A última noite de Cabíria

Já não estranho quando me vejo em personagens femininos. Mas ainda me surpreendo quando um que conheço há tanto tempo aparece de forma diferente, sugerindo outras leituras, me apontando um espelho.

Foi assim com Cabíria há algumas noites. O que aquela criatura tão pequena, perdida, sonhadora, acostumada a disfarçar sua delicadeza e sua fragilidade com um jeito grosseiro, disparando impropérios a quem tente se aproximar poderia ter a ver comigo? Tudo.

Uma prostituta acostumada às rudezas da vida, encastelada em um pequeno cômodo, mostrando-se autossuficiente, mas sonhando com outra vida, juntando recursos que nunca são aplicados. Com tantas características em comum, como nunca havia me dado conta de tal semelhança?

Talvez porque precisasse deixar os detalhes de lado e perceber o todo, a trajetória. A cada abertura, para cada momento de disposição em acreditar, uma decepção. A razão ensinando que o caminho não era esse; o coração – burro, cheio de medos – insistindo em tentar mais uma vez. Cabíria sou eu e cada um de nós, ao tentarmos equilibrar razão e emoção, realidade e sonho.

Também foi preciso fechar um ciclo para enxergar Cabíria em mim. Chegar ao ponto em que ela chegou. Sem absolutamente nada, despojada do pouco que havia juntado (e que era seu mundo, sua âncora), ela finalmente se sente livre para tomar outro caminho. As noites de Cabíria – na rua e as da alma – terminam quando ela se vê como no momento do nascimento: sem nada. No rosto, não correm lágrimas. Há apenas uma, fixa, como uma tatuagem para representar e lembrar eternamente todas as dores. Há também um sorriso. Não aqueles fugazes das ilusões, mas um que vai se desenhando aos poucos, nascendo da rispidez do rosto sempre contraído. É um parto. Uma nova vida que aparece depois de muito tempo, de muitas dores, de fortes contrações.

Após o medo inicial, ela implora ao responsável pela última ilusão: “Mate-me! Mate-me! Não quero mais viver!” Não quer mais viver daquele jeito. É necessário morrer para nascer de novo. “Ammazzami! Ammazzami! Non voglio più vivere!

A noite e o frio da alma morrem. Quase arrisco dizer que Cabíria morreu na última (e boa noite) de inverno, e renasceu Maria no primeiro dia da primavera. É assim comigo. Renasço a cada setembro.

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Uma resposta a A última noite de Cabíria

  1. wilson disse:

    O Giggio, um amigo de infãncia,40 anos morando em Nápoles,quando assistiu Notte di Cabiria, definiu-o, em uma carta, da seguinte maneira:
    “(…)É como alguém que entra em um quarto e fecha a porta, mas não tranca. Senta-se e fica à espera. Niguém abre a porta, nenhuma voz chama, ou ninguèm bate à porta. Espera-se na longa espera que desespera. Pela janela, se vê o mundo girando, na sua mesmice de sempre. Espera-se o óbvio, o inesperado. Espera-se algo! Um dia, o cansaço, a decepção se impõem e nos deixa a alternativa: morrer ou abrir a porta e sair para nunca mais voltar, em busca de um lugar, onde as portas nunca se fecham e estão sempre abertas para a vida”.

    E nós somos assim. Cabíria-Fênix, perene,completando mais um ciclo, incendiando-se no fogo das paixões até que não reste nada, apenas cinzas, para renascer novamente, até que se inicie um novo ciclo.
    Cabíria, nós todos, humanos tão humanamente humanos.
    Abração,
    Wilson

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