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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Maruim</title>
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		<title>Ignorar a doença não traz a cura</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Jan 2011 21:09:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>
		<category><![CDATA[Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Já falei muitas vezes do Maruim aqui no blog. Já fotografei por lá pelo menos meia dúzia de vezes nos dois últimos anos. Se você nunca viu nada, resumo: é uma comunidade de aproximadamente 250 pessoas encravada nas Rocas, um &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/01/09/ignorar-a-doenca-nao-traz-a-cura/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_01.jpg"><img class="size-full wp-image-854 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_01.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Já falei muitas vezes do Maruim aqui no blog. Já fotografei por lá pelo menos meia dúzia de vezes nos dois últimos anos. Se você nunca viu nada, resumo: é uma comunidade de aproximadamente 250 pessoas encravada nas Rocas, um bairro portuário de Natal, capital do Rio Grande do Norte.</p>
<p style="text-align: justify;">Não gosto de ir ao Maruim. Não gosto de saber que existe gente que vive naquelas condições. Não gosto de saber que, entra ano, sai ano, nada muda por lá. Minto! Mudou sim, desde minha visita anterior, há mais de um ano. Uns 10 casebres foram colocados abaixo. Eram de famílias que saíram de lá, realocadas pela prefeitura, que prometeu que todas as outras sairiam também, no máximo, até o Natal de 2009. “<em>Nunca mais vieram aqui</em>”, diz um morador, repetindo a ladainha comum. “<em>Não se preocupe!</em>”, retruquei, “<em>No próximo ano, eles aparecem. Pedindo votos. <strong>Seja quem for, lembre-se disso: mais uma vez, eles vão prometer e não vão fazer</strong></em>.”</p>
<p style="text-align: justify;">Não é culpa da atual administração. É sua culpa, AGORA. É sua culpa permitir que aquela situação de miséria CONTINUE. A vergonha existe há 30 anos, há nove administrações. Oito políticos passaram pela cadeira de prefeito e não resolveram esse problema. Três deles já governaram o estado; dois chegaram ao Senado; um é ministro, atualmente. O preço de apenas um dos carros de qualquer um deles compraria comida para toda a população do Maruim por um ano. Cada vez que um deles entra em um avião para ir a Brasília ou voltar de lá tira – do meu bolso e do seu – mais dinheiro do que uma família de lá consegue para sobreviver por um mês. Se dois dos senadores (lembrando: ex-governadores e ex-prefeitos que não resolveram nada), donos de várias empresas, de emissoras de rádio e tevê, ricos como empresários, abrissem mão de seu 13º, 14º e 15º salários em um ano (só isso, só os dois), tirariam 6 famílias de lá e as colocariam em casas simples, porém dignas. O mesmo dinheiro seria suficiente para eliminar o esgoto que corre a céu aberto, nas portas e muitas vezes dentro dos casebres.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nada vai mudar. Quem quer mudar alguma coisa, vai lá e faz. Quem quer mudar ou garantir SUA PRÓPRIA SITUAÇÃO, pede voto. É para isso que existe pobre sem educação: para garantir a situação do rico esperto.  Se todo mundo tiver educação e informação, quem vai votar em corrupto, safado e mentiroso? Sim, o sistema é foda. E funciona bem direitinho.</p>
<p style="text-align: justify;">A nós, remediados da classe média, restam três opções: 1) mirar na classe abastada e entrar no esquema para fazer parte dela; 2) alienar-se, fingir que não está vendo e que isso não é problema nosso; ou 3) tirar a bunda da cadeira e unir forças para resolver o problema. Eu faço isso quando vou lá, fotografo e meto a boca no mundo mostrando como essa gente vive. Você faz o quê? E não estou falando só do Maruim de Natal, mas de qualquer favela de qualquer cidade. Não conheço qualquer bairro rico, em qualquer cidade brasileira, que não fique a 10 ou 15 minutos de carro de um Maruim. O que você está fazendo para mudar isso? Votando naquele escroto que lhe prometeu um cargo comissionado?  Eu também gostaria de acreditar nas “boas intenções” dele. Acreditar nos outros é sempre mais fácil. A gente transfere a responsabilidade. Se algo der errado, a culpa não é nossa. Mole!</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_02.jpg"><img class="size-full wp-image-855 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_02.jpg" alt="" width="450" height="623" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Todo ano, meu amigo, o fotógrafo <strong><a href="http://www.canindesoares.com" target="_blank">Canindé Soares</a></strong>, faz o Natal das crianças do Maruim no dia 8 de janeiro, Dia do Fotógrafo. É lindo ver as crianças rindo ao ganhar bolas, bonecas e doces. Ele sabe que isso não é nada, não está resolvendo problema algum. É só uma festa. Ele faz isso para atrair os olhares de outras pessoas para aquela comunidade. Quem embarca na festa achando que é bonitinho ver as crianças sorrindo ou vai lá pela segurança que o momento proporciona para um safári na favela está no time dos que escolheram a opção de se alienar.  A propósito, o Maruim não é um lugar perigoso. A maioria das famílias vive da pesca. Tem algum tráfico e, em uma visita ou outra, a gente esbarra em um jornalista, um advogado, um grã-fininho ou outro babaca qualquer que está ali comprando fumo ou pó. Depois ele põe a beca e se faz de bom moço, de não financiador da miséria e da violência, mostrando toda sua “consciência social”.</p>
