Quase pretos ou quase brancos

Ontem, comecei a escrever uma série de textos que mostra o peso do fotojornalismo na construção e no fortalecimento da cultura americana e como os brasileiros, que adoram imitar os americanos, não conseguiram fazer algo parecido. O texto já ia na oitava página e parei na análise de duas fotos da primeira edição da Life, de novembro de 1936, que mostravam a mistura de raças no Brasil.

Vejam as fotos, as legendas (traduzidas) e parte do meu texto.

Civilização é o nome que os brasileiros dão a esta escultura de um homem e uma mulher negróides, para uma nova raça brasileira que está emergindo dos portugueses misturados com negros e índios. (…) A despeito da estátua, os cidadãos do Rio, auto-intitulados cariocas, são predominantemente brancos. Mas muitos aristocratas brancos do Rio têm parentes pretos e, no negróide Norte do Brasil, uma gota de sangue branco faz um homem “branco”.

O homem com o chapéu preto (centro) é considerado praticamente branco no Brasil. Sua companhia na dança do subúrbio da Penha, no Rio, é muito mais clara, definitivamente com características europeias. Ela é uma mulher branca, acolhida e alegremente desposada por um homem “praticamente branco”. O jovem com casaco cinza e calça branca tem uma boa mistura de sangue indígena e português. Todos estes são mais claros que o homem branco do Norte do Brasil. Todos os negros brasileiros votam e vivem em termos de igualdade legal com os homens brancos puros.

Hoje, pela manhã, me deparo com a seguinte notícia no site da Veja:

Professor é acusado de mandar aluno africano clarear a cor

A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) solicitou a abertura de um processo administrativo disciplinar para apurar as denúncias de racismo contra um professor da instituição. Alunos do curso de Engenharia Química apontaram atos de discriminação do professor José Cloves Verde Saraiva contra o aluno africano Nuhu Ayuba, inscrito na disciplina Cálculo Vetorial. Saraiva já pediu desculpas e disse que a situação foi um mal-entendido.

Uma cópia da denúncia foi entregue ao Ministério Público Federal. “Informamos que o professor Cloves Saraiva vem sistematicamente agredindo nosso colega de turma Nuhu Ayuba, humilhando-o na frente de todos”, afirmaram os alunos na petição pública. Segundo os estudantes, o professor teria dito que Ayuba “deveria voltar à África e clarear a sua cor”.

Brasil, 1936, visto pelos americanos. Brasil, 2011, visto por nós mesmos.

O último parágrafo que escrevi ontem dizia o seguinte:

Independente da época e do contexto, preconceito racial (e por qualquer tipo de diferença) é uma estupidez indesculpável. No entanto, 75 anos depois, sendo brasileiro (portanto, vira-lata), vejo a legenda e a foto como o documento de uma época em que o Brasil buscava uma identidade racial, social, e não tinha o preconceito típico do americano. Esquecendo um pouco os comentários racistas, a foto é maravilhosa, não? Dispensa qualquer legenda ou interpretação. Retrata a verdadeira mistura que forma nosso povo e sua alegre convivência. Pelo menos nesse ponto, tínhamos tudo para sermos superiores, mais civilizados. Pena que, até nisso, o brasileiro tenha se americanizado.

Se a Ku Klux Klan aceitasse caboclos, esses brasileiros praticamente negros que se acham brancos poderiam ter seu clubinho.  Acho bem merecido quando esse tipo babaca de brasileiro é maltratado no exterior e se sente colocado no lugar onde todo racista deveria estar: abaixo de qualquer outro ser humano. Só lamento que, mesmo assim, não aprendam.  Seres desse tipo nunca aprendem. Nunca viram gente.

* * * * * * * *

DICA do mano BUCA DANTAS: Quase brancos, quase negros

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2 respostas a Quase pretos ou quase brancos

  1. CLáudio disse:

    Valeu Sandro.
    Sou seu fã, minha cor é marrom-bom-bom, mas eu sou negro, porque gosto
    da idéia. Afirmação identitária…[blá, blá…]

    Queria ver no Memória Viva, alguma coisa sobre Carolina de Jesus e Sobre Lélia Gonzales;[blá, blá].. Queria ver também algo sobre o João Cândido…[blá, blá, blá…]

    Se tem alguém que pode fazer isso e eu confio é você, em segundo lugar vem o Mino Carta…heheheh

    um abraço – do seu fã menor e [não]mais esquecido…

    Como lhe disse por e-mail, esse lance do “em segundo lugar vem o Mino Carta” me fez ganhar o mês. Grande abraço. 😀

  2. wilson disse:

    “Da cor do azeviche… Da jabuticaba”…
    E por aí vai. E tem muito branco com pinta na testa!
    E os rótulos se avolumam no processo civilizatório brasileiro: Brancos, pretos, mestiços, cafuzos, pardos, etc.Houve um tempo em que haviam os preto-africanos e os pretos-crioulos…
    A coisa é antiga. Pedro II, resolve “branquear” o Brasil. Começa a imigração “civilizadora” européia que traria a estes Brasís os elementos culturais a nos colocar em pé de igualdade frente a “inteligenza” do velhos continente.E não permitiu a imigração dos “perniciosos elementos da raça amarella” (chineses)!
    E o Brasil, branco da silva liberta os escravos e dá-lhes um pé na bunda.De escravos a cidadão de segunda linha foi um passo. E como prêmio pelos anos de “usos e abusos” lhes dão a marginalidade.
    Gostem ou não, o Brasil é mestiço!
    Os portuguêses prazeirosamente se miscigenavam. Os franceses faziam amor. Os inglêses respeitavam, só não eram a favor da miscigenação.
    Mas, um belo dia, o Brasil-brasileiro volta-se para a América e, então, nasce a forma de preconceito mais vil contra os negros e mestiços.
    Um dia, a mesma América diz que “preto é lindo” e tudo muda.
    Só não muda a verdade do Brasil que foi, é, e será sempre mestiço,mulato.
    E quem não gostar, ou tiver preconceito que se mude para Marte.
    Preto é lindo? Branco é lindo? Não sei! Só sei que o ser humano é lindo em todas as suas cores.
    Só não gosto de uma coisa. É que eu, o branquelo, não posso chamar o meu amigo de negão e ele, o negão não pode me chamar de branquelo em público…
    Agora somos: Ele, Afro descendente e eu, Euro descendente…
    É uma merda!
    E o processo civilizatório segue neste Brasil brasileiro que é mestiço é mulato inzoneiro. Quem sabe, o tempo dirá, um dia esses mulatos inzoneiros (itriguistas) nos vejam, brancos e negros, com olhares preconceituosos?…
    Neste Brasil lindo e trigueiro, logo seremos – branco e negros, uma minoria. E minorias são vulneráveis…

    Abração,

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