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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Teatro</title>
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		<title>Os Clowns</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 19:27:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[– Ma che cosa è? – È il circo. (Primeiro diálogo em I Clowns, de Fellini) Os Clowns estão de volta. A principal novidade é que não há novidade. São os clowns, os palhaços, i buffoni, de volta às raízes &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/11/29/os-clowns/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-792" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_01.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>– Ma che cosa è?<br />
– È il circo.</em><br />
(Primeiro diálogo em <em>I Clowns</em>, de Fellini)</p>
<p style="text-align: justify;">Os Clowns estão de volta. A principal novidade é que não há novidade. São os clowns, os palhaços, <em>i buffoni</em>, de volta às raízes do espetáculo circense. E são Os Clowns de Shakespeare de volta às próprias raízes e em grande forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Estão de volta à sua terra, Natal. Eu, também nela, tenho me recusado a sair de casa e poucos argumentos me convencem a fazer o contrário. Porém, os Clowns não são qualquer coisa e César Ferrario, um deles, me convidou a conferir o novo espetáculo – <em>Sua Incelença, Ricardo III </em>– de forma carinhosa, alegando que tenho um dos “<em>poucos olhares que pode enxergar toda a nossa história através dos tempos, em tudo que isso tem de bom e de não bom</em>”. Como se diz “<em>não</em>” a uma intimação dessas?</p>
<p style="text-align: justify;">Foi em 1993 que lancei meu primeiro olhar sobre os Clowns, um bando de aproximadamente 30 jovens alunos secundaristas, quase todos desorientados, em cima de um palco. Eu, um jovem jornalista (hoje curado, apesar da sequelas) que se atreveu a escrever uma crítica ao espetáculo. Primeira e única que o grupo recebeu durante uma década. Não por falta de merecimento, mas de quem o fizesse.  Mesmo tendo me mudado para Brasília, os Clowns eram programa obrigatório durante minhas vindas a Natal, nos finais de ano. Em 2004, tendo restado apenas César, Renata Kaiser e Fernando Yamamoto do gigantesco bando inicial, assisti a <em>Muito Barulho por Quase Nada</em>, um sucesso que durou várias temporadas. Já eram, então, um grupo profissional, bem organizado, estudioso e que estava conquistando reconhecimento nos festivais de teatro do país e, bem mais difícil que isso, na normalmente ingrata cidade onde nasceu e da qual Cascudo diz que não consagra nem desconsagra ninguém.<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg"></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-796" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Até o convite, o capítulo mais recente dessa história em comum havia acontecido em outubro de 2009, em São Paulo, quando assisti a <em>O Capitão e a Sereia</em>. Escrevi a respeito e usei os Clowns para criticar a inexistência de crítica em Natal. Fui suficientemente ácido para apontar a melhor peça deles como algo, digamos, “insuficiente” para quem os conhecia há década e meia. <em>O Capitão&#8230; </em>era, sem dúvida e de longe, o melhor espetáculo do grupo. Rendeu excelentes críticas de quem sabe e pode fazer crítica teatral no Brasil. Da província, sem ver, as focas batiam palmas. Se fossem sérias, se disporiam a ir a São Paulo, onde eles estrearam e fizeram temporada de dois meses, para conferir e escrever a respeito. Assim como, hoje, a imprensa de São Paulo vêm a Natal para conferir o trabalho deles. Os Clowns são profissionais de alto nível e merecem tratamento à altura. Um ano depois desse episódio e tendo corrido o risco de que um ou outro me odiasse eternamente, não criticaria mais a falta de crítica na pequena tribo. Tampouco diria que isso faz falta aos Clowns. Eles pertencem ao mundo. Não precisam de focas amestradas batendo palmas, nem de tapinhas nas costas, frases feitas e coisas assim. Não precisam nem de um ex-jornalista idiota como eu se metendo a Barbara Heliodora. Portanto, o que segue não é uma crítica, mas um breve relato sentimental de nosso mais recente encontro. E se eu usar as palavras “<em>trupe</em>” e “<em>mambembe</em>”, por favor, pare de ler. Ninguém merece isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Sexta, 26 de novembro de 2010. Chego ao “terrenão”, uma grande área aberta em frente ao Barracão dos Clowns onde estava sendo apresentada <em>Sua Incelença, Ricardo III</em>. Incelências são os cantos coletivos feitos em velórios. Também uma forma popular, anasalada, de se referir a alguma autoridade no interior do Nordeste. Todo <em>dotô </em>é uma <em>incelença</em>. Os Clowns são basicamente isso: Shakespeare com sotaque nordestino.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui como mero espectador. Sozinho, quase anônimo, praticamente escondido. Aboletado no alto de uma das arquibancadas, via as árvores, as gambiarras de lâmpadas movimentadas pelo vento, ouvia a música e tudo me lembrava Fellini. Aqui, aos que me conhecem, já entrego minhas expectativas, pois nunca uso o nome de deus em vão. Se algo me faz lembrar Fellini, só pode ser algo muito bom. Aquele ambiente aberto, de circo popular, da arte teatral em sua forma mais pura e simples foi me conquistando antes mesmo de os atores entrarem em cena.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_04_joel.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-801" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_04_joel.jpg" alt="" width="600" height="316" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Entraram. Nunca vi os Clowns tão clowns. Seria extenso e mesmo chato falar de cada detalhe perfeito da peça. Diria apenas que todo expectador poderia vê-la pelo menos meia dúzia de vezes. Uma para ver o todo, uma segunda para olhar somente os detalhes do figurino, outra para prestar atenção às vozes dos personagens, uma quarta apenas para admirar o trabalho corporal, mais uma só para se deliciar com as expressões&#8230; Pensando bem, seis vezes ainda é pouco. Fui duas vezes. Uma, só para fotografar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ricardo III </em>traz oito atores. Quatro deles, conheço de longa data; Renata Kaiser, Marco França, César Ferrario e Titina Medeiros. Da outra metade, conhecia apenas Camille Carvalho de <em>O Capitão e a Sereia</em>. Dudu Galvão, Joel Monteiro e Paula Queiroz eram novos para mim.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_05_dudupaula.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-802" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_05_dudupaula.jpg" alt="" width="370" height="380" /></a>Sabe quando você vê um jovem ator/uma jovem atriz pela primeira vez e se pergunta: Onde ele estava que eu nunca tinha visto?! É um de seus primeiros trabalhos e ele é já bom assim mesmo? Isso tudo é talento? Já havia sentido isso por <em>Camille em O Capitão&#8230;,</em> sua estreia nos Clowns.  Joel é ótimo. Paula e Dudu são surpreendentes. Incomodam de tão bons que são.</p>
