Natal – Uma cidade à prova de tsunami

De cidade do “já teve”, Natal passou à cidade do “nem teve”. Na ânsia de se tornar uma potência mundial e chamar atenção de todo o planeta, valeu-se de um ”alerta de tsunami”. Alerta que deve ter sido passado por mensagem direta apenas aos seguidores do Corpo de Bombeiros no Twitter. Moro bem ao lado e garanto que não teve sirene, megafone ou qualquer movimentação fora do normal. Doze horas depois do tremor – nas profundas das profundas do Atlântico, lá onde Aquaman perdeu as boias –, a população finalmente ficou sabendo pela tevê. Se tivesse sido sério, muita gente não estaria viva para ver a notícia. A sorte é que Natal não corre esse risco.

Na Praia dos Artistas, a mais urbana e próxima ao centro, há uma criatura mítica que domina os mares e impede seu avanço sobre a cidade. Não sei de onde surgiu, mas gosto de imaginar que seja um titã enviado por um benevolente Poseidon, que se encantou com a Cidade do Sol ao passar férias nela. Na maré cheia, as águas chegam a seus pés… cauda… à parte inferior do seu corpo. Dali, em sinal de absoluto respeito, não passam.

Basta para mim. Sinto-me protegido por ela. Mas os céticos não contam com providências divinas e resolveram dar seu próprio jeito para impedir uma calamidade vinda do mar. Os ricos – principalmente os novos – construíram enormes prédios à beira-mar. No início, impliquei com aquilo. A cidade ficou mais feia, abafada, perdeu seus contornos naturais. Os prédios funcionam com aquelas exageradas próteses de silicone: em vez de embelezar, deformam e assustam.  Agora, vejo que foi um autossacrifício da classe abastada, preocupada em proteger a província, se preciso, com a própria vida. Que tsunami teria forças para passar daqueles paredões? Quando muito, os faria desabar, mas duvido que conseguisse transpor todo o entulho que se juntaria. Os bairros de Petrópolis e Mãe Luiza estão salvos. Quase toda a cidade está. Se puderem, peço que construam mais prédios, bem ali ao redor da Fortaleza dos Reis Magos. Não à beira, mas dentro do mar, que é para salvar a fortificação histórica e o bairro de Santos Reis.

Alguns lembrarão que não só o titã e os ricos protegem Natal. Na Praia do Meio, Iemanjá também está atenta a tudo que se passa. Não exatamente no mar, porque ela está de costas para ele, mas ao que levam para lá. Um devoto me disse que a divindade não está contente com o que vê, mas, se depender dela, também não rola tsunami. Seria tanto mato e tanto lixo a serem carregados para o oceano que ela nem gosta de pensar. Esse tipo de oferenda, Iemanjá está dispensando.

Nada devemos temer. Estamos protegidos. Amém.

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2 respostas a Natal – Uma cidade à prova de tsunami

  1. wilson disse:

    Pois é, jacaré!
    Em mil e novecentos e bolinhas, tanto falavam das belezas de Natal que eu resolví conhecê-la.
    Problemas urbanos e humanos à parte – aqueles todos que acontecem, acontecerá nestes Brasís de Deus – Amei a Cidade! Tanto que “fiz de conta que ela era o meu Feudo. E eu, oriundo italiano, de sobrenome Natale (Natal), por direitos do coração, tornei-me o “Senhor de Natal.
    E durante anos,nesta São Paulo, acompanhei as notícias desta cidade do sol. E poucas eram as notícias realmente negativas.
    De unstempos para cá, parece-me que tudo de ruim acontece por aí: Escândalos, falcatruas de políticos, desvios imorais do dinheiro públicos. E apaisagem urbana e humana de modificando rápido, nem sempre para melhor. E a mesmice da míséria urbana e humana – que tem solução – mas, que ninguém se empenha em solucionar…
    De repente, um terremoto em pleno oceano tráz a cidade de volta aos noticiários.Alerta! (Que não houve) do perigo – aqui, eu morro de rir – de um “TISSUNAME”. O quê aconteceu com a Língua Portuguesa? Os professores não aprendem mais os sons de tsi, tsu; de cs, cz – como Czar? Tsuname não é tissuname ou tisuname. É sim, SUNAME e não é UM. É UMA, pois significa “onda do porto”. Ou seja: é um RESSACÃO!
    Pois bem: Esse ressacão me fez repensar Natal.
    A cidade vai se distanciando da natureza,vai perdendo a sensação da frequência dos deuses mitológicos gregos e africanos… Iemanjá, vaidosa, com certeza, não vai mais enfiar seu chanel na lama; os filhos de Posseidon-Netuno, os tritões e as Nereidas não mais nadarão em direção à foz do rio.E, nas noites de Lua-cheia, não mais se terá a sensação de ouvir o canto das sereias.
    Olho para os Reis Magos e fica-me uma impressão dúbia: Estão chegando?… Ou estão partindo?
    Chego à conclusão que o meu feudo do coração está sendo engolido por uma suname mais catastrófica. A suname dos interesses escusos e predadores.
    Mas, eu vivo de Esperaça! Então, espero…
    Baci in esta,
    Wilson

  2. Renata Silveira disse:

    Obrigada, Sandro, por me trazer sempre a versão mais lúcida das estórias deste lado daí do Atlãntico 😉 Bjo.

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