: como posso agir como um garoto de 15 anos quando tenho uma filha com mais idade que isso? Impressiona-me a dificuldade em perceber o óbvio: as pessoas crescem, envelhecem, mudam. Algumas até evoluem! Pode acreditar.
Tenho estado muito cansado de, para parecer sociável, encarnar esses velhos personagens que as pessoas querem ver. Até porque isso reforça a ideia de que o tal personagem existe. E quando se dá o que os outros esperam, quem surge? O chato ou o estranho. E aí estão novos e também fantasiosos personagem. Pior ainda quando alguém teve uma convivência de dias, semanas ou alguns meses, séculos atrás, teve algum desentendimento e coloca isso como A verdade absoluta, o carro-chefe da sua personalidade. É muita cegueira para dar conta. Já me basta minha miopia.
O Sandro de hoje é um cara cansado de gente, que não gosta de barulho, que adora passar muito tempo lendo, escrevendo e assistindo filmes, preocupado com os três filhos e que passa grande parte do tempo em pesquisas biográficas. Tirando os filhos, é um cara muito parecido com o de 20 anos atrás… mas que quase ninguém percebia. Muita coisa mudou. Ficou a essência. E tudo que posso fazer é ser eu mesmo. Cansei de vestir as máscaras que costumam me dar. Desculpem-me, mas não rola mais.
Há o outro lado: o da minha visão em relação ao outros. Não quero parecer diferente ou sobre-humano. Talvez até seja uma deficiência de minha parte. Na maioria das vezes reencontro as pessoas como se as estivesse vendo pela primeira vez, mas com um sentimento inexplicável de que já passamos bons momentos juntos. Simplesmente gosto delas e estou pronto para brincar. Não espero que sejam perfeitas, não espero que me deem algo. Na verdade, não espero qualquer coisa. O que vier, será bem-vindo.
Nos últimos anos, devido às constantes pesquisas biográficas, também fui submetido a um aprendizado que considero dos mais importantes em minha vida: o de que cada pessoa tem sua versão para um mesmo fato. Parece muito comum, não? Você já sabia disso, eu sei, mas quando se está escrevendo sobre a vida de alguém e se escuta a narração de um fato de dez formas diferentes, isso se torna verdadeiramente impressionante! Você nunca mais esquece a lição. A linha condutora é a mesma, as pessoas viram as mesmas coisas acontecendo, mas para uma, fulano estava lindo e era divertido; para outra, mal arrumado e grosseiro; para uma terceira, era o centro das atenções; a quarta, mal percebeu sua passagem; a quinta parece saber o motivo de ele agir daquele jeito… Que jeito? E aí começa tudo de novo. Cada um viu de um jeito diferente. Com carinho, com graça, com amor, com raiva, com desprezo… E eu, que nem estava lá, fico com o grande presente de assistir a cena de vários ângulos, de uma forma mais rica e completa, como ninguém viu. Isso me ajudou bastante a não julgar alguém por uma ação, um momento, um período ou, muito menos, pelo que alguém falou.
O triste impulso de alimentar mágoas – Continuo acreditando que alguém só pode ser magoado por uma pessoa que ame ou, no mínimo, por uma pessoa de que espere um comportamento de carinho, aproximação, amizade ou algo afim. Não guardo mágoas. Já fui traído, roubado, sacaneado, enganado e não guardo qualquer mágoa. Sou um santo? Não. Apenas tenho consciência de duas coisas: a mágoa faz mal a mim (e não a quem a causou) e se alguém me magoou foi por ignorância (se realmente soubesse o que estava fazendo, não o faria).