<p style="text-align: justify;">Paula e Dudu fazem vários personagens. Mesmo com figurinos e até uso de máscaras diferentes, isso pode confundir o espectador menos atento. Mas o trabalho de voz dos dois é tão perfeito que basta ouvi-los para saber que o personagem que acaba de entrar não é o mesmo que saiu há pouco. Eles sabem dar o tom certo, uma personalidade a cada um, pontuar cada sentimento. O deboche, a ironia, o sarcasmo e o desdém – muitas vezes entendidos como uma coisa só – são utilizados, cada um, no tom adequado. Dudu, quando faz o narrador, ainda está livre para exercitar a improvisação e inserir cacos tão perfeitos que parecem ter sido ensaiados.  Muita disciplina e raciocínio rápido ajudam muito um ator a brilhar. Além das vozes, Paula e Dudu ainda subvertem o poder da máscara, da maquiagem. Quando um palhaço entra em cena, de imediato você sabe mais ou menos o que esperar dele pela sua maquiagem. Ele pode parecer triste, louco, pateta, bobo, cínico&#8230; A maquiagem tem a função óbvia de reforçar a caracterização, de ajudar a compor a personalidade a ser apresentada. Quando um ator, debaixo de uma única maquiagem de clown, se transforma em vários personagens e ainda imprime a cada um deles variados sentimentos é algo que realmente impressiona. Não é qualquer um que tem essa capacidade de expressão facial e, mais ainda, técnica e conhecimento para aplicar e fazer valer esse poder. Dudu ainda é responsável por um dos momentos mais risíveis da peça, quando a plateia se rende a sua interpretação e sua voz ao cantar.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_03_renata.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-804" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_03_renata.jpg" alt="" width="600" height="315" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Confessei a César que acho necessário tomar alguma distância temporal em relação a ele, Marco e Renata. Cada vez que pisam em cena, já vejo todos os personagens que os vi interpretar. É um problema meu, não deles. De imediato, não dou chances que me apresentem às novas personas. Minha exigência para com eles é sempre bem maior. Penso: “<em>Surpreendam-me. Mostrem-me se merecem mesmo meus aplausos.</em>” Eles mostraram. Quem melhor fez isso foi Renata, que passa a maior parte do tempo como a amarga rainha Margaret. Diferente dos outros, que se revezam em momentos de drama e comédia, ela é sempre grave, trágica. Gostei de vê-la assim.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito de Marco, aproveito para fazer uma confissão. Na primeira vez em que o vi em cena junto aos Clowns, pensei: “<em>O que aquele antipático que toca teclado está fazendo ali?</em>” Assim mesmo, de forma convicta e preconceituosa, já disposto a odiar qualquer coisa que ele fizesse. Isso foi em 2004, como <em>Muito Barulho por Quase Nada</em> e&#8230; adorei seu trabalho como ator. Talvez por ele ter papéis de grande destaque em todas as peças, talvez por me restar ainda alguma estúpida antipatia totalmente sem sentido, talvez por achar que ele exerça muita influência e até coloque música demais em algumas peças, talvez por tudo isso junto, é em relação a ele que tenho mais dificuldade em ter o necessário distanciamento para ver somente o personagem que está em cena. Assim que ele aparece, fico esperando que surjam também Benedito e o galado do Corniso, de <em>Muito Barulho</em>&#8230;; o garçom de <em>Roda Chico</em>; o falastrão de <em>O Capitão e a Sereia</em>. Porém, em <em>Ricardo III</em>, quem aparece é só Ricardo III mesmo. Se Marco conseguiu me fazer rir de quem eu não queria e agora, me fez enxergar somente Ricardo, certamente está fazendo um trabalho bem feito. Assumo a culpa por qualquer disposição em contrário.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_06_marco_cesar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-811" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_06_marco_cesar.jpg" alt="" width="600" height="414" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, César, o grande culpado por me fazer sair do claustro e escrever este texto imenso.  Ele faz três papéis importantes: Clarence, a Duquesa e Tyrrel Jararaca. Este último é o que mais rápido cativa a plateia, até por ser um cangaceiro e, portanto, o mais próximo de nossa realidade, de nossa cultura. Mas é com a Duquesa que ele vive o momento de apoteose da peça. Ninguém consegue ficar sem rir e aplaudir. Contar estragaria a surpresa. Só posso dizer que quem viu vai passar muito tempo com <em>Bohemian Rhapsody </em>na cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">Falei de todos? Não. Faltou Titina, de quem sempre me recuso a falar por me sentir afetado por todo carinho que tenho por ela. Quando a conheci, era ainda uma menina e, creio, ela nem imaginava que viria a ser atriz. Penso que por ser uma figura mais popular, que aparece na tevê, o público, em geral, já se sente à vontade para gostar mais dela. Gostaria de vê-la atuando fora de Natal. Nesta peça, sua rainha Elizabeth tem falas que fazem o público gargalhar a toda hora. Do interior do Rio Grande do Norte, Titina conhece bem o jeito e as expressões populares que são imediatamente reconhecidas e agradam. É a pessoa perfeita para virar para o rei e dizer: “<em>Ricardo, não confunda cu com bunda.</em>” Isso em um tempo certo de piada e fazendo todo mundo acreditar que a rainha não passa de uma alpinista social daquelas bem ralé.</p>
