Enfim, um diagnóstico

Um mês inteiro indo a médicos para finalmente ter um diagnóstico: Endometrite clamidial em estágio avançado. É uma infecção tratável, mas que pode ser fatal. Eu poderia ter me assustado ao ouvir isso de um médico, até porque para ter essa doença, eu precisaria ter um útero. Mas o susto e a surpresa foram praticamente os mesmos quando o médico disse que tenho… algo que você vai saber mais adiante.

Vou pedir sua paciência para explicar como cheguei a este ponto e garanto que, em algum instante, você vai se identificar com o que vou dizer por já ter passado pela mesma experiência. Se não, garanto de novo, um dia irá passar e lembrará deste texto.

Eu não gosto de médicos. A frase precisa ser dita assim, começando com um enfático “Eu” e dando margem à generalização (estúpida como são todas). Minhas primeiras lembranças de idas ao médico vêm da infância. Eu fazia uma enjoativa viagem de ônibus do Méier ao bairro da Saúde, no Rio, para ir ao trabalho do meu pai, no Moinho Fluminense, para consultas com o Dr. Pedro. Não sei dizer se ele era clínico geral, médico do trabalho, pediatra ou tudo isso. Só sei que ele era um “médico clássico”, desses que fazem o paciente sentar, auscultam peito e costas, conferem boca, olhos e nariz, testam reflexos, dão batidinha com o dedo no abdômen, perguntam o que a pessoa está sentido, prescrevem uma receita e dizem que a gente se vê de novo dali a alguns dias. Dr. Pedro me assustava um pouco. Um homem de seus 60 anos, cabelos brancos, voz grave, olhar inquisidor lançado por cima dos óculos… Tudo isso parecia bem assustador para meus 5, 6 anos de idade. Além disso, da sala de espera ao consultório, tudo era absolutamente branco, inclusive o longo corredor vazio entre um e outro, que me dava a impressão de estar sendo levado a um local de torturas.

Eu não gosto de médicos. Aos 18 anos, já sem as fantasias infantis, me deparei com um extremamente arrogante, dono da verdade, do poder de vida e de morte, uma criatura aparentemente sem qualquer respeito por outro ser humano que não fosse ele mesmo, que tratava as pessoas como pedaços de carne que ele sabia consertar melhor que qualquer outro. Em dez dias, vi essa criatura mudando seu comportamento. Inicialmente, ele desprezava e gritava com enfermeiros e parentes de paciente, sempre estava certo e com absoluto controle de tudo. Nada estava além de seus conhecimentos. Quando minha esposa – aos 19 anos – tratada por uma equipe chefiada por ele, entrou em coma e todos os médicos sabiam que ela não sobreviveria por mais de 48 horas, a voz dele tomou outro tom, um volume bem mais baixo e o olhar deixava claro que ele não tinha a mínima ideia dos motivos daquele quadro. O deus falhou e não entendia o porquê. Pobre deus!

Eu não gosto de médicos. Para quem não conhece a anedota, aí vai: Sabe qual é a diferença entre médicos e jornalistas? O médico acha que é Deus, o jornalista tem certeza que é. Eles, os médicos, acham que podem vencer a morte. Nós, jornalistas, temos certeza que somos imortais, onipotentes e que podemos mudar o mundo. Portanto, arrogância por arrogância, a escola que frequentei me deixou bem mais gabaritado que qualquer médico.

Eu não gosto de remédios. Não gosto de qualquer tipo de droga – lícita ou não –, porque gosto de ter controle do meu corpo e da minha mente. Em relação aos remédios, tenho repulsa ainda maior por entender que tomá-los é uma questão de fé: preciso acreditar no médico que o receita, preciso acreditar em que o fabrica, preciso acreditar em quem vende… Para mim, é fé demais e isso não me cheira bem. Sou daqueles que quando sentem uma dor preferem deitar e esperar passar.  Se tenho febre, tomo banho frio. Se chego a tomar uma aspirina é porque devo estar com a cabeça estourando há dias e se tomo qualquer outra coisa é provável que alguém tenha quase me obrigado a isso.

