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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Crônica</title>
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		<title>Necrológio de agosto</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 18:12:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[Meus amores morrem em agosto. Mês de fortes ventos de contrariedade. Sopram, destroem, levam embora. E se algo restou de um agosto passado, o atual se encarrega de enterrar de novo, novamente e quantas vezes for preciso. Já existe caso &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/08/08/necrologio-de-agosto/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/08/coraped2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1065" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/08/coraped2.jpg" alt="" width="266" height="387" /></a>Meus amores morrem em agosto. Mês de fortes ventos de contrariedade. Sopram, destroem, levam embora. E se algo restou de um agosto passado, o atual se encarrega de enterrar de novo, novamente e quantas vezes for preciso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já existe caso para pensar em comemorar aniversário de morte. Conferir a sepultura, jogar mais cal e terra, reforçar o cimento, rezar pela finada para que fique onde estiver, desde que bem longe. Alma penada, vade retro!</p>
<p style="text-align: justify;">Misturam-se canções de outros agostos, poemas de desgostos&#8230;   <em>Um grande amor não acaba assim. Acaba, sim!&#8230; O nosso amor a gente inventa&#8230; e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu&#8230; Não vou mais ficar aqui sem compreender&#8230; sei que tudo há de vir no seu devido tempo&#8230; Aceito as coisas como devem ser&#8230; matando o amor em mim&#8230; Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor&#8230;. Porque todo coração é burro e o meu é mais.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Na máscara mortuária, de pedra como são todas, não há emoção. Nem mesmo um sorriso para comemorar a efeméride do desamor. Só distância e uma tranquilidade assustadora, dessas de cemitério pós Dia de Finados, quando todos já amenizaram suas culpas com flores. Desamar se aprende desamando. Em face dos últimos, penúltimos e antepenúltimos acontecimentos desses agostos, só resta perguntar e implorar: <em>Quem inventou o amor?</em> Desinventa, por favor!</p>
<p><BR></p>
<p style="text-align: left;"><strong>Textos relacionados</strong>:<br />
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<a href="Por fim">Por fim</a></p>

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		<title>Telhados de Paris</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jul 2011 21:27:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Pour Ananda, ma petite Potisienne Nei, Parece que não há vento. Pode ver. As árvores, ao canto, estão cansadas de qualquer ballet. Ananda, com sua faixa branca nos cabelos, inventa fotos para mim, para eu escrever algo assim, sem necessidade &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/14/telhados-de-paris/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/telhados_de_paris.jpg"><img class="size-full wp-image-1043 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/telhados_de_paris.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>Pour Ananda, ma petite </em>Poti<em>sienne</em></p>
<p style="text-align: justify;">Nei,</p>
<p style="text-align: justify;">Parece que não há vento. Pode ver. As árvores, ao canto, estão cansadas de qualquer <em>ballet</em>. Ananda, com sua faixa branca nos cabelos, inventa fotos para mim, para eu escrever algo assim, sem necessidade de rima, mas de um fim. Sem pressa, sem correrias pela <em>Champs-Élysées</em> ou pelo Louvre, sem empurra-empurra-de-turistas-vamos-logo-que-tem-mais-gente-pra-ver. Só uma janela em cruz e uma paisagem tão comum, do jeito que você disse. Mas essas casas velhas falam alguma coisa. E no verão não se acha a tal luz que acaricia a dureza cor de giz. Cada janela, um país. Vê alguém nelas? neles? a defender seu território? Um silêncio que grita até em foto.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo se vai e logo acabam as férias. Há tempos, ela desistiu de atualizar o caderno de viagens, dos planos de contar tudo, de falar de todos os cantos, de aprovar ou desaprovar os passeios com os cantos <em>des yeux ou de la bouche</em>. O resto do texto serve para dizer a ela que aproveite essa doce loucura que nos leva a lugares tão distantes, mas sem jamais separar nossos corações. Que ponha seus olhos a registrar tudo, enquanto os meus estão aqui, doidos, doidos, tão doidos para revê-la. <em>Bisou</em>.</p>

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		<title>O homem a olhar o mar de Copacabana</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jul 2011 13:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[A água ficava mais distante. Bem mais. A calçada era estreita; os desenhos das ondas, menores. Largava-se no banco, sem medos, a olhar meninas em maiôs. Todas de generosas curvas, para combinar com a geografia do bairro. A bossa, novíssima, &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/07/o-homem-a-olhar-o-mar-de-copacabana/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/copa1958.jpg"><img class="size-full wp-image-1039 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/copa1958.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A água ficava mais distante. Bem mais. A calçada era estreita; os desenhos das ondas, menores. Largava-se no banco, sem medos, a olhar meninas em maiôs. Todas de generosas curvas, para combinar com a geografia do bairro. A bossa, novíssima, trilha de seus balanços. Os prédios já existiam aos montes, mais baixos, pouco maiores que o Copa e seu charme francês. Ah, o Copa! Quem diria que este lugar onde estou, do outro lado da Atlântica, faria parte da calçada dele? Saía-se do hotel e, em meia dúzia de passos, já se estava entre um Cadilac e um Buick, com o pé na única pista de mão dupla. Olhava-se para um lado e outro, mas sem preocupação. Tudo era um desfile. Não havia pressa. Mais alguns passos e aqui estamos. Um banco, a areia, o mar ao longe, sem qualquer acordo ou obrigação, só se exibindo em sua magnitude e sua frieza. Às vezes, ele se cansa dos nativos e dos gringos. Some com a areia. Vem lamber os prédios. Faz que vai engolir tudo. Parece coisa de quem está enlouquecido, perdido de amor. Depois se acalma e nos devolve a Princesinha para que as nossas voltem a aparecer também. Encantados e cheios de respeito, reconhecemos que existem praias lindas, mas nenhuma com tamanho encanto. E só a ti, mesmo não merecedores de tua beleza, iremos amar.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p>► <a href="http://sandrofortunato.tumblr.com/post/7339120172/giulietta-masina-no-rio-1958" target="_blank"><strong>Veja a foto inteira</strong></a></p>

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		<title>As árvores da Jundiaí</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 18:50:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[As árvores da Rua Jundiaí ainda resistem. De certa forma, não existem, pois quase ninguém lhes dá atenção. Mas continuam lá. Somem casas antigas, dando lugar aos prédios – sempre esses malditos –, e muitas árvores vão com elas. As &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/18/as-arvores-da-jundiai/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/arvoresj.jpg"><img class="size-full wp-image-1006 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/arvoresj.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">As árvores da Rua Jundiaí ainda resistem. De certa forma, não existem, pois quase ninguém lhes dá atenção. Mas continuam lá. Somem casas antigas, dando lugar aos prédios – sempre esses malditos –, e muitas árvores vão com elas. As da Jundiaí continuam firmes e soberanas.</p>
<p style="text-align: justify;">A agradável sombra verde da natureza vai se transformando na desagradável sombra do concreto. Até as clínicas médicas da Jundiaí vão recuando diante dessa força. É o <em>bullying</em> dos arranha-céus. Chegam aos bandos, fazendo barulho, se dizendo donos do pedaço, pondo abaixo qualquer disposição contrária. As árvores são os gordinhos dessa história. São as vítimas preferenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um vendedor de cavaco chinês passa batendo seu triângulo como um profeta a gritar que o fim está próximo. As árvores da Jundiaí testemunham o que ainda hoje parece transgressor para a reacionária Natal: dois homens andando de mãos dadas. De um lugar qualquer, três pessoas se jogam à calçada para ver o acontecimento: um jovem indisfarçavelmente efeminado, talvez admirado com tanto heroísmo; uma senhora em tudo mediana comentando que “<em>Tá vendo?! Eu não disse? Pode sim. É o amor</em>.”; e seu filho, 8 ou 9 anos, sem saber o porquê, já repetindo o sorriso nervoso e os olhos esbugalhados dos outros dois personagens. São tempos de homoafetividade sem medo, mas ainda de vergonhosos comportamentos troglossexuais.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquemos com as árvores, que são mudas, discretas e respeitadoras. A que fica na esquina da Campos Sales sempre ignorou o poder do asfalto que a cerca. Ignora até o trânsito. Já estava ali antes de inventarem rua, calçada, meio-fio, essas civilizices. Parece estar morrendo, mas resolveu ignorar a morte também. Como não encontram solo, seus filhos nascem do seu próprio tronco, que aprendeu a recolher as sementes e fazê-las brotar. Quando outras maldades humanas condenarem seu corpo, outros já estarão se fortalecendo no mesmo lugar. A mãe pode ser cortada, mas a família não sai dali de jeito algum.</p>
<p style="text-align: justify;">As árvores da Jundiaí talvez resistam a tudo e a todos. São enormes e unidas. Literalmente. As que estão em uma calçada se encontram com as que estão do outro lado da rua. Abraçadas em um pacto silencioso de sobrevivência, privam os humanos, seus inimigos, do sol necessário.  Porém, a intenção pode ser outra, pacífica. Podem estar formando um lugar mais agradável, no qual se pode fugir do sol inclemente e de onde quase não se podem ver os prédios tomando conta da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, prefeito, devolveria o trecho que fica entre a Prudente de Morais e a Campos Sales às árvores da Jundiaí. Elas tomam conta da cidade melhor que qualquer pessoa.</p>

<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/18/as-arvores-da-jundiai/&amp;text=As árvores da Jundiaí&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