Já tive profundas e duradouras mágoas de uma ou outra pessoa. Já as alimentei, fiz crescer e sofri bastante por isso. A mágoa é um bicho que corrói por dentro. Quando você vê, já corroeu seu coração. Livrei-me dela antes que isso acontecesse. Como? Tratando do item anterior: da visão limitada e estagnada. Por que a pessoa me magoou? Quais motivos teve para isso? O que a levou a isso? Como era sua vida na época em que causou essa mágoa? Por que não evitou que acontecesse? Fazendo tais perguntas, procurando entender mais do que simplesmente a ação que gerou a mágoa, provavelmente você chegará à óbvia conclusão de que as pessoas não são perfeitas. Elas erram. Com isso, machucam os outros. Se sua visão estiver ainda obscurecida o bastante para não deixá-lo enxergar isso, troque a posição dos personagens e lembre-se da mágoa que você causou a alguém. Por que você magoou? Quais motivos teve para isso? Como era sua vida na época? Por que não evitou que isso acontecesse? Conseguiu as respostas? Acha que é digno de perdão? Dê essa oportunidade a quem o magoou.
Às vezes, uma nova mágoa tenta se instalar, mas costumo perceber o ataque e cortar o mal em seu início. Essa parte, até julgo fácil. O que me entristece é quando percebo, em outra pessoa, a mágoa causada por mim. E não posso esperar dela a mesma disposição que tenho em me livrar desse sentimento. Mais triste ainda é quando você nem sabe o que fez para causar aquilo e já se depara com algo gigantesco. O pior é que, muitas vezes, nem a pessoa magoada sabe o porquê daquilo. O que poderia ser algo resolvido em uma conversa de poucos minutos se transforma em um monstro cheio de raiva, sempre pronto a causar novas mágoas. A única forma de se amenizar isso é ter uma profunda Compaixão. Compaixão em sua forma mais nobre e pura.
Como disse no início do texto, tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Queria que fosse algo tão forte, que não se abalasse com a formiguinha ou com o vento. A Compaixão não tem essa capacidade de crescimento da mágoa. Ela não se instala com facilidade, nem vai crescendo descontroladamente. Ela necessita de cuidados, de atenção, de ser alimentada delicadamente. A Compaixão é um eterno bebê: frágil, mas capaz de fazê-lo esquecer qualquer coisa apenas com um sorriso. Cultive essa criança dentro de você.
Meu melhor sorriso de bebê a todos.
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O título deste texto é uma frase da escritora norte-americana Lilian Hellman.
Há um texto que teima em não sair. Nada tem a ver com inspiração. Se você não escreve, explico. Os textos são como óvulos: já estão todos dentro de nós e, de tempos em tempos, vamos colocando um deles para fora. O que teima em não sair é o que fala sobre meu relacionamento com Natal.
Caso ele queira se manifestar e defender seu ponto de vista, ótimo. Se não, falo mesmo assim.
O início é conhecido: mudei do Rio para Natal em péssimo momento. Adolescente, em meados dos anos 80, saindo de um lugar que estava explodindo para um que não tinha nada. E eu queria explodir também. Mais que qualquer adolescente. Queria explodir com a força de um adolescente carioca, saindo da ditadura e querendo gritar que a vida é rock’n’roll. Fui jogado no meio do forró, da vaquejada e, mais adiante, do axé. Foi o de menos. Nada disso me contaminou, afinal, nunca me obriguei a ter contato com essas coisas. O problema nunca foi esse ou aquele detalhe, mas “o todo”, a cultura geral. E não em contraposição a que eu conhecia, mas a que eu desejava.
Some-se a tudo a infeliz e total falta de sintonia temporal entre mim e a cidade. Quando ela não tinha nada, eu não suportava; hoje, sinto falta da tranquilidade, do silêncio, da segurança. Agora que oferece outras possibilidades, nenhuma me interessa. E “o todo”, a cultura geral, continua do mesmo jeito.
Neste ponto, alguém pode fazer aquelas perguntas (bobas): Então, o que você está fazendo aí? Por que não vai embora? Primeiro: eu fui. Segundo: eu nem posso dizer que moro aqui outra vez, apesar de, no último ano, passar a maior parte do tempo em Natal. E o motivo disso são meus filhos. É também aí que entra outro ponto que dificulta a relação: ter passado quase oito anos distante e me deparar com mudanças (para pior ou que não me interessam) e com os mesmos comportamentos com os quais nunca tive afinidade.
