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	<title>Sempre Algo a Dizer &#187; Biografia</title>
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		<title>Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 22:34:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Biografia]]></category>
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		<description><![CDATA[Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de Carlos Estevão. Para as mulheres solteiras e &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/12/21/dr-macarra-o-padroeiro-das-redes-sociais/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01.jpg"><img class="size-full wp-image-1125 aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; border-image: initial; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border-width: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01.jpg" alt="" width="600" height="276" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/carlosestevao" target="_blank">Carlos Estevão</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Para as mulheres solteiras e carentes com mais de 30, ele se apresentava como Doutor Zilá Camboim, às vezes engenheiro, outras militar, sempre elegantemente trajado, muito educado e solícito. Na verdade, tinha apenas o primário, era casado (mas vivia separado da esposa) e era velho conhecido da polícia, que o chamava de Doutor Macarrão. Passou quase 20 anos ludibriando mulheres para lhes roubar dinheiro e joias. Vivia disso. Este era o seu ofício.</p>
<p style="text-align: justify;">No papel, o Dr. Macarra não era alguém de quem se pudesse ter raiva ou querer prender. Era um pobre coitado já tão castigado pela vida que, para os leitores (ou “vedores”, como dizia Carlos Estevão), só restava rir da sua desgraça e das tentativas de se passar por um homem de respeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01_capa.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1126" title="" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/12/macarra01_capa.jpg" alt="" width="230" height="332" /></a>A revista com seu nome durou apenas nove edições, de abril a dezembro de 1962, mas ele só aparece na capa da primeira. Além das histórias do personagem-título, há também as Novas Aventuras de Sharleck Halmes (apresentadas por Sir Charles Stevens), além de séries e charges com os temas de costume. Tudo roteirizado, desenhado e finalizado por Estevão.</p>
<p style="text-align: justify;">Dr. Macarra foi um herói da Força Expedicionária Brasileira, <a href="http://www.facebook.com/media/set/?set=a.136735409722092.26590.100001569022672&amp;l=9a86acecd5" target="_blank">esteve em Cuba</a> e na selva africana, foi astro do cinema, membro da Academia Brasileira de Letras, artista de múltiplos talentos, um grande político e circulou por Paris. Tudo em sua imaginação e nas histórias que contava para alguma figura feminina. A realidade, sempre mostrada no quadro seguinte, era bem diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Era um personagem mais humano e muito mais rico que o Amigo da Onça. E talvez este tenha sido também o causador de sua morte precoce. Você não conhece um Dr. Macarra? Você não já deu uma de Dr. Macarra? Abra agora o Twitter ou o Facebook e veja quanta gente inteligente, bem-sucedida, rica, frequentadora das melhores festas, amigas de celebridades, que tem tudo que o dinheiro pode comprar e que viaja pelo mundo todo. Você acredita mesmo que todas as pessoas que conhece vivem do jeito que demonstram? Você pode até conhecer um ou dois amigos da onça, mas Dr. Macarra, garanto, você conhece um monte.</p>
<p style="text-align: justify;"><small>* Texto originalmente publicado na edição 371, de outubro de 2011, do <em>Jornal da ABI</em>, como box da matéria <em><a href="http://www.readoz.com/publication/read?i=1043787#page30" target="_blank">Carlos Estevão 90 anos &#8211; Ele só queria ser criança</a></em>)</small></p>