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		<title>Se existe alguma esperança&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 15 May 2011 22:49:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu já perdi um filho. Um filho que nem conheci. Ele morreu antes mesmo de nascer, junto com a mãe, que tinha apenas 19 anos. Eu tenho três filhos e sou um incompetente como pai. Se faço algum lamento e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/15/se-existe-alguma-esperanca/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/15/se-existe-alguma-esperanca/&amp;text=Se existe alguma esperança&#8230;&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/meninadormindo.jpg"><img class="size-full wp-image-994 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/meninadormindo.jpg" alt="" width="600" height="398" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Eu já perdi um filho. Um filho que nem conheci. Ele morreu antes mesmo de nascer, junto com a mãe, que tinha apenas 19 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tenho três filhos e sou um incompetente como pai. Se faço algum lamento e se existe alguma ponta de uma maldita autocomiseração, é quando penso que gostaria de ter nascido milionário para ser dono de casa e viver para eles. Brincar, ensinar, não ter qualquer outra preocupação, ocupação, necessidade ou outro sonho pessoal. Trocaria qualquer coisa, qualquer vida, para, sendo homem, ser uma perfeita mãe de família dos anos 1950. E viveria com aquele sorriso de dona de casa de filme americano antigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda vez que tenho notícia da dor de uma criança, eu sinto a dor. Toda vez que tenho notícia da morte de uma criança, morro também. Não morro um pouco. Eu morro DE NOVO.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, a primeira coisa que vi ao conectar foi: <a href="http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/05/15/casal-de-minas-gerais-luta-ha-um-ano-na-justica-por-remedio-para-doenca-rara-das-filhas.jhtm" target="_blank"><em>Casal de Minas Gerais luta há um ano na Justiça por remédio para doença rara das filhas</em></a>. Isso é coisa de país subdesenvolvido, de gente subdesenvolvida e, obviamente, governado por gente subdesenvolvida. Eu havia tirado o domingo para exercitar minha mediocridade de remediado, aproveitar o clima chuvoso e ver filmes com Ananda, minha filha de 11 anos. Preferi &#8220;não pensar nessas coisas&#8221;. No fim da tarde, conecto de novo e fico sabendo que um anjinho, Taíssa, sobrinha do meu querido Silvio Lach, nos deixou. Ela morreu com dengue hemorrágica. Uma epidemia que existe por ser transmitida pela picada de um mosquito é coisa de quinto mundo, de país sem qualquer preocupação com saúde. Não interessa se você ou alguém da sua família já teve dengue ou outra doença epidêmica. É um problema de todo mundo. Esperar ação de governante é atitude de gente idiota. Eleger e cobrar, independente de quem foi eleito, é a única atitude que provoca alguma mudança. Se não fazemos nada, se não nos movimentamos, se não cobramos, se torcemos contra e boicotamos (quando nosso candidato não foi eleito), nós SOMOS PESSOAS DE QUINTO MUNDO, por isso temos doenças de quinto mundo e merecemos o descaso de quem nos governa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PERGUNTO</strong>: Você faz alguma coisa ou fica só reclamando da incompetência de quem nos representa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PERGUNTO</strong>: Você vai ficar esperando isso acontecer <strong>COM O SEU FILHO</strong> para finalmente sentir a dor e tentar fazer alguma coisa?</p>
<p style="text-align: justify;">Silvio resumiu de forma verdadeiramente brilhante ao tuitar: <em>A dengue dá em águas paradas, prefeituras paradas, políticos parados, governos parados e, principalmente, pessoas paradas.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TODOS NÓS</strong> somos responsáveis pela mudança. Se tem alguém aí perto que você possa ajudar, ajude. <strong>FAÇA A SUA PARTE</strong> não é uma frase de propaganda;<strong> É UMA LEI DE SOBREVIVÊNCIA DA ESPÉCIE</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em tempo: Meu bebê mais novo, Dom Pietro Fortunato Barbosa de Castro Alves sem Orleans e Bragança, completa seis anos nesta segunda. Pietro e Ananda são regentes do meu coração e os responsáveis mais diretos por eu não ser o mais radical dos niilistas. Não tenho grandes esperanças na humanidade e minha descrença só não é absoluta porque os dois existem. Se eu for um pouco menos incompetente, talvez consiga ajudá-los a serem pessoas melhores que eu. Se existe alguma esperança, ela mora nas crianças. Nas minhas, nas dos meus amigos, nas que não conheço.</p>
<p style="text-align: justify;">Descanse em paz, Taissa. Perdão por não termos conseguido fazer deste mundo um lugar legal para se viver. Ainda estamos só tentando acordar.</p>

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		<title>Mais notas na sala de espera</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 00:48:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">► Para “atendimento por ordem de chegada”, minha tática é a seguinte: chego uma hora antes e quase sempre sou o primeiro. Hoje, me atrasei e acabei chegando 20 minutos depois do início do atendimento. Não contava que todas as pessoas pensam do mesmo jeito, sendo que, como “gente (mentalmente) diferenciada”, só fazem isso em cima da hora. Resultado: eu seria o 30º paciente a ser atendido. Não, não estou falando do SUS. Estou falando de uma clínica particular. A atendente foi boazinha em avisar que a previsão de atendimento seria para dali a duas horas e meia. Tranquilo. Saí, fui pegar uma revista ali perto, dei uma bela caminhada de quase dois quilômetros até o laboratório, que estava fechado&#8230; Parece incrível, mas ainda há coisas que “fecham para almoço” em Natal. Torço para que um dia a cidade chegue ao final do século XX. Ok. Sem problemas. Caminhei de volta. Não estava sol. Não estava calor. Tranquilo, tranquilo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">► Como