Até o início deste mês de maio, eu havia passado 15 anos sem ir a um médico. Se não tive algo neste período? Tive. Uma besteira ou outra que passava com cama, descanso ou, em “casos extremos”, com algum remédio já conhecido. Por apenas duas vezes, nos dois últimos anos, recorri à “minha pediatra”. Na primeira, no final de 2009, por uma bola de ping-pong cheia de pus ter crescido na minha testa. Na segunda, há alguns meses, quando depois de duas semanas de cama e muita dor, finalmente me rendi e liguei para ela. Nesta última, diga-se, os exames que muito sabiamente ela solicitou, eu nem fiz. Minha tendência é sempre minimizar, deixar para lá, esperar que o próprio corpo se cure. Aquela coisa típica de homem que não se cuida. Admito minha estupidez em pensar que não tenho tempo para me preocupar com isso.

Um dos meus orgulhos é nunca ter feito uma operação, pelo menos não uma que necessitasse de anestesia geral e abrir o corpo. E eu gostaria muito de chegar ao fim da vida sem jamais ter precisado disso. Acho medieval e extremamente brutal ter que abrir o corpo para curá-lo. Considero absurda qualquer cirurgia movida por vaidade. Só entraria na faca se me convencessem de que seria a única maneira para curar algo muito grave. Só mesmo correndo risco de morte.

Um último traço para entender algo da minha personalidade e sobre minha afinidade com o ambiente médico-hospitalar. Lembro de, em 2005, ter tentado assistir um ou dois episódios de House. Era a primeira temporada. Não consegui. Nunca mais quis ver. Sempre ouvi muitos elogios à série e, sobretudo no ano passado, muita gente insistia para que eu fizesse nova tentativa, pois viam muitas semelhanças entre a minha personalidade e a do personagem principal (isolamento, descrença nos relacionamentos, constante análise comportamental quando obrigado a lidar com alguém e a total falta de surpresas quanto a isso, o sarcasmo…). Resolvi assistir. Tive grande dificuldade em atravessar as duas primeiras temporadas. A série é ótima, tem um excelente protagonista, ótimos atores, é bem dirigida, etc, mas um, somente um único e maldito motivo me desagradava profundamente e quase me fez desistir outra vez: a parte médica. Diagnósticos, convulsões, vômitos, desmaios, operações… Não tenho qualquer interesse por essas coisas. E quem me conhece um pouco mais, sabe da minha resistência em lidar – e perder tempo – com qualquer coisa que considere desagradável. Séries médicas, para mim, são bem desagradáveis. Assim como as policias. Não me interesso por tiros, barulho, violência. Também não me interesso por sangue, gente passando mal, doenças, operações, corpos abertos .

Chegamos ao meu diagnóstico, aquele que omiti no primeiro parágrafo. Depois deste histórico, de todo este relato, creio que ninguém duvida que prefiro ir ao inferno e enfrentar o cão do que ir a um hospital e lidar com um médico. Sabendo de tudo isso, você diria que sou… hipocondríaco? Pois foi esse o “diagnóstico” que recebi hoje.

Eu, Sandro Fortunato, me encontrando em uso e gozo de minhas faculdades mentais, livre de qualquer sugestão, induzimento ou caução, declaro para todos os fins que caso venha a desenvolver algum receio mórbido por minha saúde, associado a alguma doença imaginária, que gostaria também de ser tratado por um médico imaginário em um hospital imaginário tomando remédios imaginários.

Já contei aqui que na segunda crise renal que tive, há uns 15 anos, avancei pelos corredores do hospital, com aquela roupa que nem sei o nome, arrastando o soro e exigindo minha saída? E de lá, fui para o bar. Cerveja é o meu remédio.

Pois, então… uma ida de uns 5 minutos ao médico, um retorno para mostrar exames – todos ótimos, sou saudável, muito obrigado! – e escuto essa: “Você tem uma personalidade hipocondríaca.” Eu quis rir. Gargalhar nervosamente. Mas, diferente do médico, estou acostumado a lidar com gente e a ver o todo. Acredito saber os motivos de ele ter dito isso e é agora que você deve ficar mais atento. É a partir daqui que você vai começar a se identificar ou guardar a lembrança para se identificar no futuro, quando tiver uma experiência parecida.

Em alguns ofícios, é preciso saber ler pessoas. Eu, por exemplo, lido com memórias e depoimentos. Não posso acreditar apenas no que ouço. Às vezes, uma pessoa fala muito bem de alguém, mas, ao mesmo tempo, o corpo dá vários sinais de que aquilo não é verdade, de que ela NÃO está pensando aquilo. Preciso ficar atento a tudo que ela me diz e a esses sinais. Mais tarde, vou exigir uma contraprova e, invariavelmente, a verdade aparece. Se eu apenas acreditasse em uma coisa ou outra, meu “diagnóstico” seria falho. House, o médico da ficção, lembra o tempo inteiro: TODO MUNDO MENTE. Mesmo sem querer, mesmo sem saber ou perceber. Quem lida com seres humanos – médicos, psicólogos, jornalistas, escritores, biógrafos… – precisa saber ler todos os idiomas que uma pessoa fala. A superficialidade do jornalismo atual, assim como a superficialidade do diagnóstico médico atual (que é tema central deste texto), começa em não se saber fazer adequadamente tais leituras, em não dar atenção a todas as informações que chegam.

Eis os erros de leitura – ou as leituras superficiais – desta história… Na primeira consulta, que fui por ter sido encaminhado pela Clínica Geral, foi constatado que eu não tinha qualquer alteração naquela área. Por mim, nem teria procurado tal especialista. Mas fiz questão de dizer a ele que não ia a médicos há uma década e meia e que, por conta das dores lombares, havia decidido fazer um check-up (guarde esta palavra: check-up). Fui dispensado e convidado a voltar com exames de sangue para ver se eles mostravam algo. Nada. Niente. Rien de rien. Surpresa alguma para mim. Vegetariano há quase 20 anos, evito comida industrializada, nunca fumei, não uso drogas, só bebo cerveja e cada vez menos… Por que alguma coisa estaria alterada? Mas é o exame mais básico que um médico vai pedir. É uma fonte de informação importante. Tudo visto, escuto a tal sentença: “Já tinha percebido: você tem uma personalidade hipocondríaca.

Até acredito que alguém que “não tem nada e está procurando” – o que definitivamente não é  o meu caso – possa ter “uma personalidade hipocondríaca”. Mas acho que algo mais no meu comportamento e algo que eu disse, fizeram o médico achar isso. Primeiro: perguntei o que deveria dizer à Clínica geral, já que ela havia pedido que eu fosse a ele. Nada. Que estou ótimo. Ok. Segundo: comentei que me impressionava a inexistência de histórico médico no Brasil e da falta de comunicação (minha área) e, portanto, de troca de conhecimento, entre médicos de uma mesma pessoa. Terceiro – e aí vem a confissão do meu pecado mortal: toda vez que chego para uma consulta, levo tudo anotado para não esquecer nada, não omitir, não mentir sem querer e, agindo assim, facilitar o trabalho do médico, dando a ele todas as informações que eu tiver. Da mesma forma, tudo que o médico diz, eu anoto: pressão, comentários sobre um sintoma, sugestão, nome da alteração, nome de exames, de remédio, etc. Um exemplo: esta semana, tive dois sinais removidos. Perguntei ao médico que tipos de sinais eram. Anotei.  Se daqui a 20 anos eu tiver algo parecido ou se um filho meu apresentar algo assim, onde quer que esteja, seja quem for que o médico, vou saber dizer a ele: “Já tive isso.

Minha caderneta de anotações parece ter incomodado terrivelmente. E imagino mesmo que possa ter parecido algo doentio, coisa de hipocondríaco. Também tenho certeza que os outros médicos QUE ME PERGUNTARAMO que você faz?”, mesmo sendo algo diferente do mundo deles, não se assustaram com esse comportamento. Afinal, tudo que faço na vida é escrever. Anoto ideias, anoto informações, levo isso de um lugar para outro, consulto o que foi anotado, escrevo, escrevo, escrevo… Sintoma de algo estranho, de alguma alteração, seria se eu NÃO fizesse isso.

Insisto no comentário sobre a necessidade da existência de um histórico – coisa básica, comum em qualquer país desenvolvido – e ouço a sentença definitiva sobre a nossa triste cultura: “No Brasil, nós temos uma medicina mais curativa.” Ou seja, aqui, o lance é adoecer para curar. Afinal, este é o ganha-pão dos médicos, não? NÃO. Eu teria muito mais prazer – e talvez me tornasse hipocondríaco, marcando muitas e muitas consultas – se os médicos usassem seus conhecimentos para jamais deixar que eu adoecesse, se a medicina fosse PREVENTIVA, como em qualquer país desenvolvido e civilizado. Isto é melhor e mais barato para quase todo mundo. Eu disse “barato”? Pois é… em uma cultura em que se vende a cura, barato não é uma coisa bem vista por quem comercializa o produto.

