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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Do baú</title>
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		<title>Rascunho</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 20:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Do baú]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[De um caderno até então perdido. Escrito em 11.08.2008 Para Orwell e M. Toda arte foi proibida hoje. Estamos no último dia em que é possível ir ao teatro, ao cinema, admirar um quadro, ler um livro, escutar música. Muitas &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/09/02/rascunho/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De um caderno até então perdido.<br />
Escrito em 11.08.2008</p>
<p style="text-align: right;"><em><strong>Para Orwell e M.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Toda arte foi proibida hoje. Estamos no último dia em que é possível ir ao teatro, ao cinema, admirar um quadro, ler um livro, escutar música. Muitas outras tentativas de proibir as emoções foram feitas. Esta prometeu bani-las. Receberemos, todos, máscaras de pedra. Não portaremos mais almas. Nada haverá em nós que não a força necessária para trabalhar e produzir para o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo tipo, todo objeto de arte, o menor e mais desprezível, foi recolhido. Museus e galerias estão sendo fechados; todas as casas, vasculhadas. Nada sobrou. Assim espera o Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo decreto que proíbe as artes, está a proibição dos sentimentos. Sabe-se que muitos irão chorar e se revoltar, que risos existirão, escondidos em reuniões clandestinas. Lembranças existirão.  Por quanto tempo? É um plano a ser cruelmente cumprido a longo prazo. Os que nascerem a partir de amanhã não encontrarão emoção neste mundo. Seus filhos talvez não precisem ser proibidos de chorar ao nascerem. Já não haverá motivo para que o façam. Em 120 anos – assim quer o Estado –, não haverá criatura sobre a terra que se lembre de um sorriso, de uma lágrima, de um descompasso cardíaco que não tenha sido provocado por uma doença.  Em 120 anos, os nascidos não lembrarão um ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Como o Estado pretende manter o controle dessas decisões até lá? Quem garante que tudo não mudará? Nós, que devemos obedecer às leis, fazemos estas perguntas porque temos esperança. Eles, que fazem as leis, não se importam com tais perguntas porque enterram todos os dias, cada vez mais fundo, nossas esperanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sou escritor, atividade proibida a partir de agora. A não ser que trabalhe para o Estado e conte a História Oficial. Não existe mais ficção, conto, poesia. Só a voz oficial. Em uma reunião de artistas, há poucos dias, discutíamos a possibilidade da tradição oral. No dia seguinte, nova lei dizia que os artistas estavam proibidos de ter filhos e que qualquer tentativa de ensinar nossos dons ou conhecimentos custaria as vidas dos envolvidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, toda arte foi morta.</p>

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		<title>Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Jan 2008 03:05:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Do baú]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores Uma paróquia sem paroquianos “Irmãos, os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus” (Rom 8, 8). Sete minutos além das oito da manhã. É domingo e as palavras da Epístola &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/23/igreja-do-senhor-bom-jesus-das-dores/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ibjesus1.jpg" border="0" /></p>
<h3 align="center">Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores<br />
<em> Uma paróquia sem paroquianos</em></h3>
<p align="justify">“<em>Irmãos, os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus</em>” (Rom 8, 8). Sete minutos além das oito da manhã. É domingo e as palavras da Epístola de São Paulo aos Romanos foram ditas no início da missa na <strong>Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores</strong>. Para quem vivia dizendo que sua primeira e única comunhão havia acontecido na quarta série primária, a ocasião é no mínimo insólita. Mais ainda se eu tivesse vindo de uma noitada logo ali na Rua Chile e feito uma escala na Quinze de Novembro antes de chegar à igreja.</p>
<p align="justify">Parece que as palavras querem chegar aos ouvidos daqueles que atravessaram a noite, mas a esta hora não há mais boêmios ou notívagos na <strong>Ribeira</strong>. Todos têm direito ao descanso, a um bom sono. Justo ou não.</p>
