A charge política em dois tempos

Uma coisa sobre o futuro, nós já sabemos: vai ser difícil explicar este período da vida política brasileira. Diferente de outros tempos em que as pedaladas e rabos de arraia eram feitos nos bastidores e seus resultados podiam ser acompanhados quase como um capítulo diário de novela, pelos jornais e rádios, hoje a coisa acontece descaradamente e em velocidade tão vertiginosa que, até para quem está com todos os portais e redes sociais abertos ao mesmo tempo, fica difícil acompanhar. Mais difícil ainda entender. Some-se a isso a total ignorância da maioria sobre organização e processos políticos, e o resultado é o sanguinário Fla x Flu (Corinthians x São Paulo, se preferir) que estamos vivendo.

Provavelmente será mais confortável falar disso daqui a cinquenta anos. Se for permitido falar. Tomara! Do jeito que a coisa está, com gente sendo agredida na rua por conta da cor de uma camisa, é sempre bom ter os dois pés atrás e não duvidar de qualquer possibilidade. Mas vamos apostar no melhor, acreditar que teremos evoluído e que alguém irá se aventurar a destrinchar esse momento. Vai encontrar mais joio do que trigo e uma dificuldade de proporções bíblicas para separá-los. Pior ainda será para quem quiser entender isso através das charges. E boa parte do trigo está nelas.

Quando comecei as pesquisas sobre Appe – e lá se vai uma década! – esta foi uma das primeiras dificuldades com que me deparei: como explicar as charges – fortes, diretas e de imediata compreensão à época – para o público de meio século depois, que não conhecia o cenário da piada, a situação ou mesmo seus personagens? Seria preciso desconstruir a charge, contar a história e correr o risco de que ela perdesse completamente a graça. Mas há outro jeito?

Como chargista político, Appe viu a deposição de Getúlio (1945), a eleição de Dutra, o retorno de Getúlio à presidência pelo voto popular (1950), seu suicídio (1954), a eleição de Juscelino Kubitschek (1955), a de Jânio Quadros (1960), a renúncia deste (1961), Jango assumindo e Jango deposto (1964) pela então chamada – e intensamente apoiada pela imprensa – “revolução”. Caricaturou e ironizou políticos extremamente influentes que costuravam ascensões e quedas. Muitos dos quais, cinquenta anos depois, a maioria do povo não faz a mínima ideia de quem seja e, portanto, jamais os reconheceria nas charges ou entenderia o que elas mostram.

Para minha sorte, Appe anotou os nomes de muitos deles em cópias de charges. Daí era “só” conhecer todos os detalhes de todas as histórias que os envolviam. Getúlio, Dutra, JK, Jânio, Jango, Carlos Lacerda, Brizola, Tancredo… Estes, “todos” sabem quem foram. Mas João Mangabeira, Odilon Braga, Armando Falcão, Sérgio Magalhães, Juracy Magalhães e dezenas de outros, você saberia dizer quem era ou reconhecer algum deles nas charges? Quem irá reconhecer Delcídios, Moros e Janots, de bate-pronto, em 2065? Nomes e rostos de ministros do STF, donos de empreiteiras, marqueteiros e dezenas de delatores – a profissão que mais cresce no Brasil de hoje – são facilmente reconhecidos por nós, que estamos acompanhando todo o lamaçal, capítulo a capítulo, dia a dia, mas quantas linhas essas pessoas ganharão nos livros de História? Deixo o trabalho aos historiadores e pesquisadores do amanhã.

Foi sem esperanças de encontrar Appe que li Jango e o golpe de 1964 na caricatura (Jorge Zahar Editor, 2006), de Rodrigo Patto Sá Motta. Minhas pesquisas já haviam mostrado que o pré-golpe e o golpe de 64 foram pouco ou nada explorados por Appe, principalmente na revista O Cruzeiro. A pesquisa de Sá Motta se debruça, principalmente, nas charges de Lan, Hilde, Augusto Bandeira e Theo, passando por Adail e Biganti, e compreende o período de abril de 1962 a abril de 1964. Mesmo depois de centenas de páginas sobre política que li em O Cruzeiro e em outras publicações da época, o livro ainda ajuda a entender o período e o humor daquele momento.

A revista O Cruzeiro entra os anos 1960 em franca decadência. Manchete, mais moderna, já havia conquistado seu espaço. A televisão no Brasil já tinha dez anos. Assis Chateaubriand, acometido por uma trombose, já não era mais o tanque de guerra que costumava ser. Sua seção de humor também sofreu mudanças. Dos grandes da época de ouro, restavam apenas Carlos Estevão e Péricles Maranhão (que tiraria a própria vida no final de 1961). Ziraldo, mais novo, estava lá há alguns anos. Appe continuava como ilustrador e chargista político. Aqui e ali, ganhava algum espaço com outras charges e cartuns. Em 1963, ano que antecedeu o golpe, a maior participação de Appe em relação à política brasileira acontece na edição de 16 de março, em que ele coloca os políticos em ritmo de carnaval: Brizola “com a macaca”; JK e Lacerda flertando com Brasília; um folião preocupado com a “ameaça comunista” se queixa a Jango, um guarda que não dá a mínima para isso. Depois disso e até o golpe, as charges feitas por Appe na revista se ocupam da política internacional, mais precisamente da guerra fria. No fim do ano, com o assassinato de John F. Kennedy, some por completo. O humor com a política brasileira só voltaria depois da deposição de Jango. Mas por pouco tempo.

O humor antes e depois do golpe de 1964

Com a tomada do poder pelos militares, a charge política de O Cruzeiro se volta para o que está acontecendo no Brasil. O clima inicial – de aparente equilíbrio, tranquilidade e esperança –, deixa Appe à vontade para brincar com a situação. As charges mostram a “limpeza” que Castelo Branco estaria promovendo, o corte de relações com Cuba, o “corte das cabeças” dos adversários, o sempre conveniente discurso da revolução versus corrupção, Castelo cortejando a UDN (que seria dissolvida em 1965, tendo parte de seu quadro migrando para a Arena, o partido da situação), a esperança dos políticos que apoiaram o golpe de que logo haveria eleição para presidente e, na sequência, a frustração destes ao perceber que isso não aconteceria tão cedo.

Revista de variedades para toda a família, O Cruzeiro nunca foi pródiga em capas com políticos. A revista lançou uma edição extra, datada de 10 de abril de 1964, com o acompanhamento das últimas horas de Jango no governo e a ascensão dos militares chamada de “Edição histórica da revolução”. Na capa, Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, um dos principais articuladores da derrubada de João Goulart. Sua edição regular, datada de 11 de abril de 1964, a primeira fechada após o golpe, traz Sophia Loren na capa e informa que a atriz italiana quer ser mãe. Duas semanas depois, com Castelo Branco já empossado, a revista (25 de abril de 1964) traz o novo presidente na capa e o saúda como “o cérebro da revolução”. Na semana seguinte, a capa é de Costa e Silva, então Ministro da Guerra e que viria a ser o segundo mandatário do período militar. A revista o apresenta como “o executor da revolução”.

Os primeiros meses de Castelo (que não parecia uma ameaça à liberdade de expressão) como presidente renderam charges que mais retratavam um período de incerteza do que se posicionavam de forma contundente pró ou contra o governo. Isto enquanto ainda se acreditava que haveria eleição presidencial no ano seguinte (1965) e que Castelo iria apenas terminar o período para o qual Jânio Quadros havia sido eleito (31 de janeiro de 1961 a 31 de janeiro de 1966). No entanto, a “revolução” começou a mostrar sua verdadeira face. As eleições foram suspensas, o mandato de Castelo Branco prorrogado (até 15 de março de 1967) e seu sucessor seria “escolhido” pelo congresso, por voto indireto, sendo candidato único e votado apenas pelo seu partido.

Acabada a rápida lua de mel (e não é sempre assim?) do novo presidente com a imprensa, esta, que havia apoiado o golpe em peso, sentiu-se à vontade para criticar. No Jornal do Commercio, onde Appe mantinha um espaço diário para a charge política, os temas principais foram a política econômica capitaneada por Roberto Campos (apelidado de Bob Fields e considerado um entreguista a serviço do capital estrangeiro), a oposição feita pela Frente Ampla (formada por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart) e a criação da Lei de Imprensa (já apontando para o que viria mais a frente). Na charge de 19 de janeiro de 1967, Appe teve tempo de perguntar: “E essa Lei de Imprensa em fim de governo? É para proteger o que vem ou o que vai?” Nos dois meses seguintes, a criação do Cruzeiro Novo, a mudança de governo (ou a “passagem de comando”) e certo alívio com a saída de Castelo (que engano!) pautaram as charges. Apesar da Lei de Imprensa, que previa prisão em casos de “abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação”, ainda era possível satirizar o que estava acontecendo. A coisa toda iria desandar de vez no final de 1968, quando foi decretado o Ato Institucional nº 5.

Acabou a graça

Em dezembro de 1968, Appe havia tirado alguns dias de férias da revista O Cruzeiro e viajado para o Norte com o objetivo de passar as festas de fim de ano com seus familiares. Desde que havia saído de Manaus, de barco, em 1946, tinha deixado de ser um jovem promissor e se transformado em um dos mais famosos chargistas do país, que frequentava festas com artistas e autoridades políticas, incluindo presidentes como Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. No dia 13 daquele mês, pouco antes de Appe reencontrar sua família, o marechal Artur da Costa e Silva havia decretado o Ato Institucional número 5, mandando “às favas todos os escrúpulos de consciência” e endurecendo o regime criado pelo golpe de 1964. As liberdades individuais e os direitos políticos se tornavam ainda mais restritos, o Congresso era fechado e a imprensa estava sob censura prévia. A revista O Cruzeiro, que havia festejado o golpe chamando-o de “revolução” e lançado uma edição extra com tiragem de 425 mil exemplares, começava a se ver obrigada a repensar seus conceitos sobre “liberdade” e “democracia”.

