Filatelia


Chaveiros, gibis, postais e selos foram as minhas primeiras coleções. Todas iniciadas ainda durante a infância, ali entre os nove e onze anos de idade. Os chaveiros não resistiram. Os gibis sumiram, reapareceram mais tarde e “evoluíram” para uma coleção de jornais e revistas. Os postais e selos tiveram uma fase inicial nos anos 1980, uma segunda tentativa no início da década seguinte e uma terceira, que é a atual.

Os postais começaram a chegar por uma única fonte: minha madrinha Célia. Enquanto estava em viagens pelo Brasil, enviava um ou outro. Quando chegava, trazia um monte deles. Comecei a prestar atenção aos selos e, em um tempo no qual comunicação à distância era principalmente através de cartas, comecei a tirá-los das outras correspondências que chegavam à minha casa. Sem saber, estava iniciando uma coleção de selos usados.

Foi uma fase de coleção desordenada e que não durou muito. Com a primeira grande mudança, as coisas começaram a se perder. A segunda e breve tentativa aconteceu em janeiro de 1991. Lembro bem de ler em O Globo uma pequena matéria sobre o lançamento de selos, postais, envelope e carimbo em homenagem a Cazuza e Raul Seixas por ocasião da segunda edição Rock in Rio. Aguardei o dia do lançamento e logo pela manhã estava em uma agência dos Correios em Copacabana para comprar os itens. Foi quando descobri os FDCs (First Day Cover), os envelopes com carimbo de primeiro dia de circulação. Além de Caju e Raul, levei para casa outros três lançados em 1990: 150 Anos do Penny Black (03.05.1990), Cinema Brasileiro (19.06.1990) e da XII Lubrapex – Exposição Filatélica Luso-Brasileira (22.09.1990).

Por um bom tempo, essa coleção de FDCs parou nessa única compra, mas seus itens resistiram e continuam comigo quase três décadas depois. No mesmo ano, descobri algo chamado pen friend ou pen pal, os amigos por correspondência. Tratava-se de um movimento de troca de cartas entre pessoas do mundo inteiro. Naquele tempo, o mais comum para conseguir alguém com quem trocar cartas era anunciar gratuitamente em jornais ou revistas, especializados ou não, de qualquer lugar do planeta, dizendo que procurava um pen friend e informar seu endereço. Não tinha web, não tinha Google, redes sociais, muito menos ansiedade por tracinhos azuis e confirmação de leitura. Era uma garrafa com uma mensagem jogada ao mar.

Feito isso, restava esperar. Um dia as cartas começaram a chegar. Portugal, Espanha, Estados Unidos, Porto Rico, Finlândia… Não havia intenção de trocar material filatélico. O objetivo era só conhecer novas culturas, treinar outros idiomas, fazer amigos. Foi assim até meados dos anos 90, quando a web começou a se firmar e a comunicação instantânea (entenda-se: esperar passar da meia-noite para tentar conseguir um pulso único, discado, para trocar e-mails ou encontrar alguém para bater papo no mIRC) passou a ser mais atraente do que as cartas de papel. Já nessa época mergulhei profissionalmente na Internet. A vida de jovem adulto – trabalho, casamento, filhos – encurtou o tempo e mandou para escanteio o romantismo das cartas, que ficaram adormecidas em muitas caixas de sapato.

Nunca deixei de frequentar as agências de correio, mas só vinte anos depois voltei a fazê-lo com mais assiduidade. Foram-se o mIRC, o ICQ, o Messenger, o Orkut e mais um monte de coisas que não lembro, mas as cartas e postais continuaram. A agência filatélica (especializada no atendimento a colecionadores) se mudou para um novo prédio próximo à minha casa, no mesmo espaço em que funciona outra agência onde tenho caixa postal. Como todos sabem, um viciado deve se manter afastado do ambiente que alimenta seus vícios ou corre o risco de cair em tentação. Pois é, resisti o quanto pude, mas acabei cedendo ao vício. Começou com um simples selinho, depois vários, em seguida alguns FDCs e, quando dei por mim, já estava procurando espaço para empilhar caixas cheias de postais e outros materiais filatélicos.

Eu deveria ter desconfiado que aquela salinha de vidro com antigos aparelhos de comunicação era uma armadilha. Entrei e vi as emissões de 2014 e 2015 expostas. Papéis… muitos papeizinhos… Tão bonitinhos, não? Tão coloridos! Resisti bravamente, mas no segundo semestre de 2016 tive que fazer postagens de grandes quantidades de livros. Na falta de uma máquina de franquear – que produz com rapidez e sem afeto aquela tarja branca com o valor da postagem –, foi preciso selar todas as embalagens. Centenas delas. E muitas centenas de selos sendo destacados e colados, ganhando combinações para chegar aos valores corretos… Eu me rendi quando se resolveu usar uma emissão de 2014, comemorativa aos oito séculos da língua portuguesa. Aquela mãozinha segurando uma caneta, o globo terrestre, as bandeiras dos países que falam português… tudo caía tão bem para o envio de livros! Logo meus olhos bateram na quadra que homenageava os 450 anos do Rio de Janeiro. Dali pularam para uma folha com várias igrejas (outra paixão!) de Minas Gerais, e para outra com imagens belíssimas que contavam a história do Marechal Rondon… Acabei com todo o estoque de selos dos oito séculos da língua portuguesa que havia na agência e comecei a utilizar os dos 200 Anos da Missão Artística Francesa. Antes que acabassem também comecei a comprar todas as emissões de 2014, 2015, 2016… Só por precaução.

No início de 2017 fui apresentado ao Postcrossing, um projeto de troca de postais que existe há doze anos e reúne hoje mais de 700 mil membros em 213 países. Eu nem queria colecionar postais, mas eles viriam com selos. Além disso, alguns postcrossers certamente seriam filatelistas e uma coisa vai puxando a outra e… bem… nos primeiros nove meses troquei modestos cinquenta postais pelo Postcrossing. Em trocas diretas foram mais de cem. Somando aos que eu já tinha, outros especiais (de exposições) e aos que fui comprando durante o ano pelas cidades em que estive, a coleção já vai chegando a mil postais.

É assim que um viciado em coleções funciona. Como a coisa se desenvolve, se dirige para determinados temas, como as buscas começam a se intensificar, como acontecem os garimpos… Vou tratar sobre tudo isso no próximo texto.

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Para ver algo das minhas coleções
Sandro Swaps – Instagram para troca de material filatélico
Pasta “Selos obliterados” no Pinterest

Outras ligações
Postcrossing
Eu amo Filatelia – Blog dos Correios

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