<p align="justify">A leitura anterior havia sido tirada de Ezequiel. Fala de um povo que pensa estar vivo, mas não está. Serão assim os que atravessam a noite na Ribeira? No sermão, o <strong>padre José Mário</strong> fala de um seio que fora achado no lixão da cidade e teria servido de alimento a indigentes. Esta é uma manhã de domingo definitivamente insólita.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ibjesus3.jpg" align="left" border="0" height="251" width="188" />De repente percebo que a imagem de Jesus crucificado olha em minha direção. Por que Ele estaria olhando logo para mim? Se eu tivesse me sentado em outro lugar, Ele teria a mesma atitude? Estaria me repreendendo por eu estar escrevendo em vez de prestar atenção ao sermão do padre? Pouco antes do início da missa fotografei-O do mesmo lugar e não lembro que Ele estivesse olhando para mim.</p>
<p align="justify">Nos avisos finais, após a liturgia, falando da procissão da Sexta-feira Santa, o padre José Mário diz que ela será à tarde, como de costume. “<strong><em>Deus me livre de ser à noite. A Ribeira é esquisita</em></strong>”.</p>
<p align="justify">A Ribeira parece ser esquisita para ter uma igreja. Um bairro tipicamente boêmio comporta uma igreja totalmente atípica. A paróquia de Bom Jesus das Dores da Ribeira não tem paroquianos. Explica-se: quase não há moradores na Ribeira. O bairro é comercial e os fiéis que acolhem à igreja vêm de todas as partes de Natal. “A paróquia da Ribeira não é uma paróquia de território, mas de pessoas”, revela padre Mário.</p>
<p align="justify">Mas nem sempre foi assim e para entender a atual situação da Igreja de Bom Jesus das Dores é preciso conhecer um pouco de sua história. Ela foi a quarta igreja a ser construída em Natal, a última no século XVIII. <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo" target="_blank"><strong>Câmara Cascudo</strong></a> &#8211; que lá foi batizado pelo <strong>Padre João Maria</strong> -, no capítulo <em>Igrejas e Vigários</em> de seu livro <em><strong>História da Cidade do Natal</strong></em>, diz que o mais antigo documento que ele havia encontrado era “<em>um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores</em>”. Cascudo ainda esclarece que “<em>apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais</em>”.</p>
<p align="justify">De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano <strong>Frei André</strong>, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Nesta época de reformas aconteceu também uma história que não pode deixar de ser lembrada. Conta Cascudo em uma de suas <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cascudo/blog.htm" target="_blank"><em><strong>Actas Diurnas</strong></em></a> que, em 1915, <strong>Henrique Castriciano</strong> trouxe para Natal os ossos do poeta <a href="http://www.memoriaviva.com.br/itajuba" target="_blank"><strong>Ferreira Itajubá</strong></a>, que morrera no Rio de Janeiro, a 30 de julho de 1912. Depois de alguns meses em cima de uma prateleira, Henrique Castriciano resolveu levar os ossos de Itajubá para a Igreja do Bom Jesus da Dores, para alívio de seu criado <strong>Ambrósio</strong> que, ignorando o conteúdo do caixãozinho, reclamava com o patrão que “não podia dormir com as cantarolas e versalhadas daquele freguês que estava dentro do caixão. Ambrósio afirmava que ouvia alguém cantarolar e dizer versos, horas seguidas”.</p>
<p align="justify">Pois bem. O caixão foi deixado, em depósito, com o Frei André. “<em>Tempos depois, lembrando-se de promover o jazigo para Itajubá, foram amigos ao Bom Jesus</em> (&#8230;). <em>O padre explicou que, numa reforma, não sabendo o que fazer de tanto osso sem dono e sem sepulcro, mandara abrir uma fossa na Igreja e a todos enterrara, com orações rituais. Não sabia indicar onde</em>”. Portanto, um dos maiores poetas do Rio Grande do Norte, que nasceu e morou na Ribeira, está enterrado na Igreja de Bom Jesus das Dores, só não se sabe exatamente onde.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ibjesus2.jpg" align="right" border="0" />A Freguesia do Senhor Bom Jesus das Dores foi criada no dia 9 de janeiro de 1932, pelo bispo Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas. Oitenta anos antes, no dia 21 de fevereiro de 1852, o deputado Leocádio Cabral Raposo da Câmara apresentara na Assembléia Legislativa seu projeto de criação da Freguesia mas, apesar do parecer favorável das comissões, o projeto não vingou.</p>
<p align="justify">O primeiro vigário foi o padre Frederico Pastors (1932-1934), missionário da Sagrada Família. A ele seguiram-se os padres Francisco Scholz (1935), Agostinho Hanneken (1936-1939), José Winterhalter (1940 a 1962), Guilherme Wirlenbrink (1963-1965) e Antônio Schulte Wrede (1966-1969). Alemães, holandeses, poloneses e franceses, os seis primeiros “padres da Ribeira” eram todos missionários da Sagrada Família. Ficaram na Igreja de Bom Jesus das Dores a partir de 1915. Depois construíram a Igreja de Santo Antônio do Alecrim.</p>
