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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Comportamento</title>
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		<title>Lenny</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 18:24:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/lenny.jpg"><img class="size-full wp-image-1103 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/11/lenny.jpg" alt="" width="600" height="333" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Dentre minhas manias (ou incapacidades), está a de me deixar levar sem freios pela busca de conhecimento e me aprofundar em um tema mesmo que ele não esteja ou não pareça estar entre meus principais interesses. Funciona mais ou menos como quando começamos a navegar na Internet buscando algo que queríamos e, de repente, percebemos que passamos por dezenas de páginas e nem sabemos como chegamos àquele lugar. Isso acontece comigo de uma forma mais demorada, desde sempre, com livros e filmes. Leio um livro de determinado autor, gosto, quero ler todos dele. “Azar” o meu se ele escreveu dezenas. Vejo um filme e ele me leva a outro, e outros, e à vontade de ver tudo de um diretor ou de um ator. E nada disso garante que, ao final, eu vá me tornar um admirador daquele tema, pessoa ou forma de expressão. É algo meio doentio, eu sei.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente aconteceu isso com relação a Bob Fosse. Tive que guardar minha má vontade e meu conceito prévio de que o cinema americano destrói tudo de bom de qualquer outro cinema quando resolve fazer sua versão (e é isso mesmo!) para assistir <em>Sweet Charity</em> (1969), baseado em <em>As Noites de Cabíria</em> (1957), de Fellini. Passada a náusea, civilizadamente admiti que, em se tratando de coreografar e levar musicais para o cinema, Bob Fosse era realmente muito bom. Daí bateu a vontade de rever <em>Cabaret</em> (1972) e <em>All That Jazz</em> (1979) – ambos consagrados com dezenas de prêmios, incluindo 12 Oscars – e tudo mais que ele tivesse dirigido. Descobri que foram apenas cinco filmes e que, na verdade, eu só não havia assistido <em>Sweet Charity</em>. Os outros dois – <em>Lenny</em> (1974) e <em>Star 80</em> (1983) -, também havia visto nos anos 80, mas quase não guardei lembranças. De <em>Lenny</em>, tudo que lembrava era de que tinha sido feito por Dustin Hoffman e que eu havia assistido por isso. Revi e tive um, digamos, <em>déjà vu</em> às avessas.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho percebido que, nos últimos anos, os brasileiros têm se encantado por grandes novidades que nada têm de novas, originais, revolucionárias ou geniais. Daí o endeusamento às “invenções” de Steve Jobs (grande aprimorador e comercializador, nunca um Thomas Edison) e o abestalhamento pelo <em>stand up comedy</em>. Que fique claro: não estou questionando o valor das coisas, mas nossa ignorância e disposição em comprar como novo algo que existe há décadas. Quando a onda do <em>stand up</em> surgiu por aqui, pensei: “<em>Mas José Vasconcelos não fazia isso nos anos 1950?! Por que essa garotada está dando um nome em inglês e dizendo que isso é onda da matriz americana?</em>” José Vasconcelos já fazia isso quando o “grande ídolo” Seinfeld estava nascendo. Ah! É que essa garotada cresceu vendo televisão e sendo educada por séries americanas. Aprendeu que se é bom é porque veio dos Estados Unidos. Talvez por isso, quando Zé Vasconcelos morreu, os jovens jornalistas tenham repetido tanto a bobagem de que “<em>ele ficou famoso na Escolinha do Professor Raimundo</em>”. Em resumo: as coisas parecem novas porque a garotada desconhece completamente a história, mesmo que recente, do próprio país onde vive, só tem memória para o que viu na tevê e só acha bonito se tiver vindo da gringa. Mais culturalmente rendidos, impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Revi <em>Lenny</em>. Trata-se da história de Lenny Bruce, que começou carreira fazendo apresentações do tipo <em>stand up</em> no final dos anos 1940, quando provavelmente nem os pais dessa garotada que se acha genial, engraçada e revolucionária haviam nascido.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você não viu e/ou pretende assistir <em>Lenny</em>, saiba que vou fazer um ou outro comentário que pode revelar algo da trama (o tal do <em>spoiler</em>, para você, que foi criado em portuglês). É um drama, filmado em preto e branco (muito sensível e corajoso da parte de Fosse, que abandona seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial), com uma narrativa intercalada em três tempos que se completam e apresentam diferentes olhares sobre a história (nem endeusando nem criticando o personagem, mas mostrando toda a sua humanidade) e com Dustin Hoffman, ainda na casa dos 30, já muito maduro e talentoso (o baixinho da propaganda do Fiat Cinquecento, crianças).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é sobre o tal <em>déjà vu</em> ao contrário que quero falar. Judeu, com barba, fazendo <em>stand up</em>, acusado de ser grosseiro (e sendo mesmo!), tornando-se vítima de suas próprias grosserias&#8230; Já viram isso antes, digo, depois (recentemente e aqui perto) de Lenny Bruce?</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de continuar, devo dizer que achei uma bobagem enorme toda aquela discussão em torno da “piada de mau gosto” do Rafael Bastos. Mesmo porque não vi qualquer piada. Só um cara grosseiro com uma evidente necessidade de autoafirmação finalmente chegar ao ponto de estampar publicamente sua imbecilidade, limitação, falta de talento e de bom senso para muita gente que ainda não tinha percebido isso. Acho a celeuma idiota porque não sou obrigado a assistir, rir junto, concordar com o “humor” adolescente. Ninguém me tira o poder de escolha. Não gosto, não vejo, não me aborreço. Simples assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas entendo que, de alguma forma, a discussão possa gerar algo salutar. Rever <em>Lenny</em> agora e ver tantas semelhanças (há diferenças gigantescas também: era outra época, outra sociedade, outros motivos) me fez pensar que a discussão seja mesmo necessária. O que me deixou triste foi perceber que se ela ainda é necessária é porque somos extremamente imaturos para lidar com certos temas, certas atitudes. Discussão sobre liberdade de expressão, censura, sobre o que seja ou não politicamente correto&#8230; Se chegamos a um ponto em que agressão gratuita e qualquer bobagem vomitada possam ser confundidos com humor e liberdade de expressão, acho melhor voltarmos para as cavernas porque é lá o nosso lugar. Vamos meter a clava na cabeça dos outros e nas de todos que não rirem disso. Apareceu na tevê é “<em>gênio</em>”, “<em>fantástico</em>”, “<em>sensacional</em>”. Se já disseram o que temos que acreditar e achar, por que fazer o esforço de pensar?</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho esperança de que as semelhanças continuem a se repetir e, mesmo com um retardo de mais de meio século, em algum instante percebamos que quase ninguém mais aplaude qualquer idiotice só porque é moda. E que, assim como Lenny, em um lampejo de lucidez, o bobo da vez (qualquer um) admita: “<em>Não sou comediante</em>” e se retire. Mais digno para quem o fizer. Mais fácil para nós, que não teremos que fazer a triste escolha entre o que é <em>menos pior</em>: viver em uma sociedade hipócrita ou em uma sem valores e sem qualquer senso crítico.</p>
<p style="text-align: justify;">A nossa sociedade – a brasileira média –, como vemos hoje, me parece mais com uma de babuínos: um chefe grita, todos os outros gritam também e se mostram prontos a estraçalhar qualquer um que não faça parte do bando. Particularmente, prefiro viver em uma em que, com todas as suas diferenças e gostos variados, as pessoas se respeitem, ajam de forma civilizada e pensem por si mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Lenny</em> me fez pensar que aquela sociedade hipócrita e moralista dos anos 1950 nos Estados Unidos era bem mais evoluída que a nossa nos dias atuais. Se é para importar algo deles, por que em vez do lixo, não importamos o que eles aprenderam antes de nós? Aprender com a observação dos erros alheios, no mínimo, evita que venhamos a repeti-los.</p>

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		<title>A última noite de Cabíria</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 03:05:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/08/cabiria.jpg"><img class="size-full wp-image-1073 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/08/cabiria.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Já não estranho quando me vejo em personagens femininos. Mas ainda me surpreendo quando um que conheço há tanto tempo aparece de forma diferente, sugerindo outras leituras, me apontando um espelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim com Cabíria há algumas noites. O que aquela criatura tão pequena, perdida, sonhadora, acostumada a disfarçar sua delicadeza e sua fragilidade com um jeito grosseiro, disparando impropérios a quem tente se aproximar poderia ter a ver comigo? Tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma prostituta acostumada às rudezas da vida, encastelada em um pequeno cômodo, mostrando-se autossuficiente, mas sonhando com outra vida, juntando recursos que nunca são aplicados. Com tantas características em comum, como nunca havia me dado conta de tal semelhança?</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez porque precisasse deixar os detalhes de lado e perceber o todo, a trajetória. A cada abertura, para cada momento de disposição em acreditar, uma decepção. A razão ensinando que o caminho não era esse; o coração – burro, cheio de medos – insistindo em tentar mais uma vez. Cabíria sou eu e cada um de nós, ao tentarmos equilibrar razão e emoção, realidade e sonho.</p>
<p style="text-align: justify;">Também foi preciso fechar um ciclo para enxergar Cabíria em mim. Chegar ao ponto em que ela chegou. Sem absolutamente nada, despojada do pouco que havia juntado (e que era seu mundo, sua âncora), ela finalmente se sente livre para tomar outro caminho. As noites de Cabíria – na rua e as da alma – terminam quando ela se vê como no momento do nascimento: sem nada. No rosto, não correm lágrimas. Há apenas uma, fixa, como uma tatuagem para representar e lembrar eternamente todas as dores. Há também um sorriso. Não aqueles fugazes das ilusões, mas um que vai se desenhando aos poucos, nascendo da rispidez do rosto sempre contraído. É um parto. Uma nova vida que aparece depois de muito tempo, de muitas dores, de fortes contrações.</p>
<p style="text-align: justify;">Após o medo inicial, ela implora ao responsável pela última ilusão: “<em>Mate-me! Mate-me! Não quero mais viver!</em>” Não quer mais viver daquele jeito. É necessário morrer para nascer de novo. “<em>Ammazzami! Ammazzami! Non voglio più vivere!</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">A noite e o frio da alma morrem. Quase arrisco dizer que Cabíria morreu na última (e boa noite) de inverno, e renasceu Maria no primeiro dia da primavera. É assim comigo. Renasço a cada setembro.</p>

