O mundo em preto e branco

Sou viciado em informação. Admito. Desde sempre. Livros, jornais, revistas, filmes, músicas. Há uns dez anos, senti necessidade de diminuir a carga e selecionar aquilo que me parecesse agradável e relevante, mas sem correr o risco de me tornar um radical que só gostasse disso ou daquilo. A informação deveria estar sempre acessível para que eu pudesse comparar tudo e escolher o que me fosse aprazível. O noticiário policial – e do mundo cão em geral – foi abolido; rádio e televisão diminuídos radicalmente; a conversa fiada ganhou status de evento raro; comédias e filmes de ação americanos viraram último recurso para desconectar o cérebro.

Isso feito, sobrou muito mais tempo para as coisas boas, para o que realmente me interessava. Porém, enquanto me esforçava para manter distante o lixo excedente, todo ele começou a convergir para a web. Depois vieram as redes sociais e de conteúdo. No início, era possível escolher o que parecia interessante e relevante, mas, com o tempo, parece que tudo e todos se tornaram excessivos, verborrágicos, e o que era para ser algo selecionado se tornou o escoadouro do pior que as pessoas podem produzir, juntar e que, infelizmente, insistem em compartilhar.

Com esse gosto quase generalizado pelo que há de pior, como reagem as artes visuais mais comerciais, como a tevê, o cinema e a produção de vídeos de uma forma geral? Produzem o lixo que as pessoas querem consumir, claro. Mas existe também uma tendência contrária, tão cansada do excesso e disposta a eliminá-lo, que chega a parecer saudosista.

Acredito que esse movimento não seja exatamente pensado, mas, sobretudo, a expressão desse cansaço em relação ao excesso. É também uma autoanálise. Reparei que minhas fotos – minha segunda forma de expressão e tão somente isto – têm cada vez menos elementos. Os excessos ou personagens principais são jogados para a borda enquanto a maior parte do espaço é ocupada por um só elemento ou cor. Ou, se existe uma composição mais complexa, meu olhar, inconscientemente, elimina as cores (como nas fotos abaixo, que não são em preto e branco nem foram deixadas assim por manipulação digital; para vê-las em tamanho maior, clique aqui).

Durante este ano, variadas obras chamaram minha atenção para essa fuga das cores. Comecei a perceber isso em abril, quando o Foo Fighters apresentou as músicas de seu novo álbum, Wasting Light, no programa de David Letterman. Não vi a apresentação quando exibida na tevê, mas quando o grupo subiu os vídeos das músicas para seu canal no YouTube, eles estavam em preto e branco. E a apresentação foi, no mínimo, muita sóbria: todos de terno, sem pulos, descabelamentos ou pirotecnias. Só a música. E, sendo para ver, música em preto e branco.

Guardei a impressão e, de lá para cá, revendo alguns filmes, isso foi se intensificando. Há algum tempo, revi os filmes de Bob Fosse e escrevi sobre eles. Quando falei de Lenny (1974), enfatizei a coragem de Fosse (dançarino, coreógrafo e diretor de musicais) abandonar seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial. Um filme em preto e branco, com muitos planos fechados e que exigia boa interpretação dos atores (Dustin Hoffman no papel-título). De forma não tão intensa, também senti o mesmo ao rever Manhattan (1979), de Woody Allen. Em As Tentações do Doutor Antônio (1962), Fellini está usando cores pela primeira vez entre duas de suas maiores obras em preto e branco: La Dolce Vita (1960) e 8 ½ (1963). Depois de dois trabalhos vencedores do Oscar de Filme Estrangeiro e um vencedor em Cannes, criticando a decadência da sociedade italiana e preocupado com o avanço da voraz cultura americana (principalmente pelo cinema), Fellini ironiza os filmes que têm grandes peitos como seu principal atrativo e, ao apresentar o personagem principal (Antonio Mazzuolo, interpretado por Peppino De Filippo), recorre a um filme em preto e branco feito por um cinegrafista amador, ironizando também a tendência de acharem que só amadores fizessem filmes sem cores.

Fazendo um contraponto, assumo quase vergonhosamente ter dormido, digo, assistido Lanterna Verde e Capitão América. Fui marvelmaníaco quando moleque, minha primeira coleção de revistas foi de quadrinhos da Marvel e, já grande, chorei vendo Homem-Aranha em uma sala de cinema em Brasília (podem jogar as pedras). Furtivamente, sozinho e trancado no quarto, me permito ver esses filmes. Respondam-me: tirando toda a barulheira e os efeitos especiais, o que sobra? Eu mesmo respondo: um roteiro para história em quadrinhos. Por isso foi feito como tal. Fica lindo bem desenhado no papel, mas quando filmado tem muito de fogos de artifício e quase nada de cinema. Até quem gosta só disso parece já estar cansando.

Daí que as coisas se invertem e os críticos americanos resolvem prestar atenção a quem neste final de ano? A The Artist, um filme em preto e branco e mudo, que tem seis indicações ao Globo de Ouro. Se Foo Fighters (na minha humilde opinião, a melhor banda do mundo em atividade e responsável pelo melhor álbum do ano) está mais focada do que nunca no essencial, o dono do melhor álbum brasileiro do ano (também na minha meu humilde julgamento) segue o mesmo caminho e, para além da ótima música que vem fazendo, acaba de lançar um clipe no mesmo estilo (Freguês da Meia-Noite, logo abaixo).

Finalizando (já há texto em excesso!), deixo quatro dicas para quem quiser experimentar um pouco desse mundo em preto e branco: o site do fotógrafo espanhol Chema Madoz (a foto que abre o texto é dele); o filme The Kiss (1929), com Greta Garbo, considerado o último filme mudo de Hollywood; o canal Santi Bailor no YouTube, somente com clássicos italianos (incluindo alguns de Fellini, tudo na íntegra e em arquivos únicos); e o canal Movies do YouTube, que tem, dentre outras preciosidades, O Gabinete do Doutor Caligari (1920), filme expressionista alemão; O Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein; A General (1926) e vários outros com Buster Keaton.

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2 respostas a O mundo em preto e branco

  1. Wilson Natale disse:

    Nada como um mundo em preto e branco para nos oferecer cores de luz e sombra!
    P&B revela mais que uma imagem. Revela a alma…
    Mas eu sou suspeitíssimo para falar disso. Sou um apaixonado por essas imagens de sonhos, onde a luz bem dosada nos oferece tudo aquilo que a visão precisa.
    Adorei tudo o que li e vi!
    Abração,
    Sodade!… Feliz Ano Novo, novíssimo em folha!!!
    Wilson

  2. Fellini está usando cores pela primeira vez entre duas de suas maiores obras em preto e branco: La Dolce Vita (1960) e 8 ½ (1963).
    (Bem, copiei e colei o texto acima para dizer que pensava que o filme de Fellini de 1963 fosse “7 1/2.” Pode ser que eu tenha me enganado.) Ou o Sandro aumentou 1 polegada, ou a minha memória falhou.

    Falhou bonito, Sidenei! 🙂 O título, as polegadas e a contagem dos filmes estão corretas. Fellini havia dirigido 6 longas, 2 médias e co-dirigido outro longa (Luci del Varietà, com Lattuada, em 1950). SEIS longas mais “três meios” filmes (portanto, um e meio), dá 7 e meio. O seguinte foi “” (Otto e mezzo).

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