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		<title>De como Sandrinho virou Lobão</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Apr 2011 16:58:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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		<description><![CDATA[Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de Appe, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/04/24/de-como-sandrinho-virou-lobao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_01_livro.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-954" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_01_livro.jpg" alt="" width="228" height="321" /></a>Desde o fim do ano passado, estava evitando ler biografias. No processo de escrever a de <a href="http://www.memoriaviva.com.br/appe" target="_blank">Appe</a>, entrei numas de não me deixar influenciar por estilos de narrativa. Além disso, não queria arriscar me apaixonar pela vida de outro alguém neste momento.  Evitava até comprar biografias e, quando o fiz, consegui não ler. Mas aí chega Dona Luciana Ubarana com <em>Lobão – 50 Anos a Mil</em> e imediatamente pensei: “<em>Fudeu!</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Ah! Para quem não me conhece de longas datas, prazer, eu sou Lobão. Explico. O ano é 1987 e estou no pré-vestibular do Salesiano, em Natal. Carlos “Cristão”, professor de Química, tinha a mania de soltar um “<em>Voooooooooo&#8230;</em>” olhando para um lado da turma e apontando para outra para finalizar “<em>&#8230;CÊ!</em>”. Virava, descobria para quem estava apontando e dizia o nome da vítima. Numa dessas vezes, eu fui a vítima. Usava um corte de cabelo batido na base e um franjão que cobria os olhos. Fazia de tudo para que ninguém me notasse (usando um corte desses na Natal de 87? Tá!). Havia chegado à cidade no ano anterior e como todo estranho, sofria <em>bullying </em>(só disse isso porque está super na moda ter sofrido <em>bullying</em>). Pois bem. Carlos mandou um “vooooooCÊ”, virou para mim, olhou para meu cabelo e completou: “<em>Você, Lobão.</em>” Pronto. O apelido pegou de imediato. Virei Lobão.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos ao outro Lobão. Chegou a Semana Santa, peguei o livro e não desgrudei antes de ler duzentas páginas. Estava lendo os bastidores de uma história que vi e que, em alguns momentos, cruzou com a minha. O corte de cabelo e o apelido Lobão, em 87, não vieram do nada. No verão 86-87, aos 14 anos de idade, eu havia feito minha primeira entrevista. Adivinhe com quem. Pois é. Eu, Fabinho, Marcelo Jucá e Gustavo Lamartine – “<em>uma turminha da pesada que adorava aprontar mil aventuras</em>” – resolvemos aproveitar a passagem de Lobão por Natal e ir até o hotel onde ele estava, na Via Costeira, tentar falar com ele. Eu, tendo um <em>insight</em> do que faria muitas e muitas vezes no futuro, desmontei as caixas do meu <em>stereo</em> portátil, descolei um microfone, uma fita TDK e fui pronto para registrar aquela parada. Levei também a Olympus Trip do meu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos na cara dura e nos apresentamos. O recepcionista pediu que esperássemos. Voltou dizendo que Lobão estava na piscina e que podíamos ir até lá. Meio sem graça, chegamos até a área externa e ficamos procurando. De repente, de uma espreguiçadeira, Lobão se vira e acena. Fomos até lá e começamos a conversar. Eu, já todo jornalista, gravando tudo. O que ele estava achando de Natal, como era o novo show, se o rock errou mesmo e aquelas coisas de moleque se achando gente. Gustavo, o tempo de boca aberta, queixo apoiado na mão, sem falar nada. Quando resolvemos despertá-lo do transe, disse apenas o seguinte: “<em>E o Herbert?</em>” Pronto. Lobão danou a baixar o pau no Herbert Vianna e o resto do papo foi só aquilo. Uma hora de blá-blá-blá, acabou a fita, sessão de autógrafos e eu, sempre preparado e com tudo pensado, saquei a <em>Playboy </em>de setembro de 1986, edição em que Daniele Daumerie (que foi esposa de Lobão) aparecia. Levemente constrangido, ele autografou na página dupla que abria o ensaio. Muito simpático, foi nos deixar na entrada do hotel (talvez para ter certeza de que aquela molecada iria mesmo embora e deixá-lo em paz). Lembrei da Olympus. Fiz uma foto dos meninos com ele e pedi que fizessem uma dele comigo. Eu, na época um <em>boy</em> com um metro e sessenta e pouco, ao lado daquele gigante de quase dois metros. Saí com uma cara de “<em>peraí!</em>”, segurando o trambolho do gravador e a revista.</p>
