As árvores da Jundiaí

As árvores da Rua Jundiaí ainda resistem. De certa forma, não existem, pois quase ninguém lhes dá atenção. Mas continuam lá. Somem casas antigas, dando lugar aos prédios – sempre esses malditos –, e muitas árvores vão com elas. As da Jundiaí continuam firmes e soberanas.

A agradável sombra verde da natureza vai se transformando na desagradável sombra do concreto. Até as clínicas médicas da Jundiaí vão recuando diante dessa força. É o bullying dos arranha-céus. Chegam aos bandos, fazendo barulho, se dizendo donos do pedaço, pondo abaixo qualquer disposição contrária. As árvores são os gordinhos dessa história. São as vítimas preferenciais.

Um vendedor de cavaco chinês passa batendo seu triângulo como um profeta a gritar que o fim está próximo. As árvores da Jundiaí testemunham o que ainda hoje parece transgressor para a reacionária Natal: dois homens andando de mãos dadas. De um lugar qualquer, três pessoas se jogam à calçada para ver o acontecimento: um jovem indisfarçavelmente efeminado, talvez admirado com tanto heroísmo; uma senhora em tudo mediana comentando que “Tá vendo?! Eu não disse? Pode sim. É o amor.”; e seu filho, 8 ou 9 anos, sem saber o porquê, já repetindo o sorriso nervoso e os olhos esbugalhados dos outros dois personagens. São tempos de homoafetividade sem medo, mas ainda de vergonhosos comportamentos troglossexuais.

Fiquemos com as árvores, que são mudas, discretas e respeitadoras. A que fica na esquina da Campos Sales sempre ignorou o poder do asfalto que a cerca. Ignora até o trânsito. Já estava ali antes de inventarem rua, calçada, meio-fio, essas civilizices. Parece estar morrendo, mas resolveu ignorar a morte também. Como não encontram solo, seus filhos nascem do seu próprio tronco, que aprendeu a recolher as sementes e fazê-las brotar. Quando outras maldades humanas condenarem seu corpo, outros já estarão se fortalecendo no mesmo lugar. A mãe pode ser cortada, mas a família não sai dali de jeito algum.

As árvores da Jundiaí talvez resistam a tudo e a todos. São enormes e unidas. Literalmente. As que estão em uma calçada se encontram com as que estão do outro lado da rua. Abraçadas em um pacto silencioso de sobrevivência, privam os humanos, seus inimigos, do sol necessário.  Porém, a intenção pode ser outra, pacífica. Podem estar formando um lugar mais agradável, no qual se pode fugir do sol inclemente e de onde quase não se podem ver os prédios tomando conta da cidade.

Eu, prefeito, devolveria o trecho que fica entre a Prudente de Morais e a Campos Sales às árvores da Jundiaí. Elas tomam conta da cidade melhor que qualquer pessoa.

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Uma resposta a As árvores da Jundiaí

  1. Visitante disse:

    O seu artigo mostra claramente que a cidade do Natal foi completamente loteada para o concreto. A cidade perdeu a beleza que possuía, beleza esta que atraía o olhar e a simpatia do visitante. A cidade está transformando-se em um grande paliteiro.

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