Carta ao meu pequeno Hemingway

Meu pequeno Hemingway,

É com as bênçãos do menino de Itabira que inicio esta carta de presente e principalmente de futuro, pois você viverá uma riqueza de anos e, talvez, ela guarde alguns bons conselhos a serem usados no tempo certo.

Você foi o terceiro, mas também foi o primeiro. Ganhou um pai mais velho e mais experiente. Lembre de agradecer às suas irmãs por terem sido boas cobaias. Você pegou um paí – como chama a todo instante – mais paciente, compreensivo e sem exigências além de boa educação e bom caráter. Já não tenho aqueles pensamentos bobos de “meu filho vai ser assim”, “meu filho vai ser isso”. Poderia ser uma carga enorme para você, único homem e última esperança. Mas não será. Prometo e firmo compromisso público. Tendo bom coração e sendo honesto, tudo que você fizer será bem feito. E terá meu apoio.

Com seu nome, você pode ser o que quiser: rei, papa, escritor e até poeta (basta usar o Castro Alves do final). Se escolher este último, por favor, exerça-o com rigor e não como os que vemos hoje por aí, a rimar, feijão com macarrão, sem métrica ou dor, fingindo talento. Inspire-se nos grandes, ouça seu coração e siga em frente.

Esta semana, você, sempre cheio de energia e disposto a pular sobre todas as coisas, dispensou um raro dia de sol deste julho ao ser convidado a ir ao parque.  “Vamos, mas vou levar um livro, uma revista e um caderno de anotações”, respondeu, sem tirar os olhos da mesa repleta de papéis. Com o pai e a mãe que o destino lhe arranjou, isso não chega a ser uma surpresa. Sua sorte é que você vai poder ler e escrever à vontade sem que ninguém ao seu redor ache estranho. Acredite: eu era visto como “uma criança estranha” por conta disso. Você não imagina o que é ouvir algo como: “Quer ser escritor? Que bonitinho! E profissionalmente?” Este é um mundo estranho, cheio de pessoas estranhas. E este no qual você desembarcou é ainda mais que aquele que conheci em meus primeiros anos. Se a coisa continuar involuindo desse jeito, você vai viver entre símios que eventualmente usam roupas. Não se preocupe. Construiremos uma fortaleza com nossos livros. Lutaremos até o fim pelo direito de ser um humano que pensa.

Vá anotando tudo em seus caderninhos. Todas as ideias. Elas fogem fácil. São ainda mais volúveis que as pessoas que escrevem. Se não cuidamos delas, logo se entregam a outro. O segredo para lidar com elas é o mesmo para lidar com pessoas: seja dedicado, atencioso, demonstre seu carinho, vez por outra faça vista grossa às imperfeições delas, não espere nada em troca e não desista se lhe trouxerem algumas decepções. Se você acredita nelas, fique firme. Em algum momento, o relacionamento renderá belos frutos.

Sabe o que você estava anotando neste momento da foto? Que eu estava chato porque não queria largar sua mão enquanto andávamos na rua. O sentido desse registro mudará com o tempo. A chatice de hoje será vista como cuidado, proteção, e você fará o mesmo com seu filho. E vai achar graça, às escondidas, quando ele disser que você está chato.

Anote também as respostas às perguntas que me faz. Hoje, funciona assim: você pergunta, eu respondo, você se admira. “Como é que você sabe?!”. Eu: “Pai serve para isso.” Você: “Para saber tudo?” Sorrio, dou uma piscada de olho e o deixo acreditar que sim. Desta forma, você vai ficando certo de que sou um porto seguro e de que existe algum lugar onde é possível encontrar todas as respostas. Um dia, vai descobrir que eu sabia muito pouco e que o tal lugar é dentro de você mesmo.

E sobre acreditar, saiba que tudo existe. “Mas isso existe?”, você pergunta. Tudo que quisermos que exista, existe. As pessoas vão tentar fazer com que você acredite no contrário. Não caia nessa. Os sem imaginação só conseguem acreditar que não se deve acreditar.  E por isso o mundo anda do jeito que está. Mas, acredite, tudo pode ser melhor. Muito melhor. Quem escreve cria mundos. Como você quer que seja o seu?

Preciso terminar. Seu eu presente está passando um carrinho em minhas costas e me chamando para brincar. Você ainda é uma criança e sabe exercer muito bem os benefícios da infância.  Quanto ao futuro – sobre o qual você pergunta a toda hora –, não se preocupe. Deixe isso comigo. Viva sempre o presente. Ocupe-se dele e qualquer futuro que você imaginar, realmente existirá.

Beijo. Eu te amo. Boa noite. Bons sonhos.

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4 respostas a Carta ao meu pequeno Hemingway

  1. Que bonito, Lobão!

  2. pô, cara. fui ler isso, enquanto meu filho está viajando com minha mulher – já há uma semana fora – e quase chorei de saudade.

    qdo criança, tb era o diferente. uma dia, qdo tinha uns 13 anos, estava lendo pra minha mãe um conto que escrevi, e qdo vi ela tava rindo. ela disse “acho engraçado vc escrever essas coisas”. e nem era humor (ainda). brabo. demorou pra ela entender que escrever seria meu ganha-pão. e agora, já ganha-brioches.

    abs!

  3. Aninha D'Aguiar disse:

    Belo, adorei!

  4. pedro vilarim disse:

    Da distância, sem conhecer o homem, só o autor, arrisco: É ‘afortunado’ pelo pai que tem, o rapazinho. Adorei o registro da prosódia especial deles pra papai. O meu usa ‘papaíí’. Só dorme apertando minha orelha. Me reprime quando falo palavrão no trânsito. Pede ‘beijo pra sarar’ sempre que se machuca. Me sinto com super poderes: dou o beijo e ele para de chorar na hora. Sei que é só manha e logo vamos ter que dar um fim nisso, mas por enquanto é muito gostoso. É bem difícil isso de ser pai, mas tem feito de mim uma pessoa muito melhor. Abraços.

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