Os filmes que me marcaram em 2011

Primeiro, pensei em uma série de listas. Aí deu aquele bode homérico no blog, que ficou fora do ar por duas semanas, e eu broxei para a ideia. Todos começaram a fazer listas. E todos começaram a achar um saco as listas dos outros, afinal, gosto é igual a você sabe o quê. No entanto, este ano tive ótimas conversas com três ou quatro pessoas e das quais nasceram excelentes dicas e debates sobre filmes, livros, música, etc. Por que não compartilhar isso como os leitores do blog? Portanto, aqui estou, me rendendo às listas de fim de ano.

Não gosto de fazer lista de livros. Leio uns 50 por ano e acho pouco. Um livro por semana é pouco, garanto. Mas para uma lista ficaria enorme. Para mim, ler é algo sagrado e extremamente íntimo. Só indico ou dou livros a alguém se conheço muito bem a pessoa e seus interesses. Além disso, acho pedante isso de fazer lista do que leu. Geralmente, as pessoas escolhem os títulos que a farão parecer mais culta, antenada ou descolada. Ninguém lista as bobagens que leu e – garanto novamente – quem lê muito, por mais seletivo que seja, lê bobagens também, nem que seja para descansar o cérebro.

Enfim, farei apenas duas listas: os filmes que mais me marcaram em 2011 e as músicas que mais ouvi este ano. Vamos à primeira.

Os filmes que mais me marcaram em 2011

Entre longas e curtas de todos os gêneros, devo ter assistido a mais de 250 filmes este ano. Se somar os episódios da meia dúzia de séries que acompanho ou vi/revi inteiras, o número dobra facilmente. A lista não é dos “melhores filmes de 2011” e nem dos que acho que são os melhores. São dos que mais me marcaram, me impressionaram, trouxeram algo de bom para minha vida, para minha formação, me influenciando de alguma forma. Não gosto de falar sobre um filme com quem não o assistiu. Sempre digo que se deve ver um filme o mais virgem possível, sem grandes informações a seu respeito, para que você possa tirar suas próprias conclusões. Portanto, comentarei quase nada. Listei nove filmes: 4 deste ano, 2 de 2010, 2 de um diretor do qual me tornei admirador (mais dois, pois há outro entre os de 2010) e um de 2003 (que só conheci este ano).

Pelo menos três dos quatro deste ano, você encontrará em várias listas por aí. Preste atenção a isso. São produzidos milhares e milhares de filmes por ano, mas são poucos os que realmente valem a pena e não são mero entretenimento.

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar

Meu primeiro Almodóvar foi Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de 1988, visto no mesmo ano em uma “cópia não selada” na época em que e as locadoras de vídeo eram formadas quase só por elas. Vinte e três anos e doze filmes depois, todos vistos, já tive tempo e provas suficientes para dizer sem medo que ele é um dos melhores realizadores da atualidade, senão o melhor. Se vivo, Fellini daria tapinhas nas costas de Almodóvar e Woody Allen, e diria: “Continuem assim, meninos! Vocês nunca serão como eu, mas vocês são os melhores que o mundo têm hoje.A Pele que Habito, como bem observou meu amigo Buca Dantas, “é o melhor Almodóvar desde Tudo Sobre Minha Mãe (1999)”.

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Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

Descontados todos os lugares-comuns sobre Woody Allen, duas coisas têm realmente chamado minha atenção em seus trabalhos na última década: a constância na realização (desde 1977, um filme por ano, exceto em 1981, mas fez dois em 1987) e a sensibilidade que vem demonstrando com seu olhar estrangeiro (desde que cansou de seu umbiguismo nova-iorquino e passou a pensar/filmar fora dos Estados Unidos). Meia-Noite em Paris tem o insosso e sempre com a mesma cara Owen Wilson como alter-ego de Woody Allen (e me parece que ele está mesmo imitando Woody Allen nos trejeitos e na voz), mas nem isso consegue estragar o filme. E tem Marion Cotillard, que compensa a canastrice e a sem-gracisse de quantos for preciso. Fui covardemente atingido pela temática e pelo enredo. Se você assistiu, sabe o motivo. Se não, assista e descubra.

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Melancolia (Melancholia, 2011), de Lars von Trier

É um grande babaca, mas é um babaca necessário. É o gringo que usa a força do império para dizer: “Deixem de ser idiotas e previsíveis. A vida não é bonitinha assim. Parem de vender esperança.

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Um Conto Chinês (Um Cuento Chino, 2011), de Sebastián Borensztein

Não gosto das generalizações do tipo “cinema de tal país”, mas vamos combinar que se for cinema argentino já dá vontade de conferir. E se tiver Ricardo Darín no elenco, a possibilidade de o filme ser ótimo é grande.

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Abutres (Carancho, 2010), de Pablo Trapero

Argentino… Ricardo Darín… Realismo duro, sem esperança, sem perdão.

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Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta, 2010), de Álex de la Iglesia

Para mim, a grande descoberta do ano. O único filme que vi este ano e me deixou sem respirar durante toda a exibição. Por onde passava (pingou em uma ou outra sala em algumas capitais), eu ia incitando os conhecidos a verem. Foram e adoraram! Não interessa seu gosto, seu gênero preferido. É cinema de verdade! História bem contada, repleta de fantasia e exageros. Corri para ver os outros trabalhos de Iglesia. Ponha 800 Balas (2002) e Crimen Ferpecto (2004) na lista dos meus preferidos vistos em 2011.

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Leve Meus Olhos (Te Doy Mis Ojos, 2003), de Icíar Bollaín

“Cinema espanhol” também é um rótulo bem confiável. Almodóvar, Álex de la Iglesia, Icíar Bollaín… Vi Te Doy Mis Ojos na tevê. Foi amor à primeira vista por Laia Marull, a atriz principal, que nos faz respirar aliviados ao mostrar que ainda existe cinema com atores de verdade e que sabem atuar. Também não gosto de pensar assim, mas tenho que admitir que filmes escritos e dirigidos por mulheres costumam ter abordagens mais sensíveis (sobretudo se tratam do universo feminino) e são capazes de fazer o espectador esquecer a razão para se entregar plenamente aos sentimentos. Homem e bruto, senti todas as dores e medos de Pilar, a personagem interpretada por Laia Marull. Fiquei encantado com sua atuação como um todo, mas, principalmente, com o momento em que a personagem se permite acreditar e desabrochar. O bicho amedrontado esconde uma mulher linda. Não é uma atriz qualquer – nem dirigida de qualquer maneira – que consegue uma transformação daquelas. E sem usar nada além do olhar, do sorriso e do corpo nu. Nos momentos em que está acuada, a caracterização ajuda, mas as expressões e o gestual é que nos mostram toda a tensão da situação que está vivendo. Ninguém tem três prêmios Goya por acaso.

Termino o ano com três pendências na lista: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), Cópia Fiel (Copie conforme, 2010) e O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo, 2011), lamentando principalmente pelos dois últimos. Sinto que estarão em minha lista no final de 2012.

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