“Xingu”, o filme

Não há ninguém com boa vontade maior que a minha para assistir a um filme brasileiro. Nem precisa ser bom. Basta que seja honesto. As comédias caça-níqueis, deixo para os incautos ou para quando passar na tevê e o controle remoto estiver longe. Os que parecem bons e honestos, faço questão de ver no cinema (quase sempre um sacrifício para mim, pois ainda permitem a entrada de babuínos) e na primeira semana (para ajudar a garantir que tenha mais uma de exibição).

Era certo que veria Xingu. Por vários motivos. A temática me interessa, é baseado em fatos reias (não resisto a isso), não se passa em uma favela (não aguento mais), não tem ninguém inventando um “sotaque nordestino” e, melhor que tudo, não tem Selton Mello no elenco. Tem Felipe Camargo, que nunca foi lá essas coisas como ator, mas que me obrigo a respeitar por ter pegado Vera Fischer quando ela ainda estava na casa dos 30. E tem Caio Blat. O que dizer de um cara que pega Mariana Ximenes antes dos 18 anos, faz par romântico com Maria Flor e casa com Maria Ribeiro? Que é uma criatura insuportável. Além disso, tem aquela cara eterna de 20 anos e uma barba que eu não vou ter nem se deixar crescer pela próxima década inteira. Por mim, ele teria feito com mais realismo aquela cena inicial do suicídio em Batismo de Sangue. E tem João Miguel. Este, sim, um ator de responsa e que até perdoo por qualquer maldade que tenha feito com Hermila Guedes, moradora eterna do meu Top 10 de “Feinhas que são Lindas”.

Todo meu profundo despeito à parte, devo dizer que todos estão ótimos em Xingu. Inclusive Felipe Camargo, que considero bem limitado, cumpre seu papel. A passagem de tempo me pareceu um pouco acelerada e confusa. Depois de alguns “tantos anos depois”, já não se sabe muito bem em que ano a história está. Algumas vezes, como no dia da criação do Parque (14 de abril de 1961), a data é informada (neste caso, por uma notícia no rádio). Em outras, me guiei pelos personagens e acontecimentos políticos, mas é dispensável dizer que o brasileiro médio não costuma ter conhecimento histórico suficiente para isso. Se o recurso da legenda (com o qual antipatizo em filmes que não sejam documentários) foi tão usado, teria sido melhor informar o ano e não somente o tempo que se passou desde sabe-se lá quando. Do início da Expedição Roncador-Xingu até o decreto de criação do Parque, passam-se quase vinte anos. É verdade que esse ritmo acelerado não deixa o filme ficar monótono. Os planos abertos são um descanso para os olhos e os índios são o que há de melhor. Pode haver filme mais brasileiro do que aquele feito com índios? É o verdadeiro e maior encanto de Xingu. Do lugar e do filme. É gente de verdade. Com identidade.

Estes breves comentários têm pretensão somente de sugerir que os leitores assistam ao filme (preferencialmente na tela grande), de marcar a data (hoje, o decreto de criação do Parque completa 51 anos) e fazer uma introdução ao tema para mostrar um pouco do Xingu pela visão de quem esteve lá. Isto fica para a próxima postagem, que será feita neste domingo (15 de abril).

Quem for chegado a trailers (eu não sou; acho que quase sempre revelam mais do que deveriam), clique no vídeo abaixo.

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