Aquele abrazo

Entre minhas lembranças de infância estão algumas peças assistidas em um teatro subterrâneo ao lado da Basílica Imaculado Coração de Maria, no Méier, no Rio de Janeiro. Eram sempre versões de clássicos infantis: Branca de Neve, Os Três Porquinhos, Pinóquio… Os personagens apareciam vestidos como nas ilustrações dos livros em circulação nos anos 70 e as histórias eram as mesmas que ouvíamos/líamos em casa. Cresci, tive filhos, mudei diversas vezes de cidade e continuei indo a peças infantis nas décadas seguintes. Estas eram – e ainda são – quase sempre versões de algum filme de sucesso da Disney. Norte-americanizados, importamos também a vontade de ganhar dinheiro fácil. As peças já não querem ensinar algo às crianças. São apenas caça-níqueis. Shrek faz sucesso? Vamos vender Shrek. Rei Leão chama a garotada? Empurremos mais Rei Leão em suas goelas. Mamãe-alienada e papai- que-não-pensa, a bilheteria é logo ali, tá?

Se meus filhos não viram grande coisa, imagine meus netos! Já lastimava profundamente pelo que viriam a encontrar neste mundo, quando os Clowns de Shakespeare aparecem com Abrazo.  O novo espetáculo infantil do grupo nos aproxima da cultura da América Latina, esta aqui onde estamos e sobre a qual temos profundo desconhecimento. Um mundo tão perto e tão longe. Uma espécie de Reino Tão Tão Distante, para que os shrekzados possam entender. Tão distante e tão aqui.

Vem de El libro de los abrazos, obra do uruguaio Eduardo Galeano, a inspiração para Abrazo. É uma peça para crianças. Para todos os tipos: as pequenas, as grandes, as que cresceram e não deixaram de ser e até – talvez sobretudo – para as que já nasceram neste mundo neurótico e barulhento, vomitado pela cultura norte-americana. Sim, sobretudo para estas, pois Abrazo ensina a olhar. É preciso muita atenção para não perder nada. Não há cores fortes piscando o tempo todo, não há barulho constante, não há gritos… ou melhor, há tudo isso no momento certo, da forma certa, mostrando guerras, tragédias, opressão, insensibilidade, falta de amor. Se a peça fosse resumida em uma frase, seria algo como: cale-se e sinta. Ou de maneira ainda mais concisa: com um monossílabo e um gesto.

Acompanho o trabalho dos Clowns de Shakespeare desde 1994, quando montaram sua primeira peça. Vi quase todos os seus espetáculos desde então, mesmo quando eu morava em Brasília e o grupo ainda não percorria com tanta regularidade nem tão intensamente o país. Nas vindas a Natal, lá estava eu batendo ponto. Se perdi uma ou duas montagens foi por esses momentos – minhas viagens e suas apresentações – não terem coincidido. Com eles, não há peça perdida. Se é algo feito pelos Clowns, é no mínimo bom. Porém, há muito o grupo não me surpreendia. Abrazo conseguiu isso. É a melhor montagem dos Clowns desde O Capitão e a Sereia (2009). Deixo Sua Incelença, Ricardo III (2010) de fora dessa avaliação, pois tinha muito de Gabriel Villela em sua composição.

Dudu Galvão e Camille CarvalhoEm Abrazo, são apenas os Clowns. Pelo jeito, a melhor configuração do grupo nos últimos anos. Quase na contramão de vir experimentando maior reconhecimento e mais popularidade como ator (fez o matador Bigode de Arame, em Amores Roubados, e o cozinheiro Adão, em O Rebu, duas produções da Globo em 2014), César Ferrário tem se dedicado a escrever. Somente este ano, ele assinou Guerras, Formigas e Palhaços (que vai rodar o Brasil, em 2015, pelo festival Palco Giratório), Quintal de Luís (uma das peças de final de ano encenadas em praças públicas e patrocinadas pela Prefeitura de Natal) e Abrazo. Marco França encontrou uma função que lhe cai muito bem. Fez a música – algo do qual entende –, os arranjos e toda a direção musical de Abrazo. A música é um componente de extrema importância para a peça. Além disso, faz a direção geral com precisão e respeito ao trabalho dos atores. À ameaça de um lugar-comum, a situação se apresenta de maneira inusitada tornando-se um divertido e “melhor-lugar”. Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz estão maduros e finalmente protagonistas. Ainda que tenham tido bons destaques em peças anteriores do grupo, aqui estão na linha de frente, somente os três, mostrando que cresceram e dão conta do recado como os mais antigos e experientes colegas dos Clowns. Ou até melhor. Perderam cacoetes comuns ao grupo, largaram muletas e foram essencialmente o que devem ser: atores. Digo mais: o que fazem como atores em Abrazo não é para qualquer um. Querem saber o motivo? Vão assistir. Isto aqui não é uma sinopse travestida de crítica. O que há de melhor no espetáculo não pode ser dito. Nem tem como.

Abrazo é teatro. É cinema no teatro. É literatura no teatro. A música é música plenamente. Os palhaços são palhaços plenamente. A linguagem corporal dispensa o uso do verbo. Uma frase tirada de El Libro de los abrazos define o trabalho do grupo: “Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.” Fecharam o ano em grande estilo, diriam os antigos. “Lacraram tudo”, diriam os modernosos.

A peça é mero entretenimento? Não. E quais lições devemos tirar dela? São muitas e isso vai depender da sua sensibilidade, do seu poder de percepção e de leitura das entrelinhas, da sua capacidade de abandonar a superfície e mergulhar sem medo. Da segunda vez em que assisti, quando um dos personagens faz “Shhhhhh!” em direção à plateia, uma criança soltou um sonoro e muito seguro “Não!” contra a ordem de silêncio. Certamente ela entendeu uma das mais importantes lições de Abrazo.

Ao final da apresentação, entre rir e segurar o choro, ficou em mim a impressão de que os Clowns experimentaram uma pequena morte. Galeano explica: “Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

Os Clowns estão mortos. Longa vida aos Clowns! Desconfio que virão ainda melhores em 2015.

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