Jacy

Errei ao acreditar que Jacy, do Grupo Carmin, seria a melhor peça produzida em Natal este ano. Criei uma expectativa perigosa. Ir sem esperar nada costuma ser a melhor alternativa. O risco de se decepcionar é menor. Afinal, se for ruim, você não estava esperando nada mesmo; se for bom, já é lucro.

Errei ao acreditar que Jacy seria a melhor peça produzida em Natal este ano. Que outras disputem este lugar. Jacy está acima de comparações.

Não via Henrique Fontes no palco desde pq nunca nos trataram com amor e Quitéria Kelly desde Pobres de Marré, peças que vi em 2008, na mesma Casa da Ribeira, onde estreou Jacy. Era de se esperar que eu tivesse mesmo alguma expectativa, ainda mais pelo fato de que veria os dois juntos em cena pela primeira vez.

De Henrique, nunca espero menos que excelência. Faz tudo bem feito: escreve, dirige, administra, atua e ainda é um black bloc sem máscara e sem medo quando se trata de estar na linha de frente na luta por uma política cultural que possa ser chamada assim. No meio de tudo isso, o ator acaba perdendo espaço, mas quando aparece é para mostrar que continua desempenhando muito bem o seu ofício.

De Quitéria, nunca espero que seja menos que perfeita. Talvez por isso eu tenha gostado daqueles dois ou três momentos em que ela atravessou ou esqueceu o texto (rapidamente corrigido). Isso lhe acrescentou certo charme. Finalmente percebi que ela é humana e estava atuando. Até então, achava que, no palco, Quitéria era possuída por alguma entidade que a transformava em uma überschauspielerin (isso existe?! se não, acabei de inventar), algo para além de uma atriz, que promove uma transvaloração da arte de representar, um processo contínuo de superação ou, em claro nordestinês, a danada é boa que só o diabo! Não é exagero. Você está olhando para uma garota toda coquete em seu vestidinho de festa, desvia os olhos por um instante para Henrique e, quando os volta para ela, encontra uma velha. Uma mudança instantânea, mágica, sem nenhum artifício de luz, maquiagem ou qualquer outro efeito. Ela realmente se transforma. Sozinha, como por mágica.

Jacy, a pessoa, poderia ter sido um desses seres que só existem e teria sua história apagada, completamente esquecida, depois de morta. No entanto, a necessidade de viver uma vida que valesse a pena fez com que ela continuasse seu caminho entre nós, os que se creem vivos. Sua vida além-túmulo começou ao chamar a atenção de Henrique para sua frasqueira, jogada no lixo. Três anos depois, Jacy renasce como peça teatral. Ou algo maior que isso, já que o espetáculo não é mera encenação de uma história – real ou fictícia –, mas uma experiência que mexe com o mais insensível e grosseiro espectador. Em algum instante, Jacy, a peça, vai falar diretamente a você, que se aventurou a sair de casa e ir ao teatro. Sem que você perceba – e quando perceber já será tarde demais –, vai jogar na sua cara a alienação em que você vive (rindo do que não tem a mínima graça), a inutilidade da sua vida (que você julga muito produtiva) e até o medo da solidão e do total desamparo na velhice (que você ainda nem sabe que tem).

A montagem utiliza diversas linguagens para mostrar algo que não é apenas a história de uma pessoa, mas as histórias de cada um de nós, desde os momentos mais solitários, em que nos sentimos perdidos em nosso microcosmo, até nossa participação no contexto político e histórico da cidade, do estado, do mundo em que habitamos. Do minimalismo aos recursos tecnológicos (que promovem um “documentário ao vivo”), da atuação clássica e pura dos atores à utilização de “técnicas da moda” no teatro, as histórias vão se misturando: a de Jacy, a minha, a sua, a dos atores, dos políticos locais, a de alguém que você conhece, as dos seus avós, as de muita gente que você esqueceu ou vai esquecer.

Jacy teve uma estreia com casa lotada e o maior tempo de palmas de que tenho notícias para uma peça originalmente montada nesta cidade. Errei ao acreditar que Jacy seria somente a melhor peça produzida em Natal este ano. Ela já nasceu muito maior. Terá uma longa vida em muitos palcos, ensinando que nunca se deve ter medo de lembrar.

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