<p style="text-align: justify;">No <em>Twitter</em>, quando posto as belas paisagens de Natal, os RTs chovem, incluindo os dos perfis das secretarias municipais.  Nessas fotos recentes, do Maruim, isso não aconteceu. A foto que abre este texto foi feita a uns cem metros daquele <a href="http://twitpic.com/3nment" target="_blank">lindo pôr-do-sol do Canto do Mangue</a>, que vivo fotografando. Grande parte da população só conhece mesmo por foto. Afinal, quem vai se arriscar a ir até “aquele lugar perigoso”, não? Respondo: <strong>quem não tem medo da realidade</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falando em realidade, gostaria de demonstrar como somos capazes de modificá-la ou de só perceber uma pequena parte dela. Observe as duas fotos abaixo e depois retome a leitura.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_03.jpg"><img class="size-full wp-image-856 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/maruim2011_03.jpg" alt="" width="600" height="900" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estes são Gleison, Lorenice e Késsia. Em janeiro de 2008, um deles me pediu: “<em>Tira uma foto da gente?</em>” Juntaram-se, fizeram pose, fiz o clique. Os olhares e os sorrisos são lindos. Késsia, a menorzinha, irmã de Gleison, tinha três anos naquela época. Ela tem um sorriso lindo, não?  Crianças são crianças. Não tem jeito: podem viver na miséria, mas são lindas! Quando sorriem, iluminam tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda foto, foi feita exatamente dois anos depois, em 8 de janeiro de 2011. Gleison tem o mesmo rostinho. Lorenice, a maiorzinha, agora aos 7 anos, está ficando “com cara de mocinha”. Késsia está com os cabelos mais compridos e parece um pouco mais tímida. Todos devem ter reparado que eles parecem mais bem cuidados, mais arrumados. É normal nesses dias de festa. Todos fazemos isso. Eles também. Sabem que serão fotografados e, diferente de nós que entupimos nossos HDs com milhares de fotos, provavelmente serão as únicas que eles terão este ano. Mas a não ser que você seja médico, nutricionista ou um pai(mãe) muito atento(a), não deve ter reparado em um detalhe: eles quase não cresceram.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho três filhos. Quase não reparo no crescimento deles. Como fotografo, consigo perceber como mudaram. Nessa faixa de idade, as mudanças são incríveis. Seis meses fazem uma diferença enorme. Dois anos transformam uma criança absurdamente. Quando são bem tratadas, bem cuidadas, bem alimentadas. Não conheço os filhos da prefeita, que foi minha colega de curso na universidade, mas tenho certeza que, assim como os meus, cresceram bastante e ganharam peso nos dois últimos anos.  Ananda, que era um bebê pequeno e magrinho, prestes a fazer 11 anos, está quase da altura da avó (não que minha mãe seja alta; mas entenda: aos 11 ela vai atingir a altura adulta de duas gerações anteriores). Pietro, que era um bebê aos 3 anos, é um rapaz aos 5. Eu sou bem maior que meus pais. Todos nós temos e tivemos algo que, geração após geração, o povo do Maruim não tem: alimentação.</p>
<p style="text-align: justify;">Este tipo de texto não costuma ter muitos comentários. Em relação a este e especificamente aos meus amigos de Natal, peço que, se puderem e quiserem, assumam aqui, nos comentários, o compromisso de ajudar essas crianças. Uma ida ao cinema com dois filhos, sem qualquer exagero de consumo (entradas, doces, lanche depois) gasta o equivalente a 4 cestas básicas. Uma por semana, durante um mês, para fazer uma família inteira comer bem melhor.  Não quero que ninguém faça promessas ou dê um monte de coisas uma única vez. <strong>QUERO COMPROMISSO</strong> com aquilo que sabemos poder dar. Algum médico? Alguma nutricionista? Alguém que possa dar, todo mês, por um ano ou dois, uma ou duas cestas básicas a uma família? Parece assistencialismo? E é. Isso resolve? Vamos sustentá-los para sempre? Não. Isso vai ajudá-los a sobreviver, a se tornarem mais fortes e, mais adiante, caminharem com as próprias pernas. Pode ser que daqui a quinze anos, o Maruim continue existindo, mas algumas dessas crianças tenham se tornado adultos que possam tirar seus filhos de lá. Quem estiver comigo, PARA AGIR, fale agora.</p>
<p style="text-align: justify;">E você, que mora em qualquer outra cidade, dê uma andada pela vizinhança. Tenho certeza que vai encontrar um Maruim por perto.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/category/maruim" target="_self"><strong>Mais textos sobre o Maruim</strong></a></p>