Dois pontos interessantes: 1) quando estava para começar esse check-up (lembra da palavra? típica de medicina preventiva; você confere se está tudo bem para não adoecer), comentei com uma amiga que isso poderia ser muito útil para mim, para que eu aprendesse a confiar mais nas pessoas. Como, pelo meu histórico, médicos seriam as últimas pessoas em quem eu confiaria, isso seria uma prova e tanto! 2) sempre tive tendência, em quase todas as áreas, a procurar profissionais mais experientes, com mais tempo de ofício. Pois tenho me surpreendido com os médicos mais jovens, que OUVEM, dão respostas, explicam e evitam prescrever remédios. Só para lembrar: o hipocondríaco aqui detesta remédios.

Essa tentativa de relacionamento não poderia mesmo dar certo. Sou saudável e os médicos não se interessam por mim.  E eu não me interesso por uma medicina que não se interessa por mim, que não me quer saudável.

Da sala de espera (aqui e aqui), passei para dentro dos consultórios. Na sequência, virão outros textos com minhas observações sobre a prática médica (passei por nove especialistas este mês). Sobre o que não gostei de ver e experimentar, vou falar sem dar nomes. Sobre o que gostei, farei questão de nomear os responsáveis. Até lá, comentem sobre suas experiências.

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Texto relacionado
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Sugestão de leitura
Consolar sempre

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6 respostas a Enfim, um diagnóstico

  1. Sendo médica, embora não clinique, foi uma diversão ler o seu relato…
    Venha aqui que eu sem pedir qualquer exame lhe acho pelo menos dez doenças – se for indispensável para sua felicidade. (hahaha)

    ► Muito satisfeito com minha estupofobia crônica e incurável. Dispenso todo o resto. 😉

  2. Meire disse:

    Sandro,

    Esse fragmento “Sou saudável e os médicos não se interessam por mim. E eu não me interesso por uma medicina que não se interessa por mim, que não me quer saudável” sintetizou bem um dos maiores erros na abordagem de pacientes.

    A Medicina tende a rotular e dar diagnósticos para tudo e até ‘psiquiatrizar’ comportamentos que apenas diferem da média porque existe uma necessidade de se formular um diagnóstico, como que se sem um o trabalho fosse nulo ou sem sentido. O diagnóstico é o gol. É bem descrito que pacientes com quadros de diagnóstico difícil ou com complicações crônicas são mais facilmente rejeitados pelos médicos e muitos são rotulados como ‘poliqueixosos’.

    Um médico que adoro e para o qual confiaria a minha vida certa vez me disse: ‘não sei o que fazer quando o paciente não tem nada, só sei abordar doentes’. Ele deixou claro que não sabe nem gosta de medicina preventiva justamente em um dia no qual fui ao seu consultório só dar uma geral. Hoje sei que só devo procurá-lo se um dia adoecer. Hoje em dia os médicos mais preparados para uma medicina preventiva são os pediatras e os geriatras.

    E como este colega, há outros, muitos outros, por pura falha do sistema educacional. A visão de prevenção de doenças que foi aplicada em toda minha época de médica assistente não foi dada pelo curso de Medicina, foi algo que desenvolvi por interesse pessoal , por aprendizagem extracurricular mesmo e o que faço sempre que posso, mesmo hoje em dia trabalhando com medicina legal.

    Deus?

    No geral, e isto posso afirmar como médica, o médico não se sente um deus, ele que é posto e visto como um deus e a todo tempo tenta fugir disso, sobretudo com o passar dos anos. Cada pessoa exige daquele mesmo médico um comportamento que para ela é o ideal, coisa que é queixa comum entre médicos.

    Apesar de sempre ter sido receptiva e buscado ser atenta, com certeza muitos pacientes que passaram por mim acharam que eu me via com um deus, quando de fato nunca me vi desta forma, apenas não me comportei da forma como elas esperavam. Lembro de um dia em que estava numa festa, rindo e me divertindo e encontrei com uma paciente. Ela ficou estupefacta, ‘doutora, a senhora aqui?? como é que pode???’ como se o médico não fosse uma pessoa como qualquer outra.

