O amor nesses tempos

Aprendemos a odiar adequadamente. Quem se espanta com o atual estado das coisas, andava distraído. Não foi ontem que, pela primeira vez, um grupo de torcedores emboscou e atacou outro que vestia camisas de cor diferente. Não foi ontem que, pela primeira vez, alguém escorraçou um pedinte que entrou no restaurante ou queimou um morador de rua “por diversão”. Não foi ontem que, pela primeira vez, se resolveu mandar matar garotos que ficam assaltando pelas redondezas. Não foi ontem que, pela primeira vez, aceleramos o carro assim que o sinal abriu sem esperar o pedestre terminar de atravessar. Não foi ontem que, pela primeira vez, xingamos outro motorista. Não foi ontem que, pela primeira vez, discutimos com um vizinho e desejamos seu mal. Nem foi ontem que começamos a julgar e condenar sem provas, desejando a pior das penas ao acusado sem mesmo lhe dar o direito de se defender.

Há tempos frequentamos a escola do ódio. Há muito ele vem sendo aprendido e alimentado. Ainda que não estivéssemos usando, ele foi absorvido e pode ser utilizado a qualquer momento. Odiar é como andar de bicicleta: você pode passar anos sem praticar, mas nunca esquece como fazer.

Talvez, na ilusão de sermos civilizados, não tenhamos dado muita atenção a ele. E é aí onde mora o perigo. O germe do ódio não morre com facilidade. Com mil ocupações e preocupações, provavelmente também não demos muita atenção ao amor. E este morre mais facilmente. Ou se perde de um jeito que não conseguimos encontrá-lo quando sentimos necessidade. Ao buscar algo no abandonado jardim dos nossos sentimentos, encontramos apenas a erva daninha que tomou conta de tudo. Você pode não ter plantado o ódio, mas também não cuidou de arrancá-lo quando ainda era pequeno nem impediu que outros jogassem algumas sementes para o seu lado da cerca.

Esquecidos de ambos – o amor e o ódio –, acabamos também por esquecer como diferenciá-los. O melhor agora talvez seja esperar o tempo certo de colher o que foi plantado para só então separar uma coisa da outra. E, se possível, aprender com a experiência para que isso não se repita.

No momento, o ódio se tornou uma catarse coletiva. Falamos que é amor – pela pátria, por justiça, por certos princípios, por nossos filhos –, mas é só ódio mesmo. Foi isso que deixamos crescer. Responda com honestidade: isso nunca aconteceu em seu universo particular? Você continua amando aquela pessoa depois que vocês se separaram ou alimentou algum ódio em relação a ela para facilitar o afastamento? Você continua grato por quem lhe deu uma oportunidade ou passou a odiar quando ouviu um “não”? Você alimenta as boas lembranças que teve com alguém ou odeia que tenham se afastado? Que muros ou armadilhas você criou para se proteger quando a única proteção seria continuar alimentando o amor? Se existe ódio envolvido, nada de bom pode surgir ali.

Pratique bons sentimentos. Ainda que você não tenha sido educado para isso ou tudo ao redor pareça pouco propício, cultive bons sentimentos. Não deixe sua alma, sua essência, aquilo que o anima, se tornar seco e até incapaz de reconhecer as coisas boas. Antes de exigir algo que lhe pareça agradável, dê esse algo. Não economize amor e bondade. Eles são uma fonte inesgotável de riqueza. Dê amor aos que não estão atentos a ele, aos que não agradecem, aos que não retribuem, aos que não merecem. Ame com força e sem medo. Aprenda a amar adequadamente.

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