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	<title>Sempre Algo a Dizer</title>
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		<title>Rascunho</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 20:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Do baú]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[De um caderno até então perdido. Escrito em 11.08.2008 Para Orwell e M. Toda arte foi proibida hoje. Estamos no último dia em que é possível ir ao teatro, ao cinema, admirar um quadro, ler um livro, escutar música. Muitas outras tentativas de proibir as emoções foram feitas. Esta prometeu bani-las. Receberemos, todos, máscaras de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De um caderno até então perdido.<br />
Escrito em 11.08.2008</p>
<p style="text-align: right;"><em><strong>Para Orwell e M.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Toda arte foi proibida hoje. Estamos no último dia em que é possível ir ao teatro, ao cinema, admirar um quadro, ler um livro, escutar música. Muitas outras tentativas de proibir as emoções foram feitas. Esta prometeu bani-las. Receberemos, todos, máscaras de pedra. Não portaremos mais almas. Nada haverá em nós que não a força necessária para trabalhar e produzir para o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo tipo, todo objeto de arte, o menor e mais desprezível, foi recolhido. Museus e galerias estão sendo fechados; todas as casas, vasculhadas. Nada sobrou. Assim espera o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo decreto que proíbe as artes, está a proibição dos sentimentos. Sabe-se que muitos irão chorar e se revoltar, que risos existirão, escondidos em reuniões clandestinas. Lembranças existirão.  Por quanto tempo? É um plano a ser cruelmente cumprido a longo prazo. Os que nascerem a partir de amanhã não encontrarão emoção neste mundo. Seus filhos talvez não precisem ser proibidos de chorar ao nascerem. Já não haverá motivo para que o façam. Em 120 anos – assim quer o Estado –, não haverá criatura sobre a terra que se lembre de um sorriso, de uma lágrima, de um descompasso cardíaco que não tenha sido provocado por uma doença.  Em 120 anos, os nascidos não lembrarão um ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Como o Estado pretende manter o controle dessas decisões até lá? Quem garante que tudo não mudará? Nós, que devemos obedecer às leis, fazemos estas perguntas porque temos esperança. Eles, que fazem as leis, não se importam com tais perguntas porque enterram todos os dias, cada vez mais fundo, nossas esperanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sou escritor, atividade proibida a partir de agora. A não ser que trabalhe para o Estado e conte a História Oficial. Não existe mais ficção, conto, poesia. Só a voz oficial. Em uma reunião de artistas, há poucos dias, discutíamos a possibilidade da tradição oral. No dia seguinte, nova lei dizia que os artistas estavam proibidos de ter filhos e que qualquer tentativa de ensinar nossos dons ou conhecimentos custaria as vidas dos envolvidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, toda arte foi morta.</p>
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		<title>Livrai-vos!</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 18:57:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda há quem acredite em livros. De todas as maneiras: de papel, cheio de letras, cheio de fotos, que saem do papel e vão para a tela do computador, que saem do Twitter e vão para o papel&#8230; Escolha o seu e seja feliz. Saindo do forno, o primeiro livro do @Na_Kombi, perfil de humor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/4livros_kombi.jpg"><img class="size-full wp-image-604 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/4livros_kombi.jpg" alt="" width="600" height="214" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda há quem acredite em livros. De todas as maneiras: de papel, cheio de letras, cheio de fotos, que saem do papel e vão para a tela do computador, que saem do Twitter e vão para o papel&#8230; Escolha o seu e seja feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">Saindo do forno, o primeiro livro do <strong><a href="http://twitter.com/Na_Kombi" target="_blank">@Na_Kombi</a></strong>, perfil de humor coletivo no Twitter do qual participo, eventualmente, a convite de <a href="http://twitter.com/ulissesmattos" target="_blank">@UlissesMattos</a> e <a href="http://twitter.com/silviolach" target="_blank">@SilvioLach</a>. Lançado na Cultura da Paulista na quinta, 19, reúne mais de 500 frases divididas em 27 temas e escritas por 44 engraçadinhos, que vai de Hélio de la Peña a este demente que vos bloga. <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22167516&amp;sid=91920516112819485092684839&amp;k5=36915E16&amp;uid=938486290984138" target="_blank">Já pode ser comprado por apenas R$ 12,90 no site da Livraria Cultura</a>. Também pode ser encontrado na Bienal de São Paulo e, no fim de agosto, deve rolar lançamento no Rio (não vai molhar, gaiato). <a href="http://www.mcorporation.com.br/na_kombi/" target="_blank">Aqui</a>, mais sobre o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta sexta, 20, o parceiro <a href="http://twitter.com/canindesoares" target="_blank">Canindé Soares</a> lançou <em><strong>Vem Viver Natal</strong></em>, com 92 fotos da cidade que acaba de lhe dar o título de cidadão. <a href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/2010/08/19/15512/" target="_blank">Mais em seu blog</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Botija</strong></em>, de <a href="http://twitter.com/clotildetavares" target="_blank">Clotilde Tavares</a>, foi selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola do MEC e em 2011 terá distribuição para as escolas de todo o país. <a href="http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/a-viagem-da-botija/157416" target="_blank">Matéria</a> na <em>Tribuna do Norte</em>, <a href="http://umaseoutras.com.br/a-botija" target="_blank">mais sobre o livro</a> no blog da autora e, <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/1434962/botija,+a" target="_blank">aqui</a>, para comprá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">Também na Bienal do Livro de São Paulo, Ricardo Kelmer está lançando <em><strong>Vocês, Terráqueas</strong></em>. Enlouquecido, ele liberou todos os seus livros para leitura em <a href="http://blogdokelmer.wordpress.com" target="_blank">seu blog</a>. Leitor vip pode baixar em PDF. Põe na tela, mas compra também. Ou você está pensando que todo escritor ganha como o Paulo Coelho?! Ajudaê, pô!</p>
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		<title>A história sem fim</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Aug 2010 11:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[A primeira vez que chorei em Natal não foi no escuro do quarto, por estar longe do lugar onde fui criado, dos meus colegas de infância ou de tudo que conhecia. Foi no cinema, assistindo A História sem Fim. Chorei junto com Bastian e Atreyu, quando este viu seu cavalo Artax desaparecer. “Atreyu e Artax [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/nuvemnada.jpg"><img class="size-full wp-image-592 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/nuvemnada.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vez que chorei em Natal não foi no escuro do quarto, por estar longe do lugar onde fui criado, dos meus colegas de infância ou de tudo que conhecia. Foi no cinema, assistindo <em>A História sem Fim</em>. Chorei junto com Bastian e Atreyu, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=y688upqmRXo" target="_blank">quando este viu seu cavalo Artax desaparecer</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Atreyu e Artax tinham procurado nas Montanhas Prateadas, no Deserto das Esperanças Destroçadas e nas Torres de Cristal. Sem sucesso.” A última esperança para salvar Fantasia – o mundo mágico onde viviam – estava em encontrar o ser mais sábio que existia e que morava em algum lugar nos mortais pântanos da tristeza. E “todos sabiam que quem deixasse a tristeza dominar seu coração afundaria dentro do pântano”.</p>