de costume, aboletei-me no canto mais escondido da sala de espera. Se eu era o 30º paciente de um dos dois médicos e continuava chegando gente, imagine que o local era razoavelmente grande. A espera seria longa e eu sabia que as dores lombares logo apareceriam. Tranquilo – sempre muito, mais e demasiadamente –, montei acampamento. Percebi que espalho coisas ao redor para evitar que sentem próximo a mim. Juro que, até hoje, fazia isso inconscientemente. Mochila de um lado, papéis de outro e está pronta minha pequena barricada anti-humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">► O quadro é o de sempre: dantesco, com pessoas se desmontando nas cadeiras, hipnotizadas pela TV, filhotes selvagens correndo e gritando, adultos selvagens gritando e correndo atrás deles. Só os cheiros diferenciam uma sala de espera de uma feira. A balbúrdia é a mesma. Não adianta se há sistema de senhas e um telão de LCD mostrando seu número, as atendentes gritam o nome de alguém a todo instante. Tenho vontade de dizer que se quisesse meu nome sendo bradado no meio de uma multidão, eu teria sido miss. “<em>E com vocês, na passarela, Sandro Fortunato&#8230;</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">► Duas regras básicas definem meu comportamento: não perder tempo e não fazer qualquer coisa que me estresse. Espera é algo que estressa e faz perder tempo. Basta olhar para as pessoas que são obrigadas a fazer isso. Levantam, perguntam quanto tempo falta, reclamam, começam a fazer ligações no celular, reclamam com a pessoa para quem ligaram, desligam e começam tudo de novo com a voz em volume mais alto. Comigo, não. Isso é o bom da “esquizofrenia exercitada”. Você tem um mundo só seu e se fecha ali, onde só acontece o que você deseja. Tenho sempre um livro e minha caderneta de anotações, que podem me entreter por horas. <em>Old school </em>total. Para a atual peregrinação, imaginei que fosse ler um livro por semana somente em salas de espera.  Quando a coisa começou, achei que pudesse chegar a dois por semana. Acha que é exagero? E se eu disser que li um quase inteiro SÓ HOJE. E não terminei porque parava para fazer anotações (sobre ele e as que me auxiliariam neste texto) e porque escrevi uma crônica inteira. Foram TRÊS HORAS E MEIA DE ESPERA. Nunca fui bom com números. Corrijam-me se necessário. Três horas e meia são 210 minutos, que, divididos por 30 pacientes (eu já incluso para arredondar e facilitar a conta), dá 7 minutos de consulta para cada um, certo? Errado. Eu fiquei metade disso. Esperei três horas e meia para passar três minutos e meio na frente do médico. Vá lá que eu não estava morrendo, era só para saber se estava tudo bem e marcar um pequeno procedimento cirúrgico, mas a relação espera-tempo de consulta é assustadora. Por esse tempo, eu poderia querer um transplante!</p>
<p style="text-align: justify;">► Tenho que deixar claro uma última coisa: os médicos não estão preparados para os meus conhecimentos. Não, não estão. O que são os seis anos de graduação de qualquer um deles na frente dos meus sete anos de <em>House</em>? E sete anos fresquinhos, que fiz como intensivão, nos últimos cinco meses! Conheço todas as <em>lises</em>, <em>oses</em> e <em>psias</em> existentes ou inventadas. Tudo pode ser câncer, sarcoidose ou doença autoimune. Biopsia de cérebro é mais básico que exame de sangue. Se o House que é o House, que ganha 750 mil dólares por caso e é assessorado por 4 (às vezes, por 6) médicos, demora 45 minutos pra descobrir qual é o problema, como alguém pode ir me despachando assim em três minutos e meio? Isso é só o tempo da abertura do episódio, só para eu dizer o que me levou até ali. Não assina Universal Channel? Não tem DVD? Não tem banda larga para baixar os episódios? Se liga, <em>doc</em>!</p>

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		<title>Dor é a fraqueza saindo do corpo</title>
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		<pubDate>Wed, 11 May 2011 18:56:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>

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		<description><![CDATA[Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran. A primeira dor física da &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/11/dor-e-a-fraqueza-saindo-do-corpo/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/dorolhos.jpg"><img class="size-full wp-image-982 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/dorolhos.jpg" alt="" width="600" height="230" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira dor física da qual lembro me pegou ali pelos 10 anos de idade. “Cólicas de fígado”, diziam. Sim, eram físicas, eu me contorcia e corria para o banheiro, mas talvez as causas fossem emocionais, pois sempre aconteciam às vésperas de grandes eventos como as provas finais ou viagens de avião. Elas me ensinaram a não ligar para as coisas e não morrer de véspera. Ensinaram a não me preocupar, mas só me ocupar das coisas quando elas acontecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Dor mesmo, eu conheceria aos 20 anos. Lembro de deitar no chão da sala, suando, arfando, sem conseguir pensar direito. Lembro também da sensação começar a diminuir quando eu já estava deitado na cama da emergência de um hospital, tomando buscopan na veia.  