Tentei fazer as pazes com a cidade que foi palco de minha adolescência, que me deu liberdade, amores, paixões e duas filhas. Nesse processo de redescoberta, como não poderia deixar de acontecer, os pontos de atrito ficaram mais evidentes: o crescimento desordenado, a insegurança, a falta de profissionalismo, as relações promíscuas entre jornalistas e políticos, o vender-se por qualquer trinta moedas, o não aceitar críticas por achar que são sempre ofensivas, o desprezo pela História e pela cultura, a priorização da futilidade e muito outras coisas que também encontramos fácil em qualquer lugar.
No entanto, diferente da maioria, prefiro não enfatizar os defeitos do outro. Interessa-me saber o que o outro tem de bom. Nessa nova temporada em Natal, procurei fazer isso. Busquei o sol nascendo no Forte dos Reis Magos e se pondo na Pedra do Rosário ou no Canto do Mangue; busquei as figuras de rua, como André da Rabeca; as estátuas e os prédios centenários; as paredes da Ribeira contando o que viram em séculos de boemia; as igrejas antigas; o povo simples das Rocas e Santos Reis; os detalhes bons e conhecidos por poucos.
Também resolvi que nossa relação não deveria ser de paixão. Uma amizade de temporada seria o mais indicado. Sem forçar, sem solicitar muito para não ficar chato. Assim, o comprometimento diminuiu. Não pretendo dar muito de mim, nem espero que a cidade me dê algo. Menos contato, menos atrito. Quando voltar a falar a respeito dela por aqui, será sobre algo que gosto, como as igrejas. Dessa forma, talvez aprenda a curti-la como às outras por onde passo.
Vivo onde moram os monstros. Independente de onde meu corpo esteja, o lugar na minha cabeça é sempre lindo. A Natal que gosto é a que vejo, mas ainda tenho a impressão de que ela é uma menina de olhos grandes me oferecendo uma flor, tirando minha atenção do caminho que devo percorrer e, pior, fazendo isso de forma mal-intencionada. Quando essa história terminar, a verdade será revelada. Até lá, pretendo vivê-la em paz.
Janeiro de 1989 estava terminando. Eu havia voltado do famigerado Eneconha de João Pessoa e, na segunda-feira seguinte, dia 30, tentava voltar ao normal, se é que podemos chamar de “normal” qualquer coisa naquele tempo. A turma do Centro Acadêmico marcou uma reunião para fazer um balanço do que havia acontecido no Encontro Nacional, mas… se balançasse muito, acabaríamos vomitando. Ainda estávamos de ressaca.
No último dia do mês, assisti Os Garotos Perdidos (The Lost Boys). Também tínhamos filmes com vampiros nos anos 80, mas eram menos bobos que os de hoje. Dormir o dia todo. Festa a noite toda. Nunca envelhecer. Nunca morrer. Era divertido ser vampiro ou adolescente naquela época e as regras valiam para ambos.
Fevereiro começou com filme. Dia dos Mortos (Day of the Dead), do zumbizólogo George A. Romero. É, também tínhamos zumbis (se você curte Romero e o gênero, assista Zumbilândia, que está nos cinemas). Na sexta, 3, eu registrava na agenda: Stroessner é derrubado. O militar golpita paraguaio sofreu um golpe militar e foi desancado do poder após 35 anos. Não estava muito a fim de pensar naquilo e, no final de semana, coloquei em prática minha sanha adolescente por filmes em VHS. Vi Home of the Brave, show da louca Laurie Anderson (sim, eu era um adolescente antenado); Super Xuxa contra o Baixo Astral (sim, eu era um adolescente retardado); e Je vous salue Marie (sim, eu era um adolescente intelectualizado e que caía por terra aos pés de um filme de Godard).
Na segunda-feira, 6 de fevereiro de 1989, duas anotações na agenda. A primeira dizia: Stroessner está no Brasil (sua presença é um tanto “incômoda”). Ele ficaria por aqui até sua morte, em 2006. Na outra: Passei a tarde e a noite redigindo cartas.
Sim, cartas! Fico imaginando como a geração dos meus filhos chegará à idade adulta sem ter uma caixa de cartas e de fotos para lembrar as aventuras. Deve procurar nos e-mails, mas talvez já não existam ou, se existirem, não deverá entender o dialeto em que escrevia. E as fotos? Tantas e tantas, mas os amigos nunca mandavam. E as feitas por eles mesmos? Perdidas em algum HD que deu pau. Triste fim da memória.
Eu escrevia muitas cartas. Alucinadamente. Quase sempre em máquina de escrever, pois minha letra já era uma desgraça. O hábito de trocar correspondências começou em 1986, quando me mudei do Rio para Natal, mas se intensificou em 1990. Em fevereiro daquele ano, minha principal correspondente era Márcia Cristina, colega dos tempos de ginásio. A partir das cartas e de telefonemas (geralmente de minha parte, no meio da madrugada), começamos a construir uma sólida amizade que dura até hoje (não é, cachorra? Eu sei que você está lendo isto! ). A propósito, estávamos falando – por MSN e Skype – enquanto eu escrevia.
As cartas também resistiram a essas duas décadas e, hoje, nos contam histórias de dois adolescentes: um porra-louca que fazia Jornalismo e apaixonadíssimo pela namorada; e uma garota contida, em dúvida entre Medicina e Jornalismo, que acabaria fazendo Direito.
Há poucos dias, Márcia digitalizou as cartas que enviei e pude encaixá-las em suas respostas. Na primeira delas, a história do Enecom, ocorrida no ano anterior, ainda rendia. Fiquei impressionado como muito do que escrevi na carta, vinte anos antes, estava da mesma forma no texto da semana passada! Não havia divergências ou acréscimos na repetição da narrativa. Só alguns pontos que haviam ficado esquecidos, como as manhãs durante o encontro: Todo dia eu acordava cedinho, fazia duas marias-chiquinhas e acordava as delegações do Maranhão e Campina Grande, saltitando entre os corpos estendidos nos colchões enquanto, na porta, um coro cantava: “Bom dia, amiguinhos, já estou aqui/ tenho tantas coisas pra nos divertir…
Contava também, ainda sobre 89, que já estava me acostumando com a ideia de ser uma versão macho da Christiane F. quando uma providencial greve, na universidade, me afastou daquela vida bandida.
A criaturinha era Fabíola e eu falava a seu respeito em 80% do conteúdo de cada carta que escrevia a Márcia. Em fevereiro de 1990, eu a apresentava…
Vocês também vão saber mais sobre essa e outras histórias. Continuarei a lembrar, com ajuda das agendas e das cartas, no próximo sábado.
Ananda demorou a falar. Era fácil perceber que entendia tudo, mas não falava. A médica nos tranqüilizou, disse que algumas crianças são assim, não havia nada de errado. Quando resolvesse falar, mostraria o vocabulário e a compreensão apropriados para sua idade. E foi assim mesmo.
Dez anos depois, Ananda diz que não gosta de muita gente falando. Perguntada se queria ir ao parque ou ao museu, respondeu imediatamente: “Museu”. Sim, Ananda é minha filha. Esses comportamentos confirmam isso e me enchem de orgulho.
Ananda – agora não a minha – era o mais aplicado discípulo de Buda e, segundo contam, foi graças a seu poder de observar e memorizar que muitos dos ensinamentos de seu Mestre puderam ser passados adiante. Ananda, em sânscrito, é Bem-aventurança ou, como fica mais fácil ao entendimento ocidental, a Felicidade Suprema.