<p align="justify">O sétimo vigário da Ribeira foi o Monsenhor Manuel Pereira da Costa (1970-1972), seguido dos padres Talvaci Salustino Soares (1973-1974) e Oswaldo Honório de Freitas, que ficou de 1975 a 10 de outubro de 1997, quando morreu. Então assumiu a paróquia o padre Diocesano José Mário de Medeiros, a 9 de novembro de 1997.</p>
<p align="justify">O padre José Mário é natural de Caicó e acumula outras funções como professor do Seminário São Pedro, capelão da capela do Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e diretor de uma creche que atende mais de 600 crianças em Mangabeira, no município de Macaíba.</p>
<p align="justify">Ele conta que se tornar vigário da Igreja de Bom Jesus das Dores da Ribeira foi um desafio muito grande. Os fiéis que freqüentavam a Igreja estavam acostumados com o padre Oswaldo, que foi o vigário por mais de duas décadas. Padre Mário diz que hoje em dia as pessoas não freqüentam mais a igreja do seu bairro, mas sim aquela na qual se identificam com o pároco e sua pregação. Seria uma espécie de “devoção pessoal”. “Hoje, quem freqüenta a Igreja da Ribeira são pessoas de vários lugares da cidade que me conhecem há 25 anos”, diz o padre. Ele explica que o orago, isto é, o santo que dá nome ao templo, é também um ponto importante que atrai os fiéis. “No caso da Ribeira, o orago é o próprio Jesus e as pessoas têm um grande afeto, um grande carinho pela figura do Jesus sofredor, crucificado”, e arremata dizendo que as pessoas podem mudar, mas sempre haverá gente na igreja, afinal “Jesus é Jesus”.</p>

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		<title>O Beco da Quarentena</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jan 2008 03:05:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Do baú]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[O Beco da Quarentena Ninguém atravessa de uma ponta à outra Em um final de tarde no Bar das Bandeiras surgiu uma conversa sobre o Beco da Quarentena. Há muito tempo eu não ouvia falar naquele lugar. Creio que nunca &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/22/o-beco-da-quarentena/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/beco01.jpg" border="0" /></p>
<h3 align="center">O Beco da Quarentena</h3>
<h3 align="center"><em>Ninguém atravessa de uma ponta à outra</em></h3>
<p align="justify">Em um final de tarde no Bar das Bandeiras surgiu uma conversa sobre o <strong>Beco da Quarentena</strong>. Há muito tempo eu não ouvia falar naquele lugar. Creio que nunca nem mesmo tivesse prestado a mínima atenção a ele, ainda que tenha passado centenas de vezes na sua frente. Naquele dia levantou-se a velha lenda: “<strong>ninguém atravessa o beco de uma ponta à outra</strong>”. Antes de procurar saber porquê, é preciso explicar que o Beco da Quarentena não é um beco. Este é mais um dos mistérios nominais da Ribeira. Na verdade, o local se chama <strong>Travessa da Quarentena</strong> e é uma ruela de passagem entre as ruas Chile e Frei Miguelinho. O povo chamou de beco e assim ficou.</p>
<p align="justify">Em seu livro <em>Breviário da Cidade do Natal </em>(depois editado como <em>Guia da Cidade do Natal</em>), <strong>Manoel Onofre Júnior</strong> termina o trecho intitulado A Zona da seguinte maneira:</p>
<blockquote>
<p align="justify"><em> O velho beco, com seu “claro mistério”, continua maldito. As pessoas decentes o evitam, até mesmo durante o dia, como se o vissem ainda empestado. Que peste era essa e por que não se atravessa o Beco de um lado a outro?</em></p>
</blockquote>
<p align="justify">Conta-se que ali, a poucos metros do porto, ficavam de quarentena os marinheiros que chegavam com doenças contagiosas e as pessoas da cidade já contaminadas. Ao que parece, a referência é feita principalmente em relação a dois grandes surtos de varíola. Depois o local virou ponto de prostituição. Muita gente morreu ali e o Beco ficou como maldito.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/beco03.jpg" align="right" border="0" height="402" width="258" />Pois bem. Na conversa com <strong>Marcelo Andrade</strong>, fotógrafo e jornalista, foi levantado também que clarividentes viam coisas horríveis no Beco. Aquilo não me saiu mais da cabeça e, alguns dias depois, numa tarde, chamei Marcelo para atravessarmos o Beco e colocar à prova a tal lenda. Começamos pelo lado da Rua Chile. Senti um aperto no peito da hora em que pisei o Beco até algum tempo depois de sairmos dele. Marcelo ia reparando nas paredes e no calçamento antigo e eu fotografando tudo. Chegamos do outro lado, na rua Frei Miguelinho, com a sensação de que o Beco era meio estranho, mas com a certeza de que era possível atravessá-lo. Então retornamos por ele.</p>
