Hamlet

Algo está a acontecer no reino dos Clowns.  Logo no início de sua versão de Hamlet, todos são Hamlet. Se você, como eu, acompanha a história dos Clowns de Shakespeare desde seu início, há vinte anos, faz imediatamente a leitura de que ali está um grupo unido e no qual cada um está preparado para fazer qualquer papel. O principal não vai ficar com o melhor ou com o mais experiente ator. O ego – e talvez até o óbvio e o mais sensato – parece ser deixado de lado para que o grupo seja beneficiado. Nos Clowns de Shakespeare, todos são brancos e augustos, todos são principais e secundários, estrelas e escadas. Eles são mais fortes como grupo e parecem saber disso. Ou tudo isso pode ser apenas uma impressão muito pessoal. Eles podem estar cansados, podem ter suas intrigas e desentendimentos, suas estrelas e seus candidatos a estrelas, privilegiados e depreciados, mas no palco de seu Hamlet, o que aparece é um grupo forte, coeso, que se entende como tal e se aproveita disso, buscando equilibrar faltas e excessos.

Hamlet não é uma peça qualquer. Hamlet não é um personagem qualquer. Nem mesmo são uma peça qualquer e um personagem qualquer de Shakespeare. É uma história tão contada e recontada durante quatro séculos que deixou de ser peça/personagem e passou a ser algo que faz parte da vida de todos. Quem nunca ouviu ou repetiu versões de frases como “Ser ou não ser. Eis a questão.” e “Há mais mistérios no céu e na terra…”? E quem irá dizê-las pela enésima vez com a força necessária para que acreditemos que é mesmo Hamlet quem as está dizendo? O ator mais experiente da companhia? O que já esteve em um papel principal e tem grande empatia com o público? Ou um ator mais novo, menos experiente e menos conhecido? Paulo Autran fez cinco peças de Shakespeare (Hamlet não foi uma delas). Walmor Chagas foi Hamlet logo depois da morte de Cacilda Becker (o que deve ter pesado consideravelmente em sua interpretação). Hoje, os tempos são outros. O Capitão Nascimento pode ser Hamlet. Thiago Jesus-crucificado-de-cuecas-sorrindo-e-acenando-para-os-fãs Lacerda pode ser Hamlet. Sendo assim, os Clowns poderiam escolher qualquer um de seus atores sem medo de que não fosse, no mínimo e até então, o melhor Hamlet deste século nos palcos brasileiros. Para viver o atormentado príncipe, é preciso ser jovem. Quanto a isso, não vejo impedimentos para César Ferrário ou Marco França fazê-lo. Por outro lado, Hamlet me parece exigir, por vezes, uma fragilidade que seria difícil engolir em uma figura com o porte físico de um ou outro. Não sei como se deu a escolha, mas quem ficou com o papel foi Joel Monteiro.

Confesso minha desconfiança inicial. Eu o vi (e gostei muito) em Sua Incelença, Ricardo III. E só. Não dava para avaliar e tentar fazer uma projeção. Mas eu sou apenas um espectador dos Clowns há vinte anos. Os Clowns são os Clowns há vinte anos! E devem saber muito bem o que estão fazendo. A peça já havia estreado oficialmente há alguns dias em Natal e feito uma passagem por Recife. Assisti no primeiro dia da temporada e, por isso, acharia cruel e estúpido ser excessivamente crítico. É preciso algum tempo para saber o que funciona ou não, para fazer correções e azeitar toda a engrenagem. Minha impressão foi de que acertaram na escolha de Joel. Ele transitou bem entre a loucura e a lucidez, e o posicionamento e luz adequados ajudaram bastante na maior parte do tempo. Em alguns poucos momentos, me pareceu cansado, sem a ênfase necessária na voz e sem o auxílio necessário do restante, como no final. A última frase de Hamlet (“O resto é silêncio.”), se bem pontuada e com a luz cortada no mesmo instante não deixaria dúvida, aos que não conhecem a peça, de que ela termina ali. Nem aos que conhecem e pudessem estar esperando um arremate feito por Horácio. Creio que esse tempo perfeito será atingido.