<p style="text-align: justify;">Ricardo III é uma tragédia, uma comédia, um musical, um espetáculo de clowns. Dizer que é completo, seria como utilizar aquelas palavras que disse, lá no início, que não usaria. Se achei <em>O Capitão e a Sereia</em> a melhor peça do grupo, <em>Sua Incelença, Ricardo III</em> é o melhor clowns e o melhor Shakespeare dos Clowns de Shakespeare. Em 2011, vai rodar pelo país. Fique de olho para quando passar aí por perto.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * * * * * * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos relacionados</strong><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/11/29/os-clowns-o-capitao-e-a-falta-de-critica" target="_self">Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica</a><br />
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<p><strong>Fotos:</strong><br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/unsdiasemnatal/sets/72157625493912290" target="_blank">Sua Incelença, Ricardo III</a> (por Sandro Fortunato)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/unsdiasemsampa/sets/72157625368673903" target="_blank">O Capitão e a Sereia</a> (por Sandro Fortunato)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal" target="_blank">O Casamento</a> (por José Luiz Coe)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal/sets/72057594056601062" target="_blank">Roda Chico</a> (por José Luiz Coe)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal/sets/72057594056630444" target="_blank">Muito Barulho por Quase Nada</a> (por José Luiz Coe)</p>
<p><strong>Mais Clowns:<br />
</strong><a href="http://www.clowns.com.br" target="_blank">Site oficial dos Clowns de Shakespeare</a><br />
<a href="http://odiariodocapitao.blogspot.com" target="_blank">O Diário do Capitão</a></p>

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		<title>Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Nov 2009 19:45:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[Um grupo de teatro sai da província e faz temporada na cidade grande. Celebremos! Não façamos, porém, como o personagem da peça que o tal grupo encena, que ouviu falar das belezas do mar e, sem nunca tê-las visto, as &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/11/29/os-clowns-o-capitao-e-a-falta-de-critica/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-90" style="border:0 none;" title="clowns_cap01" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap01.jpg" alt="" width="600" height="243" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Um grupo de teatro sai da província e faz temporada na cidade grande. Celebremos! Não façamos, porém, como o personagem da peça que o tal grupo encena, que ouviu falar das belezas do mar e, sem nunca tê-las visto, as espalha pelo sertão.</p>
<p style="text-align:justify;">Se estamos acostumados à crítica vazia do gênero “não vi e não gostei”, em Natal nos acostumamos também à sua amável irmã cega, que não viu e adorou. Os Clowns de Shakespeare são vítimas dessa última. Há anos têm casa cheia em estreias e curtas temporadas. Não importa o que apresentem. São os Clowns? Então é bom. O estouro da boiada está garantido pelo nome da grife. Muita gente vai voltar da porta, muita gente vai assistir sem saber o título da peça ou do que trata.</p>
<p style="text-align:justify;">Por um lado, isso garante o suado sustento dos atores e aumenta sua autoestima; por outro, não lhes dá a oportunidade de avaliar e corrigir erros. É para isso que serve a crítica. Copiar o texto de divulgação e publicá-lo em jornal com ares de matéria é ação de colegas. Assistir ao espetáculo e criticá-lo – para o bem ou para o mal – é ação de amigo, mesmo que venha de um desconhecido. O jornalismo Ctrl+C/Ctrl+V, amplamente empregado nos cadernos ditos de cultura, garante os convites para a próxima peça, os tapinhas nas costas e a circulação entre os artistas. E só. Atores e público não ganham nada com isso.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap02.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-92" style="border:0 none;" title="clowns_cap02" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap02.jpg" alt="" width="286" height="210" /></a>“<em>Mas já há tão pouco espaço, se faz tão pouco, se ainda formos criticar&#8230;</em>”. Se ainda formos criticar, vamos ajudar a melhorar. A cretinice da cultura do elogio só é boa para os covardes que querem viver na ilusão. Fecham-se no oba-oba dos medíocres e vivem a mentira do extraordinário quando são, no máximo, sofríveis. “<em>Mas se a gente criticar, aí é que o povo não vai</em>”. Um público que se deixa influenciar pelo que ouviu e não pelo que viu e analisou é melhor mesmo que fique em casa, na frente da tevê. Hoje, no teatro, o que mais se vê são focas amestradas prontas para bater palmas ou hienas nervosas, dispostas a rir por qualquer bobagem. Sequer sabem diferenciar um momento dramático de um cômico. Isso não é público de teatro. É público em busca de entretenimento. E o tipo que pergunta “<em>Será que presta?</em>” é o pior. Melhor ficar em casa. Prestando atenção ou não, não há de entender alguma coisa mesmo. Que fique com a novela.</p>
<p style="text-align:justify;">Aos dezesseis anos de idade, os Clowns de Shakespeare debutaram em São Paulo com o espetáculo <em>O Capitão e a Sereia</em>. Não mais uma simples passagem, uma ou duas apresentações em algum festival. É uma temporada. Cinco apresentações semanais no Sesi Vila Leopoldina. A metrópole não poupa ninguém e eles não têm encontrado “coleguinhas”, críticos com o rabo preso ou dispostos a favores. Longe da segurança da casa materna, os Clowns finalmente botaram a cara à tapa. Uma delas veio do guia da <em>Veja São Paulo</em> que, duas semanas após a estreia, “<em>deu-nos uma estrela e escreveu palavras duras e injustas sobre o espetáculo</em>”, como disse o diretor Fernando Yamamoto no <em><a href="http://odiariodocapitao.blogspot.com" target="_blank">blog O Diário do Capitão</a></em>, que vem mostrando a peça desde seu processo de criação. Passaram quase quinzes dias com “<em>aquele engasgo na garganta</em>” até que um crítico da <em>Folha de S. Paulo</em> os redimisse, escrevendo de forma “muito elogiosa, reconhecendo nosso trabalho e a nossa trajetória”.</p>