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		<title>O banho</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jan 2010 13:12:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[O banho da morena é na calçada. Passa gente a pé, de carro, de ônibus. Aproveitando a parada – bem em frente –, às vezes, de lado, disfarçados, os olhos de algum passageiro pousam por mais tempo na pele e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/08/o-banho/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-386" style="border: 0pt none;" title="banho" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/banho.jpg" alt="banho" width="600" height="416" /></p>
<p style="text-align: justify;">O banho da morena é na calçada. Passa gente a pé, de carro, de ônibus. Aproveitando a parada – bem em frente –, às vezes, de lado, disfarçados, os olhos de algum passageiro pousam por mais tempo na pele e nos cabelos ensaboados. Ninguém liga muito. A morena não é alguém. Não tem direito a banheiro, chuveiro, banho sem roupa, privacidade, respeito, um momento só seu. Cumbuca em água pouca, cuidado no cálculo que é para não faltar. Molha, ensaboa, descansa, olha a rua, pega sol, pega fuligem, molha de novo. À vista de todos, mas sem as muitas câmeras previstas por Orwell. Só uma. Quem passa, olha, mas não vê. Se não acreditarmos na miséria, quem sabe ela não desaparece? Não desaparece. A mestiça na calçada a conhece bem. O cenário muda, mas o destino dos personagens é o mesmo. Não é a liberdade dos antepassados à beira do rio. Afastaram o sonho, asfaltaram o rio, mas a menina continua à margem.</p>

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		<title>Maria Eduarda, nossa filha</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 17:41:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta é Maria Eduarda, duas semanas atrás. A foto foi originalmente publicada no Blog de Canindé Soares, sob o profético título Despedida do Maruim. Ao lado, outra imagem: uma boneca esquecida no esgoto. Esta era Maria Eduarda, que foi assassinada &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/12/01/maria-eduarda-nossa-filha/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/eduarda3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-108" style="border:0 none;" title="eduarda" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/eduarda3.jpg" alt="" width="600" height="350" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Esta é Maria Eduarda, duas semanas atrás. A foto foi originalmente publicada no <a href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/" target="_blank"><em>Blog de Canindé Soares</em></a>, sob o profético título <a href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/2009/11/14/despedida-do-maruim/" target="_blank"><em>Despedida do Maruim</em></a>. Ao lado, outra imagem: uma boneca esquecida no esgoto.</p>
<p style="text-align:justify;">Esta era Maria Eduarda, que foi assassinada dois dias atrás. Ia se despedir do Maruim dentro de mais algum tempo, mas essa bonequinha teve sua vida abreviada pela selvageria de animais que nunca deveriam ter saído do esgoto.</p>
<p style="text-align:justify;">No final da manhã, estivemos – eu e Canindé Soares – procurando colocar os primeiros pontos nos “ii”para não deixar que a trágica história da menina seja esquecida. Do disse-sobretudo-NÃO-disse do povo amedrontado do Maruim, surgiram histórias e hipóteses diferentes contadas pelos jornais. Acostumados a frequentar a comunidade, fomos até lá para saber detalhes do ocorrido e, em seguida, conversamos com a Dra. Deusa Alves dos Santos, titular da Delegacia Especializada em Defesa da Mulher.</p>
<p style="text-align:justify;">Circulam duas versões para o ocorrido. A primeira diz que os dois criminosos foram ao Maruim buscando “<em>um acerto de contas</em>” – entenda-se “<em>matar</em>” – um morador do local. Motivo: disputa de tráfico de drogas. A segunda, que começa a se tornar mais consistente, diz que um dos criminosos teria ido vingar a morte do irmão, que havia ocorrido no dia anterior. A mandante teria sido a mãe de Maria Eduarda, que, não é mãe biológica, mas a criava (segundo os vizinhos, com muito carinho) desde que a menina tinha poucos meses de vida. Tudo no condicional, no campo das hipóteses, pois os fatos estão sendo investigados e não há conclusões a respeito de quase nada. O único fato é que uma menina de quatro anos foi morta.</p>
<p style="text-align:justify;">O pai de criação de Eduarda foi prestar queixa no 2º Distrito Policial, no Bairro de Brasília Teimosa, mas foi encaminhado à Delegacia Especializada em Defesa da Mulher, que é a responsável por qualquer tipo de agressão a mulheres de qualquer idade. Até o momento em que estivemos na delegacia, por volta de 10h30 desta terça-feira, este havia sido o único contato de um familiar com a polícia. O pai não havia voltado até então e a mãe não prestou depoimento. A delegada acredita que o alvo era mesmo a mãe e desconfia de seu comportamento. Que mãe entregaria a filha baleada nos braços de uma sobrinha adolescente para que esta a levasse ao hospital? Que mãe não correria em busca de justiça?</p>
<p style="text-align:justify;">O casal está com medo. Toda a comunidade do Maruim está. Ainda que violência, brigas e mortes não sejam algo tão estranho a eles. Em uma de nossas visitas, no início do ano, ouvimos uma conversa entre moradores: “<em>Cadê fulano?</em>”; “<em>Não sabe, não? Levou uma facada no olho, ontem. Tá no hospital</em>”. Assim, de forma trivial, como se a pessoa tivesse dado uma topada e ido ao pronto-socorro fazer um curativo. O Maruim não conhece a violência da tevê ou do cinema. Conhece a violência real, verdadeiramente dura, que embrutece as pessoas. E as crianças de lá, que não têm direito à infância, aprendem isso desde que nascem. Essa menina linda na foto, nem foi criada pelos pais biológicos, que também não devem saber que ela foi assassinada.</p>
<p style="text-align:justify;">Os dois criminosos já foram identificados. Nos jornais, suas alcunhas. Na mesa da delegada, seus nomes verdadeiros. Um já é acusado de outro assassinato cometido este ano. O segundo, ainda não se sabe se é maior de idade.</p>
<p style="text-align:justify;">Equilibrada e se mostrando consciente da função que exerce, a delegada disse acreditar na ressocialização do indivíduo. Lembrei a ela que muitos preferem pensar que criminosos desse tipo fazem um grande favor à sociedade quando resolvem se matar. Poupam a vida de policiais honestos, pais de família, e o dinheiro da gasolina e da munição que eles usam e é pago por nós, cidadãos. Só que, dessa vez, independente da versão que venha a se mostrar verdadeira, uma criança pagou com a vida. Uma criança negra e pobre, atributos que fiz questão de frisar antes de perguntar se, por esses motivos, o crime não poderia acabar sendo minimizado, tratado como um infeliz acaso no qual a criança estava na hora e no lugar errados.  Dra. Deusa garantiu que não.</p>
<p style="text-align:justify;">“<em>A senhora tem filhos?</em>”, perguntei. “<em>Três já crescidos</em>”, me respondeu a educada e ainda sensível (apesar do cargo que também exige certo embrutecimento) delegada, que se arrepiou ao ver a foto da bela Maria Eduarda e seu sorriso inocente como de toda criança. Como foram um dia os três filhos da delegada. “<em>E como a senhora recebeu esse caso?</em>”. “<em>Antes de tudo, como cidadã e mãe</em>”, me disse ela. É com esse sentimento que queremos que o caso seja tratado. Maria Eduarda, que não sabia quem eram os pais biológicos, era minha filha, era filha de Canindé, era sua filha e é filha de cada um que sabe o que é ser pai e mãe. Cada vez que uma criança sorri, vejo um filho meu sorrindo. Cada vez que uma criança é violentada e morta, eu choro como se fosse meu filho. Porque <strong>É</strong> meu filho também. Porque eu me sinto falhando em defendê-lo. Porque eu faço parte do mundo adulto que deve proteger toda e qualquer criança.</p>
<p style="text-align:justify;">Estamos cansados de ver o Mal nos olhos de jovens e adultos drogados, ladrões, estupradores, assassinos. Queremos ver o Bem nos olhos e nos sorrisos das crianças. Que elas possam crescer e manter isso. Particularmente, acredito na existência de uma “justiça divina”, mas acredito mais ainda que seja nosso dever fazer justiça aqui. Tanta civilização, tanta educação, tanto estudo de uns não podem ser subjugados pela selvageria de outros.</p>
<p style="text-align:justify;">A polícia civil está em greve. Dra. Deusa garante que ontem, em apenas um dia de investigação, a polícia obteve muitas informações. Ela acredita que os criminosos serão presos. Nós também acreditamos. Queremos. E vamos cobrar.</p>
<p style="text-align:justify;">Você também vai ou prefere continuar acreditando que essas coisas só acontecem com os outros? Vai esperar uma bala chegar na sua criança?</p>

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		<title>Maria Eduarda</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 11:06:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria Eduarda, 4 anos de idade, moradora da comunidade do Maruim, bairro das Rocas, Natal, Rio Grande do Norte. Desde o nascimento, conviveu com a má nutrição, a ignorância dos adultos ao redor, com a falta de saneamento básico e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/12/01/maria-eduarda/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maruim_esgoto.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-97" style="border:0 none;" title="maruim_esgoto" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maruim_esgoto.jpg" alt="" width="400" height="533" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Maria Eduarda, 4 anos de idade, moradora da comunidade do Maruim, bairro das Rocas, Natal, Rio Grande do Norte. Desde o nascimento, conviveu com a má nutrição, a ignorância dos adultos ao redor, com a falta de saneamento básico e de um futuro promissor. Todas as crianças daquela área podem passar fome, andar descalças o dia inteiro e brincar no esgoto, sem ter um resfriado ou uma alergia. Parecem resistir a tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora, depois de décadas de promessas e uma sucessão de administradores que só apareciam por lá para conseguir mais alguns votos, o <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/category/maruim/">Maruim</a> vai acabar. As famílias ganharão um lugar que possam chamar de casa, as crianças não precisarão viver nos esgotos nem dividir seus finos colchões com ratos e baratas. As mazelas serão minimizadas. Talvez algumas acabem por completo. Para Maria Eduarda, todas terminaram na tarde do último domingo. Com uma bala no peito.</p>
<p style="text-align:justify;">Negra, pobre, nordestina, Maria Eduarda não vai aparecer na capa das principais revistas do país, nem ganhará uma reconstituição de seus últimos momentos a ser exaustivamente reprisada pelos telejornais. Ficará apenas com as matérias de alguns jornais de Natal. Primeira página. Já parece alguma coisa.</p>
<p style="text-align:justify;">Não acompanharemos o julgamento de quem a matou. Provavelmente o assassino nem será preso. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Falta dignidade, sobra medo. Quem deu o tiro talvez encontre a morte da mesma forma, seja por vingança ou durante uma briga de gangues.</p>
<p style="text-align:justify;">Durante o enterro da pequena Maria Eduarda – uma entre dezenas de <a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/sets/72157612339499626/">crianças que conheci no início deste ano no Maruim</a> –, silêncio e nenhuma comoção. Nas fotos nos jornais, adultos e outras crianças de braços cruzados, olhares perdidos, impotentes, pensando que podem ser os próximos. E serão. Só é impossível saber a ordem.</p>
<p style="text-align:justify;">Outros inocentes vão morrer dessa forma. No Maruim de Natal ou de qualquer outra cidade. São uns bichinhos lindos e puros como os meus filhos ou os seus. Em tese, com os mesmos direitos. Na prática, condenados a não ter futuro. Se chegarem à vida adulta, o que serão? Analfabetos como os pais? Traficantes que também matarão outras crianças?</p>
<p style="text-align:justify;">O sorriso de Maria Eduarda, na foto reproduzida pelos jornais, ou das crianças que fotografei no Maruim tem data de validade. Eu poderia ter procurado por ele – o sorriso – em alguma foto, mas preferi colocar uma imagem que espelha bem melhor o futuro dessas crianças. E não adianta mudá-las de lugar. Sem educação, sem saúde, sem alimentação adequada, sem segurança, sem orientação, sem muito Amor, essa história se repetirá sempre.</p>
<p style="text-align:justify;">Não esperemos pelo poder público, que, no Brasil, quase sempre é poder pessoal travestido. Olhe para cada Maria Eduarda como se fosse uma filha sua. Faça o que puder para que seu próximo presente de aniversário, do dia das crianças ou do Natal não seja um pequeno caixão branco.</p>
<p style="text-align:justify;">Você pode ajudar uma dessas crianças. Faça isso.</p>
<p style="text-align:center;">* * * * *</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Links externos</strong><br />
No Minuto: <a href="http://www.nominuto.com/noticias/policia/menina-de-quatro-anos-morre-com-bala-perdida-nas-rocas/42720/" target="_blank">Menina de quatro anos morre com bala perdida nas Rocas</a><br />
Diário de Natal: <a href="http://www.diariodenatal.com.br/2009/12/01/cidades1_0.php" target="_blank">Menina é morta por bala perdida</a></p>

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		<title>Quando a maré encher</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2009 13:19:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[Na terça, tive dois encontros com o Potengi. O primeiro foi logo pela manhã e começou por volta de 9h, no cais do Iate Clube de Natal. Dali partiria o barco-escola Chama-Maré levando uma turma do Instituto de Desenvolvimento Econômico &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/02/11/quando-a-mare-encher/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/mare.jpg" border="0" /></p>
<p align="justify">Na terça, tive <strong>dois encontros com o Potengi</strong>. O primeiro foi logo pela manhã e começou por volta de 9h, no cais do Iate Clube de Natal. Dali partiria o barco-escola Chama-Maré levando uma turma do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente – Idema, na qual eu estava a convite de <strong>Kalina</strong>, que ganhou pontos comigo pela feliz ideia.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/natalpot.jpg" align="right" border="0" />Enquanto aguardávamos o barco chegar do primeiro passeio, fiquei fotografando as imediações. Maré baixa, jangadas e pequenas embarcações descansando na areia, esperando a maré subir. Pouco adiante, as embarcações do Iate Clube pairando placidamente nas águas do Potengi. Retrato fiel a mostrar que para o mais abastado há sempre a possibilidade do mar aberto, da liberdade de ir aonde quiser, na hora em que achar melhor.</p>