    Mas e sobre a relação?

    Um médico sisudo pode ser o deus de uma pessoa e o demônio para outra, e o mesmo pode ocorrer com um médico mais atencioso. Muitos médicos que são mais emotivos acabam sendo criticados porque passam uma imagem frágil e possivelmente isso me tirou muitos pacientes porque nunca deixei de chorar na frente do paciente ou abraçá-lo quando eu estava sofrendo e não havia outra forma de consolar-nos, mesmo sendo sempre muito segura em minhas conclusões.

    Não tem escapatória. Lembro do dia em que sai a esmo depois de um plantão e chorei por uma hora sem parar depois que uma paciente com o filho em parada cardíaca disse: ‘abaixo de deus só a senhora pode devolver a vida ao meu filho’. E ele já estava morto. Eu fiquei paralisada, sem saber o que falar. São coisas assim que fazem o médico vestir uma capa impenetrável, porque é muito, mas muito ruim receber esse tipo de cobrança, quando o médico nada mais é que um técnico que deve buscar aplicar o conhecimento científico em benefício do paciente, só isso, nadíssima além.

    Uma relação médico-paciente boa é uma construção que em pouco difere da relação amigo-amigo, namorado-namorada: ela até começa com a impressão inicial mas só se fortalece e resiste melhor aos embates de discurso com o tempo.

    Como conheço você há eras, o que sugiro é que antes de mais nada busque deletar a imagem negativa da figura do médico e estabelecer uma relação positiva com um clínico. Ninguém acha melhores amigos em cada esquina, eles são raros e o mesmo acontece com bons médicos: a relação só amadurece com o tempo. No geral pessoas que mais se queixam de médicos são justamente as que não tem vínculos ou quando os vínculos são precários, como os que ocorrem em pronto-atendimentos ou em locais onde a rotatividade de profissionais é muito grande. Isso aliado aos problemas de excesso de trabalho, falhas na formação do médico, questões culturais e outras pontuações que não cabem aqui, garante relações ruins, e relações ruins resultam em diagnósticos ruins.

    Quando o médico é visto como um ser humano e não como uma máquina ou um deus e quando este mesmo médico vê o paciente como um todo e não como um sintoma isolado, tudo dá certo, mesmo que uma doença não seja diagnosticada e mesmo quando não exista cura. Simplesmente funciona.

    Um bom exemplo desta construção foi justamente o que ocorreu quando você pisou no meu consultório pela primeira vez com sua filha, sempre meio desconfiado e pisando em ovos, até ser convencido de que poderia confiar. Bons médicos são raros porque cada médico só é bom para algumas pessoas.

    PS.: Eu te amo 😉


    ► Tô sentindo que isso vai virar um compêndio… A partir da sua resposta, eu já poderia dar prosseguimento ao tema ou abordar vários outros, mas vou tentar me ater a alguns pontos e comentar rapidamente.

    Ah! Para quem não sabe ou não percebeu, esta é a minha pediatra. 🙂

    Meiroca, suas considerações são muito bem-vindas e extremamente esclarecedoras. Obrigado! Sobre o lance de ser portar como um deus, entendo que falou por você. Você sabe que o comportamento de muitos médicos é exatamente assim: “estou acima dos mortais, tenho poder de vida e morte, nenhuma criatura sabe mais que eu”. Aliás, um comportamento muito comum em certas gerações de médicos.

    Mas vamos ao ponto mais interessante dessa história: o relacionamento. Eu sou iconoclasta até a medula. Então, para mim, pode ser médico, juiz, desembargador, presidente, papa… se “vai ao banheiro”, é humano igualzinho a qualquer outro. Eu mesmo não exijo superpoderes de ninguém. Só espero que a pessoa saiba fazer direito aquilo a que se propõe. No caso de um médico, não apenas curar, mas entender a pessoa como um todo.

    Isso da emoção… bem… eu sou mais controlado, mais racional e prefiro lidar com gente assim. Acho que funciono melhor com gente assim. Desde pequeno, sempre detestei as italianadas em casa. Emoção, para mim, é algo muito especial e resguardado para poucas pessoas, poucos instantes. (Se eu começar a falar o que penso de jornalista que se emociona… deixa pra lá).