<p align="justify">Mas aquilo não havia sido suficiente para mim. Não sou clarividente nem nada, aliás, para essas coisas de outros planos, sou cego e surdo como uma porta. Aquele aperto no peito eu preferi pensar que fosse algo causado pela minha imaginação. Mas o Beco seria só isso? Não. Tinha que haver mais alguma coisa.</p>
<p align="justify">Um ou dois dias depois, estava com <strong>Clodoaldo Damasceno</strong> &#8211; jornalista, publicitário e acima de tudo um grande farrista &#8211; no <em><strong>Blackout</strong></em>. Muitas histórias, piadas e muitas, muitas cervejas depois, lá pelas duas e meia da manhã, resolvi fazer a proposta: “E aí? Vamos atravessar o Beco da Quarentena?”. Como diz o povo, Clodoaldo “não contou conversa”, saímos do bar e nos dirigimos ao Beco. Antes pegamos mais uma garrafa de cerveja e levamos conosco, afinal o local precisava ser abençoado.</p>
<p align="justify">Aos gritos de “<strong>viva as almas que morreram e as putas que aqui gozaram</strong>”, atravessamos o Beco bebendo a cerveja e derramando uma parte dela nas antigas pedras do calçamento. Chegamos ao outro lado com aquela sensação de aventura cumprida, aquele sentimento que só os bêbados, boêmios e aventureiros têm ao constatar que estão vivos após terem cometido alguma tipo de loucura. Demos uma olhada na rua. Completamente vazia. Parece que os vivos assustam mais que os mortos. Então calmamente nos viramos para o Beco. Só então percebemos que a única coisa visível era a luz no outro lado, lá na rua Chile. O resto era um breu só. Qualquer pessoa poderia se esconder facilmente ali sem que ninguém percebesse. “<em>Que loucura!</em>”, pensamos. De repente bateu aquela sobriedade de sobrevivente e fizemos outra vez a travessia. Sentamos à beira do rio, no cais do Náutico, e ficamos curtindo aquela história. Na noite seguinte, alguém seria esfaqueado no Beco.</p>
<p align="justify">Eu queria mais. Alguma coisa naquele lugar estava mexendo comigo. Lembrei da história dos clarividentes “que viam coisas terríveis no Beco”. Liguei para uma amiga minha que conhecera havia pouco tempo. Astróloga e taróloga, ela tinha colocado as cartas para mim, sem grandes preparações, e havia acertado em cheio meu momento e meus planos mais imediatos. Naquela época, ela não sabia de mim mais do que meu nome. Achei que ela pudesse ser um canal. Ao telefone, perguntei a <strong>Cristina</strong> se teria algum compromisso na tarde do dia seguinte. Diante da negativa, disse que gostaria de lhe mostrar um lugar. Só. Não disse mais nada. Ela não fez qualquer objeção e disse que tudo bem, iria comigo.</p>
<p align="justify">No dia seguinte, ela passou pela minha casa e nos dirigimos para a Ribeira. Como eu não quisesse responder aonde iríamos, ela disparou: “Não sei que lugar é esse, só sei que morreu um monte de gente lá”. Realmente Cristina era mais sensível &#8211; ou sensitiva &#8211; do que eu poderia imaginar.</p>
<p align="justify">Chegamos ao Beco. Cristina é paulista, mora há pouco tempo em Natal e nem mesmo havia estado na Ribeira até então. Sem responder que lugar era aquele ou o que havia acontecido lá, iniciei a travessia junto com ela. “Apenas sinta”, eu falei, “depois você é quem vai me dizer alguma coisa”. Atravessamos. Cristina insistia que naquele lugar havia morrido muita gente. Então contei a história do Beco e ela “agradeceu” por tê-la feito atravessar o local sem contar nada antes. Perguntei se sentia mais alguma coisa. Ela respondeu que via uma linha dividindo o Beco. Uma linha?! Achei que ela fosse me falar que tinha ouvido vozes, visto fantasmas, qualquer coisa desse tipo, mas não que tinha uma linha dividindo o Beco.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/beco02.jpg" align="right" border="0" height="268" width="258" />De volta à minha casa, mostrei-lhe as fotos que havia feito alguns dias antes, na primeira travessia com Marcelo. Depois mostrei uma reprodução de uma foto antiga quando o Beco ainda era limpo e habitado. Cristina se aproximou do computador e disse: “olha aqui a linha que eu falei”. Lá estava, bem clara, a tal linha. A impressão que se tem ao ver a foto é que haviam dois calçamentos que dividiam a ruela bem ao meio. Hoje é impossível perceber isso.</p>
<p align="justify">Dias depois, Cristina me ligou e disse que talvez fosse bom colocar uma placa identificando o Beco da Quarentena e lembrando as pessoas que ali morreram, talvez isso fizesse bem às suas almas.</p>
<p align="justify">Eu atravessaria o Beco mais vezes depois disso. Sempre saudando aqueles que por ali passaram. Numa noite de lua cheia, que faria o Beco da Quarentena parecer um portal para outro mundo, teria como companhia o escritor cearense <strong>Ricardo Kelmer</strong> e também Clodoaldo. Desta vez fotografamos tudo para marcar a aventura e ninguém dizer que era mentira. Numa outra, eu e Clodoaldo <strong>atravessamos nus</strong>, enquanto a namorada dele segurava nossas roupas. Depois foi a vez dela fazer o mesmo. Sozinha.</p>
<p align="justify">Por esses dias vamos limpar o Beco e botar a tal placa sugerida por Cristina. Nela deverá constar os versos de <strong>Sanderson Negreiros</strong> em sua <em><strong>Canção Desesperada do Beco da Quarentena</strong></em>:</p>
<blockquote><p><em>Aqui, arcos de sólido abandono.<br />
Restos da hora.<br />
Inúteis delíquios à luz dos círios de outrora.</em></p></blockquote>
<p align="justify">Quem sabe assim se realizem seus proféticos versos finais:</p>
<blockquote><p><em>Então, o beco não mais termina em aspereza,<br />
Amanhece puro, como de surpresa.</em></p></blockquote>

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		<title>O Bar das Bandeiras</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/21/o-bar-das-bandeiras/</link>
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		<pubDate>Mon, 21 Jan 2008 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[“Que radiola de ficha é essa que eu nunca vi no Bar das Bandeiras?”, devem estar perguntando seus conhecedores. Não é lá. Aliás, nunca fotografei o Bar das Bandeiras. Essa radiola (prefiro vitrola) ficava no Arpeje, sobre o qual falei &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/21/o-bar-das-bandeiras/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/civone.jpg" border="0" height="273" width="600" /></p>
<p align="justify">“Que radiola de ficha é essa que eu nunca vi no <strong>Bar das Bandeiras</strong>?”, devem estar perguntando seus conhecedores. Não é lá. Aliás, nunca fotografei o Bar das Bandeiras. Essa radiola (prefiro vitrola) ficava no <strong>Arpeje</strong>, sobre o qual falei no texto <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/16/o-outro-lado-da-velhinha"><em>O outro lado da velhinha</em></a>. Foi a partir dessa imagem que comecei a escrever os textos sobre a Ribeira, em 1999. Nela, <strong>Civone</strong> em momento mulher da vida.</p>
<p align="justify">Aos amigos de Natal, peço que juntem suas lembranças nos comentários, assim como atualizações sobre os lugares e pessoas que aparecerão por aqui durante esta semana. Comecemos pelo&#8230;</p>
<h3 align="center"><strong>BAR DAS BANDEIRAS</strong><br />
<em> “O bar que trinca mas não quebra”</em></h3>
<p align="justify">Há muita história e muitas coisas agradáveis a se fazer na Ribeira, mas provavelmente nada supera o prazer de sentar nos bancos altos e encostar-se ao balcão do Bar das Bandeiras, em um final de tarde, numa conversa com os amigos. Enquanto a cerveja gelada não pára de chegar, pode-se abrir o baú de lembranças da vida boêmia ou simplesmente entrar na conversa do grupo ao lado, que talvez não tenha nenhuma semelhança com o seu. As histórias se misturam e você não sai de lá sem ter aprendido algo novo.</p>
<p align="justify">Se você é da cidade ou se pelo menos é brasileiro, vai poder apreciar o desfile das garotas de programa. Só isso. Elas nem vão olhar para você porque estão em busca dos dólares dos estrangeiros. Elas só gostam de carne importada.</p>
<p align="justify">Enquanto isso, o som ligado em alguma rádio se divide. Literalmente. Uma caixa do aparelho de som fica na porta do bar, outra nos fundos, onde ficam os banheiros. Sem nenhuma identificação, geralmente o das mulheres, o primeiro, é também utilizado pelos estrangeiros que freqüentam o local. “<em>Here? Man?</em>”, pergunta um deles. “Não. Homem é aqui”, responde <strong>Dona Graça</strong>, dona do bar, enquanto o gringo faz algum comentário que ela não entende.</p>
<p align="justify">O Bar das Bandeiras é mais conhecido em todo o mundo do que qualquer beleza natural do Rio Grande do Norte. Não tem Dunas de Jenipabu, Morro do Careca ou seja lá o que for que bata sua fama. Isto por um simples motivo: o local tem como freguesia principal os “marítimos”, os homens que trabalham embarcados e viajam o mundo inteiro. Quando atracam em Natal, o Bar das Bandeiras é destino certo, seja pela comida caseira de Dona Graça ou pelas fogosas garotas que freqüentam suas mesas.</p>
