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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Série &#8211; Ouviu o galo cantar</title>
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		<title>Do Vietnã ao Maruim</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Feb 2009 21:57:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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		<category><![CDATA[Série - Ouviu o galo cantar]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/vietnam.jpg" height="253" width="374" /></p>
<p align="justify">Nem é preciso apresentar esta que é uma das imagens mais conhecidas da História e uma das fotos mais importantes já feitas. Mesmo sabendo do que se trata, procure fazer um simples exercício de leitura. Apenas <strong>olhe para ela e diga o que vê</strong>. Acho impossível que alguém imagine qualquer conotação sexual pelo fato de ter um ser humano nu aparecendo nela. Impossível, não. Uma mente doentia – muito doentia! – poderia ver isso.</p>
<p align="justify">O horror no rosto da menina de 9 anos, a situação de estar correndo nua e em desespero, com o corpo queimando, o pedido de ajuda, tudo isso captado em um instante. A foto da menina <strong>Phan Thi Kim Phuc</strong> feita por <strong>Nick Ut</strong>, em 8 de junho de 1972, logo após um bombardeio com napalm durante a Guerra do Vietnã, se transformou imediatamente em <strong>um ícone antiguerra</strong>. Contra aquela e contra todas.</p>
<p align="justify">Ainda que haja alguém que não conheça os detalhes da história desta foto, a leitura é imediata: guerra, horror, caos, desespero. Todos os elementos que aparecem na foto mostram isso: a fumaça ao longe, tomando todo o fundo, os soldados, as crianças chorando e correndo em busca de um local seguro.</p>
<p align="justify">Mas não é esta a imagem sobre a qual quero falar. A foto em questão é outra, feita por <a target="_blank" href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/"><strong>Canindé Soares</strong></a>, em 2005, na comunidade do Maruim, em Natal (RN). É esta, logo abaixo.</p>
<p align="center"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/caniped.jpg" height="282" width="423" /></p>
<p align="justify">Ela foi <a target="_blank" href="http://flog.digi.com.br/canindesoares/45072">colocada em seu fotolog</a> no dia 19 de novembro de 2005 sob o título “<em><strong>Fotografia pelo social</strong></em>” e convidava outros fotógrafos para uma visita ao Maruim <strong>com o objetivo de denunciar as condições subumanas em que as pessoas de lá vivem</strong>.</p>
<p align="justify">Assim como na foto de Nick Ut, a foto de Canindé mostra tudo o que é preciso para contar uma história inteira sem precisar de uma única palavra ou qualquer explicação. A grande semelhança entre as duas é o fato de haver uma menina nua correndo. Já o cenário e outros detalhes mostram que a guerra é outra. Nesta, feita por Canindé, é <strong>contra a fome, contra a total falta de oportunidades e as demais mazelas que advém da miséria</strong>.</p>
<p align="justify">É uma foto única, dessas que o fotógrafo não fez porque quis, mas sim porque estava no lugar certo, na hora certa e com a câmera na mão. Estava preparado quando a oportunidade surgiu. Fato é que <strong>a imagem da menina do Maruim também pode ser vista como ícone antimiséria</strong>. A criança sem roupa, descalça, correndo no meio do esgoto que passa na porta das casas da comunidade. Há ainda um componente fortíssimo, que pode sugerir outras comparações com a da garota vietnamita: enquanto esta aparece de frente, saindo da escuridão provocada pela fumaça das bombas e correndo em direção à claridade, para onde a estrada parece mais larga, oferecendo outras possibilidades, a menina do Maruim está de costas, indo para onde a viela se estreita e em direção a um beco onde se vê lixo e nada mais. <strong>O que acontecerá quando ela dobrar e sumir da viela? </strong>Isso mesmo. Ninguém sabe. Mas provavelmente é isso que realmente acontecerá: ela vai sumir, não vai ser ninguém, vai estar eternamente escondida em um local sujo, escuro, onde ser humano algum gostaria de ir.</p>
<p align="justify">Como já informado, a foto foi postada em um fotolog em novembro de 2005. Quase quatro meses depois, Canindé começou a ser <strong>ameaçado por alguém que julgou a publicação da foto como uma ação de pedofilia</strong>. As ameaças, claro, eram sempre anônimas. Qualquer pessoa séria, decente e convicta do que diz mostra a cara. Uma semana depois do início das ameaças, Canindé <a target="_blank" href="http://flog.digi.com.br/canindesoares/53086">republicou a foto</a> sob o título “<strong><em>Pedofilia!?</em></strong>” e deixou que o público fizesse seu julgamento. Fui um dos primeiros a comentar e, dentre outras coisas, disse que uma pessoa tem que ser muito doente para ver alguma maldade nesta foto, provavelmente deveria ser mesmo ou poderia ser alguém que sofreu abusos durante a infância e, não conseguindo superar esse trauma e tendo seu algoz como referência, acha que o mundo inteiro é assim.</p>
