Lenny

Dentre minhas manias (ou incapacidades), está a de me deixar levar sem freios pela busca de conhecimento e me aprofundar em um tema mesmo que ele não esteja ou não pareça estar entre meus principais interesses. Funciona mais ou menos como quando começamos a navegar na Internet buscando algo que queríamos e, de repente, percebemos que passamos por dezenas de páginas e nem sabemos como chegamos àquele lugar. Isso acontece comigo de uma forma mais demorada, desde sempre, com livros e filmes. Leio um livro de determinado autor, gosto, quero ler todos dele. “Azar” o meu se ele escreveu dezenas. Vejo um filme e ele me leva a outro, e outros, e à vontade de ver tudo de um diretor ou de um ator. E nada disso garante que, ao final, eu vá me tornar um admirador daquele tema, pessoa ou forma de expressão. É algo meio doentio, eu sei.

Recentemente aconteceu isso com relação a Bob Fosse. Tive que guardar minha má vontade e meu conceito prévio de que o cinema americano destrói tudo de bom de qualquer outro cinema quando resolve fazer sua versão (e é isso mesmo!) para assistir Sweet Charity (1969), baseado em As Noites de Cabíria (1957), de Fellini. Passada a náusea, civilizadamente admiti que, em se tratando de coreografar e levar musicais para o cinema, Bob Fosse era realmente muito bom. Daí bateu a vontade de rever Cabaret (1972) e All That Jazz (1979) – ambos consagrados com dezenas de prêmios, incluindo 12 Oscars – e tudo mais que ele tivesse dirigido. Descobri que foram apenas cinco filmes e que, na verdade, eu só não havia assistido Sweet Charity. Os outros dois – Lenny (1974) e Star 80 (1983) -, também havia visto nos anos 80, mas quase não guardei lembranças. De Lenny, tudo que lembrava era de que tinha sido feito por Dustin Hoffman e que eu havia assistido por isso. Revi e tive um, digamos, déjà vu às avessas.

Tenho percebido que, nos últimos anos, os brasileiros têm se encantado por grandes novidades que nada têm de novas, originais, revolucionárias ou geniais. Daí o endeusamento às “invenções” de Steve Jobs (grande aprimorador e comercializador, nunca um Thomas Edison) e o abestalhamento pelo stand up comedy. Que fique claro: não estou questionando o valor das coisas, mas nossa ignorância e disposição em comprar como novo algo que existe há décadas. Quando a onda do stand up surgiu por aqui, pensei: “Mas José Vasconcelos não fazia isso nos anos 1950?! Por que essa garotada está dando um nome em inglês e dizendo que isso é onda da matriz americana?” José Vasconcelos já fazia isso quando o “grande ídolo” Seinfeld estava nascendo. Ah! É que essa garotada cresceu vendo televisão e sendo educada por séries americanas. Aprendeu que se é bom é porque veio dos Estados Unidos. Talvez por isso, quando Zé Vasconcelos morreu, os jovens jornalistas tenham repetido tanto a bobagem de que “ele ficou famoso na Escolinha do Professor Raimundo”. Em resumo: as coisas parecem novas porque a garotada desconhece completamente a história, mesmo que recente, do próprio país onde vive, só tem memória para o que viu na tevê e só acha bonito se tiver vindo da gringa. Mais culturalmente rendidos, impossível.

Revi Lenny. Trata-se da história de Lenny Bruce, que começou carreira fazendo apresentações do tipo stand up no final dos anos 1940, quando provavelmente nem os pais dessa garotada que se acha genial, engraçada e revolucionária haviam nascido.

Se você não viu e/ou pretende assistir Lenny, saiba que vou fazer um ou outro comentário que pode revelar algo da trama (o tal do spoiler, para você, que foi criado em portuglês). É um drama, filmado em preto e branco (muito sensível e corajoso da parte de Fosse, que abandona seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial), com uma narrativa intercalada em três tempos que se completam e apresentam diferentes olhares sobre a história (nem endeusando nem criticando o personagem, mas mostrando toda a sua humanidade) e com Dustin Hoffman, ainda na casa dos 30, já muito maduro e talentoso (o baixinho da propaganda do Fiat Cinquecento, crianças).

Mas é sobre o tal déjà vu ao contrário que quero falar. Judeu, com barba, fazendo stand up, acusado de ser grosseiro (e sendo mesmo!), tornando-se vítima de suas próprias grosserias… Já viram isso antes, digo, depois (recentemente e aqui perto) de Lenny Bruce?

Antes de continuar, devo dizer que achei uma bobagem enorme toda aquela discussão em torno da “piada de mau gosto” do Rafael Bastos. Mesmo porque não vi qualquer piada. Só um cara grosseiro com uma evidente necessidade de autoafirmação finalmente chegar ao ponto de estampar publicamente sua imbecilidade, limitação, falta de talento e de bom senso para muita gente que ainda não tinha percebido isso. Acho a celeuma idiota porque não sou obrigado a assistir, rir junto, concordar com o “humor” adolescente. Ninguém me tira o poder de escolha. Não gosto, não vejo, não me aborreço. Simples assim.

Mas entendo que, de alguma forma, a discussão possa gerar algo salutar. Rever Lenny agora e ver tantas semelhanças (há diferenças gigantescas também: era outra época, outra sociedade, outros motivos) me fez pensar que a discussão seja mesmo necessária. O que me deixou triste foi perceber que se ela ainda é necessária é porque somos extremamente imaturos para lidar com certos temas, certas atitudes. Discussão sobre liberdade de expressão, censura, sobre o que seja ou não politicamente correto… Se chegamos a um ponto em que agressão gratuita e qualquer bobagem vomitada possam ser confundidos com humor e liberdade de expressão, acho melhor voltarmos para as cavernas porque é lá o nosso lugar. Vamos meter a clava na cabeça dos outros e nas de todos que não rirem disso. Apareceu na tevê é “gênio”, “fantástico”, “sensacional”. Se já disseram o que temos que acreditar e achar, por que fazer o esforço de pensar?

Tenho esperança de que as semelhanças continuem a se repetir e, mesmo com um retardo de mais de meio século, em algum instante percebamos que quase ninguém mais aplaude qualquer idiotice só porque é moda. E que, assim como Lenny, em um lampejo de lucidez, o bobo da vez (qualquer um) admita: “Não sou comediante” e se retire. Mais digno para quem o fizer. Mais fácil para nós, que não teremos que fazer a triste escolha entre o que é menos pior: viver em uma sociedade hipócrita ou em uma sem valores e sem qualquer senso crítico.

A nossa sociedade – a brasileira média –, como vemos hoje, me parece mais com uma de babuínos: um chefe grita, todos os outros gritam também e se mostram prontos a estraçalhar qualquer um que não faça parte do bando. Particularmente, prefiro viver em uma em que, com todas as suas diferenças e gostos variados, as pessoas se respeitem, ajam de forma civilizada e pensem por si mesmas.

Lenny me fez pensar que aquela sociedade hipócrita e moralista dos anos 1950 nos Estados Unidos era bem mais evoluída que a nossa nos dias atuais. Se é para importar algo deles, por que em vez do lixo, não importamos o que eles aprenderam antes de nós? Aprender com a observação dos erros alheios, no mínimo, evita que venhamos a repeti-los.

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Uma resposta a Lenny

  1. Ah, quem me dera escrever como tu! quem me dera ao menos ter mais tempo pra ler tudo que você escreve… definitivamente: o cara!
    Das fotos, ao texto passando evidentemente pelas opiniões, sou seu fã.
    muito agadecido. Não pare de escrever… há um bando de gato pingados ávidos por sua escrita. é um bando pequeno, mas nem por isso precisa ser desemparado.

    Ah, quem me dera acreditar que escrevo bem assim! Eu é que sou fã de quem vem aqui e me paga, desse jeito, pelo que escrevo. A ordem aqui é compartilhar, trocar ideias e informações. Sinta-se sempre em casa, CLÁUDIO.

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