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		<title>Mais forte que ela</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2011 18:23:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/amyorlan.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1055" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/amyorlan.jpg" alt="Amy por Orlandeli" width="270" height="495" /></a>Naquele julho de 1990, chorei durante horas. Deitado na cama, som nas alturas, cantava e chorava. Eu tinha 18 anos e a morte de Cazuza representava a morte da geração dos meus ídolos e de parte dos meus sonhos. Representava também o medo de uma doença avassaladora, sobre a qual pouco se sabia. Seis anos depois, aos 24, a cena foi um pouco diferente. Eu já era pai, havia me separado e criava uma criança. Sem falar que, antes disso, havia perdido minha primeira esposa, grávida, aos 19 anos. Portanto, já não achava a mínima graça na morte. Meu foco já havia saído da minha vida – e de qualquer vazio que pudesse existir nela – para começar a se concentrar em sua continuidade, aquilo que ainda estaria aqui quando eu morresse: meus filhos, as ideias e o mundo que eu deixaria a eles. Em outubro de 1996, não chorei por Renato Russo. Eu me perguntei o que ele estava querendo dizer ao enterrar a geração dos meus ídolos. Por que eu idolatrava gente que se destruía?</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 23 de julho de 2011. Amy morreu. Não chorei. Minha parcela de dor reservada à morte ainda estava sendo usada pelos 92 inocentes assassinados, horas entes, por um maluco na Noruega e não achei justo redirecioná-la a alguém que vinha tentando se matar há mais de cinco anos. Amy podia esperar. Ou ter escolhido um dia melhor para morrer.</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Insensível!</em>” Se você pensou isso após ler as últimas frases, este texto é principalmente para você, tão sensível à morte de uma celebridade autodestrutiva e, provavelmente, tão indiferente a todas as mortes e mazelas que acontecem a todo instante.</p>
<p style="text-align: justify;">Amy escolheu morrer. Demorou a conseguir isso, mas conseguiu. Parabéns. Antes de continuarmos, fique bem claro: sou fã de primeiríssima hora dela. Da voz dela. Desde quando ela era uma garotinha linda e cheia de curvas, antes mesmo de aparecer já esquisitona na capa de seu segundo disco. Sim, Amy “trouxe de volta a alma à música” e blá-blá-blá. Fez isso seis anos atrás e morreu logo em seguida. O que se viu nos últimos cinco anos foi um cadáver insepulto tentando lembrar as letras de suas próprias músicas e se manter em pé em um palco. Se você curtia essa aberração, se gostava do show de horrores que era a vida dela, entendo perfeitamente o motivo de ter chorado sua morte. Eu chorei quando a linda, talentosa e promissora menina Amy morreu cinco anos atrás, aos 22 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Amy deixou uma obra maravilhosa? Não. Ela começou a desenhar uma e desceu colina abaixo. Ela deixou um disco muito legal. Ela explodiu e pronto. Acabou. Uma obra maravilhosa, vai ser deixada por Nana Caymmi. E duvido que o mundo vá se descabelar quando ela morrer. Amy era uma grande artista? Não. Ela poderia ter sido. Um grande artista se cuida, cuida de sua saúde, de seu corpo (que é ferramenta de trabalho), quer sempre estar bem para seu público, para melhorar sua arte, para produzir sempre mais e melhor.  E qual o motivo de tanta comoção pela morte de Amy? É porque as pessoas gostariam de ser iguais a ela. Desejam ter talento, sucesso, dinheiro, reconhecimento e até a impossível juventude eterna. No entanto, não vejo uma só pessoa pagando o preço disso tudo. Vejo pessoas com vidas comuns e atitudes comuns, contentes com suas pequenas conquistas – um emprego (preferencialmente que dê pouco trabalho e pague bem), alguns cartões de crédito, roupas, um carro, uma aposentadoria –, sentadas na frente da TV ou do computador, vigiando e vivendo a vida de outras pessoas. Elegem um ídolo e esperam seu martírio, seu sacrifício. Ele morre e todos continuam suas vidas comuns. Elegem outro e repete-se o processo. Por ora, seus pecados estão perdoados. Amy morreu por vocês. E há quem se sinta no céu graças ao sacrifício dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O ídolo Amy tinha pés e alma de barro. Frágeis, não demoraram a quebrar. Morta, milhares de pessoas em todo o mundo declararam amor por ela. Enquanto viva, não houve um só que realmente a amasse a ponto de ficar ao seu lado, tratá-la como ser humano, dar carinho, atenção e tirá-la do buraco em que se meteu.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci várias pessoas que morreram por overdose ou outra consequência do uso exagerado de drogas. Nenhuma que tenha feito ou deixado algo genial. Cada uma delas era, como qualquer viciado, alguém frágil demais para enfrentar o mundo &#8220;de cara&#8221;, de peito aberto. Preferia se mudar para um universo paralelo no qual podia acreditar ser um gênio, um super-homem, alguém especial. O único legado que deixaram foi o da hipocrisia. Quem fica – e age do mesmo jeito – diz que o outro &#8220;morreu do coração&#8221;, &#8220;de uma doença misteriosa&#8221;, &#8220;não se sabe de quê&#8221;. Onde fica a &#8220;atitude rock&#8217;n'roll nessa hora? Ponha na lápide: <em>Orgulhosamente morto por overdose. Consegui! Yeaaaah!</em> Mas se a vida foi uma mentira, por que não perpetuá-la na morte?</p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de rebeldia, de contracultura, de viver a mil, parece muito bonito, muito sedutor. Principalmente quando não é você quem precisa morrer para dar autenticidade a ele. Assim, é mole ser doidão!</p>
<p style="text-align: justify;">Amy era igual a Janis? A Hendrix? A Morrison? Em quê? Na estupidez da juventude? No vazio existencial? No desequilíbrio emocional? E nós? Ainda somos tão iguais aos de 30, 40 anos atrás e não aprendemos nada? Muito doidão dos anos 60 percebeu a idiotice de se matar e, a cada uma dessas mortes, já avisava a todos que pegassem leve. Vivam, façam o que quiserem, sejam livres, mas não se matem. E estão aí, aos 70, 80 anos. Pergunte a qualquer um deles se preferiria ter morrido aos vinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Dez anos a mil? Mil anos a dez? Parece mais sábio viver cem anos a cem. Sem acelerar muito, sem criar limo, dando tempo e trato às nossas potencialidades. Quem ama a vida é correspondido. É amado por ela. Um ano, uma década ou meio século a mais é sempre bem-vindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Meus heróis não morreram de overdose. Meus heróis vivem tanto quanto possível e da melhor maneira, sem confundir intensidade com autodestruição.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mim, Amy, você não precisaria ter ido. Poderia ter ficado muito mais tempo cantando, encantando ou simplesmente vivendo e sendo feliz.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: right;">Ilustração mui gentilmente cedida por <a href="http://blogdoorlandeli.zip.net/" target="_blank"><strong>Orlandeli</strong></a></p>

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		<title>Quase pretos ou quase brancos</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 23:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/07/05/quase-pretos-ou-quase-brancos/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia na oitava página e parei na análise de duas fotos da primeira edição da <em>Life</em>, de novembro de 1936, que mostravam a mistura de raças no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam as fotos, as legendas (traduzidas) e parte do meu texto.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/brlife2.jpg"><img class="size-full wp-image-1029 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/07/brlife2.jpg" alt="" width="590" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em><strong>Civilização</strong> é o nome que os brasileiros dão a esta escultura de um homem e uma mulher negróides, para uma nova raça brasileira que está emergindo dos portugueses misturados com negros e índios. (&#8230;) A despeito da estátua, os cidadãos do Rio, auto-intitulados cariocas, são predominantemente brancos. Mas muitos aristocratas brancos do Rio têm parentes pretos e, no negróide Norte do Brasil, uma gota de sangue branco faz um homem &#8220;branco&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em><strong>O homem com o chapéu preto </strong>(centro) é considerado praticamente branco no Brasil. Sua companhia na dança do subúrbio da Penha, no Rio, é muito mais clara, definitivamente com características europeias. Ela é uma mulher branca, acolhida e alegremente desposada por um homem &#8220;praticamente branco&#8221;. O jovem com casaco cinza e calça branca tem uma boa mistura de sangue indígena e português. Todos estes são mais claros que o homem branco do Norte do Brasil. Todos os negros brasileiros votam e vivem em termos de igualdade legal com os homens brancos puros.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, pela manhã, me deparo com a seguinte notícia no site da <em>Veja</em>:</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Professor é acusado de mandar aluno africano clarear a cor</strong></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em>A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) solicitou a abertura de um processo administrativo disciplinar para apurar as denúncias de racismo contra um professor da instituição. Alunos do curso de Engenharia Química apontaram atos de discriminação do professor José Cloves Verde Saraiva contra o aluno africano Nuhu Ayuba, inscrito na disciplina Cálculo Vetorial. Saraiva já pediu desculpas e disse que a situação foi um mal-entendido.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><em>Uma cópia da denúncia foi entregue ao Ministério Público Federal. &#8220;Informamos que o professor Cloves Saraiva vem sistematicamente agredindo nosso colega de turma Nuhu Ayuba, humilhando-o na frente de todos&#8221;, afirmaram os alunos na petição pública. Segundo os estudantes, o professor teria dito que Ayuba &#8220;deveria voltar à África e clarear a sua cor&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Brasil, 1936, visto pelos americanos. Brasil, 2011, visto por nós mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">O último parágrafo que escrevi ontem dizia o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;">Independente da época e do contexto, preconceito racial (e por qualquer tipo de diferença) é uma estupidez indesculpável. No entanto, 75 anos depois, sendo brasileiro (portanto, vira-lata), vejo a legenda e a foto como o documento de uma época em que o Brasil buscava uma identidade racial, social, e não tinha o preconceito típico do americano. Esquecendo um pouco os comentários racistas, a foto é maravilhosa, não? Dispensa qualquer legenda ou interpretação. Retrata a verdadeira mistura que forma nosso povo e sua alegre convivência. Pelo menos nesse ponto, tínhamos tudo para sermos superiores, mais civilizados. <strong>Pena que, até nisso, o brasileiro tenha se americanizado.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a Ku Klux Klan aceitasse caboclos, esses brasileiros praticamente negros que se acham brancos poderiam ter seu clubinho.  Acho bem merecido quando esse tipo babaca de brasileiro é maltratado no exterior e se sente colocado no lugar <strong>onde todo racista deveria estar: abaixo de qualquer outro ser humano</strong>. Só lamento que, mesmo assim, não aprendam.  Seres desse tipo nunca aprendem. Nunca viram gente.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">► <strong>DICA do mano BUCA DANTAS:</strong> <strong><a href="http://www2.uol.com.br/JC/sites/especial_joaquimnabuco/html/html2/index.html" target="_blank">Quase brancos, quase negros</a></strong></p>

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		<title>Enfim, um diagnóstico</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/27/enfim-um-diagnostico/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 19:45:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>

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		<description><![CDATA[Um mês inteiro indo a médicos para finalmente ter um diagnóstico: Endometrite clamidial em estágio avançado. É uma infecção tratável, mas que pode ser fatal. Eu poderia ter me assustado ao ouvir isso de um médico, até porque para ter &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/27/enfim-um-diagnostico/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/difteria_goya.jpg"><img class="size-full wp-image-1014 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/difteria_goya.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Um mês inteiro indo a médicos para finalmente ter um diagnóstico: Endometrite clamidial em estágio avançado. É uma infecção tratável, mas que pode ser fatal. Eu poderia ter me assustado ao ouvir isso de um médico, até porque para ter essa doença, eu precisaria ter um útero. Mas o susto e a surpresa foram praticamente os mesmos quando o médico disse que tenho&#8230; algo que você vai saber mais adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou pedir sua paciência para explicar como cheguei a este ponto e garanto que, em algum instante, você vai se identificar com o que vou dizer por já ter passado pela mesma experiência. Se não, garanto de novo, um dia irá passar e lembrará deste texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu não gosto de médicos. </strong>A frase precisa ser dita assim, começando com um enfático “Eu” e dando margem à generalização (estúpida como são todas). Minhas primeiras lembranças de idas ao médico vêm da infância. Eu fazia uma enjoativa viagem de ônibus do Méier ao bairro da Saúde, no Rio, para ir ao trabalho do meu pai, no Moinho Fluminense, para consultas com o Dr. Pedro. Não sei dizer se ele era clínico geral, médico do trabalho, pediatra ou tudo isso. Só sei que ele era um “médico clássico”, desses que fazem o paciente sentar, auscultam peito e costas, conferem boca, olhos e nariz, testam reflexos, dão batidinha com o dedo no abdômen, perguntam o que a pessoa está sentido, prescrevem uma receita e dizem que a gente se vê de novo dali a alguns dias. Dr. Pedro me assustava um pouco. Um homem de seus 60 anos, cabelos brancos, voz grave, olhar inquisidor lançado por cima dos óculos&#8230; Tudo isso parecia bem assustador para meus 5, 6 anos de idade. Além disso, da sala de espera ao consultório, tudo era absolutamente branco, inclusive o longo corredor vazio entre um e outro, que me dava a impressão de estar sendo levado a um local de torturas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu não gosto de médicos. </strong>Aos 18 anos, já sem as fantasias infantis, me deparei com um extremamente arrogante, dono da verdade, do poder de vida e de morte, uma criatura aparentemente sem qualquer respeito por outro ser humano que não fosse ele mesmo, que tratava as pessoas como pedaços de carne que ele sabia consertar melhor que qualquer outro. Em dez dias, vi essa criatura mudando seu comportamento. Inicialmente, ele desprezava e gritava com enfermeiros e parentes de paciente, sempre estava certo e com absoluto controle de tudo. Nada estava além de seus conhecimentos. Quando minha esposa – aos 19 anos – tratada por uma equipe chefiada por ele, entrou em coma e todos os médicos sabiam que ela não sobreviveria por mais de 48 horas, a voz dele tomou outro tom, um volume bem mais baixo e o olhar deixava claro que ele não tinha a mínima ideia dos motivos daquele quadro. O deus falhou e não entendia o porquê. Pobre deus!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu não gosto de médicos. </strong>Para quem não conhece a anedota, aí vai: Sabe qual é a diferença entre médicos e jornalistas? O médico acha que é Deus, o jornalista tem certeza que é. Eles, os médicos, acham que podem vencer a morte. Nós, jornalistas, temos certeza que somos imortais, onipotentes e que podemos mudar o mundo. Portanto, arrogância por arrogância, a escola que frequentei me deixou bem mais gabaritado que qualquer médico.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu não gosto de remédios. </strong>Não gosto de qualquer tipo de droga – lícita ou não –, porque gosto de ter controle do meu corpo e da minha mente. Em relação aos remédios, tenho repulsa ainda maior por entender que tomá-los é uma questão de fé: preciso acreditar no médico que o receita, preciso acreditar em que o fabrica, preciso acreditar em quem vende&#8230; Para mim, é fé demais e isso não me cheira bem. Sou daqueles que quando sentem uma dor preferem deitar e esperar passar.  Se tenho febre, tomo banho frio. Se chego a tomar uma aspirina é porque devo estar com a cabeça estourando há dias e se tomo qualquer outra coisa é provável que alguém tenha quase me obrigado a isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Até o início deste mês de maio, eu havia passado <strong>15 anos sem ir a um médico</strong>. Se não tive algo neste período? Tive. Uma besteira ou outra que passava com cama, descanso ou, em “casos extremos”, com algum remédio já conhecido. Por apenas duas vezes, nos dois últimos anos, recorri à “minha pediatra”. Na primeira, no final de 2009, por uma bola de ping-pong cheia de pus ter crescido na minha testa. Na segunda, há alguns meses, quando depois de duas semanas de cama e muita dor, finalmente me rendi e liguei para ela. Nesta última, diga-se, os exames que muito sabiamente ela solicitou, eu nem fiz. Minha tendência é sempre minimizar, deixar para lá, esperar que o próprio corpo se cure. Aquela coisa típica de homem que não se cuida. Admito minha estupidez em pensar que não tenho tempo para me preocupar com isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Um dos meus orgulhos é nunca ter feito uma operação</strong>, pelo menos não uma que necessitasse de anestesia geral e abrir o corpo. E eu gostaria muito de chegar ao fim da vida sem jamais ter precisado disso. Acho medieval e extremamente brutal ter que abrir o corpo para curá-lo. Considero absurda qualquer cirurgia movida por vaidade. Só entraria na faca se me convencessem de que seria a única maneira para curar algo muito grave. Só mesmo correndo risco de morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Um último traço para entender algo da minha personalidade e sobre minha afinidade com o ambiente médico-hospitalar. Lembro de, em 2005, ter tentado assistir um ou dois episódios de <em>House</em>. Era a primeira temporada. Não consegui. Nunca mais quis ver. Sempre ouvi muitos elogios à série e, sobretudo no ano passado, muita gente insistia para que eu fizesse nova tentativa, pois viam muitas semelhanças entre a minha personalidade e a do personagem principal (isolamento, descrença nos relacionamentos, constante análise comportamental quando obrigado a lidar com alguém e a total falta de surpresas quanto a isso, o sarcasmo&#8230;). Resolvi assistir. Tive grande dificuldade em atravessar as duas primeiras temporadas. A série é ótima, tem um excelente protagonista, ótimos atores, é bem dirigida, etc, mas um, somente um único e maldito motivo me desagradava profundamente e quase me fez desistir outra vez: a parte médica. Diagnósticos, convulsões, vômitos, desmaios, operações&#8230; Não tenho qualquer interesse por essas coisas. E quem me conhece um pouco mais, sabe da minha resistência em lidar – e perder tempo – com qualquer coisa que considere desagradável. Séries médicas, para mim, são bem desagradáveis. Assim como as policias. Não me interesso por tiros, barulho, violência. Também não me interesso por sangue, gente passando mal, doenças, operações, corpos abertos .</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Chegamos ao meu diagnóstico, aquele que omiti no primeiro parágrafo.</strong> Depois deste histórico, de todo este relato, creio que ninguém duvida que prefiro ir ao inferno e enfrentar o cão do que ir a um hospital e lidar com um médico. Sabendo de tudo isso, você diria que sou&#8230; <strong><em>hipocondríaco</em></strong>? Pois foi esse o “diagnóstico” que recebi hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, Sandro Fortunato, me encontrando em uso e gozo de minhas faculdades mentais, livre de qualquer sugestão, induzimento ou caução, declaro para todos os fins que caso venha a desenvolver algum receio mórbido por minha saúde, associado a alguma doença imaginária, que gostaria também de ser tratado por um médico imaginário em um hospital imaginário tomando remédios imaginários.</p>
<p style="text-align: justify;">Já contei aqui que na segunda crise renal que tive, há uns 15 anos, avancei pelos corredores do hospital, com aquela roupa que nem sei o nome, arrastando o soro e exigindo minha saída? E de lá, fui para o bar. Cerveja é o meu remédio.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, então&#8230; uma ida de uns 5 minutos ao médico, um retorno para mostrar exames – todos ótimos, sou saudável, muito obrigado! – e escuto essa: “<strong><em>Você tem uma personalidade hipocondríaca.</em></strong>” Eu quis rir. Gargalhar nervosamente. Mas, diferente do médico, estou acostumado a lidar com gente e a ver o todo. Acredito saber os motivos de ele ter dito isso e é agora que você deve ficar mais atento. É a partir daqui que você vai começar a se identificar ou guardar a lembrança para se identificar no futuro, quando tiver uma experiência parecida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em alguns ofícios, é preciso saber ler pessoas. </strong>Eu, por exemplo, lido com memórias e depoimentos. Não posso acreditar apenas no que ouço. Às vezes, uma pessoa fala muito bem de alguém, mas, ao mesmo tempo, o corpo dá vários sinais de que aquilo não é verdade, de que ela NÃO está pensando aquilo. Preciso ficar atento a tudo que ela me diz e a esses sinais. Mais tarde, vou exigir uma contraprova e, invariavelmente, a verdade aparece. Se eu apenas acreditasse em uma coisa ou outra, meu “diagnóstico” seria falho. House, o médico da ficção, lembra o tempo inteiro: <strong>TODO MUNDO MENTE</strong>. Mesmo sem querer, mesmo sem saber ou perceber. Quem lida com seres humanos – médicos, psicólogos, jornalistas, escritores, biógrafos&#8230; – precisa saber ler todos os idiomas que uma pessoa fala. A superficialidade do jornalismo atual, assim como a superficialidade do diagnóstico médico atual (que é tema central deste texto), começa em não se saber fazer adequadamente tais leituras, em não dar atenção a todas as informações que chegam.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis os erros de leitura – ou as leituras superficiais – desta história&#8230; Na primeira consulta, que fui por ter sido encaminhado pela Clínica Geral, foi constatado que eu não tinha qualquer alteração naquela área. Por mim, nem teria procurado tal especialista. Mas fiz questão de dizer a ele que não ia a médicos há uma década e meia e que, por conta das <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/11/dor-e-a-fraqueza-saindo-do-corpo/" target="_self">dores lombares</a>, havia decidido fazer um <em>check-up</em> (<strong>guarde esta palavra: <em>check-up</em></strong>). Fui dispensado e convidado a voltar com exames de sangue para ver se eles mostravam algo. Nada. <em>Niente</em>. <em>Rien de rien</em>. Surpresa alguma para mim. Vegetariano há quase 20 anos, evito comida industrializada, nunca fumei, não uso drogas, só bebo cerveja e cada vez menos&#8230; Por que alguma coisa estaria alterada? Mas é o exame mais básico que um médico vai pedir. É uma fonte de informação importante. Tudo visto, escuto a tal sentença: “<em>Já tinha percebido: você tem uma personalidade hipocondríaca.</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Até acredito que alguém que “não tem nada e está procurando” – o que definitivamente não é  o meu caso – possa ter “uma personalidade hipocondríaca”. Mas acho que <strong>algo mais no meu comportamento</strong> e algo que eu disse, fizeram o médico achar isso. Primeiro: perguntei o que deveria dizer à Clínica geral, já que ela havia pedido que eu fosse a ele. Nada. Que estou ótimo. Ok. Segundo: comentei que me impressionava a inexistência de histórico médico no Brasil e da falta de comunicação (minha área) e, portanto, de troca de conhecimento, entre médicos de uma mesma pessoa. Terceiro – e aí vem a confissão do meu pecado mortal: toda vez que chego para uma consulta, levo tudo anotado para não esquecer nada, não omitir, não mentir sem querer e, agindo assim, facilitar o trabalho do médico, <strong>dando a ele todas as informações que eu tiver</strong>. Da mesma forma, tudo que o médico diz, eu anoto: pressão, comentários sobre um sintoma, sugestão, nome da alteração, nome de exames, de remédio, etc. Um exemplo: esta semana, tive dois sinais removidos. Perguntei ao médico que tipos de sinais eram. Anotei.  Se daqui a 20 anos eu tiver algo parecido ou se um filho meu apresentar algo assim, onde quer que esteja, seja quem for que o médico, vou saber dizer a ele: “<em>Já tive isso.</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Minha caderneta de anotações parece ter incomodado terrivelmente. E imagino mesmo que possa ter parecido algo doentio, coisa de hipocondríaco. Também tenho certeza que os outros médicos <strong>QUE ME PERGUNTARAM</strong> “<strong><em>O que você faz?</em></strong>”, mesmo sendo algo diferente do mundo deles, não se assustaram com esse comportamento. Afinal, tudo que faço na vida é escrever. Anoto ideias, anoto informações, levo isso de um lugar para outro, consulto o que foi anotado, escrevo, escrevo, escrevo&#8230; Sintoma de algo estranho, de alguma alteração, seria se eu NÃO fizesse isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Insisto no comentário sobre a necessidade da existência de um histórico – coisa básica, comum em qualquer país desenvolvido – e ouço a sentença definitiva sobre a nossa triste cultura: “<em>No Brasil, nós temos uma medicina mais curativa.</em>” Ou seja, aqui, <strong>o lance é adoecer para curar</strong>. Afinal, este é o ganha-pão dos médicos, não? NÃO. Eu teria muito mais prazer – e talvez me tornasse hipocondríaco, marcando muitas e muitas consultas – <strong>se os médicos usassem seus conhecimentos para jamais deixar que eu adoecesse</strong>, se a medicina fosse <strong>PREVENTIVA</strong>, como em qualquer país desenvolvido e civilizado. Isto é melhor e mais barato para quase todo mundo. Eu disse “barato”? Pois é&#8230; em uma cultura em que se vende a cura, barato não é uma coisa bem vista por quem comercializa o produto.</p>
<p style="text-align: justify;">Dois pontos interessantes: 1) quando estava para começar esse <em>check-up</em> (lembra da palavra? típica de medicina preventiva; você confere se está tudo bem para não adoecer), comentei com uma amiga que isso poderia ser muito útil para mim, para que eu aprendesse a confiar mais nas pessoas. Como, pelo meu histórico, médicos seriam as últimas pessoas em quem eu confiaria, isso seria uma prova e tanto! 2) sempre tive tendência, em quase todas as áreas, a procurar profissionais mais experientes, com mais tempo de ofício. Pois tenho me surpreendido com os médicos mais jovens, que <strong>OUVEM</strong>, dão respostas, explicam e evitam prescrever remédios. Só para lembrar: o hipocondríaco aqui detesta remédios.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tentativa de relacionamento não poderia mesmo dar certo. Sou saudável e os médicos não se interessam por mim.  E eu não me interesso por uma medicina que não se interessa por mim, que não me quer saudável.</p>
<p style="text-align: justify;">Da sala de espera (<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/09/notas-na-sala-de-espera/" target="_self">aqui</a> e <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/13/mais-notas-na-sala-de-espera/" target="_self">aqui</a>), passei para dentro dos consultórios. Na sequência, virão outros textos com minhas observações sobre a prática médica (passei por nove especialistas este mês). Sobre o que não gostei de ver e experimentar, vou falar sem dar nomes. Sobre o que gostei, farei questão de nomear os responsáveis. Até lá, comentem sobre suas experiências.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Texto relacionado</strong><br />
<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/11/dor-e-a-fraqueza-saindo-do-corpo/" target="_self">Dor é a fraqueza saindo do corpo</a></p>
<p><strong>Sugestão de leitura<br />
</strong><a href="http://umaseoutras.com.br/consolar-sempre" target="_blank">Consolar sempre</a></p>

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		</item>
		<item>
		<title>Mais notas na sala de espera</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 00:48:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[► Para “atendimento por ordem de chegada”, minha tática é a seguinte: chego uma hora antes e quase sempre sou o primeiro. Hoje, me atrasei e acabei chegando 20 minutos depois do início do atendimento. Não contava que todas as &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/13/mais-notas-na-sala-de-espera/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">► Para “atendimento por ordem de chegada”, minha tática é a seguinte: chego uma hora antes e quase sempre sou o primeiro. Hoje, me atrasei e acabei chegando 20 minutos depois do início do atendimento. Não contava que todas as pessoas pensam do mesmo jeito, sendo que, como “gente (mentalmente) diferenciada”, só fazem isso em cima da hora. Resultado: eu seria o 30º paciente a ser atendido. Não, não estou falando do SUS. Estou falando de uma clínica particular. A atendente foi boazinha em avisar que a previsão de atendimento seria para dali a duas horas e meia. Tranquilo. Saí, fui pegar uma revista ali perto, dei uma bela caminhada de quase dois quilômetros até o laboratório, que estava fechado&#8230; Parece incrível, mas ainda há coisas que “fecham para almoço” em Natal. Torço para que um dia a cidade chegue ao final do século XX. Ok. Sem problemas. Caminhei de volta. Não estava sol. Não estava calor. Tranquilo, tranquilo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">► Como de costume, aboletei-me no canto mais escondido da sala de espera. Se eu era o 30º paciente de um dos dois médicos e continuava chegando gente, imagine que o local era razoavelmente grande. A espera seria longa e eu sabia que as dores lombares logo apareceriam. Tranquilo – sempre muito, mais e demasiadamente –, montei acampamento. Percebi que espalho coisas ao redor para evitar que sentem próximo a mim. Juro que, até hoje, fazia isso inconscientemente. Mochila de um lado, papéis de outro e está pronta minha pequena barricada anti-humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">► O quadro é o de sempre: dantesco, com pessoas se desmontando nas cadeiras, hipnotizadas pela TV, filhotes selvagens correndo e gritando, adultos selvagens gritando e correndo atrás deles. Só os cheiros diferenciam uma sala de espera de uma feira. A balbúrdia é a mesma. Não adianta se há sistema de senhas e um telão de LCD mostrando seu número, as atendentes gritam o nome de alguém a todo instante. Tenho vontade de dizer que se quisesse meu nome sendo bradado no meio de uma multidão, eu teria sido miss. “<em>E com vocês, na passarela, Sandro Fortunato&#8230;</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">► Duas regras básicas definem meu comportamento: não perder tempo e não fazer qualquer coisa que me estresse. Espera é algo que estressa e faz perder tempo. Basta olhar para as pessoas que são obrigadas a fazer isso. Levantam, perguntam quanto tempo falta, reclamam, começam a fazer ligações no celular, reclamam com a pessoa para quem ligaram, desligam e começam tudo de novo com a voz em volume mais alto. Comigo, não. Isso é o bom da “esquizofrenia exercitada”. Você tem um mundo só seu e se fecha ali, onde só acontece o que você deseja. Tenho sempre um livro e minha caderneta de anotações, que podem me entreter por horas. <em>Old school </em>total. Para a atual peregrinação, imaginei que fosse ler um livro por semana somente em salas de espera.  Quando a coisa começou, achei que pudesse chegar a dois por semana. Acha que é exagero? E se eu disser que li um quase inteiro SÓ HOJE. E não terminei porque parava para fazer anotações (sobre ele e as que me auxiliariam neste texto) e porque escrevi uma crônica inteira. Foram TRÊS HORAS E MEIA DE ESPERA. Nunca fui bom com números. Corrijam-me se necessário. Três horas e meia são 210 minutos, que, divididos por 30 pacientes (eu já incluso para arredondar e facilitar a conta), dá 7 minutos de consulta para cada um, certo? Errado. Eu fiquei metade disso. Esperei três horas e meia para passar três minutos e meio na frente do médico. Vá lá que eu não estava morrendo, era só para saber se estava tudo bem e marcar um pequeno procedimento cirúrgico, mas a relação espera-tempo de consulta é assustadora. Por esse tempo, eu poderia querer um transplante!</p>
<p style="text-align: justify;">► Tenho que deixar claro uma última coisa: os médicos não estão preparados para os meus conhecimentos. Não, não estão. O que são os seis anos de graduação de qualquer um deles na frente dos meus sete anos de <em>House</em>? E sete anos fresquinhos, que fiz como intensivão, nos últimos cinco meses! Conheço todas as <em>lises</em>, <em>oses</em> e <em>psias</em> existentes ou inventadas. Tudo pode ser câncer, sarcoidose ou doença autoimune. Biopsia de cérebro é mais básico que exame de sangue. Se o House que é o House, que ganha 750 mil dólares por caso e é assessorado por 4 (às vezes, por 6) médicos, demora 45 minutos pra descobrir qual é o problema, como alguém pode ir me despachando assim em três minutos e meio? Isso é só o tempo da abertura do episódio, só para eu dizer o que me levou até ali. Não assina Universal Channel? Não tem DVD? Não tem banda larga para baixar os episódios? Se liga, <em>doc</em>!</p>

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		<title>Dor é a fraqueza saindo do corpo</title>
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		<pubDate>Wed, 11 May 2011 18:56:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>

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		<description><![CDATA[Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran. A primeira dor física da &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/11/dor-e-a-fraqueza-saindo-do-corpo/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/dorolhos.jpg"><img class="size-full wp-image-982 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/05/dorolhos.jpg" alt="" width="600" height="230" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Dor de cabeça, dor de cotovelo, dor de corno, dor dos pecados, dor de barriga, dor de amor, dor na alma. Todo mundo já teve dor. Dores que logo passam, dores que duram, Dolores Duran.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira dor física da qual lembro me pegou ali pelos 10 anos de idade. “Cólicas de fígado”, diziam. Sim, eram físicas, eu me contorcia e corria para o banheiro, mas talvez as causas fossem emocionais, pois sempre aconteciam às vésperas de grandes eventos como as provas finais ou viagens de avião. Elas me ensinaram a não ligar para as coisas e não morrer de véspera. Ensinaram a não me preocupar, mas só me ocupar das coisas quando elas acontecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Dor mesmo, eu conheceria aos 20 anos. Lembro de deitar no chão da sala, suando, arfando, sem conseguir pensar direito. Lembro também da sensação começar a diminuir quando eu já estava deitado na cama da emergência de um hospital, tomando buscopan na veia.  O que aconteceu entre um momento e outro, a dor não me permitiu registrar. Quem já teve cálculo renal não precisou chegar a esta frase para saber o que foi aquilo. Pergunte a uma mulher que já teve parto normal e cálculo renal qual experiência ela prefere repetir. As que conheço, que passaram pelas duas, foram unânimes: preferem outro parto. A tal cólica renal é uma dor dos infernos! Literalmente, derruba a pessoa. Ela não “vai aparecendo” e lhe dá chances de procurar um médico, fazer exames, tomar remédio para que não piore. Ela funciona como um tiro: quando você percebe é porque já foi atingido. Três dias depois, pouco mais de uma hora após ter deixado o hospital, coloquei a danada da pedra para fora. Um trocinho parecido com um grão de areia. Como aquilo pode causar tanta dor?! Não sei, mas anos depois eu sabia como o drama começava e passei por tudo de novo. A diferença é que não quis ficar internado. Fiquei apenas uma noite no hospital. A noite seguinte, passei no bar. Eu e a cerveja já éramos grandes amigos e eu sabia que poderia contar com ela para botar aquela segunda pedra para fora. Deu certo, mas o fígado jamais me perdoará por aquele episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas duas vezes seguintes, nem fui ao hospital. No primeiro sinal, uma lapada de buscopan, cama e paciência. Lembro da palestra de um médico amigo, na qual ele citou um trecho do Sermão da Montanha – “<em>Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados</em>” – e trazia para a realidade física, completando: “<em>Quem chora, sabe onde dói, mostra onde é e tem possibilidade de ser curado.</em>” Possibilidade. Quando a dor bate, eu queria que a ciência tivesse a firmeza e a certeza daqueles que têm fé – pobre de mim, criatura sem fé e sem conhecimento! – e dissesse logo o que fazer para acabar com ela. Não sou chegado a remédios, mas começo a entender quem se entope com eles para não tem dor.</p>
<p style="text-align: justify;">Ando cheio de dor. E do pior tipo: a crônica. Deus não deve ter entendido minhas preces diárias pedindo “uma boa crônica”. Relevo. Ele deve ser super-ocupado e ninguém pode mesmo trabalhar direito nessas condições. Enfim&#8230; estabeleceu-se uma maldita dor crônica, poderosa e cheia de vontades, que me quer totalmente deitado ou andando. Não posso mais ficar sentado. E foi assim que passei mais tempo durante a última década, sempre pesquisando e escrevendo. Só não mais porque prefiro ler deitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Paro o texto por um instante e dou uma olhada no <em>Twitter </em>bem na hora em que Gloria Perez informa sobre uma matéria com ela, publicada hoje, na qual diz: “<em>Escrevo sempre em pé, olhando o mar. Se escrevo sentada, vou ficando torta e acabo tendo dores de coluna. Em pé, não sinto dor.</em>” O repórter se admira tanto que trata a informação como “<em>revelação inusitada</em>”. Inusitada para quem não escreve ou não faz isso há muito tempo. Sua hora há de chegar, meu caro! Ou aceite o conselho e procure evitá-la. Nietzsche já ensinava: “<em>Senta o menos possível. Não acredite em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação &#8211; quando também os músculos estiverem participando da festa.&#8221; Quando em Ecce Homo ele fala de sua doença, diz que, ao final das contas, é isso que leva alguém a ser saudável, que a doença pode “até ser uma estimulação enérgica à vida, a viver mais</em>”. É bem o que penso. Saudável, relaxo. Doente, fico alerta e parto para a guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">Há pessoas que falam em “respeitar a doença”, “não brincar com doença”, não dizem os nomes de algumas, como se isso pudesse atraí-las. Pois se alguma quiser acabar comigo, vai ter que aturar zombaria até o meu último suspiro. Quer me matar e ainda quer respeito?! <em>Ma va!</em> E olha que dor, principalmente uma que não passa, é algo que tira o bom humor de qualquer um. Essa atitude também tem seu preço: ninguém acredita que eu tenha algo grave. O pensamento geral é que se tivesse estaria numa cama, reclamando o tempo todo, indisposto a tudo. Nem os médicos acreditam em um enfermo que sorri e faz piadas. Nem os exames parecem acreditar também, já que até agora nenhum acusou grande coisa. Dor crônica é como uma virose: se você tem, console-se. Parece que não há muito que fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que ganhei esse presente, comecei a reparar que muitos vivem com dor, isto é, convivem com ela. Durante anos! Durante uma vida inteira! As pessoas “se acostumam”. Mudam o humor, mudam o comportamento, mudam alguns hábitos, tomam remédios e vão levando. Isso não é nada bom. Prefiro ir para a guerra sob a frase de recrutamento da marinha americana: DOR É A FRAQUEZA SAINDO DO CORPO. E  se está aqui, eu ponho para fora.</p>
<p style="text-align: justify;">E se você tem dor crônica – ou qualquer doença crônica –, venha cá, me dê a mão, vamos sair dessa. Porque a vida é para ser vivida plenamente. SAÚDE!</p>

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		<title>Notas na sala de espera</title>
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		<pubDate>Tue, 10 May 2011 01:45:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários. ► Tevês. Sempre há &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/05/09/notas-na-sala-de-espera/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">► Um livro e um caderno de anotações. Nada eletrônico. Nem celular, nem relógio. É fácil saber as horas. Há relógios em todos os lugares. Ironicamente em um lugar de gente pouco afeita a cumprir horários.</p>
<p style="text-align: justify;">► Tevês. Sempre há pelo menos uma vomitando gritos, violências, desgraças. “<em>O senhor está tomando alguma medicação?</em>”, pergunta a atendente. O homem responde: “<em>9112&#8230;</em>” Tão absorto na pancadaria do futebol que responde informando o número do celular. Convenhamos que, para muitos, o aparelho funciona mesmo como um tipo de droga, viciando e ajudando a fugir da realidade.  Assim como a tevê.</p>
<p style="text-align: justify;">► Às vezes é impossível ler durante a espera por conta do barulho do televisor. Fico impressionando com as pessoas vidradas no monitor, desligadas do mundo. Quem pode gostar de assistir a um telejornal mundo cão – e, hoje, não existe um que não seja – e já acabar com a possibilidade de um dia feliz logo pela manhã? Gente depressiva, gente sem filtro, gente não gente. Direito ao silêncio. Nem em ambientes médicos existe mais. Até o quadro da enfermeira pedindo silêncio sumiu.</p>
<p style="text-align: justify;">► Pernas balançando. O que é esse nervosismo quase endêmico? Algum tipo de energia acumulada? Eu, que vejo humanos como animais menos peludos, que usam roupas e que insistem em se fazer de bípedes, tenho uma explicação simples: na falta de uma cauda, se balança a perna.</p>
<p style="text-align: justify;">► Estranho os hábitos alheios e é provável que as pessoas estranhem os meus. Ou não. Discreto, silencioso. Sempre lendo ou escrevendo. Mas penso em carregar meus tampões auriculares. Aqueles pedaços de silicone colorido enfiados nos ouvidos causariam alguma perturbação.</p>
<p style="text-align: justify;">► Devo ter uma “aparência genérica” ou um rosto de quem sabe tudo. Onde quer que eu esteja, as pessoas me pedem informações. Um senhor se aproxima e me pergunta onde fica o mictório. Talvez tenha imaginado que eu trabalhasse lá por conta da gentileza de ter aberto e segurado a porta para que ele entrasse. Ou talvez porque eu fosse a única pessoa sentada em uma das cadeiras abaixo da escada e que estava concentrada escrevendo. Aquilo não é lugar para paciente aguardar e como estava fazendo algo diferente de ver tevê ou brincar com o celular, aquilo só poderia ser por obrigação.</p>
<p style="text-align: justify;">► Aguardei por 22 minutos até ser chamado para um pré-exame, um eletrocardiograma. Uma ruivinha de cabelos longos me atendeu. Não lembro quando foi a última vez que uma garota tão bonita me pediu para tirar a camisa assim que ficamos a sós no mesmo cômodo. Obedeci imediatamente, antes que ela mudasse de ideia. Conferiu meu peso, altura e me mandou deitar. Eu estava gostando daquilo. E se você pensa que parou por aí é porque ainda não contei que ela começou a subir minhas calças! Achei que a coisa fosse esquentar bastante quando ela pegou nos meus tornozelos, mas&#8230; espere! Ela <em>subiu </em>minhas calças. Ela queria meus tornozelos livres para pinçá-los e conferir meus batimentos. Duvido que aquele exame tenha dado normal. Nota mental: sugerir ao cardiologista que contrate auxiliares feias. As muito bonitas que me perdoem, mas resultado confiável é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">► Saio frustrado e volto à cela sob as escadas. Tinha um encontro com uma lenda: o médico com hora marcada. Há quem diga que ele já existiu de verdade. Para mim, o último bastião da pontualidade no Brasil era o horário das sessões de cinema. Depois que elas passaram a atrasar, não acredito em mais nada. A consulta era às 10h. Uma hora, três minutos e cinquenta páginas depois, sou chamado. Ausculta daqui, ausculta de lá&#8230; tudo normal. “<em>Tinha dado pressão alta?</em>!” Tinha, mas a médica era bonita. Ele concordou que tal fator deve ser levado em conta. Fui dispensado com aquele desinteresse médico típico dos que atendem alguém que está só resfriado. Eu, admiradíssimo por ele ter achado um coração. E ainda batendo. Deve ter como função marcar meus compassos de espera&#8230;</p>

