Giulietta e Federico – 68 anos de um amor de cinema

Amor perfeito é aquele que não se realiza. Um amor como o de Romeo e Giulietta, que fica no mundo das ideias, das ilusões, sem ser colocado à prova pela dura realidade, pelo tempo, pelos defeitos crescentes de um e de outro. Este é um pensamento que consola os desiludidos do amor.

Giulietta – não a Capuleto, mas a Masina – pois isso à prova. Na flor da idade, aos 22 anos, em 30 de outubro de 1943, desposou seu Romeo: o jovem Federico, de Rimini. Seria um amor para a vida toda, um amor de cinema.

O Romeo desta Giulietta engordou, dava ordens, queria ver as coisas do jeito que sonhava e era cercado por mulheres lindas, desejadas por homens do mundo todo: Sylvia, Fanny, Gradisca… Mulheres de carnes fartas, sensuais, muito diferentes da pequena Giulietta de pouco mais de metro e meio e cara de alcachofra.

Em 1950, no primeiro mezzo de Federico, ela aparecia como a preterida Melina, apaixonada por um homem que se deixava levar por mulheres e luzes. Melina tinha Amor no nome e a certeza de que ela era o porto seguro, de que ele sempre retornaria. Em 1954, Giuletta era Gelsomina, sempre encantada com qualquer possibilidade, com alguma atenção, algum carinho. A estrada era árdua, mas, àquela altura, o mundo inteiro conheceu e reconheceu que aquela parceria era de cama, mesa e tela. Se alguém ainda duvidava, três anos depois, Cabíria espantou qualquer desconfiança.

Giulietta dos espíritos trouxe cor ao mundo dos sonhos de Federico. A partir dali, ele viveria histórias extraordinárias em um mundo de sátiros. Passaria pelas tentações de Roma, cidade das mulheres, faria de tudo e lembraria cada detalhe. A vida seguiria até que Giulietta deixasse de ser apenas (!) a inspiração escondida. Ressurgiria como Amelia, dançando e sendo conduzida por Pippo-Marcello, alter ego de seu Federico-Romeo.

Em 1993, o casal começou a planejar outra viagem. Giulietta tinha dificuldade para respirar. O coração de Federico não queria mais bater. Sua mente se ausentou, mas seu corpo permaneceu aqui até o casamento completar 50 anos. No dia seguinte, Federico partiu. Giulietta ficou por mais um tempo, mas já não havia muito que fazer aqui. Em menos de cinco meses, tomaria a barca – aquela bem na entrada do Cemitério de Rimini – e se juntaria mais uma vez a seu amor. Hoje, 30 de outubro de 2011, estão completando 68 anos de casados.

Como diria Fellini (ah! era este o sobrenome de Federico): “Não há fim. Não há começo. Existe apenas a infinita paixão da vida.E la nave va…

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2 respostas a Giulietta e Federico – 68 anos de um amor de cinema

  1. Marcia Regina de Macedo disse:

    No momento certo, o Sempre Algo a Dizer iria ressurgir, não tinha dúvidas disso! Lindo texto, linda homenagem.

    Marcia Macedo

  2. vitoria lima disse:

    Sandríssimo,
    Só hoje, 30 de dezembro, me senti com coragem de ler seru post sobre Federico e Giulietta, um casal que me comove às lágrimas. Chorei com Cabíria e também fiquei na estrada…
    Feliz ano novo para você e suas personagens.

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