<p style="text-align: justify;">Chorei com aqueles garotos que tinham, aproximadamente, a mesma idade que eu. Isso foi no início de 1986 e eu tinha 13 anos. No final de 1990, aos 18, já começando a esquecer a pureza da infância – e ela se afasta rápido e de forma silenciosa – fui chamado a salvar Fantasia. Fui confrontado com o Nada, essa força terrível que tudo devora e fica mais forte a cada dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a arrogância da juventude sumiu quando vi aquela garota de 19 anos, meu primeiro amor, morta em uma cama de hospital. Naquele instante, achei que não pudesse existir qualquer coisa pior que aquilo, que aquela seria minha maior lição, que nada poderia superá-la. Mas estava errado. Era apenas o início da lição que demoraria toda uma vida a ser aprendida. Toda uma vida. E se estou escrevendo é porque a lição não terminou.</p>
<p style="text-align: justify;">O Nada estava crescendo mais e mais dentro de mim. Havia dois caminhos possíveis: morrer também (e em vida, a pior das mortes) ou me fortalecer. Tomei este último. Era um caminho escuro, no qual se podia enxergar muito pouco adiante. Não havia qualquer segurança nele. E sentia que o Nada continuava a consumir tudo que existia atrás de mim. Portanto, tudo que eu podia fazer era seguir em frente, lembrando de não deixar a tristeza dominar meu coração ou&#8230; todos sabemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem saber, eu havia escolhido amar.  Sem medida. De um jeito tão sem jeito, que até dá medo. “E tem como amar sem medo? E sem dor? É assim”, talhou, dia desses, um amigo. Pois é&#8230; acho que eu havia esquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Por um bom tempo, não conseguia enxergar qualquer coisa. Não respirava. Não sentia. Não vivia. Diferente de tudo que dizia, acreditava e aconselhava, deixei a tristeza dominar meu coração e afundei naquele pântano.  E nem havia percebido. “Mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas&#8230;”, diria a Compadecida. Os homens são assim: “começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.”</p>
<p style="text-align: justify;">Medo de amar, de sofrer, de ser traído, magoado, abandonado, sofrer mais. Medo de ter medo. De um monstro perverso pulando às costas bem quando se carrega o fardo mais pesado. O peso pode ser apenas aquele que não tivemos coragem de largar. E passamos a ver em qualquer um aquele que nos deu essa carga. Por medo, também deixamos de ser justos, dando a outro o que não queremos para nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Livrei-me do peso e, de repente, tudo estava ainda mais escuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que está tão escuro? Lembrei da resposta da jovem Imperatriz. “É o começo. É sempre escuro.” Lembrei de seus conselhos, seus conhecimentos. Fantasia pode nascer novamente. De nossos sonhos e desejos. Se eu não souber o que desejar, então não haverá fantasia nunca mais. E quantos desejos posso ter? “Quantos quiser. E quantos mais desejos tiver, mas maravilhosa fantasia se tornará.”</p>
<p style="text-align: justify;">Escutei outra voz, também no escuro, dizendo: “Eu não posso acreditar”. Ela disse isso porque ainda não sabe que faz parte dessa história sem fim. “Não entende que é a única com o poder de parar o Nada.” Não imagina como uma garotinha pode ser tão importante. Livre-se do peso. Mostre seus medos para que possamos jogá-los para longe. Deixe as armas também. Nesse caminho, se entra leve e totalmente livre.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último – e para começar! –, é preciso dar um nome à fantasia. Escolhi um <em>que é como Deus.</em> Agora é só dizê-lo alto. Seguir os sonhos, alimentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">De uma vez por todas, me recuso a ser enterrado vivo. Agora e sempre, no meu Amor, o dia nasce. Sempre no meu sempre, a sua presença.</p>
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		<title>Tirocínio</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 02:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia, você acorda e entende que não sabia nada até então. Você acorda e quer escrever a coisa mais linda que já escreveu, mas, no fim da tarde, você viveu algo que merece palavras ainda mais belas e que nem conhece. Um dia, você, que não acreditava em nada, percebe que lhe foi dado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/tirocinio.jpg"><img class="size-full wp-image-579 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/08/tirocinio.jpg" alt="" width="600" height="200" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Um dia, você acorda e entende que não sabia nada até então. Você acorda e quer escrever a coisa mais linda que já escreveu, mas, no fim da tarde, você viveu algo que merece palavras ainda mais belas e que nem conhece. Um dia, você, que não acreditava em nada, percebe que lhe foi dado exatamente aquilo que pedia escondido a Deus, no escuro, na cama, antes de dormir. Um dia, você descobre que não sabe fazer as coisas que acreditava saber e fica feliz e muito grato por poder aprendê-las.  Um dia, você descobre que basta fechar os olhos para sentir o cheiro de quem ama e que não sabia nem usar seus sentidos. Um dia, quando a luz da tarde vai caindo, você se percebe refletido nos olhos brilhantes de quem ama. E vê que também é amado. Nesse instante, você percebe que é feliz. E nada mais importa. Nem as palavras. Basta sentir.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia, você dorme achando que é mestre, perde a presunção em um sonho e acorda aprendiz.</p>
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		<title>A última Copa de vovó Mafalda</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Jun 2010 21:45:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha avó paterna, Mafalda Fortunato, era uma filha de italianos, baixinha e mandona. Quando eu era ainda muito pequeno para lembrar, ela foi diagnosticada com câncer e teve parte do intestino retirado. Passou a usar uma bolsa de colostomia que aparava o resultado de sua digestão. Lembro dos cuidados para a troca de saquinhos e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/06/mafalda_porto_das_caixas1.jpg"><img class="size-full wp-image-573 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/06/mafalda_porto_das_caixas1.jpg" alt="" width="600" height="483" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Minha avó paterna, <strong>Mafalda Fortunato</strong>, era uma filha de italianos, baixinha e mandona. Quando eu era ainda muito pequeno para lembrar, ela foi diagnosticada com câncer e teve parte do intestino retirado. Passou a usar uma bolsa de colostomia que aparava o resultado de sua digestão. Lembro dos cuidados para a troca de saquinhos e de minha avó sempre rindo com seus incisivos superiores separados, uma das heranças que recebi.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo sempre ouvi, os médicos lhe deram cinco anos de vida após a cirurgia. E foi justamente o que ela viveu. Eu não fazia a mínima idéia da gravidade de sua doença. Nem poderia. Tinha apenas seis anos quando ela morreu. Era 1978 e estávamos em plena Copa. Minha avó era uma torcedora fanática, do tipo que passa mal durante as partidas. Em dias de jogos do Brasil, as refeições tinham que ser servidas muito antes. A idéia era evitar que passasse mal de estômago cheio.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembro que ela estava internada e, em casa, o restante da família assistia tevê na sala. Mais cedo, eu havia enfeitado o quarto dela, para lhe dar alguma alegria quando retornasse. Cornetas, bandeira do Brasil, bola&#8230; Coloquei a bola no travesseiro, algumas almofadas pela cama (simulando um corpo) e cobri com um edredom. As cornetas e a bandeira ficaram na janela e sobre a penteadeira. Lá pelas tantas – todos na sala, assistindo a um jogo –, escutamos um barulho no quarto. Depois de uma rápida olhada, percebemos que uma pequena imagem de santo havia caído e provocado o ruído. Voltamos para a sala e, minutos depois, o telefone tocava. Era do hospital. Minha avó havia morrido.</p>
<p style="text-align: justify;">Comentavam que a queda da imagem havia sido um aviso. Minha avó era dessas católicas apegadas aos santos, pagadora de promessas. Lembro de várias idas a Porto das Caixas (conhecido local de peregrinação católica no município de Itaboraí, a cerca de 50 quilômetros do Rio) com esse intuito. Ela chegou a sair em uma pequena matéria no jornal <em>O Dia</em> (reprodução ao alto) em abril de 1977. Segundo contaram, sua morte foi sem sofrimentos. Ela estava conversando, de repente respirou profundamente e morreu. Era dia de São Pedro. Foi poupada das fortes emoções pela disputa do terceiro lugar entre Brasil e Itália (o Brasil ganhou) e de ver a Argentina, em casa, conquistar seu primeiro título.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Diário de São Pedro (IX) &#8211; De seus habitantes</title>
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		<pubDate>Tue, 11 May 2010 01:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[São Pedro da Aldeia]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta temporada de outono em São Pedro foi melancólica. Não triste, mas pensativa. Diria meditabunda, se a palavra não soasse estranha. Durante as caminhadas, fui me identificando com os moradores da Aldeia. Não os humanos. Não costumo me identificar com humanos. Os cães, as aves. Quando retornava, eles sempre estavam em minhas fotos preferidas. Sempre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center; "><img class="size-full wp-image-554 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/05/caocais.jpg" alt="" width="600" height="320" /></p>
<p style="text-align: justify; ">Esta temporada de outono em São Pedro foi melancólica. Não triste, mas pensativa. Diria meditabunda, se a palavra não soasse estranha.</p>
<p style="text-align: justify; ">Durante as caminhadas, fui me identificando com os moradores da Aldeia. Não os humanos. Não costumo me identificar com humanos. Os cães, as aves. Quando retornava, eles sempre estavam em minhas fotos preferidas. Sempre solitários, com olhares distantes, meditativos. Nunca tristes. Sempre sós, buscando silêncio, com o espírito em outro lugar. Provavelmente algum que não conhecem. Para além da linha do horizonte.</p>
<p style="text-align: justify; ">Enquanto os cães apenas olham, as aves tentam ir até ela. Mas ela nunca chega. A linha está sempre distante. E o sol vai sumindo. Cansa voar em sua direção. Acabam retornando. Queriam ter a resignação dos cães.</p>
<p style="text-align: justify; ">Estes já se aconchegaram a uma rede. Agora olham para o céu estrelado. Sabem que daqui a algumas horas a luz vai voltar e eles poderão olhar de novo para o horizonte. Continuarão sonhando com aquele lugar que não conhecem. Queriam ter asas como os pássaros.</p>
<p style="text-align: justify; ">Ficamos todos pacientemente sujeitos a esses pequenos sofrimentos de não estar exatamente onde queremos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Diário de São Pedro (VIII) – Texturas da Pitória</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Apr 2010 18:00:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[São Pedro da Aldeia]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Diário de São Pedro (VIII) – Texturas da Pitória Dois temas que me fascinam, ao fotografar, são a Natureza e a degradação. Mais precisamente a eterna beleza da Natureza e a rápida degradação do que o homem cria. Quando os dois se juntam, me parece mais evidente o quão somos pequenos e imperfeitos, como o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden; text-align: justify;">Diário de São Pedro (VIII) – Texturas da Pitória</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden; text-align: justify;">Dois temas que me fascinam, ao fotografar, são a Natureza e a degradação. Mais precisamente a eterna beleza da Natureza e a rápida degradação do que o homem cria. Quando os dois se juntam, me parece mais evidente o quão somos pequenos e imperfeitos, como o pobre homem passa – e rápido! – e como a poderosa Natureza continua, para sempre.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden; text-align: justify;">Nos fins de tarde na Praia da Pitória, tentei registrar alguns desses momentos. A Natureza fica brincando com a luz na água e na areia, criando quadros perfeitos que mudam a todo instante. Um segundo depois já não estão mais lá e nunca se repetirão. (Pretensamente) Capturados, podem servir como catalisadores para acalmar a mente dos que moram nos grandes centros ou mesmo aos que não conseguem perceber tais momentos quando se deparam com eles.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden; text-align: justify;">Divido dez imagens com vocês. Para vê-las ou salvá-las em tamanho maior, basta clicar nelas. Reparem calmamente em cada detalhe. Espero que viajem maisue eu.</div>
<p style="text-align: justify;">Dois temas que me fascinam, ao fotografar, são a Natureza e a degradação. Mais precisamente a eterna beleza da Natureza e a rápida degradação do que o homem cria. Quando os dois se juntam, me parece mais evidente o quão somos pequenos e imperfeitos, como o pobre homem passa – e rápido! – e como a poderosa Natureza continua, para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos fins de tarde na Praia da Pitória, tentei registrar alguns desses momentos. A Natureza fica brincando com a luz na água e na areia, criando quadros perfeitos que mudam a todo instante. Um segundo depois já não estão mais lá e nunca se repetirão. (Pretensamente) Capturados, podem servir como catalisadores para acalmar a mente dos que moram nos grandes centros ou mesmo aos que não conseguem perceber tais momentos quando se deparam com eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Divido dez imagens com vocês. Para vê-las ou salvá-las em tamanho maior, basta clicar nelas. Reparem calmamente em cada detalhe. Espero que viajem mais que eu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://twitpic.com/1iwjs5/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-534 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura01_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://twitpic.com/1iwk4b/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-535 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura02_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwkdm/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-536 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura03_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwkkq/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-537 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura04_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwksv/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-538 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura05_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwl0p/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-539 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura06_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwl8p/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-540 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura07_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwlh3/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-541 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura08_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwlus/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-542 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura09_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;"><a href="http://twitpic.com/1iwm0s/full" target="_blank"><img class="size-full wp-image-543 aligncenter" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/textura10_pequena.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><br />
</span></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
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		<title>Diário de São Pedro (VII) – Dois fins de tarde</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Apr 2010 17:00:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[São Pedro da Aldeia]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Pitória Já não é tão silenciosa a Pitória. Vai longe a calma que encontrei em julho do ano passado. Agora não são apenas os cães aprisionados nas casas ladrando feroz e invejosamente contra os vira-latas livres que brincam na areia. São os homens com seus aparelhos de vomitar barulho. Dicró, ao longe, até ajuda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-523 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/pitoria_menino_poente.jpg" alt="pitoria_menino_poente" width="600" height="450" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Na Pitória</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Já não é tão silenciosa a Pitória. Vai longe a calma que encontrei em julho do ano passado. Agora não são apenas os cães aprisionados nas casas ladrando feroz e invejosamente contra os vira-latas livres que brincam na areia.  São os homens com seus aparelhos de vomitar barulho. Dicró, ao longe, até ajuda a compor a cena, mas logo surge um axé ou tecnobrega rival em algum bar ou carro por perto.  Roncos dos motores de pequenas embarcações aumentam a balbúrdia. E as crianças estão grosseiras como nunca. Palavrões dos quais talvez nem saibam o significado são usados como vírgula e ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Pitória, só os cães vadios são felizes. Eu sou feliz na Pitória.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-524 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/praiadosol_poente_cinza.jpg" alt="praiadosol_poente_cinza" width="600" height="450" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Na Praia do Sol</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ok, Baby Jesus, Sandro vai pecar. Pecado pequeno e costumeiro. Nada que vá me levar ao inferno. A caminhada até a Praia do Sol mereceu uma cerveja. A atração principal está tímida, escondida pelas nuvens, não deve se apresentar hoje. Ainda é cedo e pode ser que, até a hora marcada, mude de idéia. Até lá, vou pecando sem pressa.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi difícil arranjar um local com um mínimo de barulho. Escolhi um quiosque onde se ouve Clara Nunes. Usei o velho truque de chegar bem ao lado do aparelho de som para fazer o pedido. Como não me escutava, a dona do lugar foi obrigada a baixar o volume. Peguei a cerveja, larguei um sorriso no balcão e me afastei tanto quanto possível. É Clara e ao longe.</p>
<p style="text-align: justify;">O sol brinca com tons de rosa. Começa a revelar os contornos das nuvens na tela cinza. Na água, só as crianças. A inocência deve protegê-las da poluição. Queria ter esse poder. As pessoas, nas mesas, começam a ir embora. Quem chega, para não perder a viagem, fotografa com o céu monocromático ao fundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pôr-do-sol, na Praia do Sol, hoje, não tem.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: right;"><a href="http://twitpic.com/photos/sandrofortunato" target="_blank">Mais fotos desta temporada em São Pedro da Aldeia.</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vanessa</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Apr 2010 02:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pense em um Sandro babando! E louco de vontade de ter ido ao show do Ludov, na Livraria Cultura do Bourbon (SP), esta noite. Mas eu estava lá, em espírito. E @SandraEnumo me presenteou com esta foto de Vanessa Krongold (que voz! que voz!).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-529 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/04/vanblog.jpg" alt="vanblog" width="600" height="450" /></p>
<p style="text-align: justify;">Pense em um Sandro babando! E louco de vontade de ter ido ao show do Ludov, na Livraria Cultura do Bourbon (SP), esta noite. Mas eu estava lá, em espírito. E <a href="http://twitter.com/SandraEnumo" target="_blank">@SandraEnumo</a> me presenteou com esta foto de <strong>Vanessa Krongold</strong> (que voz! que voz!).</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um corpo, duas almas</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Mar 2010 22:45:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Periódicos]]></category>

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		<description><![CDATA[No início de março, estava mexendo na parte mais antiga e ainda existente de minha hemeroteca quando me deparei com uma edição especial de Fatos e Fotos, de abril de 1996, sobre as gêmeas siamesas Abigail e Brittany Hensel.  A revista-pôster com as meninas vinha no embalo de duas edições de Manchete (reproduzindo a americana [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-517" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/03/hensel.jpg" alt="" width="322" height="210" />No início de março, estava mexendo na parte mais antiga e ainda existente de minha hemeroteca quando me deparei com uma edição especial de <em>Fatos e Fotos</em>, de abril de 1996, sobre as gêmeas siamesas Abigail e Brittany Hensel.  A revista-pôster com as meninas vinha no embalo de duas edições de <em>Manchete</em> (reproduzindo a americana <em>Life</em>) e de um programa na TV <em>Manchete</em>, que veiculou, no Brasil, a entrevista de Oprah Winfrey com elas e seus pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Abby e Britty são um tipo raro de gêmeos siameses. Externamente, o que se vê é um corpo com duas cabeças. Internamente, da cintura para cima há órgãos duplicados (dois rins esquerdo, dois estômagos, duas vesículas, dois corações, duas colunas vertebrais que se fundem na base e 3 ou 4 pulmões). O sistema circulatório e os órgãos abaixo do abdome são únicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na matéria, uma frase em destaque me deixou intrigado: <em>Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer quando elas crescerem</em>. Pois bem, elas cresceram, completaram 20 anos neste março de 2010 e dizem até que uma delas está noiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha intenção, ao lembrar a história dessas meninas, é fazer com que você reflita sobre pelo menos uma das muitas lições que Abby e Britty podem nos dar. Quanto tempo durou aquele seu amor eterno com quem você queria ficar por toda a vida? Quanto tempo teria durado se vocês nunca tivessem se desgrudado por um único instante? Qual seria a intensidade de seu amor por alguém que você fosse obrigado a conviver por todos os minutos de toda sua vida? Como seria não ter segredos? Como seria não ter um único momento de solidão? Como seria saber que quando aquela pessoa morresse, você também morreria ou quando você morresse, também iria matá-la?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando soube da existência das meninas, eu tinha 24 anos. Desde então passei a imaginar que não poderia existir Amor maior e mais bem provado que o delas. Não sei como eu agiria se fosse obrigado a passar por uma provação dessas, mas se não fosse por imposição, se fosse por vontade própria, adoraria me entregar – de corpo e alma – a quem tivesse o mesmo desejo. Ficar juntinho até o final dos dias. Resolver qualquer diferença imediatamente. Não poder ir um para cada lado quando discordassem de algo. Aprender a viver em perfeita harmonia, em perfeito Amor, aceitando e aprendendo com o outro. Sempre colaborando, dividindo as dificuldades para torná-las mais leves, somando forças para alcançar objetivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dois corações batendo por uma vida em comum. Isso é Amor.</p>
<p><center><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/BkKWApOAG2g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/BkKWApOAG2g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></center></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Aqueles marços</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 22:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990. Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser considerado um grande evento: o lançamento de um comercial da Pepsi estrelado por Madonna. No [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser considerado um grande evento: o lançamento de um comercial da Pepsi estrelado por Madonna. No dia seguinte, no mundo real e do qual eu fazia parte, o curso de jornalismo da UFRN inaugurava seu laboratório de rádio e TV, nos fundos da Biblioteca Zila Mamede. Depois de acanhados comes ali, parte da turma foi para os bebes no Chernobyl (Chernô, para os íntimos) ,o bar dos malucos, que ficava na Ponta do Morcego, na Praia dos Artistas.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/h8qtsUaoVak&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/h8qtsUaoVak&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Naquele março, pensava em dar continuidade ao jornal <em>Graúna</em>, mas fiquei só na vontade. Também fiz uma descoberta que deixei registrada na agenda, no dia 8: “<em>Como guitarrista, sou um ótimo jornalista</em>”. Agradeça por eu não ter à mão uma foto que me mostra com <em>mullets</em>, sem camisa, com um bermudão vermelho, segurando a guitarra e encostado a uma parede com posters de Stallone e Schwarzenegger. Eu achava que era o Lulu Santos, mas queria mesmo ser um dos dois fortões.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o fim de semana, fazia planos de ir à Flash, uma boate que era “<em>o point</em>”, em Natal, no fim dos anos 80. Não registrei se fui, mas assisti alguns filmes em casa: <em>Weekend Warriors</em>, uma comédia idiota; <em>Twice in a lifetime</em>, uma drama com Gene Hackman e Ann-Margret; e <em>Salsa – O filme quente</em>, grande clássico com o ex-Menudo Robby Rosa. Na terça seguinte, 14, tentei me redimir disso assistindo <em>The Corsican Brothers</em>, este, sim, um clássico, de 1941, com Douglas Fairbanks Jr. interpretando irmãos siameses que haviam sido separados e criados em lugares diferentes. Um, vira um cavalheiro; outro, um bandido.</p>