<p align="justify">A discussão gerou <strong>quase 60 mil visitas</strong> e cerca de duzentos comentários, quase todos chocados com a possibilidade de alguém ver a foto como um ato ou incitação à pedofilia. Porém, no meio do bombardeio, apareceram outros do gênero “<em>ouviu o galo cantar, mas não sabe onde</em>” e já começaram a dizer que “<em>é isso mesmo</em>” e a agredir o fotógrafo. Tudo, claro, sob o manto do anonimato, residência preferida dos covardes.</p>
<p align="justify">Que exista gente doente e capaz de ter pensamentos tão deturpados, eu admito. O que não entendo é como alguém que toma para si a nobre função de defensor-proprietário da moral não enxergue o óbvio, como, no caso desta foto, <strong>as péssimas condições de vida de milhões de pessoas</strong> representada pela menina do Maruim. <strong>Para mim, não existe nada mais obsceno, nada mais atentatório ao pudor do que isso.</strong></p>
<p><center><img useMap="#Map3" border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" height="25" /></center><br />
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		<title>Tudo é uma questão de ponto de vista</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Feb 2009 08:31:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Série - Ouviu o galo cantar]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/casas.jpg" width="600" border="0" height="335" /></p>
<p align="justify">Admito: costumo nadar contra a maré. Sonho com meu nome em robustas lombadas e amo coisas antiquadas e pouco apreciadas como ler e escrever. Confesso também não ser dado a polêmicas, pois as considero um desperdício de energia, exercício dos curtos de intelecto e vagabundos que procuram algo ou alguém para fazer de escada.</p>
<p align="justify">Não há quem não tenha percebido que <strong>estamos no tempo do não-tempo</strong>. Quase ninguém tem tempo para nada. Eu, digo sempre, tenho tempo para tudo. Ninguém rouba o tempo que me foi dado e, todo dia ao acordar, tenho o mesmo tempo que todo mundo. Talvez um pouco mais porque durmo pouco. Como cada um utiliza o seu é que são elas.</p>
<p align="justify">Essa “falta de tempo” faz com que as pessoas deem uma olhada nos <em>blogs</em>, nas notícias, em qualquer coisa, mas não <strong>LEIAM</strong>. É tudo muito rápido. Um passar de vista. <strong>Estamos no tempo do ver</strong>. Nos lugares mais pobres, pode faltar água; televisor, nunca. Pode faltar comida, mas não uma câmera digital, um celular que fotografe. A fotografia, que era arte ou hobby caro, é hoje algo extremamente popular. É o tempo do ver.</p>
<p align="justify"><strong>E nessa agonia de ver, não vemos.</strong> Ficamos anestesiados em relação à realidade. Nos <em>shows </em>musicais, no teatro, frente a qualquer expressão artística, deixamos de apreciar o real para fotografar ou filmar e “ver depois”, em péssima qualidade, de mentira, o que já não se pode viver, na tela do computador. São <strong>registros de uma lembrança que não temos</strong>. Registros de que se passou por lá, mas não de algo que se viveu verdadeiramente.</p>
<p align="justify">Eu, que já fiz parte de um seletíssimo grupo de pessoas portadoras de uma câmera que podiam registrar um determinado evento para a posteridade, hoje me sinto profundamente incomodado em sacar uma câmera de bolso com o objetivo de fazer um simples registro para ilustrar, digamos, um texto aqui no <em>blog</em>. Dia desses, em uma apresentação teatral de um grupo popular, em Natal, me senti como se estivesse no tapete vermelho do Kodak Theatre durante as duas horas que antecedem o início da cerimônia de entrega do Oscar. Um batalhão de fotógrafos – amadores, na maioria – espocando <em>flashes </em>durante toda a peça. Registros aos montes, mas não pergunte de quê, porque será preciso conferir nas fotos para saber o que realmente aconteceu.</p>
<p align="justify"><strong>Ler é coisa para antigos, saudosistas e malucos. </strong>Mas ver é a primeira forma de leitura e já temos toda uma geração que não sabe interpretar isso, ou seja, <strong>não lê, não vê e, claro, não entende</strong>. Mas aí vem o pior: adora opinar sobre qualquer coisa. Costumo chamá-la de “<strong>A geração que ouve o galo cantar</strong>”. Para os que não entenderam, trata-se de uma referência à expressão “<em>ouviu o galo cantar, só não sabe onde</em>”, usada quando uma pessoa ouve algo e já se mete a reproduzir, aumentar, distorcer, sem nem saber de onde veio a informação e o que realmente dizia.</p>