<p align="justify">O passeio, de aproximadamente hora e meia, é uma grande aula. O catamarã vai em direção à Fortaleza dos Reis Magos, passa sob a Ponte de Todos, faz a volta, ladeia a praia da Redinha e segue até a ponte de Igapó, de onde retorna ao ponto de partida. Monitores de diversas áreas se revezam em explicações sobre o ecossistema e a História da cidade. Poesia, literatura e música dão um tom mais leve à exposição. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ovEafMRQCCw" target="_blank"><strong><em>Linda Baby</em></strong></a>, o indefectível hino a Natal, de autoria de <strong>Pedrinho Mendes</strong>, é tocado várias vezes: <em>Essa é uma terra de um deus-mar/ De um deus-mar que vive para o sol/ E esse sol está muito perto daqui</em>.</p>
<p align="justify">Era outra a música de Pedrinho em minha cabeça: <a href="http://www.mp3tube.net/br/musics/Pedrinho-Mendes-Esquina-do-Continente/27328/" target="_blank"><strong><em>Esquina do Continente</em></strong></a>, na qual ele canta belezas que hoje já não podem ser vistas. Senti-me em missão de reconhecimento. Duzentas fotos para pensar em como captar melhores imagens na próxima vez. Memorialista, estava mais interessado no crescimento da cidade, nas mudanças e, principalmente, no que ainda pode ser visto da antiga Natal. Construções centenárias que, pela primeira vez, via daquele ângulo, estando no rio que, eu adolescente, sonhava atravessar a nado. Já naquele tempo, os esgotos da cidade ali despejados faziam disso uma péssima idéia. Sobrou-me juízo para não tentar a aventura.</p>
<p align="justify"><strong>O segundo encontro com o Potengi</strong>, no dia de ontem, se deu no final da tarde. De certa forma, ele veio a mim. Estávamos, eu e <a href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/" target="_blank"><strong>Canindé</strong></a>, mais uma vez na comunidade do <a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/sets/72157612339499626/"><strong>Maruim</strong></a>, quando fomos alertados sobre a cheia do rio. Isso acontece com freqüência, não precisando da ajuda das chuvas. A água sobe e invade as vielas e casas do Maruim. Em determinado ponto, é formado um pequeno lago de esgoto. <strong>As crianças, inocentes e sem opção, transformam o local em piscina</strong>. Com direito a  biquínis, saltos, gritaria e todas as doenças possíveis de serem contraídas em uma situação dessas.</p>
<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maremaru.jpg" border="0" /></p>
<p align="justify">A cidade que pretende gastar <strong>um bilhão e meio de reais</strong> para construir um bairro que dê suporte a, no máximo, cinco jogos da Copa de 2014 é a mesma que não consegue retirar algumas poucas famílias de uma área como o Maruim e dar a elas um mínimo de infraestrutura para viverem em condições que possam ser chamadas de humanas.</p>
<p align="justify">Quando recebem a visita do Potengi, as crianças não precisam pegar a água que brota em um buraco <strong><a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/3272007408/">para se banharem como cavalos</a></strong>. Elas ganham uma pequena Veneza de esgoto e o banho vira festa. Nessa hora, a música muda. Entra aquela, nada romântica, lembrando que <strong>essas mazelas fazem parte do dia-a-dia</strong>. <a href="http://blip.fm/profile/sandrofortunato/blip/3577479" target="_blank"><em>Banheiro, cama, cozinha no chão/ Esperança, fé em Deus, ilusão/&#8230; Tomar banho de canal/ Quando a maré encher</em></a>. Esse é um pedaço da <em>Linda Baby</em> que ninguém quer ver.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Do Vietnã ao Maruim</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Feb 2009 21:57:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>
		<category><![CDATA[Série - Ouviu o galo cantar]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem é preciso apresentar esta que é uma das imagens mais conhecidas da História e uma das fotos mais importantes já feitas. Mesmo sabendo do que se trata, procure fazer um simples exercício de leitura. Apenas olhe para ela e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/02/05/do-vietna-ao-maruim/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/vietnam.jpg" height="253" width="374" /></p>
<p align="justify">Nem é preciso apresentar esta que é uma das imagens mais conhecidas da História e uma das fotos mais importantes já feitas. Mesmo sabendo do que se trata, procure fazer um simples exercício de leitura. Apenas <strong>olhe para ela e diga o que vê</strong>. Acho impossível que alguém imagine qualquer conotação sexual pelo fato de ter um ser humano nu aparecendo nela. Impossível, não. Uma mente doentia – muito doentia! – poderia ver isso.</p>
<p align="justify">O horror no rosto da menina de 9 anos, a situação de estar correndo nua e em desespero, com o corpo queimando, o pedido de ajuda, tudo isso captado em um instante. A foto da menina <strong>Phan Thi Kim Phuc</strong> feita por <strong>Nick Ut</strong>, em 8 de junho de 1972, logo após um bombardeio com napalm durante a Guerra do Vietnã, se transformou imediatamente em <strong>um ícone antiguerra</strong>. Contra aquela e contra todas.</p>
<p align="justify">Ainda que haja alguém que não conheça os detalhes da história desta foto, a leitura é imediata: guerra, horror, caos, desespero. Todos os elementos que aparecem na foto mostram isso: a fumaça ao longe, tomando todo o fundo, os soldados, as crianças chorando e correndo em busca de um local seguro.</p>
