Xingu por quem esteve lá

Em 2011, o Parque Indígena do Xingu completou 50 anos. Quando ouvi falar da produção do filme, lembrei imediatamente de Antonio Estevão, cinegrafista da produtora de Jean Manzon e irmão de Carlos Estevão, que em nossas conversas sobre suas aventuras sempre mudava o tom e dava mais ênfase ao falar das vezes em que esteve no Xingu e de seu contato com os índios e com os irmãos Villas Boas. Antonio rodou o mundo várias vezes, mas dizia que o Xingu era o lugar mais especial em que havia estado. Bem, vou deixar que ele mesmo conte e mostre isso publicando aqui trechos de seus relatos e fotos de seu acervo que ele gentilmente me confiou.

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Por Antonio Estevão

HÁBITOS E COSTUMES DO XINGU

Orlando Villas BoasRelatos de três incursões jornalísticas nos anos de 1970, 1972 e 1974, quando tive a honra de conhecer e conviver no Parque Nacional do Xingu com os irmãos Orlando (na foto ao lado) e Cláudio Villas Boas, durante a festa anual do Kuarup.

Meu intuito não é descrever a origem do nosso índio, sua história, cultura e hábitos, pois tudo isso já foi dito e feito por estudiosos. Quero apenas narrar episódios insólitos, de cunho humorístico e curioso observados por mim, cuja ótica é fixada na alegria contagiante dos índios, hábitos e costume do dia a dia.

A Orlando Villas Boas, minha gratidão pelo incomensurável conhecimento que me transmitiu da cultura indígena, nas tardes cálidas do Xingu, em companhia dos amigos Dr. Noel Nutels e do jornalista e escritor Antonio Callado. Orlando, com seu habitual entusiasmo e paixão pelos índios e seus direitos, narrava sua odisseia com as expedições de pacificação e tentativas de contato, suas táticas usadas com sucesso ou malogro, e o risco sempre presente.

BALAS E RAPADURAS

Todas as vezes que vamos realizar reportagens ou documentários no Xingu, para facilitar nosso trabalho com os índios, levamos presentes como redes, linhas, anzóis, facas, tesouras, machados, miçangas coloridas para colares, sabão, sabonete, panelas de alumínio, sacos com quilos de balas, açúcar e rapadura, que eram distribuídos com orientação dos funcionários do Parque. Todas essas coisas, além do nosso equipamento, ficavam junto às nossas redes, onde dormíamos, em um grande galpão sem portas.

Os grupos indígenas do Xingu vivem em ocas de uma só peça de sapé, de forma oval, coberta de palha. Nelas vivem as famílias, homens, mulheres e crianças em regime comunitário. Daí não ser considerado delito o hábito de pegarem objetos de outras pessoas e se apossarem desses com naturalidade. Atitude tolerada no convívio com os brancos.

Primeira noite no acampamento. Estava dormindo quando um leve roçar na rede me despertou. Num sobressalto, peguei minha lanterna e, para minha surpresa, vi um enorme índio de pé, pintado de vermelho e preto, estático, olhando para mim. Eu assustado, sentado na rede, tendo na minha frente uma imensa piroca à altura da minha cara. Tomei coragem e perguntei o que ele queria. “Eu sou o Fofinho e quero bala e rapadura.” E gesticulava apontado para a boca. Instintivamente, lhe entreguei um saco de balas. Ele desapareceu silenciosamente na escuridão. Assim foi minha primeira noite no Xingu. Um susto inesquecível.

IMAGEM QUE O TEMPO NÃO APAGA

Margem do rio Tatuari. Dez índios com pintura de guerra, armados com arcos e flechas, em uma canoa grande, descendo pela correnteza, em meio a borboletas de várias cores que, aos milhares, sobrevoam a margem do rio. Na canoa, os remadores marcando a cadência dos movimentos com urros, que iam se distanciando e se perdendo na curva do rio. As borboletas azuis e amarelas, indiferentes, voando em festa, colorindo a paisagem. Novamente o silêncio.

A PESCA

No rio Tatuari, mais acima, onde ele se alarga, entre lianas que pendem das árvores, vejo uma canoa que desliza suavemente, tendo na popa um índio, que sentado com o seu remo, a conduz em absoluto silêncio. Na proa, outro índio de pé, com seu arco retesado, postura de predador imóvel. Somente seus olhos se movem à procura da presa na água cristalina do rio. Os dois não se falam, mas instintivamente se comunicam com o mesmo objetivo de sobrevivência. O silêncio só é quebrado pelos pássaros. O arco retesado dispara a flecha. Ela atinge a presa, que se debate ao ser içada.

PESCA COM BOMBA

Já haviam terminado as festividades do Kuarup, a festa anual dos mortos. Os convidados haviam se retirado do parque, assim como as tribos convidadas. Eu e Allan (assistente de filmagem), pela convivência e pelos dias de trabalho, tínhamos nossa comunicação facilitada com os índios. Afastados, durante o banho no rio Tatuari, vimos aproximação de um grupo de índios sorridentes. À frente deles, um da tribo Yawalapiti segurando meia banana de dinamite, um pavio e uma caixa de fósforos, me pediu para fazer uma bomba para pescar. Pensei ser natural esse procedimento. Pedi ao Allan que pegasse papel prateado e barbante, que era o que tínhamos. Caprichei na bomba! Meti o pavio com a espoleta na banana e comecei a enrolar com bastante papel prateado e barbante. A bomba ficou linda. Do tamanho de uma bola de futebol. Só precisava de uma pedra para que ela afundasse. Um índio me passou uma pedra. Amarrei na bomba e estava tudo pronto. Os índios subiram em três canoas e se posicionaram para pegar os peixes mortos depois da explosão. Eram uns vinte índios. Eu, do alto da minha ignorância, gritei: “Lá vai!” Acendi o pavio e joguei a bomba na correnteza. Por azar, a pedra se soltou e a bomba flutuou calmamente, com o pavio aceso, em direção às canoas cheias de índios, que, apavorados, gritavam como loucos. Alguns se atiraram no rio, tentando fugir da explosão.

A bomba não tinha pressa. Flutuava com ironia, serena e devagar, alongando nossa agonia. Por fim, encostou em uma das canoas e BUM! Índios gritando e pulando para todos os lados. Um buraco imenso fez a canoa afundar. Os índios sumiram num passe de mágica. O rio Tatuari, silenciosamente, seguia o seu curso. Naquele dia, não vi mais nenhum índio. Não contei nada a Orlando.

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