“Jacy” (quase quatro anos depois)

Meu presságio sobre Jacy, do Grupo Carmin, se confirmou: Terá uma longa vida em muitos palcos, ensinando que nunca se deve ter medo de lembrar. Desde que escrevi isso, em setembro de 2013, logo após sua estreia, a peça rodou por vários festivais, foi eleita pelo Estadão como um dos dez melhores espetáculos encenados em São Paulo em 2015, passou por 16 estados brasileiros no ano seguinte, voltou à sua cidade de origem para uma temporada de um mês… e não vai parar por aí.

A predição não era uma torcida por amigos. Era algo muito óbvio. Jacy é daquele tipo de trabalho sobre o qual ficamos tentados a dizer uma dessas duas coisas aos envolvidos: que bastava ter feito isso na vida ou que vai ser difícil superar.

Jacy agrada por motivos variados. Depois de assisti-la quatro vezes, deixo minhas impressões mais íntimas de lado e me arrisco a falar das possíveis identificações que um espectador qualquer poderá sentir se cair de paraquedas no teatro.

A curiosidade pela vida alheia – Apesar de o grupo ter começado a buscar e trabalhar a temática de seu segundo trabalho em 2010, a concepção do que viria a ser Jacy acontece, de verdade, a partir do momento em que a frasqueira é descoberta no lixo. Se um grupo de teatro se deu ao trabalho de montar uma peça sobre a vida de alguém desconhecido, então deve ter algo de interessante na vida dessa pessoa. Que mistérios guardam a frasqueira de Jacy? Quem é Jacy? Por que seus objetos pessoais foram jogados fora? Ela não tinha ninguém?

A proximidade entre artistas e espectadores – Logo de início, os atores retiram o véu que os separa do público. A plateia não fica no escuro, passiva, assistindo a algo que é mostrado por seres de um mundo estranho. As dificuldades de buscar uma história, de montar a peça, de encontrar seu ritmo… tudo é compartilhado. Os atores se tratam por seus nomes e vão trazendo as pessoas para a realidade de suas vidas, da construção do espetáculo, da vida da personagem que eles também não conhecem.

Os medos comuns que fingimos não existir – A solidão, a velhice, o abandono. Em uma sociedade em que ser feliz é obrigação, quem quer pensar em problemas? Menos ainda em problemas que sempre existiram e com os quais nunca soubemos lidar. As paixões e as buscas da jovem Jacy – por amor, por sustento, por ser alguém –; as frustrações da velha Jacy – as doenças, as dores, as limitações, a solidão. Quão seguro você se sente em relação ao futuro?

A vida comum e sem graça que fingimos não ser a nossa – Sua vida não é o que você mostra nas redes sociais. Em geral, aquilo é o que você gostaria que fosse, o que quer acreditar e fazer com que os outros acreditem. Mas como é mesmo a sua vida? O que ela tem de realmente especial? Você tem um bom emprego público e ganha bem. Mas tem que engolir muitos sapos para manter aquilo. Você é um profissional liberal bem sucedido. Mas descuidou dos relacionamentos e nas horas de folga está tão cansado que não aproveita nada. Em algum momento descobrimos sobre Jacy que “ela só trabalha”. E o mantra vai se modificando e ganhando outras interpretações: “Ela só trabalha… Ela só… trabalha… Ela… só trabalha… Ela… só… trabalha…” Vista por outros, nossa vida parece invejável, mas qual é a realidade? Você só trabalha? Você é só uma peça daquele trabalho e não está realmente feliz com ele? Tem alguma vida além do trabalho? Você conquistou algo que realmente importa? Você se sente só… na vida?

É melhor não pensar – O cansaço é tanto, as mazelas ao redor são tantas que é melhor não pensar. É mais cômodo acreditar que conquistamos algo que queríamos e não pensar em todo o resto. Mas de repente percebemos que somos cercados por ideias e que elas são repetidas e repetidas e repetidas… e começamos a acreditar nelas e repeti-las, repeti-las, repeti-las sem pensar, sem analisar, sem questionar. Não é uma ideia sua… se parasse um pouco para pensar, você perceberia que é um absurdo concordar com aquilo… mas você está tão cansado… é tão difícil pensar… Sim, você é só mais uma peça nesse sistema massacrante. E você não vai fazer a mínima diferença ou a mínima falta quando desaparecer. Vai ser substituído por outra peça que não pensa e que só precisa trabalhar.

O momento político – Não este em que pensamos ou acreditamos estar vivendo, mas um que começou muito antes de você vir ao mundo. São as mesmas pessoas que comandam e fazem você acreditar que tem uma vida, que é útil, que está fazendo o que é correto. São as mesmas pessoas que lucram com isso enquanto você só trabalha. Você, só, trabalha. Você, só. Você “vivendo” e morrendo só. Eles se perpetuando no poder e aproveitando a vida, o tempo livre, o dinheiro, os frutos do que você produz. A peça parece falar de um momento muito atual, mas a impressão seria a mesma se tivesse sido apresentada cinquenta anos atrás, ou vinte, ou dez, ou daqui a mais cinco anos, ou outros dez para frente. Alguns nomes mudariam. Alguns sobrenomes jamais mudam. E você sempre será a Jacy nessa história.

Depois de roubar, a atividade política mais comum é convencer a todos de que tudo está bem e vai ficar melhor. A função da arte é incomodar, denunciar que você está sendo enganado, ativar seu pensamento, provocar o questionamento. Se você viu em Jacy uma peça bonitinha, você não entendeu nada. Se você saiu dela com a certeza de que precisa melhorar a sua vida, que isso é única coisa que você pode fazer e que isso, sim, vai mudar tudo ao redor, então, talvez, você tenha começado a pensar.

Termino com outro presságio sobre Jacy. Ela só deixa de ser encenada se o grupo se cansar dela ou se entrarmos em um período de tão densas trevas que ela passe a ser considerada uma ameaça aos poderes estabelecidos. Pensar livremente e tomar as rédeas da própria vida são sempre uma ameaça aos donos do poder.

* * * * * * *

Texto relacionado
Jacy (setembro de 2013)

Esta entrada foi publicada em Comportamento, Livre pensar, Teatro. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *