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	<title>Sempre Algo a Dizer</title>
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		<title>Dias (e filmes) melhores virão</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 17:35:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[
“Morreu Lampeão. E foi épico”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal A República, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “Acabar de datilografar o texto de Lampião”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-510" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/ageneral1.jpg" alt="ageneral" width="600" height="388" /></p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Morreu Lampeão. E foi épico</em>”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal <em>A República</em>, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “<em>Acabar de datilografar o texto de Lampião</em>”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com ácaros. Focinho enfiado em jornais antigos, copiava os artigos à mão para depois datilografar em casa. Nem em meus sonhos mais Clarkeanos (do Arthur C., não do Kent), me imaginaria, quase década e meia a frente, clicando centenas de páginas, em uma tarde, com uma câmera digital do tamanho da palma de minha mão.</p>
<p style="text-align: justify;">Os apontamentos daquele fevereiro denunciam planos nunca terminados como a eterna retomada às aulas de inglês e a incapacidade, hoje parcialmente vencida, de cumprir o que prometia a mim mesmo: Segunda, 13 – <em>“Tentar” fazer o que deixei de fazer ontem</em>; Terça, 14 – <em>Tentar fazer o que não tentei fazer ontem que é justamente o que eu não fiz anteontem</em> e, mais adiante, no fim da página, <em>Saldo do dia: não fiz nada</em>. O humor e a mania de ironizar os próprios defeitos também já se faziam presentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em quase todos os dias, havia uma “reunião”. Sempre em um bar. Era a velha escola do jornalismo e da política estudantil. Marcávamos a reunião, bebíamos todas, decidíamos nada e marcávamos outra reunião para fazermos tudo isso outra vez.  As anotações sobre o vai-e-vem de cartas era outra constante. Chegavam também postais da Paraíba e do Maranhão, enviados pelos novos colegas que havia feito no Enecom. E eu sabia quem eram aquelas pessoas? Várias não foram identificadas. Ah, um Orkut! Ah, um Facebook! Um Google que fosse, para dar uma clareada nas ideias. Não havia nada disso. Só a educação em responder e esperar que alguém mandasse uma foto para ser lembrado. Falando em fotos, só vi as feitas com minha máquina – uma Olympus Trip 35 – duas semanas depois de chegar do encontro. Tinha que esperar acabar o filme – 24 ou 36 poses que rendiam! – e ter dinheiro para revelação e cópias. E nada de cópias para os outros. Eram caras!</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de fevereiro de 1989 começava mais um semestre e, para não ferir os costumes, os professores não apareceram para dar aulas. Sabe como é&#8230; “os alunos não vão, então não vou também&#8230;”, emenda com carnaval, feriados, enforca daqui, enforca dali, hoje não dá, até que, no final, as notas se ajeitavam e (quase) todos ficavam felizes seguindo aquela velha regra: os professores fingiam dar aulas e os alunos fingiam aprender. Sempre demos muita importância às tradições nacionais e tínhamos muito orgulho disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles idos, eu ouvia bastante o bolachão <em>Black Celebration</em>, do Depeche Mode. Semestre letivo já iniciado, tentava conseguir uma Pentax K1000 junto ao laboratório do curso. Não lembro se cheguei a fotografar, mas estava presente ao debate com Mário Covas, no dia 27 de fevereiro, no auditório da Reitoria da UFRN. No final daquele ano, o país voltaria a votar em seus representantes políticos. Eu, como a maioria dos meus colegas de faculdade, nem era nascido quando isso havia acontecido pela última vez. Imagine a emoção de, sendo universitário, ter a oportunidade e a liberdade de debater com os candidatos! Um deles seria nosso presidente no ano seguinte.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a posse só aconteceria em março de 1990. É um pouco antes que aportamos, agora, naquele ano. Na terça, 13 de fevereiro de 1990, recebia, pelos Correios, alguns clássicos em VHS, mas só começaria a vê-los no dia seguinte. Naquele dia, a única preocupação era ir ao show dos Paralamas do Sucesso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A General </em>(1927), até hoje considerado um dos melhores filmes da História do Cinema, foi o primeiro VHS que tirei da caixa no dia seguinte. A obra-prima de Buster Keaton chegava aos videocassetes brasileiros 63 anos depois de exibida nos cinemas. O filme teve várias versões que ganharam ou perderam alguns minutos e pelo menos três sonorizações diferentes. A versão que recebi e guardo até hoje tem uma trilha sonora bem superior a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=1b24wqhy0Zo" target="_blank">esta que você pode assistir no YouTube</a>. Talvez tenha sido com <em>A General </em>que percebi existir algo além da <em>Sessão da Tarde</em> e do cinema pipoca. Até então, eu consumia filmes. Era filme, mandava para dentro. Mas o milagre não se deu do dia para a noite. Naquela mesma semana assisti <em>Popeye </em>(sei que serei perdoado por este) e <em>Máquina Mortífera II </em>(e muito justamente condenado por este). Uma curiosidade: na sexta-feira, 16, a Globo exibiu <em>Dias melhores virão</em>, de Cacá Diegues, antes de estrear no cinema. Uma maluquice que nunca consegui entender.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">No carnaval, que naquele ano caiu no final de fevereiro (24 a 27), passei em Muriú, praia de veraneio do município de Ceará-Mirim (RN). E março&#8230; março fica para o próximo capítulo.</p>
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		<title>Nós somos o mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 07:54:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Envie a eles seu coração
Assim saberão que alguém se importa com eles
E suas vidas serão mais fortes e livres
(Dionne Warwick em We are the World)
Tenho três filhos. Aimée, a primeira, está completando 17 anos hoje. É difícil explicar a ela – e acredito que será muito mais para os dois mais novos, atualmente com 10 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Envie a eles seu coração<br />
Assim saberão que alguém se importa com eles<br />
E suas vidas serão mais fortes e livres</em><br />
(Dionne Warwick em <em>We are the World</em>)</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho três filhos. Aimée, a primeira, está completando 17 anos hoje. É difícil explicar a ela – e acredito que será muito mais para os dois mais novos, atualmente com 10 e (quase) 5 anos – que já existiu um mundo sem Internet, que precisávamos esperar para ter determinada informação, no qual artistas eram ativistas políticos e humanitários e faziam músicas que varriam o planeta, fazendo com que as pessoas parassem e pensassem que havia algo muito maior e mais importante que suas próprias vidas, que deveriam agir para transformar esse mundo em um lugar mais justo e melhor para se viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1982, eu tinha 10 anos – idade atual de Ananda, minha filha do meio –, e escutei uma música, em inglês, que me tocou de alguma forma. Eu não entendia nada do que ela dizia além da palavra que lhe dava título e era repetida algumas vezes: <em>Africa</em>. Qualquer manifestação artística honesta e bem realizada desconhece barreiras de linguagem. Essa canção foi feita por excelentes músicos populares que sabiam como transpor essas barreiras. A impressão que ela me deixou, até hoje, é que começava de uma forma melancólica mas esperançosa e, em determinado momento, pouco antes do refrão, fazia uma convocação para, na sequência, ganhar outras vozes reafirmando uma necessidade urgente.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/9NuA7AripfU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/9NuA7AripfU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Certamente demorou algum tempo, alguns anos talvez, para que eu soubesse que era realmente isso.  A voz se elevava ao dizer “<em>Hurry, boy, it&#8217;s waiting there for you</em>” (em uma tradução livre: <em>Rápido, garoto, tudo está lhe esperando por lá</em>). No refrão, dizia em coro: <em>There&#8217;s nothing that a hundred men or more could ever do (&#8230;) /Gonna take some time to do the things we never had </em>(<em>Não há nada que uma centena de homens ou mais não possa fazer (&#8230;) /Vai levar algum tempo para fazer as coisas que nunca fizemos</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/watw_big.jpg" target="_blank"><img class="alignright size-full wp-image-502" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/wearetheworld.jpg" alt="" width="288" height="347" /></a>Devo ter recebido essa informação por volta de 1985, quando já bombardeados com as muitas imagens da fome na África – a maioria pela TV, durantes os telejornais –, vimos um grupo de artistas (naquele tempo havia artistas de verdade, não meras “celebridades”) se unir, criar e cantar uma música que virou um verdadeiro mantra, que por si só parecia ter a força de executar mudanças gigantescas: <em>We are the World</em>. Para mim, um adolescente de 13 anos, ela parecia ganhar mais força quando entrava alguma das vozes dos astros do pop rock que eu costumava ouvir. Aquelas vozes mais conhecidas falavam diretamente a mim: Tina Turner dizendo que somos todos parte da fantástica família de Deus; Michael Jackson, de uma forma muito doce, dizendo que somos o mundo, somos as crianças; mais adiante, caso alguém não tivesse entendido, a voz rouca e poderosa de Bruce Springsteen repetindo isso de outra forma; e o esclarecimento era dado pela voz de Cindy Lauper, dizendo que deveríamos perceber que a mudança só poderia vir quando nós nos juntássemos e resistíssemos como se fossemos um só.</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito que a experiência de <em>We are the World</em> só possa ser plenamente entendida por quem viveu aquela época. Não podíamos baixar o clipe para um computador ou vê-lo no <em>YouTube</em> a qualquer instante. Não havia nem videocassetes. Tínhamos que esperar a música ser executada em uma rádio ou o vídeo ser exibido na TV. Quando isso acontecia, todos corriam, aumentavam o som e, mesmo sem saber direito o que estavam falando, cantavam junto, fazendo parte daquele coro: <em>We are the world, we are the children / We are the ones who make a brighter day.</em> Era um momento de oração. Depois, comprando o LP e com isso contribuindo para combater a fome na África, podíamos “rezar” mais vezes.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/jzw6GiqZyD0&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/jzw6GiqZyD0&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, 25 anos depois, Quincy Jones e Lionel Richie, dois dos idealizadores daquele momento, reúnem um novo time para fazer <em>We are the World &#8211; 25 for Haiti</em>, que será lançado nesta sexta, 12 de fevereiro, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Um quarto de século depois, o mundo está muito diferente, totalmente conectado. A informação chega imediatamente a qualquer lugar do planeta e pode ser acessada e repassada a qualquer momento, quantas vezes for preciso. Muita coisa mudou, mas não a nossa incapacidade de resolver os problemas dos nossos irmãos mais necessitados.</p>
<p><center><br />
<object width="560" height="340"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Glny4jSciVI&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Glny4jSciVI&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Duvido que alguém discorde da afirmação de que hoje as pessoas são muito mais insensíveis do que 25 anos atrás. O problema da fome na África continua e a ele se aliou o da AIDS que, até agora, já matou o equivalente a uma vez e meia a população da cidade de São Paulo. E há outro tanto desses vivendo com o vírus. Não fomos capazes de deter isso e ainda fazemos previsões para um futuro pior. Em 15 anos, mais de 200 milhões – mais do que toda a população atual do Brasil – estarão infectados com o HIV na África.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação do Haiti não é diferente. <em>Noventa por cento dos 5 milhões de haitianos são subalimentados. Há seis médicos para cada 100 mil habitantes. A expectativa de vida não chega a 50 anos. Noventa por cento da população é analfabeta e 73% das crianças com menos de 14 anos nunca foram à escola. O desemprego e o subemprego são da ordem dos 70%.</em> E o que você acabou de ler não é uma informação divulgada recentemente, por conta do terremoto que matou mais de 230 mil pessoas. Você leu um parágrafo de uma matéria de agosto de 1973 da revista <em>Realidade</em>. Quase quatro décadas depois, a realidade é bem pior.</p>
<p style="text-align: justify;">Há duas coisas que não consigo entender: como não conseguimos aprender com nossos erros e como bilhões de pessoas não conseguem impedir que alguns poucas deixem milhões de outras nessa situação por décadas e até séculos. Grande parte dos 5 milhões dos quais falava a matéria de <em>Realidade</em> em 1973 já morreu. Surgiram pelo menos duas outras gerações, hoje cerca de 8 milhões de pessoas, que já nasceram condenadas a esse mesmo tipo de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles dias de 1985 em que o mundo estava cantando <em>We are the World</em>, Baby Doc, então presidente dito vitalício do Haiti, comemorava 14 anos de sua chegada ao cargo, transmitido por seu Papai Doutor (Papa Doc), que passou seus 28 últimos anos de boa vida vampirizando o país.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-503" style="border: 0pt none;" title="babydoc" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/babydoc.jpg" alt="babydoc" width="500" height="555" /></p>
<p style="text-align: justify;">No ano seguinte, 1986, Baby Doc e família fugiram para a França. Somente quatro anos depois, o Haiti teria o que é considerado como sua primeira eleição livre. O eleito foi o padre Jean-Bertrand Aristide, que também sofreu golpes e ficou em um vai-e-vem no cargo até 2004, quando foi retirado do país por tropas americanas. Aristide acabou se refugiando na África do Sul, outro país com um povo extremamente sofrido – a parte negra, para não fugir à regra.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo me estender nem falar agora sobre esse completo absurdo chamado Apartheid, que durou mais de meio século. Quero apenas terminar lembrando o maior símbolo de resistência contra esse regime de separação, Nelson Mandela, que passou quase três décadas preso pelo “crime” de defender a igualdade de direitos para todos os homens, independente de cor. Hoje, 11 de fevereiro de 2010, faz 20 anos que Mandela foi libertado.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles conturbados anos 80, quando parecíamos mais dispostos a lutar por um mundo melhor, ele ainda estava preso. Além de <em>Africa </em>(1982) e <em>We are the World</em> (1985), quem viveu aqueles tempos também deve lembrar outra canção que marcou a década: <em>Mandela Day</em> (1988), do Simple Minds. Era o mundo pedindo a libertação de um homem, de um símbolo de resistência e de humanidade. Nós realmente acreditávamos que éramos <em>O</em> mundo e não só a parte mais egoísta dele. Desejo que as gerações que viram sua história continuem inspiradas por seus ideais. E que, como é dito em um dos versos da música feita para ele, as crianças continuem conhecendo a história desse homem. Talvez ainda haja tempo de revermos esse roteiro que parece levar sempre ao mesmo fim. Talvez ainda sejamos fortes e suficientemente humanos para mudarmos nossa História.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/FFnJmz5pWc4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/FFnJmz5pWc4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Foi bom enquanto durou</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 20:33:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>

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Fevereiro de 1989 começou entre cartas, postais, reuniões do Centro Acadêmico e filmes. Neste último quesito, minha múltipla personalidade continuava se manifestando.  Via desde o pop Robocop (1987) aos ótimos Alta ansiedade (1977), homenagem de Mel Brooks a Hitchcock, e O Sol da Meia-Noite (1985), com matadores Mikhail Baryshnikov e Gregory Hines dançando e encantando. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-495  aligncenter" style="border: 0pt none;" title="5filmes80" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/5filmes80.jpg" alt="5filmes80" width="600" height="181" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fevereiro de 1989 começou entre cartas, postais, reuniões do Centro Acadêmico e filmes. Neste último quesito, minha múltipla personalidade continuava se manifestando.  Via desde o pop <em>Robocop</em> (1987) aos ótimos <em>Alta ansiedade </em>(1977), homenagem de Mel Brooks a Hitchcock, e <em>O Sol da Meia-Noite</em> (1985), com matadores Mikhail Baryshnikov e Gregory Hines dançando e encantando. Dentre minhas frustrações, está a de não ter me tornado um dançarino. Hoje, babo na frente da TV com programas como <em>So you think you can dance</em>. Não se engane: não era uma frescura latente. Eu não queria ser o Baryshnikov; queria ser o John Travolta, ser um imã para mulheres como Jamie Lee Curtis e ficar mais bonito depois dos 40 (ainda tenho fé neste ponto).</p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém lembrou de <em>Perfeição </em>(1985), com Travolta no papel de jornalista transitando em uma academia cheia de loiras de collants e caras com mullets e faixas na cabeça, acertou em cheio. Foi um dos filmes que assisti naquele fevereiro. No entanto, o mais marcante daqueles dias foi <em>Repo Man </em>(1984), um longa de ação-comédia-ficção científica estrelado por Emilio Estevez, que no Brasil ganhou o título de <em>Repo Man – A Onda Punk</em>. Assisti na noite de sábado, 11 de fevereiro. Sim, já existia SuperCine naquela época.</p>
<p style="text-align: justify;">Em fevereiro do ano seguinte, 1990, distribuidoras de filmes em VHS costumavam me mandar alguns de seus lançamentos. O nível começou a subir. Comecei a ficar mais seletivo. Já em relação aos livros, estava em uma fase bem “não pense muito, apenas leia”. Depois de <em>Cartas da Mãe</em>, de Henfil, eu devorava, em uma noite, <em>O Reverso da Medalha</em>, de Sidney Sheldon. um apontamento na agenda daquele ano me traz uma surpresa. Na sexta, 9, li <em>O Estudante</em>, de Adelaide Carraro. Não lembrava disso. Pensava que jamais havia lido qualquer livro seu antes de 2006 (li pelo menos trinta deles do final de 2006 a abril de 2007).</p>
<p style="text-align: justify;">Nas bancas, chegava a <em>Playboy</em> com uma capa muito esperada pelos adolescentes da época. Trazia uma baianinha, muito linda e com jeitinho de índia. Elimary Silva era seu nome, mas todos a chamavam de Mara Maravilha. Era um tempo em que as mulheres ainda eram de verdade. Mara fazia sucesso com a criançada, com os meninos adolescentes e com as meninas que se identificavam com a garotinha bonita, sensual, mas com ar puro que cantava <em>Não faz mal (eu tô carente, mas eu tô legal)</em>. Ah, Britney, desculpe-me dizer, mas eu era muito mais a Mara (até porque, em 1990, você era só uma garotinha desconhecida de 9 anos). Hoje, a convertida Mara prefere nem lembrar aquele período. <em>Foi bom enquanto durou/ E valeu/ O que passou já passou/ Não faz mal&#8230;</em></p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/bAS1riUeU6g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/bAS1riUeU6g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Antigas igrejas de Natal</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Feb 2010 08:33:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só então me dei conta de que não via muitas igrejas católicas em Natal. “Não via” é a expressão mais correta. Elas existem, mas as antigas, que meu olhar estava acostumado a ver, são mesmo poucas. Apenas quatro são anteriores ao século XX. Um detalhe que sempre estranhei: as três mais antigas são vizinhas e estão em um raio de aproximadamente 500 metros.</p>
<p style="text-align: justify;">A seguir, apresento esses quatro templos. As explicações históricas, em itálico, são do capítulo <em>Igrejas e Vigários</em>, do livro <em>História da Cidade do Natal</em>, de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo" target="_blank">Luís da Câmara Cascudo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-485" style="border: 0pt none;" title="ignsapre" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/ignsapre.jpg" alt="ignsapre" width="600" height="415" /></p>
<p style="text-align: justify;">A primeirona. Mais ou menos. Ali, na praça hoje chamada André de Albuquerque, foi fundada a <em>Cidade do Natal do Ryo Grande</em>, com uma missa em 25 de dezembro de 1599. O que existia era <em>uma capelinha, de barro socado e coberta de palha, ramos secos entrançados (nesse tempo não havia coqueiros), teria apenas uma entrada, sem sino nem aparato. Em 1614 não possuía ainda portas. Em 1619 estava pronta.</em> (&#8230;) <em>Em 1672 pensaram em substituir a capelinha por uma igreja mais sólida e compatível com as necessidades maiores da colônia cristã. </em>(&#8230;)<em> Em 1694 a igrejinha estava terminada.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Até aí, estamos no século XVII. Mas a que vemos na foto não tem nada dessa época. Cascudo explica: <em>Quase cem anos voam. Em 1786 há uma remodelação geral. Três anos antes a capela-mor ruíra. Fizeram então as capelas laterais </em>(&#8230;). <em>A igreja não tinha corredor nem arcadas interiores. Havia apenas um sino que dormia numa janela na frontaria, ao lado direito da matriz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não havia cemitério em Natal. Todos os fiéis eram sepultados dentro da Igreja, nos arredores também junto ao Cruzeiro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante o século XIX a matriz tomou outro aspecto. Em abril de 1856, o presidente Passos <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/04/01/passeios-por-cemiterios-i" target="_self">criou o cemitério</a> e adquiriu, por subscrição, um relógio para a planejada torre inexistente. Em 1862 começaram a levantar a torre (&#8230;) A torre é de 1862. Está a data ao cimo da respectiva porta.</em></p>
<p style="text-align: justify;">(&#8230;) <em>Essa série de remodelações retiraram da matriz todas as características. É uma igreja comum e banal, sem detalhes típicos e fisionomia </em>(&#8230;). <em>Resta a tradição, que é nobre e linda. Está no mesmo local de mais de</em> quatro séculos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-488" style="border: 0pt none;" title="igrosario" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igrosario.jpg" alt="igrosario" width="600" height="465" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fica, aproximadamente, a 300 metros à direita da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Não a conheço por dentro. Nunca a vi aberta. Tenho profunda simpatia por ela. Talvez por ser, verdadeiramente, a mais antiga da cidade. Em 2010, completará 296 anos. Os registros históricos e a placa ao lado de sua entrada dizem que foi inaugurada em 2 de julho de 1714.</p>
<p style="text-align: justify;">Diz Cascudo: <em>A igrejinha de Nossa Senhora do Rosário é o mais humilde dos templos dentro da cidade do Natal. Pequenina, pobre, com sua torrezinha quadrada, sua imposta no frontão, ao gosto melancólico dos velhos oratórios, passa sem registros nas crônicas de outrora.</em> (&#8230;) <em>É a igreja mais bem situada. Erguida num cômoro </em>(outeiro)<em>, recebe o primeiro olhar do rio (&#8230;). É o tipo da igreja primitiva, o simples caixão, com a nave, sem transepto, e a torre, mais convencional que útil. </em>(&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Era, antes de tudo, a igreja dos pretos, dos pobres, dos escravos. </em>(&#8230;) <em>Também era o local sagrado dos casamentos, dos batizados, das festas dos que nada possuíam.</em> (&#8230;) <em>Ali, Nossa Senhora era exclusivamente dos deserdados, dos miseráveis, dos esquecidos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja de Santo Antônio dos Militares </strong>(Igreja do Galo)</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-489" style="border: 0pt none;" title="igdogalo" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igdogalo.jpg" alt="igdogalo" width="600" height="465" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em minha opinião, a mais charmosa igreja de Natal. E, pelo que percebo, a preferida para os casamentos. Se a do Rosário foi construída para os pobres, a de Santo Antônio foi feita para os ricos. É datada de 15 de julho de 1763.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sobre a porta principal do templo há uma data: agosto de 1766. Deve significar o fim da construção. A torre nasceu depois. Uma inscrição no cimo da porta da torre informa que em janeiro de 1799 esta se concluía.</em> (&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>É a mais linda da cidade. Sua torre, encimada de azulejos reluzentes, com o galo heráldico, como um timbre numa cimeira feudal, a majestade do frontão com os motivos em arabesco, num barroco sugestivo e que se convencionou chamar jesuítico, as tochas estilizadas na cimalha, os desenhos em relevo, correndo e volteando a frontaria, dão um aspecto de majestade simples, imponente, mas acolhedora e simpática.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Sua proximidade com a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação sempre me impressionou. De sua frente, é possível ver a lateral da Matriz a uns cem metros apenas. Não me lembro de duas igrejas tão próximas em qualquer outra cidade que conheço.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-490" style="border: 0pt none;" title="igbjesus" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igbjesus.jpg" alt="igbjesus" width="600" height="410" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A matriz do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira é a última das igrejas vindas do século XVIII.</em> (&#8230;) <em>Na segunda metade do século XVIII era capela.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Cascudo diz que o mais antigo documento que havia encontrado sobre a essa igreja era “<em>um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores</em>”. Ele diz também que “<em>apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano Frei André, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Tem, portanto, um aspecto comum a outros templos construídos nessa mesma época, como as igrejas de São Pedro, no bairro do Alecrim, e a da Sagrada Família, nas Rocas.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores, <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/23/igreja-do-senhor-bom-jesus-das-dores/" target="_self">leia também este texto meu</a>, escrito na década de 90 e publicado aqui no <em>blog</em>. A respeito das igrejas do início do século XX, pretendo falar em outra oportunidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/sets/72157618775075660/" target="_self">Veja aqui</a> mais fotos das antigas igrejas de Natal.<br />
E também no álbum <a href="http://www.flickr.com/photos/memoriaviva/sets/72157594171973894/" target="_self">Natal Antiga</a> do Flickr Memória Viva.</p>
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		<title>As pessoas mudam e esquecem de avisar aos outros</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 00:38:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[
Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado de muita atenção e cuidados para se manter vivo.