<p align="justify">O Bar das Bandeiras tem várias peculiaridades. Inclusive a de não se chamar assim e quase ninguém conhecer seu verdadeiro nome: <strong>Bar e Restaurante Coisa Nossa</strong>. Pois é, o Bar das Bandeiras é Coisa Nossa. E desde que nasceu, no dia 3 de novembro de 1984. “Já faz quinze anos que eu estou aqui”, conta a proprietária Maria das Graças Agostinho, “aqui era um depósito de sal. Só tinha mesmo as portas de frente e as de trás. O barzinho anterior era onde hoje é o B52. Lá eu passei três anos só. Não tinha nome, não. Era só um barzinho. Quando eu vim pr’aqui, limpei, ajeitei as coisas. Aproveitei o feriado de Finados, mas o dia que abri mesmo foi no dia 3 de novembro. Tudo era paralelepípedo aqui dentro, o mesmo calçamento da rua. Aqui era um armazém de sal. Eu mesma varri, lavei. Não tinha nada, nada. Onde é o banheiro dos homens hoje, era um tanque para curtimento de couro”.</p>
<p align="justify">Sobre o início da história do bar e seus primeiros freqüentadores, Dona Graça esclarece:  “Comecei com os marítimos, depois foram surgindo as bandeiras e os jornalistas começaram a freqüentar. As bandeiras começaram com um dinamarquês &#8211; Hugo. Ele me fez um visita depois de dez anos. Chorou quando chegou aqui. Por conta da bandeira que ele colocou começou tudo. Era uma bandeira da companhia que ele trabalhava. Isso aconteceu uns dois anos depois que eu estava aqui. Nunca chamavam pelo nome. Tinha uma placa: Bar e Restaurante Coisa Nossa, mas ninguém chamava pelo nome. Chamavam de Bar da Praticagem, até que começou a encher de bandeiras e o nome pegou”.</p>
<p align="justify">Além dos “marítimos”, os servidores da Receita Federal, do Banco do Brasil e da Codern foram, desde o início, clientes certos. Mas teve uma turma da qual Dona Graça sempre abre um sorriso ao falar. Na narração, uma ponta de saudosismo. O pessoal da <em>Tribuna do Norte</em> foi o primeiro a dar vida ao Bar das Bandeiras e em boa parte responsável pela sua fama dentro da cidade. Se não fossem os jornalistas da <em>Tribuna</em>, o Bar das Bandeiras só seria conhecido no resto do mundo, mas não teria aquele ar boêmio, recheado de conversas animadas, sobre política, cultura ou simplesmente sobre a vida alheia.</p>
<p align="justify">Ela recorda: “Aí começou a freqüentar o pessoal da <em>Tribuna do Norte</em>: <strong>Braga</strong> &#8211; eu adoro Braga! -, <strong>Célia</strong>, <strong>Bulhões</strong>. Chegava aqui, no sábado à tarde, esse salão era repleto de jornalistas. Um dia Braga me fez uma surpresa, fez uma matéria, trouxe televisão. Começaram a chamar de Bar das Bandeiras, Bar das Bandeiras e Bar das Bandeiras ficou até hoje”. E era bom nesse tempo? “Ave, Maria, era bom demais”, responde Dona Graça, “eles sempre vinham pro almoço. Para beber mesmo, fazer farra, era só no sábado. Era muito boa aquela época. Do pessoal da <em>Tribuna</em> só tenho lembrança boa”.</p>
<p align="justify">Com o Clube do Chorinho &#8211; uma reunião de músicos promovida por <strong>Rochinha</strong>, da Esquina dos Pneus &#8211; os jornalistas começaram a se afastar. Também foi a época em que Braga, então editor da Tribuna do Norte, deixou o jornal. Então mudou muito. Quem fazia o movimento dos sábados eram os jornalistas. A chegada de uma trupe diferente foi mais um motivo para o afastamento deles. “Aí começou a vir mais o pessoal da rua mesmo. Depois começou a ter desentendimento entre eles e o Clube acabou. Passaram de cinco a seis meses. Aí acabou o movimento das tardes de sábado”, conta Dona Graça. Isso foi em 1994.</p>
<p align="justify">Em seguida começou a se falar em revitalização da Ribeira. A idéia era, a exemplo de outras capitais do Nordeste, dar vida ao bairro antigo da cidade, levando para ele instituições culturais e reativando a noite com novos bares e casas de shows.</p>
<p align="justify">A revitalização da Ribeira começou, oficialmente, no dia 22 de dezembro de 1996, com direito a presença de ministro e colocação de placa comemorativa. No Bar das Bandeiras, claro. “Aqui na Rua Chile só tinha eu mesmo”, lembra Dona Graça, “97 todinho foi todo muito bom, cada dia que passava era melhor. Era bom pelo movimento, mas mudou muito a freguesia que eu tinha. Eles não gostavam de zoada. O pessoal do Banco do Brasil chegava aqui por volta das seis, seis e meia; quando começava a tumultuar eles iam embora. Já era outra clientela”.</p>
<p align="justify">“O movimento de revitalização foi bom enquanto durou”, ela diz, “depois de abril de 97 começou a cair, cair. Eu morro de medo de ficar pior do que está”. A senhora pensa em sair daqui? “Eu penso”, responde ela sem titubear. Dona Graça vê o Bar como um negócio, não se dando conta da importância boêmia e histórica de sua localização.</p>
<p align="justify">Uma vez, comentei com <strong>Livramento</strong>, que acompanha Dona Graça há dez anos, sobre o abre e fecha de vários bares vizinhos e sobre a resistência do Bar das Bandeiras, ela disparou: “O Bar da Bandeiras é assim mesmo, trinca mas não quebra”. “É porque eu fico aqui, segurando a peteca. Agora mesmo está uma fase horrível. Eu abro porque tem que abrir”, diz Dona Graça já com certo ar de cansaço”.</p>
