Necrológio de agosto

Meus amores morrem em agosto. Mês de fortes ventos de contrariedade. Sopram, destroem, levam embora. E se algo restou de um agosto passado, o atual se encarrega de enterrar de novo, novamente e quantas vezes for preciso.

Já existe caso para pensar em comemorar aniversário de morte. Conferir a sepultura, jogar mais cal e terra, reforçar o cimento, rezar pela finada para que fique onde estiver, desde que bem longe. Alma penada, vade retro!

Misturam-se canções de outros agostos, poemas de desgostos…   Um grande amor não acaba assim. Acaba, sim!… O nosso amor a gente inventa… e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu… Não vou mais ficar aqui sem compreender… sei que tudo há de vir no seu devido tempo… Aceito as coisas como devem ser… matando o amor em mim… Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor…. Porque todo coração é burro e o meu é mais.

Na máscara mortuária, de pedra como são todas, não há emoção. Nem mesmo um sorriso para comemorar a efeméride do desamor. Só distância e uma tranquilidade assustadora, dessas de cemitério pós Dia de Finados, quando todos já amenizaram suas culpas com flores. Desamar se aprende desamando. Em face dos últimos, penúltimos e antepenúltimos acontecimentos desses agostos, só resta perguntar e implorar: Quem inventou o amor? Desinventa, por favor!


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3 respostas a Necrológio de agosto

  1. Que lindo! Quando eles renascem?

    A última frase do texto e que resolvi cortar era: Renasço a cada setembro. 😉

  2. Márcia disse:

    E então, vamos ‘beber o morto’, como no interior da Bahia dos tempos de Antanho? Em pleno inferno astral (meu). E com sorrisos, sim, “para comemorar a efeméride do desamor”.

    bjim

  3. wilson disse:

    Ventos de agosto, carpideiras soprando lamentos através da boca de uma máscara de tragédia grega.
    Chuvas de agosto, lágrimas de luto chorando a vida.
    Sol de agosto,um patriarca judeu,coberto de cinzas,lamentando o que Deus lhe deu e depois tirou…
    Agosto, Perséfone preparando-se para deixar o Hades e transmutar-se em Primavera.
    Amores de Agosto, amores perdidos, amores vadios…Vazios. Amores tensos, intensos!Sonhos feitos-desfeitos;amor-amoral, moral, imoral.
    Amores,ardores de Agosto,saudade dos amores vividos, perdidos, iludidos, desiludidos… Saudade de Agosto, nostalgia dos amores que se foram e a incerteza dos amores que virão…
    Na sonolência de Agosto,a vida lentamente vai abrindo os olhos para a incerteza da certeza de dias melhores que virão…
    Agosto, a ansiedade esperando pela Primavera.
    Agosto, desgosto.Tempo de deixar dormir os amores perdidos,dar flores à suas sepulturas e sair para celebrar a vida.
    Abração,ção,ção!
    Wilson

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