    O lance de pediatras e geriatras serem mais ligados à medicina preventiva é facilmente observável. Não tenho uma queixa sobre pediatras (três filhos, três cidades diferentes). E olha que a exigência no cuidado com filhos é sempre maior. Mas vamos combinar: alguém resolver trabalhar com crianças e não ser atencioso, cuidadoso… é fracasso na certa!

    Suas considerações finais foram realmente didáticas. Estou bem obediente (você sabe que sou obediente… ou não) e fazendo isso: estou aberto, procurando, tentando estabelecer um bom relacionamento, ter confiança… E é verdade: tem médico que funciona para uns pacientes e não para outros. Por isso nunca digo que “fulano não presta”. Digo do que não gostei, do que “não bateu” comigo e pronto. E não insisto no relacionamento.

    Eu era desconfiado com você?! Putz! Se dez anos atrás eu era desconfiado, imagine agora! 😀

    E pare de dizer que me ama assim publicamente. Podem acabar acreditando.

    Também te amo, Feia!

  3. wilson disse:

    Uma frase simples: MÉDICO, CURA A TI MESMO!… OU NÃO!
    Entre os hospitais DAS CLÍNICAS, SANTA CASA da vida – eu ficaria (digo ficaria porque não existem mais) com os velhos clínicos de família que, do nascimento ao óbito, sabiam de toda a nossa vida.E o “meu” Dr. Jonas sempre sabia se era o meu corpo ou a minha alma que estava doente.
    Claro que sabia muito bem identificar os maníacos por doenças; os hipocondríacos sugestionáveis e os doentes sedentos por chamar a atenção sobre si mesmo. Mesmo assim classificava a todos como doentes da alma.
    E que coisa boa era o Clínico de família! Eram médicos, psicólogos, sacerdotes, pai. Tudo isso e mais as qualidades de uma MÃE que sempre zela pelos filhos.
    Será que ainda existem esses Drs. Jonas neste mundo?…
    Abração,
    Wilson


    ► Wilson, com suas lembranças e conhecimentos, é coautor deste blog. Sempre tem algo a complementar. 😉

    Quando foi que nossos médicos desaprenderam isso? “Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes e consolar sempre“, como bem lembrou Clotilde Tavares em seu (recomendadíssimo) texto Consolar sempre. Quando desaprenderam a ser mais que máquinas de costura e passadores de remédios?

  4. Fabio Mantoanelli disse:

    Sandro, seu hiponcondríaco, hehe.

    Eu moro em Chicago, um lugar onde o sistema médico funciona um pouco melhor do que no Brasil. Um pouco.

    Se você possui seguro médico, sem problemas. Mas se por uma caso você for um dos milhões sem esta “regalia”, prepare-se para enfrentar horas e horas de espera em um ER (e nesse “emergency room” o George Clooney nunca fez nem ponta…).

    Minha mulher, em 2002, começou a ter dores no esôfago. Chegando ao famigerado pronto socorro de hospital público, uma sala de espera cheia, abarrotada. Pensei que tinha entrado num portal do “Além da Imaginação” e voltado pro Brasil. Depois de 3 horas esperando, uma mulher ao nosso lado foi chamada. Curioso que sou, perguntei quanto tempo era estava esperando. A resposta não foi nada acalentadora: “estou aqui há 14 horas”. Claro que se o seu cérebro estiver à mostra, provavelmente te atenderiam antes, mas isso é inconcebível para um país como os Estados Unidos.

    Não pudemos esperar mais. Partimos os os para um hospital particular, onde fomos atendidos em meros 40 minutos. O diagnostico foi refluxo de ácido. Deram pra ela um comprimido e uma colherada de antiácidos. Quando recebemos a conta, uma semana depois, vimos que cobraram 50 dólares pelo comprimido e 35 dólares pela colherada. Sem contar mais 400 pelo uso do pronto socorro e 500 do médico. O bom é que te deixam pagar realmente “a perder de vista”, mas o abuso é claro.

    Tenho duas filhas nascidas aqui, então não tenho que me preocupar com elas. Elas têm direito à assistência médica e dentária de graça até os 18 anos de idade. Até os partos foram “na faixa”, coisa de 20 mil dólares cada um. A mais velha, de quase 6 anos, tem refluxo urinário, uma má formação nos uretéres que causa a volta da urina da bexiga em direção dos rins. Nossa, parece algo gravíssimo, né? Se não monitorar sim, mas é algo que se cura sozinho, conforme ela for crescendo essa má formação some. Temos os melhores médicos e hospitais de crianças à nossa disposição. Exames anuais são feitos pra checar a evolução, tudo de graça.