<p align="justify">E assim vai seguindo o Bar das Bandeiras com a mistura de estrangeiros, jornalistas e boêmios. Vez ou outra um político passa por lá, come algo e vai embora. Talvez assim se sinta um pouco mais humano. Lá se vão quinze anos sobrevivendo a tudo e a todos, vendo surgir novos bares ao redor, que fecham com a mesma facilidade que abriram, desprovidos do tempero boêmio do vizinho recheado de histórias e capitaneado por Dona Graça, a porta-bandeiras. Abram alas que ela quer passar.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback.jpg" usemap="#Map" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>O outro lado da velhinha</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jan 2008 03:05:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Do baú]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Imagens da Velha Boêmia que se nega a virar bairro-fantasma Natal, como sempre, está na retaguarda da História. Enquanto no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e outros estados os governos se apressam por tombar seus monumentos pelo Patrimônio Histórico, aqui &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/16/o-outro-lado-da-velhinha/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ribeira1.jpg" /></p>
<p align="center"><em>Imagens da Velha Boêmia que se nega a virar bairro-fantasma</em></p>
<p align="justify">Natal, como sempre, está na retaguarda da História. Enquanto no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e outros estados os governos se apressam por tombar seus monumentos pelo Patrimônio Histórico, aqui se tombam, literalmente, pela força das máquinas da construção civil ou simplesmente senta-se à espera de que o tempo os faça desabar.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ribeira2.jpg" align="right" height="487" width="228" />Em um rápido passeio pela Ribeira, o que mais se vê são prédios sem telhados, sem paredes e sem quase tudo. São cacos da História geralmente cercados por muito lixo.</p>
<p align="justify">O bairro já foi o centro da cidade e das atenções, cheio de vida tanto durante o dia quanto à noite. Cantado em verso e prosa pelos poetas que o freqüentavam, hoje a melhor rima para Ribeira seria lixeira. O bairro fede. As pessoas que lá trabalham nem se dão conta do mau cheiro, talvez acostumadas com o odor dos restos de peixe e da poluição do Potengi.</p>
<p align="justify">Moradores quase não existem. O abandono é geral. Não só do governo, mas também da sociedade. O primeiro não faz nada e o segundo consente. Há um preconceito explícito por se morar na Ribeira. Há infra-estrutura básica necessária para se viver: energia, água, esgoto. Se a Urbana passasse mais vezes seria melhor, claro. O lugar é extremamente desvalorizado e as taxas de aluguel são baixíssimas. Ainda assim, a noite da Ribeira pertence hoje aos vigilantes e aos grupos marginais, não restando espaço para a família.</p>
<p align="justify">Mas a Velha Boêmia se recusa a virar bairro fantasma. Apesar de toda a decadência, ela resiste até mesmo ao descaso e ao ostracismo. Com o final da tarde, o movimento dos trabalhadores da indústria pesqueira dá lugar às risadas das prostitutas. A fala alta parece querer dar vida e se fazer ouvir por todo o bairro. “Ai, vira isso pra lá senão eu quebro essa máquina”, diz uma, ciscando cozinha adentro no cabaré em que trabalha.</p>
<p align="justify">A essa altura, de sol quase posto, já há bêbados também ameaçadores (se é que isso é possível), desistindo da noitada. “Tira a foto pra você ver o resultado”, grunhe um, cambaleando escada abaixo no mesmo cabaré. Assim como a glória, o luxo, a riqueza e a alegria, foram-se também as boas relações entre jornalistas e tais tipos.</p>
<p align="justify">Até no quarto da dona da “boate”, na qual foram encontradas as duas figuras acima, se encontram sinais de decadência. Falta uma lâmpada no bocal dependurado no teto que, cego, aponta para as bonecas de Francisquinha.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ribeira3.jpg" align="left" height="298" width="188" />Nem a imponência das centenárias palmeiras do Salesiano ou do Teatro Alberto Maranhão consegue resgatar algo de glorioso, mesmo porque não é fácil concorrer com um monte de gente se jogando dentro de ônibus barulhentos num empurra-empurra sem fim.</p>
<p align="justify">E é lá na antiga rodoviária que a cada instante aparece um garotinho desnutrido de 10 ou 11 anos falando com se tivesse três: “Dá um tocado pa mim” ou outro mais acostumado com a desvalorização da moeda, “dá cem”.</p>
