Cabaret

Rever os filmes dirigidos por Bob Fosse pode ser apenas a manifestação de uma mania, mas escrever a respeito deles já está me cheirando a um pedido de desculpas. É verdade: ainda não engoli Sweet Charity (1969) e a maldita destruição que provocou na história de Cabíria, a prostituta sonhadora de Fellini. Mas vamos com calma. Era a primeira vez que o ator e dançarino estava dirigindo um filme. Mais: estava transpondo algo que conhecia muito bem – o palco e a dança – para uma linguagem que, para ele, era nova – a direção de cinema. E ele se sai muito bem quando fica só na dança. Eu te perdoo, Fosse. Apesar de todo a idiotização da história, que talvez tenha sido uma grande sacanagem de Fellini, já que ele participou do roteiro. Vocês caíram. As risadas ouvidas no Cemitério de Rimini são de Fellini, que ainda hoje gargalha dessa história.

Cabaret (1972), segunda direção de Fosse, não é um filme qualquer. Devo tê-lo visto também em meados dos anos 80, naquela ansiedade juvenil de ver tudo que tivesse levado muitos Oscars. Não afirmo, mas talvez tenha sido o filme que ganhou mais Oscars sem levar o de melhor filme. E não deixou de ganhar para qualquer um. Foi para O Poderoso Chefão. Saiu vencedor em oito das dez categorias em que concorreu. Dentre elas, Melhor Atriz (Liza Minnelli), Melhor Ator Coadjuvante (Joel Grey), Melhor Direção de Arte, Melhor Música, Melhor Edição e Melhor Editor. Tudo muito merecido!

Fosse entendeu que cinema não é teatro, nem teatro filmado. Também entendeu que um musical no cinema não pode ser um filme que é interrompido para dar lugar a números musicais e depois deixa o espectador sem saber onde estava. Em Cabaret, a história é perfeitamente integrada aos momentos musicais. Verdade que o fato de boa parte dela se passar em um lugar onde aconteçam tais apresentações facilita, mas isso não funcionou no filme anterior. No palco, tudo funciona perfeitamente e – vou me permitir um justo lugar-comum – é aí que “a magia do cinema acontece”. Os números são filmados de vários ângulos, com movimentos de câmeras em praticamente todos e com uma edição de se ficar pensando se aquilo não estava sendo editado ao vivo e em uma só tomada. Era início dos anos 70. Nada de recursos digitais nem quaisquer outras muletas exaustivamente usadas pelo cinema americano nas décadas seguintes. Quem roteirizou, coreografou, dirigiu, filmou e editou aquilo, sabia muito bem o que estava fazendo. E o principal responsável por tudo isso foi Bob Fosse.

Liza Minnelli, um piteuzinho de 25 anos e pouco mais de 1,60m, deve ter pegado sua estatueta e dito: “Papai, mamãe, mundo, quem faz uma Sally Bowles assim, não precisa provar mais nada a ninguém. Dá licença que eu vou ser louca na vida.” E foi.

(clique na imagem abaixo e confira Mein Herr, segundo musical do filme
e primeiro dos quatro protagonizados por Liza;
o vídeo abrirá em outra janela, direto no YouTube)

Fico imaginando o poder da carga genética da pequena Liza, filha de Vincent Minnelli, diretor de musicais, e Judy Garland, que dispensa qualquer apresentação. E a escola que ela teve, crescendo nesse meio. Resultado: 25 anos e tome-lhe Oscar, Bafta e Golden Globe.

Mas nem só de pedido de desculpas a Bob Fosse e rasgação de seda para Liza Minnelli é este texto. Nem mera viagem no tempo a falar de um filme “antigo”. Cabaret está entre nós, brasileiros, hoje. Cláudia Raia, à beira dos 45 anos e com seu 1.80m de gostosura aviltante a qualquer fêmea humana, está cantando e dançando ao vivo no palco. E parece estar fazendo tudo muito bem. Até cantar. E cantar dançando, que é ainda mais difícil. Claro que não é uma Liza Minnelli. Mas e daí? A Liza toda não dá as coxas da Cláudia. Cada uma com seus dons divinos e Deus contra todos nós, pobres mortais babões.

(clique no vídeo abaixo e veja Cláudia Raia também apresentando Mein Herr)

Nem pretendo fazer comparações. Casaria com as duas e seria feliz para sempre (o que certamente não seria muito tempo). Também seria covardia comparar os aspectos técnicos, mas, mesmo assim, atentem para o fato de que o vídeo com Cláudia foi gravado por várias câmeras e editado ao vivo (isto é, as mudanças de câmera foram feitas durante uma única execução do número). Reveja a cena de Liza e repare os diferentes posicionamentos de câmera, seus vários movimentos e o resultado final. Agora imagine que a coreografia foi repetida várias vezes para diferentes posicionamentos de câmera e que, ao final, tudo – as tomadas, a música, os outros sons (os saltos, as cadeiras, as mãos, os estalos) – foi encaixado para dar a impressão de uma única tomada editada ao vivo. Bob Fosse era ou não O CARA para coreografar e mostrar no cinema um número musical com tanta perfeição?

Não preciso perdoá-lo por Sweet Charity, Fosse. Sou eu que peço perdão. Tem que ser muito competente para se adaptar tão bem e evoluir tanto em tão pouco tempo.

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