O que aconteceu entre um momento e outro, a dor não me permitiu registrar. Quem já teve cálculo renal não precisou chegar a esta frase para saber o que foi aquilo. Pergunte a uma mulher que já teve parto normal e cálculo renal qual experiência ela prefere repetir. As que conheço, que passaram pelas duas, foram unânimes: preferem outro parto. A tal cólica renal é uma dor dos infernos! Literalmente, derruba a pessoa. Ela não “vai aparecendo” e lhe dá chances de procurar um médico, fazer exames, tomar remédio para que não piore. Ela funciona como um tiro: quando você percebe é porque já foi atingido. Três dias depois, pouco mais de uma hora após ter deixado o hospital, coloquei a danada da pedra para fora. Um trocinho parecido com um grão de areia. Como aquilo pode causar tanta dor?! Não sei, mas anos depois eu sabia como o drama começava e passei por tudo de novo. A diferença é que não quis ficar internado. Fiquei apenas uma noite no hospital. A noite seguinte, passei no bar. Eu e a cerveja já éramos grandes amigos e eu sabia que poderia contar com ela para botar aquela segunda pedra para fora. Deu certo, mas o fígado jamais me perdoará por aquele episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas duas vezes seguintes, nem fui ao hospital. No primeiro sinal, uma lapada de buscopan, cama e paciência. Lembro da palestra de um médico amigo, na qual ele citou um trecho do Sermão da Montanha – “<em>Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados</em>” – e trazia para a realidade física, completando: “<em>Quem chora, sabe onde dói, mostra onde é e tem possibilidade de ser curado.</em>” Possibilidade. Quando a dor bate, eu queria que a ciência tivesse a firmeza e a certeza daqueles que têm fé – pobre de mim, criatura sem fé e sem conhecimento! – e dissesse logo o que fazer para acabar com ela. Não sou chegado a remédios, mas começo a entender quem se entope com eles para não tem dor.</p>
<p style="text-align: justify;">Ando cheio de dor. E do pior tipo: a crônica. Deus não deve ter entendido minhas preces diárias pedindo “uma boa crônica”. Relevo. Ele deve ser super-ocupado e ninguém pode mesmo trabalhar direito nessas condições. Enfim&#8230; estabeleceu-se uma maldita dor crônica, poderosa e cheia de vontades, que me quer totalmente deitado ou andando. Não posso mais ficar sentado. E foi assim que passei mais tempo durante a última década, sempre pesquisando e escrevendo. Só não mais porque prefiro ler deitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Paro o texto por um instante e dou uma olhada no <em>Twitter </em>bem na hora em que Gloria Perez informa sobre uma matéria com ela, publicada hoje, na qual diz: “<em>Escrevo sempre em pé, olhando o mar. Se escrevo sentada, vou ficando torta e acabo tendo dores de coluna. Em pé, não sinto dor.</em>” O repórter se admira tanto que trata a informação como “<em>revelação inusitada</em>”. Inusitada para quem não escreve ou não faz isso há muito tempo. Sua hora há de chegar, meu caro! Ou aceite o conselho e procure evitá-la. Nietzsche já ensinava: “<em>Senta o menos possível. Não acredite em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação &#8211; quando também os músculos estiverem participando da festa.&#8221; Quando em Ecce Homo ele fala de sua doença, diz que, ao final das contas, é isso que leva alguém a ser saudável, que a doença pode “até ser uma estimulação enérgica à vida, a viver mais</em>”. É bem o que penso. Saudável, relaxo. Doente, fico alerta e parto para a guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">Há pessoas que falam em “respeitar a doença”, “não brincar com doença”, não dizem os nomes de algumas, como se isso pudesse atraí-las. Pois se alguma quiser acabar comigo, vai ter que aturar zombaria até o meu último suspiro. Quer me matar e ainda quer respeito?! <em>Ma va!</em> E olha que dor, principalmente uma que não passa, é algo que tira o bom humor de qualquer um. Essa atitude também tem seu preço: ninguém acredita que eu tenha algo grave. O pensamento geral é que se tivesse estaria numa cama, reclamando o tempo todo, indisposto a tudo. Nem os médicos acreditam em um enfermo que sorri e faz piadas. Nem os exames parecem acreditar também, já que até agora nenhum acusou grande coisa. Dor crônica é como uma virose: se você tem, console-se. Parece que não há muito que fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que ganhei esse presente, comecei a reparar que muitos vivem com dor, isto é, convivem com ela. Durante anos! Durante uma vida inteira! As pessoas “se acostumam”. Mudam o humor, mudam o comportamento, mudam alguns hábitos, tomam remédios e vão levando. Isso não é nada bom. Prefiro ir para a guerra sob a frase de recrutamento da marinha americana: DOR É A FRAQUEZA SAINDO DO CORPO. E  se está aqui, eu ponho para fora.</p>
<p style="text-align: justify;">E se você tem dor crônica – ou qualquer doença crônica –, venha cá, me dê a mão, vamos sair dessa. Porque a vida é para ser vivida plenamente. SAÚDE!</p>

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		<title>Notas na sala de espera</title>
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		<pubDate>Tue, 10 May 2011 01:45:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários. ► Tevês. Sempre há &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/09/notas-na-sala-de-espera/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários.</p>
<p style="text-align: justify;">► Tevês. Sempre há pelo menos uma vomitando gritos, violências, desgraças. “<em>O senhor está tomando alguma medicação?</em>”, pergunta a atendente. O homem responde: “<em>9112&#8230;</em>” Tão absorto na pancadaria do futebol que responde informando o número do celular. Convenhamos que, para muitos, o aparelho funciona mesmo como um tipo de droga, viciando e ajudando a fugir da realidade.  Assim como a tevê.</p>
