“A invenção do Nordeste” e a “Década Carmin”

O Carmin cresceu. E foi rápido. Entre a peça de estreia (Pobres de marré) em 2007 e o segundo espetáculo (Jacy) em 2013, sua história poderia ter tomado outro rumo e se juntado à de muitos outros grupos de teatro, que nascem e morrem sem que ninguém saiba.

Foi justamente com a história de uma pessoa comum, esquecida e com pouca gente em seu enterro que o Carmin encontrou seu caminho. Mais que isso. Encontrou sua personalidade. Quantas vezes eu falar em Jacy, tantas lembrarei o que disse em sua estreia, em agosto de 2013: terá uma longa vida em muitos palcos. Em 2015 foi eleita umas das dez melhores peças do ano pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em 2016 circulou por dezesseis estados brasileiros e teve temporada de cinco semanas no Sesc Copacabana, no Rio. Em 2017 outras cinco semanas, desta vez no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Finalmente conseguiu voltar ao seu lugar de origem – Natal – e se apresentar por quatro semanas. Em meio aos ensaios para a peça nova, duas apresentações lotadas no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. E a indicação a duas categorias no Prêmio APCA: melhor espetáculo e melhor autor (no caso, autores: Pablo Capistrano e Iracema Macedo).

Jacy engoliu Por que Paris?, peça montada pelo grupo em 2015, e vai ter que aprender a conviver com o novo espetáculo – A invenção do Nordeste – que estreia em agosto de 2017. Por que conviver?  Porque as duas terão longa vida em muitos palcos.

O que o grupo Carmin chamou de ensaio aberto de A Invenção do Nordeste foi mais um ensaio quase secreto. Além do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, autor do livro homônimo em que a peça é baseada, apenas outras duas pessoas estavam presentes. Uma delas, este que vos escreve. Mais por ofício do que por prestígio, preocupado em conferir a pontuação do texto a ser publicado no livro Década Carmin, que será lançado junto com a estreia do novo espetáculo.

Havia acompanhado, por mais de uma ocasião, o desenvolvimento de Por que Paris?. De um momento ainda muito cru, passando por um ensaio a poucos dias da estreia e chegando a esta com algo bem diferente do que havia sido apresentado nos outros momentos. A Invenção do Nordeste já se mostrou de outra forma. A cinco semanas da estreia , o ensaio quase secreto parecia buscar apenas a sintonia fina para estrear tão bem quanto seu sucesso anterior. Ou melhor. Como disse, o Carmin cresceu. A experimentação de Jacy se tornou técnica apurada em A Invenção. E talvez o grupo ainda nem tenha percebido isso. Melhor assim. Não se acomoda e continua melhorando.

Uma dança das cadeiras aconteceu para a construção do novo trabalho. Pela primeira vez Henrique Fontes é “só ator” (ou quase, já que também assina a dramaturgia em parceria com Pablo Capistrano). Quitéria Kelly chega com duas “primeiras vezes”: dirigindo e não estando em cena. Pedro Fiuza vai se firmando na dramaturgia audiovisual. Robson Medeiros e Mateus Cardoso são as novidades no elenco do Carmin.

A pequena Quitéria, que costuma se agigantar no palco, parecia tímida e talvez até preocupada durante o ensaio quase secreto. Fosse pela presença de Durval ou pelo peso da estreia no papel de diretora, não havia motivo para qualquer preocupação. Luzes acesas, encantamento geral. Vai ser assim a cada apresentação. Pode anotar. A dois dias da estreia, estive de bicão em outro ensaio. Cenografia e figurinos (quase) prontos, mudanças aqui e ali, muito treino para acertar a sincronia com o audiovisual. Quitéria – segura, fazendo mil coisas e já na pilha para a estreia – parecia esconder a certeza de que tudo vai dar certo. E vai mesmo. Robson e Mateus estão como debutantes: talvez um pouco nervosos, mas loucos para a hora da festa. Henrique teve a oportunidade de se concentrar na função de ator e parece melhor e mais seguro do que nunca.

QUE INVENÇÃO É ESSA?

Parece forte, mas é fato: o Nordeste foi inventado. Você não sabia? Então vá ler A invenção do Nordeste e outras artes, versão da tese de doutoramento de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, ou assistir à peça do Carmin. Se você for nordestino, vai se descobrir, entender o Nordeste de outra forma e se admirar por ser fruto dessa invenção. Se, como eu, for um ignorante do Sudeste ou de outra região – nascida, criada ou inventada – vai ter a oportunidade de aprender algo diferente do que lhe empurraram goela abaixo durante anos.