<p align="justify">Este já longo texto, que certamente já fez alguns “sem tempo” desistirem da leitura, é apenas para fazer a introdução a <strong>uma série na qual pretendo comentar algumas fotos</strong>, minhas e de amigos, que, colocadas na Internet, foram mal interpretadas e geraram calorosas discussões (sem que fosse necessária alguma!), totalmente absurdas e sem qualquer relação com o objetivo do fotógrafo ao mostrá-las. Nelas, veremos como a pressa, o despreparo, a incapacidade de interpretação e o desespero em mostrar que “sua opinião é a que está certa” conseguem causar pequenas guerras. De resto, cada um tire sua própria conclusão (pode comentar sem medo) e imagine o que será o mundo quando essa geração estiver no comando dele. Vamos à primeira.</p>
<p align="center"><strong>O outro lado de Pitty</strong></p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/pitty.jpg" width="420" border="0" height="680" /></p>
<p align="justify">Esta foto foi postada em meu antigo flog na <strong><a href="http://www.digi.com.br" target="_blank">Diginet</a></strong> em <strong>6 de maio de 2006</strong>. Foi feita por <a href="http://www.flickr.com/photos/jonatasoliveira" target="_blank"><strong>Jonatas Oliveira</strong></a>, que dava seus primeiros passos na fotografia. Ainda tímido para mostrar certos resultados, não quis colocar a foto em seu próprio flog. Eu vi e pedi para publicar no meu. Mostra <strong>Pitty</strong>, a cantora, agachada, nos bastidores do Mada, festival de música que acontece há mais de uma década em Natal. O flagrante mostra um respeitoso quase cofrinho. Absolutamente nada demais, chocante ou absurdo. Mas é um lado, por assim dizer, que o público não está acostumado a ver. Outro detalhe é o cigarro. Fume quem quiser (de preferência, longe de mim), beba, se pique, faça o diabo. Ninguém tem nada com isso. Mas por questões de preservar a própria imagem, cigarros, copos de bebiba e afins costumam ficar longe das câmeras.</p>
<p align="justify">Pois bem. A intenção era só mostrar a musa pagando uma discreta calcinha e que Jonatas estava esperto enquanto fotografava os bastidores do festival. Expliquei isso no pequeno texto que fez as vezes de legenda e ainda me coloquei como admirador de Pitty, dizendo que ela poderia estar na seção <strong><em>Mulheres que amamos</em></strong>, da revista <em>Playboy</em>. Para quem não sabe, uma seção que geralmente mostra mulheres admiradas e desejadas que nunca fizeram e provavelmente nunca fariam um ensaio de nu fotográfico. Ok. Eu mesmo inaugurei os comentários dizendo que achava broxante ela fumar. Fiz questão de colocar isso nos comentários – e não na legenda – para deixar bem claro que <strong>se tratava de uma opinião pessoal</strong>. Para mim, <em>qualquer </em>mulher fumando é broxante.</p>
<p align="justify">Como disse, a foto foi colocada em maio de 2006 e eu fui utilizando o flog como de costume, atualizando quase diariamente. Naquela época, cada foto nele tinha <strong>algo entre 250 e mil visitações</strong>, chamando mais ou menos atenção dependendo do tema, do tempo que passava como sendo a mais recente, se tinha ou não destaque na página principal do flog. Com a foto de Pitty não foi muito diferente. Ficou ali pelas mil e poucas visitas. Mas o tempo foi passando e, <strong>no finalzinho de 2006</strong>, perdida entre outras centenas do flog (pelo menos para mim), começou a ser visitada intensamente. Até meados de 2008, quando o flog ainda era mantido, <strong>a foto recebeu mais de 150 mil visitas</strong>. Eu digitei certo e você também leu certo: mais de cento e cinquenta mil visitas (152.162, para ser preciso). <strong>E uns duzentos comentários </strong>(que lindo seria ter vinte em um texto aqui no blog!). Principalmente baixaria e discussão estúpida sobre se “<em>a calcinha está aparecendo e daí?</em>”, “<em>se ela fuma o problema é dela, eu pegava de qualquer jeito</em>” e isso é só o que me permito reproduzir. Quem tiver muito tempo livre e a perder, <a href="http://flog.digi.com.br/sandrofortunato/55532" target="_blank">pode conferir</a> toda a estupidez escrita no mais castiço miguxês.</p>
<p align="justify">Um ótimo e <strong>triste exemplo da forma débil com a qual os adolescentes costumam se expressar</strong>, sem se dar o trabalho de pensar um pouco antes de vomitar qualquer bobagem, geralmente cheia de raiva, o que revela muitas outras coisas além do que já foi dito. <strong>Vazio existencial e falta de educação</strong> são algumas delas. Mas não são atributos somente deles, como veremos em outras fotos que comentarei nos <em>posts</em> seguintes.</p>
<p align="justify">E já que você heroicamente chegou até aqui, aproveite para deixar um comentário e saiba que, sem medo de policiamento ou crucificação, acredito que Pitty será a única boa lembrança quando, no futuro, falarem sobre o rock brasileiro da primeira década deste século. É tudo questão de ponto de vista. E de gosto.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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