<p style="text-align: justify;">► Às vezes é impossível ler durante a espera por conta do barulho do televisor. Fico impressionando com as pessoas vidradas no monitor, desligadas do mundo. Quem pode gostar de assistir a um telejornal mundo cão – e, hoje, não existe um que não seja – e já acabar com a possibilidade de um dia feliz logo pela manhã? Gente depressiva, gente sem filtro, gente não gente. Direito ao silêncio. Nem em ambientes médicos existe mais. Até o quadro da enfermeira pedindo silêncio sumiu.</p>
<p style="text-align: justify;">► Pernas balançando. O que é esse nervosismo quase endêmico? Algum tipo de energia acumulada? Eu, que vejo humanos como animais menos peludos, que usam roupas e que insistem em se fazer de bípedes, tenho uma explicação simples: na falta de uma cauda, se balança a perna.</p>
<p style="text-align: justify;">► Estranho os hábitos alheios e é provável que as pessoas estranhem os meus. Ou não. Discreto, silencioso. Sempre lendo ou escrevendo. Mas penso em carregar meus tampões auriculares. Aqueles pedaços de silicone colorido enfiados nos ouvidos causariam alguma perturbação.</p>
<p style="text-align: justify;">► Devo ter uma “aparência genérica” ou um rosto de quem sabe tudo. Onde quer que eu esteja, as pessoas me pedem informações. Um senhor se aproxima e me pergunta onde fica o mictório. Talvez tenha imaginado que eu trabalhasse lá por conta da gentileza de ter aberto e segurado a porta para que ele entrasse. Ou talvez porque eu fosse a única pessoa sentada em uma das cadeiras abaixo da escada e que estava concentrada escrevendo. Aquilo não é lugar para paciente aguardar e como estava fazendo algo diferente de ver tevê ou brincar com o celular, aquilo só poderia ser por obrigação.</p>
<p style="text-align: justify;">► Aguardei por 22 minutos até ser chamado para um pré-exame, um eletrocardiograma. Uma ruivinha de cabelos longos me atendeu. Não lembro quando foi a última vez que uma garota tão bonita me pediu para tirar a camisa assim que ficamos a sós no mesmo cômodo. Obedeci imediatamente, antes que ela mudasse de ideia. Conferiu meu peso, altura e me mandou deitar. Eu estava gostando daquilo. E se você pensa que parou por aí é porque ainda não contei que ela começou a subir minhas calças! Achei que a coisa fosse esquentar bastante quando ela pegou nos meus tornozelos, mas&#8230; espere! Ela <em>subiu </em>minhas calças. Ela queria meus tornozelos livres para pinçá-los e conferir meus batimentos. Duvido que aquele exame tenha dado normal. Nota mental: sugerir ao cardiologista que contrate auxiliares feias. As muito bonitas que me perdoem, mas resultado confiável é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">► Saio frustrado e volto à cela sob as escadas. Tinha um encontro com uma lenda: o médico com hora marcada. Há quem diga que ele já existiu de verdade. Para mim, o último bastião da pontualidade no Brasil era o horário das sessões de cinema. Depois que elas passaram a atrasar, não acredito em mais nada. A consulta era às 10h. Uma hora, três minutos e cinquenta páginas depois, sou chamado. Ausculta daqui, ausculta de lá&#8230; tudo normal. “<em>Tinha dado pressão alta?</em>!” Tinha, mas a médica era bonita. Ele concordou que tal fator deve ser levado em conta. Fui dispensado com aquele desinteresse médico típico dos que atendem alguém que está só resfriado. Eu, admiradíssimo por ele ter achado um coração. E ainda batendo. Deve ter como função marcar meus compassos de espera&#8230;</p>

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		<title>A Cidade do Sol roubado</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Apr 2011 09:49:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Natal, o sol já não nasce para todos. O astro-rei vem sendo privatizado pelos moradores dos arranha-céus de Petrópolis e Areia Preta. De sua posição privilegiada, bem ao lado do trepódromo, o Hospital Universitário Onofre Lopes ainda pode vê-lo. &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/04/06/a-cidade-do-sol-roubado/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/solnascendo.jpg"><img class="size-full wp-image-942 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/solnascendo.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em Natal, o sol já não nasce para todos. O astro-rei vem sendo privatizado pelos moradores dos arranha-céus de Petrópolis e Areia Preta. De sua posição privilegiada, bem ao lado do trepódromo, o Hospital Universitário Onofre Lopes ainda pode vê-lo. As pessoas que passaram a noite do lado de fora, na fila, também, mas já não têm forças para apreciar o espetáculo. Cansadas, com as almas anestesiadas, só pensam em pegar uma ficha de atendimento e sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Os bebês da Maternidade Januário Cicco perderam o direito aos primeiros raios. Da sacada, agora fria, uma jovem mãe vê prédios. Mais adiante, o Conservatório de Música Frederico Chopin conserva ainda a placa com a grafia aportuguesada do polaco. Não se pode dizer o mesmo de suas paredes, que vão desabando. Na Praça Cívica, a centenária e andante estátua de Pedro Velho gelaria até os ossos – se os tivesse! – por boa parte da manhã.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/grafjeri.jpg"><img class="size-full wp-image-943 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/grafjeri.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No antigo Papa Jerimum, nas paredes que ainda insistem em ficar de pé, tristes figuras choram por uma réstia de sol que só chega no meio da manhã.  As árvores da Rua Mossoró parecem querer correr até a Prudente e buscar lugar mais propício ao viver. Não seria ali na avenida. Nos canteiros, algumas flores só encontram o sol em seu pior horário. São tão descoloridas quanto as paredes e as chorosas meninas grafitadas. Sem sol, as casas&#8230; não, as coisas, todas elas, ficam tristes, vão morrendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Seis da manhã. Volto pelas calçadas sombrias.  Sei que o sol saiu porque vi, porque fui acolá dos prédios, de além, quase outro mundo. Volto triste, pensando que um dia terei que adentrar o mar e gritar por ele – <em>Vem, Sol. Acorda!</em> –, que terá desistido de competir com esse desespero humano de estar sempre acima de tudo, sempre tomando o que é de todos.</p>

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		<title>O sol morre pra todos</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jan 2010 14:55:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Na periferia, tudo é pouco. Até a luz. As ruas são escuras e depende de onde você mora para saber se ela vai aparecer mais tarde ou sumir mais cedo.  Na baixa, vemos os prédios subindo cada vez mais altos. &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/08/o-sol-morre-pra-todos/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-394" style="border: 0pt none;" title="postesol" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/postesol.jpg" alt="postesol" width="600" height="415" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na periferia, tudo é pouco. Até a luz. As ruas são escuras e depende de onde você mora para saber se ela vai aparecer mais tarde ou sumir mais cedo.  Na baixa, vemos os prédios subindo cada vez mais altos. Feliz é quem mora no alto do morro. Mais ainda quem mora nos arranha-céus. Vão pegando o sol e o vento só para eles. E tem a vista. De um lado, a praia, o horizonte que não se sabe onde acaba. De outro, a favela, a miséria, que não se sabe quando acaba. Talvez a vista daqui seja melhor, porque só se olha para cima. É aproveitar e pedir algo aos céus. Aqui, a noite chega antes. Como não tem muito que fazer em casa, a diversão é na rua: ficar na calçada, andar sem destino, beber para esquecer, fazer alguma bobagem, encarar um fliperama.  Já levaram até o pôr-do-sol. Agora ele só se põe para os bacanas. Pra lá dos prédios. A gente se contenta com a luz do poste que finge para a gente como finge toda a outra gente: que vão nos tirar daqui, que vão ajudar, que tudo vai melhorar. Deixe estar. O sol morre pra todos, já dizia aquele doidinho, “só não sabe quem não quer”.</p>

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		<title>O banho</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jan 2010 13:12:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Maruim]]></category>

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		<description><![CDATA[O banho da morena é na calçada. Passa gente a pé, de carro, de ônibus. Aproveitando a parada – bem em frente –, às vezes, de lado, disfarçados, os olhos de algum passageiro pousam por mais tempo na pele e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/08/o-banho/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-386" style="border: 0pt none;" title="banho" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/01/banho.jpg" alt="banho" width="600" height="416" /></p>
<p style="text-align: justify;">O banho da morena é na calçada. Passa gente a pé, de carro, de ônibus. Aproveitando a parada – bem em frente –, às vezes, de lado, disfarçados, os olhos de algum passageiro pousam por mais tempo na pele e nos cabelos ensaboados. Ninguém liga muito. A morena não é alguém. Não tem direito a banheiro, chuveiro, banho sem roupa, privacidade, respeito, um momento só seu. Cumbuca em água pouca, cuidado no cálculo que é para não faltar. Molha, ensaboa, descansa, olha a rua, pega sol, pega fuligem, molha de novo. À vista de todos, mas sem as muitas câmeras previstas por Orwell. Só uma. Quem passa, olha, mas não vê. Se não acreditarmos na miséria, quem sabe ela não desaparece? Não desaparece. A mestiça na calçada a conhece bem. O cenário muda, mas o destino dos personagens é o mesmo. Não é a liberdade dos antepassados à beira do rio. Afastaram o sonho, asfaltaram o rio, mas a menina continua à margem.</p>

<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/01/08/o-banho/&amp;text=O banho&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
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		<title>Canto de quarto</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Sep 2009 17:55:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[Quieto em si, apreciava o eterno passar de pés. Acumulava poeira e cabelos. Sabia que os loiros eram da menina que ali dormia. Uma vez por semana, sem aviso e com certa rudeza, recebia a visita de uma vassoura. Ficou &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/09/18/canto-de-quarto/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