<p style="text-align:justify;">Na cômoda e irrevogável posição de ter sido o primeiro a escrever uma crítica ao trabalho dos Clowns (sobre <em>Sonho de uma Noite de Verão</em>, em 1993) e tendo visto praticamente todas as suas montagens, sinto-me muito à vontade para falar sobre <em>O Capitão e a Sereia</em>. Vi a peça em uma ocasião diferente, na qual, por algum capricho, o destino resolveu reunir em São Paulo várias pessoas de Natal, que conhecem o grupo há tempos. César Ferrário, Marco França, Renata Kaiser e a novata Camille Carvalho pareciam estar bem à vontade tendo “a família” por perto. Um quinto e desavisado ator abrilhantou a encenação naquela noite. Na plateia, um senhor caiu no sono. Marco França percebeu e não perdoou: aproveitou a deixa e ajudou a embalá-lo para, na sequência, levantar a bola para César, que, dando ênfase à fala de seu personagem, acordou o pobre coitado aos berros. Ninguém mais iria dormir.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap03.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-91" style="border:0 none;" title="clowns_cap03" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/clowns_cap03.jpg" alt="" width="286" height="373" /></a>O espetáculo talvez seja mesmo “<em>um dos mais inventivos da temporada</em>” em São Paulo, o que não quer necessariamente dizer que seja ótimo, mas que, pelo menos, é diferente do que se tem visto por lá. Não há dúvidas de que os Clowns sejam criativos, nem de há gente competente em todo lugar do Brasil. Porém, para quem acompanha o grupo, essa inventividade é velha conhecida e é impossível não terminar de ver a peça com a sensação de já ter visto muito daquilo antes: a música, o escuro, o escárnio, as vozes zombeteiras, o exagero nas mugangas, os regionalismos engraçados, os falares pitorescos. Na verdade, os Clowns juntaram tudo de bom que aprenderam, criaram, desenvolveram e testaram nesses dezesseis anos e fizeram uma vitamina bem concentrada para um público diferente e, em tese, mais exigente. Para o público natalense, certamente parecerá mais do mesmo. Aposto em mudanças para quando a peça for encenada em Natal no próximo ano.</p>
<p style="text-align:justify;">O grupo sabe que precisa mudar. O caminho do riso fácil é perigoso. Mais ainda em tempos de humor barato e de um público que só quer se divertir. A história dos Clowns se confunde com a da trupe mambembe que representam e a peça termina justamente onde o grupo real se encontra: em uma encruzilhada na qual cada integrante vê uma coisa e pensa em tomar um rumo diferente. Para o público de São Paulo, <em>O Capitão e a Sereia</em> traz gente nova e talentosa apresentando uma comédia. Para o público foca-hiena que os segue, pouca novidade. Para o público que os acompanha e reconhece verdadeiramente seu talento, um drama escondido pelas maquiagens de palhaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Os Clowns de Shakespeare estão amadurecendo. Saíram de casa e viram que a coisa lá fora não é assim tão bonita. Mas pode ser linda, desde que se mate um leão por dia e, principalmente, de uma forma surpreendente a cada vez. Acredito que voltarão tendo aprendido que não podem montar uma peça para este ou para aquele público específico, assim como não há palco pequeno nem demasiado grande para eles. Devem ser talentosos, criativos e revolucionários em Natal, São Paulo ou Nova Iorque. Devem voltar mais conscientes de suas possibilidades, dando mais valor a uma desancada de Barbara Heliodora do que aos elogios baratos de um bando que os adora. É assim que se cresce.</p>

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		<title>Ainda a chuva</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Aug 2009 08:50:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[Plínia quer enterrar sua mãe. O grito interrompe os desejos alheios e provoca risos nervosos: “Eu quero enterrar minha mãe!”. Da última fila, tento buscar um ajeitar-se na cadeira que talvez signifique “eu também”. Eu nunca quis enterrar alguém. Acho &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/08/18/ainda-a-chuva/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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<p align="justify">Plínia quer enterrar sua mãe. O grito interrompe os desejos alheios e provoca risos nervosos: “<em>Eu quero enterrar minha mãe!</em>”. Da última fila, tento buscar um ajeitar-se na cadeira que talvez signifique “eu também”.</p>
<p align="justify">Eu nunca quis enterrar alguém. Acho mesmo um costume estranho. Enterramos para, três anos depois, desenterrarmos. Terra pouca, raso minifúndio, é preciso dar espaço ao próximo. Quer aproveitar e responder a pergunta outra vez? Quem você quer enterrar?</p>
<p align="justify">Ninguém. Nada. Estava ali para rever, cinco meses depois, Plínia e Banto, Paula e Henrique. Da primeira dupla, os medos e dúvidas existenciais. Da segunda, o reconhecimento no palco centenário do Alberto Maranhão. Casa lotada, público dispersivo fisgado pelo talento dos dois atores. Logo só há os personagens e seus “<em>ses</em>”.</p>
<p align="justify">É outro costume estranho. Imaginar como teria sido. Passado imaginário, redentor. Oração atrasada, pedido desesperado de remissão por erros e culpas, impossível de ser realizado.</p>
<p align="justify">Passado imperfeito enterrando presente e futuro. A covardia de não haver tentado corroendo convicções, desfazendo certezas que pareciam imbatíveis. Você corre a olhar no caixão e descobre que no lugar de quimeras sepultou sonhos. Resta aceitar o augusto conselho e acostumar-se à lama.</p>
<p align="justify"><em>Vade in pace.<br />
</em></p>
<p align="justify"><strong>Texto relacionado:</strong> <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/03/11/quando-a-chuva-passar/">Quando a chuva passar</a></p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Quando a chuva passar</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Mar 2009 20:23:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/tchuva.jpg" border="0" /></p>
<p align="justify">Durante essa chuva que passo em Natal, venho me abrigando em salas de teatro. Em raras ocasiões, nas de cinema. Já não sei quanto tempo dura, mas tenho aproveitado para pensar e repensar a vida. “<em>Você nunca cansa de pensar?</em>”, me perguntaram uma vez. <em>Há outra coisa útil a se fazer?</em>, me pergunto sempre.</p>
