Retrato Censurado do Grão-Mestre Varonil

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“Não fumo, não cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho.”

“A coisa que mais odeio é a hipocrisia. É a mentira da mentira.”
Tim Maia

Acredite: Não é Oscar Wilde. É o Tim Maia.Alto, loiro, branco, olhos azuis, porte atlético, requintado, sem vícios e com uma educação de causar inveja à realeza britânica. Assim era Sir Sebastião Rodrigues Maia, o Belo Brummel da Tijuca, esse aí da foto. Qualquer relação com aquele menino preto, gordo e pobre, preso várias vezes nos Estados Unidos e no Brasil, que bebia, fumava maconha, cheirava cocaína, arranjava confusão com meio mundo e que, adulto, atenderia pelo nome de Tim Maia é criação de alguma mente desequilibrada.

Pensamentos e atos nesse sentido, se descobertos, podem resultar em ação indenizatória ou coisa que o valha. Não que sejam proibidos. Expurgos, prisões, torturas, detenções e que tais podem ser utilizados não como castigo, mas como ação preventiva para eliminar quem possa talvez cometer tal crime futuramente. Tudo já avisado e reavisado pelo Senhor Orwell – alto, loiro, branco, etc – desde 1949 com referência a 1984 (facebook 21.01.2012 foto errata cueca degradante retifica refs impessoas apaga reescreve).

O Big Brother é real e bem diferente do que passa na sua teletela – aquilo, sim, bem degradante. O Ministério da Verdade não brinca em serviço e já mandou reescrever tudo. No caso, só apagar mesmo. Como mandaram apagar as fotos da Scarlett Johansson – loira, branca, linda, etc – e todas as cópias não autorizadas de quase tudo que já foi pensado e registrado da metade do século passado para cá. Chupa essa manga, Bial! O amor é lindo.

Sem temer a Polícia do Pensamento, levanto aqui algumas questões. Por que a foto de um artista, provocador e anárquico, vestindo apenas uma camisa rasgada e cueca é “degradante” para sua imagem e outra de uma modelo anoréxica com visíveis transtornos psiquiátricos é exemplo a ser seguido e pode valer milhares de dólares? Por que a do negro gordo de cueca parece um insulto e a do Elvis gordo não? Por que uma só foto feita por uma profissional de jornalismo, recebida por ele em seu quarto de hotel – de cueca e camisa rasgada –, é chocante e milhares de fotos da inglesa Amy – branca, ex-linda, etc – esquelética, chapada, desdentada, cheia de hematomas, perseguida onde quer que fosse e visivelmente contrariada com os registros dessa imagem não chocam? E, aproveitando essa última comparação, por que o negro gordo era picareta por não cantar ou faltar aos shows marcados, mas a branquinha magrela era atração ao fazer o mesmo e por um preço muito maior?

Por que a foto do Tim Maia de cueca é degradante para sua imagem e a do Pelé nu não é para a dele? E se em vez do corpo atlético e do dote avantajado, Pelé tivesse uma barriga enorme e um pinto pequeno? Talvez fosse meio degradante…

Por que a Carla Bruni, esquelética, pernas tortas, seios pequenos, meio flácidos e brigados (um não chega perto nem olha para o outro) é bonita e o Tim Maia é feio? Quem disse que é para ser assim? Para mim, ela é só uma branquela com talento para atrair homem rico e ele era um cara com um poder extraordinário na garganta, capaz de hipnotizar qualquer um que ouvisse sua voz. Tão poderoso que continua fazendo isso quase uma década e meia depois de morto.

Por que uma foto dele pode ser um insulto à sua memória e reeditar discos que ele se recusou a reeditar durante a vida inteira não é? Aliás, quem é que decide o que é bom ou não para a imagem de alguém que já morreu? Como perguntou um usuário do Facebook: “quem é o procurador dele? O Chico Xavier?!” É… porque tem que ser alguém que tenha bom trânsito entre os dois mundos e, até onde se sabe, Chico só era bom nisso quando estava do lado de cá.

Vamos partir para outra vertente. Por que Xuxa faz um filme comercial em que aparece na cama com um menor, depois se esforça para esconder isso, e um filme íntimo e totalmente explícito da americana Kim Kardashian com o namorado aparece e ela, em vez de esconder, diz “é meu mesmo e quem quiser ver vai ter que pagar”, negocia a exibição e distribuição por milhares de dólares? Por que a Val Hellooo Marchiori toma tanto champanhe em sua taça de ouro? É para esquecer que se chama Valdirene Aparecida e cresceu nos cafundós? Por que aqui as pessoas se esforçam tanto para esconder e até – como se fosse possível – apagar o passado? Como diria Cazuza (que era alto, loiro, atlético, hetero e sem vícios): “São caboclos querendo ser ingleses”.