Ter falado sobre Natal e das mágoas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-479" style="border: 0pt none;" title="piteco2" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/piteco2.jpg" alt="piteco2" width="600" height="215" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado de muita atenção e cuidados para se manter vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ter falado sobre Natal e das mágoas em nosso relacionamento parece ter excitado alguns demônios.  Em poucas horas, manifestaram-se quase todos os citados. Isso fez com que com outro texto que não queria sair resolvesse dar as caras. Ele fala, principalmente, a respeito de dois temas: a limitada e estagnada visão das pessoas e o triste impulso de alimentar mágoas. Aliados, esses comportamentos conduzem a uma estrada sombria, na qual não se enxerga o todo, nem as pessoas transitando nela, que acabam parecendo monstros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A visão limitada e estagnada</strong> – Minha vida sempre foi muito dinâmica, repleta de mudanças. Morei no Rio, em Natal, em Brasília, em Campina Grande, morei em umas vinte casas, trabalhei em dezenas de lugares, tive três casamentos, um sem número de mulheres nas entressafras, cabelo na cintura, cabelo moicano, mullets, cabelo algum, frequentei clubes, sociedades e grupos variados&#8230; Reconheço que a visão limitada que o ser humano costuma ter somada a uma vida assim não permita que alguém me conheça mesmo muito bem. Há ainda o agravante de que sou um cara extremamente reservado. Viu? Você achava que não pelo fato de eu escrever abertamente a respeito de minha vida? É a tal visão limitada, que não precisa ser obrigatoriamente um defeito, mas apenas algo que faz parte de nossa condição humana. Pois é. Sou muito fechado. Só convivendo muito perto de mim se percebe isso. E o engraçado é que só as raras pessoas a quem proporcionei alguma (ou muita) abertura é que podem dizer: “Ele é muito fechado!”</p>
<p style="text-align: justify;">Sinto de forma mais evidente essa deficiência da visão quando estou em Natal. Passei quase uma década sem contato com muita gente da cidade. Há pessoas que me veem como o cara esquisito de 15 anos de idade que apareceu de cabelo moicano no Salesiano, em 1987, e quase foi expulso por isso. Outras querem ver o Lobão de cabelos compridos que pegava-uma-pegava-geral na faculdade. Adicione a isso os preconceitos e fantasias de cada um e o desastre está feito: cabeludo = drogado, pegava geral = canalha, carioca = malandro, etc. Como já contei aqui, rolava até uma história de que eu me picava (com heroína) e saía nu, pilotando uma moto nas madrugadas de Natal. Se alguém acreditou nisso e passou uma década ou mais sem ver a figura, o que esperaria dela agora? Vamos ficar na realidade e fazer uma pergunta bem simples: como posso agir como um garoto de 15 anos quando tenho uma filha com mais idade que isso? Impressiona-me a dificuldade em perceber o óbvio: as pessoas crescem, envelhecem, mudam. Algumas até evoluem! Pode acreditar.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho estado muito cansado de, para parecer sociável, encarnar esses velhos personagens que as pessoas querem ver. Até porque isso reforça a ideia de que o tal personagem existe. E quando se dá o que os outros esperam, quem surge? O chato ou o estranho. E aí estão novos e também fantasiosos personagem. Pior ainda quando alguém teve uma convivência de dias, semanas ou alguns meses, séculos atrás, teve algum desentendimento e coloca isso como A verdade absoluta, o carro-chefe da sua personalidade. É muita cegueira para dar conta. Já me basta minha miopia.</p>
<p style="text-align: justify;">O Sandro de hoje é um cara cansado de gente, que não gosta de barulho, que adora passar muito tempo lendo, escrevendo e assistindo filmes, preocupado com os três filhos e que passa grande parte do tempo em pesquisas biográficas. Tirando os filhos, é um cara muito parecido com o de 20 anos atrás&#8230; mas que quase ninguém percebia. Muita coisa mudou. Ficou a essência. E tudo que posso fazer é ser eu mesmo. Cansei de vestir as máscaras que costumam me dar. Desculpem-me, mas não rola mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Há o outro lado: o da minha visão em relação ao outros. Não quero parecer diferente ou sobre-humano.  Talvez até seja uma deficiência de minha parte. Na maioria das vezes reencontro as pessoas como se as estivesse vendo pela primeira vez, mas com um sentimento inexplicável de que já passamos bons momentos juntos. Simplesmente gosto delas e estou pronto para brincar. Não espero que sejam perfeitas, não espero que me deem algo. Na verdade, não espero qualquer coisa. O que vier, será bem-vindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, devido às constantes pesquisas biográficas, também fui submetido a um aprendizado que considero dos mais importantes em minha vida: o de que cada pessoa tem sua versão para um mesmo fato. Parece muito comum, não? Você já sabia disso, eu sei, mas quando se está escrevendo sobre a vida de alguém e se escuta a narração de um fato de dez formas diferentes, isso se torna verdadeiramente impressionante! Você nunca mais esquece a lição. A linha condutora é a mesma, as pessoas viram as mesmas coisas acontecendo, mas para uma, fulano estava lindo e era divertido; para outra, mal arrumado e grosseiro; para uma terceira, era o centro das atenções; a quarta, mal percebeu sua passagem; a quinta parece saber o motivo de ele agir daquele jeito&#8230; Que jeito? E aí começa tudo de novo. Cada um viu de um jeito diferente. Com carinho, com graça, com amor, com raiva, com desprezo&#8230; E eu, que nem estava lá, fico com o grande presente de assistir a cena de vários ângulos, de uma forma mais rica e completa, como ninguém viu. Isso me ajudou bastante a não julgar alguém por uma ação, um momento, um período ou, muito menos, pelo que alguém falou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O triste impulso de alimentar mágoas</strong> – Continuo acreditando que alguém só pode ser magoado por uma pessoa que ame ou, no mínimo, por uma pessoa de que espere um comportamento de carinho, aproximação, amizade ou algo afim. Não guardo mágoas. Já fui traído, roubado, sacaneado, enganado e não guardo qualquer mágoa. Sou um santo? Não. Apenas tenho consciência de duas coisas: a mágoa faz mal a mim (e não a quem a causou) e se alguém me magoou foi por ignorância (se realmente soubesse o que estava fazendo, não o faria).</p>
<p style="text-align: justify;">Já tive profundas e duradouras mágoas de uma ou outra pessoa. Já as alimentei, fiz crescer e sofri bastante por isso. A mágoa é um bicho que corrói por dentro. Quando você vê, já corroeu seu coração. Livrei-me dela antes que isso acontecesse. Como? Tratando do item anterior: da visão limitada e estagnada. Por que a pessoa me magoou? Quais motivos teve para isso? O que a levou a isso? Como era sua vida na época em que causou essa mágoa? Por que não evitou que acontecesse? Fazendo tais perguntas, procurando entender mais do que simplesmente a ação que gerou a mágoa, provavelmente você chegará à óbvia conclusão de que as pessoas não são perfeitas. Elas erram. Com isso, machucam os outros. Se sua visão estiver ainda obscurecida o bastante para não deixá-lo enxergar isso, troque a posição dos personagens e lembre-se da mágoa que você causou a alguém. Por que você magoou? Quais motivos teve para isso? Como era sua vida na época? Por que não evitou que isso acontecesse? Conseguiu as respostas? Acha que é digno de perdão? Dê essa oportunidade a quem o magoou.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes, uma nova mágoa tenta se instalar, mas costumo perceber o ataque e cortar o mal em seu início. Essa parte, até julgo fácil. O que me entristece é quando percebo, em outra pessoa, a mágoa causada por mim. E não posso esperar dela a mesma disposição que tenho em me livrar desse sentimento. Mais triste ainda é quando você nem sabe o que fez para causar aquilo e já se depara com algo gigantesco. O pior é que, muitas vezes, nem a pessoa magoada sabe o porquê daquilo. O que poderia ser algo resolvido em uma conversa de poucos minutos se transforma em um monstro cheio de raiva, sempre pronto a causar novas mágoas. A única forma de se amenizar isso é ter uma profunda Compaixão. Compaixão em sua forma mais nobre e pura.</p>
<p style="text-align: justify;">Como disse no início do texto, tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Queria que fosse algo tão forte, que não se abalasse com a formiguinha ou com o vento. A Compaixão não tem essa capacidade de crescimento da mágoa. Ela não se instala com facilidade, nem vai crescendo descontroladamente. Ela necessita de cuidados, de atenção, de ser alimentada delicadamente. A Compaixão é um eterno bebê: frágil, mas capaz de fazê-lo esquecer qualquer coisa apenas com um sorriso. Cultive essa criança dentro de você.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu melhor sorriso de bebê a todos.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">O título deste texto é uma frase da escritora norte-americana Lilian Hellman.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos relacionados</strong><br />
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		<title>Discutindo a relação com Natal</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 00:30:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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		<description><![CDATA[
Há um texto que teima em não sair. Nada tem a ver com inspiração. Se você não escreve, explico. Os textos são como óvulos: já estão todos dentro de nós e, de tempos em tempos, vamos colocando um deles para fora.  O que teima em não sair é o que fala sobre meu relacionamento com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-466" style="border: 0pt none;" title="grafborb" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/grafborb.jpg" alt="grafborb" width="600" height="234" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há um texto que teima em não sair. Nada tem a ver com inspiração. Se você não escreve, explico. Os textos são como óvulos: já estão todos dentro de nós e, de tempos em tempos, vamos colocando um deles para fora.  O que teima em não sair é o que fala sobre meu relacionamento com Natal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-470" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" title="nat1_2fot" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/nat1_2fot.jpg" alt="nat1_2fot" width="226" height="335" />Caso ele queira se manifestar e defender seu ponto de vista, ótimo. Se não, falo mesmo assim.</p>