<p style="text-align: justify;">Daquele show do Lobão, lembro bem dele abraçado a uma garrafa de uísque que foi esvaziada durante a apresentação. Era a turnê de <em>O Rock Errou</em>. Estava em meu primeiro verão em Natal. Os verões dos anos 80 na cidade eram repletos de shows de BRock: Titãs, Ultraje, Paralamas, Kid Abelha, Biquiní Cavadão&#8230; Eu tinha ido ao primeiro show da minha vida alguns meses antes, no Palácio dos Esportes: Cazuza.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_02_ronaldo.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-955" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_02_ronaldo.jpg" alt="" width="288" height="280" /></a>Acho que foi antes desse encontro que comprei <em>Ronaldo foi pra Guerra</em>, segundo LP de Lobão, assinado por Lobão e os Ronaldos. Comprei em uma loja no Hiper Bom Preço. Acho difícil explicar a quem chegou ao mundo na era pós-LP o significado da compra de um disco e o ritual que era ouvi-lo. Escolher o bolachão, apreciar a capa, olhar o encarte se o disco não fosse lacrado (os discos importados geralmente eram), comprar, desfilar com ele até em casa, se trancar no quarto, tirar do plástico pela primeira vez, limpar com a almofadinha, colocá-lo no 3 em 1, levar a agulha ao vinil, deitar e acompanhar as letras pelo encarte (quando tinha).  Você ouvia e apreciava uma obra completa, um determinado momento do artista. Era uma viagem. E eu viajei muito ouvindo <em>Corações Psicodélicos</em>, <em>Não tô entendendo</em>, <em>Tô à toa Tókio</em>, <em>Abalado </em>(a primeira balada lobônica que ouvi), <em>Os tipos que eu não fui</em>, <em>Bambina</em>&#8230; E aí acontecia uma mágica dos tempos do LP: virar o disco. A primeira música do lado B era <em>Me chama</em>. Para quem viveu aquela época, não é preciso dizer mais nada. <em>Me chama </em>é a música que mostrava que os brutos roqueiros também amam.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O Rock Errou</em>, comprei depois. Ouvi muito durante o ano de 1987, o mesmo em que virei Lobão. Também foi naquele ano que deixei não só o franjão, mas todo o resto do cabelo crescer. Os padres do Salesiano não me viam com bons olhos. Na verdade, os alunos também não. O pessoal estava acostumado com forró e vaquejada e não aturava muito a atitude <em>rock’n’roll</em> do carioca alienígena. Tô falando: eu sofria <em>bullying</em>. Mas cagava e andava para isso. Pressionado, resolvi cortar o cabelo. Costumava ir ao salão do seu Guedes, o mais tradicional da cidade e até hoje o preferido pelos políticos, alpinistas da área e wannabes reaças em geral. Cheguei com minha vasta cabeleira – também mal vista pelos clientes – e pedi ao Beto, filho do seu Guedes , para cortar: “<em>Raspa dos lados</em>”. Olha&#8230; Para mim, moicano era um troço velho, de punk dos anos 70, mas, para Natal de 1987, era um negócio pesado e impensável. Enquanto o ministro Aluízio Alves aparava suas carapas brancas na cadeira ao lado, Beto ajudava a nascer o primeiro pós-punk de Natal. Não era um moicaninho de boutique desses de hoje, raspadinho do lado e “deixado em cima”; nem essas frescuras pintadas. Era uma senhora e mui respeitável crista que, armada, tinha lá seu palmo de altura (mantive o comprimento grande do resto do cabelo).  Papai ,mamãe, eu não pedi para vocês me tirarem do Rio em plena explosão do rock nacional. Sinto muito. A cidade ia ter que me engolir. Do Guedes, peguei o ônibus direto para o Salesiano. A coisa mais bonita que ouvi no caminho foi “<em>se fosse meu filho, eu dava uma surra pra se ajeitar</em>”. Uma senhora&#8230; uma velha chata pra caralho foi fazendo um discurso no ônibus sobre como a juventude estava perdida, que o mundo ia acabar e que gente assim (como eu) deveria apanhar até se emendar.  Quando o ônibus parou na Ribeira, virei para a velha, dei o maior berro que podia e desci do ônibus. Bob Cuspe iria se orgulhar. O Salesiano parou quando entrei. Os padres quiseram me expulsar. Deviam achar que eu estava com o diabo no corpo. E se estava, não saiu até hoje. O Lobão, o Sandro Lobão, se assumiu ali.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_04_panfleto.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-956" style="border: 0pt none; margin: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/04/lobao_04_panfleto.jpg" alt="" width="208" height="280" /></a>1988, faculdade de jornalismo. Foi nesse ano que Lobão voltou a Natal com a turnê do LP <em>Vida Bandida</em>. Ele já havia sido preso, estava estouradaço e era o capitão dos malucos de verdade. Na noite de 31 de julho, eu estava bem na frente do palco montado no gramado no Estádio Juvenal Lamartine. Como lembro a data? É porque guardo até o hoje o panfleto (este reproduzido aí ao lado). Estava lá, todo aplicadinho de cerveja.  