Houve um ligeiro hiato entre o encerramento da peça e o começo das palmas. Tempo suficiente para que eu pensasse: “Será que o público sabe que acabou?” Mas qual é o público dos Clowns hoje? Parece ser diferente do que víamos há alguns anos. Ou não. Apenas se depararam com a mudança do grupo e ainda não aprenderam a reagir às novidades. Ri-se menos em Hamlet. Era de se esperar. É uma tragédia. Os “velhos Clowns”, que poderiam ser mais facilmente reconhecidos pelo público que vai ao teatro em busca de risos, aparecem oportunamente no momento em que a peça mostra o teatro dentro do teatro, quando surge o grupo de atores que será usado por Hamlet para fazer aflorar a culpa de Claudius. O riso também aparece por conta de César Ferrário, como Polônio. César é o principal responsável por saciar a plateia que busca rir, mas é também quem empresta a dramaticidade necessária a outro personagem – Laertes – a ponto de fazer surgir a esperança de outros que, como eu, sonham em vê-lo atuando de forma mais grave. Talvez nem tenha sido essa a real ou a principal intenção, mas foi o que vi. Seja na literatura, no teatro ou no cinema, uma coisa é o que se pretende mostrar, infinitas outras são as leituras que fazemos. Em rápida conversa com ele, após a apresentação, lembrei um papo que tive com Cássio Scapin, em 2006, sobre a reação da plateia em Quando Nietzsche Chorou, em que ele fazia Nietzsche. Sempre achei que o humor do filósofo fosse de causar incômodo aos que se sentissem acusados ou discretas expressões de escárnio aos que compartilhassem de sua opinião, nunca gargalhadas como as que escutei do público da peça.  Julguei que isso fosse causado pela “crença” do público médio de que teatro é para fazer rir. Ainda hoje, creio não estar errado. De lá para cá, os idiotas se multiplicaram nos palcos com grosserias que chamam de humor, e o público de hienas deu cria como se fosse um bando de coelhos. Nos dias atuais, grupos de teatro com atores de verdade, principalmente os mais voltados à comédia, precisam buscar um difícil equilíbrio entre o humor, a arte e o bom gosto. E não caírem na tentação de agradar à necessidade de humor grosseiro de um público idiotizado, criado com comédias americanas e televisão. Com Hamlet, os Clowns me parecem suficientemente maduros e livres desse risco.

Camille Carvalho (Rosencratz), Paula Queiroz (Guildenstern) e Dudu Galvão (Horácio) cumprem bem suas funções. A veterana Renata Kaiser, no ingrato papel de Gertrudes, também. Marco França, como o fantasma do pai de Hamlet, me fez acreditar que Ricardo III estava de volta. Como o coveiro, me fez lembrar Corniso, de Muito Barulho por Quase Nada. Ainda que lhe caiam bem os papéis de monarca arrogante ou criatura ordinária, talvez esteja na hora de colocá-lo em outros tipos. Quem sabe em um papel feminino, delicado, de gestos contidos, sem voz retumbante. Seria interessante.

Propositalmente – e como de costume – deixei para falar sobre Titina Medeiros por último. Com uma diferença: desta vez, falo mesmo. Nunca consegui me afastar o suficiente para entender que aquela garota destrambelhada, de 15 ou 16 anos, que acabava de chegar a Natal, e que conheci como secretária de uma revista onde eu trabalhava, havia se tornado atriz. Sempre temi ser paternalista e “achar bonitinho” tudo que ela fizesse. Foi necessário atravessar uma perigosa ponte (chamada “novela de televisão”) onde, de um lado estava a rainha Elizabeth (de Ricardo III) e, do outro, Ofélia (de Hamlet) para eu entender no que ela havia se transformado. O primeiro instante em que ela aparece, quando tira a máscara de Hamlet, pensei: “Socorro morreu!” Mesmo calada, não havia qualquer resquício de sua personagem na novela Cheias de Charme. Acho até que se alguém for assistir a Hamlet procurando por aquela “atriz da novela”, corre o risco de nem reconhecê-la. Ninguém sai de uma rainha Elizabet, passa por uma Socorro e se transforma em Ofélia impunemente ou de uma hora para outra. “A revelação de 2012 na tevê” era revelação só na tevê e para quem não a conhecia. Lá se vão mais de quinze anos no palco, aquele lugar onde se formam os atores de verdade. Além de todo seu talento, Titina tem experiência, tem estrada. Ofélia não é só mais um papel ou um de seus melhores papéis. Ofélia mostra o quanto amadureceu. Rosto, corpo, voz, tudo está diferente e melhor do que em qualquer época. Amadureceu como atriz a ponto de recusar emendar outro sucesso popular na televisão.  Preferiu o caminho mais difícil, mais longo, mais duro, porém, o único capaz de trazer reconhecimento verdadeiro, duradouro.  Parece ter ouvido os conselhos de Laertes: “Cuidado, Ofélia, cuidado, minha querida irmã! Mantenha-se na retaguarda dos anseios, fora da mira e dos perigos do desejo.

Repito minha máxima: Se é Clowns, vá! Aos vinte anos, o grupo mostra o motivo de ser considerado um dos melhores do país. Cresceram, amadureceram e se tornaram deliciosamente trágicos, mas sem perder o humor. Já alcançaram o trono, mas não se acomodaram. Brincam em torno dele e convidam a todos. Uma salva geral!

(Marcha circense. Não há pano. Acendem-se as luzes. O público se mistura aos atores)

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