    Esse é o motivo maior que me segura aqui nesse país. Não posso voltar ao Brasil enquanto minha filha não estiver totalmente curada. Não existe possibilidade NENHUMA de voltarmos e deixá-la refém desse sistema porco e desumano daí. Mesmo nesse caso tendo o histórico médico dela pra mostrar para os médicos brasileiros, melhor esperar por aqui mesmo.

    Tentei mostrar pra você os dois lados da moeda do sistema médico daqui. Ou você tem seguro médico, caríssimo por sinal, ou tem que enfrentar filas de espera monumentais.

    E Sandro, abra uma gelada que é puro complexo B, faz bem pra pele, Hehe

    Abraço do Bo Beira, vulgo Fábio.


    ► Melhor que a encomenda! Reitero o convite para participar dos próximos textos e apontar essas diferenças.

    Para nós, que vemos de longe (pelos filmes, telejornais e noticiosos em geral), a impressão que se tem da saúde nos Estados Unidos é mais ou menos essa: o país tem tudo do bom e do melhor (em tecnologia, pesquisas e conhecimento), mas isso só está disponível para quem tem seguro; quem não tem, passa pelas agruras do brasileiro pobre, só que em hospitais mais limpos e melhor aparelhados. Confere?

    O Brasil tem suas diferenças evidentes: saúde pública miserável; hospitais e profissionais de primeiro mundo para a elite; e algo entre um e outro, que é isso que o classe média aqui começou a mostrar. Mas tem também outras diferenças, só percebidas por quem teve a oportunidade de morar em vários lugares diferentes, como eu. Em Brasília, por exemplo, especificamente no Plano Piloto, não dá para comparar os hospitais públicos com os que vemos na maior parte do Brasil. Na área de medicina preventiva, como acompanhamento de gestantes, é preferível ir a um posto de saúde (sempre tem um por perto) que esperar ser atendido em um hospital conveniado a um plano particular. E tem o Hospital Sarah Kubitschek, uma referência mundial no tratamento de vítimas de politraumatismos e problemas locomotores, que é público. Fico arrepiado só de lembrar dos veículos do Sarah rodando pela cidade para pegar e deixar pacientes em casa. Hoje, há unidades do Sarah em outras cidades brasileiras. Espero que consigam seguir o nível de excelência do hospital-mãe.

    Quanto a você, fortaleça as ianquezinhas aí para que elas corram menos risco de precisar de algo quando estiverem aqui. 😉

  5. Caro Sandro,

    Somos exceções, portanto, não estamos nas estatísticas de nada.

    Você é um paciente imaginário. Meu marido é um médico imaginário. Eu sou paciente-mãe, esposa de médico e também sou imaginária.

    A medicina, os atendimentos, os medicamentos, os médicos não foram feitos para nós. Tudo é feito para a uma maioria generalizada. Pacientes generalizam sua a opinião sobre os médicos e os médicos generalizam pacientes e diagnósticos.

    A maior dificuldade nem é o conhecimento técnico, mas a vontade.

    Você acha que existe, nos dias de hoje, o médico que converse com seus pacientes, no intuito de conhecê-lo, de querer bem, que demonstre interesse verdadeiro pelas pessoas, independentemente da sua condição sócio-econômica-político-cultural? Você acredita que ainda possa existir o médico que mesmo atendendo dezenas e dezenas de pacientes diariamente, centenas mensalmente, e ainda assim, possa se lembrar de cada tristeza contada, cada alegria dividida no consultório e ter interesse de saber qual foi o desfecho da história na próxima consulta? Você acredita mesmo que ainda existe o médico que consegue adesão do tratamento de tuberculose por pacientes moradores de rua, sem abandono por 6 meses consecutivos, pelo simples fato de transmitir o desejo genuíno de querer bem?

    Não, médicos assim não existem mais. O médico que eu conheço é imaginário, trata de pacientes imaginários, aqueles não existem pro sistema.

    É triste. Mas, a constatação é que não só na área da saúde, o mundo mudou e os valores nunca mais serão os mesmo.