O show tinha o apoio da rádio 96 FM. A propósito, durante anos, infernizei Ênio Sinedino e Germano (respectivamente, diretor geral e de programação da 96) para liberarem aquele <em>Cena de Cinema</em>, primeiro LP do Lobão, que eles tinham por lá e não servia para nada, afinal as músicas eram gravadas em cartucho e, depois, passaram a usar CD. Nunca me deram. O <em>Cena</em>, como Lobão conta no livro, vendeu pouco e foi logo tirado de circulação por conta de uma encrenca sua com a gravadora. Diz que foram vendidos cerca de 6 mil discos. Eu só teria um já nos anos 2000. Comprei na Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Novinho. Detalhe: também deve ter sido de alguma rádio, pois tem um carinho de “<em>Invendável – Amostra grátis</em>”. Para mim, não foi. Na mesma leva, ainda vieram para minha coleção <em>O Império dos Sentidos</em> (segundo de Fausto Fawcett, com Silvia Pfeifer na capa) e as trilhas de <em>Amarcord</em>, de Fellini, e <em>Areias Escaldantes</em>, de Francisco de Paula.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não sabe, <em>Areias</em> é um filme louquíssimo, non sense, feito em 1985. Francisco de Paula (que conheci em 2006 no Festival Internacional de Cinema de Brasília e vez ou outra dá o ar da graça aqui no <em>blog</em>) juntou Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Diogo Vilela e parte da nata do rock brasileiro – Titãs e Lobão, que participam do filme, mais Lulu Santos, Ira, Ultraje a Rigor, Gang 90 &amp; Absurdettes na trilha sonora – para contar uma história louca (coisa de quem cheirava muito) com terroristas e uma polícia de elite na Província de Kali. Vivia passando no <em>CineBrasil</em>, mas eu tenho uma cópia em DVD que me foi dada por Francisco.</p>
<p><center><br />
<iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/SG8dgO2ez5Y" frameborder="0" allowfullscreen></iframe><br />
</center></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2001, fiz aquela que por um bom tempo chamei de minha última entrevista. Sim, com Lobão. Achei que seria <em>A</em> entrevista e queria encerrar meus dias de jornalista com ela. Falei com esposa de Lobão por telefone e ela disse que ele responderia as perguntas por e-mail. Não gostei da ideia, mas encarei. Foi um desastre. Lobão sempre viu jornalistas como Dom Quixote via moinhos. Era botar o olho e partir para o ataque. Por <em>e-mail</em>, à mercê de interpretações erradas que não poderiam ser devidamente esclarecidas, acabou não rendendo, mas <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/tafalado/arquivos/lobaovpi.htm" target="_blank">publiquei assim mesmo</a>. Dez anos depois, vejo Lobão muito mais manso, mais acessível e até admitindo que estava sempre armado e pronto a desancar qualquer um. Inclusive eu, que estava super-bundão, em um momento único, mais fã que jornalista, levantando a bola para ele cortar. Cortou e veio bem na minha cara. Tudo bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Há poucos dias, Lobão esteve duas vezes em Natal. Na primeira, veio autografar o livro. Tive vontade de ir para que autografasse seus/meus LPs, mas abortei a ideia quando imaginei a garotada Restart cuzona que estaria por lá idolatrando um cara que sempre foi iconoclasta. Na mesma semana, voltou para fazer um show no “teatro do shopping da cidade”. Não consigo imaginar um show de Lobão com gente vestidinha, com cheirinho de perfume e sentada.  Eu ia querer quebrar aquela porra toda, então, resolvi ficar em casa. Era véspera do meu aniversário e eu não ia querer estragar as boas lembranças dos últimos 25 anos: a entrevista no hotel; os shows no Juvenal Lamartine; outro também em Natal, nos anos 90, com quase ninguém; um em Brasília, quando lançou seu disco independente. O velho Lobo, para mim, era o Lobão novo. Este novo Lobão, cinquentão e educadinho, estou curtindo muito nas páginas do livro que serei obrigado a terminar. Ali, ele continua <em>rock’n’roll</em> e me fazendo lembrar coisas da natureza dos lobos, como ir contra tudo e contra todos agarrado à ideia de que está fazendo a coisa certa (por mais que o mundo mostre o contrário), sendo fiel a si mesmo e feliz a todo custo. Só não digo que fazemos parte da mesma matilha porque tanto aquele quanto este lobo é do tipo solitário.</p>
<p style="text-align: justify;">E chega. Vou ali matar o livro e continuar girando o mundo, sempre com a certeza de que “<em>é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez</em>”.</p>
<p style="text-align: center;">* * * * * * *</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais Lobão (o outro) no Tumblr:</strong> <a href="http://sandrofortunato.tumblr.com" target="_blank">http://sandrofortunato.tumblr.com</a></p>

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		<title>Que Appe é esse?</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Feb 2011 23:57:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “Por que você não escreve a biografia do Appe?”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “É mesmo!”. Estava cansado da superficialidade do &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2011/02/03/que-appe-e-esse/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_01interrog.jpg"><img class="size-full wp-image-883 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_01interrog.jpg" alt="" width="600" height="377" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quando, em maio de 2006, em Campinas (SP), João Buhrer me perguntou “<em>Por que você não escreve a biografia do Appe?</em>”, eu não fazia a mínima ideia de onde me meteria ao responder “<em>É mesmo!</em>”. Estava cansado da superficialidade do jornalismo, fazia o <a href="http://www.memoriaviva.com.br" target="_blank"><em>Memória Viva</em></a> há nove anos, já estava mesmo na hora de publicar um livro&#8230; Por que não?</p>
<p style="text-align: justify;">Deve ter sido um demônio que falou pela boca de João: “<em>Vamos mostrar a esse cara que escrever uma biografia não é fácil como ele pensa.</em>” Mas pode ter sido um anjo: “<em>Appe merece ter seu trabalho mostrado às novas gerações. Corra para falar com ele!</em>” Corri, mas não cheguei a tempo. Appe morreria pouco mais de dois meses depois daquele <em>insight</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se por um anjo ou por um demônio, não sei, mas graças a um texto contando esta história, a montanha veio a Maomé. A família de Appe me encontrou e se colocou à disposição para o que eu precisasse para desenvolver a pesquisa. Em abril de 2007, lá estava eu, pela primeira vez de já não sei quantas, em seu arquivo pessoal, sendo adotado por Neusa (sua viúva) e cevado por Doris (sua enteada).</p>
<p style="text-align: justify;">Depois das duas primeiras rodadas de entrevistas com familiares e colegas de trabalho, vi que não seria difícil escrever sobre sua vida. Ele viveu bastante – 86 anos –, mas teve uma vida pessoal tranquila, caseira. À exceção do período de glória em <a href="http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro" target="_blank"><em>O Cruzeiro</em></a>, claro.  Jovem, bem empregado, frequentando altas rodas, manteve uma <em>bonbonnière</em> para deleite próprio e de seus amigos. Entendeu, não? <em>Bonbonnière</em>, aquele lugar cheio de docinhos gostosos para se comer&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_02carica.jpg"><img class="size-full wp-image-884 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_02carica.jpg" alt="" width="600" height="339" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Appe deixou uma dica de como queria ver sua vida contada: através de seus desenhos. O Appe que a maioria conhece é o caricaturista e chargista político da revista <em>O Cruzeiro</em>, mas ele é bem mais que isso. Muito mais mesmo! Deixei de contar o número de obras, fotos e documentos que digitalizei quando passou de dois mil. E nem mexi ainda em minha coleção de <em>O Cruzeiro</em> e quase nada também na de João Buhrer, o que certamente irá gerar mais de mil desenhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando me deparei com o Appe menos conhecido, vi que o trabalho não seria fácil. Usei a lógica que usamos para montar quebra-cabeças: comecei pelas bordas. Deixei a era de <em>O Cruzeiro</em>, o centro, por último. Da época anterior, me deparei com trabalhos em <em>A Manhã</em> e <em>A Vanguarda</em>. Na maioria, recortes sem data. Biógrafos, historiadores e acadêmicos já sabem do que estou falando. Não basta ter o desenho. É preciso entender todo o contexto em que foi criado e publicado. É ainda mais complicado quando se trata de charge política. Quem são aquelas pessoas na charge? Fácil quando se trata de alguma figura muito conhecida. Mas e aquelas que o tempo apagou, que foram eclipsadas por outras maiores? Quem eram? Por qual motivo apareciam naquela piada? E qual era a piada?! O que foi escrito no jornal daquele dia sobre os personagens da charge? Agora, imagine se deparar com, digamos, cem recortes, sem datas, sem ordem, sem contextualização e quase sem pistas de por onde começar a ordená-los e entendê-los. Um exemplo simples. Jornal <em>A Manhã</em>, 1954. Onde há uma coleção dessas? Terei acesso a ela? Pode ser manuseada? Está microfilmada? Quantas edições terei que folhear? Duzentas? Duzentas e cinquenta? E a leitura, para entender a época e o contexto, quanto tempo levará? Estou falando de um recorte bem limitado no tempo e, se comparado a todo o resto, nem tão importante, mas necessário que seja feito.</p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_04adhemar.jpg"><img class="size-full wp-image-885  aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_04adhemar.jpg" alt="" width="450" height="496" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>Esta é fácil! Adhemar de Barros, derrotado na disputa para o governo<br />
de São Paulo, em 1954. No ano seguinte, tentaria a presidência.</em></p>
<p style="text-align: justify;">No caso de um artista gráfico, há também outro ponto importante em todo esse acompanhamento. É preciso conhecer, entender, mostrar e explicar a evolução e mudança de traço, as influências de cada época, quando e como se chegou a um estilo próprio, qual temática era mais abordada em determinado período&#8230; É algo sem fim! Começa-se em um desenho e, de repente, está estudando a vida e a obra de outra pessoa que você nem sabia que existia! E não vai tirar nem dez linhas de tudo isso. Vai “só” compreender melhor o trabalho de quem você está biografando. Não é à toa que digo: biografar é fazer uma graduação sobre a pessoa. E há vidas que precisam de graduação, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, só para você chegar ao final de 15 anos de pesquisa e descobrir que sabe mais que qualquer criatura sobre a Terra, mas que, ainda assim, não sabe muita coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem é esse Appe que pretendo mostrar? Quem SÃO esses Appes além do chargista e do caricaturista? Pretendo que as respostas cheguem a todos ainda este ano. Por ora, melhor deixar que ele mesmo mostre.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Appe quadrinista</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_05quad.jpg"><img class="size-full wp-image-886 aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border: 0pt none;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_05quad.jpg" alt="" width="600" height="329" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe ilustrador</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_06ilust.jpg"><img class="size-full wp-image-887 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_06ilust.jpg" alt="" width="600" height="516" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe cartunista</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_07cartum.jpg"><img class="size-full wp-image-888 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_07cartum.jpg" alt="" width="450" height="462" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe do Blow-Appe</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_08blow.jpg"><img class="size-full wp-image-889 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_08blow.jpg" alt="" width="600" height="383" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe erótico</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_09erot.jpg"><img class="size-full wp-image-891 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_09erot.jpg" alt="" width="600" height="462" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
<strong>Appe pintor</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_10pint.jpg"><img class="size-full wp-image-892 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;" src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/wp-content/uploads/2011/02/appe_10pint.jpg" alt="" width="600" height="366" /></a><br />
</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * * * * * * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mais: <a href="http://www.me/appe" target="_blank">Memória Viva de Appe</a></strong></p>

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		<title>A vida dos outros</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2009 23:01:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandro Fortunato</dc:creator>
				<category><![CDATA[Biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livre pensar]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Dentre minhas leituras, há sempre um tijolão, uma biografia. Está em algum lugar em meu mapa natal: Gosta de ler romances, bem como histórias que falem sobre como as pessoas alcançaram a grandeza, mas lhe é difícil colocar seu conhecimento &#8230; <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/05/10/a-vida-dos-outros/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Dentre minhas leituras, há sempre um tijolão, uma biografia. Está em algum lugar em meu mapa natal: <em>Gosta de ler romances, bem como histórias que falem sobre como as pessoas alcançaram a grandeza, mas lhe é difícil colocar seu conhecimento em prática</em>. Soube disso há alguns muitos anos, bem no meio da leitura de <strong><em>Chatô – O Rei do Brasil</em></strong>. Nada auspicioso, diriam os indianos da novela. Maldito Mercúrio retrógrado, digo eu.</p>
<p align="justify">Nem por isso abandonei a leitura das biografias e até passei a escrevê-las. O pior é quando, na leitura, <strong>chega um momento em que não quero prosseguir</strong>. Bate a sensação de que a vida do biografado cruzou com a minha e, chegando ao final do livro, nosso vínculo será cortado. Foram tantos encontros e desencontros, tantos amores e despedidas. Não acostumo nunca. Pior será colocar o ponto final em alguma que escrevo. E logo terei que passar por isso. Restam como consolo a revisão, a negociação com a editora, a produção do volume, a chegada às livrarias&#8230; Haverá uma sobrevida e, quando o romance finalmente parecer ter chegado ao fim, já estarei envolvido em outra história.</p>
<p align="justify">Em se tratando de biografias,<strong> sou aquele homem fraco que tem esposa e amante</strong> para, no caso de terminar com uma, ter sempre outra que o acolha.</p>
<p align="justify">Nos últimos dias, fiz uma passagem um tanto grotesca. Terminei <strong><em>O Mago</em></strong>, biografia de <strong>Paulo Coelho</strong> escrita por <strong>Fernando Morais</strong>, e pulei sem escalas para <em><strong>Nietzsche – Biografia de uma Tragédia</strong></em>, de <strong>Rüdiger Safranski</strong>. Cada uma com seu peso, sua importância, suas peculiaridades.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/biopc.jpg" align="right" border="0" width="156" height="214" />Fatalmente eu leria <em>O Mago</em>. É escrita pelo mestre e <a href="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2008/08/29/dos-mestres-com-carinho/"><strong>costumo render-lhe graças</strong></a>. Mas dessa o faria sem pressa. Não fosse cair de paraquedas (à época com agudo e hífen) em um encontro literário no qual ele estava, talvez ainda nem tivesse comprado meu exemplar. Se o tivesse feito, ficaria ali na fila da leitura, brasileiramente sempre furada por um mais esperto. Abri-o em dezembro do ano passado, mas ainda não era o tempo. Os mais chegados aos livros já entenderam. <strong>O leitor não escolhe o livro</strong>. O livro é que escolhe o leitor e só se permite ser lido quando bem entende. Dormi (literalmente) com O Mago durante quatro meses. Ficou na cama todo esse tempo. Chegou abril e ele decidiu que eu poderia finalmente lê-lo.</p>
<p align="justify">Li os primeiros cinco livros de Paulo Coelho na época em que foram lançados. Isso significa dizer que comecei com <strong><em>O Diário de um Mago</em></strong> em 1987, quando tinha 15 anos de idade, e parei em <strong><em>As Valkírias</em></strong>, em 1992, aos 20 (na verdade, quatro dele e uma adaptação/tradução). Já naquela época, pensava o mesmo que hoje: é uma leitura fácil, até agradável e, no caso de um viciado em leitura como eu, boa para descansar a cabeça.</p>
<p align="justify">Paulo Coelho pode não satisfazer as exigências, os padrões, a arrogância e os delírios intelectualoides dos críticos de plantão, mas, ninguém se engane, <strong>ele não é um idiota</strong>. Enfrentando os eternos ataques dos donos da língua e da verdade, se tornou o escritor mais vendido, traduzido e lido do mundo. <strong>E escritor quer isso: ser lido</strong>. Intelectual quer ser reconhecido pelos coleguinhas e ganhar resenha que alimente sua vaidade. Paulo Coelho é escritor. Ponto. Se você é fã dele, pode ainda colocar um enfático “<em>Foda-se</em>” depois do “<em>Ponto</em>”.</p>
<p align="justify">E a não ser que por um fenômeno metafísico que escape totalmente à minha compreensão e uma outra alma tenha possuído seu corpo ali em meados dos anos 80, pelo menos para mim ele é o mesmo cara que fazia altas músicas com <strong>Raul Seixas</strong>. E viva a Sociedade Alternativa!</p>