<p align="justify"><strong><em>O tempo da chuva</em></strong>, com <strong>Henrique Fontes</strong> e <strong>Paula Vanina</strong>, faz com que as pessoas menos acostumadas a isso também o façam. E de uma forma quase traiçoeira, pois pega a platéia desarmada pela comédia. Enquanto esperam a chuva passar, os personagens começam a se analisar. Se alguém não embarca nas brincadeiras, não se identifica com as frases de efeito, muitas bem conhecidas, a coisa se torna mais enfática. Quando todos acham que estão ali apenas para se divertir e esquecer o mundo lá fora, são confrontados com uma pergunta do tipo: “<strong><em>Quem você quer enterrar?</em></strong>”. Sempre há algo ou alguém. Uma pessoa que se deseja esquecer, um segredo a esconder, uma condição difícil de aceitar.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/tchuva2.jpg" width="288" align="right" border="0" height="210" />Os mais tímidos e reservados detestam quando as luzes se acendem e se descobrem parte da peça. Mas ninguém é forçado a nada. Alguns até aproveitam a oportunidade para ver o que há no caixão que foi trazido pela chuva. Pela cara deles ao descer do palco, acho que viram aquilo que mais desejam enterrar ou algo que, sem querer e por não pensar, acabam enterrando. Entenda como quiser.</p>
<p align="justify">Certo mesmo é o aforismo dito por um dos personagens: “<strong><em>Inocente, a gente nem sonha com a perda que começa no encontro</em></strong>”. É assim em qualquer situação. O fato de ter começado já indica que haverá um fim. A peça para a qual nos aprontamos tem seu fim determinado na hora em que começa. A paixão também. A vida e tudo mais nela.</p>
<p align="justify">Parece-me que o principal convite de <em>O tempo da chuva </em>é para que possamos nos despir dos personagens que criamos, sair dos abrigos que construímos para vivermos a vida lá fora. Pensando um pouco mais, essa vida imaginária faz parte da vida real. E até quando se pretende viver dessa forma? Afinal, essa história também vai chegar ao fim. Assim como a chuva, <strong>na vida, tudo passa</strong>.</p>
<p align="justify">A decisão de quando tomar uma atitude fica por conta de cada um: se agora ou quando a chuva passar. Sem medo dos <em>ses.</em> E se&#8230;? E se&#8230;? Melhor acreditar no momento de coragem da personagem – que decreta: “<em>Eu vou me arrepender, mas não posso</em>” – e <strong>seguir em frente</strong>.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Amar e malamar</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 10:42:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[Gostaria de ter ido A mar aberto antes do último sábado. De volta a Natal, a peça de Henrique Fontes lotou por duas noites a Casa da Ribeira no final de semana anterior. Minha intenção era ter ido à primeira &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/02/17/amar-e-malamar/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/amar01.jpg" width="600" border="0" height="282" /></p>
<p align="justify">Gostaria de ter ido <a href="http://atoresaderiva.blogspot.com/" target="_blank"><strong><em>A mar aberto</em></strong></a> antes do último sábado. De volta a Natal, a peça de <strong>Henrique Fontes</strong> lotou por duas noites a Casa da Ribeira no final de semana anterior. Minha intenção era ter ido à primeira noite e escrever a respeito, para quem quisesse alguma opinião, antes da apresentação de domingo. No entanto, só pude ir na semana seguinte, graças a uma sessão extra. E fiquei mesmo com vontade de tê-la visto antes para aproveitar melhor. Por outro lado, vendo a que terá sido, por um bom tempo, a última apresentação, sinto-me mais à vontade para falar sem estragar qualquer surpresa que possa existir para quem ainda pretenda assisti-la.</p>
<p align="justify">Já havia escutado algumas opiniões sobre <em>A mar aberto</em>. Todas do tipo “<em>gostei</em>” ou “<em>não gostei</em>”. Se ainda não assisti, prefiro não saber mais que uma ou duas linhas. Até sinopses de divulgação, para mim, costumam ter informação em demasia. Gosto de ir virgem ou semi a peças e filmes. Não costumo me influenciar por críticas e se isso chega a acontecer geralmente funciona às avessas: se dizem que é bom, desconfio; se dizem que é ruim, já começo a gostar. Não sou do contra. É mera observação de costumes. Em Natal, onde morei por muitos anos e tenho vários amigos em diversas áreas artísticas, não costumo errar quanto ao posicionamento do público em relação a um espetáculo.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/amar02.jpg" width="306" align="right" border="0" height="200" />Em geral, o público natalense quer entretenimento, quer se divertir. Quando vai ao teatro, deseja rir. Não é à toa que comédias e shows de humor costumam lotar por aqui. A parcela de espectadores que vai ao teatro querendo ver algo diferente do seu próprio mundo, pensar a respeito, aprender algo novo ou pensar outras possibilidades é mínima. Quem sai de casa para se divertir deve procurar algo que já conheça, que lhe agrade e seja certeza de risadas e relaxamento. <strong>Quem vai ao teatro deve estar preparado para se jogar em um abismo</strong>, entrar sozinho na noite mais escura ou encarar o mar aberto sem nunca antes ter passado da arrebentação.</p>
<p align="justify">Em relação à peça de Henrique, havia ouvido mais “<em>não gostei</em>” do que “<em>gostei</em>”. Já comecei a gostar dela a partir daí. Com a anterior, <strong><em>Pobres de marré</em></strong>, foi o contrário. Apesar das atuações sempre merecedoras de elogios de <strong>Titina Medeiros</strong> e <strong>Quitéria Kelly</strong>, achei que o texto e a direção, mesmo que sutilmente, levavam ao humor em momentos extremamente graves. Se Henrique tivesse pesado a mão, a peça teria menos público, menos gente falando bem dela e teria sido bem melhor. Em <em>A mar aberto</em>, parece ter havido um cuidado maior em manter o tom. Mesmo quando existe troça entre os personagens, não acontece o riso da plateia, já suficientemente envolvida com o drama.</p>