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		<title>Das falsas virtudes ou “eu quero sexo”</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Mar 2011 18:25:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[O mineirinho cantou a bola. Esse negócio de falar de intimidades é só para depois de morto. Deixou para publicar depois da vida o que de mais gostoso existe nela. Sua língua lambilonga, lambilenta, a percorrer licorina gruta cabeluda, atingindo &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/03/06/das-falsas-virtudes-ou-eu-quero-sexo/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/03/majavestida.jpg"><img class="size-full wp-image-922 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/03/majavestida.jpg" alt="" width="600" height="302" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O mineirinho cantou a bola. Esse negócio de falar de intimidades é só para depois de morto. Deixou para publicar depois da vida o que de mais gostoso existe nela. Sua língua lambilonga, lambilenta, a percorrer licorina gruta cabeluda, atingindo o céu do céu entre gemidos; a doce surpresa da graça não pedida, quando a amante fica de joelhos, em posição devota, para que o pênis recolha a piedade osculante de sua boca; ou ainda a explícita decisão de não querer ser o último a comê-la; tudo isso, ele deixou para ser dito depois que estivesse a salvo do conservadorismo hipócrita, protegido por sete palmos de terra e paredes de mármore.</p>
<p style="text-align: justify;">Adoramos corpos expostos, queremos possuí-los – no sentido de ter um e de ter os de outros ao dispor –, sonhamos com o(a) amante perfeito(a), nos enganamos acreditando que ninguém no mundo trepa melhor que nós, adoramos dar bandeira (real ou não) de que temos uma vida sexual maravilhosa, mas falar sobre sexo&#8230; NÃO! Falar, não pode.</p>
<p style="text-align: justify;">Fato: se você se incomoda com a exposição de determinado tema comportamental é provável que isto não seja algo muito bem resolvido na sua vida. Ou seja, se ouvir falar sobre sexo incomoda é porque você não come direito nem está sendo bem comido(a).  Não perca tempo se emputecendo com isso. Só estou avisando. Não é culpa minha se você é assim. Vá trepar (mesmo mal), que a raivinha passa.</p>
<p style="text-align: justify;">Erotismo não ganha resenha, não pode ser falado, tem que ser escondido e criticado. É coisa para gente bem resolvida, não para selvagens travestidos de civilizados. Às pessoas assim, adoro lembrar que estão aqui porque seus pais treparam. Sim, papai comeu mamãe, mamãe se abriu toda, suaram, gemeram, grunhiram e nove meses depois, também nu, nasceria um bebê fofinho que um dia se transformaria em um falso moralista, um hipócrita, uma pessoa com problemas sexuais e em aceitar a coisa mais antiga e gostosa do mundo. Se papai imaginasse que você seria assim, era bem capaz de ele ter gozado em outro lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1902, em Minas, um papai e uma mamãe fizeram tudo bem direitinho. Nasceu um menino que danaria a por em versos as perturbações de seu espírito, suas angústias e inadaptações ao mundo. Tudo escrito de uma forma genial, mas nada que entrasse para a história. Não que não merecesse, mas porque nasceu em um país de gente, em sua maioria, de educação falha, que não valoriza a própria cultura, que não lê, que mesmo antes dos editores eletrônicos já vivia a época do Ctrl+C/Ctrl+V, pensando com a cabeça do outros. E isso não é uma opinião minha. É um fato observado por ele mesmo: “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas.” Foi Drummond quem falou. E também foi ele com sua língua <em>lambilonga, lambilenta</em> que, muito sabiamente, fugiu de expor suas doces sacanagens enquanto vivo. Nei Leandro de Castro, que a maioria deve ter ouvido falar por aquele filminho (<em>O homem que desafiou o diabo</em>) que destruiu seu ótimo livro (<em>As pelejas de Ojuara</em>), é uma dos grandes nomes da literatura erótica brasileira.  Ou, em outras palavras, não é ninguém, mas só por conta deste “brasileira” ao final da referência. Escreve que é um demônio de bom, mas onde estão seus livros eróticos? Quem já ouviu falar deles? Quem já leu algum? Quem já leu uma resenha sobre algum deles? <em>O Amor Natural</em>, livro póstumo de Drummond, foi muito falado. “<em>Porque era Drummond e porque já estava morto</em>”, me disse, há anos, Nei Leandro que ouviu do poeta mineiro que seus versos eróticos só seriam publicados quando ele já não estivesse vivo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/03/majadesnuda.jpg"><img class="size-full wp-image-923 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/03/majadesnuda.jpg" alt="" width="600" height="305" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Percebo, nos cinemas, os risos nervosos e os ajeitamentos nas poltronas durante uma cena de sexo. Vejo os olhares que fogem dos quadros de nus nos museus. No país da bunda de fora, dos implantes monstruosos para seios e bundas, onde é comum a própria xavasca querer ficar pelada e sem sua vestimenta natural, é proibido mostrar sexo na pintura, na literatura, na poesia, no cinema. As “vergonhas” precisam ser cobertas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma sociedade tão permissiva, vigilância por comportamento socialmente aceitável é, quase sempre, manifestação de fingidas virtudes. Já vergonha de hipocrisia, parece que ninguém tem.</p>
<p style="text-align: justify;">Este texto nasceu da publicação do anterior, escrito há quase dez anos. Em pleno carnaval – época de muita sacanagem explícita –, resolvi postá-lo. Não tem absolutamente nada de chocante ou anormal. Pelo menos não para quem já fez bom sexo alguma vez na vida. E se você nunca teve uma paixão daquelas de deixar a pessoa, literalmente, de cama, de não pensar em outra coisa, de não se importar se os vizinhos vão ouvir os gritos, de deixar seus brinquedos em carne viva, só posso lamentar. Lamento profundamente por você não ter seguido as ordens da natureza, de não ter vivido sem constrangimentos o amor natural, aquele mesmo do qual Drummond fala em sua poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">E o que importa se era ficção ou não? Fala de algo extremamente comum – e delicioso! – que qualquer um deveria ter vivido. Não deveria ser ficção na vida de ninguém! Mas chegou a provocar revoltas ocultas e aconselhamentos a terceiros, a quem resolveu recomendá-lo ou comentá-lo. Se eu fosse do tipo egocêntrico, teria gostado da importância que me deram. Teria me sentido um Goya sendo obrigado a vestir sua <em>maja</em>. Mas, numa situação dessas, o Goya aqui chamaria sua <em>maja</em> para trepar em praça pública.  Afinal, como diria a música falando de sexo e censores, quem essas bestas pensam que são para decidir?</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">Emocionalmente equilibrados e sexualmente felizes, sintam-se à vontade para comentar.</p>

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		<title>Tô gato?</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jan 2011 17:48:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Vivemos em um tempo em que é preciso ver para crer. Morreu a imaginação e toda riqueza que ela trazia. O mais triste, porém, é que mesmo vendo continuamos não enxergando. Ou pior: somos enganados, levados a acreditar que aquilo &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/01/17/to-gato/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_6avat.jpg"><img class="size-full wp-image-861 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_6avat.jpg" alt="" width="600" height="188" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Vivemos em um tempo em que é preciso ver para crer. Morreu a imaginação e toda riqueza que ela trazia. O mais triste, porém, é que mesmo vendo continuamos não enxergando. Ou pior: somos enganados, levados a acreditar que aquilo que vemos é determinada coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Vivemos em um mundo de exposição. “<em>Você viu?</em>” é a pergunta da hora. As revistas que mais vendem são as que mostram caras, roupas, corpos. Os programas de TV mais assistidos são os que escancaram a vida das pessoas, expõem suas intimidades, mostram suas transformações em busca de aceitação (guarde bem esta última informação).</p>
<p style="text-align: justify;">Sou de uma geração de jornalistas que conceituosamente acreditava que quem queria escrever, ia para os impressos; quem queria aparecer, ia para a tevê. Escolhi os jornais. Fiz tevê por um breve período.  Em uma coluna sobre informática que mantive por ano e meio em um jornal, demorei a aceitar o padrão que colocava uma foto do colunista ao lado de seu nome. O que interessava era o que eu noticiava, não como era a minha cara. Era jornalista, não modelo ou aspirante à celebridade. Veio a <em>web</em> e me senti ainda mais à vontade. Escrevendo, atingindo mais gente, tendo respostas, trocando informações e opiniões. Tudo sem precisar mostrar a cara. Então, surgiram as redes sociais. E em sociedade – real ou virtual – tudo se comenta, tudo se quer saber, a começar por “<em>como fulano é?</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante anos, usei como avatar um desenho feito por Marcelo Andrade no início da década de 90. Às vezes, quando não me reconhecia nele (quando estava de cabelos compridos, por exemplo), o substituía por outra imagem. No <em>Twitter</em>, que uso há três anos, ele também figurou por muito tempo. Na virada de 2009 para 2010, passei a raspar a cabeça e, mais uma vez, não me reconhecer no desenho. Comecei a usar uma foto atual, careca, de perfil. O cabelo cresceu e eu passei a usar uma foto de quando criança <em>warholizada</em>, isto é, com aquele efeito de cores utilizado no famoso quadro de Marilyn Monroe feito por Andy Warhol.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevo, fotografo, viajo bastante, moro em vários lugares e muita gente vai chegando por variados motivos e sem saber como realmente sou. A curiosidade começou a crescer e muitos (principalmente muitas, né?) insistiam que eu usasse uma foto atual como avatar. No final de 2010, passei a usar o autorretrato que está logo abaixo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf02_sombra.jpg"><img class="size-full wp-image-862 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf02_sombra.jpg" alt="" width="600" height="288" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Imediatamente os comentários apareceram. Em geral, diziam: “<em>Huuuum, está começando a se mostrar, hein?!</em>” Sim, a foto representava isso. Alguém saindo da escuridão e se revelando. Mais que isso, ela era um retrato fiel do meu momento, em que eu saía de um longo período de recolhimento, de pouca sociabilidade, pouca exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essa foto gerou um comentário interessante da filha adolescente de uma amiga minha: “<strong><em>Nem parece o Sandro.</em></strong>” Mas, sim, era eu e me revelando como raramente fazia. Era muito eu! Era eu como eu me conheço! ERA EU MESMO! E aí veio o estalo: as pessoas não nos veem como realmente somos, mas como imaginam que somos. Então, resolvi mostrar isso na prática, fazendo uma série de autorretratos, e aproveitando para discutir outros pontos. Se você me acompanha no <em>Twitter</em> ou no <em>Facebook</em>, já deve ter visto as quatro fotos. Se não, aí estão as duas primeiras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_cortazar01_pb_600.jpg"><img class="size-full wp-image-863 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_cortazar01_pb_600.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_thompson_pb_600.jpg"><img class="size-full wp-image-864 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_thompson_pb_600.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Pare de rir ou saia do choque e volte a se concentrar no texto. No <em>Twitter</em>, onde todo tipo de gente me segue, eu simplesmente provocava perguntando “<em><strong>Tô gato?</strong></em>”. No <em>Facebook</em>, onde há uma concentração maior de jornalistas, escritores, fotógrafos e afins entre meus contatos, eu dava uma pista após as legendas: Fulano de Tal Style.</p>
<p style="text-align: justify;">Os retratos são baseados em fotos famosas de escritores consagrados. Essas imagens estão reunidas no divertido Tumblr <a href="http://togato.tumblr.com" target="_blank"><em>Tô gato?</em></a> e mostram, principalmente, o ridículo da exposição de gente pouco afeita a mostrar o rosto. Afinal, escritores querem mostrar seus textos, suas ideias, nada mais. Pelo menos, deveria ser assim. Veja as fotos originais.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/corthunt.jpg"><img class="size-full wp-image-865 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/corthunt.jpg" alt="" width="600" height="313" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Inicialmente, pensei em fazer uma série com 5 ou 6 fotos, mostrá-las de uma única vez, aqui no <em>blog</em>, e sugerir que escolhessem qual deveria usar como avatar. Mas surgiu outra ideia: mostrar uma por vez para que as pessoas pudessem se concentrar mais, analisar somente uma e dizer o que achavam. A primeira foi a do “oclão”, baseada em Julio Cortázar.  Em minutos, só pelo <em>Twitter</em>, teve mais de 100 visualizações. Juntando os comentários via <em>Twitter </em>e <em>Facebook</em>, foram cerca de 50. Logo percebi que havia escolhido a maneira certa de provocar. Centenas de pessoas passam por aqui a cada novo texto meu, mas o dia em que um post tiver um terço desses comentários e na mesma velocidade, darei uma festa!  No dia seguinte, exibi a foto baseada em Hunter Thompson. Mais aberta, na praia, tomando uma cerveja, de bata branca, óculos Ray-Ban, chapéu de palha. Quase duzentas visualizações somente no Twitpic e uns 50 comentários abertos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pausa para rápida análise sobre um detalhe nas duas primeiras imagens. Na primeira foto, muita gente atentou para o fato de os óculos serem femininos. Na segunda, também comentaram sobre a mudança desse item. Pergunto aos que me conhecem pessoalmente há dez anos ou mais: quando, na última década ou década e meia, me viram usando óculos escuros? Tenho quatro graus de miopia e nunca usei lentes. Para usar óculos escuros, eles também precisam ter grau ou, como usei por muito tempo, lentes escuras ajustadas sobre as lentes normais. Entre os 18 e os 22 anos, mais ou menos, eu usava óculos escuros assim. Tinha uma fotofobia fortíssima. Percebi que o uso das lentes escuras me atrapalhavam para captar detalhes (fotografando ou tratando imagens) e preferi treinar meus olhos, acostumando-os à luz, a simplesmente protegê-los. Além disso, me incomoda não ver os olhos das pessoas e eu não gostaria que se incomodassem ao não ver os meus. <strong>Quando converso, gosto de olhar nos olhos. São dois e costumam falar bem mais que uma única boca.</strong> Portanto, não uso óculos escuros. Pergunto de novo e de forma mais enfática: alguém que me conheça pessoalmente achou, por um único instante, que aqueles dois óculos poderiam ser meus? Alguém achou que eu me poria a andar por aí, cego, por questão de estilo?! Prefiro acreditar que não. E, na segunda foto, quem já me viu de chapéu de palha? Ou de batinha? Na praia? E com tudo isso junto?</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_auster_600.jpg"><img class="size-full wp-image-866 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/sf_auster_600.jpg" alt="" width="600" height="480" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Alguns começaram a desconfiar. Sim, era alguma brincadeira. Mas qual era a brincadeira? E a terceira foto (acima) veio para confundir mais. Em estilo Paul Auster, parecia séria. De terno, em um super close, expressão grave, os olhos (sem óculos!) encarando quem via a foto. Os comentários foram mais na base no “<em>Gostei dessa!</em>”. E foram muitos os “comentários internos” – por DM no <em>Twitter</em>, por e-mail, por MSN. A pergunta já não parecia tão jocosa e começou a ser respondida: “<em>Sim. Tá gato.</em>” Mas o que diabos o Sandro, que nunca se mostra, resolveu fazer uma série dessas?! A esta altura do texto, muita gente já deve ter entendido, pelo menos, um dos pontos: retratos assim não são 3&#215;4; eles são feitos para imprimir uma ideia. Mesmo que não seja consciente – e ainda que você nunca tenha pensado nisso – a leitura é imediata, baseada nas informações que você tem, nas coisas que você aprendeu. Terno?  É uma pessoa para ser levada a sério. Olhos escondidos ou olhando para algum lugar que não podemos ver? A pessoa está vislumbrando algo particular, do mundo dela, mistério! Olhos que encaram? A pessoa está falando diretamente com você, bem perto, de forma íntima, não quer segredos. Mãos na cabeça ou apoiando o queixo? A pessoa valoriza o centro do pensamento, ela é inteligente. O que acho mais interessante da minha foto ao estilo Paul Auster é que além da leitura óbvia, comum, ela revela meus olhos (que eu gosto e acho bonitos), sempre escondidos pelos óculos. Pode não parecer, mas é realmente muito íntima porque só quem dorme comigo me vê assim: tão de perto, sem óculos, olhando tão diretamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa foto também gerou um comentário, de outra pessoa, idêntico ao da filha de minha amiga sobre a foto em que só aparecia metade do meu rosto: “<strong><em>Nem parece você.</em></strong>” E, mais uma vez, era a que me mostrava sem máscaras, sem acessórios escondendo partes do rosto e sugerindo leituras de estilo. Nem mesmo meus óculos de grau. Era tão somente meu rosto nu.</p>
<p style="text-align: justify;">Achei que esse comentário fechava o ciclo e eu poderia revelar a experimentação. Mas pensei um pouco e resolvi partir para outro lado. Que tal fotos mais&#8230; gays? A primeira, com os óculos femininos, já havia provocado comentários de alguns gays. Devem ter pensado: “<em>Huuum&#8230; esses óculos estão dando pinta. Ele também é!</em>” Pensei em versões de fotos de Oscar Wilde e Dylan Thomas, mas, quem me conhece, sabe que quando eu resolvo aloprar, prefiro aloprar de vez. Parti logo para uma foto ao estilo Virginia Woolf, de vestido, flores na cabeça, na clássica pose com mão em “L” no rosto e olhar perdido. Recorde absoluto de visualizações e insultos! Pronto. Eu já podia parar com a brincadeira.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/virginia.jpg"><img class="size-full wp-image-867 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/01/virginia.jpg" alt="" width="600" height="404" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A escolha de fazer versões de fotos de escritores foi, por si só, uma crítica. Escritor não precisa mostrar a cara, precisa mostrar ideias. Nessas fotos antigas, quando não havia o pensamento tão comum dos dias atuais de que “<strong>imagem é tudo</strong>”, percebemos como esses grandes nomes chegavam a ser ridículos quando, por algum motivo, resolviam se mostrar. Hoje, um(a) escritor(a) bonitinho(a) tem grandes chances de arrebatar fãs de sua imagem e, com isso, vender mais livros, que nem precisam ser bons. E se não for bonito, vai se fazer parecer. As fotos de divulgação tentarão passar a imagem de que são inteligentes, sofisticados, sérios, simpáticos, sociáveis, próximos a você, etc. Mesmo que tudo isso seja mentira.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço o peso da não exposição. Conheço o peso de não querer passar uma imagem aceitável, agradável, apreciada pela maioria. E pago o preço disso porque aprecio o conteúdo das coisas e não a aparência externa delas. As capas dos livros são cada vez mais lindas, mas um bom livro só precisa de capa para juntar e proteger seu miolo. Quem se dispuser a lê-lo e compreendê-lo, jamais se importará com os cuidados estéticos da edição.  Pode vir em edição luxuosa para colecionadores, de bolso, em papel jornal ou como <em>e-book</em>. Certamente que uma ou outra versão agradará mais ou menos a esta ou àquela pessoa. Mas o conteúdo será sempre o mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhuma das fotos me retrata exatamente, por inteiro, de forma absoluta. Estou em todas as fotos e em nenhuma delas. Com já disse, <strong>as pessoas não costumam nos ver como somos, mas como pensam que somos</strong>.  Seremos sempre uma versão adequada à miopia de cada um.</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito que esta série de fotos também encerre, de uma vez por todas, uma leitura comum e equivocada sobre minha reserva em relação à exposição. Se alguém pensava que sou tímido, não resta qualquer dúvida de que pensava errado, não?  E sobre me expor, me deixar conhecer, saber como sou, eu não poderia fazê-lo de forma mais despudorada e explícita do que faço quando escrevo. A pergunta é: <strong>você consegue enxergar isso?</strong></p>

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		<title>Escrever bem para comer alguém (e elogiar para comer também)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Nov 2010 23:40:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa com o leitor]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[É típico dos tímidos: fazer poesia ou usar um instrumento musical para demonstrar seus sentimentos. É típico dos jornalistas: não ter qualquer dom artístico e resolver escrever para demonstrar sua capacidade intelectual “superior”. É típico dos jornalistas tímidos: renegar a &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/11/10/escrever-bem-para-comer-alguem-e-elogiar-para-comer-tambem/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É típico dos tímidos: fazer poesia ou usar um instrumento musical para demonstrar seus sentimentos. É típico dos jornalistas: não ter qualquer dom artístico e resolver escrever para demonstrar sua capacidade intelectual “superior”. É típico dos jornalistas tímidos: renegar a reportagem e aventurar-se pela crônica ou pelo “jornalismo literário”. Jamais tímido e há muito ex-jornalista, sinto-me à vontade para denunciar a fraude.  Muitas vezes, a pretensão de escrever bem é motivada somente pelo desejo de comer alguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Não estou em um momento Soninha Francine. Não vi os podres da curriola só depois de me afastar dela.  Sempre vi, nunca fiz, mas até hoje me choco com a prática. Apenas resolvi escrever a respeito. Talvez até escrever bem (vai que funciona!).</p>
<p style="text-align: justify;">Entendo e mesmo acredito que o processo não comece com essa intenção. Mas quando o primeiro peixe aparece, o pretenso escritor entende que precisa cuidar de sua rede. Linha forte, trançado cuidadoso, melhor jeito de jogá-la ao mar e paciência para esperar e puxar no momento certo. Nessa puxada, geralmente vem o convite para “um café”. Talvez ele leve um Moleskine junto e uma canetinha mais descolada (Bic, jamais!). Vai fazer doce, olhar tímido fugindo para a mesa, depois outro buscando mais um elogio. “<em>Mas como você escreve bem!</em>” Pronto! Pegou. É para agora ou quer que embrulhe?</p>
<p style="text-align: justify;">Escritor escreve porque não sabe fazer outra coisa. Bem ou mal. Dádiva ou maldição. Tem necessidade de expor as vísceras, de exorcizar demônios.  Quem se vende pelo que escreve deve ser visto e tratado da forma adequada, como mercadoria. Quem escreve para colher elogios e pescar gente desavisada deve ser visto como um produto em uma vitrine: bonitinho, bem arrumado, boas características exaltadas, más escondidas. Compre, se quiser. Não reclame depois. Pode ser, inclusive, produto perecível e com data de validade perto de vencer. Não é livro raro para ficar em lugar de destaque na sua estante. É jornal. Você pode até querer guardar, mas vai acabar achando que faz muito volume, junta traça e que o melhor a fazer com ele é forrar aquela parte da área de serviço que seu cachorro costuma usar quando você não o leva para passear.</p>
<p style="text-align: justify;">O que era válvula de escape para a timidez se transforma em subliteratura <em>fast food</em>, artifício para conseguir um lanche rápido e barato.  McDonald’s tem em toda esquina; Fasano é outro nível. Onde você prefere comer? E se você responder “<em>McDonald’s</em>”, pergunto: até quando? Verdade seja dita: cada um tem o tipo de cliente que merece.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, que já começo a falar em décadas (ainda que só duas) de experiência numa e noutra área, me aventuro a falar sobre os caminhos cruzados de ambas. Tive muita sorte, mas garanto: dificilmente a inteligente e a gostosa habitam o mesmo corpo. Inteligente, gostosa e que ainda trepe bem&#8230;  Olha, já tirei mais de uma vez nessa loteria, mas é coisa rara! Muito rara! Você, homem, escrevedor ou não, sabe disso. Você, mulher, vítima mais comum daquele tipo “<em>que escreve tão bem</em>”, deixe-me tentar explicar assim: com quantos “Gianecchini machos” você já esbarrou por aí? E você ainda quer um Gianecchini, macho, bom de cama e que escreva como Dostoiévski?!  Onde você pensa que vai achar isso? No jornal da sua cidade? Nos classificados? Em um blog que sua amiga retuitou porque gostou do título sacana que o despudorado deu ao texto? Ah, vá!</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever como ponte para a cama é típico de quem não se garante nem em uma área nem em outra. De minha parte, caras leitoras, alimentem seus cérebros com as linhas bem ou mal escritas por mim. Se a fome é outra, leiam meus olhos e minha boca que, dizem, impedida de falar, costuma ser muito agradável. <em>Sexo verbal não faz meu estilo.</em> Aliás, nessa matéria, dispenso até o escrito. Prefiro oral mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">E se há quem pretenda escrever bem para comer alguém, há quem elogie para comer também. O vaidoso só existe por haver quem alimente sua vaidade. No fim das contas, um se fantasia de deus, encontra quem se ajoelhe e todos são infelizes para sempre. Amém.</p>
<p style="text-align: justify;">Em geral, a pessoa busca aprovação através da opinião dos outros ou, pelo menos, reforçar a opinião que tem de si. Logo vai passar a confiar mais na opinião alheia e, cada vez mais, induzir o outro a avaliá-lo sempre da mesma forma ou ainda melhor, como algo superior.  É pura ficção. Escreve-se há séculos, trepa-se desde que o mundo é mundo e ainda não aprendemos a separar uma coisa da outra! Não sabemos separar fantasia de realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você quer saber se alguém é bom de cama, não adianta ler e acreditar na bula que a pessoa apresentou. Você vai ter que tomar o remédio. Por sua conta e risco. Deixe a fé de lado e parta para tomar ciência da coisa. Os animais são felizes, amam-se livre e despudoradamente e são todos analfabetos. Literatura (boa ou má) é uma coisa; mundo real é outra.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito, acabou o texto. Vá praticar um pouco. Desligue o cérebro e divirta-se.</p>

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		<title>Da urgência dos que conhecem a morte</title>
		<link>http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/28/da-urgencia-dos-que-conhecem-a-morte/</link>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2010 03:15:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte tumular]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[Não há regras para lições. Para cada aprendiz, um método, uma forma, um momento. Já vi a morte, em seu papel de mestra, tentando ensinar muita gente. Doenças pesadas, acidentes sérios, meses ou anos numa cama, partes do corpo retiradas. &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/10/28/da-urgencia-dos-que-conhecem-a-morte/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/ultimoadeus.jpg"><img class="size-full wp-image-683 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/10/ultimoadeus.jpg" alt="" width="600" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Não há regras para lições. Para cada aprendiz, um método, uma forma, um momento. Já vi a morte, em seu papel de mestra, tentando ensinar muita gente. Doenças pesadas, acidentes sérios, meses ou anos numa cama, partes do corpo retiradas. Mas não era a hora de ir. Apenas uma oportunidade de aprender.</p>
<p style="text-align: justify;">Em muitas das vezes que a observei visitando outros, o efeito foi o seguinte: escapando, a pessoa via que poderia morrer a qualquer momento, passava a viver com uma pressa que não tinha antes e sem se importar com nada. Ataque cardíaco? Fumava ainda mais. Cirrose? Dá-lhe álcool. Overdose? Mais pó. Câncer? Mais comida, mais bebida, sexo desesperado com qualquer um&#8230; Afinal, a vida é curta, a morte já bateu à porta, sabe-se lá quando virá de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Agem assim como se isso representasse amor à vida. Não entenderam que suas ações anteriores os aproximaram da morte e que as novas só demonstram paixão ainda maior por ela. Como todo mestre, a morte tem paciência com seus alunos com menos capacidade de cognição. Faz outra visita, senta-se mais tempo ao lado da cama, olha fixamente perguntando: “<em>Entendeu agora?</em>” Alguns entendem; outros nunca aprenderão.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, a visita e a lição vieram de outra forma. A morte me tirou quem eu amava. E fez isso quando este Amor estava gerando outra vida. A morte não teve a mínima piedade, não deu chance, mostrou todo seu poder de uma só vez. E nem perguntou se eu havia entendido.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso foi há quase vinte anos. Comecei a repetir que deveria viver todos os dias como se fosse o último. E caí no mesmo erro que apontei antes, buscando os prazeres que só se pode conhecer nesta vida. Agindo assim, logo chegaria mesmo àquele que seria meu último dia. Ou talvez a mestra fizesse outra visita, repetisse a lição. Da mesma maneira. Foi quando reconheci a vida como aliada. Mas só poderia tê-la a meu lado se produzisse e desse a ela o que a morte me tirou: Amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Amar foi minha arma contra a morte. Foi meu troco. A cada Amor, me sinto mais vivo. Não há mentira, não há superficialidade, não há mistificação. Sempre me jogo de cabeça nesse abismo e a vida sempre está lá embaixo para me segurar no colo. Foi dela que virei amante. A vida não me trai nunca.</p>
<p style="text-align: justify;">Há Amor nas palavras, nos atos, nos sonhos. Há Amor de sobra, sem medida, sem fim, para viver muitas vidas em uma. Morre só a ilusão. Eu, nunca. E nunca os amores em mim.</p>
<p style="text-align: justify;">O Amor vence a morte a todo instante. “<em>Por mais que o matem (e matam)</em>”, ele ressurge mais forte, sempre lembrando que é preciso amar como se não houvesse amanhã. Todos sabemos que não há. Não se pode perder tempo. É sempre para agora e com toda força. Era esta a lição da morte: Amar intensamente nesta Vida.</p>

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		<title>Aqueles marços</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 22:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990. Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/03/30/aqueles-marcos/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes que este também se vá e eu desaprenda de todo a juntar meia dúzia de palavras de forma inteligível, voltemos àqueles de 1989 e 1990.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta, 2 de março de 1989, aconteceu algo que, à época, podia ser considerado um grande evento: o lançamento de um comercial da Pepsi estrelado por Madonna. No dia seguinte, no mundo real e do qual eu fazia parte, o curso de jornalismo da UFRN inaugurava seu laboratório de rádio e TV, nos fundos da Biblioteca Zila Mamede. Depois de acanhados comes ali, parte da turma foi para os bebes no Chernobyl (Chernô, para os íntimos) ,o bar dos malucos, que ficava na Ponta do Morcego, na Praia dos Artistas.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/h8qtsUaoVak&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/h8qtsUaoVak&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Naquele março, pensava em dar continuidade ao jornal <em>Graúna</em>, mas fiquei só na vontade. Também fiz uma descoberta que deixei registrada na agenda, no dia 8: “<em>Como guitarrista, sou um ótimo jornalista</em>”. Agradeça por eu não ter à mão uma foto que me mostra com <em>mullets</em>, sem camisa, com um bermudão vermelho, segurando a guitarra e encostado a uma parede com posters de Stallone e Schwarzenegger. Eu achava que era o Lulu Santos, mas queria mesmo ser um dos dois fortões.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o fim de semana, fazia planos de ir à Flash, uma boate que era “<em>o point</em>”, em Natal, no fim dos anos 80. Não registrei se fui, mas assisti alguns filmes em casa: <em>Weekend Warriors</em>, uma comédia idiota; <em>Twice in a lifetime</em>, uma drama com Gene Hackman e Ann-Margret; e <em>Salsa – O filme quente</em>, grande clássico com o ex-Menudo Robby Rosa. Na terça seguinte, 14, tentei me redimir disso assistindo <em>The Corsican Brothers</em>, este, sim, um clássico, de 1941, com Douglas Fairbanks Jr. interpretando irmãos siameses que haviam sido separados e criados em lugares diferentes. Um, vira um cavalheiro; outro, um bandido.</p>
<p style="text-align: justify;">A semana seguinte começaria com uma notícia triste. Na manhã do dia 20 de março, uma segunda-feira, morria a atriz Dina Sfat. Na terça, eu assistia pela milésima vez uma comédia romântica que ainda hoje acho muito bonitinha: <em>Alguém muito especial</em> (<em>Some Kind of Wonderful</em>), do mestre dos filmes adolescentes John Hughes. Ainda que a cada mês dos últimos vinte anos tenham lançado um filme sobre o esquisito que se apaixona pela garota mais popular do colégio e não percebe sua amiga apaixonada sofrendo bem a seu lado, nenhum chegou perto da mestria de Hughes. A abertura (logo abaixo) é uma de minhas preferidas dentre os filmes do gênero. Em três minutos, sem uma única palavra, Hughes apresenta os personagens, a sinopse da história e dá o ritmo do filme.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/R1dHOg4-esw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/R1dHOg4-esw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Em parágrafo único, tomando quase toda a página do dia 23 de março, dava um ultimato a mim mesmo: “<em>Colocar a vida em ordem</em>”.  Nas duas páginas seguintes, fazia uma longa lista do que precisava fazer naqueles dias. A cada dois itens, um se repetia: “<em>Fazer a resenha</em>”. Trauma de nove entre dez universitários, para mim, isso não chegava a ser um problema, mas eu estava em atraso com uma para Sistemas de Comunicação no Brasil II, disciplina do saudoso Rogério Cadengue, um dos grandes e verdadeiros professores que tive, desses que ensinam muito em sala de aula e mais ainda em mesa de bar. O livro era <em>Carnavais, Malandros e Heróis</em>, que até hoje indico não só a alunos de Comunicação, mas a qualquer um interessado em compreender certos aspectos culturais brasileiros. Tinha que me apressar, pois no domingo havia uma estreia imperdível na TV: <em>Domingão do Faustão</em>. Mais da metade dos televisores do país estariam ligados no contra-ataque da Globo à supremacia dominical de Sílvio Santos. Nós, os ingênuos, acreditávamos que Fausto Silva iria nos salvar da leseira e da mesmice que imperava nas tardes de domingo. Claro! Aquele gordo sacana do <em>Perdidos na Noite</em> iria avacalhar com tudo. Não. Aquele gordo sacana iria se encher de dinheiro e fazer exatamente o que lhe mandassem: ser o idiota do outro canal. Deixa pra lá,&#8230;</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/W03k6GgPhkM&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/W03k6GgPhkM&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">&#8230; passemos a março de 1990, iniciado com mais um filme que eu deveria ter vergonha de contar que assisti: <em>Retroceder nunca&#8230; render-se jamais!</em>, que marcava o início da era Jean-Claude Van Damme. Na mesma linha, assistiria naquele primeiro fim de semana a <em>O Grande Dragão Branco </em>(filme seguinte de Van Damme), <em>O Voo do Dragão </em>e <em>A Fúria do Dragão</em>, estes com Bruce Lee (em <em>O Voo</em>&#8230;  tinha ainda seu discípulo, Chuck Norris). Não entendi o motivo de ver tantos filmes assim nessa época até ler uma carta na qual eu explicava que Fabíola, minha namorada, gostava do gênero. Em seguida vieram <em>Indiana Jones e a Última Cruzada</em> e <em>Willow – Na Terra da Magia</em>. Os clássicos também tinham vez. Eu e Fabíola iniciamos um grupo para debates com exibição de filmes no laboratório de TV. Na estreia, com <em>A General</em>, de Buster Keaton (<a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/02/20/dias-e-filmes-melhores-virao/">texto anterior</a>), quase todos dormiram. O segundo, último antes de desistirmos dessa insanidade, foi <em>A Felicidade não se compra</em>, de Frank Capra, outro desses que guardo no coração e assisto uma vez por ano – sempre no Natal, claro! – para testar se ainda sou humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Meus apontamentos mostram que eu lia muitos livros sobre cinema. Também frequentava outros grupos (menos sonolentos) de estudo. Quem me conhece dessa época, até hoje me cobra que escreva para cinema. Não digo que isso não venha a acontecer, mas não chega a ser uma pretensão. Nas duas décadas seguintes, tornei-me principalmente um amante, um apreciador de filmes que muito raramente vê algo que não o (me) agrade. Os cinemas de <em>shopping </em>com seus animais barulhentos me afastaram quase completamente das salas de exibição, a pipoca americana passou a último lugar na minha lista de possibilidades a serem assistidas e Fellini se tornou minha divindade absoluta. Antes de assistir a um filme, pergunto a ele se posso. Se não mordo a língua nem fico com o corpo paralisado, é sinal de que ele deixou. Recentemente, quando perguntei sobre <em>Nine</em>, senti meu coração sendo esmagado. Até hoje, não tive coragem de ver a tal “homenagem”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda naquele março de 1990, no dia 15, vimos a posse de Collor. Para minha geração, o primeiro presidente eleito por voto direto. No dia seguinte, uma sexta, o país parava para assistir as explicações sobre confisco da poupança e outras medidas impostas pelo Plano Brasil Novo, que ficaria conhecido como Plano Collor. O Cruzeiro voltava e, com ele, o desespero de muita gente. O depois, todos conhecemos.</p>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/4VItVQbiww4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/4VItVQbiww4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>

