Laizi

Ela já estava na família bem antes de eu nascer. Laizi fazia parte da turma da Rua Ferreira de Araújo, em São Cristóvão, no Rio, onde cresceram meu pai e seus primos. Célia, prima-irmã do meu pai, e Laizi eram amigas de infância.

Nas fotos anteriores ao meu nascimento, Laizi aparecia no casamento dos meus pais. Foi Nelson, seu marido que entrou com minha mãe na igreja. Foi nessa época que meus avós, meus pais e minha tia Célia se mudaram para Todos os Santos.

Em minhas memórias de criança, Laizi e Nelson eram “o casal sem filhos”, algo que eu achava estranho. Em meus aniversários, os adultos traziam suas crianças. Menos eles. Outra coisa que eu estranhava era que eles moravam em um apartamento e tinham um cachorro. Uma cadela para ser mais preciso. Uma poodle chamada Kika, que parecia não gostar muito de crianças. Acho que sentia ameaçada. Para mim, cachorro morava em casa, solto, com bastante espaço. Eu e Kika nunca nos entendemos muito bem. Existia uma tensão sem agressões. Ela nunca me mordeu. Eu também não a mordi.

Laizi era filha de Tia Maria, uma senhora dessas bem pitorescas, que costumava produzir histórias engraçadíssimas. Tia Maria era Mãe de santo ou algo assim. Lembro de um altar, em sua sala, repleto de imagens de santos e orixás. Uma vez resolveram que ela deveria me rezar para que eu fosse uma criança mais quieta. No meio da coisa, eu já me sentia entediado e minhas botas ortopédicas acabaram indo de encontro às suas canelas, o que fez com que a reza ficasse pela metade. Não foi por mal. Juro. Eu só queria sair dali e brincar. Se bobear, foi Cosme ou Damião quem me deu a ideia para fugir.

Lembro do apartamento da Laizi, mas não onde ficava. Ela me dava biscoitos Piraquê para me manter quieto enquanto os adultos conversavam. Não havia crianças para que eu pudesse brincar e Kika, a poodle, não ia com a minha cara. Nos anos 80, ela e Nelson se mudaram para Copacabana. O enorme apartamento na Barata Ribeiro abrigava os suburbanos que chegavam para o réveillon. O janelão da sala, de frente para um aparentemente infinito paredão de janelas, sempre me inspirou. Cada janela, uma história. Quadradinhos cheios de vida. Tevê ao vivo sem som.

As festas em seu apartamento seguiam a tradição italiana (mesmo ela não sendo de família italiana): comida farta para todo mundo se entupir como uma alcateia de lobos famintos e ainda levar para o dia seguinte. E Laizi sempre esguia. Parece que a intenção era apenas engordar os outros. Ela não comia. E sabia fazer qualquer um se sentir culpado se não comesse. “Ô, Sandro, eu fiz isso só para você, que eu sei que você gosta. Come! Bota mais… mais… Só isso?! Bota mais um pouquinho. E ainda tem a sobremesa, viu?”

No ano de 2013, aos 79 anos, em meio às manifestações que incendiavam o Rio, desabalou-se de Copacabana ao Centro para o lançamento do meu livro na Leonardo da Vinci, em plena Avenida Rio Branco. Por mais que eu a dispensasse disso, ela fez questão de estar lá, fazer foto, receber a dedicatória, “representar a família”. No ano seguinte, depois de um período de convalescença, juntou amigos e parentes para comemorar seus 80 anos. Vestia uma camiseta branca na qual se lia, em inglês, a frase “Rebelde não tem limites”. Revendo as fotos, percebo que alguns dos presentes à festa já não estão entre nós.

Muito antes, Nelson já tinha ido. Kika também. As irmãs da Laizi também foram desaparecendo. Os sobrinhos crescendo, formando suas famílias, se afastando. Ela ficou naquela imensidão da Barata Ribeiro. Trinta anos depois da mudança, ainda ia aos mercados e feiras do subúrbio, “onde as coisas são mais baratas”. E ao cemitério. Todos os sábados. Pegava o ônibus até o Caju, atravessava a passarela, andava mais um pedaço. Conhecia todos os vendedores de flores da rua. Falava com os coveiros, com os limpadores de túmulo. “Nunca mexeram comigo aqui.” Nosso último passeio foi ali, há três anos. As famílias se misturaram na morte como fizeram em vida. Membros de uma estavam no túmulo da outra e vice-versa. Quando chegava a vez de alguém, sempre existia um lugar para o descanso eterno.

Laizi havia completado oitenta anos pouco antes desse nosso passeio ao Caju. Ela era capaz de passar a semana inteira cansada, deitada, sem levantar para comer, mas no sábado era tomada por uma força inexplicável e ia visitar os parentes e amigos no cemitério. Nessa época, eu brincava perguntando se ela já estava pensando em como seria a festa dos noventa anos ou se deixaria para comemorar o centenário. Ela ria. “Ah, deixa pros cem! Deixa pros cem!”

Não nos vimos nos últimos dois anos. No início de outubro, ela se foi. Laizi quebrou o protocolo e foi cremada. Eu também quebrei e não quis escrever de imediato. Deixei para hoje, dia de Nossa Senhora Aparecida. Laizi era minha madrinha de consagração. Foi ela que me segurou no batismo. A consagração é um símbolo de devoção a Nossa Senhora. A fé católica diz que ela irá proteger a criança por toda a sua vida. Deixei para escrever hoje para agradecer e devolver a Laizi essa proteção.

Que seus caminhos sejam sempre iluminados, madrinha.

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