Ananda – a minha – continua observando tudo. Com uma câmera em mãos, me surpreendeu em uma primeira aventura fotográfica. Escuta uma dica ou outra e, com olhar atento, vai registrando detalhes de um teatro centenário. Em uma conversa silenciosa, vai se entendendo com a luz, mostrando que podem ser amigas.
Em casa, a continuação. Corte, redimensionamento, pequeno ajuste no contraste… e ela atenta. Depois de uma série de Ctrl+isso, Ctrl+aquilo, assume o controle e faz tudo sozinha. “Agora vamos fazer um blog?”. Fico só assistindo. Dá conta do recado sozinha. E me faz crer que não há nada a ensinar. Quando muito, orientar.
Poucos dias depois, ganha uma câmera. Na primeira saída para testar o novo brinquedo, vai mostrando a crescente intimidade com a luz. Técnica e experiência vêm com o tempo. Os olhos atentos e a alma sensível já vieram de fábrica.
Durante nossos passeios, fico sem saber se olho-auxilio, olho-brinco-junto ou olho-admiro. E a discípula me ensina que preciso mesmo é calar e prestar mais atenção a tudo.
Os últimos dias de janeiro de 1990 foram calmos. A agenda daquele ano comparada a de outros, revela que sempre leio pouco em janeiro. Minha média é de um ou dois livros por semana, mas no primeiro mês de cada ano isso cai terrivelmente. Quando percebo a falta, começo a ler desesperadamente. Naquela última semana, li Perestroika, de Mikhail Gorbachev, leitura obrigatória para quem quisesse entender as transformações políticas da época; He, sucesso de Robert A. Johnson, uma das partes da trilogia que contava ainda com She e We; e Minha Razão de Viver, autobiografia de Samuel Wainer.
Em 1989, o ritmo era outro. Na sequência de shows de verão, o do Capital Inicial estava programado para o dia 25 de janeiro, uma quarta-feira. Havia comprado o ingresso alguns dias antes e marcado na agenda, mas na noite anterior decidi ir ao Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação – Enecom, que aconteceria de 25 a 28, em João Pessoa, na Paraíba. Eu fazia parte da chapa que havia acabado de ganhar as eleições para o Centro Acadêmico (C.A.) e não poderia deixar de fazer parte das plenárias, militar, gritar palavras de ordem e todas essas coisas que acreditamos sérias quando somos jovens estudantes ou quando somos embriões de políticos.
Havíamos conseguido um micro-ônibus da UFRN e partiríamos na quarta pela manhã. Dei meu ingresso a Carlos Magno (hoje diretor de redação de um jornal em Natal), que também fazia parte do C.A., e embarquei naquela aventura. Um detalhe: eu tinha 16 anos e, em tese, alguém teria que se responsabilizar por mim. Isso ficou só na tese mesmo.
Por volta das 8h30 da manhã, já estávamos na base da cerveja, da vodka e do que de mais barato tivesse e aparecesse. Se o motorista desse mole, tomaríamos a gasolina do micro-ônibus. Inexperientes e sedentos, em menos de uma hora acabamos com tudo. Paramos em uma bodega no meio do caminho. O dono não queria nos vender nada. Disse que só vendia por doses e quase tudo estava aberto. O que tinha fechado? Conhaque de alcatrão. Manda! Só em dose. Conta as doses. Manda. Embarcamos de novo. Peraê! E copo? Só tem de vidro. Então pega canudinho. E assim desembarcamos no final da manhã em João Pessoa, já completamente bêbados.
As salas de aula da UFPB faziam as vezes de dormitórios. Quem tivesse levado colchão, ótimo; quem não tivesse levado, poderia ter sorte de conseguir um com os organizadores do encontro ou dividir um com outra pessoa, o que era recomendável e muito desejado. Ficamos em uma sala ao lado da turma de Campina Grande (PB) e do Maranhão. Estes, para manter uma das mais sólidas tradições maranhenses, nos receberam com algo que parecia o charuto do Hulk, mas que eles juravam que era “só um baseado mesmo”. Muito educadamente recusei e comecei a perceber que aquele papo de plenárias, discussões sobre os rumos do jornalismo, protestos e política estudantil eram desculpas para nosso pequeno Woodstock ou, como jamais deixaria de ser chamado, nosso Eneconha.