Cabe aqui um rápido relato pessoal. Quando minha família saiu do Rio de Janeiro para Natal, em meados dos anos 80, eu era um adolescente que não sabia muito bem o que viria pela frente. Já os meus amigos, que viam o Nordeste pela tevê, tinham certeza do que eu iria encontrar: um monte de gente atarracada, de cabeça chata, ignorante, usando gibão, chapéu de couro, andando de jegue em ruas de terra batida. Luz elétrica, nem pensar. Estavam enganados em muita coisa, mas acertaram no quesito “gente ignorante”. Só erraram ao apontar essa gente. Os ignorantes éramos nós, teleguiados – ou cineguiados, livroguiados, pouco ou nada experimentados –, que acreditávamos em um Nordeste… inventado.

Dentre minhas primeiras ignorâncias destroçadas está a do “corpo nordestino”. Aquele povo branco, de olhos claros, cabelo loiro escorrido (“cabelo escorrido” foi uma expressão que aprendi em Natal), com mulheres maiores que eu, vindo do Seridó, estava mais para viking do que para os tipos que eu ouvia falar: o sertanejo atarracado e a morena brejeira. Pensou no João Grilo e na Gabriela? Pois é, a gente aprendeu a acreditar nesse padrão. Mas o Nordeste não é só Natal ou o Rio Grande do Norte. E lá se foi outra das minhas ignorâncias: a de achar que era tudo igual. Hora e meia de carro e já se está em João Pessoa, na Paraíba. Povo diferente, sotaque diferente, interesses e hábitos diferentes. Mais duas horas e chegamos a Recife. Muda tudo de novo. Outra esticada… Maceió… tudo diferente. E estou falando só das capitais. Se for para o interior… pera… “De qual interior você está falando?”, “De qual interior você é?”… “Mas não é tudo igual?” Não. Só é igual quando passa na novela. Por aqui, um sotaque do Ceará soa tão diferente quanto um sotaque gaúcho; o jeito de dizer um “ôxi” varia vinte vezes mais que um “tchê”; um “galado” ou um “infeliz das costas ocas” identifica tão facilmente o gentílico quanto um “qualé, mermão, isso é siniiiixtro!”; você sabe de onde é a boyzinha tão rápido quanto sabe de onde é a mina. E nem adianta tentar aprender nordestinês. Varia mais que o português e até do que o brasileiro. “Nordestinês” é coisa para turista achar engraçadinho. E para a Maria do Carmo, de Senhora do Destino.

O Carmin fala de tudo isso na peça. Do corpo, dos sotaques, dos trejeitos, do cabra-macho, dos cangaceiros, do sertão, da seca, dos ritmos, do cordel, das comidas, do que você acha que é o Nordeste. A invenção… não poupa nada nem ninguém. De Euclides da Cunha a Gilberto Freyre, da descrição clássica do sertanejo ao galã carioca de dentes clareados a laser que interpreta “o” nordestino, dos coronéis do sertão aos coronéis do congresso, tudo é passado a limpo. É uma viagem de uma hora pelo Nordeste que nem vinte pacotes de férias da CVC, cinco filmes com Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, dez novelas da Globo e uma série de matérias sobre  a seca em telejornais poderiam oferecer. Tanto quanto possível,  o mergulho é profundo. E não é nenhuma das praias que você tanto houve falar. Tudo “sem pedantismo, sem filosofismo, sem ‘uspismo’”, como disse Paulo Henrique Amorim no prefácio do livro.

QUAL LIVRO?

O livro Década Carmin (Fortunella Casa Editrice), que está sendo lançado junto com o novo espetáculo (peça o seu clicando aqui). Décimo título da editora, o volume apresenta os textos das quatro peças e faz um apanhado dos dez anos de trabalho do grupo. Além de compartilhar a memória do teatro e do Carmin, acaba sendo também o registro de uma época de luta, de mudanças, de resistência. É também um convite a abandonar falsas ideias pré-concebidas e para se abrir ao contemporâneo e à liberdade de pensamento. Liberdade e pensamento, duas coisas que andam escassas. Liberdade de pensamento, algo com o qual não estamos sabendo lidar de forma civilizada. O teatro não quer deixar nada disso morrer. O teatro do Grupo Carmin quer que você vá muito além do que pensa saber ou foi condicionado a acreditar.

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