Para cobrir sua ausência, Appe tinha deixado algumas charges prontas. Em uma delas, via-se Papai Noel caminhando em direção ao prédio do Congresso carregando um saco no qual estava escrito “cassações”. Foi com indisfarçado orgulho que, ainda no Norte, às vésperas do Natal, abriu a revista e viu a charge publicada. Naquele momento, acreditou que havia burlado a vigilância da ditadura. O orgulho durou pouco. De volta ao Rio, descobriu que a censura só deu o ar de sua graça quando quase metade da edição já circulava pelo Norte e Nordeste. O restante, cerca de trezentos mil exemplares, rodou novamente sem a “perigosa” charge, que contrariava os objetivos da censura e as normas do manual distribuído aos veículos de imprensa no dia da publicação do AI-5. O manual dizia que o objetivo da censura era “obter da imprensa falada, escrita e televisiva o total respeito à Revolução de Março de 1964, que é irreversível e visa a consolidação da democracia” e estabelecia normas como a não divulgação de notícias que veiculassem críticas aos atos institucionais e complementares, nem que desmoralizassem o governo e as instituições. Esta última, em bom português, decretava o fim da charge política.

Appe parou com a charge política e passou a navegar em águas menos turbulentas. A revista O Cruzeiro também entendeu o recado. Nos anos seguintes, a sessão “Política” não existiria em suas páginas. Pelas próximas duas décadas, fazer graça podia não ser tão engraçado. No saco cheio de cassações do Papai Noel, também havia uma para Appe. A graça e a liberdade de expressão só voltariam com a reabertura política e o retorno à democracia em 1985.

O humor hoje

O que o humor aprendeu com a ditadura e como se manifesta trinta anos depois de voltar a ser livre? Primeiramente, as charges não estão apenas mais nos impressos. Elas passaram para o mundo virtual e não é mais preciso estar atrelado a um veículo de imprensa para mostrar suas ideias. Ela também deixou de ser apenas um desenho. Temos a charge eletrônica, animada. Temos os memes. E temos a crítica através de vídeos, feita por humoristas, que também podem ser consideradas como uma nova forma de charge política.

Como chargista, Appe dizia que não tinha lado. Ainda que suas convicções pessoais pendessem para uma direção ou outra, no aspecto profissional Appe procurou manter a máxima de que “pau que dá em Chico dá em Francisco”. De Getúlio a Collor, só escaparam Médici e Geisel (período em que esteve afastado da prática por conta do AI-5).

Em 2016, com a polarização em que nos encontramos, há paus para Chico, há outros para Francisco e, mais raramente, um que dê em ambos. Ter que se posicionar, contra ou a favor de algo, é quase uma obrigação. Na atual reedição da famosa frase “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”, temos um “Aos amigos tudo, aos inimigos, o ódio”. Uma pena. O ódio não permite que se ria da boa sacada, da piada bem feita por quem pensa diferente, viu algo por outro ângulo ou que esteja comprometido apenas com o humor.

O período entre a reeleição de Dilma Rousseff e a votação de seu afastamento pela Câmara tem sido de uma produção extremamente fértil para a charge política. Daqui a cinquenta anos, os estudiosos serão obrigados a passar pelos trabalhos de Laerte Coutinho, Angeli, Nani, Dalcio, Quinho, Edgar Vasques, Gilmar Machado, Aroeira, Duke, Ivan Cabral, Amarildo, Jean Galvão, Amorim, Bira Dantas e muitos outros. Algumas charges como a do político andando sobre a palavra “golpe” em forma de bicicleta e dizendo “Olha, mãe! … sem militares!”; a da Justiça, cega, guiada por um cão raivoso, ambas de Laerte; e a do grupo de pessoas vestindo camisetas amarelas e sendo dispersado quando jogam um livro de História (e a adulteração sofrida, deixando as camisas vermelhas e trocando o livro por uma carteira de trabalho), de Ivan Cabral; já conquistaram seus lugares na posteridade. As apropriações e adulterações de charges, assim como o policiamento de grupos radicais ao humor que pareça contrário às suas doutrinas são outros pontos que merecerão estudos.

Assim como o choro, o riso é livre. E grátis. Independente das diferenças políticas, é bom lembrar que vivemos um momento em que podemos rir. E devemos cuidar para que não nos tirem isso outra vez. Espero que, no próximo capítulo desta história, possamos manter este direito.

* * * * * * * *

Links relacionados e sugestões de leitura:
Que Appe é esse?
Memória Viva de Appe
Charge on line
Charges 2016 no Uol Notícias
Página de Laerte Coutinho no Facebook
Página de Quinho no Facebook
Ivan Cabral
Dalcio Machado
Nani Humor
Artigo “O trampo dos cartunistas está sendo vandalizado por grupos anti e pró-governo”
Porta dos Fundos ironiza “patrulha ideológica” e boicote em novo vídeo

Esta entrada foi publicada em Biografia, Ditadura militar, História, Humor, Jornalismo, Política. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *