A Grande Beleza

Nunca leio algo sobre um filme antes de assisti-lo. Nada. Nem ao menos uma linha. Seja uma crítica gabaritada ou mesmo a opinião de um amigo. As sinopses estendidas e repletas de revelações, que insistem em chamar de “crítica”, não leio nem depois. Preciso chegar virgem ao filme, sem saber o que vai acontecer. Preciso me entregar verdadeiramente, sem esperar algo em troca. Nos últimos meses, apesar de todo o cuidado, aqui e acolá passaram pelos meus olhos uma ou duas linhas sobre A Grande Beleza. Invariavelmente acompanhadas de comparações com Fellini e com La Dolce Vita. Tentei evitar que isso me causasse incômodo, curiosidade ou me influenciasse de qualquer forma. Vi A Grande Beleza e constatei o óbvio em relação às comparações: são bem rasas. Sorrentino é um bom diretor e fez um ótimo filme, que – em uma época medíocre e de cinema idem – vem sendo bem recebido por público e crítica em todo o mundo. É claro que ele, como muitos, tem influências de um realizador genial como Fellini. Daí a celebrar um filme seu como um de Fellini é forçar demais! Sorrentino está longe de fazer o que Roberto Benigni já fez. E ninguém é maluco de comparar Benigni com Fellini, então…

Quando foi lançado em 1960, La Dolce Vita provocou reações violentas do público e de vários setores do Vaticano. Foi considerado “moralmente inaceitável”. Proibiram os fiéis de o assistirem. Petições foram feitas ao Parlamento Italiano exigindo que sua exibição fosse proibida. Numa época em que um filme poderia demorar mais de cinco anos para ser exibido em outro país (ou mesmo nunca chegar), La Dolce Vita varreu o mundo. No Brasil, chegou no mesmo ano, apenas cinco meses após ser exibido em Cannes. Foi exibido aqui antes de entrar em cartaz nos Estados Unidos. Sobre La Dolce Vita, Fellini disse que a história poderia “ser ambientada em qualquer lugar, qualquer época”, e que não era uma crítica direta à sociedade romana. Certamente, ele falava do mundo que conhecia e existia até então, não de um futuro (o nosso presente) no qual estupros, assassinatos e todo tipo de violência se tornaram coisas banais, e que heresias e sexo explícito só causam alguma comoção em adolescentes ou em adultos pouco experientes.

Paradoxalmente, se há algo em que o ser humano se aprofundou, da época de La Dolce Vita para cá, foi em se tornar superficial.

O vazio mostrado em La Dolce Vita é uma busca por algo que o preencha. O vazio de A Grande Beleza é algo que não pode ser preenchido. Ele vem de várias décadas de futilidade, que parecem ter consumido nossa capacidade de sentir. Parece que as pessoas de hoje foram destituídas de uma vida de significados antes de se darem conta de que tinham uma vida. Não estão buscando algo que perderam. Elas sentem falta de algo que nunca experimentaram e nem mesmo sabem o que é.

Marcello Rubini (o personagem interpretado por Marcello Mastroianni no filme de Fellini) buscava um sentido para sua vida, acreditava em uma mudança. Imaginava um mundo que lhe parecia ser o ideal e não percebia as oportunidades do mundo real. Jep Gambardella (de A Grande Beleza) fez o que Marcello nunca conseguiu e não obteve satisfação com isso. Marcello nunca encontrou o caminho. Jep o perdeu. Marcello é alguém que não alcança o que deseja e se frustra continuamente. Jep atingiu o que muitos desejam e se frustrou com o resultado e a falta de perspectiva para além disso. Marcello se mostra um medíocre que não se encontra nem evolui na busca por se estabelecer e ser reconhecido. Jep é um profissional reconhecidamente talentoso, que parece ter desperdiçado seus dons e suas conquistas. Jep jogou fora o que Marcello nunca teve.

As histórias de Fellini não costumam acabar bem. Seus personagens principais não encontram a felicidade comumente idealizada. Eles perdem tudo, continuam sofrendo, continuam angustiados, morrem. Os que têm mais sorte são mostrados tomando um rumo diferente que, em tese – pelo menos, queremos acreditar nisso – não lhes causará tanto sofrimento. Mas não há um final feliz. A mensagem é sempre de que o filme acaba, mas a vida continua: a dos personagens e a sua. E não sabemos onde isso vai dar. Não há redenção, não há esperança, ninguém vive feliz para sempre.

O personagem do filme de Sorrentino representa bem o homem atual: fútil, entediado, que não valoriza o que foi conquistado, que perdeu o rumo não se sabe quando e nem o porquê. Sorrentino conta uma história para ser entendida pelo público de hoje com toda a sua superficialidade. Ele faz com que o personagem chegue a uma conclusão óbvia e simplista. O que está faltando e provoca essa falta de rumo? O que pode preencher esse vazio? Qual é a resposta que todos querem ouvir? Essa identificação com os tempos atuais talvez explique, pelo menos em parte, o grande sucesso do filme. A Grande Beleza mostra como as pessoas são superficiais, como desaprenderam a dar valor aos sentimentos e como estão desesperadas por acreditar que o amor (ao qual não se entregaram, nem souberam cultivar) pode surgir como uma resposta mágica para seus males. Jep conclui o mesmo que aparece por escrito, com palavras de Céline, antes de o filme começar. Ele vai perceber aquilo que a música em ritmo alucinante, na primeira cena de festa, repete sem que ninguém se dê conta: a far l’amore comincia tu. Para amar, para viver, para percorrer seu caminho, não espere por nada nem por ninguém, tome você mesmo a iniciativa e faça o que precisa ser feito! A grande beleza não está em algum lugar onde se deva chegar ou em algo a ser conquistado. Está no próprio caminho e na percepção da importância de percorrê-lo.

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Uma resposta a A Grande Beleza

  1. Silvia Anspach disse:

    Excelente artigo! Não tenho nada a acrescentar ou criticar. Avaliação perfeita do filme, da produção de Fellini e da de Benigni e crítica muito pertinente à nossa época.

    Obs: Como o articulista, não leio nem ouço nada sobre nenhum filme antes de assisti-lo. Nada como o impacto e a surpresa genuínos, plenos e verdadeiros que a obra nos possa trazer, sem qualquer modo de mediação, sem qualquer atenuante, sem qualquer distorção.

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