<p align="justify">Mas não é esta a imagem sobre a qual quero falar. A foto em questão é outra, feita por <a target="_blank" href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/"><strong>Canindé Soares</strong></a>, em 2005, na comunidade do Maruim, em Natal (RN). É esta, logo abaixo.</p>
<p align="center"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/caniped.jpg" height="282" width="423" /></p>
<p align="justify">Ela foi <a target="_blank" href="http://flog.digi.com.br/canindesoares/45072">colocada em seu fotolog</a> no dia 19 de novembro de 2005 sob o título “<em><strong>Fotografia pelo social</strong></em>” e convidava outros fotógrafos para uma visita ao Maruim <strong>com o objetivo de denunciar as condições subumanas em que as pessoas de lá vivem</strong>.</p>
<p align="justify">Assim como na foto de Nick Ut, a foto de Canindé mostra tudo o que é preciso para contar uma história inteira sem precisar de uma única palavra ou qualquer explicação. A grande semelhança entre as duas é o fato de haver uma menina nua correndo. Já o cenário e outros detalhes mostram que a guerra é outra. Nesta, feita por Canindé, é <strong>contra a fome, contra a total falta de oportunidades e as demais mazelas que advém da miséria</strong>.</p>
<p align="justify">É uma foto única, dessas que o fotógrafo não fez porque quis, mas sim porque estava no lugar certo, na hora certa e com a câmera na mão. Estava preparado quando a oportunidade surgiu. Fato é que <strong>a imagem da menina do Maruim também pode ser vista como ícone antimiséria</strong>. A criança sem roupa, descalça, correndo no meio do esgoto que passa na porta das casas da comunidade. Há ainda um componente fortíssimo, que pode sugerir outras comparações com a da garota vietnamita: enquanto esta aparece de frente, saindo da escuridão provocada pela fumaça das bombas e correndo em direção à claridade, para onde a estrada parece mais larga, oferecendo outras possibilidades, a menina do Maruim está de costas, indo para onde a viela se estreita e em direção a um beco onde se vê lixo e nada mais. <strong>O que acontecerá quando ela dobrar e sumir da viela? </strong>Isso mesmo. Ninguém sabe. Mas provavelmente é isso que realmente acontecerá: ela vai sumir, não vai ser ninguém, vai estar eternamente escondida em um local sujo, escuro, onde ser humano algum gostaria de ir.</p>
<p align="justify">Como já informado, a foto foi postada em um fotolog em novembro de 2005. Quase quatro meses depois, Canindé começou a ser <strong>ameaçado por alguém que julgou a publicação da foto como uma ação de pedofilia</strong>. As ameaças, claro, eram sempre anônimas. Qualquer pessoa séria, decente e convicta do que diz mostra a cara. Uma semana depois do início das ameaças, Canindé <a target="_blank" href="http://flog.digi.com.br/canindesoares/53086">republicou a foto</a> sob o título “<strong><em>Pedofilia!?</em></strong>” e deixou que o público fizesse seu julgamento. Fui um dos primeiros a comentar e, dentre outras coisas, disse que uma pessoa tem que ser muito doente para ver alguma maldade nesta foto, provavelmente deveria ser mesmo ou poderia ser alguém que sofreu abusos durante a infância e, não conseguindo superar esse trauma e tendo seu algoz como referência, acha que o mundo inteiro é assim.</p>
<p align="justify">A discussão gerou <strong>quase 60 mil visitas</strong> e cerca de duzentos comentários, quase todos chocados com a possibilidade de alguém ver a foto como um ato ou incitação à pedofilia. Porém, no meio do bombardeio, apareceram outros do gênero “<em>ouviu o galo cantar, mas não sabe onde</em>” e já começaram a dizer que “<em>é isso mesmo</em>” e a agredir o fotógrafo. Tudo, claro, sob o manto do anonimato, residência preferida dos covardes.</p>
<p align="justify">Que exista gente doente e capaz de ter pensamentos tão deturpados, eu admito. O que não entendo é como alguém que toma para si a nobre função de defensor-proprietário da moral não enxergue o óbvio, como, no caso desta foto, <strong>as péssimas condições de vida de milhões de pessoas</strong> representada pela menina do Maruim. <strong>Para mim, não existe nada mais obsceno, nada mais atentatório ao pudor do que isso.</strong></p>
<p><center><img useMap="#Map3" border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" height="25" /></center><br />
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		<title>Gente do Maruim</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jan 2009 03:05:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[Maruim é um mosquitinho comum em área de mangue e de pesca por conta da matéria orgânica em decomposição. O danado pode deixar alguém de cama por quase duas semanas. No Canto do Mangue, em Natal, há uma favela&#8230; favela, &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/01/09/gente-do-maruim/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maruim01.jpg" height="300" width="600" /></p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><strong>Maruim</strong> é um mosquitinho comum em área de mangue e de pesca por conta da matéria orgânica <st1:personname productid="em decomposição. O" w:st="on">em decomposição. O</st1:personname> danado pode deixar alguém de cama por quase duas semanas. No <strong>Canto do Mangue, em Natal</strong>, há uma favela&#8230; <strong>favela, não</strong>, que isso é invenção de político safado, com perdão da redundância, que não leva infraestrutura e condições básicas de saneamento a certas comunidades&#8230; como dizia, em Natal, há uma comunidade que leva o nome do tal mosquito.