<p style="text-align: justify;">O início é conhecido: mudei do Rio para Natal em péssimo momento. Adolescente, em meados dos anos 80, saindo de um lugar que estava explodindo para um que não tinha nada. E eu queria explodir também. Mais que qualquer adolescente. Queria explodir com a força de um adolescente carioca, saindo da ditadura e querendo gritar que a vida é rock’n’roll. Fui jogado no meio do forró, da vaquejada e, mais adiante, do axé. Foi o de menos. Nada disso me contaminou, afinal, nunca me obriguei a ter contato com essas coisas. O problema nunca foi esse ou aquele detalhe, mas “o todo”, a cultura geral. E não em contraposição a que eu conhecia, mas a que eu desejava.</p>
<p style="text-align: justify;">Some-se a tudo a infeliz e total falta de sintonia temporal entre mim e a cidade. Quando ela não tinha nada, eu não suportava; hoje, sinto falta da tranquilidade, do silêncio, da segurança. Agora que oferece outras possibilidades, nenhuma me interessa. E “o todo”, a cultura geral, continua do mesmo jeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste ponto, alguém pode fazer aquelas perguntas (bobas): Então, o que você está fazendo aí? Por que não vai embora? Primeiro: eu fui. Segundo: eu nem posso dizer que moro aqui outra vez, apesar de, no último ano, passar a maior parte do tempo em Natal. E o motivo disso são meus filhos. É também aí que entra outro ponto que dificulta a relação: ter passado quase oito anos distante e me deparar com mudanças (para pior ou que não me interessam) e com os mesmos comportamentos com os quais nunca tive afinidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-472" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" title="nat2_2fot" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/nat2_2fot.jpg" alt="nat2_2fot" width="226" height="464" />Tentei fazer as pazes com a cidade que foi palco de minha adolescência, que me deu liberdade, amores, paixões e duas filhas. Nesse processo de redescoberta, como não poderia deixar de acontecer, os pontos de atrito ficaram mais evidentes: o crescimento desordenado, a insegurança, a falta de profissionalismo, as relações promíscuas entre jornalistas e políticos, o vender-se por qualquer trinta moedas, o não aceitar críticas por achar que são sempre ofensivas,  o desprezo pela História e pela cultura, a priorização da futilidade e muito outras coisas que também encontramos fácil em qualquer lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, diferente da maioria, prefiro não enfatizar os defeitos do outro. Interessa-me saber o que o outro tem de bom. Nessa nova temporada em Natal, procurei fazer isso. Busquei o sol nascendo no Forte dos Reis Magos e se pondo na Pedra do Rosário ou no Canto do Mangue; busquei as figuras de rua, como <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/19/andre-da-rabeca/" target="_self">André da Rabeca</a>; as estátuas e os prédios centenários; as paredes da Ribeira contando o que viram em séculos de boemia; as igrejas antigas; o povo simples das Rocas e Santos Reis; os detalhes bons e conhecidos por poucos.</p>
<p style="text-align: justify;">Também resolvi que nossa relação não deveria ser de paixão. Uma amizade de temporada seria o mais indicado. Sem forçar, sem solicitar muito para não ficar chato. Assim, o comprometimento diminuiu. Não pretendo dar muito de mim, nem espero que a cidade me dê algo. Menos contato, menos atrito. Quando voltar a falar a respeito dela por aqui, será sobre algo que gosto, como as igrejas. Dessa forma, talvez aprenda a curti-la como às outras por onde passo.</p>
<p style="text-align: justify;">Vivo onde moram os monstros. Independente de onde meu corpo esteja, o lugar na minha cabeça é sempre lindo. A Natal que gosto é a que vejo, mas ainda tenho a impressão de que ela é uma menina de olhos grandes me oferecendo uma flor, tirando minha atenção do caminho que devo percorrer e, pior, fazendo isso de forma mal-intencionada. Quando essa história terminar, a verdade será revelada. Até lá, pretendo vivê-la em paz.</p>
<p style="text-align: justify;">* * * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais de 250 cliques dessa nova relação:</strong><br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03" target="_self">Uns dias em Natal</a> &#8211; 2009<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/unsdiasemnatal/" target="_self">Uns dias em Natal</a> &#8211; 2010</p>
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		<title>Baú de cartas</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/30/bau-de-cartas/</link>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 16:51:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[
Janeiro de 1989 estava terminando. Eu havia voltado do famigerado Eneconha de João Pessoa e, na segunda-feira seguinte, dia 30, tentava voltar ao normal, se é que podemos chamar de “normal” qualquer coisa naquele tempo. A turma do Centro Acadêmico marcou uma reunião para fazer um balanço do que havia acontecido no Encontro Nacional, mas&#8230; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-461" style="border: 0pt none;" title="envelopes" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/envelopes.jpg" alt="envelopes" width="600" height="244" /></p>
<p style="text-align: justify;">Janeiro de 1989 estava terminando. Eu havia voltado do famigerado <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/24/o-historico-enecom-de-joao-pessoa/" target="_self">Eneconha de João Pessoa</a> e, na segunda-feira seguinte, dia 30, tentava voltar ao normal, se é que podemos chamar de “normal” qualquer coisa naquele tempo. A turma do Centro Acadêmico marcou uma reunião para fazer um balanço do que havia acontecido no Encontro Nacional, mas&#8230; se balançasse muito, acabaríamos vomitando. Ainda estávamos de ressaca.</p>
<p style="text-align: justify;">No último dia do mês, assisti <em>Os Garotos Perdidos </em>(<em>The Lost Boys</em>). Também tínhamos filmes com vampiros nos anos 80, mas eram menos bobos que os de hoje. Dormir o dia todo. Festa a noite toda. Nunca envelhecer. Nunca morrer. Era divertido ser vampiro ou adolescente naquela época e as regras valiam para ambos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fevereiro começou com filme. <em>Dia dos Mortos</em> (<em>Day of the Dead</em>), do zumbizólogo George A. Romero. É, também tínhamos zumbis (se você curte Romero e o gênero, assista <em>Zumbilândia</em>, que está nos cinemas). Na sexta, 3, eu registrava na agenda: <em>Stroessner é derrubado</em>. O militar golpita paraguaio sofreu um golpe militar e foi desancado do poder após 35 anos. Não estava muito a fim de pensar naquilo e, no final de semana, coloquei em prática minha sanha adolescente por filmes em VHS. Vi <em>Home of the Brave</em>, show da louca Laurie Anderson (sim, eu era um adolescente antenado); <em>Super Xuxa contra o Baixo Astral</em> (sim, eu era um adolescente retardado); e <em>Je vous salue Marie </em>(sim, eu era um adolescente intelectualizado e que caía <em>por terra aos pés de um filme de Godard</em>).</p>
<p style="text-align: justify;">Na segunda-feira, 6 de fevereiro de 1989, duas anotações na agenda. A primeira dizia: <em>Stroessner está no Brasil (sua presença é um tanto “incômoda”)</em>. Ele ficaria por aqui até sua morte, em 2006. Na outra: <em>Passei a tarde e a noite redigindo cartas</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, cartas! Fico imaginando como a geração dos meus filhos chegará à idade adulta sem ter uma caixa de cartas e de fotos para lembrar as aventuras. Deve procurar nos e-mails, mas talvez já não existam ou, se existirem, não deverá entender o dialeto em que escrevia. E as fotos? Tantas e tantas, mas os amigos nunca mandavam. E as feitas por eles mesmos? Perdidas em algum HD que deu pau. Triste fim da memória.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu escrevia muitas cartas. Alucinadamente. Quase sempre em máquina de escrever, pois minha letra já era uma desgraça. O hábito de trocar correspondências começou em 1986, quando me mudei do Rio para Natal, mas se intensificou em 1990. Em fevereiro daquele ano, minha principal correspondente era Márcia Cristina, colega dos tempos de ginásio. A partir das cartas e de telefonemas (geralmente de minha parte, no meio da madrugada), começamos a construir uma sólida amizade que dura até hoje (não é, cachorra? Eu sei que você está lendo isto! ). A propósito, estávamos falando – por MSN e Skype – enquanto eu escrevia.</p>
<p style="text-align: justify;">As cartas também resistiram a essas duas décadas e, hoje, nos contam histórias de dois adolescentes: um porra-louca que fazia Jornalismo e apaixonadíssimo pela namorada; e uma garota contida, em dúvida entre Medicina e Jornalismo, que acabaria fazendo Direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Há poucos dias, Márcia digitalizou as cartas que enviei e pude encaixá-las em suas respostas. Na primeira delas, a história do Enecom, ocorrida no ano anterior, ainda rendia. Fiquei impressionado como muito do que escrevi na carta, vinte anos antes, estava da mesma forma no <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/24/o-historico-enecom-de-joao-pessoa/" target="_self">texto da semana passada</a>! Não havia divergências ou acréscimos na repetição da narrativa. Só alguns pontos que haviam ficado esquecidos, como as manhãs durante o encontro: <em>Todo dia eu acordava cedinho, fazia duas marias-chiquinhas e acordava as delegações do Maranhão e Campina Grande, saltitando entre os corpos estendidos nos colchões enquanto, na porta, um coro cantava: &#8220;Bom dia, amiguinhos, já estou aqui/ tenho tantas coisas pra nos divertir&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;">Contava também, ainda sobre 89, que já estava me acostumando com a ideia de ser uma versão macho da Christiane F. quando uma providencial greve, na universidade, me afastou daquela vida bandida.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-462" style="border: 0pt none;" title="carta01" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/carta01.jpg" alt="carta01" width="600" height="277" /></p>
<p style="text-align: justify;">A criaturinha era Fabíola e eu falava a seu respeito em 80% do conteúdo de cada carta que escrevia a Márcia.  Em fevereiro de 1990, eu a apresentava&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-463" style="border: 0pt none;" title="carta02" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/carta02.jpg" alt="carta02" width="600" height="179" /></p>
<p style="text-align: justify;">Vocês também vão saber mais sobre essa e outras histórias. Continuarei a lembrar, com ajuda das agendas e das cartas, no próximo sábado.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um olhar atento de menina</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 21:03:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ananda demorou a falar. Era fácil perceber que entendia tudo, mas não falava. A médica nos tranqüilizou, disse que algumas crianças são assim, não havia nada de errado. Quando resolvesse falar, mostraria o vocabulário e a compreensão apropriados para sua idade. E foi assim mesmo.
Dez anos depois, Ananda diz que não gosta de muita gente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-454" style="border: 0pt none;" title="ananda" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/ananda.jpg" alt="ananda" width="600" height="255" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ananda demorou a falar. Era fácil perceber que entendia tudo, mas não falava. A médica nos tranqüilizou, disse que algumas crianças são assim, não havia nada de errado. Quando resolvesse falar, mostraria o vocabulário e a compreensão apropriados para sua idade. E foi assim mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Dez anos depois, Ananda diz que não gosta de muita gente falando. Perguntada se queria ir ao parque ou ao museu, respondeu imediatamente: “<em>Museu</em>”. Sim, Ananda é minha filha. Esses comportamentos confirmam isso e me enchem de orgulho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ananda – agora não a minha – era o mais aplicado discípulo de Buda e, segundo contam, foi graças a seu poder de observar e memorizar que muitos dos ensinamentos de seu Mestre puderam ser passados adiante. Ananda, em sânscrito, é Bem-aventurança ou, como fica mais fácil ao entendimento ocidental, a Felicidade Suprema.</p>
<p style="text-align: justify;">Ananda – a minha – continua observando tudo. Com uma câmera em mãos, me surpreendeu em uma primeira aventura fotográfica. Escuta uma dica ou outra e, com olhar atento, vai registrando detalhes de um teatro centenário. Em uma conversa silenciosa, vai se entendendo com a luz, mostrando que podem ser amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em casa, a continuação. Corte, redimensionamento, pequeno ajuste no contraste&#8230; e ela atenta. Depois de uma série de Ctrl+isso, Ctrl+aquilo, assume o controle e faz tudo sozinha. “<em>Agora vamos fazer <a href="http://anandadantas.blogspot.com" target="_blank">um blog</a>?</em>”. Fico só assistindo. Dá conta do recado sozinha. E me faz crer que não há nada a ensinar. Quando muito, orientar.</p>
<p style="text-align: justify;">Poucos dias depois, ganha uma câmera. Na primeira saída para testar o novo brinquedo, vai mostrando a crescente intimidade com a luz. Técnica e experiência vêm com o tempo.  Os olhos atentos e a alma sensível já vieram de fábrica.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante nossos passeios, fico sem saber se olho-auxilio, olho-brinco-junto ou olho-admiro. E a discípula me ensina que preciso mesmo é calar e prestar mais atenção a tudo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O histórico Enecom de João Pessoa</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 19:29:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[
Os últimos dias de janeiro de 1990 foram calmos. A agenda daquele ano comparada a de outros, revela que sempre leio pouco em janeiro. Minha média é de um ou dois livros por semana, mas no primeiro mês de cada ano isso cai terrivelmente. Quando percebo a falta, começo a ler desesperadamente. Naquela última semana, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-445" style="border: 0pt none;" title="enecom1" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/enecom1.jpg" alt="enecom1" width="600" height="291" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os últimos dias de janeiro de 1990 foram calmos. A agenda daquele ano comparada a de outros, revela que sempre leio pouco em janeiro. Minha média é de um ou dois livros por semana, mas no primeiro mês de cada ano isso cai terrivelmente. Quando percebo a falta, começo a ler desesperadamente. Naquela última semana, li <em>Perestroika</em>, de Mikhail Gorbachev, leitura obrigatória para quem quisesse entender as transformações políticas da época; <em>He</em>, sucesso de Robert A. Johnson, uma das partes da trilogia que contava ainda com <em>She</em> e <em>We</em>; e <em>Minha Razão de Viver</em>, autobiografia de Samuel Wainer.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1989, o ritmo era outro. Na sequência de shows de verão, o do Capital Inicial estava programado para o dia 25 de janeiro, uma quarta-feira. Havia comprado o ingresso alguns dias antes e marcado na agenda, mas na noite anterior decidi ir ao Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação – Enecom, que aconteceria de 25 a 28, em João Pessoa, na Paraíba. Eu fazia parte da chapa que havia acabado de ganhar as eleições para o Centro Acadêmico (C.A.) e não poderia deixar de fazer parte das plenárias, militar, gritar palavras de ordem e todas essas coisas que acreditamos sérias quando somos jovens estudantes ou quando somos embriões de políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havíamos conseguido um micro-ônibus da UFRN e partiríamos na quarta pela manhã. Dei meu ingresso a Carlos Magno (hoje diretor de redação de um jornal em Natal), que também fazia parte do C.A., e embarquei naquela aventura. Um detalhe: eu tinha 16 anos e, em tese, alguém teria que se responsabilizar por mim. Isso ficou só na tese mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-446" style="border: 0pt none;" title="enecom2" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/enecom2.jpg" alt="enecom2" width="188" height="303" />Por volta das 8h30 da manhã, já estávamos na base da cerveja, da vodka e do que de mais barato tivesse e aparecesse. Se o motorista desse mole, tomaríamos a gasolina do micro-ônibus. Inexperientes e sedentos, em menos de uma hora acabamos com tudo. Paramos em uma bodega no meio do caminho. O dono não queria nos vender nada. Disse que só vendia por doses e quase tudo estava aberto. O que tinha fechado? Conhaque de alcatrão. Manda! Só em dose. Conta as doses. Manda. Embarcamos de novo. Peraê! E copo? Só tem de vidro. Então pega canudinho. E assim desembarcamos no final da manhã em João Pessoa, já completamente bêbados.</p>
<p style="text-align: justify;">As salas de aula da UFPB faziam as vezes de dormitórios. Quem tivesse levado colchão, ótimo; quem não tivesse levado, poderia ter sorte de conseguir um com os organizadores do encontro ou dividir um com outra pessoa, o que era recomendável e muito desejado. Ficamos em uma sala ao lado da turma de Campina Grande (PB) e do Maranhão. Estes, para manter uma das mais sólidas tradições maranhenses, nos receberam com algo que parecia o charuto do Hulk, mas que eles juravam que era “só um baseado mesmo”. Muito educadamente recusei e comecei a perceber que aquele papo de plenárias, discussões sobre os rumos do jornalismo, protestos e política estudantil eram desculpas para nosso pequeno Woodstock ou, como jamais deixaria de ser chamado, nosso Eneconha.</p>
<p style="text-align: justify;">Lisos, lesos e loucos, tomávamos qualquer coisa que desse barato. Foi assim durante o primeiro dia inteiro. À noite, quando os bares do Campus da UFPB fecharam, fomos obrigados a sair em busca de mais álcool. No meio do breu, encontramos um boteco. Colegas de outros estados já estavam por lá. Todos em um clima muito familiar: música, barulho, garrafas sendo enxugadas, ameaças de strip-tease em cima das mesas. Até aí, eu me lembro.  Corte. Sandro deitado em um chão de terra encharcado de mijo, ao lado de uma borracharia. Corte. Tudo escuro. Sandro tentando não se afogar com o próprio vômito (“Hendrix morreu assim!”, eu pensava desesperado). Corte. Sandro sendo carregado – arrastado, sem conseguir me sustentar nem dar um passo – até o dormitório. Em rápidos lampejos, ouvia coisas como: “<em>E se ele morrer?!</em>”; “<em>Gente, ele menor! Quem está responsável por ele?</em>”; “<em>Não é melhor levar para um hospital</em>”&#8230; <em>Spoiler</em>: eu sobrevivi. Estou aqui, 21 anos depois, contando isso a vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram horas debaixo do chuveiro até que eu e outros colegas nos convencêssemos de que eu poderia fechar os olhos sem que fosse pela última vez. Tentava fazer polichinelos, flexões de braço, esmurrava os tapumes que serviam de parede, prometia a todos os santos que se escapasse daquela nunca mais beberia. Lá pelas tantas, totalmente molhado, me joguei em um colchão e fosse o que Deus quisesse. Ele devia estar de bom humor. Não deixou ninguém abusar sexualmente de mim. Pelo menos, eu acredito nisso até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, na primeira ida ao refeitório, vi que não conseguiria comer nada. Foi assim durante todo o evento. Então, eu bebia. Juro que não queria, mas tinha que botar alguma coisa para dentro. Que fosse álcool. Promessas? Que promessas? Não lembro. Sei que um anel, de minha amiga Andréa, que quase não entrava em meu anular direito antes de sairmos de Natal estaria dançando no meu polegar quatro dias depois.</p>
<p style="text-align: justify;">No último dia do encontro, no refeitório, durante o almoço, rolou uma performance – estudantes de jornalismo adoram essas coisas! São todos artistas, músicos, poetas e escritores frustrados –&#8230; bem, rolou a tal performance em que alguns apareciam nus, corriam no meio de todos e subiam nas mesas. À noite, as caravanas se preparavam para voltar. Algumas se preocupavam com a estrada ou quem os pegaria ao chegar. A do Maranhão estava preocupada em acabar de qualquer jeito com as quatro quentinhas de maconha que havia levado. Não queriam correr o risco de um novo encontro com a Polícia Rodoviária Federal. Então, dá-lhe fazer charutos de Itu e tocar fogo neles. Enquanto rolava a plenária final, ânimos acirrados, discussões ruidosas, eu e outros, digo, eu e uns maconheiros do Maranhão, Natal e Campina Grande resolvemos invadir o local, travestidos – eu, maquiado e com chuquinhas no cabelo – e cantando <em>Turma da Xuxa, aaaaaaaahh/Turma da Xuxa</em>&#8230; e <em>Ilariê</em>. Os que levavam a política estudantil a sério não gostaram muito, mas os pelegos e os malucos, que eram maioria esmagadora, curtiram o show.</p>
<p style="text-align: justify;">Já de volta, corri para a agenda e fiz um resumão nessas páginas que aparecem no alto do texto. Os nomes dos colegas de outras cidades (com os quais eu me corresponderia por algum tempo), os de Natal que haviam participado da bagunça, os principais momentos e, encerrando, uma expressão que definiria tudo: SÓ PUTARIA!</p>
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		<title>André da Rabeca</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 17:55:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[
Em 2000, comecei uma série sobre figuras populares de Natal (RN) para o site Natal na Íntegra. André da Rabeca estava nos primeiros nomes pautados e chegou a ser fotografado, mas a matéria não foi  concluída. No dia 6 de agosto de 2008, de volta à cidade, encontrei André no meio-fio em frente à Manchete [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-436" style="border: 0pt none;" title="andre_rabeca" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/andre_rabeca.jpg" alt="andre_rabeca" width="600" height="471" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2000, comecei uma série sobre figuras populares de Natal (RN) para o site <em>Natal na Íntegra</em>. André da Rabeca estava nos primeiros nomes pautados e chegou a ser fotografado, mas a matéria não foi  concluída. No dia 6 de agosto de 2008, de volta à cidade, encontrei <a href="http://twitpic.com/ytd66" target="_blank">André no meio-fio em frente à Manchete Calçados</a>, na esquina das ruas Coronel Cascudo e Princesa Isabel, na Cidade Alta. Saquei o “chaveirinho” do bolso e fiz algumas fotos. André não era de muita conversa, mas, encantado com a máquina, me perguntou quanto custava e comentou que poderia ganhar uns trocados a mais se tivesse uma, fotografando os casamentos nos quais, vez ou outra, era chamado para tocar.</p>