Lisos, lesos e loucos, tomávamos qualquer coisa que desse barato. Foi assim durante o primeiro dia inteiro. À noite, quando os bares do Campus da UFPB fecharam, fomos obrigados a sair em busca de mais álcool. No meio do breu, encontramos um boteco. Colegas de outros estados já estavam por lá. Todos em um clima muito familiar: música, barulho, garrafas sendo enxugadas, ameaças de strip-tease em cima das mesas. Até aí, eu me lembro. Corte. Sandro deitado em um chão de terra encharcado de mijo, ao lado de uma borracharia. Corte. Tudo escuro. Sandro tentando não se afogar com o próprio vômito (“Hendrix morreu assim!”, eu pensava desesperado). Corte. Sandro sendo carregado – arrastado, sem conseguir me sustentar nem dar um passo – até o dormitório. Em rápidos lampejos, ouvia coisas como: “E se ele morrer?!”; “Gente, ele menor! Quem está responsável por ele?”; “Não é melhor levar para um hospital”… Spoiler: eu sobrevivi. Estou aqui, 21 anos depois, contando isso a vocês.
Foram horas debaixo do chuveiro até que eu e outros colegas nos convencêssemos de que eu poderia fechar os olhos sem que fosse pela última vez. Tentava fazer polichinelos, flexões de braço, esmurrava os tapumes que serviam de parede, prometia a todos os santos que se escapasse daquela nunca mais beberia. Lá pelas tantas, totalmente molhado, me joguei em um colchão e fosse o que Deus quisesse. Ele devia estar de bom humor. Não deixou ninguém abusar sexualmente de mim. Pelo menos, eu acredito nisso até hoje.
No dia seguinte, na primeira ida ao refeitório, vi que não conseguiria comer nada. Foi assim durante todo o evento. Então, eu bebia. Juro que não queria, mas tinha que botar alguma coisa para dentro. Que fosse álcool. Promessas? Que promessas? Não lembro. Sei que um anel, de minha amiga Andréa, que quase não entrava em meu anular direito antes de sairmos de Natal estaria dançando no meu polegar quatro dias depois.
No último dia do encontro, no refeitório, durante o almoço, rolou uma performance – estudantes de jornalismo adoram essas coisas! São todos artistas, músicos, poetas e escritores frustrados –… bem, rolou a tal performance em que alguns apareciam nus, corriam no meio de todos e subiam nas mesas. À noite, as caravanas se preparavam para voltar. Algumas se preocupavam com a estrada ou quem os pegaria ao chegar. A do Maranhão estava preocupada em acabar de qualquer jeito com as quatro quentinhas de maconha que havia levado. Não queriam correr o risco de um novo encontro com a Polícia Rodoviária Federal. Então, dá-lhe fazer charutos de Itu e tocar fogo neles. Enquanto rolava a plenária final, ânimos acirrados, discussões ruidosas, eu e outros, digo, eu e uns maconheiros do Maranhão, Natal e Campina Grande resolvemos invadir o local, travestidos – eu, maquiado e com chuquinhas no cabelo – e cantando Turma da Xuxa, aaaaaaaahh/Turma da Xuxa… e Ilariê. Os que levavam a política estudantil a sério não gostaram muito, mas os pelegos e os malucos, que eram maioria esmagadora, curtiram o show.
Já de volta, corri para a agenda e fiz um resumão nessas páginas que aparecem no alto do texto. Os nomes dos colegas de outras cidades (com os quais eu me corresponderia por algum tempo), os de Natal que haviam participado da bagunça, os principais momentos e, encerrando, uma expressão que definiria tudo: SÓ PUTARIA!