<p align="justify">Já me estendo. E já resolvo isso. A biografia só reforçou o que eu pensava: doa a quem doer, o cara é de uma competência monstruosa. “<em>Só se for para ganhar dinheiro</em>”, dirão alguns a esta altura. “<em>Só se for para transformar merda em ouro</em>”, dirão os mais radicais. E eu digo: Que seja. Você consegue fazer melhor? Igual? Metade?! Como ia dizendo, o cara é de uma competência monstruosa. Fernando Morais, que é outro demônio (no bom sentido, viu, mestre?), mostra com sua costumeira perícia o porquê de o cara ser o que é.</p>
<p align="justify">Sim, me empolguei. Menos por Paulo, mais por Fernando, que tem grande parcela nesse meu amor por biografias. Vou culpá-lo por isso até o fim dos meus dias.</p>
<p align="justify"><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/bioniet.jpg" align="right" border="0" width="156" height="220" />Encerro o caso com o mago e pulo para o Anticristo. Este, sim, caso de amor perdido, irremediável, sem medidas, de enlouquecer. Nos últimos oito anos, li tudo de Nietzsche que tenha sido publicado em português. Mais umas duas dezenas de livros sobre sua vida e obra e, provavelmente, o triplo disso em artigos, ensaios, teses e afins. Porém, há pelo menos seis anos <em>Nietzsche – Biografia de uma tragédia</em> me olha da estante sem me conceder a devida permissão para leitura. Já mudou de cidade e estado por três vezes. Finalmente resolveu se abrir.</p>
<p align="justify">Não acredito em acaso e, consequentemente, não creio que uma pessoa atravesse a vida de outra sem motivo. Para o bem ou para o mal, há algo a ser dito, alguma lição a ser aprendida. Essa mesma força, esse poder, essa “missão” se estende às biografias.</p>
<p align="justify">Rüdiger Safranski não é um repórter brasileiro, como Fernando Morais, cheio de manhas para contar uma história, prender o leitor, fazer com que se apaixone pelo biografado. Também não é um psiquiatra romancista americano como <strong>Irvin D. Yalom</strong> (autor de <strong><em>Quando Nietzsche chorou</em></strong>). É um filósofo e historiador alemão. E falando em Nietzsche, a coisa só poderia mesmo sair <strong>a marteladas</strong>.</p>
<p align="justify">O biografado é dissecado – friamente – por sua obra e não por sua vida. <strong>É uma biografia do pensamento </strong>e não dos atos de Nietzsche como ser humano. O título original já deixa claro: <em>Nietzsche, Biographie Seinens Denkes</em> (numa tradução mais literal, algo como <em>Biografia de seus Pensamentos</em>). Em português, ficou <em>Biografia de uma Tragédia</em>, o que também faz total sentido, já que a vida do personagem é um eterno conflito com tudo aquilo que, em tese, deveria estar acima do indivíduo.</p>
<p align="justify">A escolha pela “tragédia” também faz alusão a seu primeiro livro, <strong><em>O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo</em></strong> (<em>Die Geburt der Tragödie oder Griechentum und Pessimismus</em>), onde exalta a música de <strong>Wagner</strong> como força renovadora do espírito alemão. Ë também por aí que Safranski inicia sua dissecação e deixa claro, já nas primeiras páginas, o espírito do pensamento de Nietzsche:</p>
<blockquote>
<p align="justify">“O animal consciente homem, com horizonte de passado e futuro, raramente se satisfaz de todo com o seu presente, e por isso sente algo que certamente nenhum animal conhece, isto é, o tédio. Fugindo do tédio, essa singular criatura procura uma excitação que, se não for encontrada, tem de ser inventada. O homem se torna um animal que brinca. (&#8230;)</p>
</blockquote>
<blockquote>
<p align="justify"><em> “No tédio vivemos o instante como passagem vazia do tempo. O que acontece externamente não tem importância, e também sentimos a nós mesmo como desimportantes. As realizações da vida perdem sua tensão intencional, desmoronam em si mesmas </em>(&#8230;)<em> A arte ajuda a viver porque senão a vida não sabe o que fazer quando assaltada por sentimentos de ausência de sentido”.</em></p>
</blockquote>
<p align="justify">Assim, esse início de tragédia me faz entender o porquê de ter demorado tanto tempo na estante. A lição só poderia ser devidamente entendida agora. Antes, seria mera seqüência de palavras. E lá vou eu, de novo, <strong>envolvido pela vida de outro, procurar razão para a minha.</strong></p>
<p><center><img src="http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/imagens/feedback3.jpg" usemap="#Map3" border="0" height="25" /></center></p>
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