Celhoca

Outra vez, a morte veio no carnaval. Outra vez, na sexta-feira. Deu um abraço na Célia – provavelmente com misericórdia e carinho – e fez um convite: “Vamos brincar em outro lugar?” Ela aceitou.

Há muito não brincava. Há muito não se divertia. Estivemos junto de julho a setembro do ano passado. Talvez não tenhamos passado tanto tempo juntos desde que ela saiu de casa, em 1978, após a morte da minha avó Mafalda. Eram loucas uma pela outra. Célia era sobrinha de minha avó, mas foi criada como filha. Sua mãe morreu quando ela ainda era pequena. Nunca perguntei quando isso aconteceu exatamente, portanto não sei dizer se a sobrinha se tornou filha antes do nascimento do meu pai – único filho biológico da minha avó –, depois ou mais ou menos na mesma época. Os primos-irmãos tinham seis anos de diferença. Moravam juntos com outros quatro primos, filhos da irmã mais velha. Eram assim as famílias italianas. Todos juntos, fazendo barulho, amando e odiando intensamente, berrando e chorando por tudo.

Meu pai, o mais novo dos seis primos, casou e teve um filho (este que vos). A famiglia continuou ali, se abrasileirando, mas ainda unida, em uma casa em Todos os Santos: meu pai, minha mãe, minha avó, meu avô e Célia, que além de sobrinha-filha, prima-irmã e dublê de cunhada, passava também a acumular a função de minha madrinha. Graças à onda das perucas e enormes óculos escuros dos anos 70, Célia parecia o Chico Xavier de vestido em meu batizado. Já adulto, eu costumava mostrar a foto e dizer: “Chico Xavier era católico, travesti e é minha madrinha.”

Órfã pela segunda vez após a morte da minha avó, Célia seguiu o sonho dos suburbanos solteiros daquela época: morar na Zona Sul. Fez uma escala na Tijuca e, em meados dos anos 80, se estabeleceu em Copacabana, de onde nunca mais saiu. “Aqui tem tudo”, dizia sempre. Era o mantra, repetido por três décadas, que a impedia de ver qualquer outra possibilidade de vida além de Copa. O tudo era quase nada. O mercado, a padaria, a farmácia e o banco a, no máximo, um quarteirão de distância. E havia também os amigos. Muitos foram desaparecendo nessa estrada. Alguns mudaram, outros morreram, outros eram apenas colegas e passaram. Só não Laizi e Miriam. Estas estiveram sempre ali, por perto, prontas para qualquer coisa, até o fim. São de uma espécie em extinção.

Em agosto de 2012, o garoto da foto que ilustra este texto perguntou a Célia o que lhe dava alegria, o que lhe dava motivação. Ouviu como resposta um “acho que nada”, uma pausa e uma conclusão: “só os cachorros”. Era difícil fazê-la deixar o pequeno apartamento. Caminhávamos pelo calçadão depois de sua décima desculpa diária para não sair. Com uma piada ou outra, o riso, que também teimava em se esconder, aparecia. O olhar ia para algum lugar, provavelmente no passado, onde era mais fácil ser feliz. E o que era difícil para mim, era extremamente simples para um cachorro. Para qualquer um desses metidinhos de Copacabana. Bastava aparecer um para ela se derreter, sorrir, pegar no colo, abraçar, beijar, perguntar como estava. Do Posto 3 à Pedra do Leme, conhecia os nomes de todos os cachorros que encontrava, mas não dos seus humanos. Sabia dos históricos de todos eles: as doenças que tiveram, as brigas com outros cães, fugas, aventuras, cruzamentos… Às vezes, acho que não era o antigo glamour de Copacabana em suas lembranças, a facilidade de acesso, o bairro que tem tudo, a praia (que ela não encarava havia mais de uma década) ou qualquer outra coisa que não a deixava sair dali. Eram os cachorros. Quando seu último companheiro canino morreu, há alguns anos, contentava-se com os das amigas. Não queria outro morando com ela. Não iria aguentar outra perda.

Foi-se a Celinha, a Celhoca, a Célia da tia Mafalda. Se existe céu, o da Célia deve ser parecido com a Pracinha do Leme: com um monte de cachorros soltos, correndo, comendo besteiras, enquanto ela grita o nome de cada um deles, sorrindo, sorrindo, sorrindo…

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4 respostas a Celhoca

  1. Dinor disse:

    Sandro
    A “tia Célia”, como eu a conhecia, deve estar em paz e emocionada com seu texto, que demonstra o sincero e nobre afeto que vc tinha por ela.
    Deve estar em um lugar melhor, porém sempre viva em suas lembranças, em sua formação ….em sua vida.

    Deixo meus sentimentos!

  2. miriam disse:

    Hoje acordei com a certeza que vc estaria deixando registrado mais uma vez uma uma homenagem a quem mesmo distante aqui no rio sempre me pedia deixa eu ver o algo a dizer do sandro . Ela adorava ler e acompanhava o seu site . Ela sempre estara presente e nossas vidas.
    MIRIAM

  3. Miriam Vasconcelos Braga disse:

    Valeu Lholhoca, foi muito bom ter convivído com você.

  4. Tadeu Gondim disse:

    Não conheço nenhum personagem dessa história, mas me emocionei muito… que linda homenagem! Abraço a todos e força!

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