<p align="justify">A história se passa em ambientes comuns a pescadores, o que já dá certa gravidade e um posicionamento mais distante – e nesse caso benéfico – dos espectadores. A história é centrada nos sentimentos de seu José Hermílio (<strong>Doc Câmara</strong>), chefe de uma embarcação, pelo jovem Julio de Joana (<strong>João Victor</strong>), que aparece querendo se tornar pescador. Surpreendido pela afeição que sente pelo garoto, o homem se pergunta: “<em><strong>o amor pode vir do demo?</strong></em>”. Algo tão diferente do mundo e dos parâmetros aos quais está acostumado, não pode ser coisa boa. “<em>Será que a maldade se veste de amor?</em>”, “<em>O tinhoso sabia se disfarçar para fazer o mal</em>”, diz o capitão, em conflito com a nova realidade. Diante do inesperado, a primeira reação é negar, rejeitar: “<em>Eu quis ter raiva daquele menino que largou os estudos para me ensinar o caminho do mal</em>”. E, acostumado a ter o controle de tudo, arremata: “<em>Com que autoridade?!</em>”. A história se desenrola ainda com a ajuda de outros três pecadores que também funcionam como vozes interiores de seu José. É através de um deles que se lança o incentivo a viver o desejo: “<strong><em>E com medo de se afogar, você vai deixar de tomar banho?</em></strong>”.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/amar03.jpg" width="306" align="right" border="0" height="200" />Em certo instante da conversa consigo mesmo, com alguém mais experiente ou com um qualquer a quem pede ajuda, José Hermílio lembra de quando sua filha passa na faculdade e se desculpa por isso, por ir “morar na cidade”. Esse parece ser o ponto em que o pescador começa a entender o processo que está vivendo. É também aí que, quem da plateia ainda não caiu na rede, se identifica. Quem não viveu um <strong>momento de dúvida e medo</strong> no qual aquilo que lhe parece certo, que parece ser o caminho para sua felicidade, talvez fosse melhor ser evitado para não gerar conflito entre os seus? É comum se desculpar por tentar cumprir seu destino, por querer o melhor para si, somente pelo medo da reação de terceiros. A resposta à culpa prévia que nos acostumamos a carregar também é dada na peça: “<strong><em>o mar só condena quem quer ser condenado</em></strong>”.</p>
<p align="justify">Apesar de densa, a história é mostrada de forma suave. Talvez o beijo dos personagens e o rápido e discreto nu de um dos pescadores incomodem aos mais pudicos, mas se isso acontece é porque a peça está cumprindo sua função e faz o espectador encarnar o personagem principal: E se eu sentisse um desejo assim? E se eu tivesse que me desnudar dessa forma?</p>
<p align="justify">As dúvidas existenciais, de seu José e de qualquer um de nós, continuam mesmo quando a história termina. “<em>Será que ele existiu mesmo ou foi coisa de minha cabeça? Será que a gente pode viver uma coisa que nunca existiu?</em>”. Os que têm coragem de amar aberto que respondam.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Todo a cambio de una ilusión</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Nov 2008 06:34:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[Noite de quinta, um grande evento gratuito acontecendo ali perto e a Casa da Ribeira estava lotada mesmo assim. Muita gente ficou de fora da estréia e por enquanto única apresentação aberta de pq nunca nos trataram com amor, peça &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/11/30/todo-a-cambio-de-una-ilusion/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/pqnunca1.jpg" border="0" /></p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Noite de quinta, um grande evento gratuito acontecendo ali perto e a Casa da Ribeira estava lotada mesmo assim. Muita gente ficou de fora da estréia e por enquanto única apresentação aberta de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ypaDE5FU5f0" target="_blank"><strong><em>pq nunca nos trataram com amor</em></strong></a>, peça do <strong>Grupo Beira de Teatro</strong>.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">O espetáculo acontece em dois ambientes. Começa em uma galeria, como uma exposição, para só depois se transferir para a sala onde as pessoas normalmente acreditam ser o local adequado para se mostrar uma peça teatral. O <strong>primeiro e agradável estranhamento</strong> acontece durante a primeira parte. Ou não. Parte do público deve ter visto esse momento como um extra ou um aquecimento, sem perceber que a peça já havia começado. Os atores estavam presentes, vestindo seus personagens, e a viagem sensorial, que geralmente se inicia com todos acomodados e com a luz apagada, já se fazia presente.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Quebra. Todos para a sala, procurando seus lugares, sentadinhos, conversas paralelas, aguardando a peça começar. Desculpe. Continuar. Atores no palco, acredita-se que “<em>agora vai</em>”. Não há uma narrativa convencional e aí vem o segundo e, para alguns, incômodo estranhamento. Para mim, o grupo estava marcando seu segundo ponto positivo. Acho ótimo sair da mesmice, da leitura fácil, do roteiro familiar, comum. Uma das funções da arte é provocar. Se o espectador – de teatro, cinema ou o que está em frente a um quadro – mostra-se passivo é sinal de que o artista não fez grande coisa. Se há uma reação, mesmo negativa, já é bom sinal.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/pqnunca2.jpg" align="right" height="302" width="208" />Enquanto via o processo obsessivo, de eterna repetição, apresentado pelos personagens, fiquei me perguntando quantos ali, na platéia, se reconheceriam. Quantos perceberiam o que a falta de amor, em qualquer instante de nossas vidas, nos leva a buscar repetir as experiências e tentar acertar aquilo que erroamos nas vezes anteriores. Como ficamos dando voltas, reproduzindo, ecoando padrões dos quais não conseguimos nos livrar, mesmo quando acreditamos ter tomado outras direções.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">De repente, a peça acaba. E esse “de repente” me pareceu bem de repente mesmo. Algo assim como um coito interrompido. Pelo outro e não por você mesmo. Sem aviso. Há uma sensação de ter ficado na mão. Acabou mesmo? É para bater palmas? Continua em um terceiro local? Nas conversas imediatamente após o encerramento, entre amigos, havia uma concordância: <strong>é preciso assistir outra vez</strong>. E acredito que este seja outro ponto positivo. Quando não se gosta de algo, não se pretende repetir a experiência. Ou será que caímos em uma armadilha preparada pelos atores e entraremos em um processo de repetição tentando acertar algo que perdemos, que não percebemos, que não entendemos direito?