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maruim02.jpg" align="right" height="333" width="255" />São aproximadamente <strong>260 pessoas</strong>. A maioria vivendo em pequenos vãos que eles insistem em chamar de casa. <strong>Um único cômodo, sem banheiro</strong>, “<em>onde dormem dez meninos e três mulheres com o marido</em>”, segundo me explicam. A formação pouca ortodoxa das famílias é denunciada pelos sobrenomes das crianças. Há sempre um sobrenome igual e muitos diferentes. Os pescadores vivem felizes com seus pequenos haréns, com suas creches e assim a vida vai sendo levada.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">A criançada vai à escola, mas não tem condição de estudar em casa nem quem as oriente para isso. Nas férias, se não estão correndo pelas pequenas vielas tomadas por esgoto – que às vezes passa dentro da própria casa – e animais doentes, acompanham as mães que catam mariscos para vender. Saem cedo para o mangue e voltam ao final da tarde. Lavam, raspam, cozinham e quando juntam um quilo tentam vendê-lo a cinco reais. Tentam. Porque geralmente fica por quatro, três, quanto derem.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Foi na <strong>Comunidade do Maruim</strong> que passei parte da tarde desta quinta. Fui acompanhando <a target="_blank" href="http://www.canindesoares.blog.digi.com.br"><strong>Canindé Soares</strong></a> e pelo menos outros oito fotógrafos: amadores, profissionais, repórteres fotográficos, curiosos. Já há alguns anos que Canindé empreende ações junto à comunidade. Além das fotos, que mexe com a autoestima dos moradores, já promoveu uma sessão de quase cinema, exibindo o resultado <st1:personname productid="em telão. Platéia" w:st="on">em telão. Platéia</st1:personname> cheirosa, banho tomado, a melhor roupa e a garotada gritando, caçoando de cada amiguinho que aparecia. <em>Mangando</em> mesmo, que caçoar é coisa lá de baixo. Pode mangar à vontade!</p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><img border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/maruim04.jpg" align="left" height="400" width="255" />Macaco velho, eu disparava na frente do grupo para pegar os moradores desprevenidos e, portanto, com naturalidade, ou ficava por último, para quando eles cansavam de posar e, distraídos, voltavam a ser eles mesmos. Gosto de retratos, mas prefiro o fotojornalismo e, nesta última modalidade, não tenho direito de interferir na realidade. Com o pequeno batalhão de fotógrafos apontando suas máquinas, a rotina da comunidade muda e a realidade passa a ser outra: a de um bando de curiosos interferindo na vida alheia.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Se não há como impedir isso, que tal fazer a criançada participar de uma forma diferente e passar para outro lado das câmeras? Saquei um celular e fiz o convite a <strong>Júlia</strong>, 9 anos: “<em>Você olha por aqui e aperta&#8230;</em>”, “<em>Pode deixar que eu sei</em>”, me cortou, já gritando para as coleguinhas se juntarem. Pronto! Fiquei popular na comunidade. De “<strong><em>tira uma foto minha</em></strong>”, o mantra mudou para “<strong><em>deixa eu tirar uma foto?</em></strong>”. Deixo, claro. E assim novos fotógrafos se revelaram no Maruim. Sensação maior só quando passei a anotar os nomes de cada um para posterior identificação. A essa altura, as crianças já tinham a certeza de terem virado celebridades. Novo mantra: “<strong><em>Anota aí o meu nome também</em></strong>”. Anoto, anoto. Cíntia, Maiara, Alice, Gláucia, Mariana, Martinha, Geovana, Alane, Alana, Rafael, Alan, “<em>é com dos ls</em>”, desculpa, Allan, Jackson, Vanessa,&#8230; Todos com nome e sobrenome. Tudo gente de verdade! Nenhum deles perguntou como eu me chamava. Ah, tudo bem, eu não sou ninguém mesmo.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify">Fim do palavrório. <strong><a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato03/sets/72157612339499626/">Clique aqui e confira o álbum Maruim</a></strong> no Flickr. Aqueles que participaram da caminhada, deixem nos comentários os endereços de seus blogs e flogs. E até a próxima.</p>
<p class="MsoNormal" align="justify"><strong>Links externos:</strong><br />
<a target="_blank" href="http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/2009/01/08/as-criancas-do-maruin/">Fotos de Canindé Soares no Maruim<br />
</a><a target="_blank" href="http://www.flickr.com/photos/leocarioca/">Flickr de Leo Carioca</a></p>
<p><center><img useMap="#Map3" border="0" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" height="25" /></center><br />
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