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		<title>Dias (e filmes) melhores virão</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 17:35:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Morreu Lampeão. E foi épico”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal A República, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “Acabar de datilografar o &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/02/20/dias-e-filmes-melhores-virao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-510" style="border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/ageneral1.jpg" alt="ageneral" width="600" height="388" /></p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Morreu Lampeão. E foi épico</em>”. Jamais saíram de minha cabeça as palavras iniciais de um texto do jornal <em>A República</em>, de 1938, contando o fim do cangaceiro. Em 12 de fevereiro de 1989, anotava na agenda: “<em>Acabar de datilografar o texto de Lampião</em>”. Dura vida de jovem pesquisador. Em priscas eras, já fazia amizade com ácaros. Focinho enfiado em jornais antigos, copiava os artigos à mão para depois datilografar em casa. Nem em meus sonhos mais Clarkeanos (do Arthur C., não do Kent), me imaginaria, quase década e meia a frente, clicando centenas de páginas, em uma tarde, com uma câmera digital do tamanho da palma de minha mão.</p>
<p style="text-align: justify;">Os apontamentos daquele fevereiro denunciam planos nunca terminados como a eterna retomada às aulas de inglês e a incapacidade, hoje parcialmente vencida, de cumprir o que prometia a mim mesmo: Segunda, 13 – <em>“Tentar” fazer o que deixei de fazer ontem</em>; Terça, 14 – <em>Tentar fazer o que não tentei fazer ontem que é justamente o que eu não fiz anteontem</em> e, mais adiante, no fim da página, <em>Saldo do dia: não fiz nada</em>. O humor e a mania de ironizar os próprios defeitos também já se faziam presentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em quase todos os dias, havia uma “reunião”. Sempre em um bar. Era a velha escola do jornalismo e da política estudantil. Marcávamos a reunião, bebíamos todas, decidíamos nada e marcávamos outra reunião para fazermos tudo isso outra vez.  As anotações sobre o vai-e-vem de cartas era outra constante. Chegavam também postais da Paraíba e do Maranhão, enviados pelos novos colegas que havia feito no Enecom. E eu sabia quem eram aquelas pessoas? Várias não foram identificadas. Ah, um Orkut! Ah, um Facebook! Um Google que fosse, para dar uma clareada nas ideias. Não havia nada disso. Só a educação em responder e esperar que alguém mandasse uma foto para ser lembrado. Falando em fotos, só vi as feitas com minha máquina – uma Olympus Trip 35 – duas semanas depois de chegar do encontro. Tinha que esperar acabar o filme – 24 ou 36 poses que rendiam! – e ter dinheiro para revelação e cópias. E nada de cópias para os outros. Eram caras!</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de fevereiro de 1989 começava mais um semestre e, para não ferir os costumes, os professores não apareceram para dar aulas. Sabe como é&#8230; “os alunos não vão, então não vou também&#8230;”, emenda com carnaval, feriados, enforca daqui, enforca dali, hoje não dá, até que, no final, as notas se ajeitavam e (quase) todos ficavam felizes seguindo aquela velha regra: os professores fingiam dar aulas e os alunos fingiam aprender. Sempre demos muita importância às tradições nacionais e tínhamos muito orgulho disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Naqueles idos, eu ouvia bastante o bolachão <em>Black Celebration</em>, do Depeche Mode. Semestre letivo já iniciado, tentava conseguir uma Pentax K1000 junto ao laboratório do curso. Não lembro se cheguei a fotografar, mas estava presente ao debate com Mário Covas, no dia 27 de fevereiro, no auditório da Reitoria da UFRN. No final daquele ano, o país voltaria a votar em seus representantes políticos. Eu, como a maioria dos meus colegas de faculdade, nem era nascido quando isso havia acontecido pela última vez. Imagine a emoção de, sendo universitário, ter a oportunidade e a liberdade de debater com os candidatos! Um deles seria nosso presidente no ano seguinte.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/dQ5ZiMqy_ek&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a posse só aconteceria em março de 1990. É um pouco antes que aportamos, agora, naquele ano. Na terça, 13 de fevereiro de 1990, recebia, pelos Correios, alguns clássicos em VHS, mas só começaria a vê-los no dia seguinte. Naquele dia, a única preocupação era ir ao show dos Paralamas do Sucesso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A General </em>(1927), até hoje considerado um dos melhores filmes da História do Cinema, foi o primeiro VHS que tirei da caixa no dia seguinte. A obra-prima de Buster Keaton chegava aos videocassetes brasileiros 63 anos depois de exibida nos cinemas. O filme teve várias versões que ganharam ou perderam alguns minutos e pelo menos três sonorizações diferentes. A versão que recebi e guardo até hoje tem uma trilha sonora bem superior a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=1b24wqhy0Zo" target="_blank">esta que você pode assistir no YouTube</a>. Talvez tenha sido com <em>A General </em>que percebi existir algo além da <em>Sessão da Tarde</em> e do cinema pipoca. Até então, eu consumia filmes. Era filme, mandava para dentro. Mas o milagre não se deu do dia para a noite. Naquela mesma semana assisti <em>Popeye </em>(sei que serei perdoado por este) e <em>Máquina Mortífera II </em>(e muito justamente condenado por este). Uma curiosidade: na sexta-feira, 16, a Globo exibiu <em>Dias melhores virão</em>, de Cacá Diegues, antes de estrear no cinema. Uma maluquice que nunca consegui entender.</p>
<p><center><br />
<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/EzYApX75WL4&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">No carnaval, que naquele ano caiu no final de fevereiro (24 a 27), passei em Muriú, praia de veraneio do município de Ceará-Mirim (RN). E março&#8230; março fica para o próximo capítulo.</p>

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		<title>As pessoas mudam e esquecem de avisar aos outros</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 00:38:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2010/02/02/as-pessoas-mudam-e-esquecem-de-avisar-aos-outros/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-479" style="border: 0pt none;" title="piteco2" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2010/02/piteco2.jpg" alt="piteco2" width="600" height="215" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Uma árvore robusta, gigantesca, que crescesse mesmo sem cuidados e que ainda estivesse aqui séculos depois de minha morte. Mas o que tenho é o bonsai. Pequeno, frágil, necessitado de muita atenção e cuidados para se manter vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ter falado sobre Natal e das mágoas em nosso relacionamento parece ter excitado alguns demônios.  Em poucas horas, manifestaram-se quase todos os citados. Isso fez com que com outro texto que não queria sair resolvesse dar as caras. Ele fala, principalmente, a respeito de dois temas: a limitada e estagnada visão das pessoas e o triste impulso de alimentar mágoas. Aliados, esses comportamentos conduzem a uma estrada sombria, na qual não se enxerga o todo, nem as pessoas transitando nela, que acabam parecendo monstros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A visão limitada e estagnada</strong> – Minha vida sempre foi muito dinâmica, repleta de mudanças. Morei no Rio, em Natal, em Brasília, em Campina Grande, morei em umas vinte casas, trabalhei em dezenas de lugares, tive três casamentos, um sem número de mulheres nas entressafras, cabelo na cintura, cabelo moicano, mullets, cabelo algum, frequentei clubes, sociedades e grupos variados&#8230; Reconheço que a visão limitada que o ser humano costuma ter somada a uma vida assim não permita que alguém me conheça mesmo muito bem. Há ainda o agravante de que sou um cara extremamente reservado. Viu? Você achava que não pelo fato de eu escrever abertamente a respeito de minha vida? É a tal visão limitada, que não precisa ser obrigatoriamente um defeito, mas apenas algo que faz parte de nossa condição humana. Pois é. Sou muito fechado. Só convivendo muito perto de mim se percebe isso. E o engraçado é que só as raras pessoas a quem proporcionei alguma (ou muita) abertura é que podem dizer: “Ele é muito fechado!”</p>
<p style="text-align: justify;">Sinto de forma mais evidente essa deficiência da visão quando estou em Natal. Passei quase uma década sem contato com muita gente da cidade. Há pessoas que me veem como o cara esquisito de 15 anos de idade que apareceu de cabelo moicano no Salesiano, em 1987, e quase foi expulso por isso. Outras querem ver o Lobão de cabelos compridos que pegava-uma-pegava-geral na faculdade. Adicione a isso os preconceitos e fantasias de cada um e o desastre está feito: cabeludo = drogado, pegava geral = canalha, carioca = malandro, etc. Como já contei aqui, rolava até uma história de que eu me picava (com heroína) e saía nu, pilotando uma moto nas madrugadas de Natal. Se alguém acreditou nisso e passou uma década ou mais sem ver a figura, o que esperaria dela agora? Vamos ficar na realidade e fazer uma pergunta bem simples: como posso agir como um garoto de 15 anos quando tenho uma filha com mais idade que isso? Impressiona-me a dificuldade em perceber o óbvio: as pessoas crescem, envelhecem, mudam. Algumas até evoluem! Pode acreditar.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho estado muito cansado de, para parecer sociável, encarnar esses velhos personagens que as pessoas querem ver. Até porque isso reforça a ideia de que o tal personagem existe. E quando se dá o que os outros esperam, quem surge? O chato ou o estranho. E aí estão novos e também fantasiosos personagem. Pior ainda quando alguém teve uma convivência de dias, semanas ou alguns meses, séculos atrás, teve algum desentendimento e coloca isso como A verdade absoluta, o carro-chefe da sua personalidade. É muita cegueira para dar conta. Já me basta minha miopia.</p>
<p style="text-align: justify;">O Sandro de hoje é um cara cansado de gente, que não gosta de barulho, que adora passar muito tempo lendo, escrevendo e assistindo filmes, preocupado com os três filhos e que passa grande parte do tempo em pesquisas biográficas. Tirando os filhos, é um cara muito parecido com o de 20 anos atrás&#8230; mas que quase ninguém percebia. Muita coisa mudou. Ficou a essência. E tudo que posso fazer é ser eu mesmo. Cansei de vestir as máscaras que costumam me dar. Desculpem-me, mas não rola mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Há o outro lado: o da minha visão em relação ao outros. Não quero parecer diferente ou sobre-humano.  Talvez até seja uma deficiência de minha parte. Na maioria das vezes reencontro as pessoas como se as estivesse vendo pela primeira vez, mas com um sentimento inexplicável de que já passamos bons momentos juntos. Simplesmente gosto delas e estou pronto para brincar. Não espero que sejam perfeitas, não espero que me deem algo. Na verdade, não espero qualquer coisa. O que vier, será bem-vindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos, devido às constantes pesquisas biográficas, também fui submetido a um aprendizado que considero dos mais importantes em minha vida: o de que cada pessoa tem sua versão para um mesmo fato. Parece muito comum, não? Você já sabia disso, eu sei, mas quando se está escrevendo sobre a vida de alguém e se escuta a narração de um fato de dez formas diferentes, isso se torna verdadeiramente impressionante! Você nunca mais esquece a lição. A linha condutora é a mesma, as pessoas viram as mesmas coisas acontecendo, mas para uma, fulano estava lindo e era divertido; para outra, mal arrumado e grosseiro; para uma terceira, era o centro das atenções; a quarta, mal percebeu sua passagem; a quinta parece saber o motivo de ele agir daquele jeito&#8230; Que jeito? E aí começa tudo de novo. Cada um viu de um jeito diferente. Com carinho, com graça, com amor, com raiva, com desprezo&#8230; E eu, que nem estava lá, fico com o grande presente de assistir a cena de vários ângulos, de uma forma mais rica e completa, como ninguém viu. Isso me ajudou bastante a não julgar alguém por uma ação, um momento, um período ou, muito menos, pelo que alguém falou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O triste impulso de alimentar mágoas</strong> – Continuo acreditando que alguém só pode ser magoado por uma pessoa que ame ou, no mínimo, por uma pessoa de que espere um comportamento de carinho, aproximação, amizade ou algo afim. Não guardo mágoas. Já fui traído, roubado, sacaneado, enganado e não guardo qualquer mágoa. Sou um santo? Não. Apenas tenho consciência de duas coisas: a mágoa faz mal a mim (e não a quem a causou) e se alguém me magoou foi por ignorância (se realmente soubesse o que estava fazendo, não o faria).</p>
<p style="text-align: justify;">Já tive profundas e duradouras mágoas de uma ou outra pessoa. Já as alimentei, fiz crescer e sofri bastante por isso. A mágoa é um bicho que corrói por dentro. Quando você vê, já corroeu seu coração. Livrei-me dela antes que isso acontecesse. Como? Tratando do item anterior: da visão limitada e estagnada. Por que a pessoa me magoou? Quais motivos teve para isso? O que a levou a isso? Como era sua vida na época em que causou essa mágoa? Por que não evitou que acontecesse? Fazendo tais perguntas, procurando entender mais do que simplesmente a ação que gerou a mágoa, provavelmente você chegará à óbvia conclusão de que as pessoas não são perfeitas. Elas erram. Com isso, machucam os outros. Se sua visão estiver ainda obscurecida o bastante para não deixá-lo enxergar isso, troque a posição dos personagens e lembre-se da mágoa que você causou a alguém. Por que você magoou? Quais motivos teve para isso? Como era sua vida na época? Por que não evitou que isso acontecesse? Conseguiu as respostas? Acha que é digno de perdão? Dê essa oportunidade a quem o magoou.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes, uma nova mágoa tenta se instalar, mas costumo perceber o ataque e cortar o mal em seu início. Essa parte, até julgo fácil. O que me entristece é quando percebo, em outra pessoa, a mágoa causada por mim. E não posso esperar dela a mesma disposição que tenho em me livrar desse sentimento. Mais triste ainda é quando você nem sabe o que fez para causar aquilo e já se depara com algo gigantesco. O pior é que, muitas vezes, nem a pessoa magoada sabe o porquê daquilo. O que poderia ser algo resolvido em uma conversa de poucos minutos se transforma em um monstro cheio de raiva, sempre pronto a causar novas mágoas. A única forma de se amenizar isso é ter uma profunda Compaixão. Compaixão em sua forma mais nobre e pura.</p>
<p style="text-align: justify;">Como disse no início do texto, tenho um bonsai de Compaixão, mas queria que fosse um carvalho. Queria que fosse algo tão forte, que não se abalasse com a formiguinha ou com o vento. A Compaixão não tem essa capacidade de crescimento da mágoa. Ela não se instala com facilidade, nem vai crescendo descontroladamente. Ela necessita de cuidados, de atenção, de ser alimentada delicadamente. A Compaixão é um eterno bebê: frágil, mas capaz de fazê-lo esquecer qualquer coisa apenas com um sorriso. Cultive essa criança dentro de você.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu melhor sorriso de bebê a todos.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;">O título deste texto é uma frase da escritora norte-americana Lilian Hellman.</p>
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