<p style="text-align: justify;">A semana seguinte começaria com uma notícia triste. Na manhã do dia 20 de março, uma segunda-feira, morria a atriz Dina Sfat. Na terça, eu assistia pela milésima vez uma comédia romântica que ainda hoje acho muito bonitinha: <em>Alguém muito especial</em> (<em>Some Kind of Wonderful</em>), do mestre dos filmes adolescentes John Hughes. Ainda que a cada mês dos últimos vinte anos tenham lançado um filme sobre o esquisito que se apaixona pela garota mais popular do colégio e não percebe sua amiga apaixonada sofrendo bem a seu lado, nenhum chegou perto da mestria de Hughes. A abertura (logo abaixo) é uma de minhas preferidas dentre os filmes do gênero. Em três minutos, sem uma única palavra, Hughes apresenta os personagens, a sinopse da história e dá o ritmo do filme.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/R1dHOg4-esw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/R1dHOg4-esw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Em parágrafo único, tomando quase toda a página do dia 23 de março, dava um ultimato a mim mesmo: “<em>Colocar a vida em ordem</em>”.  Nas duas páginas seguintes, fazia uma longa lista do que precisava fazer naqueles dias. A cada dois itens, um se repetia: “<em>Fazer a resenha</em>”. Trauma de nove entre dez universitários, para mim, isso não chegava a ser um problema, mas eu estava em atraso com uma para Sistemas de Comunicação no Brasil II, disciplina do saudoso Rogério Cadengue, um dos grandes e verdadeiros professores que tive, desses que ensinam muito em sala de aula e mais ainda em mesa de bar. O livro era <em>Carnavais, Malandros e Heróis</em>, que até hoje indico não só a alunos de Comunicação, mas a qualquer um interessado em compreender certos aspectos culturais brasileiros. Tinha que me apressar, pois no domingo havia uma estreia imperdível na TV: <em>Domingão do Faustão</em>. Mais da metade dos televisores do país estariam ligados no contra-ataque da Globo à supremacia dominical de Sílvio Santos. Nós, os ingênuos, acreditávamos que Fausto Silva iria nos salvar da leseira e da mesmice que imperava nas tardes de domingo. Claro! Aquele gordo sacana do <em>Perdidos na Noite</em> iria avacalhar com tudo. Não. Aquele gordo sacana iria se encher de dinheiro e fazer exatamente o que lhe mandassem: ser o idiota do outro canal. Deixa pra lá,&#8230;</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/W03k6GgPhkM&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/W03k6GgPhkM&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">&#8230; passemos a março de 1990, iniciado com mais um filme que eu deveria ter vergonha de contar que assisti: <em>Retroceder nunca&#8230; render-se jamais!</em>, que marcava o início da era Jean-Claude Van Damme. Na mesma linha, assistiria naquele primeiro fim de semana a <em>O Grande Dragão Branco </em>(filme seguinte de Van Damme), <em>O Voo do Dragão </em>e <em>A Fúria do Dragão</em>, estes com Bruce Lee (em <em>O Voo</em>&#8230;  tinha ainda seu discípulo, Chuck Norris). Não entendi o motivo de ver tantos filmes assim nessa época até ler uma carta na qual eu explicava que Fabíola, minha namorada, gostava do gênero. Em seguida vieram <em>Indiana Jones e a Última Cruzada</em> e <em>Willow – Na Terra da Magia</em>. Os clássicos também tinham vez. Eu e Fabíola iniciamos um grupo para debates com exibição de filmes no laboratório de TV. Na estreia, com <em>A General</em>, de Buster Keaton (<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/02/20/dias-e-filmes-melhores-virao/">texto anterior</a>), quase todos dormiram. O segundo, último antes de desistirmos dessa insanidade, foi <em>A Felicidade não se compra</em>, de Frank Capra, outro desses que guardo no coração e assisto uma vez por ano – sempre no Natal, claro! – para testar se ainda sou humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Meus apontamentos mostram que eu lia muitos livros sobre cinema. Também frequentava outros grupos (menos sonolentos) de estudo. Quem me conhece dessa época, até hoje me cobra que escreva para cinema. Não digo que isso não venha a acontecer, mas não chega a ser uma pretensão. Nas duas décadas seguintes, tornei-me principalmente um amante, um apreciador de filmes que muito raramente vê algo que não o (me) agrade. Os cinemas de <em>shopping </em>com seus animais barulhentos me afastaram quase completamente das salas de exibição, a pipoca americana passou a último lugar na minha lista de possibilidades a serem assistidas e Fellini se tornou minha divindade absoluta. Antes de assistir a um filme, pergunto a ele se posso. Se não mordo a língua nem fico com o corpo paralisado, é sinal de que ele deixou. Recentemente, quando perguntei sobre <em>Nine</em>, senti meu coração sendo esmagado. Até hoje, não tive coragem de ver a tal “homenagem”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda naquele março de 1990, no dia 15, vimos a posse de Collor. Para minha geração, o primeiro presidente eleito por voto direto. No dia seguinte, uma sexta, o país parava para assistir as explicações sobre confisco da poupança e outras medidas impostas pelo Plano Brasil Novo, que ficaria conhecido como Plano Collor. O Cruzeiro voltava e, com ele, o desespero de muita gente. O depois, todos conhecemos.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/4VItVQbiww4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/4VItVQbiww4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
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		<title>Dias (e filmes) melhores virão</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 17:35:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[“Morreu Lampeão. E foi épico”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal A República, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “Acabar de datilografar o texto de Lampião”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-510" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/ageneral1.jpg" alt="ageneral" width="600" height="388" /></p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Morreu Lampeão. E foi épico</em>”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal <em>A República</em>, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “<em>Acabar de datilografar o texto de Lampião</em>”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com ácaros. Focinho enfiado em jornais antigos, copiava os artigos à mão para depois datilografar em casa. Nem em meus sonhos mais Clarkeanos (do Arthur C., não do Kent), me imaginaria, quase década e meia a frente, clicando centenas de páginas, em uma tarde, com uma câmera digital do tamanho da palma de minha mão.</p>
<p style="text-align: justify;">Os apontamentos daquele fevereiro denunciam planos nunca terminados como a eterna retomada às aulas de inglês e a incapacidade, hoje parcialmente vencida, de cumprir o que prometia a mim mesmo: Segunda, 13 – <em>“Tentar” fazer o que deixei de fazer ontem</em>; Terça, 14 – <em>Tentar fazer o que não tentei fazer ontem que é justamente o que eu não fiz anteontem</em> e, mais adiante, no fim da página, <em>Saldo do dia: não fiz nada</em>. O humor e a mania de ironizar os próprios defeitos também já se faziam presentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em quase todos os dias, havia uma “reunião”. Sempre em um bar. Era a velha escola do jornalismo e da política estudantil. Marcávamos a reunião, bebíamos todas, decidíamos nada e marcávamos outra reunião para fazermos tudo isso outra vez.  As anotações sobre o vai-e-vem de cartas era outra constante. Chegavam também postais da Paraíba e do Maranhão, enviados pelos novos colegas que havia feito no Enecom. E eu sabia quem eram aquelas pessoas? Várias não foram identificadas. Ah, um Orkut! Ah, um Facebook! Um Google que fosse, para dar uma clareada nas ideias. Não havia nada disso. Só a educação em responder e esperar que alguém mandasse uma foto para ser lembrado. Falando em fotos, só vi as feitas com minha máquina – uma Olympus Trip 35 – duas semanas depois de chegar do encontro. Tinha que esperar acabar o filme – 24 ou 36 poses que rendiam! – e ter dinheiro para revelação e cópias. E nada de cópias para os outros. Eram caras!</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de fevereiro de 1989 começava mais um semestre e, para não ferir os costumes, os professores não apareceram para dar aulas. Sabe como é&#8230; “os alunos não vão, então não vou também&#8230;”, emenda com carnaval, feriados, enforca daqui, enforca dali, hoje não dá, até que, no final, as notas se ajeitavam e (quase) todos ficavam felizes seguindo aquela velha regra: os professores fingiam dar aulas e os alunos fingiam aprender. Sempre demos muita importância às tradições nacionais e tínhamos muito orgulho disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles idos, eu ouvia bastante o bolachão <em>Black Celebration</em>, do Depeche Mode. Semestre letivo já iniciado, tentava conseguir uma Pentax K1000 junto ao laboratório do curso. Não lembro se cheguei a fotografar, mas estava presente ao debate com Mário Covas, no dia 27 de fevereiro, no auditório da Reitoria da UFRN. No final daquele ano, o país voltaria a votar em seus representantes políticos. Eu, como a maioria dos meus colegas de faculdade, nem era nascido quando isso havia acontecido pela última vez. Imagine a emoção de, sendo universitário, ter a oportunidade e a liberdade de debater com os candidatos! Um deles seria nosso presidente no ano seguinte.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a posse só aconteceria em março de 1990. É um pouco antes que aportamos, agora, naquele ano. Na terça, 13 de fevereiro de 1990, recebia, pelos Correios, alguns clássicos em VHS, mas só começaria a vê-los no dia seguinte. Naquele dia, a única preocupação era ir ao show dos Paralamas do Sucesso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A General </em>(1927), até hoje considerado um dos melhores filmes da História do Cinema, foi o primeiro VHS que tirei da caixa no dia seguinte. A obra-prima de Buster Keaton chegava aos videocassetes brasileiros 63 anos depois de exibida nos cinemas. O filme teve várias versões que ganharam ou perderam alguns minutos e pelo menos três sonorizações diferentes. A versão que recebi e guardo até hoje tem uma trilha sonora bem superior a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=1b24wqhy0Zo" target="_blank">esta que você pode assistir no YouTube</a>. Talvez tenha sido com <em>A General </em>que percebi existir algo além da <em>Sessão da Tarde</em> e do cinema pipoca. Até então, eu consumia filmes. Era filme, mandava para dentro. Mas o milagre não se deu do dia para a noite. Naquela mesma semana assisti <em>Popeye </em>(sei que serei perdoado por este) e <em>Máquina Mortífera II </em>(e muito justamente condenado por este). Uma curiosidade: na sexta-feira, 16, a Globo exibiu <em>Dias melhores virão</em>, de Cacá Diegues, antes de estrear no cinema. Uma maluquice que nunca consegui entender.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">No carnaval, que naquele ano caiu no final de fevereiro (24 a 27), passei em Muriú, praia de veraneio do município de Ceará-Mirim (RN). E março&#8230; março fica para o próximo capítulo.</p>
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		<title>Nós somos o mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 07:54:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Envie a eles seu coração Assim saberão que alguém se importa com eles E suas vidas serão mais fortes e livres (Dionne Warwick em We are the World) Tenho três filhos. Aimée, a primeira, está completando 17 anos hoje. É difícil explicar a ela – e acredito que será muito mais para os dois mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Envie a eles seu coração<br />
Assim saberão que alguém se importa com eles<br />
E suas vidas serão mais fortes e livres</em><br />
(Dionne Warwick em <em>We are the World</em>)</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho três filhos. Aimée, a primeira, está completando 17 anos hoje. É difícil explicar a ela – e acredito que será muito mais para os dois mais novos, atualmente com 10 e (quase) 5 anos – que já existiu um mundo sem Internet, que precisávamos esperar para ter determinada informação, no qual artistas eram ativistas políticos e humanitários e faziam músicas que varriam o planeta, fazendo com que as pessoas parassem e pensassem que havia algo muito maior e mais importante que suas próprias vidas, que deveriam agir para transformar esse mundo em um lugar mais justo e melhor para se viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1982, eu tinha 10 anos – idade atual de Ananda, minha filha do meio –, e escutei uma música, em inglês, que me tocou de alguma forma. Eu não entendia nada do que ela dizia além da palavra que lhe dava título e era repetida algumas vezes: <em>Africa</em>. Qualquer manifestação artística honesta e bem realizada desconhece barreiras de linguagem. Essa canção foi feita por excelentes músicos populares que sabiam como transpor essas barreiras. A impressão que ela me deixou, até hoje, é que começava de uma forma melancólica mas esperançosa e, em determinado momento, pouco antes do refrão, fazia uma convocação para, na sequência, ganhar outras vozes reafirmando uma necessidade urgente.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/9NuA7AripfU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/9NuA7AripfU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Certamente demorou algum tempo, alguns anos talvez, para que eu soubesse que era realmente isso.  A voz se elevava ao dizer “<em>Hurry, boy, it&#8217;s waiting there for you</em>” (em uma tradução livre: <em>Rápido, garoto, tudo está lhe esperando por lá</em>). No refrão, dizia em coro: <em>There&#8217;s nothing that a hundred men or more could ever do (&#8230;) /Gonna take some time to do the things we never had </em>(<em>Não há nada que uma centena de homens ou mais não possa fazer (&#8230;) /Vai levar algum tempo para fazer as coisas que nunca fizemos</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/watw_big.jpg" target="_blank"><img class="alignright size-full wp-image-502" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/wearetheworld.jpg" alt="" width="288" height="347" /></a>Devo ter recebido essa informação por volta de 1985, quando já bombardeados com as muitas imagens da fome na África – a maioria pela TV, durantes os telejornais –, vimos um grupo de artistas (naquele tempo havia artistas de verdade, não meras “celebridades”) se unir, criar e cantar uma música que virou um verdadeiro mantra, que por si só parecia ter a força de executar mudanças gigantescas: <em>We are the World</em>. Para mim, um adolescente de 13 anos, ela parecia ganhar mais força quando entrava alguma das vozes dos astros do pop rock que eu costumava ouvir. Aquelas vozes mais conhecidas falavam diretamente a mim: Tina Turner dizendo que somos todos parte da fantástica família de Deus; Michael Jackson, de uma forma muito doce, dizendo que somos o mundo, somos as crianças; mais adiante, caso alguém não tivesse entendido, a voz rouca e poderosa de Bruce Springsteen repetindo isso de outra forma; e o esclarecimento era dado pela voz de Cindy Lauper, dizendo que deveríamos perceber que a mudança só poderia vir quando nós nos juntássemos e resistíssemos como se fossemos um só.</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito que a experiência de <em>We are the World</em> só possa ser plenamente entendida por quem viveu aquela época. Não podíamos baixar o clipe para um computador ou vê-lo no <em>YouTube</em> a qualquer instante. Não havia nem videocassetes. Tínhamos que esperar a música ser executada em uma rádio ou o vídeo ser exibido na TV. Quando isso acontecia, todos corriam, aumentavam o som e, mesmo sem saber direito o que estavam falando, cantavam junto, fazendo parte daquele coro: <em>We are the world, we are the children / We are the ones who make a brighter day.</em> Era um momento de oração. Depois, comprando o LP e com isso contribuindo para combater a fome na África, podíamos “rezar” mais vezes.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/jzw6GiqZyD0&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/jzw6GiqZyD0&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, 25 anos depois, Quincy Jones e Lionel Richie, dois dos idealizadores daquele momento, reúnem um novo time para fazer <em>We are the World &#8211; 25 for Haiti</em>, que será lançado nesta sexta, 12 de fevereiro, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Um quarto de século depois, o mundo está muito diferente, totalmente conectado. A informação chega imediatamente a qualquer lugar do planeta e pode ser acessada e repassada a qualquer momento, quantas vezes for preciso. Muita coisa mudou, mas não a nossa incapacidade de resolver os problemas dos nossos irmãos mais necessitados.</p>
<p><center><br />
<object width="560" height="340"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Glny4jSciVI&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Glny4jSciVI&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Duvido que alguém discorde da afirmação de que hoje as pessoas são muito mais insensíveis do que 25 anos atrás. O problema da fome na África continua e a ele se aliou o da AIDS que, até agora, já matou o equivalente a uma vez e meia a população da cidade de São Paulo. E há outro tanto desses vivendo com o vírus. Não fomos capazes de deter isso e ainda fazemos previsões para um futuro pior. Em 15 anos, mais de 200 milhões – mais do que toda a população atual do Brasil – estarão infectados com o HIV na África.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação do Haiti não é diferente. <em>Noventa por cento dos 5 milhões de haitianos são subalimentados. Há seis médicos para cada 100 mil habitantes. A expectativa de vida não chega a 50 anos. Noventa por cento da população é analfabeta e 73% das crianças com menos de 14 anos nunca foram à escola. O desemprego e o subemprego são da ordem dos 70%.</em> E o que você acabou de ler não é uma informação divulgada recentemente, por conta do terremoto que matou mais de 230 mil pessoas. Você leu um parágrafo de uma matéria de agosto de 1973 da revista <em>Realidade</em>. Quase quatro décadas depois, a realidade é bem pior.</p>
<p style="text-align: justify;">Há duas coisas que não consigo entender: como não conseguimos aprender com nossos erros e como bilhões de pessoas não conseguem impedir que alguns poucas deixem milhões de outras nessa situação por décadas e até séculos. Grande parte dos 5 milhões dos quais falava a matéria de <em>Realidade</em> em 1973 já morreu. Surgiram pelo menos duas outras gerações, hoje cerca de 8 milhões de pessoas, que já nasceram condenadas a esse mesmo tipo de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles dias de 1985 em que o mundo estava cantando <em>We are the World</em>, Baby Doc, então presidente dito vitalício do Haiti, comemorava 14 anos de sua chegada ao cargo, transmitido por seu Papai Doutor (Papa Doc), que passou seus 28 últimos anos de boa vida vampirizando o país.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-503" style="border: 0pt none;" title="babydoc" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/babydoc.jpg" alt="babydoc" width="500" height="555" /></p>
<p style="text-align: justify;">No ano seguinte, 1986, Baby Doc e família fugiram para a França. Somente quatro anos depois, o Haiti teria o que é considerado como sua primeira eleição livre. O eleito foi o padre Jean-Bertrand Aristide, que também sofreu golpes e ficou em um vai-e-vem no cargo até 2004, quando foi retirado do país por tropas americanas. Aristide acabou se refugiando na África do Sul, outro país com um povo extremamente sofrido – a parte negra, para não fugir à regra.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo me estender nem falar agora sobre esse completo absurdo chamado Apartheid, que durou mais de meio século. Quero apenas terminar lembrando o maior símbolo de resistência contra esse regime de separação, Nelson Mandela, que passou quase três décadas preso pelo “crime” de defender a igualdade de direitos para todos os homens, independente de cor. Hoje, 11 de fevereiro de 2010, faz 20 anos que Mandela foi libertado.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles conturbados anos 80, quando parecíamos mais dispostos a lutar por um mundo melhor, ele ainda estava preso. Além de <em>Africa </em>(1982) e <em>We are the World</em> (1985), quem viveu aqueles tempos também deve lembrar outra canção que marcou a década: <em>Mandela Day</em> (1988), do Simple Minds. Era o mundo pedindo a libertação de um homem, de um símbolo de resistência e de humanidade. Nós realmente acreditávamos que éramos <em>O</em> mundo e não só a parte mais egoísta dele. Desejo que as gerações que viram sua história continuem inspiradas por seus ideais. E que, como é dito em um dos versos da música feita para ele, as crianças continuem conhecendo a história desse homem. Talvez ainda haja tempo de revermos esse roteiro que parece levar sempre ao mesmo fim. Talvez ainda sejamos fortes e suficientemente humanos para mudarmos nossa História.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/FFnJmz5pWc4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/FFnJmz5pWc4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Foi bom enquanto durou</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 20:33:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Há 20 anos...]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Fevereiro de 1989 começou entre cartas, postais, reuniões do Centro Acadêmico e filmes. Neste último quesito, minha múltipla personalidade continuava se manifestando.  Via desde o pop Robocop (1987) aos ótimos Alta ansiedade (1977), homenagem de Mel Brooks a Hitchcock, e O Sol da Meia-Noite (1985), com matadores Mikhail Baryshnikov e Gregory Hines dançando e encantando. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-495  aligncenter" style="border: 0pt none;" title="5filmes80" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/5filmes80.jpg" alt="5filmes80" width="600" height="181" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fevereiro de 1989 começou entre cartas, postais, reuniões do Centro Acadêmico e filmes. Neste último quesito, minha múltipla personalidade continuava se manifestando.  Via desde o pop <em>Robocop</em> (1987) aos ótimos <em>Alta ansiedade </em>(1977), homenagem de Mel Brooks a Hitchcock, e <em>O Sol da Meia-Noite</em> (1985), com matadores Mikhail Baryshnikov e Gregory Hines dançando e encantando. Dentre minhas frustrações, está a de não ter me tornado um dançarino. Hoje, babo na frente da TV com programas como <em>So you think you can dance</em>. Não se engane: não era uma frescura latente. Eu não queria ser o Baryshnikov; queria ser o John Travolta, ser um imã para mulheres como Jamie Lee Curtis e ficar mais bonito depois dos 40 (ainda tenho fé neste ponto).</p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém lembrou de <em>Perfeição </em>(1985), com Travolta no papel de jornalista transitando em uma academia cheia de loiras de collants e caras com mullets e faixas na cabeça, acertou em cheio. Foi um dos filmes que assisti naquele fevereiro. No entanto, o mais marcante daqueles dias foi <em>Repo Man </em>(1984), um longa de ação-comédia-ficção científica estrelado por Emilio Estevez, que no Brasil ganhou o título de <em>Repo Man – A Onda Punk</em>. Assisti na noite de sábado, 11 de fevereiro. Sim, já existia SuperCine naquela época.</p>
<p style="text-align: justify;">Em fevereiro do ano seguinte, 1990, distribuidoras de filmes em VHS costumavam me mandar alguns de seus lançamentos. O nível começou a subir. Comecei a ficar mais seletivo. Já em relação aos livros, estava em uma fase bem “não pense muito, apenas leia”. Depois de <em>Cartas da Mãe</em>, de Henfil, eu devorava, em uma noite, <em>O Reverso da Medalha</em>, de Sidney Sheldon. um apontamento na agenda daquele ano me traz uma surpresa. Na sexta, 9, li <em>O Estudante</em>, de Adelaide Carraro. Não lembrava disso. Pensava que jamais havia lido qualquer livro seu antes de 2006 (li pelo menos trinta deles do final de 2006 a abril de 2007).</p>
<p style="text-align: justify;">Nas bancas, chegava a <em>Playboy</em> com uma capa muito esperada pelos adolescentes da época. Trazia uma baianinha, muito linda e com jeitinho de índia. Elimary Silva era seu nome, mas todos a chamavam de Mara Maravilha. Era um tempo em que as mulheres ainda eram de verdade. Mara fazia sucesso com a criançada, com os meninos adolescentes e com as meninas que se identificavam com a garotinha bonita, sensual, mas com ar puro que cantava <em>Não faz mal (eu tô carente, mas eu tô legal)</em>. Ah, Britney, desculpe-me dizer, mas eu era muito mais a Mara (até porque, em 1990, você era só uma garotinha desconhecida de 9 anos). Hoje, a convertida Mara prefere nem lembrar aquele período. <em>Foi bom enquanto durou/ E valeu/ O que passou já passou/ Não faz mal&#8230;</em></p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/bAS1riUeU6g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/bAS1riUeU6g&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