<p align="justify">Revitalização é a palavra da moda e todos no bairro já ouviram falar e têm a mesma reclamação: tudo não passa de conversa jogada fora. Da prostituta ao bêbado, passando pelo menino de rua, o desabafo de um velho catador de papéis resume o pensamento das poucas almas que ainda dão vida ao bairro: “Se essas fotos que vocês tiram servisse pra alguma coisa&#8230; o pessoal só vem aqui pra fazer chapa. Olha só como isso tá”, arremata apontando com o lábio inferior para os restos mortais do prédio que já abrigou governantes do Estado. Do mesmo Estado que esqueceu a Ribeira.</p>
<p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="1">Originalmente publicado na revista RN Econômico,<br />
nº 266, de 11 de dezembro de 1993<br />
<font color="#ffffff">.</font><br />
</font></p>
<p align="center"><strong>* * * * *</strong></p>
<p align="justify"><em><strong>O outro lado da velhinha – Imagens da Velha Boêmia que se nega a virar bairro-fantasma</strong></em> foi escrito há mais de 14 anos. À exceção da foto que o abre, registrada em 2006, as outras foram feitas originalmente para acompanhar o texto, escrito com a inocente intenção de mostrar um outro lado da Ribeira, área portuária e boêmia da cidade de Natal, quando da realização de um concurso sobre o bairro. Não estava participando. Apenas acompanhava outro artigo no qual eu descia a lenha sobre o tal concurso “que agita jornalistas e provoca enxurrada de besteiras sobre o bairro mais antigo da cidade”. Desnecessário dizer que, em meio tão corporativo quando se trata de suprimir as faltas do vizinho para que as suas não sejam apontadas, criei descontentamento e inimizades eternas. Insânias de juventude. Aos 21 anos, eu era o dono da verdade como todos nessa idade. Hoje, mais maduro, desceria o cacete com mais ardor, mas não é sobre isso que quero falar. O ponto aqui é a Ribeira.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/ribeira4.jpg" align="right" height="319" width="213" />Minha história pessoal está muito ligada ao bairro. Quando me mudei para Natal, em 1986, estudava no Salesiano e meu pai trabalhava no Moinho Natal, ambos na Ribeira. Depois, como estudante de Jornalismo, passei a freqüentar aquelas cercanias à tarde, em rodas boêmias. Em 93, tentei abrir o que seria o primeiro bar da década, o <em>Bar Canal</em>, que acabou não vingando. No final dos anos 90 veio a fase <em>Blackout</em>, o bar que era a minha segunda casa (quiçá a primeira!) e marcou época na história da Ribeira e de Natal. Em 98, fotografei <strong>a casa  onde nasceu <a href="http://www.memoriaviva.com.br/cafefilho" target="_blank">Café Filho</a></strong>, vice que virou presidente com a morte de Getúlio Vargas: era uma casa de tolerância das mais tolerantes que já vi.</p>
<p align="justify">Durante todo esse tempo, testemunhei inúmeras tentativas de fazer o bairro reviver. O <em>Blackout</em> e a <em>Casa da Ribeira</em> foram os mais bem sucedidos nisso. Mas as tentativas de “revitalização”, principalmente por parte do Poder Público, foram todas um fracasso.</p>
<p align="justify">Quase quinze anos depois, pouca coisa contada no texto mudou. O <strong>Arpeje</strong>, cabaré no qual fui ameaçado por putas e bêbados, não existe mais. O prédio que abrigou a primeira sede do governo estadual teve sua fachada (única parte que se manteve de pé) recuperada e por trás ganhou uma nova edificação. O local abrigava aulas de balé. A rodoviária velha e a avenida à sua frente foram reurbanizadas e são hoje “o grande <em>outdoor</em> na frente da favela”. Há dois anos, fiz <a href="http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato02/sets/72057594057774324" target="_blank">uma rápida incursão noturna pela Ribeira</a>. A Rua Chile e adjacências estavam praticamente como sempre as conheci. Um ou outro prédio havia sido recuperado. Para cada um destes, dez ou doze outros estavam em piores condições.</p>
<p align="justify">Há mais ou menos dez anos, a partir de um ensaio fotográfico na Ribeira – uma tarde de reencontro com a louca <strong>Civone</strong> –, do qual saiu uma imagem que está entre minhas preferidas dentre milhares e milhares que fiz até hoje, comecei a escrever uma série de artigos sobre o bairro com o objetivo de reuni-los em livro a ser lançado em 1999, ano em que a cidade comemorou seu quarto centenário. Abandonei a idéia, mas os textos e fotos foram devidamente guardados. <strong>Na próxima semana, vou publicar alguns aqui</strong>: o Bar das Bandeiras, o Beco da Quarentena e a Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores. São um misto de memória e reportagem histórica. Confiram.</p>

<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/01/16/o-outro-lado-da-velhinha/&amp;text=O outro lado da velhinha&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
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