Outra pergunta. Por que Nelson Motta pode escrever um calhamaço de 400 páginas e repetir inúmeras vezes que Tim Maia era gordo, preto, maconheiro, encrenqueiro, cheirava loucamente, mas o próprio Tim Maia não pode ser ele mesmo em uma foto?

Respondendo a todas as perguntas de uma vez: somos uma sociedade de hipócritas. Queremos seguir os modelos que nos fizeram acreditar que são os melhores. Queremos ter cabelo liso, pele clara, dentes brancos, alguém ao lado, um carro, dinheiro para gastar no shopping. E queremos apagar qualquer vestígio de nossos passados que não correspondam a esses padrões. Assim, aquele tido como o melhor escritor brasileiro aparece branco em uma propaganda do governo. Um grande cantor tem que estar sempre bem vestido (como se isso fizesse alguma diferença para a voz dele), “ter boa aparência”. Como podemos ter ídolos que não correspondam aos tais padrões almejados? Ídolo não sua, não tem necessidades fisiológicas, não sofre, está sempre feliz, teve uma educação maravilhosa, tem bom gosto para tudo (não importando o lixo que seja) e, acima de tudo, não tem passado. Só ser for lindo e inventado. O passado, assim como o amor, a gente inventa.

Somos selvagens querendo ser dândis.

Ídolos incontestes da música brasileira são Tom, Vinicius, Chico, Nara… Mesmo que não entendamos muito bem o que queriam dizer nas poucas vezes que ouvimos suas músicas. Mas são todos brancos, bem nascidos, educados, falam línguas civilizadas. Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Dona Ivone Lara são criaturas que atiçam nossa curiosidade, nos fazem sentir mais humanos, sem preconceitos. Mas quem quer ser preto, pobre e favelado? Um violãozinho no sofá do apartamento de frente para a praia cai melhor, não? Mais parecido com nossos anseios burgueses. Quem quer ser Tim? Quem quer ser Tom?

Continuo achando que Tim Maia não era um débil mental incapaz que foi pego desprevenido pela diabólica Luciana. Ele estava fazendo o que sempre fez: provocando. Sabendo bem no que ia dar. Lamento que a foto não tenha sido publicada quando ele estava vivo. E se não gostasse, que processasse. Ele sacaneava todo mundo, mas quando era ele o sacaneado, não curtia muito. Quem não lembra do processo contra o Casseta & Planeta por conta da imitação que Bussunda fazia dele? “Alguém tem uma gilete aí? (…) Alguém tem um espelho aí? Vou pegar, hein!

É grave essa atuação do Ministério da Verdade. É assim que começam a nos calar, a cercear nossa liberdade. Então, não vale tudo? Vale. Só não vale dançar homem com homem, mulher com mulher, nem Tim Maia doidão de cueca. O resto vale.

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3 respostas a Retrato Censurado do Grão-Mestre Varonil

  1. Arrasou! Viva Tim Maia!

  2. Prezado Sandro,

    Li a matéria de Paulo Chico, publicada no Jornal da ABI, edição de fevereiro/2012, a qual alude aos seus questionamentos. É inacreditável que neste século XXI, de ampla reivindicação das chamadas “liberdades democráticas” e do extraordinário desenvolvimento da internet e das redes sociais, deparemo-nos, ainda, com o patrulhamento ideológico, com a pressão sobre os meios de divulgação e comunicação e com tentativas de regulação (cerceamento) da própria internet. São ações que contrariam totalmente a liberdade de expressão, prevista no texto constitucional, e a proposta de criação da internet, que é o compartilhamento de ideias e de opiniões. Os minutos finais do belo documentário de Walter Carvalho, “Raul – o início, o fim e o meio”, mostra um Raul decadente, maltratado pelos efeitos do diabetes e do álcool. O que isso muda? Nada. Raul continua sendo amado e cultuado por uma legião de fãs. Walter teve a sensibilidade de “desnudar” Raul por completo, sem amarras. A publicação da foto de Luciana Whitaker muda algo, em relação a Tim? Não. Da mesma forma que Raul Seixas, Tim Maia é um artista extraordinário, inesquecível, guardado com carinho no coração e na lembrança de seus admiradores. Abraço fraterno!

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