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		<title>Antigas igrejas de Natal</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Feb 2010 08:33:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No início dos anos 90, já morando no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias cidades do interior do estado e comecei a colecionar igrejas. Sempre me chamou atenção a construção em um ponto alto da cidade, o cuidado com o templo, a devoção das pessoas passando de geração em geração. Só então me dei conta de que não via muitas igrejas católicas em Natal. “Não via” é a expressão mais correta. Elas existem, mas as antigas, que meu olhar estava acostumado a ver, são mesmo poucas. Apenas quatro são anteriores ao século XX. Um detalhe que sempre estranhei: as três mais antigas são vizinhas e estão em um raio de aproximadamente 500 metros.</p>
<p style="text-align: justify;">A seguir, apresento esses quatro templos. As explicações históricas, em itálico, são do capítulo <em>Igrejas e Vigários</em>, do livro <em>História da Cidade do Natal</em>, de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo" target="_blank">Luís da Câmara Cascudo</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-485" style="border: 0pt none;" title="ignsapre" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/ignsapre.jpg" alt="ignsapre" width="600" height="415" /></p>
<p style="text-align: justify;">A primeirona. Mais ou menos. Ali, na praça hoje chamada André de Albuquerque, foi fundada a <em>Cidade do Natal do Ryo Grande</em>, com uma missa em 25 de dezembro de 1599. O que existia era <em>uma capelinha, de barro socado e coberta de palha, ramos secos entrançados (nesse tempo não havia coqueiros), teria apenas uma entrada, sem sino nem aparato. Em 1614 não possuía ainda portas. Em 1619 estava pronta.</em> (&#8230;) <em>Em 1672 pensaram em substituir a capelinha por uma igreja mais sólida e compatível com as necessidades maiores da colônia cristã. </em>(&#8230;)<em> Em 1694 a igrejinha estava terminada.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Até aí, estamos no século XVII. Mas a que vemos na foto não tem nada dessa época. Cascudo explica: <em>Quase cem anos voam. Em 1786 há uma remodelação geral. Três anos antes a capela-mor ruíra. Fizeram então as capelas laterais </em>(&#8230;). <em>A igreja não tinha corredor nem arcadas interiores. Havia apenas um sino que dormia numa janela na frontaria, ao lado direito da matriz.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não havia cemitério em Natal. Todos os fiéis eram sepultados dentro da Igreja, nos arredores também junto ao Cruzeiro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante o século XIX a matriz tomou outro aspecto. Em abril de 1856, o presidente Passos <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/04/01/passeios-por-cemiterios-i" target="_self">criou o cemitério</a> e adquiriu, por subscrição, um relógio para a planejada torre inexistente. Em 1862 começaram a levantar a torre (&#8230;) A torre é de 1862. Está a data ao cimo da respectiva porta.</em></p>
<p style="text-align: justify;">(&#8230;) <em>Essa série de remodelações retiraram da matriz todas as características. É uma igreja comum e banal, sem detalhes típicos e fisionomia </em>(&#8230;). <em>Resta a tradição, que é nobre e linda. Está no mesmo local de mais de</em> quatro séculos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-488" style="border: 0pt none;" title="igrosario" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igrosario.jpg" alt="igrosario" width="600" height="465" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fica, aproximadamente, a 300 metros à direita da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Não a conheço por dentro. Nunca a vi aberta. Tenho profunda simpatia por ela. Talvez por ser, verdadeiramente, a mais antiga da cidade. Em 2010, completará 296 anos. Os registros históricos e a placa ao lado de sua entrada dizem que foi inaugurada em 2 de julho de 1714.</p>
<p style="text-align: justify;">Diz Cascudo: <em>A igrejinha de Nossa Senhora do Rosário é o mais humilde dos templos dentro da cidade do Natal. Pequenina, pobre, com sua torrezinha quadrada, sua imposta no frontão, ao gosto melancólico dos velhos oratórios, passa sem registros nas crônicas de outrora.</em> (&#8230;) <em>É a igreja mais bem situada. Erguida num cômoro </em>(outeiro)<em>, recebe o primeiro olhar do rio (&#8230;). É o tipo da igreja primitiva, o simples caixão, com a nave, sem transepto, e a torre, mais convencional que útil. </em>(&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Era, antes de tudo, a igreja dos pretos, dos pobres, dos escravos. </em>(&#8230;) <em>Também era o local sagrado dos casamentos, dos batizados, das festas dos que nada possuíam.</em> (&#8230;) <em>Ali, Nossa Senhora era exclusivamente dos deserdados, dos miseráveis, dos esquecidos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja de Santo Antônio dos Militares </strong>(Igreja do Galo)</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-489" style="border: 0pt none;" title="igdogalo" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igdogalo.jpg" alt="igdogalo" width="600" height="465" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em minha opinião, a mais charmosa igreja de Natal. E, pelo que percebo, a preferida para os casamentos. Se a do Rosário foi construída para os pobres, a de Santo Antônio foi feita para os ricos. É datada de 15 de julho de 1763.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sobre a porta principal do templo há uma data: agosto de 1766. Deve significar o fim da construção. A torre nasceu depois. Uma inscrição no cimo da porta da torre informa que em janeiro de 1799 esta se concluía.</em> (&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>É a mais linda da cidade. Sua torre, encimada de azulejos reluzentes, com o galo heráldico, como um timbre numa cimeira feudal, a majestade do frontão com os motivos em arabesco, num barroco sugestivo e que se convencionou chamar jesuítico, as tochas estilizadas na cimalha, os desenhos em relevo, correndo e volteando a frontaria, dão um aspecto de majestade simples, imponente, mas acolhedora e simpática.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Sua proximidade com a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação sempre me impressionou. De sua frente, é possível ver a lateral da Matriz a uns cem metros apenas. Não me lembro de duas igrejas tão próximas em qualquer outra cidade que conheço.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores</strong></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-490" style="border: 0pt none;" title="igbjesus" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/igbjesus.jpg" alt="igbjesus" width="600" height="410" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A matriz do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira é a última das igrejas vindas do século XVIII.</em> (&#8230;) <em>Na segunda metade do século XVIII era capela.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Cascudo diz que o mais antigo documento que havia encontrado sobre a essa igreja era “<em>um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores</em>”. Ele diz também que “<em>apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano Frei André, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Tem, portanto, um aspecto comum a outros templos construídos nessa mesma época, como as igrejas de São Pedro, no bairro do Alecrim, e a da Sagrada Família, nas Rocas.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus das Dores, <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/23/igreja-do-senhor-bom-jesus-das-dores/" target="_self">leia também este texto meu</a>, escrito na década de 90 e publicado aqui no <em>blog</em>. A respeito das igrejas do início do século XX, pretendo falar em outra oportunidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/sets/72157618775075660/" target="_self">Veja aqui</a> mais fotos das antigas igrejas de Natal.<br />
E também no álbum <a href="http://www.flickr.com/photos/memoriaviva/sets/72157594171973894/" target="_self">Natal Antiga</a> do Flickr Memória Viva.</p>
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