<div class="twitterbutton" style="float: right; padding-left: 5px;"><a href="http://twitter.com/share?url=http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/09/18/canto-de-quarto/&amp;text=Canto de quarto&amp;via=sandrofortunato&amp;related=DolcePixel"><img align="right" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/plugins//easy-twitter-button/i/buttons/en/tweetn.png" style="border: none;" alt="" /></a></div>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">Quieto em si, apreciava o eterno passar de pés. Acumulava poeira e cabelos. Sabia que os loiros eram da menina que ali dormia. Uma vez por semana, sem aviso e com certa rudeza, recebia a visita de uma vassoura. Ficou assustado, paralisado de medo, no dia em que uma barata correu para ele e ali, em seus braços – se os tivesse –, foi esmagada pelo bico fino de um scarpin preto. Aquela arma espremendo o pobre inseto contra ele nunca sairia de sua cabeça – se tivesse uma. Sem jamais poder se aproximar, via seus irmãos: um, mais próximo, logo abaixo da janela, via sempre; outro, somente quando a porta estava fechada. Desconfiava da existência de um terceiro, que devia morar atrás do criado mudo. De longe, avistava um parente, morador da sala em frente. Durante um mês, sumiram os pés. Acumulou a poeira, pesou o ar. Quando voltaram, foi um arrastar de móveis ao centro do quarto. Vassourada, água, pano, cheirinho bom. Novo arrastar, nova ordem. Viu quando a cama cresceu e um pé com roda quase o alcança. Tudo escureceu. Não via mais nada. Canto algum. No escuro, escutava as vozes e os barulhos de costume. Julgou-se morto. Devia estar entre vidas. Houvesse mesmo recimentação, queria vir como canto de teto. Estaria sempre por cima. Vassouradas menos constantes e nada de baratas assassinadas. Quando muito, uma teia de aranha, mas isso seria arte. No alto, imaginava, a vida devia ser muito mais cômoda. Como por encanto.</p>
<p><img usemap="#Map3" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" border="0" alt="" height="25" /></p>
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		<title>Se ficou esperando</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 22:51:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2009/08/esperando.jpg" alt="esperando.jpg" /></p>
<p align="justify">Ainda há quem leia na praça. Há quem leia enquanto espera. Quem leia simplesmente. E espere. Final de manhã, chove-não-chove, pracinha no centro da cidade, tempos apressados e a menina com seu livro. Alheia ao vai-e-vem, a quem olha para ela, a quem se admira com alguém lendo, ao barulho dos coletivos. Olhos correm pelas linhas, apertam para reler e entender, buscam um ponto de fuga, conferem algo fora da página. Chegou não. Continua a leitura. Roidinha na unha. Foto ampliada, suspiro de crônica abatido pelo título revelado: <em>Enquanto o amor não vem</em>. Mas resta uma esperança. Para quem escreve; não para quem lê. No instante seguinte, a menina levanta e caminha solitária. Se ficou esperando o amor, cansou. Talvez chegue no próximo livro.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center><br />
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		<title>A festa do tuim</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/01/30/a-festa-do-tuim/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Jan 2009 21:37:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/cola.jpg" width="600" border="0" height="364" /></p>
<p align="justify">As luzes dançam todo o tempo. De um lado e de outro da pista. Umas lá em cima, outras mais perto. As amarelas vindo em minha direção, as vermelhas indo embora. Quando vêm e eu consigo ficar em pé, bato no vidro, estendo a mão, peço um trocado. Quase nunca dão. Na outra mão, a garrafa de cola. O dotô sabe que não é pra pão. É pra <em>tuim</em>. Desisto fácil, sento no meio-fio, no canteiro entre as pistas. Encosto e cheiro fundo. Mando direto pra cabeça. As luzes bombando. Motor, buzina, freada fazendo a música. Vez em quando um grito, um xingamento pra outro motorista ou pra mim. <em>Morre, cheirador, feladaputa</em>. Cheiro toda minha dor, dotô. Quero lembrar de nada, não. De amiga, só tenho a cola. Quando o <em>tuim </em>passa, dá uma fome do cão. Aí eu peço mais dinheiro. Mas entre um pão e mais cola, eu pego a cola que dura mais e garante a festa. Viro a noite assim. As luzes vivem e dançam todo o tempo. Eu cheiro e morro o tempo todo.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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		<title>Na pele</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jan 2009 06:18:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[ A vida dura sempre marca com mais força. Como o adulto aprendendo a escrever, que aperta em demasia a caneta, ferindo várias folhas. A miséria desconhece a leveza, pouco se lhe dá o fino traço. O corpo é o papel &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/01/26/na-pele/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/fotosblog/napele.jpg" width="600" border="0" height="450" /></p>
<p align="justify"> A vida dura sempre marca com mais força. Como o adulto aprendendo a escrever, que aperta em demasia a caneta, ferindo várias folhas. A miséria desconhece a leveza, pouco se lhe dá o fino traço. O corpo é o papel onde se contam as histórias. Rugas prematuras em pele ressecada, marfim perdido em briga ou em indesejado encontro com o meio-fio. No braço ou no peito, o nome da amada, capítulo das memórias do cárcere. Em liberdade, muito tempo de sobra. Cabeça disponível às artimanhas do velho companheiro, jardim fértil onde desenhar estradas tortas. Fácil dar consigo de través no primeiro beco estreito sem saída. Capaz de deixar a forçada escravidão ao ar livre, tomar outra vez o caminho para o diminuto espaço de reeducando, olho na graduação hedionda, <em>summa cum laude</em>. Sem direito à defesa, retirada vênia sem que tivesse sido dada. Julgado pela boca, sem dizer palavra. Todas escritas no corpo. Que fala e garante condenação.</p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
<map name="Map3">
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]]></content:encoded>
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