    Outro dia estive num consultório de um advogado. Ele foi péssimo no atendimento. Não só pela falta de educação, mas pela falta de humanidade, de sensibilidade para o caso. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ele havia sido atendido por esse médico imaginário que citei. O advogado mudou, parecia um anjo, uma seda, mandou recado ao médico, agradeceu muito, disse que nunca fora tão bem atendido, nas palavras dele “um atendimento humanizado, um médico atencioso interessado! Até mandei uma carta ao hospital elogiando”. Na hora eu pensei: ah sim, “igualzinho” ao atendimento que ele (advogado) havia prestado até aquela hora.

    Apesar de bem tratada – depois de tudo -, e de saber que ele iria fazer o maior esforço para tudo dar certo, saí de lá, não é o tipo de profissional que serve pra cuidar de questões humanas. Vou procurar o advogado imaginário pra sempre?

    Beeeijo

    Marina

  6. ginetta disse:

    Me identifiquei bastante cm seu texto e com muitos de seus apontamentos. Tenhos algumas experiências a compartilhar… Meu pai é farmacêutico/bioquímico e pode acreditar lá em casa toda gripe era curada com suco de acerola. Meu pai sempre foi contra ao uso de medicamentos. Hoje me pergunto será que por ele ser profissional da área, ela saberia de algo que a gente não?rsrsr prefiro nem pensar e achar que era coisa dele mesmo! Minhas experiencias mais dramáticas com saúde foi durante esse ano em que meu avô, 94 anos, estava precisando de assistência e não tinha plano de saúde. Eu fiz durante 7 meses uma pequena viagem com ele entre alguns hospitais como Onofre Lopes, Deoclécio Fernandes, e Walfredo Gurgel e não teve um dia que saisse chorando de um deles. Foram momentos de muito sofrimento porque não me senti acolhida em praticamente nenhum deles. Como sou da área da saúde me deparei com erros ridículos e que a todo momento me fazia refletir: ‘que tipo de profissionais estã sendo colocados no mercado?” Lembro que quando meu avô entrou no Onofre Lopes, no começo diziam que meu avô estava mal, chegamos a pensar em cancer.Teve um dia que um médico arrodeado de alunos olhou o raio X do tórax e só fazia balançar a cabeça e eu perguntava: ” o que foi? tem alguma coisa” E ele lá balançando a cabeça e mostrando para os alunos. Naquele dia sai do hospital arrasada porque perguntei: ” o que foi? é alguma coisa que está se espalhando?. O médico respondeu: “tá ruim isso aqui”. Até me pergunto ruim o que meu Deus? Resultado: meu avô tinha entrado lá com um quadro de colite e teve alta após o tratamento com antiobiótico. Ninguém falou mais nada do raioX. Vou encurtar um pouco a história, porque como disse é muita coisa mesmo… mas perto do meu avô falecer passamos um dois piores momentos e isso está documentado em vídeo no meu blog. Esperamos durante 5 horas um médico que estava marcado para chegar as 13 horas da tarde. Chegamos com meu avô lá às 12:30. As 15:00 fui a direção do hospital pdir pelo menos um esclarecimento ou que pelo menos eles dissessem se o médico ia ou não. Infelizmente o médico chegou às 17:30 e por ironia do destino era conhecido do meu avô e amigo de farra do meus pais. (In)felizmenete o procedimento não deu certo e meu avô faleceu 3 dias depois. Sinto falta de um profissional mais humanista, não precisamos ser psicólogo das pessoas, mas o vínculo é primordial em qualquer atendimento. Sei que isso não é só da classe dos médicos, mas como eles muitas vezes são pessoas que ,segundo nós mesmos, “responsável por algum diagnostico”, criamos expectativas demais… Uma pessoa que está aberta a ouvir é um diferencial hoje em dia, respeitar o sujeito e suas diferenças também, dessa forma porque não tratar de forma diferente os diferentes? Não somos obejtos para ser rotulados a todo momento e é isso que aprendemos na vida acadêmica. Os psiquiatras rotulam tanto as pessoas que elas acabam perdendo a própria personalidade e vestindo a camisa da “bouderline” da “bipolar”, muitas dessas pessoas esquecem até do próprio nome e só enxergam a doença, porque e isso que esses profissionais fazem…
    Abraços, desculpa pela extensão, mas acabei sublimando.

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