</p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><em>pq nunca nos trataram com amor</em> me fez lembrar outras peças. Uma foi <em><strong>A escola de bufões</strong></em>, de Moacyr Góes, que assisti em 1990, no Teatro Villa-Lobos, no Rio. A platéia precisava se acomodar em uma espécie de arquibancada que contornava a frente e as laterais de um palco pequeno. Era desconfortável para o público. E não só a forma de se sentar. Algumas pessoas deixavam a sala em cenas como a que um dos bufões se coça demoradamente entre as nádegas (para não provocar outros constrangimentos aos leitores mais pudicos) e depois leva o dedo ao nariz. Com o decorrer da peça, cada um, na platéia, procura encontrar uma posição melhor. Comecei a olhar e pensei: “<em>estamos agindo como as figuras grotescas que estão no palco</em>”. Logo a luz é jogada na platéia, que se percebe transformada em máscaras ridículas empilhadas em uma estante. Fazíamos parte do espetáculo desde o início, assim como em <em>pq nunca nos trataram com amor</em>. As lembranças de infância dos personagens, apresentadas na primeira parte, são também as nossas. As frustrações, obsessões, repetições e buscas incessantes por sermos amados também.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Lembrei ainda de <em><strong>O enigma Blavatsky</strong></em>, que vi em 2003, no Teatro João Caetano, <st1:personname productid="em São Paulo. Ao" w:st="on"><st1:personname productid="em São Paulo." w:st="on">em São Paulo.</st1:personname> Ao</st1:personname> final, o fundo do palco se abria e a personagem principal saía do teatro. Era uma visão fantástica, cinematográfica, ver aquele paradão se abrindo, a cidade ao fundo, o vento entrando e a personagem dando continuidade, na imaginação de cada um, ao que, na prática, terminava ali. Havia uma sensação de deslumbre e até a vontade de segui-la. Em <em>pq nunca nos trataram com amor</em>, quando uma das personagens sai do palco, não há esse efeito. Fica uma sensação de não saber para onde olhar e a falta de um ponto final que dê a certeza que a apresentação terminou ali. E tendo sido feita pela personagem que, na minha opinião, é a mais frágil e de menor destaque, não imprime uma força que atraia os olhares da platéia.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Foi a primeira apresentação e qualquer um que freqüente teatro sabe que mudanças virão. A peça é boa e pode ficar ótima. O talento e a atual experiência de alguns atores garantem isso. Creio que funcionaria melhor em outro ambiente que ajudasse a preservar a atenção do espectador. Este também não deve ser preservado de críticas. Deve abandonar a passividade ignara em casa, esperando na frente da tevê, e se envolver com a proposta artística. No caso de <em>pq nunca nos trataram com amor</em>, meu envolvimento começou desde a primeira vez em que ouvi o título da peça e a voz de Lilian passou a morar em minha cabeça. Interessante é que essa música – na verdade, uma versão – é de Lilian e foi lançada depois da separação da dupla que fazia com Leno, que é potiguar e poderia ser visto como referência. A composição original é de Manuel Alejandro. O espanhol, se não o compositor, o idioma, tem uma referência e uma função na peça. Mas isso já é viagem minha e detalhe além da conta. Paro por aqui. E você, se puder, assista a peça de coração aberto, sem lhe dar “<em>tão somente incompreensão</em>”. Vá “<em>como uma criança, cheia de esperança e feliz</em>”. E me chame.</p>

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		<title>Sant’Ana e Zé do Caixão</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Apr 2008 03:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Desenho]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/santana.jpg" align="right" border="0" height="280" width="208" />Fazia tempo que a minguada seção de <em>Teatro potiguar</em> em minhas estantes – perdida ali entre <em>Autores potiguares</em> – não via nada de novo. Pouco mais de dez anos, para ser preciso. A última aquisição havia sido <strong><em>Dramaturgia da Cidade dos Reis Magos</em></strong>, de <strong>Sônia Maria de Oliveira Othon</strong>. Antes disso, <em><strong>À luz da lua os punhais</strong></em>, peça de <strong>Racine Santos</strong>, que acompanhei e fotografei, com texto publicado em 1992. E acabou aí a seção de <em>Teatro potiguar</em>. Não menti quando disse que era minguada. Mas não é culpa exclusivamente minha. Publica-se muito pouco a respeito.</p>
<p align="justify">Acabo de receber <strong><em>Terra de Sant’Ana</em></strong>, da atriz e dramaturga <strong>Cláudia Magalhães</strong>. Plaquete editada com cuidado e muito bom gosto, é o primeiro título da <strong><em>Coleção Teatro Potiguar</em></strong>, da <strong>Editora Mekong</strong>. Acaba de ser lançada, sem alarde, e já pode ser encontrada nas principais livrarias de Natal ou pedida pelos e-mails <a href="mailto:claudia.magalhaes1@hotmail.com">da autora</a> ou <a href="mailto:cefascarvalho@bol.com.br">do editor</a>, <strong>Cefas Carvalho</strong>.</p>
<p align="justify">Aliás, junto com a plaquete vieram dois folhetos de cordel assinados por Cefas: <strong><em>A decadência da TV brasileira e esse tal de “Bigue Bróder”</em></strong> e <em><strong>A triste história de Romeu e Julieta no Nordeste</strong></em>. Cefas Carvalho é jornalista, escritor, poeta, editor e tudo mais que se possa fazer juntando palavras e papel. No mundo eletrônico, publica o <em><strong>Texto da Segunda</strong></em>, reunião de textos seus e de outros, enviado leitores famintos. Quando lembra, publica algo também em <a href="http://www.cefascarvalho.blogspot.com" target="_blank">seu blog</a>.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/zecaixao.jpg" align="left" border="0" height="267" width="208" />Há quanto tempo conheço esse espírito irrequieto e indomável, já nem sei. Umas boas duas décadas. Estamos nos devendo uma cervejada cultural. Oportunidades, para breve, há aos montes. Em maio, Cefas lança um livro de contos, em Natal. No final do mês, <strong>em </strong><strong>São Paulo</strong>, há o lançamento da antologia <em><strong>Entrelinhas</strong></em>, da Andross Editora, recheada de contos e microcontos, dois deles especialíssimos, <strong>um de Cefas e outro meu</strong>. Para junho, dependendo das conversa etílicas, talvez role <strong>um mini-lançamento</strong> do <em>Entrelinhas</em>, “<em>para poucos e bons</em>”, <strong>em Natal</strong>. Aviso por aqui.</p>
<p align="justify">Da avó de Jesus e mãe de Maria, passando por um filho de padre excomungado (sim, Cefas!), chegamos àquele que à meia-noite encarnará no seu cadáver. <strong>Zé do Caixão</strong>, pasmem, está lançando um livro para crianças. <em><strong>O livro horripilante de Zé do Caixão</strong></em> reúne contos de terror feitos para a petizada. Depois de cada susto, uma lição sobre amizade, preconceito ou solidariedade.</p>
<p align="justify">Agora repare na capa. Mesmo pequena, dá pra perceber que não é qualquer coisa, não? As ilustrações do livro são do francês <a href="http://www.citronvache.com.br" target="_blank">Laurent Cardon</a>, artista e profissional de primeiríssima linha, que muito gentilmente autorizou o uso de uma obra sua aqui no blog. Logo logo, estará ilustrando um texto sobre leitura. Mesmo que você não goste do Zé do Caixão, nem de histórias de terror ou nem mesmo saiba português, pode comprar porque as ilustrações do Cardon já valem por tudo.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback.jpg" usemap="#Map" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Nietzsche e Will Smith</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jan 2008 03:05:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Texto de quinta]]></category>

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		<description><![CDATA[Fiz vestibular para Nostradamus e passei! Há um ano e meio, em texto para o finado Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba, intitulado Quando Nietzsche subiu aos palcos (aqui reproduzido em 19 de julho de 2006), falei sobre a &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/17/nietzsche-e-will-smith/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/lousalome.jpg" /></p>
<p align="justify">Fiz vestibular para Nostradamus e passei! Há um ano e meio, em texto para o finado <em><strong>Augusto</strong></em>, suplemento cultural do <em>Jornal da Paraíba</em>, intitulado <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/sajul06.htm"><strong><em>Quando Nietzsche subiu aos palcos</em></strong></a> (aqui reproduzido em 19 de julho de 2006), falei sobre a transformação em peça do livro <em><strong>Quando Nietzsche chorou</strong></em>. Sobre a versão cinematográfica, profetizei:</p>
<blockquote>
<p align="justify">Não se pode esperar muito, a começar pelo fato de se tratar de cinema americano, que não é famoso exatamente por produzir filmes para se pensar. Mas tenhamos esperança. Ou não, já que Nietzsche alerta que ela é “o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Suplício mesmo foi assistir ao filme. Para mim, ler um livro ou assistir a um filme é como fazer sexo: pode até não ser uma maravilha, mas já que está dentro, deixa. Começou, vá até o final. O máximo que pode acontecer é você gozar. Neste caso, gozar DO filme.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/nietwept.jpg" align="right" height="272" width="188" />O livro, todos sabem, foi (e é) um sucesso em vários países. A peça, até onde eu saiba, infelizmente foi levada somente em São Paulo (tive o prazer de assisti-la com <strong>Wilson</strong>; depois ainda conversamos um pouco com <strong>Nelson Baskerville</strong> e <a href="http://flog.digizap.com.br/sandrofortunato/56559" target="_blank"><strong>Cássio Scapin</strong></a>). O filme foi apresentado em um festival de cinema em Israel, em julho de 2007, e depois saiu direto em DVD (também no Brasil) sem passar pelas telas dos cinemas americanos. É um filme idiota até para o público Hommer! Vou precisar de terapia por anos para superar o trauma. Nietzsche choraria.</p>
<p align="justify">Armand Assante, que conhecemos de filmes de ação, faz um Nietzsche frágil, demasiado frágil. Cássio “Nino” Scapin, em toda sua fragilidade física e sem o famoso bigodão do filósofo, faz um Nietzsche em toda sua vontade de poder, o próprio <em>übermensch</em>. O Breuer do filme é um arremedo de parlapatão e palhaço de circo pobre. As cenas que representam seus sonhos ou a sugestão/ordem de Nieztsche em ver Bertha Pappenheim como uma demente são levadas ao extremo. Entra em cena a falta de sensibilidade para assuntos delicados e a caricatura grotesca, o humor grosseiro, do qual só americanos e adolescentes conseguem rir. E Bertha&#8230; pobre Bertha. Passemos para Lou. Lou&#8230; Pobre Lou! Uma mulher tão poderosa, tão influente, tão sensual, tão inteligente, transformada em uma Barbie. Nem quero compará-la com <strong>Ana Paula Arósio</strong>, que fez Lou Salomé na peça, numa participação em vídeo. Não há como comparar a peça e o filme. A peça é infinitamente superior.</p>
<p align="justify">Juro por Nietzsche e por toda fé que tenho nele que procurei algo de bom no filme. Provavelmente todos os envolvidos em sua realização estiveram drogados durante todo o tempo para conseguir fazer algo tão ridículo. Se ainda assim você quiser assistir, lembre-se que Nietzsche não tem nada a ver com aquilo e mantenha à mão uma cópia de <em><strong>Dias de Nietzsche em Turim</strong></em>, de <strong>Júlio Bressane</strong>, para ver em seguida e tirar a má impressão.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/abby.jpg" align="right" />Bobagem por bobagem, assista <strong><em>Eu sou a lenda</em></strong>, que está estreando nos cinemas brasileiros esta semana. Vale como entretenimento, que é o máximo que se deve esperar de um filme americano para se evitar decepções. É <em>legalzinho</em>. A história é <em>bacaninha</em>. E essas adjetivações é o que posso usar de mais pejorativo, imitando a pobre crítica que costumamos ter. Não vale pensar um filme que não faz pensar. Que mais pode ser dito? Tem o <strong>Will Smith</strong>, que é um cara legal. Tem a brasileira <strong>Alice Braga</strong> (a morena gatinha por quem Buscapé se apaixona em <em><strong>Cidade de Deus</strong></em>). Tem os (d)efeitos especiais da “zumbizada” que faz você esquecer os bons momentos do filme. E tem Sam (a pastora <strong>Abby</strong>), a melhor entre todos os atores de <em>Eu sou a lenda</em> e também a melhor parceira que Will Smith já teve desde <strong><em>MIB – Homens de Preto</em></strong>. Pode ir ao cinema do shopping, levar pipoca, falar ao celular e gritar. Se puder, pague meia.</p>

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