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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Memória</title>
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		<title>Retrato do Grão-Mestre Varonil</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 15:14:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Tá lá a foto do Tim estendida no Facebook! De cuecas e camisa rasgada, pouco se lixando para a câmera de Luciana Whitaker. Aliás, ele estava achando sua mãozinha clicadora – e provavelmente ela inteira – gostosa e fez questão &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2012/01/29/retrato-do-grao-mestre-varonil/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2012/01/29/retrato-do-grao-mestre-varonil/&amp;text=Retrato do Grão-Mestre Varonil&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2012/01/timcens.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1169" title="" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2012/01/timcens.jpg" alt="" width="600" height="405" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tá lá a foto do Tim estendida no Facebook! De cuecas e camisa rasgada, pouco se lixando para a câmera de <strong><a href="http://www.lucianawhitaker.com" target="_blank">Luciana Whitaker</a></strong>. Aliás, ele estava achando sua mãozinha clicadora – e provavelmente ela inteira – gostosa e fez questão de deixar isso claro. Esse era o Tim.</p>
<p style="text-align: justify;">Luciana postou a foto em <a href="http://www.facebook.com/lucianawhitaker" target="_blank">seu perfil no Facebook</a> na sexta, 27 de janeiro, acompanhada do seguinte texto:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em>Editando fotos hoje, encontrei essa foto nunca publicada. Tim Maia tinha hora marcada para receber a Folha de S. paulo. Cheguei lá, no apart hotel da Barra, ele estava de camiseta rasgada e&#8230; cueca! Com o rádio muito alto, não conseguia escutar as perguntas do repórter (acho que era o Marcelo Migliaccio) e pediu para eu desligar o som. Olhou minha mão em seu aparelho de som e disse: &#8220;Hum, que mãozinha gostosa&#8230;!&#8221; Fiquei braba e acabei fazendo a foto dele de cueca mesmo.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Na noite de sábado, quase mil pessoas já haviam compartilhado a postagem, inclusive eu, pelo <a href="http://www.facebook.com/memoriaviva" target="_blank">perfil do Memória Viva</a>. No domingo pela manhã, encontrei comentários que achavam a imagem “degradante” e diziam que “faltou ética” ao publicá-la. Segue reprodução do meu comentário, junto à postagem, após de ter lido isso:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">A leitura que se faz das coisas – de um texto, de uma foto, de um quadro, um filme, uma música&#8230; – varia imensamente de pessoa para pessoa. A cultura de cada um (aquilo que a pessoa aprendeu, juntou e reuniu como seus valores) vai fazer com que ela enxergue algo de uma forma completamente diferente de outros. Sou fascinado pela obra de Goya, mas tem quem a ache grotesca, bizarra, assustadora. E tem quem não se sinta fascinado ou incomodado. Sou jornalista e fotógrafo há mais de 20 anos, tendo trabalhado a maior parte do tempo na área cultural. Sou fã do TIM MAIA. Na minha opinião (no meu gosto pessoal), jamais houve melhor cantor na história da música brasileira. Nessa foto, só consigo ver o retrato fiel do porra-louca que ele sempre foi e do qual que se orgulhava muito de ser. Grande cantor, grande artista, grande beberrão, mulherengo e safado. Em resumo: UM SER HUMANO. Cheio de potencialidades, de boas e más qualidades, de defeitos e contradições. Assustar-se ou achar degradante essa foto é não entender que ELE ERA ASSIM. Não se importava com aparências, com o que pensavam dele, com convenções sociais. <em>UM</em> Tim Maia que, ao receber jornalistas, estivesse de banho tomado, perfume, roupinha passada, falasse e se comportasse como um acadêmico querendo posar de membro da elite não seria <em>O</em> Tim Maia. Seria uma farsa! Essa foto me fez lembrar um comentário de Marcelo Nova, último grande companheiro de palco e de farra de Raul Seixas. Quando Raul morreu e começaram a derramar um mar de elogios, Marcelo se indignou e falou que logo estariam dizendo que ele era santo. Isto seria um insulto! Olho para essa foto e vejo um Tim Maia lindo, verdadeiro, sincero e escroto do jeito que ele era. Ele, que não era nenhum incapaz ou um retardado mental que não soubesse o que estava fazendo, riria muito de vê-la estampada na <em>Folha de S. Paulo</em>. Mas quem teria a coragem dele para fazer isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Em bom e claro português: a foto é do caralho! Nem dá para imaginar o impacto que teria se estampada na <em>Folha de S. Paulo</em> dos anos 90 (ela não diz quando foi feita, mas creio que tenha sido naquela época). Mas o impacto veio quase década e meia depois da morte de Tim e pelo Facebook. A meu ver, um impacto positivo. É a cara do Tim, sem talquinho ou água de colônia. Mais que histórica, a foto é honesta!</p>
<p style="text-align: justify;">Lembrei algumas situações pelas quais passei e as exponho aqui para acrescentar dados à discussão e desenvolver o tema sobre “momentos e escolhas no fotojornalismo” e não sobre “ética” porque não vejo motivo para isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando fotografo para ilustrar matérias, quase invariavelmente o faço para as minhas. Isto é, estou lá para entrevistar/apurar E TAMBÉM para fotografar. No caso, a fotografia é produzida como complemento do meu trabalho principal, que é escrever. Acontece que, sendo assim, as fotos têm pouco de jornalismo, pois serão feitas separadamente, em outro momento, e provavelmente serão posadas, dispensando muito da naturalidade que poderia ser registrada quando o entrevistado estivesse mais preocupado em falar e demonstrando suas emoções. No entanto, em mais de vinte anos, tive algumas oportunidades de estar só fotografando ou de poder dar mais atenção a isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das vezes foi em um carnaval, no início dos anos 90, que passei na praia de Pirangi, no Rio Grande do Norte. No mesmo hotel, estavam vários conhecidos atores de televisão e um casal, da mesma idade que eu, que começava a aparecer e chamava já chamava bastante atenção: <strong>Selton Mello</strong> e <strong>Danielle Winits</strong>. Era um tempo em que fotógrafo era fotógrafo e não qualquer pessoa com uma câmera, como hoje. E eu era o único que também estava hospedado no hotel e tinha acesso direto aos convidados globais durante todo o dia, incluindo passeios turísticos e outros momentos de lazer. Selton e Danielle eram namorados. Tínhamos todos 19 ou 20 anos. Danielle, linda, era uma jovem normal. Simpática, curiosa, conversava com todo mundo. Selton era mais reservado (ou antipático, se preferir), sempre de óculos escuros, nunca olhava diretamente para as pessoas e só falava baixo e enrolado com aquela voz que todo mundo sabe imitar. Já era cheio de pose. Mas não dá para ser muito posudo quando se se é gordinho, branquelo e está só de sunga. Menos ainda se você vive da sua imagem e namora uma garota de corpo perfeito. Imagine o contraste! Pensando agora, acho que ele estava bem incomodado com minha câmera. Mas qual era meu interesse em fotografar aquele cara quando a Danielle Winits, 19 aninhos, estava de biquíni bem na minha frente? Nenhum. Se fosse hoje, sairia no Ego: <em>Selton deixa gordurinhas à mostra durante o carnaval</em>. Mas eu não sou tão mau assim (talvez seja) e a foto que lembro bem e gostei de ter feito foi dos dois, abraçados, no meio das dunas de Genipabu. Uma foto linda, aberta, em um cenário paradisíaco, de um jovem casal que começava a carreira na tevê. “<em>Uma foto para Caras</em>”, pensei na hora. Não enviei, nem jamais publiquei. Mas um detalhe, que provavelmente passaria despercebido à maioria, ficou na minha cabeça. Danielle estava de costas para mim, entregue, curtindo o namorado, como qualquer adolescente. Selton, apesar do rosto colado ao dela, olhava em minha direção. Ele sabia que eu estava fotografando e estava, por assim dizer, participando daquela encenação. Qualquer um que trabalhe com a própria imagem sabe bem o que faz quando tem um fotógrafo por perto. Não há inocentes ou malfeitores numa situação dessas. Há um acordo silencioso e óbvio. Um está ali para aparecer; outro, para fazer aparecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2012/01/anselmo.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1163" title="" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2012/01/anselmo.jpg" alt="" width="230" height="307" /></a>Outra situação aconteceu em 2004. Fui a Salto (SP), com um pequeno grupo, para entrevistar <strong><a href="http://www.memoriaviva.net.br/siteantigo/anselmo.htm" target="_blank">Anselmo Duarte</a></strong> em seu apartamento. Ele abriu a porta muito à vontade para receber aqueles estranhos e, quando viu a câmera, pediu para fazer a barba. Era uma barba de um ou dois dias. Nada assustador. Eu já havia feito pelo menos uma foto, mas ele demonstrou a vontade de se apresentar de outra forma e só as fotos pós-barba foram publicadas. Como eu poderia dizer não ao maior galã da história do cinema brasileiro? Como eu poderia dizer não ao único brasileiro ganhador da Palma de Ouro? Como eu poderia dizer não àquele senhor de 84 anos e ainda vaidoso? Meu instinto agiu com a velocidade de sempre e registrou o senhor que estava em sua casa, despreocupado com a estampa, roupa amassada, barba por fazer, como qualquer pessoa normal. Mas Anselmo Duarte era o bonitão, bem cuidado e cheio de expressões. Essa era a imagem que ele sempre mostrou. Existe outra, outro lado, comum (diria até desinteressante), que registrei, mas&#8230; o que ela diz? Nada de especial. “<em>Você não vai me pedir para fazer uma foto segurando a Palma de Ouro, vai? Jornalista não tem imaginação. Já fiz dezenas de fotos iguais a essa.</em>” Fazer, eu fiz. Até porque a Palma estava quebrada (um apresentador de tevê deu um tombo nela!) e eu nunca vi uma foto dele com o troféu naquelas condições! Depois do puxão de orelha, não publiquei a foto aparentemente tão comum e repetida, mas eu sabia que aquele detalhe fazia a diferença. O registro foi feito. Quando e como usar é uma escolha somente minha.</p>
<p style="text-align: justify;">Reportagens feitas nas casas dos entrevistados costumam gerar momentos extremamente peculiares, como da vez em que eu aguardava uma famosa atleta sair do banho para fazer uma matéria. Ela não foi avisada da minha chegada e, de repente, aparece totalmente nua e dá de cara comigo. Ela grita e corre para o quarto. Eu, entre constrangido e agradecido aos céus, tento fingir que nada aconteceu. Não, dessa vez, não fotografei.</p>
<p style="text-align: justify;">Imagem é algo poderoso. Duvido alguém citar algo que Itamar Franco tenha feito quando presidente, mas da foto dele, no carnaval de 1994, ao lado de Lilian Ramos sem calcinha, todo mundo lembra. Para mim, a foto de Tim Maia feita por Luciana Whitaker é daquelas icônicas, fiéis, que escancaram a personalidade e a alma da figura fotografada. Não tem nada de “assustador”, “degradante” ou “antiético” como vi em alguns comentários. Eu diria que existe, sim, hipocrisia, falta de senso crítico e de sensibilidade para entender o que ela realmente representa. Além de tudo isso, essa indignação parece algo de uma sociedade muito preocupada com a aparência e que desaprendeu a perceber a essência dos seres. Há uma identificação provocada pelo medo de se ver daquele jeito, como se a roupa fosse a pessoa ou representasse sua dignidade. “Eu não gostaria de ser mostrado assim!” Ninguém precisa ter esse medo. Ninguém é o Tim Maia, não tem seu talento, sua fama, nem sua incrível personalidade, que dispensava roupas novas e alinhadas. E Tim Maia não era um santo ou um deus para ser esculpido, idealizado e idolatrado como tal. Era humano – como tal, cheio de talentos e defeitos –, desses de dar orgulho à espécie. E sua humanidade nunca havia sido tão bem retratada.</p>

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		<title>Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 22:34:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de Carlos Estevão. Para as mulheres solteiras e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/12/21/dr-macarra-o-padroeiro-das-redes-sociais/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01.jpg"><img class="size-full wp-image-1125 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; border-image: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01.jpg" alt="" width="600" height="276" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/carlosestevao" target="_blank">Carlos Estevão</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para as mulheres solteiras e carentes com mais de 30, ele se apresentava como Doutor Zilá Camboim, às vezes engenheiro, outras militar, sempre elegantemente trajado, muito educado e solícito. Na verdade, tinha apenas o primário, era casado (mas vivia separado da esposa) e era velho conhecido da polícia, que o chamava de Doutor Macarrão. Passou quase 20 anos ludibriando mulheres para lhes roubar dinheiro e joias. Vivia disso. Este era o seu ofício.</p>
<p style="text-align: justify;">No papel, o Dr. Macarra não era alguém de quem se pudesse ter raiva ou querer prender. Era um pobre coitado já tão castigado pela vida que, para os leitores (ou “vedores”, como dizia Carlos Estevão), só restava rir da sua desgraça e das tentativas de se passar por um homem de respeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01_capa.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1126" title="" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01_capa.jpg" alt="" width="230" height="332" /></a>A revista com seu nome durou apenas nove edições, de abril a dezembro de 1962, mas ele só aparece na capa da primeira. Além das histórias do personagem-título, há também as Novas Aventuras de Sharleck Halmes (apresentadas por Sir Charles Stevens), além de séries e charges com os temas de costume. Tudo roteirizado, desenhado e finalizado por Estevão.</p>
<p style="text-align: justify;">Dr. Macarra foi um herói da Força Expedicionária Brasileira, <a href="http://www.facebook.com/media/set/?set=a.136735409722092.26590.100001569022672&amp;l=9a86acecd5" target="_blank">esteve em Cuba</a> e na selva africana, foi astro do cinema, membro da Academia Brasileira de Letras, artista de múltiplos talentos, um grande político e circulou por Paris. Tudo em sua imaginação e nas histórias que contava para alguma figura feminina. A realidade, sempre mostrada no quadro seguinte, era bem diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Era um personagem mais humano e muito mais rico que o Amigo da Onça. E talvez este tenha sido também o causador de sua morte precoce. Você não conhece um Dr. Macarra? Você não já deu uma de Dr. Macarra? Abra agora o Twitter ou o Facebook e veja quanta gente inteligente, bem-sucedida, rica, frequentadora das melhores festas, amigas de celebridades, que tem tudo que o dinheiro pode comprar e que viaja pelo mundo todo. Você acredita mesmo que todas as pessoas que conhece vivem do jeito que demonstram? Você pode até conhecer um ou dois amigos da onça, mas Dr. Macarra, garanto, você conhece um monte.</p>
<p style="text-align: justify;"><small>* Texto originalmente publicado na edição 371, de outubro de 2011, do <em>Jornal da ABI</em>, como box da matéria <em><a href="http://www.readoz.com/publication/read?i=1043787#page30" target="_blank">Carlos Estevão 90 anos &#8211; Ele só queria ser criança</a></em>)</small></p>

<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/12/21/dr-macarra-o-padroeiro-das-redes-sociais/&amp;text=Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
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		<title>Conversa rápida&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Nov 2011 00:54:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Desenho]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Televisão]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou traindo o blog com outros escritos. Pronto, confessei. Mas não estou traindo os cinco ou seis leitores que ainda vêm aqui. Ninguém está lendo o que ando escrevendo. É tudo coisa para 2012. Não sei para quando é o &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/11/12/conversa-rapida/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/11/12/conversa-rapida/&amp;text=Conversa rápida&#8230;&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estou traindo o blog com outros escritos. Pronto, confessei. Mas não estou traindo os cinco ou seis leitores que ainda vêm aqui. Ninguém está lendo o que ando escrevendo. É tudo coisa para 2012. Não sei para quando é o parto, mas a barriga está enorme e quase já sinto as contrações. Parece que serão trigêmeos. Talvez, quadrigêmeos. Enquanto isso, vamos jogar conversa fora&#8230;</p>
<h2 style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><strong>Carlos Estevão no Jornal da ABI</strong></span></h2>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.readoz.com/publication/read?i=1043787#page30" target="_blank"><img class="size-full wp-image-1088 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/01carlos.jpg" alt="" width="470" height="315" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Para diminuir o peso em minha consciência, aí está algo que andei escrevendo. São seis páginas sobre <strong><a href="http://www.memoriaviva.com.br/carlosestevao" target="_blank">Carlos Estevão</a></strong> na edição de novembro do <strong><em>Jornal da ABI</em></strong> (Associação Brasileira de Imprensa). Considerem como um aperitivo para a biografia que, prometo (com riscos) terminar em 2012. É só <strong><a href="http://www.readoz.com/publication/read?i=1043787#page30" target="_blank">clicar aqui</a></strong> ou na imagem acima e ter acesso às páginas.</p>
<p style="text-align: justify;">Na <strong><em>Revista de História</em></strong> de novembro tem mais Carlos Estevão. Ainda não vi (maldita distribuição setorizada!), mas <strong><a href="www.revistadehistoria.com.br/secao/em-dia/humor-com-personalidade" target="_blank">o texto está no site da revista</a></strong>.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<h2 style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/02balada.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1089" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 10px; margin-right: 6px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/02balada.jpg" alt="" width="200" height="285" /></a><span style="color: #000000;"><strong> Balada Triste de Trompeta</strong></span></h2>
<p style="text-align: justify;">Estou em uma fase espanhola. Não, não é bem isso que você pensou. Verdade que gosto de uns <em>pechos</em> tamanho G ou GG, preferencialmente naturais de fábrica, mas estou falando de cinema. Nos últimos meses, além de ver/rever oito filmes de Almodóvar; de corrigir uma gravíssima falha de dez anos, vendo <em>Lúcia y el Sexo</em> (2001); de ficar paralisado/apaixonado com a atuação de Laia Marull em<em> Te doy mis ojos</em> (2003); neste sábado foi a vez de ficar bestificado com <em>Balada Triste de Trompeta</em> (aqui, <em>Balada do Amor e do Ódio</em>, 2010).</p>
<p style="text-align: justify;">É tão bom em tudo, que sugiro até aos que foram criados com o pensamento engessado do cinema americano. É tão bom, que eu nem vou dizer que é preciso prestar atenção na analogia com a história política da Espanha, que também serve como pano de fundo à história de amor e ódio dos palhaços Triste e Tonto. Pode ver só como entretenimento, mas lembre-se de respirar. É moderno, violento e, muitas vezes, grotesco. Ao final, dá vontade de comentar: “<em>Viu como se faz, Tarantino?</em>” Fiz questão de NÃO colocar um <em>trailer</em> aqui. Acho até que o pôster ao lado já fala muito. Não procure saber mais nada. Apenas assista. Tão virgem quanto possível.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong><strong> </strong><span style="color: #000000;">Sweet Charity</span></strong></h2>
<p style="text-align: center;"><iframe width="420" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/UseIME8v2Ts" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">E por falar em palhaços, vou acabar vendo o filme do boçal do Selton Melloso. Este ano, já me rendi a <em>Nine</em> (após um ano e meio de relutância) e <em>Sweet Charity</em> (após 42 anos, portanto mais que minha vida toda, de resistência). Rápida explicação. <em>Nine</em> é uma (vá lá!) homenagem a <strong>Fellini</strong>. <em>Sweet Charity</em> é a versão americana de <em>Noites de Cabíria</em>. Ou a aversão, como prefiro. Daí vem um mané, que tem como maior talento imitar a si mesmo, faz um filme sobre palhaços e diz que é homenagem a quem? A quem? Ao deus Fellini. Pois é. Eu, devoto escaldado, me armo logo para uma guerra santa.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia, bem zen (zen raiva, zen bile pulando boc’afora), escreverei detalhadamente minhas impressões a respeito de <em>Nine</em> e <em>Sweet Charity</em>. Deste último, digo que quase tudo que vale a pena ver é essa parte no vídeo acima. Pode ver sem medo. É só dança e não compromete em nada a história. Tem ainda uma parte com Sammy Davis Jr. e outra, quase ao final, com Shirley Maclaine que também são legais. Admito: os americanos são muito bons com musicais e são ótimos em dançar. E Bob Fosse era o cara para pegar isso e levar para o cinema. Estão vendo como, às vezes, sei ser bonzinho com a debilidade mental americana?</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<h2 style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Séries, séries, séries&#8230;</span></h2>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/03series.jpg"><img class="size-full wp-image-1096 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/03series.jpg" alt="" width="485" height="333" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Vou ser ainda mais bonzinho: os americanos são bons em fazer séries. Não contentes em aniquilar a cultura de metade do planeta pelo cinema, resolveram atacar dentro das casas de todo mundo, que é para não sobrar uma criatura que não repita suas gírias, suas siglas, seus gestos, suas manias. É, <em>brother</em>, você é americano e não sabe. Mas você acha isso <em>awesome</em>, né? <em>WTF</em>, Sandro! <em>Relax, man</em>. Ria um pouco. Ou muito&#8230; <em>LOL</em>.<em> Ok. Hi Five</em>. Nóis é <em>BFF</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tá, eu me rendo às séries. Continuo vendo <em>Nikita</em> (porque curto japa, principalmente se for japa gostosa&#8230; e ela nem é japa!), <em>Supernatural</em> (podem sacanear) e <em>House</em> (que começo a não botar muita fé que vá mesmo passar da atual temporada). Também estou vendo <em>Person of Interest</em>, apesar de não conseguir acreditar que Ben Linus possa ser um cara legal, que Jesus virou matador e que os dois estão de treta para salvar a vida de um monte de gente que eles nem conhecem. Para desligar o cérebro totalmente, tenho visto<em> Suburgatory</em> e <em>2 Broke Girls</em>. A identificação com Tessa (Jane Levy) e Max (Kat Dennings, que acho linda) é enorme: uma total falta de comiseração com os retardamentos alheios e de fé que isso possa mudar. Minha cara, não?</p>

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		<title>Giulietta e Federico &#8211; 68 anos de um amor de cinema</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 22:35:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Amor perfeito é aquele que não se realiza. Um amor como o de Romeo e Giulietta, que fica no mundo das ideias, das ilusões, sem ser colocado à prova pela dura realidade, pelo tempo, pelos defeitos crescentes de um e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/10/30/giulietta-e-federico-68-anos-de-um-amor-de-cinema/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/10/masinafellini.jpg"><img class="size-full wp-image-1081 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/10/masinafellini.jpg" alt="" width="500" height="723" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Amor perfeito é aquele que não se realiza. Um amor como o de Romeo e Giulietta, que fica no mundo das ideias, das ilusões, sem ser colocado à prova pela dura realidade, pelo tempo, pelos defeitos crescentes de um e de outro. Este é um pensamento que consola os desiludidos do amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Giulietta – não a Capuleto, mas a Masina – pois isso à prova. Na flor da idade, aos 22 anos, em 30 de outubro de 1943, desposou seu Romeo: o jovem Federico, de Rimini. Seria um amor para a vida toda, um amor de cinema.</p>
<p style="text-align: justify;">O Romeo desta Giulietta engordou, dava ordens, queria ver as coisas do jeito que sonhava e era cercado por mulheres lindas, desejadas por homens do mundo todo: Sylvia, Fanny, Gradisca&#8230; Mulheres de carnes fartas, sensuais, muito diferentes da pequena Giulietta de pouco mais de metro e meio e cara de alcachofra.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1950, no primeiro <em>mezzo</em> de Federico, ela aparecia como a preterida Melina, apaixonada por um homem que se deixava levar por mulheres e luzes. Melina tinha Amor no nome e a certeza de que ela era o porto seguro, de que ele sempre retornaria. Em 1954, Giuletta era Gelsomina, sempre encantada com qualquer possibilidade, com alguma atenção, algum carinho. A estrada era árdua, mas, àquela altura, o mundo inteiro conheceu e reconheceu que aquela parceria era de cama, mesa e tela. Se alguém ainda duvidava, três anos depois, Cabíria espantou qualquer desconfiança.</p>
<p style="text-align: justify;">Giulietta dos espíritos trouxe cor ao mundo dos sonhos de Federico. A partir dali, ele viveria histórias extraordinárias em um mundo de sátiros. Passaria pelas tentações de Roma, cidade das mulheres, faria de tudo e lembraria cada detalhe. A vida seguiria até que Giulietta deixasse de ser apenas (!) a inspiração escondida. Ressurgiria como Amelia, dançando e sendo conduzida por Pippo-Marcello, alter ego de seu Federico-Romeo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1993, o casal começou a planejar outra viagem. Giulietta tinha dificuldade para respirar. O coração de Federico não queria mais bater. Sua mente se ausentou, mas seu corpo permaneceu aqui até o casamento completar 50 anos. No dia seguinte, Federico partiu. Giulietta ficou por mais um tempo, mas já não havia muito que fazer aqui. Em menos de cinco meses, tomaria a barca – aquela bem na entrada do Cemitério de Rimini – e se juntaria mais uma vez a seu amor. Hoje, 30 de outubro de 2011, estão completando 68 anos de casados.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diria Fellini (ah! era este o sobrenome de Federico): “<em>Não há fim. Não há começo. Existe apenas a infinita paixão da vida.</em>” <em>E la nave va&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">Mais fotos de Fellini e Giulietta Masina em <strong><a href="http://mulheresdefellini.tumblr.com" target="_blank">Mulheres de Fellini</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos relacionados</strong><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/03/31/maratona-fellini-anos-50/"> Maratona Fellini – Anos 50</a><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2006/01/26/as-loucas-de-fellini/"> As loucas de Fellini e os outros eus</a></p>

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		<title>Mais forte que ela</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2011 18:23:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Naquele julho de 1990, chorei durante horas. Deitado na cama, som nas alturas, cantava e chorava. Eu tinha 18 anos e a morte de Cazuza representava a morte da geração dos meus ídolos e de parte dos meus sonhos. Representava &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/24/mais-forte-que-ela/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/amyorlan.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1055" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/amyorlan.jpg" alt="Amy por Orlandeli" width="270" height="495" /></a>Naquele julho de 1990, chorei durante horas. Deitado na cama, som nas alturas, cantava e chorava. Eu tinha 18 anos e a morte de Cazuza representava a morte da geração dos meus ídolos e de parte dos meus sonhos. Representava também o medo de uma doença avassaladora, sobre a qual pouco se sabia. Seis anos depois, aos 24, a cena foi um pouco diferente. Eu já era pai, havia me separado e criava uma criança. Sem falar que, antes disso, havia perdido minha primeira esposa, grávida, aos 19 anos. Portanto, já não achava a mínima graça na morte. Meu foco já havia saído da minha vida – e de qualquer vazio que pudesse existir nela – para começar a se concentrar em sua continuidade, aquilo que ainda estaria aqui quando eu morresse: meus filhos, as ideias e o mundo que eu deixaria a eles. Em outubro de 1996, não chorei por Renato Russo. Eu me perguntei o que ele estava querendo dizer ao enterrar a geração dos meus ídolos. Por que eu idolatrava gente que se destruía?</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 23 de julho de 2011. Amy morreu. Não chorei. Minha parcela de dor reservada à morte ainda estava sendo usada pelos 92 inocentes assassinados, horas entes, por um maluco na Noruega e não achei justo redirecioná-la a alguém que vinha tentando se matar há mais de cinco anos. Amy podia esperar. Ou ter escolhido um dia melhor para morrer.</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Insensível!</em>” Se você pensou isso após ler as últimas frases, este texto é principalmente para você, tão sensível à morte de uma celebridade autodestrutiva e, provavelmente, tão indiferente a todas as mortes e mazelas que acontecem a todo instante.</p>
<p style="text-align: justify;">Amy escolheu morrer. Demorou a conseguir isso, mas conseguiu. Parabéns. Antes de continuarmos, fique bem claro: sou fã de primeiríssima hora dela. Da voz dela. Desde quando ela era uma garotinha linda e cheia de curvas, antes mesmo de aparecer já esquisitona na capa de seu segundo disco. Sim, Amy “trouxe de volta a alma à música” e blá-blá-blá. Fez isso seis anos atrás e morreu logo em seguida. O que se viu nos últimos cinco anos foi um cadáver insepulto tentando lembrar as letras de suas próprias músicas e se manter em pé em um palco. Se você curtia essa aberração, se gostava do show de horrores que era a vida dela, entendo perfeitamente o motivo de ter chorado sua morte. Eu chorei quando a linda, talentosa e promissora menina Amy morreu cinco anos atrás, aos 22 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Amy deixou uma obra maravilhosa? Não. Ela começou a desenhar uma e desceu colina abaixo. Ela deixou um disco muito legal. Ela explodiu e pronto. Acabou. Uma obra maravilhosa, vai ser deixada por Nana Caymmi. E duvido que o mundo vá se descabelar quando ela morrer. Amy era uma grande artista? Não. Ela poderia ter sido. Um grande artista se cuida, cuida de sua saúde, de seu corpo (que é ferramenta de trabalho), quer sempre estar bem para seu público, para melhorar sua arte, para produzir sempre mais e melhor.  E qual o motivo de tanta comoção pela morte de Amy? É porque as pessoas gostariam de ser iguais a ela. Desejam ter talento, sucesso, dinheiro, reconhecimento e até a impossível juventude eterna. No entanto, não vejo uma só pessoa pagando o preço disso tudo. Vejo pessoas com vidas comuns e atitudes comuns, contentes com suas pequenas conquistas – um emprego (preferencialmente que dê pouco trabalho e pague bem), alguns cartões de crédito, roupas, um carro, uma aposentadoria –, sentadas na frente da TV ou do computador, vigiando e vivendo a vida de outras pessoas. Elegem um ídolo e esperam seu martírio, seu sacrifício. Ele morre e todos continuam suas vidas comuns. Elegem outro e repete-se o processo. Por ora, seus pecados estão perdoados. Amy morreu por vocês. E há quem se sinta no céu graças ao sacrifício dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O ídolo Amy tinha pés e alma de barro. Frágeis, não demoraram a quebrar. Morta, milhares de pessoas em todo o mundo declararam amor por ela. Enquanto viva, não houve um só que realmente a amasse a ponto de ficar ao seu lado, tratá-la como ser humano, dar carinho, atenção e tirá-la do buraco em que se meteu.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci várias pessoas que morreram por overdose ou outra consequência do uso exagerado de drogas. Nenhuma que tenha feito ou deixado algo genial. Cada uma delas era, como qualquer viciado, alguém frágil demais para enfrentar o mundo &#8220;de cara&#8221;, de peito aberto. Preferia se mudar para um universo paralelo no qual podia acreditar ser um gênio, um super-homem, alguém especial. O único legado que deixaram foi o da hipocrisia. Quem fica – e age do mesmo jeito – diz que o outro &#8220;morreu do coração&#8221;, &#8220;de uma doença misteriosa&#8221;, &#8220;não se sabe de quê&#8221;. Onde fica a &#8220;atitude rock&#8217;n'roll nessa hora? Ponha na lápide: <em>Orgulhosamente morto por overdose. Consegui! Yeaaaah!</em> Mas se a vida foi uma mentira, por que não perpetuá-la na morte?</p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de rebeldia, de contracultura, de viver a mil, parece muito bonito, muito sedutor. Principalmente quando não é você quem precisa morrer para dar autenticidade a ele. Assim, é mole ser doidão!</p>
<p style="text-align: justify;">Amy era igual a Janis? A Hendrix? A Morrison? Em quê? Na estupidez da juventude? No vazio existencial? No desequilíbrio emocional? E nós? Ainda somos tão iguais aos de 30, 40 anos atrás e não aprendemos nada? Muito doidão dos anos 60 percebeu a idiotice de se matar e, a cada uma dessas mortes, já avisava a todos que pegassem leve. Vivam, façam o que quiserem, sejam livres, mas não se matem. E estão aí, aos 70, 80 anos. Pergunte a qualquer um deles se preferiria ter morrido aos vinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Dez anos a mil? Mil anos a dez? Parece mais sábio viver cem anos a cem. Sem acelerar muito, sem criar limo, dando tempo e trato às nossas potencialidades. Quem ama a vida é correspondido. É amado por ela. Um ano, uma década ou meio século a mais é sempre bem-vindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Meus heróis não morreram de overdose. Meus heróis vivem tanto quanto possível e da melhor maneira, sem confundir intensidade com autodestruição.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mim, Amy, você não precisaria ter ido. Poderia ter ficado muito mais tempo cantando, encantando ou simplesmente vivendo e sendo feliz.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: right;">Ilustração mui gentilmente cedida por <a href="http://blogdoorlandeli.zip.net/" target="_blank"><strong>Orlandeli</strong></a></p>

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		<title>O homem a olhar o mar de Copacabana</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jul 2011 13:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[A água ficava mais distante. Bem mais. A calçada era estreita; os desenhos das ondas, menores. Largava-se no banco, sem medos, a olhar meninas em maiôs. Todas de generosas curvas, para combinar com a geografia do bairro. A bossa, novíssima, &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/07/o-homem-a-olhar-o-mar-de-copacabana/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/copa1958.jpg"><img class="size-full wp-image-1039 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/copa1958.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A água ficava mais distante. Bem mais. A calçada era estreita; os desenhos das ondas, menores. Largava-se no banco, sem medos, a olhar meninas em maiôs. Todas de generosas curvas, para combinar com a geografia do bairro. A bossa, novíssima, trilha de seus balanços. Os prédios já existiam aos montes, mais baixos, pouco maiores que o Copa e seu charme francês. Ah, o Copa! Quem diria que este lugar onde estou, do outro lado da Atlântica, faria parte da calçada dele? Saía-se do hotel e, em meia dúzia de passos, já se estava entre um Cadilac e um Buick, com o pé na única pista de mão dupla. Olhava-se para um lado e outro, mas sem preocupação. Tudo era um desfile. Não havia pressa. Mais alguns passos e aqui estamos. Um banco, a areia, o mar ao longe, sem qualquer acordo ou obrigação, só se exibindo em sua magnitude e sua frieza. Às vezes, ele se cansa dos nativos e dos gringos. Some com a areia. Vem lamber os prédios. Faz que vai engolir tudo. Parece coisa de quem está enlouquecido, perdido de amor. Depois se acalma e nos devolve a Princesinha para que as nossas voltem a aparecer também. Encantados e cheios de respeito, reconhecemos que existem praias lindas, mas nenhuma com tamanho encanto. E só a ti, mesmo não merecedores de tua beleza, iremos amar.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p>► <a href="http://sandrofortunato.tumblr.com/post/7339120172/giulietta-masina-no-rio-1958" target="_blank"><strong>Veja a foto inteira</strong></a></p>

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		</item>
		<item>
		<title>Quase pretos ou quase brancos</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/05/quase-pretos-ou-quase-brancos/</link>
		<comments>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/05/quase-pretos-ou-quase-brancos/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 23:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Periódicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/05/quase-pretos-ou-quase-brancos/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/05/quase-pretos-ou-quase-brancos/&amp;text=Quase pretos ou quase brancos&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia na oitava página e parei na análise de duas fotos da primeira edição da <em>Life</em>, de novembro de 1936, que mostravam a mistura de raças no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam as fotos, as legendas (traduzidas) e parte do meu texto.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/brlife2.jpg"><img class="size-full wp-image-1029 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/brlife2.jpg" alt="" width="590" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em><strong>Civilização</strong> é o nome que os brasileiros dão a esta escultura de um homem e uma mulher negróides, para uma nova raça brasileira que está emergindo dos portugueses misturados com negros e índios. (&#8230;) A despeito da estátua, os cidadãos do Rio, auto-intitulados cariocas, são predominantemente brancos. Mas muitos aristocratas brancos do Rio têm parentes pretos e, no negróide Norte do Brasil, uma gota de sangue branco faz um homem &#8220;branco&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em><strong>O homem com o chapéu preto </strong>(centro) é considerado praticamente branco no Brasil. Sua companhia na dança do subúrbio da Penha, no Rio, é muito mais clara, definitivamente com características europeias. Ela é uma mulher branca, acolhida e alegremente desposada por um homem &#8220;praticamente branco&#8221;. O jovem com casaco cinza e calça branca tem uma boa mistura de sangue indígena e português. Todos estes são mais claros que o homem branco do Norte do Brasil. Todos os negros brasileiros votam e vivem em termos de igualdade legal com os homens brancos puros.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, pela manhã, me deparo com a seguinte notícia no site da <em>Veja</em>:</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Professor é acusado de mandar aluno africano clarear a cor</strong></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em>A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) solicitou a abertura de um processo administrativo disciplinar para apurar as denúncias de racismo contra um professor da instituição. Alunos do curso de Engenharia Química apontaram atos de discriminação do professor José Cloves Verde Saraiva contra o aluno africano Nuhu Ayuba, inscrito na disciplina Cálculo Vetorial. Saraiva já pediu desculpas e disse que a situação foi um mal-entendido.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em>Uma cópia da denúncia foi entregue ao Ministério Público Federal. &#8220;Informamos que o professor Cloves Saraiva vem sistematicamente agredindo nosso colega de turma Nuhu Ayuba, humilhando-o na frente de todos&#8221;, afirmaram os alunos na petição pública. Segundo os estudantes, o professor teria dito que Ayuba &#8220;deveria voltar à África e clarear a sua cor&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Brasil, 1936, visto pelos americanos. Brasil, 2011, visto por nós mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">O último parágrafo que escrevi ontem dizia o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">Independente da época e do contexto, preconceito racial (e por qualquer tipo de diferença) é uma estupidez indesculpável. No entanto, 75 anos depois, sendo brasileiro (portanto, vira-lata), vejo a legenda e a foto como o documento de uma época em que o Brasil buscava uma identidade racial, social, e não tinha o preconceito típico do americano. Esquecendo um pouco os comentários racistas, a foto é maravilhosa, não? Dispensa qualquer legenda ou interpretação. Retrata a verdadeira mistura que forma nosso povo e sua alegre convivência. Pelo menos nesse ponto, tínhamos tudo para sermos superiores, mais civilizados. <strong>Pena que, até nisso, o brasileiro tenha se americanizado.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a Ku Klux Klan aceitasse caboclos, esses brasileiros praticamente negros que se acham brancos poderiam ter seu clubinho.  Acho bem merecido quando esse tipo babaca de brasileiro é maltratado no exterior e se sente colocado no lugar <strong>onde todo racista deveria estar: abaixo de qualquer outro ser humano</strong>. Só lamento que, mesmo assim, não aprendam.  Seres desse tipo nunca aprendem. Nunca viram gente.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">► <strong>DICA do mano BUCA DANTAS:</strong> <strong><a href="http://www2.uol.com.br/JC/sites/especial_joaquimnabuco/html/html2/index.html" target="_blank">Quase brancos, quase negros</a></strong></p>

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		<title>De como Sandrinho virou Lobão</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Apr 2011 16:58:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de Appe, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/04/24/de-como-sandrinho-virou-lobao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_01_livro.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-954" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_01_livro.jpg" alt="" width="228" height="321" /></a>Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/appe" target="_blank">Appe</a>, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém neste momento.  Evitava até comprar biografias e, quando o fiz, consegui não ler. Mas aí chega Dona Luciana Ubarana com <em>Lobão – 50 Anos a Mil</em> e imediatamente pensei: “<em>Fudeu!</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Ah! Para quem não me conhece de longas datas, prazer, eu sou Lobão. Explico. O ano é 1987 e estou no pré-vestibular do Salesiano, em Natal. Carlos “Cristão”, professor de Química, tinha a mania de soltar um “<em>Voooooooooo&#8230;</em>” olhando para um lado da turma e apontando para outra para finalizar “<em>&#8230;CÊ!</em>”. Virava, descobria para quem estava apontando e dizia o nome da vítima. Numa dessas vezes, eu fui a vítima. Usava um corte de cabelo batido na base e um franjão que cobria os olhos. Fazia de tudo para que ninguém me notasse (usando um corte desses na Natal de 87? Tá!). Havia chegado à cidade no ano anterior e como todo estranho, sofria <em>bullying </em>(só disse isso porque está super na moda ter sofrido <em>bullying</em>). Pois bem. Carlos mandou um “vooooooCÊ”, virou para mim, olhou para meu cabelo e completou: “<em>Você, Lobão.</em>” Pronto. O apelido pegou de imediato. Virei Lobão.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos ao outro Lobão. Chegou a Semana Santa, peguei o livro e não desgrudei antes de ler duzentas páginas. Estava lendo os bastidores de uma história que vi e que, em alguns momentos, cruzou com a minha. O corte de cabelo e o apelido Lobão, em 87, não vieram do nada. No verão 86-87, aos 14 anos de idade, eu havia feito minha primeira entrevista. Adivinhe com quem. Pois é. Eu, Fabinho, Marcelo Jucá e Gustavo Lamartine – “<em>uma turminha da pesada que adorava aprontar mil aventuras</em>” – resolvemos aproveitar a passagem de Lobão por Natal e ir até o hotel onde ele estava, na Via Costeira, tentar falar com ele. Eu, tendo um <em>insight</em> do que faria muitas e muitas vezes no futuro, desmontei as caixas do meu <em>stereo</em> portátil, descolei um microfone, uma fita TDK e fui pronto para registrar aquela parada. Levei também a Olympus Trip do meu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos na cara dura e nos apresentamos. O recepcionista pediu que esperássemos. Voltou dizendo que Lobão estava na piscina e que podíamos ir até lá. Meio sem graça, chegamos até a área externa e ficamos procurando. De repente, de uma espreguiçadeira, Lobão se vira e acena. Fomos até lá e começamos a conversar. Eu, já todo jornalista, gravando tudo. O que ele estava achando de Natal, como era o novo show, se o rock errou mesmo e aquelas coisas de moleque se achando gente. Gustavo, o tempo de boca aberta, queixo apoiado na mão, sem falar nada. Quando resolvemos despertá-lo do transe, disse apenas o seguinte: “<em>E o Herbert?</em>” Pronto. Lobão danou a baixar o pau no Herbert Vianna e o resto do papo foi só aquilo. Uma hora de blá-blá-blá, acabou a fita, sessão de autógrafos e eu, sempre preparado e com tudo pensado, saquei a <em>Playboy </em>de setembro de 1986, edição em que Daniele Daumerie (que foi esposa de Lobão) aparecia. Levemente constrangido, ele autografou na página dupla que abria o ensaio. Muito simpático, foi nos deixar na entrada do hotel (talvez para ter certeza de que aquela molecada iria mesmo embora e deixá-lo em paz). Lembrei da Olympus. Fiz uma foto dos meninos com ele e pedi que fizessem uma dele comigo. Eu, na época um <em>boy</em> com um metro e sessenta e pouco, ao lado daquele gigante de quase dois metros. Saí com uma cara de “<em>peraí!</em>”, segurando o trambolho do gravador e a revista.</p>
<p style="text-align: justify;">Daquele show do Lobão, lembro bem dele abraçado a uma garrafa de uísque que foi esvaziada durante a apresentação. Era a turnê de <em>O Rock Errou</em>. Estava em meu primeiro verão em Natal. Os verões dos anos 80 na cidade eram repletos de shows de BRock: Titãs, Ultraje, Paralamas, Kid Abelha, Biquiní Cavadão&#8230; Eu tinha ido ao primeiro show da minha vida alguns meses antes, no Palácio dos Esportes: Cazuza.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_02_ronaldo.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-955" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_02_ronaldo.jpg" alt="" width="288" height="280" /></a>Acho que foi antes desse encontro que comprei <em>Ronaldo foi pra Guerra</em>, segundo LP de Lobão, assinado por Lobão e os Ronaldos. Comprei em uma loja no Hiper Bom Preço. Acho difícil explicar a quem chegou ao mundo na era pós-LP o significado da compra de um disco e o ritual que era ouvi-lo. Escolher o bolachão, apreciar a capa, olhar o encarte se o disco não fosse lacrado (os discos importados geralmente eram), comprar, desfilar com ele até em casa, se trancar no quarto, tirar do plástico pela primeira vez, limpar com a almofadinha, colocá-lo no 3 em 1, levar a agulha ao vinil, deitar e acompanhar as letras pelo encarte (quando tinha).  Você ouvia e apreciava uma obra completa, um determinado momento do artista. Era uma viagem. E eu viajei muito ouvindo <em>Corações Psicodélicos</em>, <em>Não tô entendendo</em>, <em>Tô à toa Tókio</em>, <em>Abalado </em>(a primeira balada lobônica que ouvi), <em>Os tipos que eu não fui</em>, <em>Bambina</em>&#8230; E aí acontecia uma mágica dos tempos do LP: virar o disco. A primeira música do lado B era <em>Me chama</em>. Para quem viveu aquela época, não é preciso dizer mais nada. <em>Me chama </em>é a música que mostrava que os brutos roqueiros também amam.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O Rock Errou</em>, comprei depois. Ouvi muito durante o ano de 1987, o mesmo em que virei Lobão. Também foi naquele ano que deixei não só o franjão, mas todo o resto do cabelo crescer. Os padres do Salesiano não me viam com bons olhos. Na verdade, os alunos também não. O pessoal estava acostumado com forró e vaquejada e não aturava muito a atitude <em>rock’n’roll</em> do carioca alienígena. Tô falando: eu sofria <em>bullying</em>. Mas cagava e andava para isso. Pressionado, resolvi cortar o cabelo. Costumava ir ao salão do seu Guedes, o mais tradicional da cidade e até hoje o preferido pelos políticos, alpinistas da área e wannabes reaças em geral. Cheguei com minha vasta cabeleira – também mal vista pelos clientes – e pedi ao Beto, filho do seu Guedes , para cortar: “<em>Raspa dos lados</em>”. Olha&#8230; Para mim, moicano era um troço velho, de punk dos anos 70, mas, para Natal de 1987, era um negócio pesado e impensável. Enquanto o ministro Aluízio Alves aparava suas carapas brancas na cadeira ao lado, Beto ajudava a nascer o primeiro pós-punk de Natal. Não era um moicaninho de boutique desses de hoje, raspadinho do lado e “deixado em cima”; nem essas frescuras pintadas. Era uma senhora e mui respeitável crista que, armada, tinha lá seu palmo de altura (mantive o comprimento grande do resto do cabelo).  Papai ,mamãe, eu não pedi para vocês me tirarem do Rio em plena explosão do rock nacional. Sinto muito. A cidade ia ter que me engolir. Do Guedes, peguei o ônibus direto para o Salesiano. A coisa mais bonita que ouvi no caminho foi “<em>se fosse meu filho, eu dava uma surra pra se ajeitar</em>”. Uma senhora&#8230; uma velha chata pra caralho foi fazendo um discurso no ônibus sobre como a juventude estava perdida, que o mundo ia acabar e que gente assim (como eu) deveria apanhar até se emendar.  Quando o ônibus parou na Ribeira, virei para a velha, dei o maior berro que podia e desci do ônibus. Bob Cuspe iria se orgulhar. O Salesiano parou quando entrei. Os padres quiseram me expulsar. Deviam achar que eu estava com o diabo no corpo. E se estava, não saiu até hoje. O Lobão, o Sandro Lobão, se assumiu ali.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_04_panfleto.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-956" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_04_panfleto.jpg" alt="" width="208" height="280" /></a>1988, faculdade de jornalismo. Foi nesse ano que Lobão voltou a Natal com a turnê do LP <em>Vida Bandida</em>. Ele já havia sido preso, estava estouradaço e era o capitão dos malucos de verdade. Na noite de 31 de julho, eu estava bem na frente do palco montado no gramado no Estádio Juvenal Lamartine. Como lembro a data? É porque guardo até o hoje o panfleto (este reproduzido aí ao lado). Estava lá, todo aplicadinho de cerveja.  O show tinha o apoio da rádio 96 FM. A propósito, durante anos, infernizei Ênio Sinedino e Germano (respectivamente, diretor geral e de programação da 96) para liberarem aquele <em>Cena de Cinema</em>, primeiro LP do Lobão, que eles tinham por lá e não servia para nada, afinal as músicas eram gravadas em cartucho e, depois, passaram a usar CD. Nunca me deram. O <em>Cena</em>, como Lobão conta no livro, vendeu pouco e foi logo tirado de circulação por conta de uma encrenca sua com a gravadora. Diz que foram vendidos cerca de 6 mil discos. Eu só teria um já nos anos 2000. Comprei na Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Novinho. Detalhe: também deve ter sido de alguma rádio, pois tem um carinho de “<em>Invendável – Amostra grátis</em>”. Para mim, não foi. Na mesma leva, ainda vieram para minha coleção <em>O Império dos Sentidos</em> (segundo de Fausto Fawcett, com Silvia Pfeifer na capa) e as trilhas de <em>Amarcord</em>, de Fellini, e <em>Areias Escaldantes</em>, de Francisco de Paula.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não sabe, <em>Areias</em> é um filme louquíssimo, non sense, feito em 1985. Francisco de Paula (que conheci em 2006 no Festival Internacional de Cinema de Brasília e vez ou outra dá o ar da graça aqui no <em>blog</em>) juntou Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Diogo Vilela e parte da nata do rock brasileiro – Titãs e Lobão, que participam do filme, mais Lulu Santos, Ira, Ultraje a Rigor, Gang 90 &amp; Absurdettes na trilha sonora – para contar uma história louca (coisa de quem cheirava muito) com terroristas e uma polícia de elite na Província de Kali. Vivia passando no <em>CineBrasil</em>, mas eu tenho uma cópia em DVD que me foi dada por Francisco.</p>
<p><center><br />
<iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/SG8dgO2ez5Y" frameborder="0" allowfullscreen></iframe><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2001, fiz aquela que por um bom tempo chamei de minha última entrevista. Sim, com Lobão. Achei que seria <em>A</em> entrevista e queria encerrar meus dias de jornalista com ela. Falei com esposa de Lobão por telefone e ela disse que ele responderia as perguntas por e-mail. Não gostei da ideia, mas encarei. Foi um desastre. Lobão sempre viu jornalistas como Dom Quixote via moinhos. Era botar o olho e partir para o ataque. Por <em>e-mail</em>, à mercê de interpretações erradas que não poderiam ser devidamente esclarecidas, acabou não rendendo, mas <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/tafalado/arquivos/lobaovpi.htm" target="_blank">publiquei assim mesmo</a>. Dez anos depois, vejo Lobão muito mais manso, mais acessível e até admitindo que estava sempre armado e pronto a desancar qualquer um. Inclusive eu, que estava super-bundão, em um momento único, mais fã que jornalista, levantando a bola para ele cortar. Cortou e veio bem na minha cara. Tudo bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Há poucos dias, Lobão esteve duas vezes em Natal. Na primeira, veio autografar o livro. Tive vontade de ir para que autografasse seus/meus LPs, mas abortei a ideia quando imaginei a garotada Restart cuzona que estaria por lá idolatrando um cara que sempre foi iconoclasta. Na mesma semana, voltou para fazer um show no “teatro do shopping da cidade”. Não consigo imaginar um show de Lobão com gente vestidinha, com cheirinho de perfume e sentada.  Eu ia querer quebrar aquela porra toda, então, resolvi ficar em casa. Era véspera do meu aniversário e eu não ia querer estragar as boas lembranças dos últimos 25 anos: a entrevista no hotel; os shows no Juvenal Lamartine; outro também em Natal, nos anos 90, com quase ninguém; um em Brasília, quando lançou seu disco independente. O velho Lobo, para mim, era o Lobão novo. Este novo Lobão, cinquentão e educadinho, estou curtindo muito nas páginas do livro que serei obrigado a terminar. Ali, ele continua <em>rock’n’roll</em> e me fazendo lembrar coisas da natureza dos lobos, como ir contra tudo e contra todos agarrado à ideia de que está fazendo a coisa certa (por mais que o mundo mostre o contrário), sendo fiel a si mesmo e feliz a todo custo. Só não digo que fazemos parte da mesma matilha porque tanto aquele quanto este lobo é do tipo solitário.</p>
<p style="text-align: justify;">E chega. Vou ali matar o livro e continuar girando o mundo, sempre com a certeza de que “<em>é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez</em>”.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais Lobão (o outro) no Tumblr:</strong> <a href="http://sandrofortunato.tumblr.com" target="_blank">http://sandrofortunato.tumblr.com</a></p>

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		<title>Ei, defunto, passa o bronze!</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Feb 2011 08:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
		<category><![CDATA[Cemitérios]]></category>
		<category><![CDATA[Estatuária]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 30 de março de 2009, no texto Turismo-histórico cultural e três velhos bigodudos, eu terminava dizendo o seguinte sobre uma das homenagens ao advogado e escritor Manoel Dantas: Já a efígie em seu túmulo, no Cemitério do Alecrim &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/02/19/ei-defunto-passa-o-bronze/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/manoel2.jpg"><img class="size-full wp-image-902 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/manoel2.jpg" alt="" width="600" height="263" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 30 de março de 2009, no texto <em>Turismo-histórico cultural e três velhos bigodudos</em>, eu terminava dizendo o seguinte sobre uma das homenagens ao advogado e escritor Manoel Dantas: <em>Já a efígie em seu túmulo, no Cemitério do Alecrim </em>(em Natal)<em>, resiste bravamente há 65 anos</em>. Atualizando: RESISTIA.</p>
<p style="text-align: justify;">O medalhão que ficava no túmulo de Manoel Dantas era obra de Hostílio Dantas, pintor e célebre escultor do Rio Grande do Norte, praticamente o único nome a entrar, até agora, para a história da arte estatuária no estado.  Foi Edgard Ramalho Dantas (é ele quem aparece na foto que abre o texto), neto de Manoel, quem deu o alerta por e-mail: “<em>Túmulos dos alemães da Condor e de Manoel Dantas depredados no Cemitério do Alecrim</em>”. Duas horas depois, eu e <a href="http://www.canindesoares.com" target="_blank">Canindé Soares</a>, acompanhados por Edgard, estávamos conferindo os estragos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi apenas isso. Outras três efígies de bronze também foram roubadas: a de Elias Lamas e as duas do túmulo de Francisquinha e Ernesto Fonseca. Aliás, deste só sobraram três letras. Até a portinhola do jazigo foi levada. Estas eram as quatro únicas efígies em bronze de todo o Cemitério do Alecrim, um dos mais antigos cemitérios públicos do país. Se há registro fotográfico das peças é por conta de meu interesse por arte tumular e por um trabalho de catalogação da estatuária da Cidade do Natal que comecei a fazer com Canindé em 2009 (é daquele ano as fotos que mostram os medalhões). Na época, a Semsur – Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, órgão responsável (?!) pela administração do Cemitério do Alecrim se disse interessada pelo trabalho, mas estava apenas tentando trazer “os inimigos” para perto, já que rodamos toda a cidade e denunciamos o abandono das praças, monumentos e cemitérios.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/lamas2.jpg"><img class="size-full wp-image-903 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/lamas2.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/francis2.jpg"><img class="size-full wp-image-904 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/francis2.jpg" alt="" width="600" height="404" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Natal é uma cidade conhecida pelo desprezo com que trata sua História e sua cultura. Se possível, João Pessoa e Recife se mudariam para bem longe para não ter uma vizinha igual a essa. É uma vergonha! Natal é comumente ridicularizada como “a cidade do já foi”, “a cidade do já teve”. Uma capital quatrocentona que não tem um museu. Ninguém venha dizer que tem! Tem “umas coisas” que chamam de museu e só chama assim quem nunca esteve em um. Quase tudo que se faz em Natal e é relacionado à sua História gira em torno do nome de Câmara Cascudo, que, diga-se, é extremamente respeitado no resto do Brasil e no mundo, mas também desprezado na cidade onde nasceu. A minha geração e as mais novas acham bonito falar mal dele e fazer ar de enfado quando ouvem seu nome. Aquele comportamento típico de quem quer disfarçar a própria ignorância diminuindo quem realmente fez alguma coisa. A propósito, falei que o túmulo de Cascudo, totalmente reformado pela família (como tudo relacionado a ele, pois estado e município não fazem qualquer coisa), em maio do ano passado, também foi depredado? Foi. Levaram a placa em inox com os nomes de todos que foram sepultados lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Fotografo cemitérios por todo o Brasil. Já fiz <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/category/arte-tumular/" target="_self">vários <em>posts</em></a>, aqui, a respeito disso. Cemitérios gigantescos como o do Araçá, em São Paulo, com seus 222 mil m2, no qual caberiam dezenas de cemitérios do Alecrim. Cemitérios com centenas de monumentos gigantescos, em bronze ou mármore, como os da Consolação e São Paulo. Todos seguem o mesmo esquema das necrópoles públicas brasileiras: o terreno pertence à administração pública, que zela pela limpeza e segurança do local, mas os túmulos são de responsabilidade dos donos. Sabe o que acontece com túmulos de personalidades famosas e/ou que tenham grandes obras de arte nos cemitérios de São Paulo? A administração pública tomba e se torna responsável direta por sua limpeza e manutenção. Os donos só têm direito a enterrar seus mortos. Não podem mexer neles, modificá-los. Se um túmulo está abandonado, o dono é notificado. Em Natal, os donos não são avisados nem quando os túmulos são depredados e roubados.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/ruacemita.jpg"><img class="size-full wp-image-906 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/ruacemita.jpg" alt="" width="600" height="403" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Para entender a situação de total abandono do Cemitério do Alecrim, basta olhar para suas ruas. As principais, próximas às entradas, receberam uma maquiagem há alguns anos. As restantes são como a mostrada na foto acima. Antes de ser enterrado e roubado, o morto ainda experimenta a sensação de andar naqueles carros performáticos de rapper americano, sacudindo para todos os lados. Não me admiraria se um pedisse para descer do caixão e ir andando até sua sepultura. Seria muito mais digno. Parece que a administração da cidade sempre entendeu “lugar de descanso” como “lugar de descaso”. Assim, passam secretários e prefeitos enquanto o cemitério continua virando pó. Dá para levar a sério uma cidade que não respeita nem os seus mortos? Se eu morrer aqui, façam uma fogueira no quintal e cremem meu corpo,  façam qualquer coisa, mas, por favor, não me levem para o Cemitério do Alecrim. Já me basta ter sido assaltado em Natal, mais de uma vez, ainda vivo.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * *</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Textos relacionados<br />
</strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/06/15/o-primeiro-marmore/" target="_blank">O primeiro mármore</a><br />
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<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/05/28/era-para-ser-assim/" target="_self">Era para ser assim</a><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/03/30/turismo-historico-cultural-e-tres-velhos-bigodudos/" target="_blank">Turismo histórico-cultural e três velhos bigodudos</a></p>
<p><strong>E ainda</strong><br />
<a href="http://www.memoriaviva.com.br/manoeldantas" target="_blank">Manoel Dantas</a><br />
<a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo" target="_blank">Câmara Cascudo</a></p>

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		<title>Que Appe é esse?</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Feb 2011 23:57:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Desenho]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “Por que você não escreve a biografia do Appe?”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “É mesmo!”. Estava cansado da superficialidade do &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/02/03/que-appe-e-esse/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_01interrog.jpg"><img class="size-full wp-image-883 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_01interrog.jpg" alt="" width="600" height="377" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “<em>Por que você não escreve a biografia do Appe?</em>”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “<em>É mesmo!</em>”. Estava cansado da superficialidade do jornalismo, fazia o <a href="http://www.memoriaviva.com.br" target="_blank"><em>Memória Viva</em></a> há nove anos, já estava mesmo na hora de publicar um livro&#8230; Por que não?</p>
<p style="text-align: justify;">Deve ter sido um demônio que falou pela boca de João: “<em>Vamos mostrar a esse cara que escrever uma biografia não é fácil como ele pensa.</em>” Mas pode ter sido um anjo: “<em>Appe merece ter seu trabalho mostrado às novas gerações. Corra para falar com ele!</em>” Corri, mas não cheguei a tempo. Appe morreria pouco mais de dois meses depois daquele <em>insight</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se por um anjo ou por um demônio, não sei, mas graças a um texto contando esta história, a montanha veio a Maomé. A família de Appe me encontrou e se colocou à disposição para o que eu precisasse para desenvolver a pesquisa. Em abril de 2007, lá estava eu, pela primeira vez de já não sei quantas, em seu arquivo pessoal, sendo adotado por Neusa (sua viúva) e cevado por Doris (sua enteada).</p>
<p style="text-align: justify;">Depois das duas primeiras rodadas de entrevistas com familiares e colegas de trabalho, vi que não seria difícil escrever sobre sua vida. Ele viveu bastante – 86 anos –, mas teve uma vida pessoal tranquila, caseira. À exceção do período de glória em <a href="http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro" target="_blank"><em>O Cruzeiro</em></a>, claro.  Jovem, bem empregado, frequentando altas rodas, manteve uma <em>bonbonnière</em> para deleite próprio e de seus amigos. Entendeu, não? <em>Bonbonnière</em>, aquele lugar cheio de docinhos gostosos para se comer&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_02carica.jpg"><img class="size-full wp-image-884 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_02carica.jpg" alt="" width="600" height="339" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Appe deixou uma dica de como queria ver sua vida contada: através de seus desenhos. O Appe que a maioria conhece é o caricaturista e chargista político da revista <em>O Cruzeiro</em>, mas ele é bem mais que isso. Muito mais mesmo! Deixei de contar o número de obras, fotos e documentos que digitalizei quando passou de dois mil. E nem mexi ainda em minha coleção de <em>O Cruzeiro</em> e quase nada também na de João Buhrer, o que certamente irá gerar mais de mil desenhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando me deparei com o Appe menos conhecido, vi que o trabalho não seria fácil. Usei a lógica que usamos para montar quebra-cabeças: comecei pelas bordas. Deixei a era de <em>O Cruzeiro</em>, o centro, por último. Da época anterior, me deparei com trabalhos em <em>A Manhã</em> e <em>A Vanguarda</em>. Na maioria, recortes sem data. Biógrafos, historiadores e acadêmicos já sabem do que estou falando. Não basta ter o desenho. É preciso entender todo o contexto em que foi criado e publicado. É ainda mais complicado quando se trata de charge política. Quem são aquelas pessoas na charge? Fácil quando se trata de alguma figura muito conhecida. Mas e aquelas que o tempo apagou, que foram eclipsadas por outras maiores? Quem eram? Por qual motivo apareciam naquela piada? E qual era a piada?! O que foi escrito no jornal daquele dia sobre os personagens da charge? Agora, imagine se deparar com, digamos, cem recortes, sem datas, sem ordem, sem contextualização e quase sem pistas de por onde começar a ordená-los e entendê-los. Um exemplo simples. Jornal <em>A Manhã</em>, 1954. Onde há uma coleção dessas? Terei acesso a ela? Pode ser manuseada? Está microfilmada? Quantas edições terei que folhear? Duzentas? Duzentas e cinquenta? E a leitura, para entender a época e o contexto, quanto tempo levará? Estou falando de um recorte bem limitado no tempo e, se comparado a todo o resto, nem tão importante, mas necessário que seja feito.</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_04adhemar.jpg"><img class="size-full wp-image-885  aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_04adhemar.jpg" alt="" width="450" height="496" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>Esta é fácil! Adhemar de Barros, derrotado na disputa para o governo<br />
de São Paulo, em 1954. No ano seguinte, tentaria a presidência.</em></p>
<p style="text-align: justify;">No caso de um artista gráfico, há também outro ponto importante em todo esse acompanhamento. É preciso conhecer, entender, mostrar e explicar a evolução e mudança de traço, as influências de cada época, quando e como se chegou a um estilo próprio, qual temática era mais abordada em determinado período&#8230; É algo sem fim! Começa-se em um desenho e, de repente, está estudando a vida e a obra de outra pessoa que você nem sabia que existia! E não vai tirar nem dez linhas de tudo isso. Vai “só” compreender melhor o trabalho de quem você está biografando. Não é à toa que digo: biografar é fazer uma graduação sobre a pessoa. E há vidas que precisam de graduação, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, só para você chegar ao final de 15 anos de pesquisa e descobrir que sabe mais que qualquer criatura sobre a Terra, mas que, ainda assim, não sabe muita coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem é esse Appe que pretendo mostrar? Quem SÃO esses Appes além do chargista e do caricaturista? Pretendo que as respostas cheguem a todos ainda este ano. Por ora, melhor deixar que ele mesmo mostre.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Appe quadrinista</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_05quad.jpg"><img class="size-full wp-image-886 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_05quad.jpg" alt="" width="600" height="329" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe ilustrador</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_06ilust.jpg"><img class="size-full wp-image-887 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_06ilust.jpg" alt="" width="600" height="516" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe cartunista</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_07cartum.jpg"><img class="size-full wp-image-888 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_07cartum.jpg" alt="" width="450" height="462" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe do Blow-Appe</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_08blow.jpg"><img class="size-full wp-image-889 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_08blow.jpg" alt="" width="600" height="383" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe erótico</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_09erot.jpg"><img class="size-full wp-image-891 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_09erot.jpg" alt="" width="600" height="462" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe pintor</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_10pint.jpg"><img class="size-full wp-image-892 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_10pint.jpg" alt="" width="600" height="366" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * * * * * * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais: <a href="http://www.me/appe" target="_blank">Memória Viva de Appe</a></strong></p>

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		<title>Os Clowns</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 19:27:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[– Ma che cosa è? – È il circo. (Primeiro diálogo em I Clowns, de Fellini) Os Clowns estão de volta. A principal novidade é que não há novidade. São os clowns, os palhaços, i buffoni, de volta às raízes &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/11/29/os-clowns/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-792" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_01.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>– Ma che cosa è?<br />
– È il circo.</em><br />
(Primeiro diálogo em <em>I Clowns</em>, de Fellini)</p>
<p style="text-align: justify;">Os Clowns estão de volta. A principal novidade é que não há novidade. São os clowns, os palhaços, <em>i buffoni</em>, de volta às raízes do espetáculo circense. E são Os Clowns de Shakespeare de volta às próprias raízes e em grande forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Estão de volta à sua terra, Natal. Eu, também nela, tenho me recusado a sair de casa e poucos argumentos me convencem a fazer o contrário. Porém, os Clowns não são qualquer coisa e César Ferrario, um deles, me convidou a conferir o novo espetáculo – <em>Sua Incelença, Ricardo III </em>– de forma carinhosa, alegando que tenho um dos “<em>poucos olhares que pode enxergar toda a nossa história através dos tempos, em tudo que isso tem de bom e de não bom</em>”. Como se diz “<em>não</em>” a uma intimação dessas?</p>
<p style="text-align: justify;">Foi em 1993 que lancei meu primeiro olhar sobre os Clowns, um bando de aproximadamente 30 jovens alunos secundaristas, quase todos desorientados, em cima de um palco. Eu, um jovem jornalista (hoje curado, apesar da sequelas) que se atreveu a escrever uma crítica ao espetáculo. Primeira e única que o grupo recebeu durante uma década. Não por falta de merecimento, mas de quem o fizesse.  Mesmo tendo me mudado para Brasília, os Clowns eram programa obrigatório durante minhas vindas a Natal, nos finais de ano. Em 2004, tendo restado apenas César, Renata Kaiser e Fernando Yamamoto do gigantesco bando inicial, assisti a <em>Muito Barulho por Quase Nada</em>, um sucesso que durou várias temporadas. Já eram, então, um grupo profissional, bem organizado, estudioso e que estava conquistando reconhecimento nos festivais de teatro do país e, bem mais difícil que isso, na normalmente ingrata cidade onde nasceu e da qual Cascudo diz que não consagra nem desconsagra ninguém.<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg"></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-796" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_02_3.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Até o convite, o capítulo mais recente dessa história em comum havia acontecido em outubro de 2009, em São Paulo, quando assisti a <em>O Capitão e a Sereia</em>. Escrevi a respeito e usei os Clowns para criticar a inexistência de crítica em Natal. Fui suficientemente ácido para apontar a melhor peça deles como algo, digamos, “insuficiente” para quem os conhecia há década e meia. <em>O Capitão&#8230; </em>era, sem dúvida e de longe, o melhor espetáculo do grupo. Rendeu excelentes críticas de quem sabe e pode fazer crítica teatral no Brasil. Da província, sem ver, as focas batiam palmas. Se fossem sérias, se disporiam a ir a São Paulo, onde eles estrearam e fizeram temporada de dois meses, para conferir e escrever a respeito. Assim como, hoje, a imprensa de São Paulo vêm a Natal para conferir o trabalho deles. Os Clowns são profissionais de alto nível e merecem tratamento à altura. Um ano depois desse episódio e tendo corrido o risco de que um ou outro me odiasse eternamente, não criticaria mais a falta de crítica na pequena tribo. Tampouco diria que isso faz falta aos Clowns. Eles pertencem ao mundo. Não precisam de focas amestradas batendo palmas, nem de tapinhas nas costas, frases feitas e coisas assim. Não precisam nem de um ex-jornalista idiota como eu se metendo a Barbara Heliodora. Portanto, o que segue não é uma crítica, mas um breve relato sentimental de nosso mais recente encontro. E se eu usar as palavras “<em>trupe</em>” e “<em>mambembe</em>”, por favor, pare de ler. Ninguém merece isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Sexta, 26 de novembro de 2010. Chego ao “terrenão”, uma grande área aberta em frente ao Barracão dos Clowns onde estava sendo apresentada <em>Sua Incelença, Ricardo III</em>. Incelências são os cantos coletivos feitos em velórios. Também uma forma popular, anasalada, de se referir a alguma autoridade no interior do Nordeste. Todo <em>dotô </em>é uma <em>incelença</em>. Os Clowns são basicamente isso: Shakespeare com sotaque nordestino.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui como mero espectador. Sozinho, quase anônimo, praticamente escondido. Aboletado no alto de uma das arquibancadas, via as árvores, as gambiarras de lâmpadas movimentadas pelo vento, ouvia a música e tudo me lembrava Fellini. Aqui, aos que me conhecem, já entrego minhas expectativas, pois nunca uso o nome de deus em vão. Se algo me faz lembrar Fellini, só pode ser algo muito bom. Aquele ambiente aberto, de circo popular, da arte teatral em sua forma mais pura e simples foi me conquistando antes mesmo de os atores entrarem em cena.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_04_joel.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-801" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_04_joel.jpg" alt="" width="600" height="316" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Entraram. Nunca vi os Clowns tão clowns. Seria extenso e mesmo chato falar de cada detalhe perfeito da peça. Diria apenas que todo expectador poderia vê-la pelo menos meia dúzia de vezes. Uma para ver o todo, uma segunda para olhar somente os detalhes do figurino, outra para prestar atenção às vozes dos personagens, uma quarta apenas para admirar o trabalho corporal, mais uma só para se deliciar com as expressões&#8230; Pensando bem, seis vezes ainda é pouco. Fui duas vezes. Uma, só para fotografar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ricardo III </em>traz oito atores. Quatro deles, conheço de longa data; Renata Kaiser, Marco França, César Ferrario e Titina Medeiros. Da outra metade, conhecia apenas Camille Carvalho de <em>O Capitão e a Sereia</em>. Dudu Galvão, Joel Monteiro e Paula Queiroz eram novos para mim.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_05_dudupaula.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-802" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_05_dudupaula.jpg" alt="" width="370" height="380" /></a>Sabe quando você vê um jovem ator/uma jovem atriz pela primeira vez e se pergunta: Onde ele estava que eu nunca tinha visto?! É um de seus primeiros trabalhos e ele é já bom assim mesmo? Isso tudo é talento? Já havia sentido isso por <em>Camille em O Capitão&#8230;,</em> sua estreia nos Clowns.  Joel é ótimo. Paula e Dudu são surpreendentes. Incomodam de tão bons que são.</p>
<p style="text-align: justify;">Paula e Dudu fazem vários personagens. Mesmo com figurinos e até uso de máscaras diferentes, isso pode confundir o espectador menos atento. Mas o trabalho de voz dos dois é tão perfeito que basta ouvi-los para saber que o personagem que acaba de entrar não é o mesmo que saiu há pouco. Eles sabem dar o tom certo, uma personalidade a cada um, pontuar cada sentimento. O deboche, a ironia, o sarcasmo e o desdém – muitas vezes entendidos como uma coisa só – são utilizados, cada um, no tom adequado. Dudu, quando faz o narrador, ainda está livre para exercitar a improvisação e inserir cacos tão perfeitos que parecem ter sido ensaiados.  Muita disciplina e raciocínio rápido ajudam muito um ator a brilhar. Além das vozes, Paula e Dudu ainda subvertem o poder da máscara, da maquiagem. Quando um palhaço entra em cena, de imediato você sabe mais ou menos o que esperar dele pela sua maquiagem. Ele pode parecer triste, louco, pateta, bobo, cínico&#8230; A maquiagem tem a função óbvia de reforçar a caracterização, de ajudar a compor a personalidade a ser apresentada. Quando um ator, debaixo de uma única maquiagem de clown, se transforma em vários personagens e ainda imprime a cada um deles variados sentimentos é algo que realmente impressiona. Não é qualquer um que tem essa capacidade de expressão facial e, mais ainda, técnica e conhecimento para aplicar e fazer valer esse poder. Dudu ainda é responsável por um dos momentos mais risíveis da peça, quando a plateia se rende a sua interpretação e sua voz ao cantar.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_03_renata.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-804" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_03_renata.jpg" alt="" width="600" height="315" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Confessei a César que acho necessário tomar alguma distância temporal em relação a ele, Marco e Renata. Cada vez que pisam em cena, já vejo todos os personagens que os vi interpretar. É um problema meu, não deles. De imediato, não dou chances que me apresentem às novas personas. Minha exigência para com eles é sempre bem maior. Penso: “<em>Surpreendam-me. Mostrem-me se merecem mesmo meus aplausos.</em>” Eles mostraram. Quem melhor fez isso foi Renata, que passa a maior parte do tempo como a amarga rainha Margaret. Diferente dos outros, que se revezam em momentos de drama e comédia, ela é sempre grave, trágica. Gostei de vê-la assim.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito de Marco, aproveito para fazer uma confissão. Na primeira vez em que o vi em cena junto aos Clowns, pensei: “<em>O que aquele antipático que toca teclado está fazendo ali?</em>” Assim mesmo, de forma convicta e preconceituosa, já disposto a odiar qualquer coisa que ele fizesse. Isso foi em 2004, como <em>Muito Barulho por Quase Nada</em> e&#8230; adorei seu trabalho como ator. Talvez por ele ter papéis de grande destaque em todas as peças, talvez por me restar ainda alguma estúpida antipatia totalmente sem sentido, talvez por achar que ele exerça muita influência e até coloque música demais em algumas peças, talvez por tudo isso junto, é em relação a ele que tenho mais dificuldade em ter o necessário distanciamento para ver somente o personagem que está em cena. Assim que ele aparece, fico esperando que surjam também Benedito e o galado do Corniso, de <em>Muito Barulho</em>&#8230;; o garçom de <em>Roda Chico</em>; o falastrão de <em>O Capitão e a Sereia</em>. Porém, em <em>Ricardo III</em>, quem aparece é só Ricardo III mesmo. Se Marco conseguiu me fazer rir de quem eu não queria e agora, me fez enxergar somente Ricardo, certamente está fazendo um trabalho bem feito. Assumo a culpa por qualquer disposição em contrário.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_06_marco_cesar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-811" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/clowns_r3_06_marco_cesar.jpg" alt="" width="600" height="414" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, César, o grande culpado por me fazer sair do claustro e escrever este texto imenso.  Ele faz três papéis importantes: Clarence, a Duquesa e Tyrrel Jararaca. Este último é o que mais rápido cativa a plateia, até por ser um cangaceiro e, portanto, o mais próximo de nossa realidade, de nossa cultura. Mas é com a Duquesa que ele vive o momento de apoteose da peça. Ninguém consegue ficar sem rir e aplaudir. Contar estragaria a surpresa. Só posso dizer que quem viu vai passar muito tempo com <em>Bohemian Rhapsody </em>na cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">Falei de todos? Não. Faltou Titina, de quem sempre me recuso a falar por me sentir afetado por todo carinho que tenho por ela. Quando a conheci, era ainda uma menina e, creio, ela nem imaginava que viria a ser atriz. Penso que por ser uma figura mais popular, que aparece na tevê, o público, em geral, já se sente à vontade para gostar mais dela. Gostaria de vê-la atuando fora de Natal. Nesta peça, sua rainha Elizabeth tem falas que fazem o público gargalhar a toda hora. Do interior do Rio Grande do Norte, Titina conhece bem o jeito e as expressões populares que são imediatamente reconhecidas e agradam. É a pessoa perfeita para virar para o rei e dizer: “<em>Ricardo, não confunda cu com bunda.</em>” Isso em um tempo certo de piada e fazendo todo mundo acreditar que a rainha não passa de uma alpinista social daquelas bem ralé.</p>
<p style="text-align: justify;">Ricardo III é uma tragédia, uma comédia, um musical, um espetáculo de clowns. Dizer que é completo, seria como utilizar aquelas palavras que disse, lá no início, que não usaria. Se achei <em>O Capitão e a Sereia</em> a melhor peça do grupo, <em>Sua Incelença, Ricardo III</em> é o melhor clowns e o melhor Shakespeare dos Clowns de Shakespeare. Em 2011, vai rodar pelo país. Fique de olho para quando passar aí por perto.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * * * * * * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos relacionados</strong><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/11/29/os-clowns-o-capitao-e-a-falta-de-critica" target="_self">Os Clowns, o Capitão e a (falta de) Crítica</a><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/08/29/velhos-palhacos-na-estrada" target="_self">Velhos palhaços na estrada</a></p>
<p><strong>Fotos:</strong><br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/unsdiasemnatal/sets/72157625493912290" target="_blank">Sua Incelença, Ricardo III</a> (por Sandro Fortunato)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/unsdiasemsampa/sets/72157625368673903" target="_blank">O Capitão e a Sereia</a> (por Sandro Fortunato)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal" target="_blank">O Casamento</a> (por José Luiz Coe)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal/sets/72057594056601062" target="_blank">Roda Chico</a> (por José Luiz Coe)<br />
<a href="http://www.flickr.com/photos/clowns_natal/sets/72057594056630444" target="_blank">Muito Barulho por Quase Nada</a> (por José Luiz Coe)</p>
<p><strong>Mais Clowns:<br />
</strong><a href="http://www.clowns.com.br" target="_blank">Site oficial dos Clowns de Shakespeare</a><br />
<a href="http://odiariodocapitao.blogspot.com" target="_blank">O Diário do Capitão</a></p>

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		<title>Consolação</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Nov 2010 01:40:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
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		<category><![CDATA[Cemitérios]]></category>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Algumas pessoas que tiveram a oportunidade de ver parte do material bruto das mais de 7 mil fotos que fiz em cemitérios pelo país me cobram transformar isso em livro e exposição. Como é possível ter bastante informação a respeito &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/11/01/consolacao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas que tiveram a oportunidade de ver parte do material bruto das mais de 7 mil fotos que fiz em cemitérios pelo país me cobram transformar isso em livro e exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Como é possível ter bastante informação a respeito do Cemitério da Consolação (São Paulo &#8211; SP) pela Internet e eu mesmo <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/04/05/passeios-por-cemiterios-iii-consolacao/" target="_self">já falei dele aqui</a>, decidi fazer, hoje, um post totalmente visual para dividir com vocês algumas de minhas fotos preferidas feitas lá.</p>
<p style="text-align: justify;">A minha parte é mostrar que onde muitos veem dor e morte, eu vejo arte. A de vocês, hoje, será sugerir títulos para as fotos. Só a primeira já tem: “<strong>Nós que aqui estamos por vós esperamos</strong>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Espero que gostem. Aguardo sugestões.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso01_nos_que_aqui-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-713" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso01_nos_que_aqui-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso02_torso_nu-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-714" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso02_torso_nu-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso03_anjo_dedo-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-715" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso03_anjo_dedo-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso04_pernas_rosto-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-716" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso04_pernas_rosto-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso05_anjo_prece-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-717" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso05_anjo_prece-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso06_cristo_ceu-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-718" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso06_cristo_ceu-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso07_dedo_flores-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-719" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso07_dedo_flores-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso08_perfil_mulher-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-720" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso08_perfil_mulher-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso09_saudade_flores-Custom.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-721" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/conso09_saudade_flores-Custom.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Estas fotos podem ser vistas em tamanho maior no <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/" target="_blank">Flick Arte Tumular</a>.</strong></p>

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		<title>Necrópole São Paulo</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Nov 2010 02:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
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		<description><![CDATA[Confesso: sempre que me proponho a falar sobre cemitérios, penso em algo bem definido, mas começo a viajar nas fotos, percebo novos detalhes, descubro novas histórias e, de repente, há quase um livro em minha cabeça. Quando pensei em escrever &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/31/necropole-sao-paulo/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsorriso.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-702" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsorriso.jpg" alt="" width="600" height="252" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Confesso: sempre que me proponho a falar sobre cemitérios, penso em algo bem definido, mas começo a viajar nas fotos, percebo novos detalhes, descubro novas histórias e, de repente, há quase um livro em minha cabeça. Quando pensei em escrever sobre a Necrópole São Paulo, imaginei partir das obras de Alfredo Oliani, autor de <em>O último adeus</em>, sobre o qual falei no texto anterior (<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/30/sexo-amor-e-morte/" target="_self"><em>Sexo, amor e morte</em></a>). Quando comecei a escolher as fotos dentre as mais de 500 que fiz em dois corridos dias de visita àquele cemitério, lembrei de tantas esculturas lindas e tantas histórias que passei um dia inteiro recordando tudo que vi por lá.</p>
<p style="text-align: justify;">O Cemitério São Paulo (ou Necrópole São Paulo, como ostenta em sua fachada) me pegou de surpresa. Eu vinha de dois dias inteiros fotografando o da Consolação. Havia andado quilômetros e quilômetros sob sol forte, estava cansado, desidratado, com braços e mãos tremendos depois de quase 3 mil cliques e com um belo bronzeado de cemitério (só rosto e braços queimados). Imaginei que não veria tantas nem tão interessantes obras quanto nos cemitérios da Consolação e do Araçá,  mas estava completamente enganado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp02_esconde.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-703" style="border: 0pt none; margin: 0px;" title="atsp02_esconde" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp02_esconde.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a>O São Paulo começou a funcionar em 1926 por conta da superlotação dos cemitérios da Consolação (inaugurado em 1858) e do Araçá (1887). A essa altura, outros cemitérios públicos já haviam sido criados e as divisões de classes sociais também estavam estabelecidas na morte. Os ricos precisavam de mais espaço e assim surgiu o São Paulo. Valendo-se de quase 70 anos de experiência, a nova necrópole nasceu e cresceu mais organizada. As ruas por onde transitam os carros são mais largas, os espaços entre as quadras são desenhados em arcos, há muita luminosidade, é tudo muito aberto e a área está em um declive – quando você sobe em direção à colina central, vai vendo a cidade do lado de fora. É muito agradável.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando lá, pela primeira vez, a apenas uma hora antes do encerramento do expediente e sem conhecer nada, tive que confiar plenamente nos conhecimentos de um dos funcionários, que me fez o favor de mostrar, tão rápido quanto possível, o que havia de melhor e mais representativo. Foi no túmulo de uma família italiana (Parello) que vi um conjunto escultórico diferente de tudo que conhecia. A obra mostra duas jovens, separadas por um muro ou uma parede, que parecem brincar de esconde-esconde. Elas estão se divertindo (o detalhe do sorriso na foto que abre este texto é daquela que parece estar se escondendo) e é impossível não notar, de imediato, que a cena mostra a morte de uma maneira muito diferente e mais leve do que se costuma vê-la. Em algum instante, o jogo de esconde vai terminar e as pessoas voltarão a se encontrar, a ficar juntas. No muro que as separa há ainda uma placa com um poema, em italiano, que reforça a ideia da transformação, da passagem do tempo e do pedido de paciência e percepção que se deve ter a respeito da morte. É a conversa de uma filha com a mãe, dizendo que retornará, levantando-se da terra como uma flor e, quando isso acontecer, elas se reconhecerão. A composição é um acróstico que forma a seguinte mensagem: <em>Mariana Parello delicato fiore</em> (delicada flor).</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp03_oliani.jpg"><img class="size-full wp-image-705 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp03_oliani.jpg" alt="" width="600" height="260" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Outro conjunto que chama atenção, logo na entrada, próximo a <em>O último adeus</em>, é também um obra de Alfredo Oliani, de 1949. Ele mostra quatro personagens: dois homens carregando um terceiro, morto, enquanto uma mulher demonstra seu pesar. Se pudessem ficar em pé, cada criatura teria mais de dois metros de altura. É feito em bronze e, como em outros trabalhos de Oliani, <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/5134139478/" target="_blank">os detalhes impressionam</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo de início, achei que o São Paulo concentrava um grande número de túmulos de famílias italianas, assim como trabalhos de escultores italianos ou descendentes. Além de Alfredo Oliani, há obras de Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Nicola Rollo e Antelo Del Debbio, para citar somente os mais conhecidos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp04_anjos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-706" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp04_anjos.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Os Anjos</em>, de Brecheret, no túmulo da Família Scuracchio, está entre as obras mais representativas dos escultores ítalo-brasileiros no Cemitério São Paulo.  Também é interessante saber que Brecheret, autor do <em>Monumento às Bandeiras</em>, da <em>Graça</em> (Galeria Prestes Maia), do <em>Fauno </em>(Parque Trianon) e de várias obras para túmulos de cemitérios paulistanos foi sepultado lá. Seu túmulo é extremamente simples. Só percebido e lembrado graças a <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/5133538285/" target="_blank">uma pequena placa</a> com sua efígie e datas de nascimento e morte. Muito diferente dos grandes monumentos mortuários que fez para a aristocracia paulistana.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp06_comendador.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-707" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/11/atsp06_comendador.jpg" alt="" width="600" height="268" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Exemplos de ostentação e orgulho eterno não faltam. Alguns, mesmo católicos, pareciam não ligar para a soberba como um dos pecados capitais. O <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/5132369979/" target="_blank">mausoléu do Comendador Joaquim Gil Pinheiro</a> é desses que se veem de longe. Tem pelo menos 8 metros de altura, é cheio de placas e títulos, tem a entrada ladeada por duas esculturas de santos em tamanho natural, um busto do comendador do lado de fora, outro do lado de dentro, além de uma representação mortuária de corpo inteiro (comum entre nobres e clérigos na Europa, mas raro por aqui). Do lado de fora, o Comendador avisa: “<em>Aqui jazem os meus ossos neste campo de egualdade pois que esperam pelos vosso quando Deus tiver vontade. – J. Gil Pinheiro</em>”. No interior, acima do corpo de mármore, outra placa na qual se lê: “<em>Aqui jazem os restos mortaes do Commendador Joaquim Gil Pinheiro nascido em Portugal no anno de 1855, que muito amou o Brasil, com especialidade São Paulo, onde viveu 48 annos até o dia de seu fallecimento a 28 de novembro de 1926. Orae por elle.</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas personalidades conhecidas foram sepultadas no São Paulo e também possuem belas obras em seus túmulos como o empresário <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/5132370425/" target="_blank">José Ermírio de Moraes</a> e o desenhista <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/5132228903/" target="_blank">Belmonte</a>. Estas e outras, você confere no <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular" target="_blank">Flickr Arte Tumular</a>.</p>

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		<title>Sexo, amor e morte</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Oct 2010 19:40:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
		<category><![CDATA[Artes plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Cemitérios]]></category>
		<category><![CDATA[Erotismo]]></category>
		<category><![CDATA[Estatuária]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem me conhece ou acompanha o blog há mais tempo não se assombra com meus textos e fotos sobre cemitérios. Sempre gosto de lembrar: cemitérios são museus. Em relação ao Brasil, falo dos modelos surgidos em meados do século XIX &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/30/sexo-amor-e-morte/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_ultimoadeus.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-692" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_ultimoadeus.jpg" alt="" width="600" height="223" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quem me conhece ou acompanha o <em>blog</em> há mais tempo não se assombra com meus textos e fotos sobre cemitérios. Sempre gosto de lembrar: cemitérios são museus. Em relação ao Brasil, falo dos modelos surgidos em meados do século XIX e que foram registrando a História, com mais intensidade, até os anos 1960.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço muita gente que estranha minha familiaridade com as necrópoles e diz que só vai pisar em um cemitério quando estiver morta. Devo avisar: morto, ninguém pisa em lugar algum. Tampouco poderá apreciar toda a riqueza artística e histórica que há em alguns como os da Consolação, Araçá e São Paulo (os três na capital paulistana e sobre os quais falarei nos próximos textos) ou São João Batista e do Caju, no Rio. Portanto, um conselho: <strong>aproveite para ir a cemitérios enquanto está vivo</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvi começar esta nova série mostrando um bom motivo para ninguém ter medo dessas visitas, falando de coisas que todos querem em vida: amor e sexo. Sim, eles estão lá, representados de várias formas. Sexo?! Sim. Ou, caso prefira, o amor sensual, o erotismo. Os três mais belos exemplos que conheço estão em São Paulo. Dois deles, desde os anos 1920.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_solitudo.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-693" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_solitudo.jpg" alt="" width="600" height="340" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Solitudo</strong></em>, o primeiro nu feminino do Cemitério da Consolação, é de 1922 e foi esculpida por Francisco Leopoldo e Silva. Trata-se da figura de uma mulher em aparente êxtase sensual. Esculpida em granito, tem detalhes que só podem ser devidamente apreciados <em>in loco</em>. O que na foto parecem ranhuras são detalhes de um véu translúcido.  Segundo informações de José de Souza Martins, que constam no <em>folder</em> <em>História e Arte no Cemitério da Consolação</em>,</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">“(&#8230;) foi esculpido para a sepultura do advogado Teodureto de Carvalho e sua esposa, família antiga de São Paulo e Minas. O pai de Teodureto, Teodoro, foi chefe de polícia, secretário da Agricultura e senador estadual. Francisco Leopoldo e Silva era de Taubaté, como seu irmão mais velho, Duarte, futuro arcebispo de São Paulo. (&#8230;) Foi professor primário e estudou arte, tendo recebido bolsa para estudar escultura em Paris, retornou ao Brasil durante a Primeira Guerra, e com família já constituída, foi para Roma, após o conflito, para se aperfeiçoar. Já estudara aqui com Amadeu Zani, autor de várias obras expostas em lugares públicos de São Paulo e também no Cemitério da Consolação. Sofreu influência de Rodin. Teve estúdio no Palácio Episcopal, no início dos anos vinte, quando era arcebispo seu irmão, dom Duarte, na rua São Luís, onde é hoje a Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Aparentemente, ali esculpiu <em>Solitudo </em>(&#8230;)”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_interrogacao.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-694" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_interrogacao.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>A Interrogação</em></strong> está no túmulo de Moacyr Piza, jovem advogado e escritor que viveu um intenso e trágico romance com Nenê Romano, uma linda cortesã de luxo. A escultura, em granito, também é de Francisco Leopoldo e Silva. Segundo contam, foi colocada no túmulo de Piza aproximadamente um ano após sua morte, ocorrida em 1923. O advogado de 32 anos matou-se com um tiro, dentro de um táxi, após matar a amante.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">“Nenê Romano era o nome pelo qual se conhecia Lina Machiaverni, imigrante italiana cuja família chegara ao Brasil quando tinha dois anos de idade. Fora costureira no Brás. Moça lindíssima, acabou se tornando conhecida cortesã, companhia de homens famosos e poderosos. Era odiada pelas mulheres da elite. Num corso de carnaval, na avenida Paulista, jovem mancebo de família rica jogou-lhe um bilhete, o que foi percebido pela namorada, de uma das mais ricas famílias de fazendeiros de café. A moça ajustou dois jagunços da fazenda da família, em Ribeirão Preto, para que dessem um corretivo à cortesã. Nenê Romano levou uma navalhada no rosto num atentado de 1918, que a desfiguraria. Apresentou queixa e iniciou processo contra a mandante do crime. Mas o processo foi ficando pelas gavetas, pois era ação de prostituta contra gente poderosa.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">“Nenê, então, contratou Moacir Piza, advogado já famoso, para que desemperrasse o processo. Moacir Piza se apaixonou por ela. Estiveram juntos por dois anos na boemia, namorando em hotéis e táxis. Mas Nenê começou a sair novamente com outros homens, desinteressou-se por ele, que se tornara homem relapso em relação ao trabalho como jornalista e advogado. O namoro acabou. Moacir Piza foi procurá-la na noite de 25 de outubro de 1923, na tentativa de reatar o relacionamento. Ela estava de saída. Ele insistiu para que ela entrasse no táxi, para conversar. Na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe matou-a com quatro tiros e matou-se em seguida, caindo sobre ela. A vingança da namorada do almofadinha que cortejara Nenê Romano já era indicação de que, entre as mulheres, culpada era a mulher, em casos assim. A escultura de Francisco Leopoldo e Silva, em forma de interrogação, também expressa a mentalidade da época em relação a mulheres como Nenê Romano: por quê? Que sentido tinha o suicídio de um moço de família antiga, parente de políticos, advogado estabelecido, boêmio conhecido, de vida alegre e de bem com a vida, que se apaixonara por uma pobre proletária do Brás, garota de programa de ricos e poderosos?”</p>
<p style="text-align: justify;">A história virou filme. <em>Desatino</em>, curta de Dimas Oliveira Junior, lançado em 2008.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_ultimoadeus2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-695" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/at_ultimoadeus2.jpg" alt="" width="600" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O último adeus</strong></em>, de Alfredo Oliani, está no túmulo da Família Cantarella, no Cemitério São Paulo.  A foto logo acima, a que abre este texto e também a que ilustra o texto anterior (<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/28/da-urgencia-dos-que-conhecem-a-morte/" target="_self"><em>Da urgência dos que conhecem a morte</em></a>) mostram a obra. Diferente das visitas aos cemitérios da Consolação e do Araçá, nas quais tive, respectivamente, as companhias de Popó e Fininho (falarei de ambos nos próximos textos), no São Paulo, não pude contar com alguém que me tirasse determinadas dúvidas. E, você sabe, quanta maior a curiosidade, mais perguntas aparecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao nos depararmos com o enorme casal de bronze representado em <em>O último adeus</em>, a primeira ideia que vem à mente é de um homem que perdeu a mulher amada. É isso que vemos. Um homem jovem, vigoroso, nu (os detalhes perfeitos da musculatura impressionam) beijando uma mulher, também jovem, de olhos fechados, já morta. Mas, na realidade, aconteceu o contrário. A obra foi encomendada por Maria Cantarella, viúva de Antonino Cantarella, falecido em 1942. Os papéis são invertidos. Parece-me que ela quis representar não só a imortalidade do amor e da paixão do casal, mas apresentar, principalmente, a quem vê o monumento, o homem de sua vida em todo seu vigor, pleno, vivo. E ela, morta. Talvez seja uma representação mais perfeita da saudade. Quem fica é condenado a uma morte em vida. “<em>Ao Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto</em>”, são os dizeres na lápide ao lado. Maria, dez anos mais jovem, só se juntaria ao amado quatro décadas depois.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das interpretações que a história – contrária ao que se vê – pode gerar, surgem outras dúvidas. Infelizmente, a ação de vândalos contribui em muito para apagar os registros históricos mais visíveis. Muitas vezes, o visitante comum sequer saberá quando o homenageado nasceu ou faleceu, já que os números ou placas com datas são arrancados. No caso de <em>O último adeus</em>, isso me chamou bastante atenção. Na sepultura, a data de morte de Nino aparecia da seguinte maneira: 23-*2-1*4* (onde os asteriscos representam os números arrancados). Tudo que se poderia dizer é que havia morrido na antevéspera do Natal de algum ano na década de 1940. Mas há uma informação que confunde ainda mais. Na base do monumento, lê-se: A. OLIANI &#8211; S. PAULO 30-06-928. Como a estátua teria sido feita em 1928 (não há o “1” no entalhe) se foi encomendada após a morte de Nino, em 1942? Um pouco mais de conhecimento histórico-biográfico e a confusão aumenta. Em 1928, Alfredo Oliani tinha apenas 22 anos de idade e estava iniciando seus estudos. Obra criada em 1928, mas só executada em 1942 após a encomenda? Entalhe feito posteriormente com data errada?</p>
<p style="text-align: justify;">A atenção a esses detalhes levam a novas visitas, às buscas nos arquivos dos cemitérios, ao estudo da vida e da obra dos artistas, à familiarização com seu estilo, ao reconhecimento de outras obras sem que se precise conferir a assinatura&#8230; Histórias pessoais e História da Arte é o que encontramos em cemitérios. São cheios de vida e de vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">No próximo texto, um passeio pelo Cemitério São Paulo, mais obras de Oliani e de outros escultores que deixaram sua marca não só nas necrópoles, mas também do lado de fora delas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * * * * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Confira <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/category/arte-tumular" target="_self"><strong>todos os textos</strong></a> sobre passeios em cemitérios e arte tumular.<br />
Dezenas de fotos dos cemitérios que visitei no <a href="http://www.flickr.com/photos/artetumular/" target="_blank"><strong>Flickr Arte Tumular</strong></a>.</p>

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		<title>As sereias na casa de Deus (II)</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Oct 2010 01:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
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		<description><![CDATA[“Venha! Venha! Chegue! Chegue! Olhe. Bonito, né? Fotografe. Venha, venha&#8230;” Era assim, tocado como um boi desgarrado da manada, que minha guia me fez percorrer, em 20 minutos, praticamente todas as partes da Igreja de São Francisco em João Pessoa &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/25/as-sereias-na-casa-de-deus-ii/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias01.jpg"><img class="size-full wp-image-666 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias01.jpg" alt="" width="600" height="250" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Venha! Venha! Chegue! Chegue! Olhe. Bonito, né? Fotografe. Venha, venha&#8230;</em>” Era assim, tocado como um boi desgarrado da manada, que minha guia me fez percorrer, em 20 minutos, praticamente todas as partes da Igreja de São Francisco em João Pessoa (PB). Vinte minutos que para ela teriam sido cinco se eu não me fizesse de doido e mouco à sua toada sem freio. Ela foi cansando e logo já era um aboio, triste, ao longe, “<em>tchau, moço</em>” e me abandonou ali na porta da, segundo ela, “<em>capela de São Francisco, porque a Igreja mesmo é de Santo Antônio</em>”. Prestes a me ver livre, nem quis discutir. Fica para a próxima saber qual santo é dono de qual parte, quem fica com a nave principal, quem fica com a capela que tem uma vista linda e na qual se pode passar horas somente olhando para o teto.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa minha segunda ida à Igreja de São Francisco foi em busca de suas sereias. Nem sabia que havia tanta coisa linda, além delas, para se ver ali. E há! Na próxima, passarei horas. Esteja avisada, dona venha-venha-chegue-chegue!</p>
<p><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/download/sereias.pdf" target="_blank"><img class="size-full wp-image-667 alignright" style="border: 0pt none;" title="Clique e baixe o artigo completo" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias_pagina.jpg" alt="" width="207" height="279" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Soube das sereias há alguns anos, folheando a edição de 5 de abril de 1952 de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro" target="_blank"><em>O Cruzeiro</em></a>. Um artigo de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo" target="_blank">Câmara Cascudo</a> dava conta da excentricidade. Passei pela igreja no final de 2008, mas só conheci a parte externa. Dessa vez, entrei e fui buscar as mulheres com rabos de peixe no altar do Santíssimo.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Cascudo, elas estão lá desde 1779 e não são de ordem erótica, mas símbolos funerários. Ele vai a três séculos antes da igreja de Cristo para explicar a ligação da sereia com a morte, em um tempo e lugar onde elas eram seres alados. Sereia com rabo de peixe, parece, é coisa nossa. Ainda assim, faz sentido que essas também estejam relacionadas à morte. Afinal, o que faz uma sereia quando encanta um homem? Também parece estar relacionado aos desejos, a sedução, aos prazeres, à “perdição” que este caminho leva. Arriscaria dizer que pode haver um sincretismo entre arte, regionalismo e religião. Sabe Deus o que as diabinhas do mar estão fazendo lá!</p>
<p style="text-align: justify;">Cascudo também diz que não conhece outro exemplo desse tipo no Brasil. Não dou certeza, mas se não me falha a memória (ela é muito boa, mas falha), também há sereias na entrada da Igreja de São Pedro, em Recife, Pernambuco. Nem preciso dizer que voltarei a ambas para tirar tudo a limpo, não? Por enquanto, fiquem com <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/download/sereias.pdf" target="_blank">o artigo</a> de <em>O Cruzeiro</em>, com as imagens da época e com as que fiz agora (as sereias tiveram pelo menos uma restauração desde então, pelo que sei, no final da década de 1970).</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias02.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-670" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias02.jpg" alt="" width="500" height="435" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias03.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-671" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/sereias03.jpg" alt="" width="500" height="413" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/igsfran01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-673" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/igsfran01.jpg" alt="" width="500" height="443" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/igsfran02.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-674" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/igsfran02.jpg" alt="" width="500" height="443" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Mais fotos no <a href="http://twitpic.com/photos/sandrofortunato" target="_blank">Twitpic</a> ou em <a href="http://www.facebook.com/sandrofortunato" target="_blank">meu perfil no Facebook</a>.</strong></p>

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