Dois Amores y Um Bicho

Não importa se a intolerância é política, social, religiosa ou de gênero. Se há uma escolha diferente, logo aparece uma clava desferindo golpes para todos os lados. E se o objeto do ódio for eliminado, no instante seguinte um substituto será escolhido. O ódio e a intolerância têm uma fome que nunca se satisfaz.

Desconheço se um fato específico motivou o venezuelano Gustavo Ott a escrever Dos Amores y un Bicho, mas, quase uma década e meia depois de ser colocada no papel, a peça, em nova montagem, chega a um Brasil cada vez mais intolerante e que se alimenta disso de todas as formas: nas ruas, nas redes sociais, através dos meios de comunicação de massa. Parece que jamais houve tanta necessidade de odiar. Ou sempre foi assim e apenas alguns de nós não havia percebido. O choque aumenta quando entendemos que somos da mesma espécie daqueles que odeiam tanto. Ainda mais quando há o risco de sermos vistos como diferentes e termos esse ódio voltado contra nós. Fingir odiar para nos misturarmos? Fingir odiar até que o ódio seja real e nos tornemos tão selvagens quanto os outros? E depois? O que ou quem iremos odiar?

A estreia de Dois Amores y um Bicho (com esse “y” do título original em espanhol) com os Clowns de Shakespeare na quinta, 26 de fevereiro, parece ter superado todas as expectativas. Do elenco, da produção, do público e até a minha, por mais que meu olhar excessivamente crítico e racional fique buscando tudo que pareça errado ou desnecessário. Quando a porta do Barracão Clowns é aberta ao público, a peça já teve início. A luz, o som e o trabalho corporal de César Ferrario, antes de qualquer fala, já deixam o público perceber que não vai assistir a uma peça comum, a algo que seja mero entretenimento. O texto de Ott é sério, comprometido e muito direto. Em algum momento, os Clowns trarão algum humor à história. Eu dispensaria todo ele. Ando sem esperanças de que o público brasileiro – e o natalense em particular – entenda que teatro não é sinônimo de comédia. Há sempre o risco de provocar a gargalhada e não conseguir retomar a seriedade da história. Não tanto por culpa dos atores ou da direção, mas quase sempre pela plateia, que entrou neste século pisando fundo em um processo de idiotização que parece não ter fim.

Se por um lado os clowns relaxam e fazem rir – principalmente aproveitando o talento natural de Titina para a comédia –, por outro pegam mais pesado quando tratam de repressão, tortura e do ódio institucionalizado, uma área em que o texto original não é tão incisivo. Como o autor deixa claro nas epígrafes da peça – “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein) e “Quanto ódio carregamos sem perceber em nossas vidas diariamente?” (DeLillo) –, o preconceito e o ódio, não importam os seus alvos, são a base de um tema geral e irrestrito. A bestialidade humana é o que está em pauta.

Pablo Estefano (César Ferrario) é a personificação do preconceito e do ódio. Seu alvo principal é a homossexualidade, mas sua intolerância e sua violência atingirão a tudo e a todos: a esposa, animais, crianças. O personagem se identifica com os animais mais ferozes, mas demonstra que também não se importa com eles. Busca se afirmar pela força, “age assim para se sentir superior a estes bichos” e, paradoxalmente, é o mais frágil e que necessita de maiores cuidados. Vejo César nos palcos desde 1993. Vi praticamente todos os seus trabalhos como ator de teatro – além dos de televisão – e não tenho medo de errar, parecer exagerado ou ainda muito empolgado ao dizer que ele jamais esteve tão bem. Está maduro, tranquilo, seguro, fazendo tudo no tempo certo, com extrema dedicação e profissionalismo. Ao fim da peça, assim que deixou Pablo sair, estava visivelmente emocionado e, tenho certeza, ciente de que havia feito a coisa certa.

Karen (Titina Medeiros) é a mulher que tenta manter a razão, aparentar equilíbrio e autocontrole, deixar tudo nos eixos. Só eu gosto de ver Titina em papéis mais dramáticos?! Gosto muito! Ninguém duvida de sua capacidade de fazer rir. Quando sai disso, que pode ser considerada sua zona de conforto, é como se gritasse: “Olhem! Eu sou atriz! Posso fazer qualquer coisa.” E faz mesmo. Mas quem espera que ela faça rir em Dois Amores… não vai sair decepcionado. Há um momento “novela mexicana” para aqueles mais chegados à comédia.

Confesso que achei um pouco estranho quando, há algumas semanas, soube que o papel de Carolina, a filha de Pablo e Karen, seria feito por um ator. Tendo visto o resultado, admito que foi uma boa opção. Perigosa, ousada, mas que funcionou. Homem? Mulher? Transexual? Travesti? Andrógino? “Viado”, “bichona”, como muitas vezes Pablo grita? O que é a Carolina vivida por João Júnior? Não é nada disso e, ao mesmo, é tudo isso. A filha do intolerante Pablo – talvez a única criatura com a qual ele se importe – é a soma dos preconceitos do pai. Em alguns instantes, há o risco da caricatura não intencional, mas até assim a experiência pode ser bem sucedida. Quem, na plateia, só conseguir ver Carolina como “algo” engraçado ou bizarro, pode apenas estar sendo mais um personagem tão limitado e preconceituoso quanto os que são denunciados na peça.

Em uma montagem ortodoxa, Dois Amores… seria encenada em uma hora. Esta versão, dirigida por Renato Carrera, ficou com duas horas em sua primeira apresentação. Pode ser enxugada durante a temporada ou quando pegar a estrada, mas já fica o aviso de que não cansa. Com todos os problemas comuns a uma estreia, Dois Amores y um Bicho teve os aplausos mais demorados que já vi em uma apresentação de teatro em Natal. Foram interrompidos porque Titina pediu para falar e retomados quando toda a equipe foi chamada ao palco. Uma noite de estreia como há muito não se via. Duas horas não foram suficientes. Eu vou de novo. Quem está em Natal pode se dar ao prazer dessa experiência até 22 de março. Mas é bom correr. As apresentações vão lotar e nunca se sabe por quanto tempo mais o mundo vai resistir à agressividade humana.

SERVIÇO
Dois Amores y Um Bicho, de Gustavo Ott
Com: Medeiros Titina, César Ferrario e João Júnior
Direção: Renato Carrera
No Barracão Clowns (Natal, RN)
De 26/02 a 22/03, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos às 19h
R$ 30 inteira | R$ 15 meia
Vendas e informações no Barracão Clowns: 3221-1816

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