<p style="text-align: justify;">Nascido no interior do Rio Grande do Norte em 27 de outubro de 1942. Segundo seu pai, André era mole e não dava para trabalhar na roça. No início dos anos 80, pegou a estrada para a capital e foi tocar rabeca nas ruas. As últimas notas de sua história como rabequeiro foram dadas em dezembro passado. A tuberculose se manifestou mais uma vez e seu estado de saúde piorou rápido. Como todo desvalido, fez sua peregrinação pelos postos e hospitais públicos: Posto de Saúde de Mãe Luíza (bairro onde morava), Hospital dos Pescadores (Rocas) e Walfredo Gurgel. Medicado e mandado para casa, sem o tratamento adequado, só parou no quarto, o Giselda Trigueiro, quando já era muito tarde. Deu entrada na segunda, 11 de janeiro, e faleceu na tarde do sábado seguinte, dia 16, às 16h05.</p>
<p style="text-align: justify;">André morreu aos 67 anos, deixando Dona Nazaré, sua esposa, e cinco filhos. Destes, só Ivanilson, o mais novo e único nascido em Natal, morava com ele. Os três filhos homens estiveram no sepultamento no cemitério do Bom Pastor, no domingo, 17. As duas filhas, que moram em cidades do interior, nem sabem que o pai faleceu. Nenhum deles aprendeu a tocar rabeca. Nem os muitos netos. O instrumento, que nos últimos tempos ficava na lanchonete Fri-Shop (em frente à Manchete Calçados), continua guardado por Jeane Araújo, dona do local. Segundo Ivanilson, <a href="http://twitpic.com/ytdhy" target="_blank">a rabeca</a> será doada ao Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão.</p>
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		<title>O Haiti nosso de cada dia</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 18:04:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[“Fermê la búche, sivuplê!”. Assim mesmo, com grafia errada, para acentuar o mau francês do soldado brasileiro atuando diante da câmeras de TV, dando uma ordem grosseira (Calem a boca!) seguida de um “por favor”. Tá aqui! Tá viva! Ela tá segurando a minha mão. Ela tá bem! Bem?! A mulher estava há três dias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“<em>Fermê la búche, sivuplê!</em>”. Assim mesmo, com grafia errada, para acentuar o mau francês do soldado brasileiro atuando diante da câmeras de TV, dando uma ordem grosseira (<em>Calem a boca!</em>) seguida de um “<em>por favor</em>”. <em>Tá aqui! Tá viva! Ela tá segurando a minha mão. Ela tá bem!</em> Bem?! A mulher estava há três dias presa sob os escombros, grávida, imóvel, sem água, sem comida. Pensei que a próxima fala do soldado seria: “<strong><em>Começamos o resgate agora ou almoçamos antes?</em></strong>”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=O940MCMTyzw" target="_blank">A cena foi exibida</a> no <em>Jornal Nacional</em> do dia 15 de janeiro, sexta-feira, reprisada em todos os telejornais da Globo nas 24 horas seguintes e de novo e novamente no domingo, durante o <em>Fantástico</em>, que abriu e fechou sua edição com as <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1451490-5602,00-VIDEO+DE+BRASILEIRO+MOSTRA+CAOS+EM+PORTO+PRINCIPE+INSTANTES+APOS+TERREMOTO.html" target="_blank">imagens captadas por um soldado brasileiro</a> logo após o terremoto. Grande furo! Viva a inclusão digital! Viva o poder de registrar qualquer coisa a qualquer momento com um simples celular! Grande ajuda ao jornalismo. Por falar nisso, <strong>algum jornalista perguntou ao comando do Exército o motivo de o soldado estar brincando de cinegrafista em vez de estar prestando socorro e tentando manter a ordem em uma situação desesperadora daquelas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro caso, não era um “resgate emocionante” como foi passado ao telespectador. Foi um <strong>desastre vergonhoso </strong>mostrando que a preocupação de aparecer na tevê era muito maior que a de salvar uma vida. No segundo, deve ter sido a vocação para repórter do jovem falando mais alto e denunciando que ele escolheu a carreira errada.</p>
<p style="text-align: justify;">Se há uma coisa que repito incessantemente é que <strong>se você quer ser feliz e fazer algo bem feito, siga sua vocação</strong>. Não importa qual seja. Quando alguém se mete a assumir uma profissão por status social, para ganhar muito dinheiro ou por necessidade, pode ter certeza de que em algum momento – ou em muitos ou em todos! – isso ficará bem claro. Você nunca teve uma empregada doméstica da qual reclamasse por não limpar a casa direito? É porque ela não faz aquilo por vocação, mas por necessidade. Nunca foi a um médico que parecia perdido tentando diagnosticar algo ou demasiado apressado durante a consulta? É porque ele deveria estar pensando na partida de tênis ou no passeio de barco do próximo fim de semana. Vocação é algo sério. Mais ainda quando se trata de assumir uma função que envolve ajudar ao próximo. Se você não nasceu para isso, tente melhorar, tente ser uma pessoa melhor, mas não se meta a fazer disso a principal atividade de sua vida. <strong>Ser militar não é ter um emprego, é assumir a missão de defender a vida dos outros colocando a sua em risco.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ser jornalista profissional é, muitas vezes, ser uma hiena ou um urubu, rondando a desgraça alheia. É um dos motivos de eu ser EX-jornalista. Não é minha vocação. Eu não queria ser repórter de uma das maiores emissoras de TV do planeta, ser reconhecido, ganhar muito bem, viajar por vários países para um dia ter que fazer o papelão de mostrar um ato de incompetência e falta de noção e ainda vendê-lo como algo emocionante. “<em>Cale a boca, você, soldado, e comece já a tirar essa pessoa daí!</em>”. Nenhum motivo “profissional” está acima do bem estar de qualquer ser humano. Compromisso profissional nem dinheiro algum paga A MINHA condição humana. O que vi foi um grupo de humanos desesperados – pobres, sem educação, sem comida, sem condições de nada e ainda arrasados por uma força incontrolável – tentando salvar uma vida enquanto soldados e jornalistas, muito civilizados e no controle de suas vidas, brincavam de fazer um filme de Oliver Stone.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Zilda Arns</strong>, bem nascida, de família bem estruturada, bem alimentada, bem estudada, bem casada, bem relacionada, bem tudo, poderia ter vivido quietinha, como dondoca-esposa-mãe-irmã-de-cardeal ou, se quisesse dizer que trabalhava, ganhar muito bem como médica sanitarista, provavelmente em um alto cargo público para o qual seria indicada sem fazer força. Mas não. Zilda Arns resolveu seguir sua vocação. Se até o momento de sua morte você não sabia quem era ela, o que ela fez ou o que representa a Pastoral da Criança, procure saber. E se, com isso, você perceber o quanto a sua e a minha vida são inúteis, já será um passo para mudar essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">No meu entender, <strong>essa mulher assumiu algo tão grandioso para se fazer em apenas uma vida </strong>que precisou morrer de uma forma espetacular para tornar mais visível sua ação: “<em>Pelo Amor de Deus, olhem para a situação em que seus irmãos vivem! Mexam-se! Façam algo!</em>”. E esta não é uma leitura religiosa e para religiosos. Você pode ler como “<em>Acordem, porra! Vejam a situação em que seus irmãos vivem! Mexam essas bundas moles! Façam alguma coisa!</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez você nunca antes tenha ouvido falar em Zilda Arns, o que ela fazia e a grandiosidade do seu trabalho de quase três décadas com a Pastoral da Criança, mas certamente você sabe quem são Gisele Bündchen, Sandra Bullock, Brad Pitt, Angelina Jolie e muitos outros que não eram nascidos ou ainda eram crianças quando o trabalho de Zilda começou. Deve saber também sobre as doações milionárias que eles fizeram para ajudar a população do Haiti. Talvez isso tenha feito com que você contribuísse também com 10, 50 ou 100 reais. A partir daí, faço alguns questionamentos: Por que você não segue, há tempos, o exemplo de Zilda Arns? Por que, sem tirar um centavo do bolso, não dedica alguns minutos por dia ou algumas horas uma vez por semana para brincar, ensinar ou simplesmente dar alguma atenção a crianças carentes na sua cidade mesmo? Por que não pega esses 10, 50 ou 100 reais e investe mensalmente em cestas básicas, remédios ou livros para uma criança que mal come ou não consegue estudar aí perto de sua casa ou de seu trabalho? Essa esmola que você deu ao Haiti realmente ajudou em algo ou apenas fez com que você se sentisse mais parecido com astros de Hollywood e aliviasse um pouco sua consciência por nunca fazer nada pelo próximo, esse aí, bem próximo?</p>
<p style="text-align: justify;">No <em>Twitter</em>, surgiu todo tipo de questionamento a respeito da situação no Haiti e das ações geradas em torno dela. No caso das doações, a cobrança de não só passar os números das contas, mas doar efetivamente, até a cobrança explícita a pessoas e instituições que pudessem fazer doações maiores. Cada um faz o que pode e o que sua consciência manda. <em>Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita </em>(Mateus 6:3). Ou, para que não se pense que estou fazendo pregações religiosas: <strong>você quer ajudar ou quer ser admirado porque ajuda? </strong>Vai esperar outra catástrofe em algum lugar distante para ajudar ou vai ajudar o seu vizinho antes que aconteça uma com ele? Já se perguntou se a esmola ao problema distante não é uma forma de pedir a Deus que o mantenha distante? O versículo seguinte ao citado diz: <em>Para que a tua esmola seja dada em segredo; e teu Pai, que vê em segredo, Ele mesmo te recompensará publicamente</em>. Eu, que não sigo qualquer agremiação religiosa, diria: <strong>faça sem esperar qualquer coisa em troca; faça apenas porque é certo</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve também um comentário no <em>Twiiter </em>que vale a pena citar. Foi feito por <a href="http://clotildetavares.wordpress.com/" target="_blank">Clotilde Tavares</a>: <em>Não entendo o espanto dos jornalistas com crianças comendo terra no Haiti. No Nordeste que eu conheci, isso acontecia todo dia&#8230; </em>Acontecia e acontece. Assim como acontece – mais comumente e não só no interior do Nordeste, mas em qualquer cidade, em qualquer região – de <strong>crianças passarem o dia sem comer ou comendo coisas encontradas no lixo</strong> e, ao reclamarem, escutam o pai dizer: “<em>Vá dormir que a fome passa</em>”. Talvez seja uma poderosa hipermetropia que nos impeça de ver o que está tão perto. Talvez seja o medo de saber que esteja tão perto. No caso de jornalistas, há também a falta de “formação humana” para que possam exercer devidamente sua função e não se admirar com algo, infelizmente, tão comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que o exposto até aqui seja material suficiente para repensarmos nossas atitudes, porém me permito mais algumas linhas para abordar outro ponto do comportamento atual, muito comum nas duas últimas décadas, que não consigo entender e, provavelmente, jamais vou aceitar: <strong>os aplausos em sepultamento</strong>. Isso, mais uma vez, aconteceu no sepultamento de Zilda Arns. Fico imaginando se as pessoas que aplaudiram estavam felizes pelo fato de ela ter morrido ou se esperavam que ela saísse do caixão para agradecer e dar um bis. Aplauso é um gesto eufórico de aprovação.  O que as pessoas aplaudem durante um enterro? A beleza da cerimônia? O discurso do padre? A oportunidade de se livrar do chato que baixa à cova? Tuitei sobre isso e fiquei surpreso com os vários comentários que surgiram a favor do aplauso. O que percebi é que todos vieram de gente muito jovem, no máximo, na casa dos 20 anos, ou seja, gente que cresceu vendo isso e, entendo, só poderia achar natural. Não é. Na maioria das culturas, desde tempos imemoriais, o ritual de sepultamento envolve vários tipos de sentimentos que nada têm a ver com euforia: despedida, finalização de um ciclo, respeito por uma missão cumprida, conscientização sobre nossa condição temporária, reflexão sobre a necessidade de perdoar e viver em paz com todos, sobre como tudo tem o mesmo fim, saudade, etc. Perceba que nem estou falando de culpa, apego, desespero e tristeza, coisas muito comuns na cultura ocidental e mais ainda na brasileira. À exceção de pessoas que tenham levado a vida em festa e explicitem que seus sepultamentos ocorram da mesma maneira, não vejo motivo algum para os aplausos. Zilda Arns não queria aplausos nem em vida, por que iria querer depois de morta? Acredito que ela preferisse que as pessoas pegassem suas mãozinhas e as colocassem à disposição das crianças carentes às quais ela se dedicou. Assim, as crianças também teriam motivos para sorrir, ficar eufóricas e bater palmas.  Esses aplausos em sepultamentos me parecem coisa de pessoas pouco trabalhadas emocionalmente (para ser bem delicado). Pessoas que não conseguem se dar um momento de recolhimento, de silêncio, de paz. <strong>É preciso barulho para abafar os sentimentos com os quais não se sabe lidar</strong>, é preciso uma algazarra para que não se ouça a voz interior. Com os aplausos, saímos do cemitério com a sensação de que saímos de um espetáculo que nos fez bem e fugimos da realidade de que um dia seremos nós no caixão. No meu, não aplaudam. Vivo, não gosto de barulho. Morto, por favor, me deem finalmente um pouco de silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerro com a sugestão de que possamos refletir a respeito dos recentes acontecimentos e de atitudes que podemos mudar para melhorar as nossas vidas e a das pessoas ao nosso redor. Pensemos sobre o que nos dá, hoje, o Haiti nosso de cada dia.</p>
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		<title>Há 20 anos: Marina, Paralamas e RPM</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 17:15:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Janeiro de 1990 estava se comportando, para mim, como um típico verão oitentista em Natal: namoro, praia e música. No dia 16 deveria acontecer um show de Marina (Lima), como mais corretamente se fala em Natal, ou, mais cariocamente, da Marina, mas ele foi transferido para o dia seguinte, 17, uma quarta-feira. A apresentação aconteceu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Janeiro de 1990 estava se comportando, para mim, como um típico verão oitentista em Natal: namoro, praia e música. No dia 16 deveria acontecer um show de Marina (Lima), como mais corretamente se fala em Natal, ou, mais cariocamente, da Marina, mas ele foi transferido para o dia seguinte, 17, uma quarta-feira. A apresentação aconteceu no Pavilhão do Centro de Convenções, o que era uma novidade. Nos anos 80, o local mais comum para shows musicais era o Palácio dos Esportes, um ginásio localizado na Praça Cívica, no bairro de Petrópolis, vizinho ao centro da cidade. Três mil pessoas eram suficientes para entupir o Palácio. No grande vão do Pavilhão do Centro de Convenções – construído para abrigar feiras e exposições – deve caber fácil o triplo disso.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, 18, quinta, Fabíola e eu iríamos para Pitangui, uma praia de veraneio a uns 30 quilômetros de Natal, no município vizinho de Extremoz. Ficaríamos por lá até domingo. Naquele tempo, mesmo no verão e tão próximo à capital, Pitangui era uma praia tranquila, com pouca gente, sem as armadilhas para turistas e a agitação provocada por eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Um ano antes, em 17 de janeiro de 1989, também estava indo a um show. Ainda sob o impacto de <em>D</em>, disco gravado no Festival de Montreux em 1987, e com a ajuda das novas <em>O Beco</em>, <em>Uns Dias</em>, <em>Quase um segundo</em> e <em>Bora-Bora </em>(que dava nome ao disco de 1988), a garotada ia conferir os Paralamas do Sucesso. Aquele deve ter sido meu terceiro show da banda. É difícil explicar às gerações mais novas o que era um show de BRock nos anos 80. Éramos mesmo uma tribo e por isso, no caso de Natal, cabíamos tranquilamente no minúsculo Palácio dos Esportes. Se você gostava de forró, ia para o forró. Se gostava de rock, ia a shows de rock. Não nos misturávamos. Não havia esse “ecletismo” de hoje, que me parece apenas desculpa para o mau gosto. Se alguém cogitasse a realização desses “festivais” misturando rock, emo, axé e forró que acontecem hoje, certamente encontraria mais ceticismo do que se desse a notícia de Jesus descendo de uma nave extraterrestre de mãos dadas com Madonna e Cindy Lauper.</p>
<p><center><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/VslpQzlgJYs&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/VslpQzlgJYs&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></center></p>
<p style="text-align: justify;">O dia seguinte foi de descanso e preparo. Fiquei em casa vendo filmes: <em>Posições Comprometedoras </em>(1985), com Susan Sarandon e Raul Julia; Inocência Destruída (1988), que tem como tema <em>Baby, I love your way</em>, de Peter Frampton; e o já clássico<em> Cabaret </em>(1972), com Liza Minnelli e Michael York.</p>
<p><center><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/BmjFk7i4hyg&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/BmjFk7i4hyg&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></center></p>
<p style="text-align: justify;">A quinta, 19 de janeiro, traria algo há muito esperado: um show do RPM. Só quem viveu sabe o que o RPM representava. A histeria causada pela banda de Paulo Ricardo, diziam os da geração anterior, foi o mais perto que chegamos da Beatlemania. Eu posso dizer que nunca vi nada igual. Nem antes, nem até hoje. Uma música do RPM, saindo de um três em um em qualquer festinha, era suficiente para causar uma revolução. Várias Revoluções Por Minuto.</p>
<p style="text-align: justify;">O show aconteceu em área aberta, no Estádio Juvenal Lamartine. Os anos de 1985 e 1986 – quando o RPM mandava prender, mandava soltar e enlouquecia geral – não pareciam suficientemente distantes para não levar um multidão à primeira e única apresentação dos quatro rapazes em Natal. A banda já havia se separado, voltado, gravado mais um disco (<em>Quatro coiotes</em>, em 1988) e estava em final de turnê e de existência, mas, quem não queria ver aqueles caras de perto? Todas as garotas queriam Paulo Ricardo. Todos os garotos queriam ser Paulo Ricardo e pegar todas as garotas. No futuro, continuaríamos querendo ser ele para pegar só a Luciana Vendramini mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">No show, eu me dividia entre curtir quase tardiamente o maior e mais meteórico sucesso do rock brasileiro oitentista, imaginar como seria a década seguinte e, claro, ficar com alguma garotinha bonita. A daquele show seria uma bem pequenina, tipo ninfa – já com uns 19 ou 20 anos, mas com cara de menininha –, por quem eu ficaria louco naquele verão. Mignon, corpo perfeito, ficaria me provocando em algumas idas à praia nos dias seguintes.  Ela gostava de mexer com aquele moleque de 16 anos que pensava ser gente. <em>Seu corpo </em>era<em> o fruto proibido, a chave de todo pecado e da libido, e para um garoto </em>(nada) <em>introvertido como eu, </em>era<em> pura perdição</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem&#8230; e pra vocês, <em>eu deixo apenas o meu <a href="http://www.youtube.com/watch?v=zeSXO-7uNxE" target="_blank">olhar 43</a>, aquele assim, meio de lado, já saindo, indo embora</em>, louco que vocês comentem algo sobre aquela época&#8230;</p>
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		<title>Quando nós somos os parasitas</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Jan 2010 18:52:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[
O que você faz quando um vírus ou uma bactéria infecta seu corpo e começa a causar algum tipo de doença? Você reage. Tomando remédios ou por ação natural do corpo, que fará o que puder para se ver livre do parasita. Você pode se livrar deles ou vencê-los por um tempo, mas eles são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-420" style="border: 0pt none;" title="peixemoscas" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/peixemoscas.jpg" alt="peixemoscas" width="600" height="282" /></p>
<p style="text-align: justify;">O que você faz quando um vírus ou uma bactéria infecta seu corpo e começa a causar algum tipo de doença? Você reage. Tomando remédios ou por ação natural do corpo, que fará o que puder para se ver livre do parasita. Você pode se livrar deles ou vencê-los por um tempo, mas eles são seres tão nocivos que aprenderam a migrar para outros órgãos, a ficar quietos e esperar uma nova chance para atacar e também a passar do seu para outros corpos. Se não fizermos nada, eles são capazes de nos matar, matar nossos familiares, nossos vizinhos, milhares de pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, por um instante, imagine-se no lugar deles. São seres vivos, agrupados em comunidade, se multiplicam, querem comer, querem viver. Você acha correto que lhes tiremos esses direitos? Sim, claro! Ou nós ou eles. Ou acabamos com eles ou eles acabam conosco.</p>
<p style="text-align: justify;">Então qual o motivo de nos sentirmos tão afetados, tão chocados, tão comovidos quando o grande corpo que chamamos de Terra tenta se livrar de seus parasitas? De nós, os parasitas da Terra. Não é correto que ela nos negue o direito de viver, de nos multiplicarmos, de comer e destruir tudo que vemos pela frente para que possa se salvar? Sim, claro! Ou ela ou nós. Ou ela acaba conosco ou nós acabamos com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Terremotos, tsunamis, alagamentos, altas temperaturas&#8230; Você nunca passou por isso? Não estou perguntando se você já esteve no Haiti, na indonésia, em São Paulo ou no Rio, estou perguntando se você não já teve tremores, suores, espirros, diarreias, febre, durante o processo de expulsão de algum parasita. Você nunca passou por isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Depois da descoberta de um tumor, você certamente já ouviu que “os exames dirão se é maligno ou não”. Se não for, melhor nem mexer. Vai ficar ali quietinho, vivendo harmoniosamente com você. Não será a causa de doenças, muito menos de sua morte. Há tumores benignos, assim como há humanos benignos. Mas quase nunca esperamos os exames. Tiramos logo e só depois vamos saber se era maligno ou não. A Terra faz o mesmo. Manda uma onda ou um terremoto, destroi uma ilha inteira, mata milhares, não se importando com quem é bom ou mau. E também não se lamenta por isso. Ela queria o mesmo que nós: ficar livre dos parasitas. Afinal, parasita bom é parasita morto, concorda?</p>
<p style="text-align: justify;">Pode ser que você nunca tenha pensado nisso, mas saiba que você nunca esteve só. Mesmo que você seja mais ignorante que eu, já deve teve ter ouvido falar em flora intestinal. São bactérias vivendo em seu intestino e que o ajudam a digerir e até a se proteger de outras bactérias que poderiam lhe causar algum mal. Sim, há bactérias que sabem viver em paz e harmonia com o corpo que habitam. Na maioria das vezes, os homens não são tão evoluídos assim e não conseguem ter esse comportamento, mas isso talvez se deva ao amadurecimento da espécie, afinal, as bactérias são muito mais antigas que os humanos. A gente chega lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos grande dificuldade em viver em harmonia. Temos grande dificuldade em aprender com as próprias experiências. Temos grande dificuldade em aprender com nossos erros. Não aprendemos com as religiões, que tentam nos ensinar que assim como é no macrocosmo é no microcosmo; como é acima, é abaixo; “assim na terra como no céu”; que há um retorno de nossas ações. Não aprendemos com as ciências, que tentam nos ensinar que os recursos do planeta não são infinitos; que se poluirmos, vamos beber água poluída e respirar ar poluído; que vamos torrar se continuarmos superaquecendo o lugar onde vivemos. Parece que não aprendemos com nada, de forma alguma. As bactérias aprendem; nós, não.</p>
<p style="text-align: justify;">Exagero meu. Claro que aprendemos algo. E foi com as bactérias. Há poucos dias, me chamou atenção a seguinte notícia: <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u676607.shtml" target="_blank"><em>Astrônomos dizem que planetas habitáveis devem ser encontrados em até cinco anos</em></a>. Durante milênios, não conseguimos conhecer todos os tipos de vida que há na Terra, desconhecemos por completo muitos lugares, não conhecemos a cura de várias doenças, não sabemos dividir os alimentos e deixamos milhares de pessoas morrerem de fome todos os dias, não sabemos o que fazer com o lixo que produzimos, não sabemos nem viver em paz dentro de nossas próprias casas, mas gastamos milhões procurando um outro planeta habitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quê? Para fazermos como as bactérias: migrarmos para outro corpo quando este entrar em colapso e não pudermos tirar mais nada dele. Matamos um e buscamos outro para continuarmos nossas vidas miseráveis e inúteis.</p>
<p style="text-align: justify;">Somos o pior tipo de câncer que existe. Crescemos sem controle, sem respeitar limites, invadimos todos os lugares, destruímos tudo e ainda programamos uma metástase, buscando um novo lugar para onde possamos nos transferir e continuar com nosso estúpido comportamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Não preciso acreditar em karma, em planos e castigos divinos ou em previsões científicas. Eu acredito no óbvio, naquilo que consigo enxergar. Somos parasitas. Seremos exterminados pelo corpo hospedeiro ou morreremos com ele. Algo diferente, só se evoluirmos com uma rapidez jamais experimentada por qualquer espécie sobre a Terra. E nisso, infelizmente, eu também não acredito.</p>
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		<title>Tremores de terra no Nordeste: Eu fui!</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jan 2010 05:42:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[
O primeiro tremor de terra, a gente nunca esquece. As pessoas pularam de suas camas, os lustres balançavam, os copos e talheres se batiam, livros caíam das estantes, todo mundo correndo para a rua, como se lá não estivesse tremendo. Eu estava em Natal, Rio Grande do Norte, e senti. Isso não aconteceu no último [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-408" style="border: 0pt none;" title="Açude Poço Branco" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/poente_pocobranco.jpg" alt="poente_pocobranco" width="600" height="250" /></p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro tremor de terra, a gente nunca esquece. As pessoas pularam de suas camas, os lustres balançavam, os copos e talheres se batiam, livros caíam das estantes, todo mundo correndo para a rua, como se lá não estivesse tremendo. Eu estava em Natal, Rio Grande do Norte, e senti. Isso não aconteceu no último sábado, 9 de janeiro, nem na terça, 11. Isso foi em 1986.</p>
<p><img class="size-full wp-image-409  alignright" style="border: 0pt none; margin: 0px;" title="Igreja de Nossa Senhora do Livramento, em Taipu." src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/igreja_taipu.jpg" alt="igreja_taipu" width="286" height="210" /></p>
<p style="text-align: justify;">O epicentro foi em João Câmara, município que fica a uns 80 quilômetros da capital. Foram meses de atividade sísmica. Começou em agosto e continuou no mês seguinte. Abalos na casa dos 4 pontos na Escala Richter. Esse em que todo mundo saiu correndo de casa em Natal aconteceu em uma madrugada de novembro, cravou 5.1 e botou abaixo centenas de casas em João Câmara.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes nos últimos dias foram de 2.7 e 3.8 (alguns sites noticiaram como 4.3). O de sábado foi sentido em alguns bairros de Natal. O de terça foi sentido em toda a cidade e também em Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba, e até em Recife, Pernambuco. É. Foi uma sacudida legal, mas ainda longe daquela em novembro de 1986. Para quem estava em Natal e perto do chão, a sensação era a de um caminhão pesado passando bem perto. Quem estava em prédios, certamente sentiu um balanço maior.</p>
<p style="text-align: justify;">O abalo de terça causou comoção no Twitter. Foi imediato. Todo mundo dizendo que sentiu e informando onde estava. Quem tem menos de 30 anos se apavorou; quem tem mais, se divertiu. Para estes – eu incluso – a prévia de 2012 aconteceu em 1986.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-410" style="border: 0pt none; margin: 0px;" title="Sinhozinho em Poço Branco" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/pbranco_sinhozinho.jpg" alt="pbranco_sinhozinho" width="286" height="210" />Enquanto alguns pensavam em correr para as montanhas (quais?!), eu, Canindé Soares, Walmir e Jailson Fernandes corríamos para Taipu, município a 60 quilômetros de Natal, onde ocorreu o epicentro. Fotografar abalo? É só fazer uma foto tremida, não? Não. O negócio é conferir os estragos. Dessa vez não caiu nada. Não ainda. Umas rachaduras aqui ou acolá, umas telhas que se afastaram, tudo em construções bem sujeitas a isso. Nos sites e jornais, a apelação de sempre: gente apontando uma rachadura. Até eu fiz uma dessas. E nem precisava ter saído de casa para isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas meu objetivo era outro. Queria mesmo documentar o que ainda está de pé. Igrejas e casas centenárias que, numa sacudidela mais forte, podem vir abaixo. Depois da simpática e pacata Taipu, estivemos na vizinha Poço Branco. Tudo normal. Valeu pelo pôr-do-sol à beira do açude.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-412" style="border: 0pt none; margin: 0px;" title="Açude Poço Branco" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/pbranco_acude.jpg" alt="pbranco_acude" width="286" height="210" />Estive em enchentes no Rio de Janeiro, no apagão em São Paulo e nos tremores em Natal. Posso dizer uma coisa: as pessoas das cidades grandes se desesperam com mais facilidade. Em Taipu e Poço Branco, a impressão era de que nada havia acontecido. E lá foi forte mesmo! Em Recife, dois estados e centenas de quilômetros depois, alguns prédios foram evacuados. Pense no medo!</p>
<p style="text-align: justify;">Vendo as pessoas a pé ou de bicicleta pelas ruas, um sinhozinho sentado do lado de fora de sua casa ou os dois pescadores no fim de tarde no açude, tive a certeza de que se o mundo acabar, vai acabar bem depois por lá. Sem pressa, sem medo, sem estresse algum, coisas que os moradores daquelas pequenas cidades jamais conheceram nem desejam conhecer. E os tremores? São coisas da Natureza. Eles estão acostumados e vivem muito bem com eles e com Ela.</p>
<p style="text-align: right;"><em>Mais fotos e em tamanho maior em<br />
<a href="http://twitpic.com/photos/sandrofortunato" target="_blank">twitpic.com/photos/sandrofortunato</a></em></p>
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		<title>Go back to 1989</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Jan 2010 18:41:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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Os primeiros dias de janeiro de 1990, tirando a batida de carro, foram de muito Amor e Paixão ao lado de Fabíola. Juntos há apenas quatro meses, abríamos mãos de costumes e oportunidades para ficarmos juntos. Pela primeira vez, desde que passei a morar em Natal, quatro anos antes, eu dizia não ao verão carioca. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-402" style="border: 0pt none;" title="ssstitas" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/ssstitas.jpg" alt="ssstitas" width="600" height="210" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os primeiros dias de janeiro de 1990, tirando a batida de carro, foram de muito Amor e Paixão ao lado de Fabíola. Juntos há apenas quatro meses, abríamos mãos de costumes e oportunidades para ficarmos juntos. Pela primeira vez, desde que passei a morar em Natal, quatro anos antes, eu dizia não ao verão carioca. Ela, aos 18 anos, pouco depois, abriria mão do sonho de todo adolescente daquela época: uma viagem aos Estados Unidos. Queríamos ficar juntos tanto quanto possível. Ainda não sabíamos (ou talvez soubéssemos), mas tínhamos pouco tempo para isso. A ordem era aproveitar ao máximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um ano antes, em 9 de janeiro de 1989, eu estava no Rio. Entrei em uma das muitas lojas de discos do Centro Comercial de Copacabana (ali na Nossa Senhora com a Siqueira Campos) e comprei <em>Flaunt It</em>, primeiro LP (de 1986), da banda britânica Sigue Sigue Sputnik. Em uma época em que a web não existia, nossas referências sobre música eram as rádios, a tevê, as poucas revistas sobre o assunto e o cinema. Tudo chegando, no mínimo, com um atraso de seis meses. Os malucos do SSS ainda não eram tão conhecidos por aqui, mas todo adolescente já havia escutado pelo menos uma música deles: <em>Love Missile F1-11</em>, que estava no filme <em>Curtindo a Vida Adoidado</em> (<em>Ferris Bueller&#8217;s Day Off</em>, também de 1986).</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/pk30a0qsVIk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/pk30a0qsVIk&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O Novo Cruzado, que ainda não saiu, já foi apelidado de “Bateau Mouche V”. Totalmente sem segurança, nesse ninguém embarca</em> – escrevi na agenda no dia 10, uma terça, seis dias antes da nova moeda entrar em vigor. O Cruzado Novo (NCz$) – era essa a denominação – sobreviveria até março do ano seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que o Cruzado passasse a ser chamado de novo, comprei, no dia 12, uma edição especial do segundo LP do SSS, <em>Dress for Excess</em>. Com capa e músicas diferentes, a versão brasileira trazia um enorme 1989 e o aviso <em>Brazil Pre-release!!</em> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=r-coORYpt7w" target="_blank"><em>Albinoni VS Star Wars</em></a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=2rciJ8TCPXY" target="_blank"><em>Hey Jayne Mansfield Superstar</em></a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=xcSGXBlxiWo" target="_blank"><em>Rio Rocks!</em></a> e <em>Success</em> até hoje bombam em minha cabeça e, provavelmente, na da vizinha do nono andar daquele prédio na Barata Ribeiro, quase esquina com República do Peru. Depois, todo mundo conheceria o Sigue Sigue, que fez show no Brasil e até se apresentou no&#8230; Faustão!</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/W40PGggXAvs&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/W40PGggXAvs&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Naquela quinta, acabei não indo a <em>Splish Splash</em>, musical com Cláudia Raia. No dia seguinte, fiz um programa de turista: fui ao Cristo Redentor. Não me lembro de ter ido novamente nesses 21 anos seguintes, mas pode ser que tenha estado lá mais uma vez. Estava nublado e quase não se via a cidade. No sábado, 14, eu anotava: <em>De Volta ao Inferno – Não é o filme, é pura realidade.</em> Acabavam as férias e eu voltava a Natal. No domingo, escrevi várias cartas (algumas aparecerão aqui nesta série). Na segunda, 16, o Cruzado Novo entrava em vigor e eu finalmente via o quinto e último número do jornal <em>Graúna</em>, que na contracapa trazia uma foto minha e outra de Alexandre Mulatinho crianças, numa referência a <em>Go Back</em>, disco do Titãs lançado em 1988 e que havia embalado nosso primeiro ano na faculdade: <em>Jesus não tem dentes no país dos banguelas</em>, <em>Nome aos bois</em>, <em>Bichos escrotos</em>, <em>Marvin</em>, <em>AA UU</em>, <em>Polícia</em>, <em>Cabeça dinossauro</em>, <em>Não vou me adaptar</em>, <em>Lugar nenhum</em> e <em>Marvin</em>. Era um tempo em que os discos eram tão bons que todas as músicas faziam sucesso.</p>
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